quarta-feira, agosto 20, 2014

Japão - Kyoto – 3.º dia

A manhã foi dedicada a provar que há mais vida em Kyoto para além dos templos.


Primeiro, uma inspecção ao Mercado Nishiki, uma arcada longa coberta com lojas de doces (rainhas em toda a Kyoto) e todo o tipo de comida. Depois, o Museu da Manga. Nada de fruta, claro, mas antes da arte da banda-desenhada japonesa que se tornou culto um pouco por todo o mundo. Este museu, instalado numa antiga escola, acolhe uma colecção de cerca 30000 livros. A exposição permanente conta as origens da manga, explica quem são os seus leitores, sua temática, evolução e influência no mundo. Tem ainda exposições temporárias e lugar para, ao longo de todo o museu, se ir lendo os inúmeros livros à disposição, alguns dos quais sem ser em japonês.


Depois de um almoço num restaurante especializado em tofu, visitámos o Nanzen-ji.





Veredicto: um dos mais impressionantes e bonitos. Primeiro impressiona a sua enorme porta de madeira. Depois, já no edifício principal, que ainda hoje é lugar da escola rinzai do budismo zen (e vêem-se alguns monges) encanta o seu jardim zen. À volta, e ainda parte deste complexo de Nanzen, encontramos um aqueduto e se caminharmos um pouco monte acima, para além de nos vermos envolvidos na floresta, ganharemos o prémio de chegar a uma queda de água. Mínima, é certo, mas com potencial suficiente para encantar.


Seguindo para norte, percorremos o Tetsugaku-no-michi, o "caminho do filósofo", cerca de agradável meia-hora ao longo do canal, até chegarmos ao Gingaku-ji.



O Gingaku-ji é conhecido como uma das maiores atracções de Kyoto, daí que as expectativas fossem muitas. E foram, efectivamente, plenamente confirmadas. O lugar é, uma vez mais, fantástico, envolvido pelas montanhas imensamente verdes. Ao contrário dos templos até aqui visitados, que datam quase todos do século XIII, esta vila foi mandada construir por volta de 1482 pelo então shogun Ashikaga e, depois da sua morte, foi convertida num templo zen. O Pavilhão Prateado, como é conhecido o seu edifício principal, rivaliza em beleza com os jardins que o envolvem. Vê-se verde e mais verde, num caminho lindíssimo, mas o que se destaca são os cones de areia branca que pretendem reflectir a luz da lua, bem ao estilo dos jardins zen que apelam sobretudo à sugestão.

O fim de tarde foi passado no Parque do Palácio Imperial, ideal para descansar, pôr os pés ao léu e ser mordida de forma oportunista por umas melgas nos ditos.

Ao jantar, sushi e sashimi sentadas ao balcão, alimentando o paladar e a vista.

Depois de dois dias em Kyoto uma dúvida cresce: em terra de refinamento e beleza, porque é que tanto eles como elas fazem questão de andar com os pés descaradamente para dentro?

terça-feira, agosto 19, 2014

Japão - Kyoto – 2.º dia

A não esquecer. Se se pretende viajar de comboio pelo Japão e se se é estrangeiro, é obrigatório comprar o JR pass. Só Tóquio - Kyoto ida e volta já faz compensar o preço. O site hyperdia.com é fantasticamente útil para se saber com antecedência os horários e preços das viagens.

A viagem entre as duas cidades faz-se em pouco mais de 2:30 no Shinkansen, o famoso comboio-bala. Cansada, ainda a recuperar da longa jornada do dia anterior, acabei por não prestar muita atenção à paisagem, mas a dada altura no lado esquerdo espreita-se o mar e no lado direito o Monte Fuji.

A actual Kyoto era em tempos antigos conhecida como Heian, correspondente ao período de maior pujança da cultura japonesa, sobretudo a cultura refinada e elegante da corte que hoje podemos conhecer, entre outros, por aquele que se diz ser o primeiro romance da história universal, o Genji Monogatari, escrito por lady Murasaki (com tradução portuguesa). Heian sucedeu em 794 à vizinha Nara como capital do Japão. Tal como a anterior, o projecto de construção da cidade foi baseado na então capital chinesa Chang'an, hoje Xi'an. A superstição e a geomancia determinaram a escolha do local para a nova capital, não sendo igualmente de desvalorizar a sua posição estratégica rodeada de montanhas. Mas seria o budismo, que entrara no arquipélago vindo da Coreia no século XVI, quem iria continuar a influenciar a vida dos poderosos. Não admira, pois, que Kyoto seja a cidade dos templos, ainda hoje muito bem conservados, dai a Unesco ter classificado aqui um sem número de sítios.

Kyoto foi a capital imperial até à Restauração Meiji, em 1868, quando se iniciou um processo de modernização forçada, mas ao mesmo tempo bem ponderada e voluntária, do Japão. Depois do fim do período Heian, no século XII, seguiu-se o tempos dos senhores feudais, samurai, daimio e shoguns, e Kyoto, tal como a corte, foi perdendo influência política para outras regiões como Kamakura e Edo, actual Tóquio.

Paz(hei) e tranquilidade (an) é o que ainda hoje se parece viver na antiga Heian, moderna Kyoto, onde se assiste a um revivalismo da elegância cultural que outrora se viveu. Hoje Kyoto é a capital cultural do país. E hoje, também, Kyoto parece ser uma cidade sem a intensidade frenética de vida que associamos à Ásia, talvez não tanto ao Japão, mas seguramente a Tóquio.

As manhãs são vividas de uma forma calma, sem muitos atropelos pelas ruas ou na entrada do metro ou comboio.


Embora em Kyoto esteja uma das estações de comboios mais modernas do mundo, uma arquitectura fantástica de ferro e vidro, e a uma primeira vista esta cidade seja como uma qualquer outra cidade moderna do mundo, com um centro com uma longa avenida cheia de armazéns e lojas de grandes marcas, a sua arquitectura expressa-se sobretudo nos templos (budistas - ji) e santuários (shintoistas - jinja). Quem vem a Kyoto é isso que quer ver. E mais umas machiya, as casas tradicionais. O grande desafio da cidade é, precisamente, preservar o seu rico património cultural, ao mesmo tempo que a mantém na órbita da modernidade e do desenvolvimento económico, cultural e educativo.

Face a tamanha quantidade de templos, é obrigatório ser-se selectivo no que ver. Até porque beleza a mais também pode cansar a vista.


Começámos pelo templo de Sanjusangen-do. O edifício principal deste templo é longo e abriga cerca de 1000 figuras em madeira da deusa budista da misericórdia, Kannon, e seus guardiães. Parece ser uma espécie de exército de terracota. Vale pelas figuras budistas.



Seguimos para o Kiyomizu Dera, cravado entre as montanhas. Aliás, as montanhas dominam a paisagem de Kyoto, cercando-a e protegendo-a. Este é um local popular e, realmente, estava pejado de visitantes, alguns dos quais casalinhos que pediam uma união forte no Santuário do Amor, um bocado para assim para o género de festa de aldeia. Mas o mais entusiasmante deste espaço é o seu edifício principal e sua varanda perfeita para contemplar as montanhas. Este edifício está assente em 139 pilares de madeira de 15 metros. Pena que outros edifícios estivessem cobertos para restauro. Aqui vimos a nossa primeira - e única - geisha, caminhando arduamente para se aguentar naquelas socas de planta disforme. No entanto, pelo à vontade com que passeava, que de discreto nada tinha, lado a lado com um senhor que mais se preocupava em tirar fotos à paisagem, e não se preocupava que os magotes tirassem fotos à sua companhia, fiquei na dúvida se esta seria um autêntica gueisha. Seria provavelmente uma asiática ávida de encarnar uma personagem de gueisha na cidade onde elas serão ainda mais tradicionais e populares.



O caminho que nos levou ao Kiyomizu Dera foi percorrido atravessando um cemitério (aquela paisagem faz dele, seguramente, um dos melhores lugares de descanso). Para baixo seguimos percorrendo uma rua com lojas e mais lojas sem muito encanto. No entanto, tomando uma lateral para norte entrámos na Sansen-zaka e na Ninnen-zaka, duas ruas pedonais com edifícios de madeira restaurados que torna o passeio ainda mais agradável.



Até se chegar ao Parque (koen) Maruyama vai se passando por uma série de templos. No final deste parque, ideal para um descanso no meio do verde e dos lagos, fica o Yasaka-jinja, um santuário super colorido e pitoresco, cheio de movimento.



Daqui saídas, entramos em Gion, o bairro do entretenimento e das gueishas. Em tempos idos este era o local de prazer, onde as míticas gueishas desempenhavam o seu papel de acompanhantes cultas e refinadas de homens de posses. Hoje, alguns dos seus edifícios são ainda locais exclusivos para o entretenimento com as gueishas, mas estas estão cada vez mais em extinção (não serão mais do que 100 em Kyoto e 1000 em todo o Japão), para além de não ser fácil obter o concurso das poucas que restam. Bem tentámos, mas não vimos nenhuma em acção. De qualquer forma, vale muito a pena caminhar por Gion, em especial pelas ruas Shimbashi e Shirakawa-minami, junto a um agradável canal, e conferir nas machiya o que resta da arquitectura urbana tradicional com as suas deliciosas velhas casas de madeira e cortinas de bambu.



Aqui perto fica o Pontocho, o lugar da vida nocturna. É uma rua cheia de casas de madeira, a maioria bares e restaurantes instalados junto ao rio. O que torna especial esta rua é a iluminação que toma à noite graças às lanternas que aqui abundam.

História e Cultura Japonesa

Para se saber mais acerca da história e culturas japonesas é ver os posts que dediquei à temática aqui, aqui e aqui.

Japão - primeiro dia

Viajar de Lisboa a Tóquio implica muita paciência e resistência. A viagem de avião, com escala no Dubai, foi uma jornada dividida em duas rotas aéreas, uma de 7:40 e outra de 9:30. Fora o tempo perdido em aeroportos. Em resumo, mais de 24 horas depois de termos saído de casa chegámos ao hotel no outro lado do mundo.

Do aeroporto de Narita para o centro de Tóquio a melhor e mais barata forma para se percorrer os seus cerca de 66 kms é de comboio.


Escolhemos ficar a primeira noite num hotel cápsula em Shinjuku, bairro onde está situada a maior estação de metro do mundo. Na viagem de comboio nocturna era já visível a presença dos neons. Mas em Shinjuku eles são omnipresentes, precisamente aquilo que imaginámos ser a cidade de Tóquio. Uma cidade que nunca para, sempre com pessoas em movimento, iluminadas pelos reclames luminosos dos seus edifícios. 


Apesar de cansadas não perdemos a hipótese de fazer uma revista ao local. E bem valeu a pena. Perto do hotel cápsula fica o red-light district, com muitos meninos na rua a tentarem convidar os eventuais clientes para entrarem e conhecerem as meninas. Tudo super seguro.
 
 
Mas o mais interessante foi caminhar e descobrir a chamada zona Gai, um quarteirão com umas ruas estreitas inundadas de bares minúsculos. Os edifícios aqui são pequenos e baixos, dois andares. Todos os primeiros andares adaptaram o seu hall de entrada para bar, mas este não tem espaço para mais do que um balcão e lugar para 5 ou 6 clientes. E o esquema repete-se porta sim, porta sim, alguns com actividade também no segundo andar.


Quanto à experiência de dormir numa cápsula o melhor que posso dizer é que aconselho e repetiria. Primeiro porque é uma boa forma de se poupar dinheiro - a noite no cubículo ficou a cerca de 18 euros. Depois porque acaba por ser uma estadia confortável. Este tipo de hotel é uma japonice inventada com o propósito de proporcionar uma forma de passar a noite na cidade aos trabalhadores que tardiamente já não conseguem voltar para casa. A maior parte deles é exclusivo para homens, mas no caso do nosso, o Shinjuku Kuyakusho-mae, o oitavo andar era destinado apenas a mulheres. As cápsulas, género de gaveta sem porta para puxar, estão dispostas em fileiras de dois andares. Lá dentro há o espaço suficiente para nos esticarmos e espreguiçarmos e ainda temos direito a televisão e rádio, para além de toalhas, um jogo de cama e pijama. Este pijama, que todas usámos como se de um uniforme se tratasse, fazia parecer que estávamos numa prisão. Só que não creio que prisão tenha casa de banho e duches tão bonitos como aqueles, incluindo botões para ligar música na sanita, e shampoo e gel duche da Shiseido. Uma coisa má, porém, comum a qualquer dormitório: ser interrompida no seu sono pelo barulho provocado pelas constantes chegadas e partidas das compinchas e ter de ouvir o seu ressonar, puns ou até ataque de soluços a meio da madrugada. Mas comparativamente ao número de horas dormidas no avião e à qualidade do sono, a cápsula é que é o verdadeiro céu.

quinta-feira, julho 31, 2014

Grande Muralha da China

Uma vez que se está em Pequim, é boa ideia dar um pulo até uma das obras do homem mais admirada por todos. A capital de Pequim é um excelente ponto de partida para visitar um dos muitos troços deste símbolo que já não é só da China. Apesar de ser duvidoso que a Grande Muralha da China possa ser avistada do espaço, é um grande momento nas nossas vidas que a possamos avistar aqui mesmo da terra.

A sua construção teve início há mais de 2000 anos, século III a.C., acreditando-se que terá coincidido com a dinastia Qin, pelo mesmo imperador que mandou construir o exército de terracota de Xi'an e então unificou o país. Os propósitos eram defensivos, procurando proteger o que então era designado China Proper das invasões dos povos do norte e nordeste, ascendentes dos povos conhecidos hoje como mongóis e manchus.

A sua estrutura não é contínua, antes é composta por vários troços, uns que já não existem, outros preservados até aos nossos dias, outros ainda em reconstrução. Ainda assim, são cerca de 8851 km de muralha entre a fronteira com a Coreia do Norte e a província do Xinjiang, os quais foram ganhando vida e crescendo ao longo das diversas dinastias.

No entanto, e talvez pela sua descontinuidade, a Grande Muralha não foi muita efectiva em impedir os povos do norte de invadirem a China - a prová-lo está o facto de várias terem sido as dinastias estrangeiras a governarem o país depois da sua construção, de que são alguns exemplos os Jin, os Mongóis e os Manchus.

Mas se não foi decisiva na protecção dos inimigos, a Grande Muralha teve uma função igualmente importante, uma vez que acabou por servir de rota para transporte de pessoas e bens. Lembrar que troços da muralha podem ser encontrados em lugares bastante inóspitos e ainda hoje de não muito fácil acesso.

Dando início ao relato da nossa experiência, dizer que o restauro da Grande Muralha tem sido uma empresa levada a cabo com alguma intensidade ao longo das últimas décadas e que é precisamente junto a Pequim que encontramos os troços mais bem restaurados. Mas talvez não muito respeitadores da autenticidade do original.

Posto isto, há que escolher qual o troço a visitar. Mutianyu, Badaling, Jiankou, Huanghua Cheng, Zhuangdaokou, Simatai, Jinshanling são alguns nomes a ter em conta. No nosso caso, como queríamos conciliar o dia de visita à Grande Muralha com uma ida até aos Túmulos Ming, a melhor opção era Badaling. O mais acessível e o mais concorrido. E para fazer tudo num dia não restava outra hipótese senão aderir a uma excursão.

Neste ponto há que abrir um parêntesis para dizer que detestamos excursões.


Indo directamente ao fundo da questão, dizer que os Túmulos Ming - que me seduziram à partida por nunca ter esquecido os túmulos dos imperadores vietnamitas, que possuem influência da China - não valem o sacrifício de entrar numa excursão. Ok, o sítio onde estão implantados é belo, no meio das montanhas, mas são estruturas muito maçudas, cuja visita não me acrescentou muito quer em termos históricos quer estéticos. Claro que só digo isso por ter ido numa excursão. Isto porque tivemos neste dia a pior refeição da semana numa daquelas mega lojas que as empresas de viagem concertam com os comerciantes em parar os turistas. Esta era de jade e ao fim do dia ainda nos esperava uma de seda. Bom para quem quer comprar ou tenha interesse nesses itens, no meu caso a fase dos bichinhos da seda já passou.

Durante o almoço de treta já estávamos a ver que a visita em carneirada à Grande Muralha iria ser apressada. Quando chegámos a Badaling a guia Jenny (ainda não consegui entender porque é que os chineses adoptam sempre nomes estrangeiros - e fazem questão que nós adoptemos um nome chinês wo xing shen de shan) começou logo a dizer que teríamos apenas duas horas no local e que por isso era bom apanharmos o teleférico em vez de tentarmos subir por nós, porque se não não tínhamos tempo para ir e vir, e que nos íamos perder, e que o espírito do Gengis Khan andava à solta. Não, esta ela não se lembrou de inventar.

O certo é que muito contrariadas (nós e um casal inglês) lá fomos no teleférico - toma lá 20 euros para cada. Do nosso grupo de 18 indivíduos, só 3 tiveram o discernimento de não o fazer, constatámos depois - precisamente dois irmãos ingleses, um deles casado com uma chinesa.

A jornada de teleférico conta-se de uma penada: quase meia hora na bicha, pouco mais de cinco minutos, com muitas paragens no ar não sei para quê, para subir os quase 200 metros. Fantástico. Mesmo assim, ainda tínhamos cerca de 1 hora e meia para caminhar pela Grande Muralha, o grande objectivo do dia.




O troço visitado está completamente renovado desde os anos 80. A paisagem é soberbamente infinita. Caminhamos desde a saída do teleférico para cima, a brincar de nos escondermos nas ameias e nas muralhas. O ambiente que se vive é de contentamento e até euforia por estar num dos maiores símbolos da humanidade.

Este pequeno troço não tinha saída, pelo que rapidamente voltámos para trás e se colocou um dilema: aceitar o que a Jenny havia dito, para voltarmos da mesma forma (de teleférico) e não começarmos a caminhar à toa para baixo porque era difícil, demorado e íamo-nos perder - até contou histórias de desaparecidos e mortes (a sério, enquanto me lembrar disto tão cedo não volto a meter-me numa excursão); ou arriscarmo-nos a descer pela muralha, afinal de contas não havíamos subido assim tanto no teleférico e o percurso não poderia demorar muito. Depois de muita indecisão decidimo-nos por esta última, não podia ser de outra forma. Resultado: chegámos cá abaixo ao local de encontro rapidamente em primeiro lugar e ainda tivemos de esperar quase uma hora por aqueles que desceram de teleférico. Claro que dissemos à Jenny que afinal nada era como ela contara, mas o cinismo dos chineses é algo a que me vou habituando nestes últimos anos. A inglesa, essa, pura e simplesmente armou o burro e deitou-lhe uns olhos que a chinesa ainda deve estar a arder com a fúria alheia.

Foi pena que na visita à Grande Muralha o que tenha dominado tivesse sido o sentimento de que poderíamos ter estado uma manhã ou tarde inteiras a caminhar pelo cenário sem pressas ou pressões. Isto porque é perfeitamente possível chegar até Badaling de transportes públicos desde Pequim.

Ainda assim, foi um momento alto da nossa viagem.

Custa a crer que outrora alguém tivesse criado aquela obra impressionante. Aquela zona é praticamente um deserto montanhoso para onde tiveram de ser deslocadas toneladas de pedra para levantar as muralhas, que nalguns troços são enorme. No entanto, outras zonas há longe de Pequim que, essas sim, são verdadeiros desertos. Depois, a sua implantação na paisagem parece ter sido decidida por um artista, tão belo é o ziguezaguear da muralha na montanha.

Em resumo, fiquei com vontade de explorar a sério, caminhando livremente, outros troços da Grande Muralha da China.

 

quarta-feira, julho 30, 2014

Parque Jingshan

 

 Uma visita ao Parque Jingshan é também memorável.
Pela animação que lá se vive - multidões de reformados a passearem sozinhos ou com os seus netos -, pela cor - canteiros e mais canteiros de flores intensamente adornados, prontos para um qualquer concurso - e pelas vistas fabulosas da cidade de Pequim, incluindo da vizinha Cidade Proibida.


Mais Pequim

À parte os monumentos que destaquei em posts autónomos, bem como a comida - o pato à Pequim do Dadong pode já ter saído do meu paladar, mas não sairá da minha memória gustativa - e o gelado de alecrim e o de chá verde, muito mais há para viver em Pequim.

A rua mais emblemática da capital, género de Rua Augusta, é a Wangfujing. Aqui temos comércio tradicional, algumas lojas da moda, um centro comercial que parece não ter fim, um mercado de artesanato e outro de comida. Na amálgama de estilos parece ser um bom exemplo do que é a China.


A China moderna, essa, está em Sanlitun, onde se vê o gosto e maneiras ocidentais. Aqui perto fica o edifício da CCTV, a televisão chinesa, de Rem Koolhaas, artisticamente implantado numa zona onde já existem um quantos arranha-céus e muitos outros estão na calha para virem a emergir dos imensos buracos que já foram esventrados. O desenho é de outro mundo, tal como já tínhamos experimentado com a Casa da Música do Porto.



Outros dos maiores arquitectos do mundo deixaram também a sua marca na paisagem de Pequim. É caso da dupla Herzog & De Meuron e do seu mais do que elogiado estádio conhecido como Ninho de Pássaro. É o Estádio Nacional de Pequim, que serviu de palco para os inesquecíveis Jogos Olímpicos de 2008. A sua arquitectura é belíssima, concreto intrincado que parece ir fazendo lacinhos aqui e acolá. O jogo de cores que sobre ele incide à noite consegue torná-lo ainda mais bonito. Idem para o Cubo de Água, o complexo onde decorreram as provas de natação. Este edifício não é de desdenhar durante o dia, mas à noite consegue entender-se na perfeição as bolhas de água que o decoram à medida que as diversas cores se vão revelando.


A torre olímpica é uma boa companhia para estas duas peças superiores. Agora, há que referir que o ambiente que se vive no Parque Olímpico é de tudo menos de desporto. Aquilo parece uma feira foleira que, não fossem as dimensões desmedidas, poder-se-ia dizer que mais parecia uma aldeia. Enfim, a arquitectura pode ser do mais moderno que há, mas isto é a China e os chineses.



Todavia, para contrariar o que acabei de escrever, eis o Distrito da Arte 798. Continua a ser a China e os chineses, mas estes artistas já não são de feira. Num antigo complexo industrial, cheio de fábricas e de edifícios abandonados, foram-se instalando uma série de galerias de arte contemporânea. O lugar é tão grande, quarteirões e mais quarteirões, ruelas e becos para nos perdermos, que facilmente podemos passar aqui um dia inteiro. Existem restaurantes e bares, lojas de arte, mobiliário, roupa, galerias e, sobretudo, muita arte de rua - graffitis e esculturas.



Mas porque é tradição e sobretudo um toque de oriente que querermos quando viajamos a Pequim, temos ainda para nos deleitarmos uns quantos templos, entre os quais o Templo Lama e o Templo de Confúcio, quase um ao lado do outro. O primeiro é um dos maiores templos budistas e cor e movimento é o que aqui se observa. O segundo é muito mais pacato e consegue-se viver aqui momentos de tranquilidade.




No entanto, uma das melhores experiências que se pode ter em Pequim é caminhar pelos seus hutongs, as ruelas que ainda sobrevivem no centro da capital e onde podemos literalmente entrar pelas casas e vidas adentro dos locais. A rua e a casa confundem-se de tal maneira que quando damos por nós não estamos numa rua sem saída, antes na casa de alguém. À porta das casa, ou junto a uma janela ou tão somente parede, vemos uma bicicleta encostada, mas também roupa estendida ou um armário em uso. Historicamente, os hutongs são do templo dos mongóis, século XIII, mas cresceram com os Ming, século XV. Nos últimos anos muitos têm vindo a ser demolidos para dar lugar a edifícios e ruas mais modernas. Mas é ainda fácil darmos de caras com um hutong. A zona de Nanluogu Xiang será a mais evidente para explorar, até porque aqui foram bem sucedidas as tentativas de recuperação, mas um pouco por todo o lado eles existem. É só metermo-nos ao caminho e ... ei-los. Por exemplo, no nosso primeiro dia em Pequim, um domingo, passámos a tarde na zona dos parques e lagos Houhai e Beihai - óptimos caso não se suporte estar sozinho. Alugámos uma bicicleta e fomos pedalando à volta do lago e um pouco pelo interior dos bairros. Foi logo, rapidamente sentimos um cheirinho daquilo que imaginávamos a China mais tradicional.


O que retirei da viagem à cidade de Pequim é que é uma cidade em franca renovação, mas onde aqui e ali, onde menos se espera, o tempo parece ter parado. A jornada em que fomos assistir à Ópera de Pequim é elucidativa: o Huguang Huiguan é um teatro tradicional, absolutamente pitoresco e acolhedor, mas só lá se encontra turistas. A zona da cidade onde se encontra não é feia nem bonita, nem nova nem velha. Mas para se ir daqui a pé até à Praça Tiananmen - uma daquelas coisas não muito óbvias que gostamos de fazer - passa-se por uma rua de edifícios baixos e velhos, em terra batida, com comida de rua, um qualquer hutong esquecido. E de repente estamos na Rua Qianmen, toda bonitinha, recuperada, enfeitada, cheia de lojas da moda.

Ou seja, uma cidade para todos os gostos.

Pode-se pedir mais?