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quinta-feira, junho 02, 2016

Lamego

Antes de corrermos pelo Douro passámos por Lamego e depois da corrida voltámos para visitar a Virgem do alto do monte de Santo Estevão.



O Santuário de Nossa Senhora dos Remédios é provavelmente o mais conhecido cartão postal de Lamego. Bem pitoresco e sempre rodeado por um intenso arvoredo, o Santuário ergue-se no alto, a cerca de 600 metros de altitude, e espraia-se em patamares numa escadaria monumental até à cidade. O cenário é cativante e não é preciso ser-se crente para se deixar tocar pelo lugar. 
Em 1361 começou por ser aqui construída uma capela dedicada precisamente a Santo Estevão. Mais tarde, no século XVI a devoção a Santo Estevão foi sendo progressivamente transferida para uma devoção à Virgem, e a busca de cura para as doenças por parte dos crentes transformou-se em culto à Nossa Senhora dos Remédios. O Santuário que hoje podemos apreciar foi começado a construir em 1750, mas apenas em 1905 viu a sua conclusão.



A fachada da igreja é bem apelativa, em estilo barroco e rococó, com uma torre sineira de cada lado. Mas é a escadaria a sua imagem de marca. Monumental, mesmo. São 686 degraus, em nove patamares onde vamos vendo desfilar capelas, estátuas e fontes.
Já cá em baixo, no Rossio de Lamego, numa praça muitíssimo bem arranjada e aprazível, as fontes continuam, desta vez dedicadas às quatro estações do ano.
Aqui perto fica um edifício que rompe com a restante Lamego histórica - o interessante Centro Multiusos, do qual só vimos o seu exterior.


Lamego é antiga, pré-romana até. Pela cidade passaram os romanos, os visigodos e os mouros, até que em 1057 foi reconquistada a estes pelos cristãos. Crê-se que foi em Lamego que decorreram as Cortes de Lamego que aclamaram D. Afonso Henriques como Rei de Portugal.
A cidade estava bem localizada e nas rotas dos mercadores que vinham de Castela e de Granada para comercializar sobretudo especiarias e tecidos orientais. Estava ainda na rota da romagem a Compostela. No entanto, a perda de Granada por parte dos mouros e a descoberta do caminho marítimo para a Índia fizeram com que Lamego deixasse de estar a caminho de qualquer coisa e o comércio e a economia da cidade saíram dai prejudicados.
Mas os séculos XVII e XVIII trouxeram consigo o comércio do vinho do Douro e o Marquês de Pombal deu uma ajuda com a criação da Região Demarcada do Douro. A cidade viu, então, serem aqui construídos diversos solares e casas brasonadas, o que ainda hoje é possível constatar. 


Ao longo dos anos Lamego foi rivalizando com Viseu pelo lugar de sede de distrito, sem sucesso no entanto. Mas é até hoje sede da diocese de Lamego, a única que não corresponde a uma capital de distrito. Não estranha, pois, que um dos seus grandes monumentos seja a Sé Catedral. 



Fundada em 1129, foi sofrendo ao longo dos séculos diversas alterações. É uma catedral gótica, mas encontramos aqui também elementos renascentistas, nomeadamente nos seus claustros. A torre da Sé é imponente e dura. O interior é rico e bonito, com elementos do barroco.



O relativamente pequeno e recolhido adro da igreja tem a acompanhá-la umas casinhas bem pitorescas. À volta da Sé o traçado das ruas da cidade é claramente medieval e encontramos edifícios bem conservados.




Perto da Sé fica a Praça Luís de Camões e a zona mais monumental de Lamego - com os edifícios do antigo Paço Episcopal (hoje Museu Regional) e do Hospital da Misericórdia (hoje Cine-Teatro Ribeiro Conceição).

Omnipresente é o castelo, guardião mor da cidade. 

Curioso verificar quantos e tantos turistas descem dos autocarros das viagens organizadas para visitar Lamego. É o vinho e o santuário a chamar, certamente, mas o centro desta pequena cidade bem cuidada merece a curta e agradável caminhada, pelo menos desde a Nossa Senhora dos Remédios ao Paço Episcopal. 

terça-feira, maio 31, 2016

Fim de tarde no Pinhão



A viagem de comboio da Régua ao Pinhão oferece-nos uma trintena de minutos de deleite, delicadeza e placidez. Esta última apenas foi quebrada pelas águas tormentosas do Douro até à Barragem de Bagaúste e pelo rapaz que pedalava lá fora numa forte cadência, ainda assim insuficiente para deixar o comboio para trás.


Depois de relembrar a estação do Pinhão - seus belíssimos azulejos e sua localização superior - seguimos para junto do rio e caminhámos languidamente rio Pinhão adentro, entrecruzando conversas de banalidades com temas mais profundos. 



Deixámo-nos conquistar pela simpatia das gentes deste Douro. Diz-se que quando se viaja sozinho é mais fácil entabular conversa com o(s) outro(s), por se estar mais disponível. Mas os cinco estivemos disponíveis e aceitámos que se metessem connosco e quisemos meter-nos com os outros, à vez. O peixe era mesmo um peixe e estava pronto para nos ser oferecido, caso assim o quiséssemos; o nome do barco de cruzeiro amavida prestava-se a dúvidas, mas os simpáticos durienses não se deixaram enganar pelo trocadilho "a má vida".





Para o fim da viagem, no apeadeiro à saída do Pinhão, a dúvida instalou-se entre nós: como será para um jovem viver ali, terra remota? Um local partilhou connosco uma convicção pungente, a de que a destruição da linha do Tua foi propositada, pois se tal não fosse, como explicar que uma linha centenária tivesse tido dois acidentes seguidos depois de décadas e décadas de viagens pacatas, um deles com vítimas mortais até?
Depois de ouvirmos atenta e silenciosamente este senhor enquanto aguardávamos a chegada do comboio que nos levaria de volta à Régua, incrédulos com o sentido que a história fazia, comentávamos entre nós como era simpática e disponível esta gente, lembrando que apenas o revisor do comboio não o tinha sido, nem sequer tendo respondido aos nossos "boa tarde". Eis senão quando entra o revisor da viagem de retorno e... era ele mesmo, mas agora em versão brincalhona e efusiva, a distribuir boa disposição para todos os viajantes. 
Ah! Estes homens são uns homens do norte!

sexta-feira, maio 27, 2016

A mais bela corrida do mundo


Na senda de correr em lugares diferentes dos da nossa cidade, desta vez seguimos para a Régua para a disputa da entitulada "A mais bela corrida do mundo". A propaganda não é pouca coisa, mas como a corrida segue junto às margens do Douro não há que duvidar da sua verdade e justeza.

A Régua é provavelmente das cidades mais feias de Portugal. Tendo acabado de referir a justeza de outro título, não corro porém o risco de proferir injusta afirmação agora. Repito, a Régua é provavelmente das cidades mais feias de Portugal. O que é um feito absurdo, tendo em conta que a cidade se abre para a paisagem deslumbrante do Douro. O que a natureza dá, o homem (quase) consegue estragar. Mas cerrando os olhos a alguns dos monstruosos edifícios que alberga e virando as costas ao edificado, é fácil cair de simpatia pela cidade.


Peso da Régua é fulcral como entrada na Região Demarcada do Douro. À sua volta encontramos uma série de quintas que trazem a fama aos vinhos do Douro. Assim, não espanta que possamos visitar na cidade o Museu do Douro, instalado de frente para o rio na Casa da Companhia. A história desta arte feita de sacrifício na região é nos aqui apresentada. Destaque para um painel onde frases vêm sob a forma de ondas, como os socalcos dos montes que ladeiam o Douro, e para a disposição das garrafas - um Museu a visitar.


Noutro domínio, a arte azulejar é presença constante. Mas para me ater às palavras, relevo para outro painel, desta vez em azulejo, nas traseiras da rua principal, com a representação da figura e citações do omnipresente Miguel Torga

"montes que não deixam crescer, videiras que ninguém pode contar, rio que não pára de correr, pedaço de viril beleza"

"O comboio num vaivém sem descanso, leva e traz anseios, aproxima e afasta esperanças, carrega e descarrega ilusões"

e de Eugénio de Andrade

"Poucas vezes o outono se demorou tanto nestas águas sem as cobrir de névoa"


Curiosa, ainda, a capela da Misericórdia de Peso da Régua, da qual escreveu Paulo Varela Gomes ser uma das mais bonitas do nosso país. Surpreendente encontrar por aqui um monumento religioso que dá ares de um orientalismo, bem vincado na forma e nos tons verdes e vermelhos das suas telhas.

Se da Régua preferimos reter a paisagem do Douro, não escapámos ainda a saborear a sua comida. Por aqui comemos sempre muito bem, sem medo de seleccionar previamente os restaurantes, com confiança em entrar nos que o acaso nos ofereceu.


Pernoitámos numa daquelas aberrações que faz da Régua uma cidade incaracterística. Mas como era uma torre pudemos começar logo de manhã por sentir o ambiente dos corredores lá em baixo. 
A corrida da Meia Maratona do Douro Vinhateiro teve início na estação de comboios da Régua, primeiro sentados à janela do comboio a ver o plácido Douro correr forte, cortesia das chuvadas recentes e da abertura das barragens por parte dos vizinhos espanhóis. O apeadeiro foi a estação da Barragem de Bagaúste, a cerca de 6 kms da meta da Régua. Atravessámos o rio para a outra margem e para cima água calma, para baixo água revoltosa certamente a impedir, ou pelo menos a complicar, a passagem dos barcos (neste ano, nesta época, os barcos não têm ido além do Pinhão). 
Partida.

Esperavam-nos 21 kms e mais uns pózinhos a dar às pernas e a tentar manter o coração no ritmo certo. Seguimos Douro adentro, em direcção à Folgosa, onde pouco depois invertemos a marcha e voltámos para a Régua. Antes de passarmos pelo DOC do chef Rui Paula, lamentando não o termos incluído gastronómicamente na escapada, esses primeiros cerca de 7,5 kms foram fáceis, com percurso sempre plano. Melhor: céu azul, temperatura amena, paisagem absolutamente sossegada, passarinhos a chilrear para quebrar a monotonia da respiração dos corredores a arfar. Como não corria vento, os reflexos da paisagem - montes, casas brancas, comboio a passar - estavam colados na água do Douro, como se de um selo de garantia se tratasse. Antes de voltarmos neste percurso já não tínhamos dúvidas do título: esta é mesmo a mais bela corrida do mundo.

Infelizmente, porém, a abundância de verde por aqui não foi suficiente para que a tarde dissipasse as dúvidas no sentido mais correcto e o título de primeiro em outro campeonato recaísse nos leões verdes. Não chegou haver aqui uma equipa de "lion runners", o primeiro lugar desta Meia Maratona ter ido parar a um atleta do Sporting e muitos mais a fazer força; a águia que vimos sobrevoar o Douro lá para os lados do Pinhão na tarde anterior foi mais forte e a premonição da maioria dos amigos do nosso grupo trouxe felicidade para eles e (mais um) desgosto para as manas.

Voltando à corrida, a do Douro é mesmo especial. E nem estou a pensar na garrafinha de vinho que ofereceram com a inscrição. Penso antes nas freiras e padres (mesmo que mascarados) que se mantinham à beira da estrada com vista para o rio a apoiar os atletas e a dar-lhes música - nada de rockalhadas vinda de gente urbana, como noutras corridas. O bom ambiente e a boa disposição também marcaram presença.

De volta em direcção à Régua, a boa companhia da paisagem manteve-se e certamente foi um alento para continuarmos em movimento. Já a correr para a meta, tempo e disposição ainda para pensar e apreciar o quanto o rio se encontrava liso e as quintas vinhateiras e os socalcos se sucediam. Na parte final, porém, o rio parecia traduzir o cansaço e misto de emoções dos corredores, euforia e tormenta, desejo de que a enorme ponte da Régua venha para perto da nossa vista, sinal de que nos preparamos para atravessar a outra ponte mais pequena, de deixar a estação de comboios para trás, o Museu do Douto à direita, postal da figura do homem da capa - Sandeman - à esquerda, meta mesmo ali à frente.

Feito. Sucesso. Embora lá comer um javali e repor os líquidos.