O cenário
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segunda-feira, fevereiro 22, 2016
sexta-feira, fevereiro 19, 2016
Alhambra - Alcazaba e Palácios Nasridas
Se começarmos a visita à Alhambra pelo Generalife percorreremos, depois, um trajecto agradável que nos levará até à Alcazaba e aos Palácios Nasridas, o topo da cultura islâmica na Europa. Antes, porém, passamos por partes das muralhas ainda de pé e, em especial, pelo Convento de São Francisco (agora transformado em Parador, o equivalente espanhol das Pousadas de Portugal), pela igreja de Santa María de la Alhambra e pelo Palácio de Carlos V. O convento e a igreja estão hoje no espaço que antes da reconquista ocupava a antiga mesquita da Alhambra e não deixarão grande memória para o futuro do visitante.
Já o Palácio Carlos V é impactante. A sua construção teve início em 1527 e este é um poderoso palácio renascentista. Ou seria um poderoso palácio renascentista não se desse o caso de estar lado a lado com os palácios nasridas (existe mesmo uma ligação interior entre eles) e qualquer pessoa esperar visitar outra arquitectura que não esta. Sim. Não há que recear as palavras - este edifício pode ser belo mas está aqui completamente deslocado. Ainda assim, vale a visita se não ao seu Museu Nacional de Arte Hispano-Muçulmana (o qual reúne objectos achados nas imediações) pelo menos ao seu claustro surpreendentemente circular.
Depois de seguirmos pela Puerta del Vino, junto ao Palácio de Carlos V, teremos acesso à Alcazaba e aos Palácios Nasridas.
A Alcazaba é a parte mais antiga do complexo da Alhambra, uma estrutura defensiva cuja construção teve início logo com a instalação da dinastia nasrida na região. Esta viria mais tarde a incluir a mesquita e palácios.
A entrada nos Palácios Nasridas é efectuada pelo Palácio Mexuar, depois de passarmos pelo pátio Machuca. O Mexuar é uma espécie de antecâmara do que virá depois. Esta era a sala do conselho dos muçulmanos e cenário de festas. A sala que é hoje a entrada para a antiga residência dos sultões seduz pelas suas quatro colunas em mármore que sustentam a abóbada revestida em estuque e o tecto forrado a madeira.
Os pormenores murais com mosaicos com decoração geométrica têm desde logo aqui o início da sua presença que se revelará constante ao longo da visita pelos demais espaços dos palácios. Tal como o uso da caligrafia como decoração.
Segue-se o Cuarto Dorado - espaço mínimo, intimista, feito de um pátio com uma fonte, três degraus que preparam a chegada a uma parede imensamente bela, toda coberta por filigranas de estuque dourado, cinco deliciosas janelas que se abrem altaneiras, duas portas cujos caixilhos são envolvidos por azulejos e mosaicos na banda inferior. Não poderia haver lugar mais intenso, pleno de encantamento, para preparar a entrada no complexo dos palácios.
Ainda não refeitas de tanta delicadeza - na Alhambra nunca o estaremos - entramos no Patio de los Arrayanes (parte daquele que é conhecido como Palácio de Comares, residência oficial do sultão). O nome deve-se aos arbustos de murta podados que acompanham as laterais da piscina rectangular. É impossível não nos deliciarmos com os reflexos dos pavilhões que brincam na água da piscina. Aliás, a água aqui desempenha uma outra função para além das já focadas, igualmente elevada, a de reflexo, o qual significa a impermanência das coisas materiais - por isso há quem diga que a Alhambra foi feita por e para intelectuais dados a preocupações místicas.
Neste pátio as fachadas laterais possuem janelas e arcos simples e os pavilhões de cada um dos topos colunas de mármore branco que suportam uns arcos elegantes. Há que estar atenta a todos os pormenores, à decoração mourisca em estuque, ao trabalho em filigrana que contorna as portas e janelas, aos mosaicos e às inscrições em cima dos mosaicos.
O uso do mosaico é uma arte decorativa com origem na arte islâmica vinda do Próximo Oriente e do norte de África e da corte Nasrida acabou por se espalhar para toda a Península Ibérica. O colorido é evidente, luminoso e radiante, sempre com padrões geométricos.
Já a caligrafia árabe, parte da arquitectura e arte islâmica, manifesta-se em inscrições de três tipos: versículos do Corão, ditos tradicionais religiosos e poemas louvando Deus e os construtores da Alhambra. Juntamente com os arabescos florais e os ornamentos geométricos, a caligrafia é graciosa e dá ao conjunto uma extravagante fantasia. Ao mesmo tempo, porém, o movimento rítmico da caligrafia confere-lhe uma harmonia absoluta.
O recurso a estes elementos abstratos - motivos florais e geométricos - deve-se ao facto de no mundo islâmico ser proibida a representação figurativa. As flores, folhas e trepadeiras e os quadrados, losangos e estrelas, combinados ou entrelaçados, resultam num rendilhado requintado e encantador capaz de nos transportar para uma outra dimensão e despertar em nós uma imaginação que desconhecíamos ser possuidores. Na descrição do Patio de los Arrayanes, por exemplo, Washington Irving deixou discorrer a pena sobre histórias de sultões, vizires, princesas, todos eles seres apaixonados e contemplativos.
Para lá deste Patio, o chamado Palácio dos Comares possui a Sala de los Embajadores. Os arcos esmagam-nos com tanta decoração e perfeição e há ainda que perscrutar o tecto em madeira com embutidos. Já ao nível dos nossos olhos voltamos a observar os detalhes em cima dos mosaicos com inscrições que nos revelam que "Apenas Alá é vencedor", para além de inscrições poéticas. Esta Sala de los Embajadores funciona ainda como miradouro, com vistas fantásticas do rio Darro e do bairro Albaicin através de janelinhas rendilhadas.
Se o tema da água jogou no pátio, agora aqui jogam os temas da luz e das sombras. Exterior / interior; pátios / miradouros. A interligação entre eles é total, demostrando um uso flexível dos espaços (e não só nesta sala). A decoração intensa nesta sala de paredes altas faz todo o sentido, uma vez que era aqui que se desenrolavam as recepções de estado, havendo que recordar que era a diplomacia e não a guerra o substracto da dinastia Nasrida.
Já aqui usamos quase todos os adjectivos superlativos possíveis e ainda não chegámos ao Patio de los Leones, cujo cartão de visita anuncia ser o topo do topo da arquitectura Nasrida. Poderá ele surpreender-nos ainda mais?
Sim, surpreende. O seu brilhantismo é ainda maior. A sua perfeição, graça e beleza conjugam-se para nos oferecer o espaço mais harmonioso de toda a Alhambra. A geometria, simetria e sentido de proporção são absolutas. O pátio de forma rectangular é rodeado de colunas e arcos, com duas espécies de pequenos "tronos" de cada lado que mais parecem casinhas de bonecas rendilhadas, enquanto que ao centro fica a fonte sustentada pelos doze leões, cartão postal primeiro da Alhambra. Os leões simbolizam o sol e a vida. Das suas bocas corre a água em direcção aos quatro pontos cardeais. A água a correr, sempre o elemento água presente. Aqui procura-se representar os quatro rios do paraíso através de quatro finos cursos de água, cada um deles correndo para cada um dos lados do pátio. A intenção é a de que este seja um jardim divino. Mais uma vez, a influência dos jardins persas é evidente, nomeadamente pela característica do chahar bagh (o jardim de quatro partes). Houve quem dissesse que o Patio de los Leones seria a versão moura de uma vila rural no meio da cidade; outros há que preferiram compará-lo ao jardim zen. O certo é que este delicado pátio despertará em nós um estado de bucolismo e contemplação que só pode resultar num sentimento intimista absoluto.
Ao redor do Patio de los Leones ficam salas de um luxo imparável.
Já dissemos que os jardins e os pátios são extensões exteriores dos edifícios e tanta beleza exterior não pode deixar de ser acompanhada por uma igual beleza interior. Assim é, em especial a Sala de los Abencerrajes com a sua imponente cúpula em forma de estrela com pequenas janelas e muqarnas embutidas. A perfeição não tem fim, seja através da solução para que a luz penetre num quarto interior escuro, seja através da estupenda e original decoração.
A Sala de las Dos Hermanas (após contorno da Sala de los Reyes, fechada para restauro na altura da nossa visita) possui igualmente uma cúpula fantástica, mas o fulgurante trabalho artístico parece atingir aqui o pleno na decoração das paredes e na sucessão de janelas e arcos debruçados para o jardim de Lindaraja.
A continuação do percurso faz-nos passar pelo Miradouro de Daraxa, com mais uma vista privilegiada para o Albaicin. As habitações privadas ficavam por aqui e foi por aqui também que Washington Irving se deixou estar a escrever o seu Tales of Alhambra em 1829. Não admira a sua inspiração tal a exaltação dos sentidos que se vive na Alhambra.
A visita aos Palácios Nasridas terminaria com o Palácio do Partal, o mais antigo, mas não passámos por ele. Este é mais um dos postais da cidadela, com a sua majestosa Torre de las Damas à beira da piscina e as montanhas atrás a completar o cenário.
À saída dos Palácios Nasridas os espaços aprazíveis continuam, jardins, fontes, sempre a água a correr solta.
E, por fim, não é que haja quem queira deixar a Alhambra, mas podemos tomar a Puerta de la Justicia para retornar ao centro de Granada, numa agradável e curta caminhada pelo Bosque de la Alhambra até chegarmos à Plaza Nueva.
A continuación...
quarta-feira, fevereiro 17, 2016
Alhambra - Generalife
O nosso percurso à Alhambra teve início pelo Generalife, o jardim do arquitecto ou jardim dos sublimes (Jinnah al' Arif). A preocupação de fazer deste um lugar perfeito é evidente e totalmente alcançada. O paraíso na terra é aqui.
O Generalife, construído entre 1302 e 1309 (sendo hoje, porém, praticamente uma recriação dessa época, tantas são as alterações e inovações, embora conservando as ideias do jardim islâmico / persa), era a residência de verão dos sultões e estava para além dos limites da Alhambra dos palácios, sendo por isso vedada a sua entrada senão ao sultão e sua família.
Logo à entrada vêmo-nos envolvidas pelo jardim dos ciprestes e não é difícil imaginar os sultões e as suas princesas a deambularem por ali, contemplando todo o vale que se nos abre.
As árvores podem dominar, sim, mas é o conjunto delicado de pátios, piscinas e fontes que nos encanta.
Os edifícios - pavilhões - estão aqui plenamente integrados com a natureza, quer através das árvores e arbustos, mas também pelas janelas rasgadas a fazer de miradouros e os contrastes entre o calor e o frio.
Mas é o uso da água a correr a sua marca distintiva - uma constante em todo o espaço imenso da Alhambra (e até nos espaços exteriores à Alhambra). Contemplar a água a correr pelos belos canais apazigua a alma e prestarmo-nos a sentir o som da água é toda uma forma de arte. A tranquilidade e a serenidade parecem fáceis de alcançar por aqui e não é difícil acreditar no paraíso, esteja ou não conforme o descrito no Corão.
Os muçulmanos acreditavam nesta forma de paraíso, feita de árvores de fruto, crisântemos, lilases, magnólias e buganvílias, todas criando uma paisagem luxuriante e uma fragrância especial, que juntamente com a água iria servir de contraposição ao deserto das suas origens. Mesmo nos meses mais quentes do ano, é possível encontrar sombras e a brisa acaba por correr refrescante.
O Generalife é um dos exemplos mais antigos de jardins islâmicos que ainda sobrevivem. Todas as características dos jardins persas estão aqui presentes (como veremos em post futuro acerca dos jardins persas).
domingo, fevereiro 14, 2016
Alhambra
A Alhambra é dada a todos os superlativos.
Descrições enormes, inspiradas e inspiradoras foram-lhe dedicadas.
Paraíso não é palavra vã em Alhambra. Se o paraíso existe, não deve ser muito diferente do que se sente por lá.
Palácio, fortaleza, jardim - Alhambra é todos eles e muito mais.
Muitas estórias e histórias podem ser contadas e vividas, mas esta última começa antes mesmo da chegada da dinastia Nasrida a Granada.
No sítio da Alhambra havia já uma fortaleza construída pelos antigos sultões. A fortaleza evoluiu para cidadela com a queda de Córdoba em 1236, mas foi com os nasridas que nesse século e no seguinte a Alhambra se tornou num complexo de fortaleza e palácios e começou a entrar na consciência e tocar fundo as emoções de todos nós que tivemos a oportunidade de lá cair.
O nome deste que é o maior palácio medieval islâmico que perdurou até aos nossos dias - Qalat al-Hamra - significa castelo vermelho. Construída numa colina por entre as planícies férteis que ficam no sopé da Serra Nevada, de quase qualquer ponto da cidade de Granada se avista a Alhambra e a sua característica forma de navio, dominando na paisagem a Alcazaba, a sua parte mais antiga. A dura forma de fortaleza (era primeiramente uma estrutura militar que procurava garantir a segurança do conjunto, donde se alcançava uma visão estratégica de Granada e de toda a região envolvente), não deixa antever o esplendor e a beleza interiores da cidade palácio. Entre muros encontramos a alcáçova, vários palácios, casas, banhos, jardins, piscinas, fontes, árvores (mais uma igreja, dois hotéis e lojas). Os seus jardins, sobretudo, são uma recriação certeira do paraíso na terra.
Em resumo, delicadeza, harmonia e elegância é do que se trata, tendo a arquitectura Nasrida elevado estes adjectivos a padrões inimagináveis. E serenidade também, apesar da obrigatoriedade de dividirmos o espaço com os magotes de turistas como nós. Parece que tivemos sorte e naquele último dia de 2015 não era assim tão grande a enchente e o tempo de inverno estava primaveril (isto para compensar a chuvada que caia na primeira vez que a visitámos).
Nos dias de hoje a Alhambra é o resultado dos contributos dos vários povos que a ocuparam e a foram alterando durante os tempos (a este propósito, numa visita à Alhambra há sempre qualquer espaço em restauro). Começou a ganhar proeminência a partir de 1238 com emirado Nasrid, que se instalou em Granada na sequência e em agradecimento pela ajuda prestada aos cristãos na tomada de Sevilha aos mouros (sim, os nasridas também eram mouros, mas rivais dos outros mouros). Depois de 1492 os castelhanos, após a reconquista de Granada aos mouros que restavam na Península Ibérica, procederam a uma série de alterações e acrescentos, de que é exemplo o palácio renascentista de Carlos V.
Mas uma inversão no desenvolvimento da região acabou por votar a Alhambra ao abandono, tendo sido até utilizada como caserna pelas tropas de Napoleão durante as Invasões Francesas, e só no século XIX voltaria a ser "descoberta", cortesia dos escritores românticos, de que Washington Irving (com o seu Tales of Alhambra) é o nome mais pronunciado.
"Desmoronam-se salões e pátios, deterioram-se quadros e pinturas, mas, apesar do espectáculo desolador, a Alhambra não perdeu a magnificência e o esplendor, fazendo soar as cordas ocultas do visitante", escreveu Irving acerca da Alhambra, que para ele é sinónimo de poesia e romance.
Graças também a ele, hoje podemos visitar a Alhambra monumental e deliciar-nos com o génio, talento e gosto superior dos nossos antepassados mouros.
Lugar do poder político, mas também lugar de prazer para os sultões, a Alhambra é um misto de força e graciosidade.
Uma pergunta, porém, seguindo Lorca: ao ter-se perdido uma civilização dedicada à arquitectura e poética delicadas, será esta uma gloriosa vitória dos espanhóis, como ensina a história?
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