quarta-feira, agosto 24, 2011

César Manrique



Apenas dia e meio em Lanzarote e é já imediata a conclusão da importância de um homem para o equilíbrio que se vê e sente aqui entre a natureza e a arte.
César Manrique nasceu e viveu em Lanzarote, com um interregno em Nova Iorque, até ao final da sua vida, o que aconteceu em 1992, com 73 anos. Este pintor, escultor, arquitecto, urbanista e ecologista foi o grande impulsionador do desenvolvimento sustentável e equilibrado da ilha, não se vendo os tamanhos disparates e atentados que existem em tantos outros pedaços virados maioritariamente para o turismo. Para além disso deixou a sua arte um pouco por todos os cantos e faz com que seja mais fácil encantarmo-nos por Lanzarote.
Exemplos de intervenções arquitectónicas e urbanísticas de César Manrique em Lanzarote:
1968 – Jameos del Agua
1968 – Taro de Tahíche
1969 – Casa del Campesino
1970 – Restaurante el Diablo (Parque Nacional Timanfaya)
1973 – Mirador del Rio
1974 – Castillo San José – Museo Internacional de Arte Contemporáneo
1990 – Jardin de Cactus



Para além disso criou ainda uma imagem marcante para estas atracções turisticas

Jardin de Cactus



Alguns exemplares desta ora selva, ora deserto











2.º Dia em Lanzarote

No segundo dia, já com o carro alugado na véspera, saímos rumo a norte para conhecer a ilha. Fomos em direcção aos Jameos del Agua, talvez a maior atracção de Lanzarote juntamente com o Timanfaya.



Os Jameos são consequência da erupção do Vulcão de la Corona, a qual criou um túnel que formou várias aberturas na terra - os Jameos, aberturas derivadas do desprendimento parcial do tecto deste túnel. O nome Jameos del Agua deve-se a um inesperado lago que se encontra dentro do túnel. Depois de ao nível da terra descermos para uma espécie de cova onde se encontra instalado um restaurante, descemos mais um pouco e aparece-nos uma massa de água numa outra espécie de cova com aberturas no tecto. A cor da água já é fantástica, mas com a luz do céu a entrar pelas estreitas fissuras, então, incandesce-nos de tão sobrenatural que se torna o cenário.



Luminoso é talvez a palavra mais acertada para descrever o fenómeno que toma este lago pejado de pequeníssimos caranguejos cegos e albinos. Depois de o atravessarmos por um caminho lateral, subimos até à superfície e ficamos frente a frente com uma piscina azul, pintada de um branco vivíssimo a toda a volta e rodeada de um jardim luxuriante de cactos, palmeiras - com destaque para a palmeira deitada - e outra vegetação, num projecto arquitectónico e paisagístico de César Manrique. Falta dizer que esta piscina e esta floresta estão encravadas na rocha escura vulcânica, o que, uma vez mais, trás ao de cima os contrastes na paisagem de que Lanzarote é pródiga, ou não estivesse ainda o mar do Atlântico mesmo ali à espreita.
Para além deste plateau da piscina há um auditório deslumbrante no interior de uma gruta, onde graças à sua especial acústica se apresentam concertos e peças de teatro e ballet. Não é fácil deixar este local, onde a natureza e a arte humana andam de mãos dadas.







Mesmo ali ao lado fica a Cueva de los Verdes, também consequência da erupção do La Corona e do túnel então formado. São seis kms que correm em direcção ao mar, mas a visita ao sítio resume-se a uma caminhada de cerca de um km pelas entranhas da terra. Ao contrário das outras grutas de lava, esta não é húmida nem aqui se formaram estalactites ou estalagmites. Apesar das várias cores que a rocha aqui toma, o verde é uma das que não encontramos. O nome da cova deriva de uma família de pastores que para ali costumava ir pastar o seu rebanho, família esta que era conhecida por “os verdes”. E assim ficou o nome da cova, que já foi em tempos refúgio dos habitantes de Lanzarote para se protegerem dos piratas no século XVII. Mas o mais surpreendente aqui é quando nos acercamos do que só pode ser um altíssimo buraco / precipício, onde discernimos claramente lá para baixo as várias formas e tonalidades das rochas; até que o guia lança uma pedra em sua direcção e, em vez de esperarmos uma eternidade até que a dita pedra caia no fundo imenso do dito buraco, ela esbarra imediatamente na água de um, afinal, laguinho. Uma ilusão óptica perfeita que é uma surpresa perfeita para terminar esta aventura pelo interior da terra.







O almoço aconteceu tardiamente no vilarejo de Orzola, onde se come bom peixe. Antes desta terriola fica a praia Charca de la Laja, mais uma surpresa pela água de um azul claríssimo a contrastar com os pedaços escuros de rocha que ali substituem a areia.



De Orzola saem os barcos para a pequena ilha da Graciosa, a tão curta distância de Lanzarote que me pus logo a imaginar que seria um bom lugar para se tentar alcançar a nado.



Não fomos à ilha mas vimo-la cá de cima desde o Mirador del Rio, que deve o nome ao braço de água que separa Lanzarote da Graciosa e outras ilhotas – o El Rio. Para além destas ilhas este miradouro permite vistas fantásticas do Risco de Famara a 475 metros de altitude. O interessante é apercebermo-nos que a uma praia com areia escuríssima e pedra de lava segue-se de imediato uma praia com areia clara. Este miradouro fabuloso tem ainda uma vista a pique da montanha em que está instalado e um restaurante com janelas largas com uma vista panorâmica soberba. Como não podia deixar de ser, este local é também um projecto de César Manrique.





Daqui seguimos calmamente, primeiro pela estrada junto à costa, com uns pontos panorâmicos muito bonitos para a costa ocidental, depois pela estrada interior, onde observamos os terrenos agrícolas de terra preta de lava com plantações verdejantes, como vinha. A ilha na sua parte norte é estreitíssima e, ora num momento se admira a costa ocidental, ora logo em seguida damos de caras com a costa oriental, com Arrieta mesmo à nossa frente.







Neste dia de muitas voltas arranjamos ainda tempo para, mesmo à justa, conseguir entrar para conhecer o Jardin de Cactus. Esta é outra intervenção de César Manrique, com uma diversificada, luxuosa e exuberante colecção de cactos originários um pouco de todo o mundo. Mais uma vez os elementos da natureza conseguem aqui uma plena integração, com a aridez e desolação dos cactos a jogarem um mano a mano com a paisagem escura e dura.



Mas para atenuar quaisquer efeitos mais pesados, Manrique criou uns laguinhos com nenúfares e um idílico moinho, que fazem companhia aos cactos de todas as formas e feitios distribuídos por um caminho intrincado e em vários níveis. Observamos cactos altíssimos e outros tão pequenos que quase nos arriscaríamos a pisá-los. Uns com flores pretas, outros brancas, outros vermelhas, outros ainda sem flor. Uns com espinhos que nos atemorizam e outros que parecem tão fofos que quase nos convidam a neles sentar para descansar da jornada e melhor realizar o quão diversa acaba por ser esta ilha de contrastes e surpresas.

terça-feira, agosto 23, 2011

Lanzarote



A primeira impressão da chegada a Lanzarote por avião é a do aeroporto mesmo ali juntinho à água, num voo razante que nos faz pensar que vamos ter ali a primeira experiência náutica naquele pedaço de Atlântico da ilha do arquipélago das Canárias, juntamente com a ilha Fuerteventura, mais perto de África.
A segunda impressão, que não demorou muito a seguir-se, é a de que vou gostar da ilha, muito. Vêem-se cones vulcânicos a destacarem-se da paisagem árida, inóspita mas acolhedora, o escuro da terra, umas vezes castanho, outras mesmo preto, a contrastar com as casas brancas. Todas. Vislumbram-se os vilarejos, Puerto del Carmen aqui, Tias ali, Arrecife além. Ponto em comum? Todos povoados brancos. De Arrecife observa-se ao longe o único edifício alto da ilha, será um mamarracho à beira mar.



À volta de Puerto del Carmen, a estância turística mais concorrida, com a sua Playa Grande com os chapéus de sol azul e laranja, fica a marina de Puerto Calero (onde se comem umas boas lapas e uns bons mexilhões) e as praias de Pocillos e Matagorda, onde assentamos arraiais. Lugares sem muita história, mas que deixaram muita expectativa para o que veríamos nos próximos dias.

sábado, agosto 20, 2011

Mundo Árabe



Antes de conhecer in loco algo do mundo árabe, se tivesse que escolher uma foto que o mostrasse seria exactamente esta, tirada em Amman. É mesmo igual àquelas imagens que aparecem nos filmes palestinianos / israelitas, não?

Saadiyat, a ilha da cultura

Os planos para a ilha de Saadiyat são entusiasmantes e, como não podia deixar de ser, ambiciosos e milionários.
As maquetes e bonecos dos projectos mais importantes pensados pelos arquitectos mais importantes:


Museu Guggenheim, de Frank Gehry


Museu do Louvre, de Jean Nouvel


Performing Arts Centre, de Zaha Hadid


Zayed National Museum, de Norman Foster


Museu Marítimo, de Tadao Ando

Grande Mesquita de Abu Dhabi em Fotos

























Abu Dhabi



Abu Dhabi é a capital dos Emirados. O seu nome significa "pai das gazelas" e este é o Emirado com as maiores reservas de petróleo e gás e, por comparação ao vizinho Dubai, tem sido mais consciente, controlado e sustentado na loucura da construção de edifícios, parques temáticos e ideias estapafúrdias. Mas isso não quer dizer que também não tenham os seus instintos de petro ricos e não avancem megalomania afora. Exemplos: a maior Mesquita fora da Arábia Saudita, a criação de uma ilha artificial para albergar um circuito de Fórmula 1 e o parque Ferrari World, um hotel de não sei quantas estrelas tão luxuoso e distinto que é confundível com a residência oficial do sheik e, o que será a cereja no topo do bolo, previsão para os próximos anos de construir a ilha da cultura, com projectos dos maiores arquitectos do mundo para albergar o novo Guggenheim, o novo Louvre e mais um museu marítimo. Isto, faça saber-se, num país onde o maior museu não é maior do que qualquer museu de uma qualquer província de Portugal.
Abu Dhabi é mais conservadora do que o Dubai. Para nós, o tratamento especial que é dado às mulheres livrou-nos de ficar numa fila que nunca mais acabava na volta do autocarro à noite para o Dubai. Daqui até à capital é cerca de 1 hora e meia numa estrada sempre em excelentes condições e num autocarro confortável que está sempre a sair.



Em Abu Dhabi a imagem do sheik é omnipresente, com fotos por tudo o que é local. A devoção que lhe é prestada só é ultrapassada pela devoção a Alá. Comecemos então por dedicar umas linhas à Mesquita.





Como havia referido atrás, a Grande Mesquita de Abu Dhabi é a maior do mundo tirando a de Meca e Medina na Arábia Saudita. Aqui parece que entramos no reino do mármore e do ouro. Mas o branco intenso é o que domina esta imensa estrutura de minaretes, arcos e colunas, corredores, terraços e salas de oração, a uns quantos kms do centro da cidade, cerca de uma hora de autocarro. Aqui encontramos um mausoléu com o túmulo do sheik Zayed Bin Sultan Al Nahayan, onde um cântico de um grupo de 10 imans que vão lendo o Corão 24 horas por dia, todos os dias, o acompanha. Para além desta ser a maior Mesquita é também das poucas que os não muçulmanos podem visitar. As não muçulmanas, mesmo vestidas de uma forma bem comportada, observando as advertências do conservadorismo do Emirado, são obrigadas a usar uma veste que nos cobre da cabeça aos pés de um preto mais preto do que a minha avó viúva usa. E se o véu cai, como aconteceu insistentes vezes, e nos deixa uma ponta do cabelo à mostra, lá vem prontamente o senhor da Mesquita que zela pelos bons costumes avisar-nos para o compormos.



Para além do impressionante domínio do mármore e do ouro, encontramos ainda cristal de Murano e Swarovski usados para o maior candeeiro do mundo. Na grande sala de oração, com capacidade para 35000 fiéis, para alem dos deslumbrantes candeeiros, impera o tapete persa de uma soo peça que o cobre, feito por mais de 2000 mulheres no Irão, com o peso de 38 toneladas e que, como não podia deixar de ser, é o maior do mundo.







Não muito longe dali, na direcção contrária ao centro da cidade, fica a tal ilha artificial que acolhe um GP de F1, a Yas Island. O circuito está instalado numa marina, com vilas e um hotel no meio. Um hotel lindíssimo, há que acrescentar. Para quem gosta do desporto automobilístico, deve ser fantástico estar no deck de um barco, na varanda de uma vila ou no terraço do hotel a ver os carros passar em alta velocidade com o seu vruumm, vruumm característico.



Ali perto fica o Ferrari World, parque temático da marca do cavalinho rampante com atracções para todos os gostos, desde uma montanha russa à experiência de um test drive.





De volta à cidade, a sua corniche é linda e é uma maravilha caminhar ao seu longo, praias sempre bem arranjadinhas, com o mar de um azul tão intenso que só encontra rival na areia de um branco igualmente intenso. Este contraste dos elementos tem como resultado um postal irreal, sendo uma verdadeira surpresa que o Golfo Pérsico possa nos dar estas tonalidades que mais se espera encontrar nas Caraíbas ou na Polinésia.





No fim da corniche, que percorremos corajosamente durante uns kms sob um calor abrasador (ficamos com as camisolas tão coladinhas ao corpo que se fosse em Portugal de certeza que ganharíamos um convite especial para participar no concurso Miss t-shirt molhada do Correio da Manhã), fica o Emirates Palace, o tal que, se não estivéssemos em terra de petróleo em abundância, só podia ser a residência de um governante. Mas não, é um hotel cuja visita é atracção turística imperdível. Os seus salões são de um luxo só, os seus tectos hipnotizam e as suas casas de banho... bem, qualquer uma fica uma verdadeira bimba a olhar para aquelas torneiras e balcões acompanhados de ouro.





E por falar em companhia de ouro, podemos sair deste hotel com um bocado dele, uma vez que temos aqui uma espécie de ATM que em vez de nos dar notas dá-nos barras de ouro. Muito à frente...

E para o fim fica aquilo que me faz desejar voltar aos Emirados daqui a aproximadamente uma década para ver a evolução louca que não vai deixar de ter. Abu Dhabi tem como projecto fazer da ilha Saadiyat (http://www.saadiyat.ae/en) um espaço de cultura e, para isso, contratou os melhores arquitectos do mundo para projectarem as infra-estruturas que irão acolher as obras que o país não tem e que, faço ideia como €€€, irão passar a ter. Frank Ghery irá ficar com a nova filial do Guggenheim (à semelhança do que aconteceu com a de Bilbao), Jean Nouvel com o novo Louvre, Zaha Hadid com o performing arts center, Norman Foster com o museu nacional, Tadao Ando com o museu marítimo e mais, muito mais. Tudo isto já tinha ouvido sem crer muito. Mas agora vi as maquetas de sonho numa exposição no Emirates Palace (ah, esqueci de dizer que também tem um centro de exposições) e, não fosse a crise que se abateu um pouco por todo o mundo, não tendo os Emirados sido excepção, este projecto estaria para muito breve. Assim, dou-lhe a tal década.
Então ate lá.