A
primeira paragem da viagem coincidiu com aquele que é um dos esperados momentos altos de qualquer viagem ao
sueste asiático: Luang Prabang. E foi-o.
A partir daqui qualquer experiência corre o risco de ser batível. No entanto, haveríamos ainda de nos surpreender.
Depois de
bem instalados e melhor recebidos no hotel Vangsavang, fora do centro, mas a
uma curta pedalada nas bicicletas fornecidas gratuitamente pelo hotel, fomos
ver o pôr-do-sol desde o Monte Phu Si
na companhia da stupa que o encima. Subindo de um lado encontramos um templo,
descendo do outro uma série de Budas. Mas a viagem
vale pela paisagem altaneira de toda a Luang Prabang e da parte do Mekong que
lhe cabe, bem como do seu afluente Nam Khan. A vegetação a tentar escapar das águas
barrentas dos rios citados é esmagadora e bem enquadrada
pelo relevo dos montes que a envolvem. Sorte que havia mesmo um pouco de sol e
pudemos ver as cores mudarem, deixando o cenário
ainda mais belo.
Luang
Prabang é uma pequena cidade que quase
não cabe na aura mágica e carismática que todos lhe reconhecem.
É património da humanidade e o seu nome vem de inícios do século XVI quando à então Lan Xang foi oferecida uma
imagem de Buda conhecida como Pha Bang, tomando então o nome de Luang (Grande / Real) Prabang (Pha Bang). Por
essa data era apenas um dos vários reinos que hoje, no seu
conjunto, formam o Laos e não era um reino assim tão forte. Basta lembrar que tinha por vizinhos o Sião e os reinos do hoje Vietname, a quem prestava tributo.
Depois do ataque de milícias da China, em consequência de rebeliões neste país, o reino de Luang Prabang acabou por aceitar protecção dos franceses no século XIX. Já nessa altura a cidade era considerada pelos colonialistas
franceses como um refúgio calmo. Hoje não se nota assim tanto a sua presença na arquitectura da cidade, com excepção de um ou outro edifício à beira do Mekong.
Luang
Prabang começa cedo a sua vida. Pelas 6 da
manhã, todos os dias, os monges,
devidamente vestidos com as cores de açafrão, pés descalços, seguem em procissão pelas ruas da cidade pedindo
almas, ou seja, colectando arroz e outros daqueles cidadãos que se instalam nessas mesmas ruas para lhes oferecerem
isso e, assim, ganharem algum mérito na cadeia budista. É uma cerimónia que acontece em muitos
outros locais no Laos, mas aqui em Luang Prabang parece fazer mais e mais
sentido, pela aura da cidade e pelo tom silencioso e cerimonioso que todos lhe
conferem.
A cidade é dominada pelos monges e pelos inúmeros wats que por lá pululam. São tantos que mesmo que se dite que já se está farto de wats é impossível não esbarrar com mais um e mais um e mais um.
Visitámos o Wat Xieng Thong, o mais famoso. A sua arquitectura é característica do estilo do Laos (com
afinidades com o Thai), telhados triplos debruçados
quase até tombarem no chão. Destaque para a tumba a seu lado, o Haw Tai, em tons cor-de-rosa
e cravado de mosaicos que ilustram a vida comum. Tivemos sorte no dia e hora
que visitámos este wat. Ainda assistimos
a parte da "missa" e no fim tivemos direito a partilhar uma bebida
com os locais, que comemoravam o início das festividades que marcam
a entrada dos noviços no mosteiro. O calor que
fazia pedia mesmo uma qualquer bebida, mas esta foi especial. Era qualquer
mistela, misto de leite de coco, com gomas e género
de passas no formato, mas saborosa. Ao segundo dia, mesmo que ainda não tivéssemos perdido os pruridos com
as águas das bebidas, a tentação seria forte demais.
O outro
monumento a destacar é o Palácio Real e o vizinho Wat Ho Pha Bang. Este deve ser dos palácios reais mais modestos do mundo, quer no seu exterior,
quer no seu interior, mas não deixa de merecer uma vista
de olhos, sobretudo para nos divertirmos com as peças oferecidas ao então rei pelos outros países. O Wat que lhe faz companhia, todavia, vale bem mais do
que uma singela olhada por fora ou por dentro. A sua arquitectura é das mais belas que encontramos na cidade (e no país) e o seu interior é dominado pelo ouro.
Quanto ao
mais, o forte de Luang Prabang é caminhar pelas suas ruas,
compostas de lojinhas de artesanato, cafetarias de bom gosto e hotéis de charme. Um passeio de bicicleta é muito recomendado. Torna o deambular pelas margens do
Mekong muito agradável e permite-nos fugir do
centro da cidade e entrar num mundo mais confuso e real, feito de locais e sem
turistas. Ao fim da tarde, a entrar pela noite curta, é incontornável deambular pela feira que
todos os dias assenta arraiais nas ruas de Luang Prabang. Tem algum artesanato
interessante, mas a sensação com que se fica é que é quase tudo a mesma coisa e a
coisa virá na sua maioria da China.
Qualquer
visita a Luang Prabang não ficará completa sem um passeio de barco pelo Mekong. Pode
fazer-se como os franceses o faziam, ir de barco da então Saigão até Luang Prabang. Sem ter tantos dias para se gastar, deve
ser bastante fazê-lo apenas desde Vientiane.
Mais modestos, ficámo-nos por um passeio até umas caves sem história, 2 horas para lá, menos para cá, com direito a colocar as mãozinhas na água salgada do Mekong e
brincarmos de nos salpicar uns aos outros. Faltou-nos a coragem ou a
necessidade do nosso Camões, que uns (muitos) quilómetros mais abaixo pelas suas águas nadou.