sexta-feira, setembro 03, 2010

Rumo a Machu Picchu – 3.º Dia do Caminho Inca



Este dia, em que começamos a caminhar novamente às 7:30, seria um dia de paisagens luxuriantes e vários sítios arqueológicos. Bom, os sítios estavam lá, cobertos pelas intensas nuvens, mas estavam. Já a luxúria da vegetação da floresta, essa, só foi verdadeiramente perceptível bem de perto. Não percebemos, também, os lagos, a não ser este, pelo qual passámos bem juntinho.





Primeiro subimos durante cerca de uma hora, mas depois o caminho foi sempre fácil. O primeiro sítio arqueológico por onde passámos foi o de Runkurakay, mas foi em Sayaqmarka, lá no alto, que conseguimos imaginar o poder e visão dos incas. Desta fortaleza eles poderiam dominar todo o espaço que circunda a cordilheira e emitir sinais para os outros complexos sempre que fosse necessário. Depois daqui descemos e o tempo começou a levantar um pouquinho e entrámos pela floresta profunda. Linda.











A caminho de Wiñayhuayna, onde a nossa tenda foi montada, e com mais um sítio arqueológico de mesmo nome sentíamos que cada vez estávamos mais perto da montanha de Machu Picchu e tentávamos – em vão – identificar imagens conhecidas. Apesar do tempo algo fechado conseguimos observar paisagens fantásticas das montanhas e do vale com o rio Urubamba lá bem ao fundo.







É aqui, no local onde passamos a última noite, que podemos tomar o primeiro banho do trek. Prometeram-nos um banho quente, mas a verdade é que estava apenas tépido e apenas corria um fiozinho. Talvez por isso, ou não, quase ninguém opta por tomar banho, daí que não tivesse que esperar nadinha na fila que não existia. Apesar de dormirmos em tenda, existe um salão de apoio onde foi colocada a mesa de jantar e onde se pode comprar qualquer coisa para comer e beber. Houve música (dispensável) até às tantas.

Para mais tarde recordar ficou a cerimónia de despedida dos nossos carregadores, com direito a discurso por parte de cada um de nós e tudo. Só agora foi feita a apresentação, o que mostra bem a clivagem entre turistas e locais. Nem me venham com o argumento de que eles são pessoas muito simples (e são-no; alguns apenas falam quechua). A verdade é que nós, os gringos, somos encarados por eles como se de outro planeta viéssemos (e o contrário também será correcto). Talvez se as apresentações fossem feitas logo no início as coisas pudessem mudar um pouco, mas, bem sei, o convívio com os carregadores é bastante difícil pelo simples facto de que eles, estoirados, ainda se deitam mais cedo do que nós e durante o dia andam num ritmo infinitamente superior ao nosso. Unanimidade, porém, para a simpatia de todo o pessoal, sua destreza e qualidade dos serviços, com a cozinha à cabeça.

Uma outra clivagem aconteceu aqui. Como já foi dito, este trek de 4 dias / 3 noites é algo carote – 335 dólares por cabeça sem serviço de carregadores. A utilização dos serviços dos carregadores para levarem os nossos pertences fica em cerca de 30 Euros por pessoa e por dia. O casal canadiano e o dinamarquês pretendiam que o grupo desse uma média de 30 Euros por cada um de nós de gorjeta para a equipa de cerca 8 carregadores e mais 2 guias. As pelintras das manas portuguesas e da nena argentina não estavam muito nessa onda. Resultado: cada um deu o que entendeu, mas ficou visível a diferença de nível de vida (e de mentalidade?) entre os representantes dos vários países.
Bom, mas o melhor é ir deitar cedo que amanhã levantar-nos-emos às 3:30.

Rumo a Machu Picchu – 2.º Dia do Caminho Inca



Para este 2.º dia mudámos de estratégia e enchemos uma mochila o mais que pudemos para deixar a outra bem levezinha e irmos trocando entre nós o pouco peso que restou. Não que o peso do 1.º dia tivesse sido insuportável, mas o panorama que nos anteciparam para este 2.º dia roçava o assustador. Indo directamente ao final, a carregar as nossas coisinhas todas acho que não nos safávamos desta jornada.
Foi, efectivamente penoso a espaços. A muitos espaços, para dizer a verdade. Iniciámos a caminhada às 7:30 e foram cerca de 5 horas e meia sempre a subir até chegarmos aos exactos 4215m de altitude (o ponto mais alto do caminho) até ao passo de Warmiwañusca, também conhecido como o “passo da mulher morta”, vá-se lá saber porquê. Literalmente, é ir até lá e receber os incentivos e os aplausos dos companheiros que vão chegando primeiro.







A paisagem é brutal, já sem o rio por perto, tão alto íamos, mas com o vale esmagador ao nosso redor. É até um contra-senso, ter-se esta paisagem toda a nossos pés e não se conseguir aproveitá-la convenientemente, tal era o cansaço. As minhas habituais dores de cabeça aproximaram-se do insuportável (o mal de altitude também não deve ser alheio à coisa).







E depois de chegarmos até mesmo lá em cima, toca a descer por quase 2 horas. Se a subida não era tecnicamente difícil, já a descida sempre de pedras irregulares e com degraus muito altos obrigava ao máximo de atenção. Aqui começa o caminho inca original, com muitas mexidas para restauro ao longo dos tempos, é claro.
Mais uma vez, a subida e a descida dos carregadores é impressionante.



Neste 2.º dia são cerca de 11 km em 7 horas de percurso, daí que a opção tenha sido almoçar no final, já no acampamento, em Pacaymayo. Depois, sesta, jantar e dormir. Enfim, vida quase boa e a certeza de que o pior havia ficado para trás.

Rumo a Machu Picchu – 1.º Dia do Caminho Inca



No total dos 4 dias são 33km de caminhada pelo Vale Sagrado até se chegar ao destino: as ruínas incas de Machu Picchu.
O caminho tradicional – turístico – de 4 dias tem o seu início ao km 82 da estrada de Cusco para Aguas Calientes, a cerca de 2200m, e é apenas um dos muitos caminhos que os antigos incas percorriam. Para se seguir por estes trilhos há que fazê-lo obrigatoriamente com uma agência e guias devidamente licenciados, com verificação de documentação e registo de entrada ao início do caminho. Temos até direito a carimbo no passaporte. Os grupos nunca são muito grandes e o nosso – sorte – tinha o que será a dimensão ideal: 6 pessoas, a saber, 2 irmãs portuguesas, 1 casal canadiano, 1 argentina sola e 1 dinamarquês quarentão. Todos os outros tinham trinta e poucos anos. Poderia haver grupo mais uniforme? Com o correr dos dias viríamos a concluir que nem escolhidos a dedo nos poderíamos vir a dar melhor.

Este tour não é nada barato. No nosso caso foram 435 dólares por pessoa, sem o carregamento dos nossos pertences pelos carregadores e respectivas gorjetas. Há que não carregar com muita coisa, mas é inevitável levar alguma roupa – tanto faz calor quando o sol abre, como frio quando o sol se vai –, alguns snacks para ir comendo quando a fome aperta e o cozinheiro ainda não deixou a mesa pronta, alguma água para não desidratar, repelente para combater os bicharocos, protector solar, estojo de primeiros socorros não vá o azar bater à porta, máquina fotográfica para a posteridade e … seca, saco cama e rolinho para fazer de assento e a dita cama não ser tão dura. Os carregadores têm um trabalho a raiar o absurdo (e nós compactuamos com isso) e levam às costas, para além das suas coisas, o que os turistas lhes pagam para levar (dizem que com um muito duvidoso limite de 20 kg), as tendas, as mesas e cadeiras onde vamos fazer as refeições e comida e bebida para os dias todos. Todos têm um aspecto gasto, muito superior à sua idade real, usam umas sandálias que não os protegem minimamente e deixam ver claramente os pés com cortes largos e profundos. E lá vão a correr, passando por nós, levezinhos, quase que em excesso de velocidade.



Neste primeiro dia alancámos com aquele peso todo e iniciamos os cerca de 13km e 5 horas pelas 11:00. Foi uma caminhada fácil, sem grandes subidas, com o rio Urubamba, que aqui toma o nome de Vilcanota, por companhia e banda sonora, ouvindo ora vagamente ora intensamente o som da sua água a correr, e as montanhas com o topo nevado a dar grandiosidade ao cenário. O vale é belíssimo.



Vimos o primeiro sitio arqueológico do caminho desde cá de cima – o Llactapata, com os seus socalcos de terraços circulares.





Pelo caminho - apenas do primeiro dia - ainda se vão encontrando pequenos povoados e vendedores de refrigerantes e chocolates.



Chegamos ao acampamento, em Wayllabamba, a cerca de 3100m – os carregadores haviam chegado bem antes e já tinham as tendas montadas – e com pouca demora jantámos. Depois de um almoço de truta, à noite foi a vez de carne com arroz. Neste primeiro dia ficámos com a suspeita – todas as refeições seguintes confirmada – de que o cozinheiro era fantástico: comida variada, sempre com sopa, prato principal e sobremesa.

Apesar de a caminhada deste primeiro dia ser fácil, o cansaço estava instalado e só me apetecia era ir dormir (talvez por desconfiar que não o iria conseguir fazer, afinal de contas seria a minha estreia a dormir em tenda). Eis senão quando chega um grupo de velhotes (mesmo) alemães para perto de nós, mas para se juntarem às cervejolas que uma pequena mercearia vendia no local onde assentaram o nosso acampamento. O certo é que a cerveja deve ter-lhes dado bastante energia porque no segundo dia saíram pouco antes de nós e nunca mais os vimos a não ser novamente à noite, no novo acampamento. Haja vigor.

quinta-feira, setembro 02, 2010

A caminho de Machu Picchu

E, finalmente, o caminho inca. O tão sonhado e desejado caminho inca aos 35 e 34 anos das manas.
Machu Picchu é o sítio arqueológico mais importante do continente americano. Descoberta apenas em 1911 pelo historiador americano Hiram Bingham – que possui um livro disponível na internet sobre a sua expedição “Inca Land – Explorations in the Highlands of Peru” em www.gutenberg.org/etext/10772 - , a cidade (que se julgava) perdida dos incas é o destino de quase todos aqueles que vêm a Cusco e, até, ao Peru.
Existem várias hipóteses para se lá chegar. A mais comum é a viagem de comboio de cerca de uma hora e meia a partir de Ollantaytambo (a cerca de duas horas de autocarro de Cusco) até Aguas Calientes, o povoado sem graça que nos recebe antes de entrarmos na cidade dos incas. Um aviso. Em tese, qualquer pessoa, nova ou velha, pode alcançar Machu Picchu. Acontece, porém, casos de quem por força da elevada altitude de Cusco (3326 metros) e de uma má aclimatização à zona tenha de voltar para altitudes mais baixas. Machu Picchu, essa, está apenas a 2430 metros acima do mar, logo, não é isso que irá impedir a jornada. Mas que atrapalha, ai isso atrapalha.
Apesar de existirem treks alternativos de mais ou menos dias, a outra hipótese mais comum de se chegar a Machu Picchu é percorrendo o trek de 4 dias – o caminho inca original (ou mais ou menos original, como se verá depois). Quem opta por este trek percorre caminhos que atingem os 4200 metros. Um novo aviso, pois. Em tese, qualquer pessoa, nova ou velha, com um mínimo de preparação física pode alcançar Machu Picchu desta forma. Acontece, porém, casos de quem seja atleta, que se considere numa condição física bem acima dos mínimos e se veja e deseje para conseguir terminar o trek. Bom, talvez seja exagero da minha parte esta descrição. Mas que o segundo dia do trek, o tal onde se vai a modestos 42000 metros de altitude, é verdadeiramente difícil e, até, penoso, ai isso é.
Sigamos, pois, dia a dia a nossa caminhada adentro o mítico império inca.

quarta-feira, setembro 01, 2010

Os Mercados do Vale Sagrado



E porque as compras fazem também parte da viagem, ainda para mais se de produtos de artesanato e têxtil bonitos e a óptimos preços se tratar, uma visita aos mercados do vale sagrado não pode faltar.





O mercado de Pisac é o maior da região e ao domingo torna-se gigantesco mesmo. Um aviso para quem estiver efectivamente interessado em explorá-lo convenientemente: com meia hora não dá nem para passar da primeira rua e com uma hora apenas chegamos à entrada do mercado que merece mesmo ser visto.
No nosso caso montámos uma estratégia bem cerrada para não chegarmos atrasadas ao autocarro da excursão e, com isso, passámos a correr pelo artesanato e os têxtis (que outros mercados e lojas também vendem) para depois voarmos pelas frutas e comidas (onde as cores e o movimento intenso são reis). Soube a pouco, óbvio.



Fica o resumo - compras de artesanato é com Pisac; compras de têxtis é com Chinchero.
Este último, diz-se que o local onde nasceu o arco-íris, com o bónus de se poder escolher os produtos no terreiro defronte da amorosa igreja colonial. No nosso caso, então, tivemos ainda outro bónus, o de escolher as peças coloridas às escuras, uma vez que o sol já nos havia abandonado. Sem lamentos, o que trouxemos a mais na mala satisfez.

Pisac e Ollantaytambo



Dos que visitámos, Pisac é provavelmente o maior sítio inca depois de Machu Picchu. Um antiga cidadela, com os terraços típicos dedicados à agricultura, templos, tumbas, tudo isto no topo de uma montanha sobre o vale sagrado donde, diz-se, os incas podiam controlar o seu império.

Mais encantadora, porém, é Ollantaytambo. Tambo significa povoado e este foi continuamente habitado desde o século XIII. É uma fortaleza inca que entrou para a história não só pela sua beleza e localização geográfica únicas, mas também por ter sido aqui que os espanhóis perderam uma das suas poucas batalhas contra os incas.





Mais uma vez os terraços incas não faltam, e imensos como não podia deixar de ser. No topo encontra-se um templo cerimonial e uma vista fabulosa para as montanhas andinas e vale sagrado.



As cores do fim de tarde parecem jogar um jogo em que os tons variam aqui e ali, sempre intensos e inesquecíveis. Na montanha à frente das ruínas vemos mais ruínas e perguntamo-nos como as conseguiram os incas esculpir num plano tão inclinado. E, o que é aquilo? A cabeça de um inca? A imaginação no vale sagrado não pára.



sábado, agosto 28, 2010

Maras/ Moray





Moray foi o primeiro sitio que visitamos e, logo, que surpresa, que lugar incrível. É um anfiteatro circular que os incas criaram e usaram para fazerem experiências com as várias espécies de culturas, dado o microclima que aqui se verifica. O nosso guia explicou que por cada socalco a temperatura descia dois graus centígrados. Fizemos questão de descer tudinho até lá baixo (estes “degraus”, pode não parecer, mas são enormes) e, há que dizê-lo com frontalidade, não o sentimos. Mas isso não retira nenhum encanto a Moray. Aliás, creio, daqui podiam ser inventadas as mais disparatadas histórias que bastava-nos tapar os ouvidos e só ver e ver e ver a lindeza que é este lugar rodeado pelas montanhas dos Andes, alguns com os seus picos nevados. A única coisa que se perdia era perceber como é tão fantástica também a acústica do sítio.






Moray fica perto do lugarejo de Maras onde, outra surpresa, existem umas salinas exploradas já desde o tempo dos incas. Divididas em quadrados ou rectângulos que vistos de longe parecem conter neve, estas salinas estão encravadas entre montes e vão se revelando aos poucos. Caminhamos pelas estreitas passadeiras que dividem os vários cantinhos, tentando não cair na saladeira, enquanto os senhores e senhoras os vão trabalhando e nos permitem confirmar que aquela água não é água, aquela neve não é neve, é mesmo sal e bem salgadinho.

sexta-feira, agosto 27, 2010

Vale Sagrado

Dadas as distâncias, as estradas e a própria flexibilidade e frequência de transportes públicos, a melhor opção para se visitar o Vale Sagrado é através de uma visita organizada em grupo (ou alugando um táxi só para nós). Com isso perde-se uma das experiências mais incríveis que se pode ter na América do Sul – o viajar com e como os locais.
Os lugares indisputados são os de Maras e Moray, Pisac e Ollantaytambo, bem como os mercados de Pisac e Chincero. O problema das excursões, para além de lá caírem os bimbalhocos todos (lugar onde livremente nos poderão também incluir), é que uns pretendem dedicar mais tempo aos sítios arqueológicos, outros aos mercados para as comprinhas e outros ainda ao almoço. Para agradar a todos, e como de costume, feitas as contas não se fica tempo suficiente em nenhum lado. Ou seja, resta aquela sensação do podia ter sido mas não foi. E foi mesmo o caso, com direito, porém, a um bónus de uma emocionante discussão e quase motim quando o intrépido guia decidiu arrancar com o autocarro face ao atraso do casalinho peruano, mesmo tendo estes os seus pertences no dito autocarro. “Solidários”, gritou a argentina ao meu lado, talvez em memória do seu conterrâneo mais famoso. O certo é que o autocarro não arrancou sem o parzinho e estes insistiram em continuar a chegar atrasados. Resultado? Chegada a Chincero no final do dia, com a noite posta.
Uma treta, esta vida de excursionista forçada.
No entanto, esta visita pelo Vale Sagrado, com o Rio Urubamba e as montanhas dos Andes por companhia é obrigatória e inesquecível pela quantidade e qualidade de vestígios portentosos que os incas nos legaram.

quinta-feira, agosto 26, 2010

Cusco, o Umbigo do Mundo

Indo directamente ao assunto: depois de conhecer Sucre e Potosi, na vizinha Bolivia, a bitola no que a encantamento diz respeito por cidades coloniais fica muito elevada. Ou seja, cara peruana Cusco, até o tentaste mas não o conseguiste. Não obstante, mereces muitas palavrinhas e fotografiazinhas.

Cusco é a porta de entrada para a maioria dos turistas que visitam o Peru e é uma excelente base para se partir para inúmeras atracções no Peru. Facilmente se perde (ou, neste caso, ganha) à sua volta um mês a visitar locais tão diferentes como as igrejas da própria cidade de Cusco, a omnipresente Machu Picchu, as cidadelas no Vale Sagrado e os seus mercados artesanais e têxteis, caminhando, pedalando, andando a cavalo ou fazendo rafting nas suas proximidades ou partindo para umas trips de 4 ou 5 dias para o Parque Nacional Manu (já na selva da Amazónia) ou para o Lago Titicaca e suas ilhas flutuantes. Tudo sempre com muita emoção e boa onda.
Porém, antes de ser uma cidade colonial, Cusco foi o centro do império Inca. Reza a lenda que o primeiro Inca, Manco Capac, foi mandatado pelo deus do sol, Inti, para encontrar um local a que correspondesse o umbigo do mundo – e eis como surgiu Cusco, ou Qosq´o em Quechua. Depois, os espanhóis chegaram em 1533 e começou a queda dos incas e o ocaso de Cusco. Destruição pelos espanhóis e destruição por alguns terramotos levam a que hoje quase não se encontrem vestígios dos incas em Cusco (bem diferente é o que se passa nas suas redondezas), tirando os muros inca da estreita Hatunrumiyoc e da não tão larga assim Loreto, bem como de alguns aspectos preservados do sítio de Qorikancha, em tempos o mais rico templo do império inca.



Até que em 1911 Machu Picchu foi “descoberta” e desde ai Cusco entrou definitivamente no mapa da arqueologia mundial e no pensamento de 10 em cada 10 turistas do planeta Terra.
E turistas é o que mais se encontra em Cusco. Bares, restaurante, agências de viagem, lojas de câmbio, tudo. Queremos ver as meias-finais do Mundial de Futebol da África do Sul? É só escolher entre o bar uruguaio, o bar holandês, o bar alemão ou o bar espanhol. Este último é mais difícil, tal é ainda o ressentimento para com os espanhóis. Mas espanholitos é o que não falta por aqui. Melhor, parece não faltar nenhuma nacionalidade neste melting pot em que todos nos encontramos num mesmo sítio com um objectivo comum: o cumprir de um sonho, de uma aventura, a chegada a Machu Picchu, seja a caminhar, a cavalo, de comboio, o que é preciso é chegar à mais mítica.





Cusco é a Plaza de Armas, imensa, com a catedral a dar-nos as horas, como se fosse necessário haver horários nos fins de tarde de tempo limpo e azul intenso passados num dos balcões dos seus edifícios coloniais (já bem adulterados). Ou simplesmente sentados junto a uma das colunas que nos deixam entrever a Plaza.





Os turistas têm até direito a MacDonalds. Ou, melhor, os cusquenhos têm direito a MacDonalds. Aliás, é só começar a descer a Av. del Sol, fugindo da Plaza de Armas, para se sentir que Cusco tem vida para além dos turistas, com universidade, tribunal, lojas práticas. Mas esta demarcação, que surge naturalmente, é bastante vincada, pois afastando-nos um pouco da praça deixa-se quase de ver turistas para se ver quase só cusquenhos. O que, se não é perfeito, evita-nos aquela sensação de passar por uma cidade sem a compreender nadinha, sem vislumbrar sequer um seu habitante, sem chegarmos sequer a poder imaginar como será um pouco da sua vida do dia a dia.





Voltando à Plaza de Armas, junto aqui fica a zona mais turística, com as ruas desordenadas com as lojas para os mochileiros e os mercados sempre iguais. Um pouco mais afastado fica o bairro de San Blás. Onde? Lá para cima, é subir um pouquinho. Só que… qualquer pouquinho nesta altitude equivale a subir todos os degraus da Torre dos Clérigos a correr. Em San Blás ficam os artesãos e os estrangeiros que aqui chegaram, viram e ficaram. É, talvez, dos lugares mais pitorescos de Cusco, onde o esforço de caminhar pelas suas ruas estreitas e inclinadas compensa, mais não seja pela vista que se vai poder observar.
E de Cusco, tirando alguns pequenos museus algo interessantes, estamos mais ou menos conversados. Partamos, então, rumo ao Vale Sagrado, onde o nosso carote bolleto turístico nos dará acesso a um punhado de sítios fantásticos.

(Apenas um comentário mais. Aqui há três anos havíamos estado em Puno, cidade peruana junto ao Titicaca, e pudemos verificar que os edifícios pura e simplesmente não eram terminados, ficando não só por pintar como por levar telhado. Em Cusco e arredores tudo é diferente. A província é outra, certo. Mas a diferença é grande e tirando a paisagem que nos é estranha, os telhados com telha de cor ocre é nos bastante familiar. Dá um ar mais composto e deixa-nos a impressão de que esta zona não será assim tão pobre. Será?)

domingo, agosto 08, 2010

Bienvenidas a Lima



Aproximação a Lima pela Pan Americana vindas do norte, com o deserto sempre como companhia

Lima La Fea?

De tanto ouvir que Lima não tinha nada, nada havia a conhecer, não valia a pena perder tempo com uma cidade feia e sem atractivos para o viajante, quase que acreditei. Quase. Passei lá apenas 2 dias inteirinhos, mais um fim de tarde. No total, foram 3 idas a Lima. 3 idas que não deram para compreender a capital do Peru (aliás, nunca chego a compreender uma cidade). Mas que, sei-o agora, foram insuficientes para qualquer tentativa de compreensão. Moral da história? Nunca acreditar em tiradas do género “aquele sitio não vale nada”.
Mais a mais, a minha história com Lima é até bem incompreensível. Estreei-me na América do Sul, em 1988, com a Venezuela, com uma curta paragem em Caracas (lembro-me dos seus barrios – estética urbana até ai inimaginável para uma adolescente portuguesa – e de um seu centro comercial ultra moderno – algo igualmente inimaginável para os adolescentes portugueses de então, apesar de as Amoreiras serem então um bebé de quase 3 anitos). Desde aí tenho voltado por diversas vezes à América do Sul. Lima sempre foi uma cidade que desejava conhecer. Melhor. Lima sempre foi a cidade que desejava conhecer. Sem que saiba porquê.



O primeiro dia em Lima passámo-lo todo entre os bairros chiques e modernos de Miraflores, Barranco e San Isidro, por esta ordem. Uma doce caminhada sempre junto ao Oceano Pacifico com os surfistas em manobras lá em baixo. Digo lá em baixo porque a costa desta zona de Lima é verdadeiramente esquisita. Ao areal não muito extenso segue-se uma montanha abrupta de cerca de uns vinte metros que separam a “cidade” da praia. Lima é a segunda maior cidade do mundo num deserto (a primeira é o Cairo) daí que a paisagem seja muitas das vezes algo inóspita. Mas… quem tem o mar por perto tem quase tudo. E quem tem ondas, bom, aí tem mesmo tudo.



O extenso pontão (“muelle”) lá em baixo, na Playa Costa Verde, vem trazer um pouco de beleza á paisagem (e, parece, traz também um agradável sabor ao paladar, já que é lá que fica o famoso restaurante Rosa Naútica).



Antes disso, porém, cá em cima, passámos pelo Parque del Amor e as suas esculturas de amantes e idílicos banquinhos de azulejo a lembrar Gaudi com frases apaixonadas de amor definitivo com vista para o Oceano.
Um pouco mais adiante, e sempre virado para o mar, fica o LarcoMar, um complexo com lojas e restaurantes da moda, a ver se nos engana que estamos na Europa. Aqui em Miraflores é assim, praticamente os dois pés na modernidade tal como a (re)conhecemos. San Isidro igual. Barranco já tem um outro encanto, com as suas casinhas baixas e praças mais pequenas e acolhedoras.



Mas estes três bairros, suspeitámos logo no primeiro dia e confirmámo-lo depois quando nos dedicámos ao centro de Lima, são um caso à parte. Aqui os miúdos vestem de Quiksilver e Billabong, passariam por um qualquer miúdo da nossa linha. Já os miúdos do centro – e as lojas – fazem-nos lembrar o Portugal dos anos 80. Um contraste imenso, como duas cidades distintas na mesma cidade. Nada que desiluda, refira-se.
Pelo contrário, o centro de Lima acabou por ser uma agradável surpresa. Esqueça-se a Jirón de la Unión – as compras têm mesmo de ser em Miraflores. Mas faça-se questão de a atravessar para se sentir o movimento da capital, parando nas várias igrejas dos seus arredores até chegar à Plaza de Armas, o verdadeiro centro não só da cidade como do país. Aqui se montam os ecrãs gigantes para se acompanhar o campeonato do mundo, aqui vêm os noivos fotografar o seu casamento, aqui o povo mostra o seu descontentamento face a qualquer aspecto social (ainda para mais o Palácio do Governo até está instalado na Praça), aqui as gentes de todo o Peru desembocam para fazer as suas festas, vestidas a rigor, tocando a sua música, como aconteceu naquele domingo fervilhante de vida que tivemos a sorte de testemunhar.





Para lá da Plaza de Armas fica o Rio Rimac (seco) e a paisagem dura dos morros com as suas casas alcandoradas. Mas antes, paragem obrigatória para quem gosta das letras ou, então, vá lá, de comboios. A antiga Estación de Desamparados já não vê passar comboios, mas podemo-nos sentar nos bancos onde outrora se aguardava por eles a ler um bom livro da boa literatura peruana, uma vez que o edifício da antiga estação foi maravilhosamente reconvertido na Casa da Literatura Peruana (site em http://www.casadelaliteratura.gob.pe/ ). Mais cultura na zona central de Lima encontramo-la rumando em direcção do Centro Civico (concorrente de peso de Miraflores no quesito compras em lojas da moda) e chegando ao Parque da Cultura, onde se encontram o Museo de Arte Italiano e o Museo de Arte de Lima (sem tempo, infelizmente, para os visitarmos).







Para lá chegar, e depois de voltinhas e mais voltinhas pelas ruas que rodeiam a Plaza de Armas, encontramos uma série de edifícios coloniais, uns vermelhos ocre, outros de um azul vivíssimo, outros ainda verdes ou amarelos, com os seus balcões típicos. Quem consegue manter a ideia de que Lima é feia depois de sentir a companhia de todo este colorido? Ok. Está bem. Há que dizer para quem não sabe. Lima tem um problema. Grave. O céu. O que é que tem o céu, pergunta alguém? Pois, esse é o problema, não se consegue ver o céu para lá das sempre presentes nuvens. Razões geográficas explicam o fenómeno e a corrente fria de Humbolt aparece como ré. Qualquer coisa assim do género, os ares que vêm do Pacifico esbarram na Cordilheira dos Andes, não muito longe dali, donde resulta uma concentração estranha no ar que faz com que a humidade e as nuvens ali assentem arraiais. E pronto, esta é a história dos edifícios coloridos – são assim para combater a tristeza da escuridão que o céu nos traz em Lima.



E por fim, apenas tivemos direito (= tempo) a uma escapadela até ao Bairro Chino, a sudeste da Plaza de Armas. A forte imigração chinesa para o Peru iniciou-se no século XIX e hoje forma uma das maiores comunidades fora do seu país (tal como a comunidade japonesa). A rua que lhe serve de entrada tem um arco chinês a anunciar o bairro e logo aqui se percebe que a vida é intensa, um corrupio para lá e para cá quer dos comerciantes quer dos visitantes que enchem as inúmeras chifas (restaurantes chineses peruanos). Alguém tinha desaconselhado a vinda até aqui por questões de segurança. Mais uma vez, em boa hora não demos ouvidos a esta tirada tão comum. Lima terá certamente muitos problemas de pobreza e insegurança, mas como qualquer sitio que se faz questão de visitar é só tentar agir como um local e não evitar os locais que os próprios não evitam. Ou seja, tentar a integração. Talvez com mais uns dias dedicados a Lima (que bem o merece) o consigamos plenamente.

domingo, agosto 01, 2010

Planos de Viagem no Peru



Em 2007 tinhamos previsto dividir-nos entre o Peru e a Bolívia, com o óbvio highlight de conquistar Machu Picchu. Só não contávamos é que seria necessária tanta antecedência para reservar um dos limitados lugares diários para o Inca Trail.
Em boa hora mudámos de planos e dedicámo-nos praticamente em exclusivo à Bolívia (com uma curta ida até Puno e às ilhas flutuantes de Uros no Titicaca peruano). Com isso, falo por mim, tive a viagem da minha vida.
Mas Machu Picchu não ficou esquecida e o ano de 2010 teria de ser o ano em que não a deixaríamos escapar. A expectativa era alta, mas não seria o único local a visitar. Metade da viagem, no entanto, seria dedicada a Cusco e seus arredores. Ainda pensámos numa ida até Manu, porta de entrada em parte da Amazónia peruana, e não muito distante de Cusco, mas ainda terei um longo caminho a percorrer para me livrar do medo da selva (logo, Iquitos, no norte da Amazónia peruana é apenas um sonho distante).
Assim, entre Arequipa e o Cañón del Colca, no sul, e Trujillo e as cidades arqueológicas e praias, no norte, optámos por estas últimas. Os textos de Gonçalo Cadilhe acerca do Museu Tumbas Reales de Sipán e as extensas ondas de Puerto Chicama e Pacasmayo foram decisivos para esta escolha do itinerário da nossa viagem que se restringiu a apenas duas semanas.
Em seguida, alguns pormenores e histórias.