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segunda-feira, setembro 04, 2017
Festival Roupas a Secar - Shàiyī Jié
Mas Longji não se trata só de terraços de arroz e paisagem. As suas aldeias históricas trazem consigo as fortes tradições culturais associadas às suas minorias étnicas. Se em Ping'an é a etnia zhuang que domina, em Dazhai são os Yao que dão colorido à terra. E que colorido.
Por altura da nossa visita tivemos a felicidade de assistir ao Shàiyī Jié, o Festival das Roupas a Secar. No sexto dia do sexto mês lunar, que este ano calhou na sexta-feira, dia 28 de Julho, as mulheres yao, conhecidas pelos seus longos cabelos que nunca são cortados, vestem as suas roupas tradicionais e colocam-nas ao sol, nas varandas, às janelas ou na rua, a secar. A aldeia fica com um colorido imenso e fantástico.
O propósito é o de que o sol desinfecte e purifique as suas roupas.
Esta tribo yao é parte da minoria étnica de mesmo nome que tem cerca de 2 milhões de indivíduos estabelecidos sobretudo no sul da China, mas também na Tailândia, Vietname e Laos.
As meninas yao de Dazhai, em especial, saem todas à rua e mostram-nos as suas roupas cheias de adereços, como cintos, bainhas, colares e acessórios de prata. Reúnem-se em círculo ao redor da praça principal e mostram-nos as suas habilidades ao tear, bordando as roupas vistosas que depois haveremos de ver desfilar nos seus corpos.
Os homens, por seu lado, atiram-se ao estreito rio vestidos nas suas roupas escuras pescando os peixes com as suas próprias mãos, uma mostra de virilidade para o delírio total das massas.
Não podia haver melhor forma para nos despedirmos da China.
domingo, setembro 03, 2017
Terraços de Longji
E, enfim, para o final da viagem pelo sul da China que se pretendia rural calhou-nos uma vaga ideia de ruralidade e de remoto.
Os terraços de arroz de Longji estão a 90 km de autocarro de Guilin mas a todo um mundo de distância. São mais de duas horas num caminho maioritariamente ziguezagueante e de tirar o fôlego; pelas paisagens fabulosas, sim, mas também pelas curvas apertadas numa estrada estreita que deixa ver as ribanceiras demasiado próximas.
Esta área ficou completamente fora dos radares do turismo até aos anos 90, altura em que fotografias dos seus terraços atraíram as atenções do mundo.
O sítio é extremamente fotogénico, mas é igualmente uma ode ao espírito criador e ao engenho do Homem. Ao longo de cerca de 60 km os chineses têm hoje, num processo que teve o seu início no século XIII, durante a dinastia Yuan, um complexo e completo método de irrigação que faz um óptimo uso da escassa área arável e deste declivoso terreno montanhoso. E, assim, conseguem plantar arroz num local muito improvável.
Longji significa literalmente "espinha do dragão". É isso mesmo que o recorte dos terraços alcandorados na montanha faz lembrar. A imaginação dos chineses para nomes sugestivos é um mimo e aqui funciona na perfeição. Eis alguns dos nomes dos lugares a visitar: "música do paraíso", "mil camadas para o céu", "nove dragões e cinco tigres".
Normalmente, quem visita os terraços de Longji opta por pernoitar numa de três aldeias: Ping'an, Dazhai ou Tiantou.
Ficámos com esta última.
Saímos no autocarro em Dazhai e caminhamos cerca de meia-hora até ao nosso inn, logo começando a sentir a força do cenário. Dependendo da época do ano em que se visita estes terraços de arroz, as cores serão diferentes. A seguir à época de chuva de Maio os terraços estão verdes e, por isso, Julho é uma das melhores alturas para se visitar. Claro que os fã das tonalidades amarelas não concordarão e os amantes do gelo ainda menos. De qualquer forma, esta época é preciosa para se entender a importância da água na dinâmica da cultura do arroz. A água vai escorrendo pelos vários andares e as plataformas têm de estar permanentemente com água em abundância. Caminhamos tão perto dos terraços, mesmo dentro dos terraços - com cuidado para não estragar o trabalho dos agricultores - que nos apercebemos destes pormenores.
O arroz e a forma como é cultivado em terraços é rei e um monumento que vale bem a pena qualquer desvio na viagem. Mas a paisagem que o acompanha é deslumbrante. Existem diversos pontos de observação e quanto mais elevados mais soberbo o ponto de vista que abraça toda a região.
O turismo não abunda por aqui, pelo que é fácil sentirmo-nos em sossego e em paz com a vida num lugar como este. Fosse tudo tão simples assim.
Só há três coisas a fazer por aqui: caminhar, sentar nesta espécie de anfiteatros e tirar fotografias. E, à noite, uma quarta: olhar as estrelas. Tantas e tão belas, a provar que na China o céu também ainda pode ser limpo, limpo.
A aldeia de Tiantou é apenas um ponto na paisagem, perdida nos socalcos montanhosos. Está preparada para receber os turistas e recebe-os com simpatia.
A aldeia de Dazhai não é muito diferente, mas é maior e com mais infraestruturas. Em ambas a arquitectura típica são as casas de madeira clara com telhados escuros. Ruas não existem propriamente, antes caminhos. As mulheres das aldeias possuem rostos duros e marcados, de idade indefinida. 30 anos ou 60 anos? Toda uma vida a separá-las, mas nunca saberemos. Curiosamente, são elas que desempenham o papel de carregar às costas as malas e outra carga dos turistas "cansados". Não os homens da aldeia.
sexta-feira, setembro 01, 2017
Yangshuo
A chegada a Yangshuo tem obrigatoriamente de ser feita por rio.
Só assim se preenche a alma.
A ideia de que o cenário da região de Guilin se resume a colinas e rios é mais forte do que nunca em Yangshuo. Por aqui nunca estamos longe demais de um rio e, bem, é mesmo impossível deixarmos de avistar uma qualquer elevação. Na verdade, elas são tantas e tão majestosas, que dir-se-ia que é impossível não nos deixarmos perder entre pináculos.
Embebidas naquela floresta de pura beleza, não exageradamente considerado um dos mais belos cenários do mundo, o mais feliz é sentar junto ao rio e ficar a contemplar a paisagem.
Diante de nós temos, ao mesmo tempo, um pedaço de tranquilidade e de caos num equilíbrio perfeito.
Receio que o centro de Yangshuo seja como o centro de Guilin, um ajuntamento de feios edifícios construídos pelo Homem rodeado por belas colinas criadas pela Natureza.
Porém, as cores do final do dia, em especial vistas da Colina Xilang, no Parque Yangshuo, tornam este conjunto uma enorme obra-prima. Que bela joint venture!
Infelizmente, aquando da nossa visita derrocadas recentes fecharam o Pico do Lotus Verde, um dos pontos mais concorridos e vista privilegiada de Yangshuo para o rio Li, pelo que não tivemos oportunidade de o "escalar". Ficámo-nos pela vista desde a promenade de Yangshuo, observando o movimento do ferry que cruza as curtas margens, os meninos que tomam banho nus, os barcos de bambu que por ali vagueiam. De repente vem-me à ideia um reputado nadador chinês, Mao. Será que Mao, que tanto gostava de nadar em rios, será que Mao também nadou no rio Li?
A pequena cidade é movimentada de dia e de noite, com lojas e mercados de rua e bares e restaurantes. Não era essa, porém, a nossa ideia de programa para Yangshuo e até ficámos alojadas na outra margem do rio. Nas redondezas do centro da cidade vêem-se vários hotéis, alguns deles designados "retreat", e passar alguns dias por aqui, nesta paisagem lírica, retempera qualquer um.
A melhor forma de se explorar os arredores de Yangshuo é fazê-lo de bicicleta. Sem ela não se conhece verdadeiramente a floresta de pináculos de calcário de Yangshuo. Um passeio para um dia completo é sair de Yangshuo de manhã cedo e rumar até à Colina da Lua e daí até à Ponte do Dragão e voltar, num percurso quase circular. São cerca de 30 / 40 km.
Até chegar à Colina da Lua passamos ainda pela enorme árvore Banyan que, diz-se, terá cerca de 1500 anos e 17 metros de altura e muitas ramificações.
A Colina da Lua é um dos símbolos de Yangshuo. A subida até lá não é fácil, mas após muitas centenas de degraus ganha-se (mais) uma vista soberba para as erupções rochosas descontroladas da paisagem fabulosa da região. E a novidade deste lugar é uma cave, como o nome o indica, em forma de lua. Mais uma oferta rara e inesperada da natureza.
Da Colina da Lua regressamos até ao cruzamento do rio Yulong e desta vez seguimo-lo. Este é um afluente do rio Li e nas suas águas barrentas pululam os chamados "bamboo rafting", os tronquinhos de bambu a fazer de embarcação para os turistas descerem o rio.
É possível fazer o percurso de bicicleta acompanhando as curvas do rio mesmo ali ao lado.
Percebe-se claramente o porquê de tantos barcos feitos de bambu: as suas árvores dominam a paisagem.
Os arrozais também fazem parte da paisagem. O cenário aqui é dos mais luxuriantes e magnificentes.
E é aqui, também, onde se pode observar cenas rurais, embora não tivéssemos tido a felicidade de testemunhar muitas delas, com excepção de um ou outro camponês a caminho do trabalho e um ou outro búfalo em pousio do calor.
Quanto à cena típica de Yangshuo do senhor do pássaro, só mesmo para turista tirar foto e nós não estivemos para isso.
Imperdível, imperdível, por mais turístico que se possa achar que o é, é o espectáculo Liu San Jie, - Impressions. Dirigido por Zhang Yimou, que já tinha sido responsável pela Cerimónia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim de 2008 e é um dos mais celebrados realizadores da China, este é um espectáculo de dança, luz e som que utiliza as montanhas e o rio como cenário natural. E que cenário soberbo este é. Num imenso teatro ao ar livre, todos os dias desde 2004 têm sido apresentados dois shows nocturnos com efeitos especiais onde participam cerca de 600 figurantes - parece que toda a cidade participa. Este espectáculo mostra-nos (dai o nome "impressões") a vida das pessoas à volta do rio Li, nomeadamente a sua relação com o rio, os seus costumes, seu vestuário, sua música, sem esquecer as diversas minorias étnicas que por aqui habitam. O horário do nosso show apanhou o final da tarde, pelo que vimos ainda as montanhas de calcário debruçadas sobre o Li de dia e tivemos direito à mudança das cores de forma natural e, depois, de forma artística. Noite imensa.
E interessante, também, para nos apercebermos como é tão diferente a maneira de viver um espectáculo por parte dos chineses e dos europeus. Eles em constante conversa e saindo rapidamente ao final do espectáculo; nós em silêncio e aplaudindo ao final como sinal de emoção e agradecimento pelo momento que os seus nos ofereceram.
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