segunda-feira, julho 16, 2012

Porquê a Índia?


De Agra para Delhi seguimos de comboio. Que era fácil comprar bilhetes na estacão, diziam, estavam sempre a sair comboios para lá. Compramos o único bilhete que nos venderam, um bilhete geral por 62 rupias, qualquer coisa como 90 cêntimos de euro, e disseram que fizéssemos um upgrade não sei onde com não sei quem. Quem vendeu o bilhete disse que o próximo comboio para Delhi seria às 15:00, um fulano à entrada da estacão disse ser às 16:00 e os oficiais de serviço informaram categoricamente que era às 17:00. Fosse como fosse, ainda não eram 14:30 e não havia como matar o tempo. Nem tínhamos nenhum pano tipo sari para estender sobre o chão, como as locais fazem. Cadeiras ocupadas, restou-nos sentar num género de banco e deixarmo-nos estar ali a observar. A lixeira e os sacos deixados na linha. Os cidadãos, de todos os géneros e idades e com todo o tipo de bagagem, a passar para as plataformas pela linha; mesmo com uma das linhas ocupada pelo comboio eles passavam por baixo das carruagens.

É aqui, neste momento de inevitável contacto com o cidadão comum (que não pretendemos que não exista nas nossas viagens) que vemos como as nossas culturas estão tão distantes. A noção de perigo e respeito pelo ambiente não existe. Assim como não parece existir pudor no que toda a satisfazer as necessidades fisiológicas de cada um. Em nenhum outro lugar ou momento vimos tantas pilinhas e rabinhos ao léu. Num momento o rapaz está a segurar o seu material para fazer uma mijinha e logo de sacudida nos está a indicar com a mesma mão o seu autoriquexó.

Sim, a Índia que vimos é suja. Sim, alguns muitos indianos têm hábitos que nos repugnam, mas cuspir constantemente talvez não caia mal a muitos dos nossos compatriotas.

Então porquê visitar a Índia? Porque tem edifícios fabulosos, sim. Rituais dignos de serem observados, sim. Uma comida deliciosa, passados uns dias de adaptação. E também porque tem rapazes e raparigas lindíssimos, com traços finos, simpáticos e comunicativos. Curiosos, sempre. E raros são os que cheiram mal, assim como as ruas cheiram mal apenas quando a ocupam com bosta das vaquinhas sagradas.

Toda uma outra cultura a respeitar e com que conviver sem preconceitos.

Fatehpur Sikri


A cerca de 40 kms de Agra, e à distância de um autocarro local por 40 cêntimos, fica Fatehpur Sikri, antiga cidade fortificada que foi capital do império Mughal com Akbar, entre 1571 e 1585.

Diz a lenda que Akbar visitou a vila de Sikri e um santo sufi previu o nascimento de um herdeiro. Quando tal aconteceu, Akbar construiu a capital aqui e hoje, distintos e bem conservados, temos uma brutal mesquita e os três palácios que o imperador mandou erguer para cada uma das suas três mulheres favoritas: uma hindu, uma muçulmana e uma cristã, a atestar a sua tolerância religiosa. Diz-se que esta última veio de Goa e se chamava Maria. Sobre o relacionamento com a sua mulher hindu, de quem se diz que era a sua preferida, o filme indiano Jodha Akbar mostra algumas coisas. A cidade acabou por ser abandonada logo após a morte de Akbar, principalmente pela falta de água de que padecia.

E que dizer da mesquita - Jama Masjid - e dos palácios e pavilhões? Bom, sob o dilúvio nada parece ser agradável, mas em se tratando da monumental Fatehpur Sikri pode ter-se a certeza de que é soberba.

















A surpresa começa logo pela impactante escadaria quase em linha vertical recta que leva a uma imponente porta de 54 metros de altura.

















Diz-se que se atarmos um fiozinho aos intrincados de mármore aqui dentro da tumba e pedirmos um desejo ele será cumprido. Pelo menos foi isso que aconteceu com a Carla Bruni que aqui pediu um filho de Sarkozy e quando voltou para França viu o seu desejo cumprido. Palavra do guia local.





























O complexo de palácios e pavilhões é extremamente agradável de se percorrer. Com pátios enormes, a que não falta sequer uma piscina ornamental, a arquitectura dos seus edifícios mistura aspectos da cultura indiana, islâmica e persa. Torres, colunas, balcões, janelas intrincadamente decoradas, um mimo para os nossos sentidos. E jardins verdejantes a contrastar com o ocre das construções.




domingo, julho 15, 2012

Em Agra, terra do Taj Mahal


No nosso primeiro dia em Agra a monção começou a dar nas vistas. Não havia sol nenhum, por isso não pudemos fazer check no item "ver o nascer do sol junto ao Taj Mahal". Ainda assim, levantamo-nos cedo e às 7 horas já lá estávamos dentro, convencidas que íamos evitar a multidão retardatária.

Pois, pois.



Ao primeiro vislumbre do Taj, ainda numa espécie de antecâmara de todo o complexo monumental, sentimos logo que nos íamos emocionar, mas quando passámos a gigantesca porta vermelha ocre já só pensamos em afugentar a maralha toda ali plantada mesmo em frente aos seus jardins a tirar a foto da praxe.

Penámos para conseguir uma com as duas manas, Taj embelezado com os jardins. Check.

Mas a foto mais tradicional, a do banquinho, essa poucos a conseguiram naquela manhã. Tinha avisado no inicio deste post: a monção começou a dar nas vistas. A partir daqui e até ao começo da tarde foi um dilúvio impiedoso para com os dedicados turistas. Nós, ainda assim, prosseguimos na nossa missão de nos encantarmos pelo Taj de qualquer forma.

O Taj Mahal foi mandado construir por amor. O imperador Mughal Shah Jahan foi o responsável pelo maior acto de amor do universo, do qual resultou o maior monumento ao amor. Mandou erigir o Taj após a morte da sua mulher, Mumtaz Mahal, que morreu ao dar à luz o 14.º filho de ambos. Assim, entre 1631 e 1653, Agra, então capital do império Mughal, viu surgir o mais grandioso e emblemático dos mausoléus.



Entrámos por uma das 3 entradas disponíveis e após a dita antecâmara surge-nos a monstruosa porta e  logo à espreita o Taj, majestoso e imponente, numa plataforma de mármore elevada, com jardim ornamental aos pés, 4 minaretes de 40 metros de altura a ladearem-no. À sua esquerda encontra-se a mesquita e à sua direita um edifício igual àquele para alcançar uma pura simetria.

Apesar de todo o contexto ser fantástico, é ao mausoléu em si que todos os olhares vão dar e não querem desviar. O Taj é feito de um mármore semi translúcido, branquíssimo. Tem pormenores florais, versos do Corão caligrafados nele inscritos e um sem número de pedras preciosas com diversos motivos. O seu interior não é nada comparado com o demais e, não, não sentimos qualquer cheiro a chulé.


O Taj Mahal é banhado pelo rio Yamuna e da outra margem, no parque Metab Bagh, costuma conseguir-se uma boa foto com o Taj reflectido na água do rio, onde também costumam parar os búfalos. Estes até estavam lá. O que faltava, pese embora toda a chuva que caíra pela manhã, era água suficiente no rio.



Um pouco mais adiante, nesta mesma margem este do rio, fica o Itimad-ud-Daulah, também conhecido como o Taj Bebé. É também um mausoléu, desta vez de Mizra Ghiyas Beg, um nobre persa que era avô de Mumtaz Mahal e ministro do imperador Jehangir. Esta tumba foi construída entre 1622 e 1628. Esta foi a primeira estrutura Mughal a ser construída inteiramente de mármore e a primeira também a instalar-se nas margens do Yamuna. Temos o mausoléu em mármore no meio e depois, como se de um losango se tratasse, quatro edifícios ocres com rendilhados esculpidos a acompanhá-lo. Mais uma vez, como no Taj, equilíbrio, simetria e elegância são reis.


Ainda mais acima no rio fica Chini-Ka-Rauza, outro mausoléu com vista para os búfalos a tomar banho. Este foi construído entre 1628 e 1639, para Afzal Khan, um poeta e ministro da corte mughal, mas não está tão bem conservado como os outros, deixando-se apenas perceber alguns dos seus azulejos azuis.

E, depois, em Agra há ainda que ver, pelo menos, o seu Forte. É também uma construção Mughal, iniciada com o seu imperador Akbar em 1565 com fins militares, mas o seu neto Shah Jahan, o do Taj Mahal, transformou-o numa série de palácios. Assim, às estruturas de cor ocre originais foram acrescentadas mais estruturas em mármore. O mais curioso é que o seu filho Aurangzeb depô-lo do trono e prendeu-o no forte, passando o pobre do Shah Jahan os seus últimos 8 anos de vida aqui, apenas contemplando do outro lado do rio a sua maior criação, o Taj, onde jazia a sua amada.


O Forte de Agra é fabuloso, mais do que o de Delhi, para onde a capital se mudou em 1648, no tempo de Aurangzeb. A fortificação ao longo de cerca de 2,5 km, com uns muros enormes de cerca de 20 metros, protege o interior do caos que se vive lá fora. Aqui perto fica a Mesquita e o Bazar Kinari, como sempre lugar de ruas intrincadas onde tudo se parece vender. As vacas e os macacos andam também por aqui, estes últimos saltando entre os balcões dos edifícios pejados de fios de electricidade.



Voltando ao forte e ao seu pacato ambiente, encontramos edifícios que eram utilizados para as audiências que o imperador proporcionava, quer públicas quer privadas. Perto desta última, no pátio, vemos um trono elevado com vista para o rio Yamuna e o Taj. Existem ainda duas mesquitas, uma delas muito delicada que era exclusiva para as mulheres da corte. Este edifício é em mármore, tal como outros correspondentes a palácios, mas o mais interessante é ver o contraste quase perfeito que produz esta junção entre edifícios em branco mármore e vermelho ocre. Quer num quer noutro vemos os rendilhados que os tornam ainda mais encantadores.





Depois de visitarmos o forte seguimos a pé para a zona do Taj. O tempo estava bom, mas à medida que nos aproximamos apenas poucas centenas de metros do tão estimado monumento começou uma chuvada. Uma certeza e uma rectificação ao dito no princípio do post: é a nossa presença face ao Taj que faz cair a chuva, não a monção.

sábado, julho 14, 2012

Comboio e Rabos




















De Khajurho há agora diariamente comboio para Agra (e Delhi). O comboio devia partir às 8:55, saiu uma meia hora mais tarde. Devia chegar pelas 17:30 a Agra, chegou lá pelas 20:00.

Esperávamos ainda ir ver o por do sol ao Taj Mahal, mas nem chegamos a tempo, nem o sol apareceu neste longo dia. Sempre uma chuva miudinha a bater na janela da carruagem. Feitas bem as contas, o comboio esteve mais tempo parado nas estacões e entre elas do que a rolar sobre carris. Em Gwailor, a umas 2 horas de distância do nosso destino final, sendo que já eram horas de lá ter chegado, e estando o comboio parado já há uma hora, fui perguntar a um funcionário se havia algum problema. Estou até agora encantada com a sua resposta: "indian problem".

Fomos numa carruagem com ar condicionado (obrigatório para sobreviver) em segunda classe. Éramos as únicas estrangeiras entre apenas mais uma dezena de autóctones.

Na estacão inicial de Khajuraho, uma multidão de indianos aguardava espalhada pelo chão. Apenas metade seguiu viagem e a outra metade ficou com mais espaço para se estender. Na nossa carruagem espaçosa e confortável fugimos da confusão e da maior intimidade com companheiros de viagem, mas assim passámos também ao lado do que seria uma experiência única. Provavelmente desconfortável, mas autêntica. Bem basta o estômago aos saltos.

Limitamo-nos, assim, a observar as cenas pela janela. Paisagem sem nota de registo de maior, terra ocre, pontilhada aqui e ali por um verde tímido das arvores e rios sem água.

Em cada apeadeiro de estacão, uma multidão. Em cada cruzamento com outro comboio da linha ao lado, mais multidão para lá das janelas com grades das carruagens sem ar condicionado, com os degraus de acesso ao interior da carruagem ocupados por rabiosques indianos.

E por falar em rabos, é inevitável mencionar a lixeira que se vê na linha. Garrafas, plásticos, papéis e bosta. Não de vaca, mas humana. Pudemos comprovar ao longo da viagem o quanto os indianos estimam a linha de comboio ao ponto de lá exercerem as suas necessidades básicas - calma, não chegámos a ver ninguém em cenas típicas das esculturas dos templos de Khajuraho. Mas gente a cagar ou a mijar, ui. E a comer. E a lavar-se. Não necessariamente por esta ordem, há que acrescentar.