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domingo, agosto 21, 2016

Medellin, cidade verde

Medellin será sempre por nós recordada como a cidade verde.
Montes com arvoredo suficiente para nos imaginarmos no campo, montes tornados parques fazendo deles recantos de natureza, diversos jardins, incluindo um fabuloso jardim botânico, mesmo no centro da cidade, é difícil passar muito tempo sem dar com uma árvore. Esta é a cidade da Eterna Primavera, com temperatura sempre aprazível, e aquela onde se comemora por estes dias a Feira das Flores.


E, depois, é a cidade do Atletico Nacional, "el equipo" verde, campeão da Copa Libertadores deste ano. Foi no dia 27 de Julho de 2016, dia em que acordamos para ver todos desfilar de verde durante todo o dia e noite. Uma loucura.


O único taxista que não estava decorado de verde, ele ou o seu carro, era provavelmente aquele que à segunda tentativa nos levou ao Cerro Nutibara. Teimoso, insistiu em dar primeiro uma volta à cidade e deixar-nos no Cerro Volador. Como não era este que desejávamos, lá voltou a atravessar a cidade para nos deixar naquilo que conhecia como Pueblito Paisa. Paisa é a designação por que são conhecidos os habitantes da região de Antioquia. E este Pueblito Paisa no Cerro Nutibara é uma recriação em miniatura dos edifícios típicos antioquenhos. O Cerro Nutibara, tal como o Cerro Volador, é uma das inúmeras elevações da cidade. Ambos foram transformados em parques onde se podem desfrutar de pacatas caminhadas apartadas do bulício da cidade. Todo um outro mundo.


Descendo do Nutibara ficamos imediatamente no centro da cidade e aí, lá está, outro tipo de verde nos invadiu, a tal loucura. Camisetas várias do Nacional, bandeiras, cornetas, um verde imenso, um barulho imenso, festa antecipada do que se iria passar no começo da noite no estádio não muito longe dali. Em El Poblado, bairro elegante onde vimos o jogo, cada praça estava transformada em mini-estádio, com écran gigante, e cada restaurante improvisou a sua bancada central. Logo aos primeiros minutos Miguel Borja e o seu golo trouxeram a primeira explosão de alegria. Ainda estou para saber como consegui adormecer, tal era a euforia sonora.

Estes são indícios claros, a juntar aos relatados no anterior post sobre a reinvenção da cidade ao nível das acessibilidades, de que Medellin é uma cidade para se desfrutar experiências.




O centro da cidade é compacto e vale pelo ambiente proporcionado pelas suas gentes. Apesar de esta ser uma cidade antiga, fundada em 1616 pelos espanhóis, não se encontram quase nenhuns edifícios históricos. 





O coração da Medellin histórica e administrativa fica entre o Centro Administrativo de Alpujarra, o Parque Berrio e a Plaza Bolívar. Destaque para a Plazoleta de las Esculturas, com 23 obras de Fernando Botero, artista da cidade, famoso por desenhar as suas personagens anafadinhas.




Para nos centrarmos ainda na arte, imperdível a visita ao Museu de Arte Moderno de Medellin (MAMM), quer pelas suas propostas culturais, quer pela arquitectura dos seus edifícios. Foi aproveitado um antigo edifício industrial na zona Parques del Rio (área que em poucos anos vai levar uma grande volta, aproveitando o Rio Medellin e integrando-o na cidade, rio que por ora está para ali sem que ninguém dê por ele) e a ele acrescentado um projecto de edifício novo fantástico. Neste espaço versátil cabe arquitectura, sim, mas também cinema, teatro e exposições (aqui ficámos a conhecer o trabalho da artista colombiana Débora Arango, pinceladas duras de uma mulher à frente do seu tempo).



Não menos imperdível, o Museu Casa de la Memoria fica na direcção contrária do MAMM, a uma curta caminhada do centro mas sempre a subir. Espera-nos um murro no estômago e muito silêncio e respeito pela história de violência e barbaridade que Medellin sofreu nos últimos 60 anos. Neste espaço multimedia e interactivo são nos apresentados exemplos reais de vidas destruídas e de terror permanente sofrido por cidadãos comuns. Depois da visita a incompreensibilidade permanece. Como foi possível?



E, para algo totalmente diferente, rumamos agora a uma das marcas que tem feito Medellin correr mundo: o seu Jardim Botânico, uma área enorme de verde (mais uma) encravada na cidade. Aqui vivem centenas de espécies botânicas e também animais. As iguanas andavam por ali, mesmo juntinhas aos namorados, mais do que parte da paisagem. O grande postal deste Jardim Botânico é o seu Orquideorama, peça brilhante de arquitectura sob a qual são acomodadas diversas espécies de orquídeas. Graças à Festa das Flores que se ia realizar dai a uma semana tivemos o espaço fechado, grande frustração do turista / viajante. Visto o Orquideorama apenas de soslaio, deliciámo-nos com o bonito lago e com o original anfiteatro e sua parede florida.


Medellin, oferece-nos ainda mais lugares de sossego onde é possível alcançar uma distância com o mundo real. O Parque Arví, por exemplo, a uma vintena de quilómetros da cidade, acessível em cerca de 40 minutos com o metro e o Metrocable, numa viagem panorâmica como haverá poucas no mundo. Este Metrocable é turístico, o único, mas antes de se alcançar o Parque Arví e as suas inúmeras possibilidades de horas de caminhadas, passamos obrigatoriamente pela Comuna 1. Melhor. Sobrevoamos a Comuna 1. 


O Cerro de Santo Domingo Sávio era mais um dos lugares de difícil acessibilidade em Medellin, até que em 2004 a inauguração das estações do Metrocable, linha K, aproximou-o irremediavelmente do centro. Da central Estação de San Antonio à Acevedo são menos de vinte minutos de metro, num percurso elevado que rasga a cidade e nos permite um passeio bem bonito observando de forma privilegiada os seus maiores ex-libris. Depois, com o mesmo bilhete, com um custo de cerca de 70 cêntimos de euro, mudamos na Acevedo em direcção a uma das três estações que nos levarão até Santo Domingo (onde, por sua vez, podemos transferir para o Parque Arví). 



A viagem é fantástica, com toda a Medellin aos nossos pés. Do teleférico, forma única de transporte público com motivações sociais, vemos a favela lá em baixo, espaços arrancados e reconfigurados para deixar passar a caixa que percorre o horizonte, e vamos sentido de alguma forma a vida que corre no bairro. Ouve-se música saída das casas e dos parques, vê-se uma bola perdida num telhado, uma cadeira abandonada num terraço improvisado, flores a decorar as casas, placas desenhadas a fazer de telhado. Do lado esquerdo os blocos imensos do edifício da Biblioteca de Espanha, tão entaipado que nem dá para perceber se são 3 os seus volumes ou apenas dois. De qualquer forma, o orgulho dos habitantes desta comunidade por estas obras públicas é evidente.

Na direcção oposta do vale de Medellin, voltando à Estação de San Antonio transferimos desta vez para San Javier, linha B. O percurso do metro, também à vista, deixa-nos ver uma área de classe média, com equipamentos vários, com destaque para o complexo desportivo (talvez só aqui haja tantas piscinas como em Lisboa inteira). Chegadas a San Javier há que tomar um mini autocarro que nos levará ao Bairro La Independência, conhecido como Comuna 13. 




Outrora um bairro absolutamente perigoso, o perigo por aqui não terá desaparecido por inteiro, mas não há porque não arriscar uma visita diurna ao projecto que colocou o bairro nas melhores bocas do mundo: as Escaleras Eléctricas de San Javier. São 6 troços de escadas rolantes, com uma estrutra alaranjada como cobertura a fazer companhia às casas coloridas à sua volta, com vigilantes a cada troço, uma ideia que mudou para melhor a vida de quem tem de subir a bom subir para chegar à sua habitação. Serão cerca de 12000 os habitantes da comunidade e estima-se que 1500 deles utilizem diariamente as escadas eléctricas em substituição dos degraus de concreto que persistem ao seu lado. 

Mais uma pequena ideia que faz a diferença nesta Medellin entusiasmante.

sábado, agosto 20, 2016

Medellin, cidade reinventada


No ano de 2016, para certamente mais de metade daqueles que já ouviram falar da cidade de Medellin, não é arriscado ou sequer injusto dizer que a questão da insegurança, seja dos cartéis de droga, seja dos grupos paramilitares, será o tópico primeiro que lhes vem à ideia.

No entanto, com a chegada à cidade vindos do seu aeroporto mais importante (e mais afastado), qualquer ideia desse género só pode ser colocada imediatamente de lado ao vermos tanta gente a pedalar pelas ruas, seja de dia ou de noite. O uso da bicicleta será apenas um indício de que a vida na cidade correrá pacata, sem sobressaltos de maior. 


Medellin tem vindo a sofrer na última década uma completa reconversão ao nível das políticas urbanísticas e de mobilidade.

A sua implantação é fantástica e as estradas que seguem pela montanha dão nos como que plataformas de observação e aproximação à cidade, mas esta implantação é, ao mesmo tempo, quase inimiga de um planeamento urbano, com todas as implicações sociais que isso acarreta. 

Medellin foi criada num vale rodeado de montanhas - de noite é uma maravilha poder assistir a tantos pontinhos de luz, como se de pirilampos se tratasse; de dia distingue-se claramente o que são esses pontinhos de luz: casas precárias que foram tomando as paredes do vale. A estes bairros precários, por aqui chamam-se "comunas".

Pelos anos 40, 50 e 60 do último século, Medellin sofreu a pressão dos milhares de migrantes que vieram em busca de melhores condições de vida e de trabalho na então indústria em crescimento. O resultado foi uma ocupação descontrolada da cidade. 

Mas esse seria o menor dos males que a cidade atravessaria nas restantes décadas desse século. A droga e os cartéis a ela associados, com Pablo Escobar como nome maior, e os vários grupos paramilitares e de guerrilha urbana, trouxeram violência num estado tal, roubos, atentados e sequestros, que levaram a que Medellin fosse considerada a cidade mais perigosa do planeta. 

Mas, depois de bater no fundo nos anos 90, deu-se como que um renascimento que só nos pode fazer acreditar no Homem e, a final, na política (embora tenha sido um presidente da câmara vindo fora do meio político a iniciar a transfiguração da cidade). A chave do sucesso esteve no recurso ao planeamento urbano e à tecnologia, nomeadamente no domínio das políticas de transporte público, aliadas também à visão / decisão de promover a educação e a cultura junto das camadas mais desfavorecidas da sociedade. 

A experiência de Medellin fez com que o meu entusiasmo e optimismo com a possibilidade de reverter o que de mau pode existir numa cidade sejam hoje ilimitados. Há esperança no mundo.

Para não ficar apenas pelas ideias vagas, passarei a explicar brevemente e de forma simples o que sucedeu na prática na cidade. Porque a coisa é mesmo simples. 



Primeiro olha-se para as encostas e veem-se as casas ali encavalitadas e assume-se que os seus habitantes têm imensas dificuldades no acesso ao trabalho (ou outra qualquer actividade) na cidade cá em baixo. A solução passa por dotar esses habitantes de melhores e mais eficazes acessibilidades, ou seja, transportes que combatam o isolamento e não os façam perder horas em deslocações. No caso de Medellin, optou-se por um sistema integrado de transportes versáteis, práticos e surpreendentes - com um mesmo bilhete percorrermos a cidade de um lado ao outro de metro e, depois, para aceder às comunas nos montes mudamos para o eléctrico ou para o teleférico (Metrocable). Sim, teleférico. Mas teleférico útil, não turístico. Para além do Metrocable, temos também o exemplo, gratuito, das Escaleras Eléctricas, troços de escadas rolantes como alternativa à subida a pé (Comuna 13).



Segundo, para além das acessibilidades há que munir estas camadas mais periféricas da sociedade de ferramentas que lhes permitam ter acesso a mais educação e cultura. Para tal, mobilizam-se os jovens e as mulheres, os quais são objecto directo das campanhas de sensibilização, porque são eles os mais aptos à mudança de mentalidade, porque são elas as mais capazes de influenciar os demais, formando-os. 

Terceiro, que tal dotar estas comunidades de equipamentos sociais, uma obra como a Biblioteca de Espanha, por exemplo, reconhecido novo marco arquitectónico da cidade (cujo edifício para nosso azar estava em reabilitação e totalmente entaipado)?

Em resumo, colocada a política ao interesse das camadas mais marginalizadas e desfavorecidas da sociedade foi possível chegar a partes da cidade e a indivíduos que antes dificilmente o seriam, promovendo uma maior integração e acabando com alguma divisão. Estas políticas urbanas, com destaque para o grande princípio da mobilidade que a elas esteve subjacente, ao contemplarem a participação dos seus destinatários, tiveram como consequência ligar de forma natural indivíduos que à partida não se juntariam a interagir. Tão importante é verificar que o investimento na melhoria das acessibilidades, atendendo à especificidade do contexto urbano de Medellin, acabou por trazer consigo uma maior segurança e no futuro trará, certamente, melhores índices ao nível da educação.
Por outro lado, observa-se à vista desarmada que Medellin possui um cuidado espaço público, em especial o metro, porque as pessoas o sentem como seu e da sua comunidade.

Para o turista "comum" talvez Medellin não tenha grandes atrativos, como monumentos ou uma paisagem natural deslumbrante. Mas para quem gosta de política, urbanismo e deposita esperança na reinvenção das cidades, de que haverá sempre uma solução quando se bate no fundo, então aí aquela que foi considerada em 2013 a "cidade mais inovadora do planeta" permanecerá na memória como um dos lugares mais interessantes e enriquecedores a visitar.

(Uma ironia. Há quem defenda que o planeamento urbanístico e a participação dos cidadãos neste âmbito que se tem verificado em Medellin na última década deve-se também a Pablo Escobar e demais cartéis. Ao mesmo tempo que plantavam o terror e a decadência, lançavam programas que visavam acabar com as favelas (comunas) e más condições de vida na cidade. Com isso deram visibilidade e voz aos cidadãos mais desfavorecidos, tornado-os mais reivindicativos e conscientes da sua marginalização por parte dos poderes públicos. A mudança terá tido as suas sementes aí.)