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quarta-feira, março 09, 2016

Berlim, Arte Urbana Em Cada Esquina

Berlim, apesar de todas as contrariedades e dramas históricos, é actualmente uma cidade onde se respira liberdade. Há um clima de abertura e tolerância que incentiva a experimentação e é responsável pela promoção de uma subcultura artística, a qual se expressa de diversas formas, nomeadamente no desenvolvimento de arte urbana.
A arte, nas suas várias dimensões, tem a grande virtude de oferecer visões alternativas do mundo e, assim, criar utopias.
Essa efervescência artística em Berlim tem um momento fundamental quando após a queda do Muro, no início dos anos 90, artistas transformaram um edifício abandonado num marco da cena artística alternativa de Berlim e com isso salvaram o edifício da demolição. Esse é o início da história de Tacheles, um espaço cultural e de arte alternativa, que durante cerca de 20 anos foi responsável pela criação de um mundo utópico paralelo.
 

Lembro-me de em 1998, aquando a minha primeira visita a Berlim, ficar fascinada com o ambiente artístico carregado de subversão, liberdade e experimentalismo que se vivia em Tacheles. Aquele ambiente caótico e apocalíptico era magnético. Tacheles criou uma visão criativa anarquista, plena de liberdade social. Contudo, o que aquele espaço sempre contrariou, o mainstream e a racionalidade do capital, foi responsável pelo seu fim. Tacheles sucumbiu à marcha inexorável do capitalismo alemão.
 
 
Foi, no entanto, enquanto durou, uma experimentação do poder da imaginação, que ficará na memória colectiva durante anos. Por outro lado, criou tendências em espaços abandonados e ainda a salvo da gentrificação urbana. Exemplo disso é a RAW Gemalde, em Friedrichshain, um espaço igualmente caótico, mas pleno de experimentalismo e criatividade artística. Para além da arte urbana espalhada pelos antigos edifícios industriais, há espaços informais versáteis e permeáveis a qualquer uso.





Aquele espaço tanto se assemelha a um local fantasma, como no momento seguinte alberga um concerto, outro espectáculo, um evento de street food (na Neueheimat) ou outra coisa qualquer que crie uma dinâmica própria.
 

Bem próximo do Urban Spree, contíguo à RAW, numa noite gelada, quando regressávamos do Skatehalle Berlin, um skatepark indoor, uma fila de pessoas esperava heroicamente para entrar no Astra Kulturhaus onde iria actuar Skunk Anansie. É de surpresas e situações inusitadas que são feitos estes lugares, que emanam um charme apocalíptico contagiante.






 

Ainda em Friedrichshain, na Boxhagener Strasse, encontramos o Diary / Guestbook. Num dos lados do cinema Intimes, encontramos uma parede com uma profusão imensa de trabalhos. O nome Diary / Guestbook deve-se ao conceito de ser um espaço em permanente mudança.





Enquanto o poder económico não se sobrepuser, estes territórios sobreviverão.
Contudo, ironicamente, é o lado artístico e subversivo destas áreas que, por vezes, as valoriza e as torna apetecíveis. Conscientes disso, os intervenientes directos da produção artística urbana chegam a preferir destruir a sua arte de rua do que deixá-la contribuir para o processo de valorização e especulação do lugar. Foi o que aconteceu em Schlesisches Tor, Kreuzberg, onde Blu, artista italiano de street art, pintou de preto o seu mural  Take Off That Mask & Shackled By Time, o qual era considerado um dos murais mais emblemático de Berlim.
Apesar desta perda, Kreuzberg, Friedrichshain e Neukölln continuam a congregar diversidade e criatividade artística e a serem locais onde as tendências futuras da street art são gizadas. De tal forma que Berlim é considerada a capital mundial da arte urbana e os seus mais emblemáticos artistas têm ali a sua marca. 
Não esquecer que Berlim tem o maior mural do mundo, os 1,3 km do Murro de Berlim, correspondente à East Side Gallery.
Do outro lado do rio Spree, em Kreuzberg, encontramos alguns dos nomes maiores da arte urbana, como Blu, com o seu Leviathan.
 


Também damos com o Yellow Man dos manos brasileiros Os Gemeos.




No outro lado da mesma rua com a obra Rounded Heads de Nomad.


Ainda em Kreuzberg, cruzamo-nos com Two Landscapes, de Agostino Iacurci, criado pelo 25º aniversário da queda do Muro e que representa os aspectos humanos da reunificação.
 

No início da Skalitzer Strasse fica a Nature Morte de ROA.


Também na Skalitzer Strasse o Astronaut de Victor Ash.


Em Neukölln, fica uma das obras do projecto The Wrinkles of the City! do francês JR.


Muitos outros artistas de street art têm a sua obra espalhada pela cidade. Talentos locais, como El Bocho, podem ser encontrados em Friedrichshain e em Hackesche Höfe.
 
 


Até espaços aparentemente mais arrumadinhos como a Hackesche Höfe, no Mitte, têm um recanto em que a liberdade de expressão artística tem todo o espaço.












 
Berlim é o lugar. Para quem quer fazer obra artística e para quem, como eu, quer e adora admirar este  tipo de arte.
Não pensem mais.
 
 
Vamos voar até lá.
 

E dançar com a liberdade artística que ali se vive.


domingo, fevereiro 28, 2016

O Muro de Berlim

A presença do Muro marcou Berlim de forma inegável. Actualmente parte das áreas por onde passava o Muro são alguns dos principais pontos turísticos da cidade.
Porém, a presença do Muro e a sua história é oferecida de formas diferentes. Se a East Side Gallery, em Friedrichshain, com o muro pintado por artistas, nos dá uma leitura leve, artística e mesmo divertida, não nos remetendo para o drama das quase três décadas de encarceramento da população da Berlim Oriental, já o Memorial da Bernauer Strasse, no bairro de Prenzlauer Berg, transporta-nos para o sofrimento e a barbárie daqueles tempos.
Na East Side Gallery, um troço de muro de 1,3 Km paralelo ao rio Spree, podemos ver a arte urbana desenvolvida por diversos artistas do mundo na sequência da queda do Muro.
A cor está presente e a temática expressa está intimamente relacionada com a história.




Um dos murais mais famosos é o beijo do líder soviético Brezhnev ao líder da RDA, Honecker, obra, de 1990, de Dmitri Vrubel designada My God, Help Me To Survive This Deadly Love.

 
Este graffiti reproduz o beijo icónico entre os dois líderes em 1979, aquando da celebração dos 30 anos da criação da RDA.
O mural do francês Thierry Noir é também considerado um dos mais icónicos. Noir foi, em 1984, o primeiro artista a pintar o Muro e aparece, inclusivamente, no filme de Wim Wenders Asas do Desejo, de 1987.


O Trabant, carro icónico da formação comunista da Alemanha Oriental, a rebentar pelo muro, obra de Birgit Kinder, é outra das pinturas mais conhecidas.
 

Mas muitas outras são fascinantes. Pena o estado de conservação que já obrigou a novas repinturas, processo polémico na medida em que nalguns casos não foram os artistas originais que as refizeram. Após esse restauro, algumas das pinturas estão actualmente protegidas por gradeamentos, o que retira muito do encantamento do espaço.
Noutras partes da cidade é também possível ver vestígios do Muro, como na área envolvente à Potzdamer Platz.
 

Mas é na Bernauer Strasse onde mais se sente o Muro como ele foi.
A Bernauer Strasse foi uma das ruas em que um lado fazia parte de Berlim Ocidental e o outro de Berlim Oriental.
 
A intervenção museológica ali feita é extraordinária. O Gedenkstätte Berliner Mauer, para além de um centro de documentação, de um fantástico centro interpretativo, inclui um percurso interpretativo ao longo de toda a rua (cerca de 1,4km) com elementos explicativos que nos permitem perceber a evolução da construção do Muro, a transformação ao longo dos anos daquela parte da cidade com a construção de um muro ainda mais intransponível devido à cegueira crescente de quem mandava, assim como entrar em algumas histórias pessoais de quem tentou atravessar o Muro. 


Por vezes percorrendo Berlim damos por nós a questionar a que Berlim pertencia aquele território. Marcas subtis no pavimento ajudam a responder.
Porém, na Bernauer Strasse, através de uma instalação extraordinária e de grande sensibilidade é perceptível com nitidez como era feita a divisão do território. Ao mesmo tempo em que em alguns troços permanece a presença do Muro, na maioria da extensão da rua foi colocada uma instalação semelhante às cofragens dos muros no lugar onde este passava. Estes elementos dão-nos a noção de barreira, mas simultaneamente oferecem a transparência e possibilidade de atravessamento que o Muro durante décadas não permitiu.
 

Não há como não nos revoltarmos, chocarmos e emocionarmos ao termos acesso aos relatos de quem viveu esta situação na primeira pessoa. Seja por estar impedidos da natural liberdade, por familiares estarem impedidos ou por os vizinhos do outro lado da rua estarem.


Choca saber que de um lado da rua alguém tomasse livremente banhos de sol no seu jardim ladeado pelo muro e no outro uma multidão estivesse na fila para aquisição do racionamento definido nas lojas do povo, como mostram os registos fotográficos do centro de interpretação.
Impressiona também que o Muro tenha dividido o sistema de transportes, contribuindo para que algumas estações de metro tenham virado estações fantasmas, porque remetiam para território oriental. É o caso da estação Nord-bahnhof S-Bahn, que dá acesso à Bernauer Strasse. O metro passava, mas não parava nestas estações altamente patrulhavas por guardas de fronteira da RDA.
 
 
Mas não há como não nos emocionarmos com imagens, algumas implantadas nas empenas dos edifícios, como a do soldado a saltar a barreira de arame farpado ou também com os registos da queda do Muro e termos vontade de ter estado naquele momento histórico junto das pessoas que sofreram e lutaram anos pela queda daquela vergonha da humanidade.

 
Como não compreender que após a declaração da queda do Muro, muitos insistissem saltar o mesmo em vez de passarem por partes já derrubadas. Provavelmente naquele momento, para muitos, foi a concretização do acto de transgressão desejado durante anos a fio.
Por outro lado, como não fazer um sorriso irónico e pensar que quem lidera o mundo é patético. Sobretudo,  quando nos primeiros metros após o Checkpoint Charlie (que virou uma palhaçada turística), onde antes, de 1961 a 1989, a partir daquele ponto até Vladivostok o controlo era totalmente soviético e hoje está instalado um McDonald's, um dos maiores símbolos do mundo capitalista.
 

 
 
É nesse momento que me questiono, porque razão a humanidade não aprende com os erros do passado.