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sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Urban Sketchers em Lisboa - Desenhando a Cidade


Na mesma linha do "Diários de Viagem 2 - Desenhadores Viajantes" ia o antecedente "Urban Sketchers em Lisboa - desenhando a cidade", publicado pelos Urban Sketchers em 2012: o desenho num diário gráfico é "um antídoto perfeito contra o stress e, provavelmente, a melhor maneira de tirar o máximo partido da experiência de viajar", escreve Gabi Campanario na sua Introdução.

Este livro foi publicado na sequência do Simpósio Internacional sobre desenho urbano que trouxe a Lisboa mais de 200 desenhadores de todas as partes do mundo. Um sketchcrawl, uma maratona de desenho que colocou estes artistas pelas praças e ruas a desenharem a nossa cidade em diferentes exercícios enquadrados em vários workshops.

Assim, tendo como guião diversos princípios e ideias - como a de que o desenho manual é uma forma de estimular o pensamento criativo, a de que existe uma nostalgia pelo autêntico e pelo feito à mão, de que tal aumenta a espontaneidade, de que o desenho in situ aumenta a capacidade do designer para ver e pensar criativamente e, sobretudo, de que converter uma paisagem em linhas, tons e texturas permite transmitir, de maneiras que a fotografia não possibilita, a essência visual de uma cena e a nossa reacção a ela - esses workshops passaram, entre outros, pelos seguintes locais:

No Cais do Sodré procurou-se praticar o registo gráfico dos movimentos da agitação de pessoas e veículos. 

No Largo de São Carlos o jogo de planos. 

No Largo de São Paulo exercícios de observação e acção de desenhar, como desenhar o transitório, escolher e desenhar um tema. 


Na Rua da Bica exploraram-se as suas características declivosas que causam um contraste provocado pelas sucessivas alterações do horizonte, bem como variações de luz e contrastes cromáticos entre o amarelo do ascensor, o azul do Tejo e as cores neutras da arquitectura. Principalmente, o contraste da rua inclinada e da cor amarela do elevador.

No Adamastor fez-se valer o local - miradouro - privilegiado para se observar o rio, o casario, as gentes que para lá confluem (turistas e autóctones) e Almada, o começo do Sul do país.


No Largo Luís de Camões procurou-se apreender o espírito do lugar e fixar os detalhes no desenho.

Em resumo, e como conclusão, este processo de desenho é excelente para se desvendar um local, vê-lo com outros olhos, descobrir nele pormenores antes nunca detectados. Possibilita, assim, uma redescoberta de locais que não nos eram de todo estranhos. Mas, mais importante do que o desenho em si é aquilo que envolve a sua produção - a atenção posta no acto de desenhar com as nossas percepções e impressões visuais. A final, com o mesmo universo e motivações semelhantes - o desenho - as sensações que cada um expressa para o papel são diversas. 
Como resultado, eis que temos um livro que nos dá a ver Lisboa como nunca a tínhamos visto.

terça-feira, fevereiro 17, 2015

Diários de Viagem 2 - Desenhadores Viajantes

Diz Urumo, na introdução aos seus desenhos da Viagem a Mundaka (País Basco, Espanha): "Rabindranath Tagore dizia que "quanto mais intensa for a imaginação, menos imaginários são os resultados"".

O livro Diários de Viagem 2 - Desenhadores Viajantes, editado por Eduardo Salavisa no final de 2014, mostra-nos uma outra forma de relatos de viagem e sua documentação gráfica. Em vez da mais usual (banal até para alguns dos participantes nesta obra) câmara fotográfica como companheira de passeio, vêm os cadernos. Em vez do apressado clique ao monumento por todos reconhecido, fica a pacata contemplação, de preferência sentado, de qualquer coisa que rodeie estes desenhadores viajantes - até pode ser o mesmíssimo monumento por todos reconhecido.
Quase todos os autores que aqui deixaram o seu testemunho, que antecede os seus desenhos, confluem numa mesma ideia: a de liberdade de expressão, a qual permite uma maior atenção aos detalhes, uma maior aprendizagem, enfim, "uma nova personalidade a cada viagem", como refere o citado Urumo.

Com prefácio de Alexandra Lucas Coelho, desenhos de Siza Vieira da Viagem ao Machu Picchu e de Miquel Barceló da Viagem ao Sudão, tudo o que vier a mais parece ganho. E é. Todos os contributos são especiais, diferentes e acrescentam sempre algo.


Obviamente, por razões que tocam à nostalgia de viagens passadas, não pude deixar de me encantar desalmadamente com os desenhos de Eduardo Salavisa da sua Viagem à Patagónia porque, precisamente, me recordaram a minha, em especial o tempo passado em Puerto Montt e nas vizinhas ilhas de Chiloé com as suas igrejas tão típicas. 


Ao mesmo tempo, segui atentamente o relato de António José Coelho aos Himalaias e quase que junto com os seus companheiros me preocupei com a sua súbita apendicite enquanto sentia a mudança do seu traço à medida que o oxigênio em desmesuradas altitudes ia rareando. 


Já a viagem de Luis Simões à Mongólia transportou-me para terras distantes e a experiência que o desenhador aí teve e nos relata e dá a ver - seguir os dias e noites no deserto com a companhia de tendas que parecem não ser desafio para o clima esmagador - é uma daquelas que nos dá  vontade de largar tudo e fazer como o Luís - percorrer os próximos 5 anos pelos 5 continentes.

Talvez seja esta a viagem presente neste livro mais próxima de ir ao encontro de experiências diferentes, tão caro ao blablabla que começa a ficar tão estafado como o é a tentativa de distinguir turistas de viajantes. Muitos destes autores reclamam a arte de viajar desenhando e não fotografando como mais próxima do verdadeiro sentimento e de se atingir uma mais plena comunhão e conhecimento do outro (para além de ser uma excelente maneira de se ocupar o tempo, nomeadamente em aeroportos e comboios, e entabular conversa com o outro pela curiosidade que desperta ver alguém desenhar). Sim, é certo que para se elaborar um destes desenhos há que permitir-se ter outro tempo e outra atenção aos detalhes e que, por vezes, o mais interessante não está na Torre Eiffel, mas nas pessoas que por lá caminham ou pelos pássaros que a sobrevoam. Dizer, no entanto, que Paris não está presente nestes Diários de Viagem, mas estão Londres e Nova Iorque e com elas a cabine telefónica vermelha e o Big Ben, por um lado, e o hambúrguer e o Empire State Building, por outro. Mas estão também Marrocos, Mauritânia, Angola e Moçambique - África em força - para além de Vietname, Camboja e Alentejo, entre muitas outras.


Ou seja, há espaço para tudo, há tempo para tudo, tudo é válido. O que interessa é passear e captar detalhes que outros não viram, ou porque não observaram da mesma forma ou porque não imaginaram com tanta intensidade. 

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Que há em Roma para ver?

"Que há em Roma para ver que outros ainda não tenham visto? Que há para tocar que outros ainda não tenham tocado? Que há para sentir, aprender, ouvir, saber, que me possa deleitar antes que os outros saibam? Que posso descobrir? Nada. Nada de nada. Aqui sucumbe um dos encantos da viagem."
Mark Twain, "Viagem dos Inocentes", publicado em 1869

terça-feira, fevereiro 03, 2015

Alcatrão, Luís Brito


Alcatrão, publicado pela editora Abysmo, em 2013, é um relato pessoal de estadias e viagens de Luís Brito por vários cantos do mundo.
De entrada, já em casa de volta dos seus périplos, diz logo ao que vem: "Caminhar, poder andar a pé, é um privilégio e não um sacrifício".
Este não é um livro de viagens comum. Não há descrição das paisagens e dos sítios, mas abundam as descrições do outro que se vai encontrando pelo caminho e com quem se vai partilhando experiências, rituais e aventuras. 
Há uma constante procura do brincar com as palavras e produzir textos de inspiração pessoal. "Porque é que fico tão feliz quando me faço de sem abrigo?" - mostra a simplicidade que coloca no acto de viajar. "Se a vida é um negócio, eu estou a ganhar. Recebo tanto e pago tão pouco." - o optimismo sempre presente. "De tanto conhecer homens e mulheres diferentes de mim, de tanto ver neles espelhos novos, de tanto me espelhar e reflectir, noto agora como me vou despersonalizando, me vou esvaziando aos poucos dos meus caprichos e me vou tornando numa espécie de espião, que vê muito, vê sempre, mas participa pouco" - o eu tornado outro.
Entre tantas histórias caseiras vividas e contadas recordo, porque não me é também estranha, a dos caminhos-de-ferro na Índia. "Quem vem à Índia passa a ver com outros olhos os caminhos-de-ferro. Porque aqui eles parecem caminhos de ferrugem: os comboios não chegam a horas ou partem antes da hora, às vezes não param onde prometeram e os bilhetes, mesmo se adquiridos nas bilheteiras oficiais, podem ser falsos, por terem sido vendidos a turistas ingénuos. As estações são assustadoramente caóticas. Casas para uns ou leito de morte para outros, ou ponto de passagem de um povo que não pára no mesmo sítio, sempre a visitar familiares distantes, sempre a fazer negócio e a fazer pela vida." 
Recordo ainda os postais "chorir", leia-se, chorar a rir, também da Índia.
Mas não é a Índia a monopolizadora das histórias. Encontramos muito alcatrão pisado e vivido na Argentina e Chile, voluntariado em Moçambique, pedaladas na Turquia e o surf em background na Indonésia.
Em resumo, uma série de experiências vividas em conjunto com os indivíduos dos locais visitados, possibilitando um melhor conhecimento da psique local, tornadas histórias que nos são relatadas com uma intimidade que nos torna, a nós leitores, cúmplices destes caminhos percorridos. 
Obrigada por esta procura de si próprio, Luís.

terça-feira, novembro 18, 2014

Deambulações


Livro novo acabado de ser apresentado no fim de Outubro no Festival de Cinema SAL (Surf at Lisbon), Deambulações, de Bruno Garrudo, faz-nos, sobretudo, sonhar. 
O surfista, viajante, artista, fotógrafo, mostra-nos o seu trabalho quase independente, sem recorrer a uma editora, resultado das suas viagens solitárias em lugares que não nos é dito directamente onde são, mas que desconfiamos onde sejam. Lugares junto ao mar, onde ficam as desejadas ondas, mas lugares onde habitam também pessoas e mitos. Os poucos textos que anunciam as muitas fotografias são precisos e belos, quase poéticos, enlaçando-nos no sonho que ao folhear o livro se torna comum. As fotografias, essas, não são de surf, embora as ondas estejam muito presentes, são antes de vida. Uma vida que existe ainda primitiva, no sentido de que o que vemos nos transporta para uma busca das nossas origens. 
Se o que se busca num livro é a sua capacidade para nos deixar imaginar, fluir, criar personagens, então estas Deambulações são perfeitas. 

domingo, outubro 19, 2014

A Dragon Apparent


Norman Lewis foi um jornalista britânico que, entre outros, escreveu uns quantos livros de viagem acerca de diversas regiões do mundo.
Elogiado pelos seus pares durante a sua longa vida (morreu em 2003 com 95 anos) - Graham Greene considerou-o mesmo um dos escritores do século -, até à presente data dele li "A Dragon Apparent - Travels in Cambodia, Laos and Vietnam", publicado em 1951, uma das suas primeiras obras. 
Não tendo a pretensão de conhecer de lés a lés todos estes três países, o certo é que conheço alguma coisa de todos eles - e todos eles me fascinaram e fascinam - pelo que pensei ser uma boa escolha começar a leitura de Norman Lewis por aqui.
Aquele que preferia pensar em si como um homem semi-invisível com o propósito de revelar poucas descrições deixou-nos um relato muito belo e interessante, escrevendo sobre minorias étnicas e aldeias, cidades modernas e cidades antigas e, com não podia deixar de ser, sobre paisagens, numa época em que a Indochina colonial já se encontrava em guerra com os franceses, mas ainda antes da guerra com os americanos (Guerra do Vietname que se estenderia aos vizinhos Camboja e Laos).
Um bom documento histórico, em especial pela preocupação que demonstra com as tribos autóctones, é igualmente um cativante relato de um observador diligente que se preocupa em testemunhar o que vê e vive para conosco partilhar.
Não obstante as referidas guerras que desde a sua visita assolaram a região, o mais fantástico é constatar que conseguimos encontrar ainda hoje no que foi a designada Indochina elementos e vivências semelhantes àquelas que nos são reveladas por Norman Lewis. Não querendo recorrer aos clichés da Indochina eterna ou pura, a verdade é que, sobretudo no Laos, consegue-se atingir um estado de uma comunhão quase perfeita com uma realidade que no nosso mundo sabemos difícil de existir já. Comunhão plena com gentes e cenários. O Mekong mítico, os monges de açafrão imaginários.
Ao ler A Dragon Apparent parece que aqui e ali o mundo (na Indochina) parou e é hoje igual ao que era há 60 anos. Os textos sobre Angkor lio-os como se quem os tivesse escrito fosse o meu companheiro de viagem de 2008. Do Laos, aos primeiros adjectivos para descrever a montanha de rocha sublime, logo vi que era a Vang Vieng de 2013. 
Certo, concedo. Estes são lugares perdidos no tempo e no espaço, não mudarão muito ao longo das décadas que se seguirão. Mas que dizer então de Saigão, a cidade a caminho de se tornar metrópole? Um exemplo:
"Era claro desde o primeiro momento em que me pus a caminho por estas abarrotadas, tórridas ruas que as vidas das pessoas do Extremo Oriente eram vividas em público. A rua é uma extensão da casa e não há uma linha divisória forte entre as duas. Ao amanhecer, no caso de Saigão, à hora em que o toque de recolher é levantado, as pessoas rolam da cama e fazem-se ao pavimento, onde há mais espaço, para efectuarem a maior parte da sua toalete. Depois, elas comem, jogam às cartas, dormitam, lavam-se, têm os seus dentes observados, são massajados por médicos, visitam adivinhos; tudo na rua. Não há nenhum do desejo de privacidade que é tão forte na Europa."
Ainda de Saigão, o autor refere o seu encantamento pelas elegantes meninas a andar de bicicleta, vestidas com os característicos robes brancos. "Criaturas etéreas", chama-lhes. Pelo menos em Hué, ainda hoje é possível observar esse postal.
E, para o final, um excerto que me parece igualmente actual como síntese do que era e é ainda a imaginada Indochina:
"Havia um rápido, silenciosamente um turbilhão de tráfego nas ruas de rickshaws misturados com bicicletas; um autocarro, varrendo de uma rua lateral por entre a torrente principal, apanhou um ciclista e atirou-o fora e esmagou a sua máquina. Ambos o condutor do autocarro e o ciclista eram chineses ou vietnamitas, e o condutor do autocarro, saltando para baixo desde o seu lugar, correu a felicitar o ciclista pela sua sorte em ter escapado. Ambos estavam encantados e o ciclista partiu carregando os destroços da sua máquina e ainda sorrindo largamente." 
Conclui Norman Lewis acerca deste episódio: "Nenhum outro incidente nas minhas viagens pela Indo-China mostra mais claramente a diferença fundamental para com a vida e sorte do Oriente e do Ocidente."

quinta-feira, outubro 16, 2014

Aya - Life in Yop City


De uma banda desenhada africana espera-se surpresa e diferença. No entanto, de Aya - Life in Yop City, autoria de Marguerite Abouet e Clement Oubrerie, edição original de 2007, chega-nos a surpresa de ver uma África, neste caso um bairro nos arredores de Abidjan, capital da Costa do Marfim, com personagens modernos mesclados de uma forte cultura local. Porém, nada das coisas do costume que nos fazem lamentar África, o continente negro em todas as suas imagens, pejado de pobreza e doença. 
Então, se a história é parecida com a nossa (leia-se ocidente) porquê perder tempo com mais do mesmo? Talvez porque, como dizia Tolstoi, "as famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira". 
Não que haja aqui em Aya muita infelicidade. Existem os contratempos comuns aos jovens, amores e desamores, sonhos por uma profissão que nem sempre é a escolhida pelos pais, uma vida confortável que pode não chegar. A marca de África surge na questão da poligamia, no tratamento das mulheres, na discriminação dos gays, na vontade de seguir para França.


Mas existe, sobretudo, muita cor e muita alegria, tudo parecendo ser pretexto para festa - outra África por nós imaginada. O traço do desenho é aqui belíssimo. 
Apenas uma curiosidade, a qual pode ser considerada um lapso ou apenas um tópico que não faz mais do que confirmar a leveza da história: os autores mostram-nos uma cidade em finais dos anos 70, mas dão-nos a entender uma sociedade marcada pelas modas vindas do outro lado do Atlântico, designadamente através das novelas do Brasil. A este propósito referem-se nesta bd duas delas: Dona Beija (alguém na história que desejava um cabelo como a Dona Beija) e Mulheres da Areia, ambas novelas dos anos 80 e 90.
Como conclusão, um boa introdução à vida numa grande cidade africana, suas gentes, seus humores e amores e negócios.



sexta-feira, outubro 03, 2014

Wenceslau de Moraes


De Wesceslau de Moraes li dois livros este verão, "Paisagens da China e do Japão" e "Traços do Extremo Oriente". A escrita do português mais japonês de sempre é delicada, intimista e apaziguadora. 

Algumas passagens tiradas do "Paisagens da China e do Japão":

- talvez sobre os bambus de Kyoto, "Aqui, um bosque de bambus gigantes, cuja sombra eterna e cuja paz soturna dão alucinações aquele que se aventura em devassar o seu mistério"; 

- acerca do shintoismo, "O shintoismo da palavra shinto (a estrada dos deuses), é a crença primitiva, patriarcal, das épocas remotas mo Japão; e conservada até hoje, a despeito da grande propaganda de Buda que se fez e se faz, é ainda a religião nacional, a religião do Estado. O shintoismo é a adoração pelo sol, pelo Imperador seu filho, por todas as forças da criação, pelas divindades protectoras, pelos génios, pelos nobres, pelos heróis e pelos sábios. O templo de shinto é o recinto consagrado a uma dessas invocações. Distingue-se antes de tudo pelo torii, o grande arco de pedra ou de madeira avizinhando do lugar, e como que indicando o caminho ao peregrino. Torii quer dizer descanso dos pássaros.";

e, como não podia deixar de ser, qualquer texto sobre o Japão não pode fugir de falar sobre a impermanência das estações, "há alguns dias, na cidade de Kobe, - poderia precisar o dia, e quase a hora, se tamanho rigorismo me exigissem, - irrompeu a Primavera. Irrompeu: não há sombra de exagero no vocábulo, irrompeu, surgiu de um pulo, fez explosão. Neste país do Sol Nascente, onde o sol, e com ele todas as grandes forças naturais, são ainda uns selvagens - se assim posso expressar-me - uns selvagens sem freio, sem noção das conveniências, incapazes de se apresentarem de visita, de luva e casaca, numa corte qualquer da nossa Europa; neste Laís do Sol Nascente, ia eu dizendo, a criação inteira apostou, parece, em oferecer em cada dia uma surpresa, toda ela exuberâncias inauditas, espalhafatos únicos, repentismos nervosos, caprichos doidos, como se reunisse em si a quinta essência da alma das crianças e a quinta essência da alma das mulheres, a gargalhada, a troça, enfim, motejadora de tudo quanto é ordem, harmonia, contemporizadora lei das transições.".

E mais algumas passagens, desta vez tiradas do "Traços do Extremo Oriente":

- uma explicação mitológica de como foi formado o arquipélago da Japão, "Copio de um livro as seguintes linhas: - "Antigamente os deuses invisíveis residiam no céu. O deus Yzagani e a deusa Yzanani datam dessa época puramente divina. Um dia, alguns pingos de água caíram da lança do deus, quem quisera sondar a profundeza do mar, e formaram a ilha de Awaji, que se tornou a ilha dos seus amores. A deusa deu ao mundo as oito principais ilhas do Japão, depois os trinta e cinco deuses ou kamis, e entre estes Amaterasu, a deusa do Sol. Amaterasu resolveu suplantar todas as divindades que haviam governado o mundo, em favor de um menino nascido das jóias que lhe ornavam a fronte. O filho do sol desceu à ilha de Kiusiu onde, durante duas gerações, residiu a família imperial; depois do que, dois dos seus membros atravessaram o mar interior, guiados pela ave de oito cabeças e protegidos pela espada milagrosa. Conquistaram o Nippon central aos deuses e aos homens rebeldes. Um deles, Yware Hiko, cujo nome póstumo foi Jimmu Tenno, foi o primeiro soberano do Japão; morreu em 585 antes de Jesus Cristo; os seus descendentes ocupam hoje o trono.";

- e para não deixar dúvidas sobre a preferência de Wesceslau entre o Japão e a China, eis um comentário definitivo, "China é suja e monótona. Loti dizia o inferno amarelo.".


sexta-feira, outubro 13, 2006

Nobel Para a Turquia

Curioso.
No ano em que visito a Turquia o Nobel da Literatura vai para um turco, Orhan Pamuk de seu nome.
Confesso que não havia conseguido decorar o seu nome, mas quando me documentei sobre o país li algo, na parte dedicada à literatura, acerca de uma obra que me entusiasmou - "Snow", uma história passada na cidade de Kars (perto da fronteira com a Arménia) sobre a questão do véu islâmico e do suicídio feminino por estas bandas.
Infelizmente ainda não tem tradução para português (as duas únicas obras de Pamuk traduzidas são "A Cidadela Branca" e "Os Jardins da Memória").

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Expresso na Patagónia

Um dos fulanos mais invejados, pelo menos por aqueles que estão sempre a pensar na próxima viagem, voltou à carga.
Depois da sua viagem à volta do mundo por mais de um ano, que nos foi agradavelmente relatando no Jornal Expresso, o Gonçalo Cadilhe começou na semana passada a enviar os textos que vem escrevendo desde a Argentina, onde pretende explorar a Patagónia. Ele bem que tinha avisado na primeira leva de crónicas que Buenos Aires tinha sido a cidade em que se tinha sentido melhor. Agora toca a explorar o resto (que não é pouco). Apesar de ter escrito que talvez se ficasse só pela Argentina, aposto que não vai resistir a dar um pulinho à Patagónia Chilena. Não pode ser de outra forma, a não ser que deixe a missão incompleta para ter a desculpa de lá voltar numa próxima vez - o que apoio desde já, afinal não me canso de ler os seus textos desde há muitos anos, seja no Expresso seja na Surf Portugal. Eis uma profissão de sonho: viajante sem fim.

quinta-feira, dezembro 09, 2004

"Férias de Sonho"

5.ª feira é dia de Revista Visão.
E não é que, passe a pretensão, parece que a Visão andou a retirar ideias aqui do nosso blogue? É só ver a capa
Sem dúvida que é uma óptima sugestão.