domingo, julho 15, 2012

Em Agra, terra do Taj Mahal


No nosso primeiro dia em Agra a monção começou a dar nas vistas. Não havia sol nenhum, por isso não pudemos fazer check no item "ver o nascer do sol junto ao Taj Mahal". Ainda assim, levantamo-nos cedo e às 7 horas já lá estávamos dentro, convencidas que íamos evitar a multidão retardatária.

Pois, pois.



Ao primeiro vislumbre do Taj, ainda numa espécie de antecâmara de todo o complexo monumental, sentimos logo que nos íamos emocionar, mas quando passámos a gigantesca porta vermelha ocre já só pensamos em afugentar a maralha toda ali plantada mesmo em frente aos seus jardins a tirar a foto da praxe.

Penámos para conseguir uma com as duas manas, Taj embelezado com os jardins. Check.

Mas a foto mais tradicional, a do banquinho, essa poucos a conseguiram naquela manhã. Tinha avisado no inicio deste post: a monção começou a dar nas vistas. A partir daqui e até ao começo da tarde foi um dilúvio impiedoso para com os dedicados turistas. Nós, ainda assim, prosseguimos na nossa missão de nos encantarmos pelo Taj de qualquer forma.

O Taj Mahal foi mandado construir por amor. O imperador Mughal Shah Jahan foi o responsável pelo maior acto de amor do universo, do qual resultou o maior monumento ao amor. Mandou erigir o Taj após a morte da sua mulher, Mumtaz Mahal, que morreu ao dar à luz o 14.º filho de ambos. Assim, entre 1631 e 1653, Agra, então capital do império Mughal, viu surgir o mais grandioso e emblemático dos mausoléus.



Entrámos por uma das 3 entradas disponíveis e após a dita antecâmara surge-nos a monstruosa porta e  logo à espreita o Taj, majestoso e imponente, numa plataforma de mármore elevada, com jardim ornamental aos pés, 4 minaretes de 40 metros de altura a ladearem-no. À sua esquerda encontra-se a mesquita e à sua direita um edifício igual àquele para alcançar uma pura simetria.

Apesar de todo o contexto ser fantástico, é ao mausoléu em si que todos os olhares vão dar e não querem desviar. O Taj é feito de um mármore semi translúcido, branquíssimo. Tem pormenores florais, versos do Corão caligrafados nele inscritos e um sem número de pedras preciosas com diversos motivos. O seu interior não é nada comparado com o demais e, não, não sentimos qualquer cheiro a chulé.


O Taj Mahal é banhado pelo rio Yamuna e da outra margem, no parque Metab Bagh, costuma conseguir-se uma boa foto com o Taj reflectido na água do rio, onde também costumam parar os búfalos. Estes até estavam lá. O que faltava, pese embora toda a chuva que caíra pela manhã, era água suficiente no rio.



Um pouco mais adiante, nesta mesma margem este do rio, fica o Itimad-ud-Daulah, também conhecido como o Taj Bebé. É também um mausoléu, desta vez de Mizra Ghiyas Beg, um nobre persa que era avô de Mumtaz Mahal e ministro do imperador Jehangir. Esta tumba foi construída entre 1622 e 1628. Esta foi a primeira estrutura Mughal a ser construída inteiramente de mármore e a primeira também a instalar-se nas margens do Yamuna. Temos o mausoléu em mármore no meio e depois, como se de um losango se tratasse, quatro edifícios ocres com rendilhados esculpidos a acompanhá-lo. Mais uma vez, como no Taj, equilíbrio, simetria e elegância são reis.


Ainda mais acima no rio fica Chini-Ka-Rauza, outro mausoléu com vista para os búfalos a tomar banho. Este foi construído entre 1628 e 1639, para Afzal Khan, um poeta e ministro da corte mughal, mas não está tão bem conservado como os outros, deixando-se apenas perceber alguns dos seus azulejos azuis.

E, depois, em Agra há ainda que ver, pelo menos, o seu Forte. É também uma construção Mughal, iniciada com o seu imperador Akbar em 1565 com fins militares, mas o seu neto Shah Jahan, o do Taj Mahal, transformou-o numa série de palácios. Assim, às estruturas de cor ocre originais foram acrescentadas mais estruturas em mármore. O mais curioso é que o seu filho Aurangzeb depô-lo do trono e prendeu-o no forte, passando o pobre do Shah Jahan os seus últimos 8 anos de vida aqui, apenas contemplando do outro lado do rio a sua maior criação, o Taj, onde jazia a sua amada.


O Forte de Agra é fabuloso, mais do que o de Delhi, para onde a capital se mudou em 1648, no tempo de Aurangzeb. A fortificação ao longo de cerca de 2,5 km, com uns muros enormes de cerca de 20 metros, protege o interior do caos que se vive lá fora. Aqui perto fica a Mesquita e o Bazar Kinari, como sempre lugar de ruas intrincadas onde tudo se parece vender. As vacas e os macacos andam também por aqui, estes últimos saltando entre os balcões dos edifícios pejados de fios de electricidade.



Voltando ao forte e ao seu pacato ambiente, encontramos edifícios que eram utilizados para as audiências que o imperador proporcionava, quer públicas quer privadas. Perto desta última, no pátio, vemos um trono elevado com vista para o rio Yamuna e o Taj. Existem ainda duas mesquitas, uma delas muito delicada que era exclusiva para as mulheres da corte. Este edifício é em mármore, tal como outros correspondentes a palácios, mas o mais interessante é ver o contraste quase perfeito que produz esta junção entre edifícios em branco mármore e vermelho ocre. Quer num quer noutro vemos os rendilhados que os tornam ainda mais encantadores.





Depois de visitarmos o forte seguimos a pé para a zona do Taj. O tempo estava bom, mas à medida que nos aproximamos apenas poucas centenas de metros do tão estimado monumento começou uma chuvada. Uma certeza e uma rectificação ao dito no princípio do post: é a nossa presença face ao Taj que faz cair a chuva, não a monção.

sábado, julho 14, 2012

Comboio e Rabos




















De Khajurho há agora diariamente comboio para Agra (e Delhi). O comboio devia partir às 8:55, saiu uma meia hora mais tarde. Devia chegar pelas 17:30 a Agra, chegou lá pelas 20:00.

Esperávamos ainda ir ver o por do sol ao Taj Mahal, mas nem chegamos a tempo, nem o sol apareceu neste longo dia. Sempre uma chuva miudinha a bater na janela da carruagem. Feitas bem as contas, o comboio esteve mais tempo parado nas estacões e entre elas do que a rolar sobre carris. Em Gwailor, a umas 2 horas de distância do nosso destino final, sendo que já eram horas de lá ter chegado, e estando o comboio parado já há uma hora, fui perguntar a um funcionário se havia algum problema. Estou até agora encantada com a sua resposta: "indian problem".

Fomos numa carruagem com ar condicionado (obrigatório para sobreviver) em segunda classe. Éramos as únicas estrangeiras entre apenas mais uma dezena de autóctones.

Na estacão inicial de Khajuraho, uma multidão de indianos aguardava espalhada pelo chão. Apenas metade seguiu viagem e a outra metade ficou com mais espaço para se estender. Na nossa carruagem espaçosa e confortável fugimos da confusão e da maior intimidade com companheiros de viagem, mas assim passámos também ao lado do que seria uma experiência única. Provavelmente desconfortável, mas autêntica. Bem basta o estômago aos saltos.

Limitamo-nos, assim, a observar as cenas pela janela. Paisagem sem nota de registo de maior, terra ocre, pontilhada aqui e ali por um verde tímido das arvores e rios sem água.

Em cada apeadeiro de estacão, uma multidão. Em cada cruzamento com outro comboio da linha ao lado, mais multidão para lá das janelas com grades das carruagens sem ar condicionado, com os degraus de acesso ao interior da carruagem ocupados por rabiosques indianos.

E por falar em rabos, é inevitável mencionar a lixeira que se vê na linha. Garrafas, plásticos, papéis e bosta. Não de vaca, mas humana. Pudemos comprovar ao longo da viagem o quanto os indianos estimam a linha de comboio ao ponto de lá exercerem as suas necessidades básicas - calma, não chegámos a ver ninguém em cenas típicas das esculturas dos templos de Khajuraho. Mas gente a cagar ou a mijar, ui. E a comer. E a lavar-se. Não necessariamente por esta ordem, há que acrescentar.

Primeiros Sinais

A monção este ano ainda não se tinha feito notar, mas de 5a para 6a, em Khajuraho, lá pelas 4 horas, sono profundo, primeiro despertado pela queda de energia, depois corpo todo abalado com um som seco e brutal do trovão. Assustador.

Ganesh

Desta breve e insípida introdução ao hinduísmo que a Índia nos tem proporcionado, registo para a adoração de algumas divindades. Ao seu Trimurti (a sagrada trindade), composto por Brama, o criador, Vishnu, o preservador, e Shiva, o destruidor, temos ainda de acrescentar as deusas Lakshmi (mulher de Vishnu) e Parvati (mulher de Shiva). A estes há que somar as formas que tomam muitas vezes, sejam de animais ou de mulheres ou encarnações. Um sem número de divindades para adorar. Também nós elegemos o nosso preferido. E a taça vai para ... Ganesh, filho de Shiva e Parvati, o elefante fofinho.

Khajuraho


Khajuraho é um vilarejo meio perdido no estado indiano Madhya Pradesh. Fica a umas 10 horas de comboio de Delhi ou a umas 15 horas de autocarro de Varanasi. Por sorte há também avião em alguns dias da semana, o que encurta a viagem para cerca de 1 hora. E a verdade é que a simples possibilidade de podermos lá chegar é ela a grande sorte. Se lá chegarmos, então, é a taluda em versão kama sutra. Os pensamentos do demo que os hindus tornaram explícitos sob a forma de escultura foram mantidos afastados dos olhares e sentidos do mundo por muitos séculos, não só pelo isolamento de Khajuraho, mas também pela invasão da floresta.

Apesar de existirem registos de que o viajante Ibn Batuta visitou Khajuraho em 1335 e disso deu relato nas suas memórias, apenas no século XIX, quando um oficial britânico deu com dezenas de templos, é que o mundo moderno tomou conhecimento das obras de arte que a dinastia Chandela se dedicou a erigir por volta dos anos 950 a 1050. Esta história é parecida com a de Angkor, no Camboja, onde existem também templos hindus (e budistas), mas estes às centenas quer em número quer espalhados em kms. Sem querer voltar a Angkor, direi apenas que os templos de Khajuraho não devem nada àqueles no que diz respeito a elegância e fineza nos pormenores decorativos.

Estes 25 templos que chegaram aos dias de hoje (seriam 85), dispersos entre si cerca de 5 kms, são um magnífico exemplo da arquitectura Indo-Ariana. Estão divididos em três grupos, sendo o ocidental o mais famoso e interessante. Todavia, começámos o nosso périplo pelos templos do grupo oriental e sul.



O primeiro templo visitado foi o de Vamana, do grupo oriental, e não poderei jamais esquecer a surpresa perante tanta beleza, delicadeza, graciosidade e sensualidade. E os adjectivos nunca serão superlativos nem suficientes para descrever estes templos. Imaginar que nos dias de hoje tal pudesse ser criado já seria difícil. Imaginar, então, que há cerca de 1000 anos foi possível a existência e o labor de artesãos de tamanho talento e imaginação é inacreditável até chegarmos aqui e ficarmos frente a frente com estes edifícios escultóricos. Lá estão cravados deuses, animais mitológicos, guerreiros, dançarinas, músicos e muitas cenas com poses eróticas. Os elementos mais retratados, de uma forma quase obsessiva até, são as mulheres e o sexo. O detalhe é profundo e para além de invadirmos a privacidade dos deuses nas suas posições sexuais mais imaginativas, vemos ainda detalhes de cenas tão banais como as apsaras (as ninfas celestes) a retocar as sobrancelhas ou a pintar os pés ou observamos tão somente pormenores dos seus saris.
















Outro templo do grupo oriental que merece destaque é o templo jainista de Parsvanath. É belíssimo, numa escala menor dos do grupo ocidental, mas com todas as figuras que aí são retratadas. O seu interior é igualmente fascinante.
















No grupo sul, de destacar o templo Duladeo. Longe de ser o mais fino e delicado, este templo mais recente tem, no entanto, retratadas à exaustão cenas eróticas absolutamente picantes. Devo dizer, todavia, que não nos conseguimos concentrar inteiramente nos detalhes das esculturas pois um simpático velhinho hindu desdentado insistia em nos explicar de forma muito explícita, com gestos e sons, as cenas que desejava que nós víssemos, apontando para o templo.

















O grupo ocidental alberga 11 templos distantes entre si não mais de 500 metros. Destes, dois destacam-se por serem os mais grandiosos e graciosos. O de Lakshmana, dedicado a Vishnu, é o mais picante de todos, mais ainda, com havíamos de descobrir, que o de Duladeo, com cenas eróticas que para além de muita ginástica metem também cavalos. Para não dizermos que os Chandela só pensavam em sexo, existem ainda muitas cenas de guerreiros e batalhas. E para desviarmos completamente a nossa mente e olhar destas cenas badalhocas e violentas, dizer ainda que existem esculturas lindíssimas e perfeitas de elefantes.


























Mas a perfeição pretendeu ser atingida com a criação do templo Kandariya-Mahadev, o maior e o mais representativo da arquitectura da dinastia Chandela. E, na realidade, este templo dedicado a Shiva é geometricamente perfeito e conseguiu superar os outros. Equilibrado e harmonioso, tem cerca de 30 metros de altura e balcões lindos como quase todos os outros templos. É aqui, todavia que encontramos as cenas mais bonitas dedicadas à beleza da mulher, para além de muita acrobacia e a, provavelmente, imagem de sexo mais famosa de toda a Khajuraho.
















Os templos deste grupo ocidental formam um conjunto arquitectónico e artístico harmonioso e magistralmente acompanhado por um espaço de jardim muito bem cuidado.
  















Apesar de as cenas e pormenores se irem repetindo, e os próprios templos não variarem muito no seu exterior, a sua beleza e delicadeza salva qualquer enfado. Imperdível esta maravilha à distância de um voo de Delhi a poucas dezenas de euros.

Instantes de Varanasi