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segunda-feira, agosto 28, 2017

Kunming


Kunming é a capital da província do Yunnan e encaixa como uma luva na ideia da nova China, uma China em rápida transformação. 
Kunming não foi uma cidade que surgiu do nada, porém. Durante muitos séculos permaneceu como um centro estratégico nas rotas das caravanas que vinham da Birmânia e da Índia e há registos de Marco Polo a ter visitado no século XIII. 
Ainda hoje a sua posição estratégica faz de Kunming um hub na transferência de pessoas (entre as quais turistas) e está ainda nas modernas rotas de comércio. O seu desenvolvimento moderno começou, no entanto, com a invasão japonesa do século XX que trouxe os nacionalistas chineses para aqui em busca de refúgio, tendo estes começado a desenvolver a cidade construindo infraestruturas. Desde as últimas décadas, à semelhança de muitas outras cidades médias para os padrões chineses, Kunming tem vindo a crescer exponencialmente e hoje tem cerca de 6 milhões de habitantes. É uma cidade moderna, de avenidas largas, cheia de viadutos e conjuntos de prédios enormes.
E o clima temperado da cidade, cujo cognome é "a cidade da eterna primavera", também atraiu alguns dos seus habitantes.

Mas dessa tal primavera, quanto a nós, nem sinal. 

Dois dias em Kunming, dois dias de eterna chuvada. 
E, claro, isso condiciona totalmente a percepção com que se fica de um lugar.
Eis, pois, o relato da visita possível, sempre com água pelo joelho.


Kunming é uma cidade com muitos parques, lagos e flores, isso deu para perceber. 
Cuihu, o Lago Verde, é o coração saudável da cidade e a área mais atraente para o turista se estabelecer. Aqui perto existem restaurantes, bares e lojas, o templo Yuantong e o mercado de flores e pássaros. Não necessariamente tudo na mesma direcção, mas tudo a uma distância facilmente percorrida a pé. 


Começando pelo templo Yuantong, este é um dos maiores templos budistas chineses da época Tang e tem cerca de 1200 anos. Os pavilhões vão se sucedendo à medida que caminhamos pelos halls a céu aberto, desprotegidas da chuva. As pontes conferem uma maior beleza ao lugar, mesmo num dia feio e mesmo se o lago não possui água para além daquela que teima em cair copiosamente das nuvens.


O mercado de flores e pássaros é, mesmo em dia de chuva, uma zona viva da cidade. Nesta zona, que pode ser considerada o centro histórico da capital do Yunnan, sobram ainda algumas, poucas, casas de madeira na fila para serem substituídas pelos edifícios de concreto de número indefinido de andares. Deixar-se-ão uma dúzia delas em mau estado de conservação, só de um lado ali naquela rua velha, por exemplo, para se mostrar como outrora havia lojas físicas onde as pessoas iam comprar carimbos, selos, medalhas, taças, galhardetes, quinquilharia varia, enfim.  


Esta zona pode parecer um ser estranho em relação ao resto da cidade, mas não é tanto assim. Vou misturar assuntos, talvez seja o excesso de água que já tenha chegado à barriga e me tenha parado a digestão ou então chegado ao cérebro e me tenha feito da cabeça um aquário com peixinhos a passearem por aqui sem destino aparente. 

Os esforços de urbanização são evidentes, mas os costumes dos indivíduos nem sempre acompanham o planeamento das cidades. Os chineses daqui não parecem tão sofisticados. Lojas de telemóveis estão em todo o lado, a Oppo é dona e senhora no ramo e os preços não são amigáveis. Olha a New Bunren, podia jurar que tinha andado com a irmã gémea New Balance no ginásio. Ai esta enchurrada que não pára. Temos de avançar por este viaduto, mas como se cai terra lá de cima? Ficamos uma hora e meia paradas no trânsito para fazer um percurso de quinze minutos. Nada circula e as inúmeras vias rápidas mostram que podem ser muitas e rápidas mas que sólidas é que não são. O pior há de ser na vinda. Depois de um dia inteiro de chuva já nenhum taxista vai ser apanhado de surpresa com o caos pelo que se vão recusar na viagem ou pedir um preço exorbitante. Resultado certo: segunda alternativa e mais uma hora e meia de trânsito para fazer um percurso que em condições normais se faria novamente em quinze minutos. O progresso e a tecnologia podem fazer parte desta nova China, mas os transportes colectivos informais continuam a fazer parte do dia a dia e eles por ali vão, juntamente com todos os outros veículos, a galgar passeios, fugindo à confusão, no salve-se quem puder, tentando chegar primeiro do que todos os outros. Cansadas, aborrecidas e ensopadas, acabamos tardiamente a jantar uma pizza, mas antes de fechar os olhos para dormir sonhamos com o que teria sido o sabor dos crossing the bridge noodles. 


Valha a verdade que um pouco de bonança nos tocou no momento do nosso passeio a Shilin, a floresta de pedra a cerca de 1600 metros de altitude e a 2 horas de distância de autocarro de Kunming (o autocarro vai da estação Este da cidade até mesmo à entrada do Parque de Shilin) - a chuva deu uma momentânea trégua.
É perfeitamente possível uma visita de um dia de forma autónoma, sem guia ou visita organizada. Os autocarros saem com frequência e uma vez no Parque é só deixarmo-nos caminhar por cerca de 3-4 horas e ficamos com uma boa ideia do que a natureza tem para nos oferecer. 


Esta é uma zona cársica em a que a erosão pelo vento e pela água foi causando fracturas no calcário, desviando as rochas, deixando-nos um cenário fantástico e intrigante. As rochas tomam aqui formas absolutamente curiosas. Pináculos emergem inesperadamente quer na sua forma quer no seu sentido. 


Temos flores




E temos lagos tranquilos. 


E extensos mantos relvados verdejantes. 

Mais uma vez, a entrada no Parque não é nada barata, mas depois de lá estarmos e vermos como tudo está perfeitamente conservado e como é extenso o lugar compreendemos que tudo tem um custo. 



Existem aqui inúmeras possibilidade de caminhos. Comprova-se novamente o dito que 80% dos turistas se concentram em 20% dos locais, por isso há que sair dos locais mais óbvios, por onde andam os magotes de turistas chineses que aqui chegam em bando em excursões organizadas. 
A Minor Stone Forest é por onde se queda a maior parte dos visitantes. Aqui ficam os jardins naturais de pilares de pedra tão graciosos que é difícil acreditar que não tenham sido moldados propositadamente pelo Homem. Mas isso seria acreditar que a mão da Natureza não lhe é superior. 
As rochas assemelham-se a elefantes, cogumelos, deusas, mãe e filho, o que quisermos, o limite será a imaginação. 




O pagode construído pelo Homem no topo de uma das rochas é um dos lugares mais concorridos do Parque, mas a vista que daqui se alcança é fabulosa e dá-nos uma ideia exacta desta obra-prima natural. Uma autêntica desordem pitoresca.

Diz a lenda que os imortais moldaram a montanha de forma a que esta se tornasse um labirinto para que os amantes melhor pudessem namorar em privacidade. 




E essa privacidade é possível, por exemplo, no Major Stone Forest, no Bushao Shan. Um pouco mais afastado da zona central, é possível encontrar caminhos infinitos cruzando-nos com pouca gente. Caminhos com passagens estreitas por entre as rochas, diz-se que são cinco as portas naturais de pedra por aqui, portas feitas de frestas espaçosas o suficiente para passar um corpo esbelto que as rochas gentilmente nos deixaram. 
Shilin é um lugar excepcional para caminhar também. Partir à descoberta de novas formas. Dar asas à imaginação. Lugar encantado e feliz onde uma placa nos diz: "a relva esta a sorrir, não a perturbes" - e nós respeitamos, caminhamos sobre ela, olhamos uma vez mais um dos pilares de rocha que a rodeiam e sorrimos também. Olhamos o céu e três horas depois volta a chover. Sorrimos novamente. É hora de voltar a Kunming.

sábado, agosto 26, 2017

Pelo Lago Erhai

O Lago Erhai, o sétimo maior lago de água doce da China, fica junto a Dali.
A 1973 metros de altitude, esta é uma região plácida, feita de vilas bai com arquitectura bem preservada e mercados vivos.
Dar a volta ao lago todo faz da jornada cerca de uma centena de quilómetros. Sem veículo próprio o mais acertado é alugar uma bicicleta e visitar uma ou mais vilas próximas a Dali ou fazê-lo através de autocarro. Foi o que fizemos, até porque foi um dia de chuva este o que nos tocou.
A cerca de trinta minutos de viagem de autocarro fica Xizhou, uma das vilas bai mais autênticas. 




O enquadramento natural da montanha é belíssimo e os reflexos no rio exacerbam ainda mais o cenário dramático. 








A vila é pequena mas cheia de pormenores para se descobrir, seja a entrada num templo escondido, num outro escancarado, uma rua de comércio local, comida típica feita artesanalmente no momento, um café amoroso e até um centro cultural, o Linden Centre (também hotel), com um bonito pátio.  










A uma longa mas agradável caminhada fica o Lago Erhai. Até lá vamos vendo às montanhas ficando cada vez mais distantes. Os campos de arroz vão trazendo novas tonalidades de verde à paisagem. Vão-se avistando mulheres bai a trabalhar nos campos. Alegres e simpáticas. Cavalos soltos. Trigo para variar do arroz. Um templo.
Até que chegamos finalmente ao Lago. E ao idílio.








sexta-feira, agosto 25, 2017

Dali

De Dali, a velha Dali (não confundir com Xiaguan, a nova Dali, também referida como Dali), fica a sul de Lijiang e foi em tempos um ponto igualmente incontornável na Rota do Chá e do Cavalo, a auto-estrada comercial que ligava a China, o Tibete e a Índia. A cidade velha de Dali não possui, no entanto, o encanto fácil de Lijiang, pelo que as comparações param aqui.



A sua localização é fantástica, encravada entre a montanha de Jade Verde (Cang Shan) - e se ela é verde! - e o Lago Erhai. 




A vida na cidade é relaxada, embora cheia de lojas de souvenirs que se repetem até à exaustão. Tem até uma rua hipster com cafés que poderiam fazer parte da colecção de uma capital europeia. Aliás, existe até uma rua por aqui conhecida pelo nome de "rua dos estrangeiros". Disso, porém, não guardarei grandes recordações. 



Lembrarei, sim, os pormenores da arquitectura Bai nos edifícios da velha Dali e nas vilas junto ao Lago Erhai. Mais uma vez, as portas fechadas dos seus edifícios tornam-os mais bonitos, possibilitando-nos apreciar na plenitude todos os seus motivos decorativos. 






Mas são as pinturas que marcam presença em quase todos os edifícios, novos ou antigos, de habitação ou templos ou até simples muros, essas pinturas que encontramos um pouco por todo o lado, mais ou menos elaboradas, são elas a marca mais distinta da arte bai. Os Bai são a minoria étnica da região de Dali, antigo centro do reino Nanzhao entre os séculos VIII e XIII, os quais chegaram a expandir-se para o Sichuan, Birmânia e Tailândia. Ao contrário dos Naxi de Lijiang, os Bai de Dali são taoistas e possuem templos. 

Curiosamente, no entanto, são um símbolo do cristianismo - uma igreja - e outro do budismo - pagodes - duas das grandes atracções de Dali.






A igreja da Trindade Católica de Dali, obra de um padre francês que por aqui andou na década de 20 do século passado, é surpreendente. Embora não estejamos acostumados a esta explosão de cor numa igreja católica, o resultado desta mescla de estilos han, bai e europeus é harmonioso e encantatório. A forma da igreja é a de um pagode, só que encimada por uma cruz. Telhados hiper trabalhados com decorações com motivos bai do leão, elefante e dragão a que se junta a fénix. E o interior é simples e despojado, próprio de um missionário.


A San Ta Si, os Três Pagodes, não é menos surpreendente. A uma breve caminhada da velha Dali, deixando a porta norte para trás (uma das quatro portas monumentais da cidade), e entrando pela ruralidade, este é o seu símbolo incontestado e uma das imagens mais conhecidas de toda a província do Yunnan. 


Já tinha visto fotos do pagode mor, mas não esperava o arrebatamento do lugar. No sopé da montanha Cang Shan, e avistando-se o Lago Erhai na direcção contrária, erguem-se no meio de um vale verde bem cuidado três enormes e bem distintos pagodes. O mais antigo, o Qianxun, é também o mais alto, com 69 metros. Incrível saber que foi construído no ano de 850, logo, continua ali, belíssimo e imponente, do alto da sua já mais do que milenar idade. Os outros dois pagodes, um século mais novos, fazem-lhe a guarda, simétricos. Não é possível a visita ao interior de nenhum destes pagodes.
A entrada do parque onde fica o complexo San Ta Si não é nada barata, cerca de 15 euros. Como só se vêem os pagodes por fora e o templo que supostamente ali há para ver é uma construção recente, sem história, válido apenas como um outro ponto de observação para os 3 Pagodes, há quem descreva este sítio como uma armadilha para turistas. É um ponto de vista. Há outro: se pensarmos que provavelmente não voltaremos a Dali, 15 euros para nos deixarmos estar numa sombrinha com vista directa para um pagode milenar num ambiente atmosférico parece um preço justo.