sexta-feira, setembro 12, 2014

Japão - Fuji - 11º e 12º dias

De manhã seguimos de comboio, cerca de duas horas não directas, para o digníssimo Fuji-san, a montanha sagrada dos japoneses. Eis um bom site sobre a ascensão ao Fuji.

A viagem desde Tokyo pode ser feita directamente de autocarro desde Shinjuku até à Quinta Estação, mas como tínhamos o passe de comboio optámos por seguir até Otsuki e aí trocar para Kawaguchiko (apesar desta viagem não estar coberta pelo passe). Neste último percurso de comboio temos o Fuji-san por companhia e aqui o vemos pela primeira vez, apesar de garantirem que ele é visível de Tóquio num dia claro. São cerca de 100 quilómetros de distância, mas o maior impedimento para ver a maior montanha do Japão desde a maior cidade do Japão é mesmo a claridade, o céu limpo, coisa talvez só possível num dia de inverno.


O Fuji-san, vê-se à distância, é soberbo na sua elegância. São 3776 metros de pura majestade, ainda salpicados neste mês de Julho aqui e ali com linhas de neve, que o tornam ainda mais distinto. Da janela do comboio, é impossível afastar o olhar da sua formosura cónica. Perfeito.

Kawaguchiko é uma das cidades / vilas da região dos 5 lagos que envolve o Monte Fuji. Neste dia serviu-nos como rota de entrada para seguirmos directamente para a 5a Estação, a 2305 metros, até onde chegam a maior parte daqueles que querem admirar o Fuji-san de mais de perto ou donde partem aqueles que querem alcançar o seu topo. Nós estávamos neste último grupo. De qualquer forma, e em apanhado curto, subir o Fuji-san pode ter sido uma tradição sagrada, mas só chegar à 5a Estação já é inspiração suficiente. Na verdade, o que antes era uma peregrinação sagrada, hoje é um passeio turístico.





Uma coisa não mudou, porém: a sua ascensão implica alguma devoção. Não que subir ao topo do Fuji-san seja uma missão só para uns poucos Hércules. Nada disso. O trilho está bem marcado, sendo o de Yoshidaguchi o mais concorrido, e vê-se por aqui, pelo menos no início da caminhada na 5a Estação (que há quem a inicie desde mais abaixo), todo o tipo de pessoas. Jovens que parecem estar em boa forma, jovens que parecem ter estreado umas botas / ténis só naquele momento, grupos de adolescentes em excursão da escola, famílias com filhos pequenos, cinquentões já bem entradotes, homens e mulheres. A questão é que os cerca de 7 quilómetros até ao topo, mais ou menos percorridos em 6 horas, são efectuados numa subida constante, nem sempre num terreno fácil. E, depois, há que sobretudo contar com as surpresas da altitude, que os corpos não reagem todos da mesma maneira. No meu caso direi que comecei por apreciar a quase base da montanha, terra negra a lembrar a sua origem vulcânica, mas surpreendentemente cercada de uma vegetação verdíssima. O contraste é mais uma daqueles imagens que não sairão da memória, a juntar a toda a beleza do Fuji-san. À medida que ia subindo, tentando acompanhar o ritmo louco da mana, que certamente deveria querer bater um qualquer recorde (dizer, para antecipar, que não iríamos precisar das 6 horas de média previstas para a ascensão), fui deixando de poder apreciar a paisagem em toda a sua plenitude. Entre uma golfada de ar e outra a atenção a dispensar aos pormenores foi sendo inadvertidamente reduzida.



O plano era chegar até à estação 8,5 onde iríamos pernoitar no nosso abrigo de montanha, o Goraiko-kan, a 3450 metros, a apenas 800 metros do objectivo final, a 45 minutos de distância, mais coisa menos coisa. Este é o último abrigo. Chegámos aqui por volta das 18:00, sempre com um dia bom, sem chuva e sem vento, e com necessidade apenas no último quilómetro de vestir algo mais do que uma t-shirt. Ainda tínhamos mais uma hora de luz, mas deixámo-nos ficar ali, a ver as nuvens que se iam pondo abaixo de nós. Jantar às 18:30 e cama logo de seguida, que o despertar estava previsto para as 4:00 da madrugada para ver o sol nascer. O abrigo é uma cabana onde parte é zona comum, onde se toma as refeições, e a outra parte é o dormitório, onde as ovelhas, perdão, as pessoas são colocadas para dormir. Uma vez que este dia não calhou a um fim de semana, nem a época alta estava no seu pico, pudemos dormir a uma distância de cerca de 30 centímetros do colega do lado. Sorte que de um lado eu tinha uma parede e do outro a mana.


Estávamos avisadas de que o clima por aqui muda com muita frequência, daí que mesmo que se inicie a ascensão com sol de 30 graus devamos levar conosco roupa adequada ao tempo frio e de chuva. Ao fim da tarde, a conversa dos rapazes do abrigo (eles vivem ali?) sobre tufão e coisas do género, bem como o facto de meia-hora depois de termos chegado com tempo lindo se ter posto um tempo fechado e chuva, deveria ter servido de alerta. Durante a noite, mal dormida, a sempre corajosa mana dizia-me que estava com medo. Não era para menos. O barulho do vento era arrepiante e o facto de estarmos num abrigo de madeira a mais de 3000 metros de altitude não ajudava. A ideia era: mesmo que daqui a pouco não consigamos subir os 800 metros que nos faltam, como é que vamos conseguir descer os 6 quilómetros já conhecidos?

Infelizmente, utilizando a razão, tivemos de deixar de lado o plano de subir até à cratera do Fuji. Um dos irmãos nórdicos que o fez nessa noite / dia, e que conhecemos na descida, disse que foi chegar lá, tirar uma selfie, e descer logo, sempre agarradinhos ao chão para não voarem. O outro irmão não conseguia nem falar, tal deve ter sido o medo.



Nós descemos mal o dia raiou e não foi muito fácil. O vento era intenso e empurrava-nos de tal forma que tínhamos de cravar bem os pés na terra.

O tempo no Japão é mesmo uma matéria.


A manhã em Kawaguchiko foi triste. Do seu lago nada de avistar o Fuji-san. Aliás, com aquele tempo, podíamos caminhar por toda a região próxima deste ícone que não o vislumbraríamos. Mas, há que dizê-lo, esta região será fantástica para caminhadas e mais contacto com a natureza, para além de existirem também aqui uns quantos onsen.

 
 

De volta a Tóquio, depois de descansarmos um pouco saímos para uma volta por Shimbashi e Shiodome. Arranha céus com espaço público arejado junto de uma frente de rio algo confusa pelas obras que provavelmente tratam de ganhar mais espaço à água. Por aqui ficam alguns edifícios interessantes, nomeadamente o Dentsu de Jean Nouvel, parte do complexo Caretta Shiodome, misto de comércio, restauração e escritórios. Deve-se subir até ao seu 46 andar, o antepenúltimo, para vistas desta parte da cidade. Lá embaixo vemos com mais perfeição o trânsito e a baia de Tóquio, bem como os contornos do mercado Tsujiki e do parque Hama Rikyu. Inexplicável como este parque, que dizem delicado e sossegado, fecha às 17:00, quando nesta altura do ano, pelo menos, existem mais duas horas de dia pela frente.

 

Depois de mais um passeio até Harajuku decidimos acabar o dia na Sunshine City de Ikebukuru, mais um mega complexo que junta comércio, serviços e escritórios. E um aquário e um planetário. E um ultimo andar transformado em ponto de observação a 251 metros acima do solo. Foi para isto que aqui viemos, na expectativa de imaginarmos uma visão nocturna do Monte Fuji, para além de toda a Tóquio.

E também para experimentarmos um dos loucos sabores de gelado na cidade do gelado no Sunshine. Mas onde é que estava ela? Mais uma vez o meu japonês não funcionou por estas bandas.

 

quinta-feira, setembro 11, 2014

Japão - Tóquio - 10º dia

Ao contrário de Kyoto, ninguém vai a Tóquio à espera de encontrar belos e encantadores templos. A explicação encontra-se facilmente no facto de Kyoto ter sido a capital imperial, lugar de cultura, e Tóquio ter-se tornado capital administrativa apenas no século XVII - era, então, a Edo. Acontece que em 1853 o Comodoro americano Matthew Perry chega com os seus barcos à Baia de Tóquio e, a partir daí, tudo muda no Japão. Vendo a necessidade irreversível de se abraçar a modernidade, dá-se a Restauração Meiji em 1868 e, com ela, viria a transferência definitiva da capital do país para Tóquio, a capital de leste, agora tanto em termos administrativos como imperiais.

Assistiu-se a uma rápida industrialização, as linhas ferroviárias cresceram sem parar, a luz eléctrica apareceu, bem como edifícios ao estilo ocidental em bairros como Ginza. Nem o altamente destruidor terramoto de Kanto, em 1923, foi capaz de parar a intensa modernização da capital, reerguendo-se os japoneses num ápice. Idem para os bombardeamentos aliados de 1944, os quais destruíram dois dos maiores templos de Tóquio, o Meiji-jingu e o Senso-ji, logo reconstruídos. O resto da história, já se sabe, o Japão após a capitulação do imperador Hirohito, em 1945, viria a transformar-se por completo, quer no seu íntimo - renunciando à militarização e domando o seu espírito nacionalista e expansionista - quer no seu exterior. As grandes empresas adaptaram-se e criaram os grandes conglomerados que hoje reconhecemos, como a Mitsubishi e a Toyota, e os cidadãos adoptaram o "american way of life" e superaram-no, criando uma economia pujante e uma cultura que iria ela própria cativar os ocidentais.

Vem isto a propósito de não se esperar encontrar belos e encantadores templos em Tóquio. A verdade é que, ainda assim, tal é possível.



Começámos a manhã com um passeio pelo Meiji-jingu, rivalizando no caminho com as centenas de chineses que tiveram a mesma ideia. À entrada do parque encontramos, empilhados, cestos de sake, cada um mais bonito do que outro. O santuário é xintoísta, arquitectura moderna, equilibrado, vendo-se ao fundo os arranha-céus da cidade. Apesar de ficar às portas de Harajuku e Aoyama, das zonas mais movimentadas da cidade, consegue-se viver no santuário e nos jardins à sua volta uma calma imensa e sentirmo-nos mesmo afastados da louca vida urbana.


Aqui perto fica o Estádio Nacional Yoyogi, que acolheu os Jogos Olímpicos de Tóquio em 1964, um momento de viragem para os japoneses, em que sentiram que finalmente tinham passado os tempos de guerra e a sua reconstrução bem conseguida os havia permitido fazer parte das mais modernas economias. A arquitectura dos edifícios que ainda aqui encontramos, cortesia do arquitecto Kenzo Tange, é notável. O Ginásio Nacional Yoyogi é fantástico nas formas que toma, lembrando uma concha ou, quem sabe onde a imaginação nos leva, porque não a crista de um cabelo mantido a gel.


A ponte que nos leva da estação de Harajuku ao parque do Meiji-jingu ou ao parque Yoyogi é onde os meninos e as meninas do cosplay se costumam encontrar. Não vimos nenhum ajuntamento em especial, mas vimos, sim, muita gente estranha aqui perto, principalmente na Takeshita-dori. Esta estreita rua acolhe lojas estranhíssimas, desde roupa e acessórios esquisitos até gelados em formato de pizza que são depois enrolados de forma a fazerem um cone. À entrada, anunciando os produtos, estão indivíduos (nem sempre dá para entender qual o género dos ditos) vestidos e produzidos das formas mais bizarras. Tóquio é reconhecida também pela excentricidade das suas gentes, as quais se orgulham de sair para a rua tal e qual os seus personagens preferidos. Toda uma cultura à parte para quem não está minimamente por dentro do universo manga e anime.


Deixando a Takeshita-dori e atravessando a Rua Takeshita fica todo um mundo de lojas trendy por descobrir e, sobretudo, o Design Festa. Este é um edifício absolutamente esquisito (mais um), cheio de tubos no seu exterior, uma espécie de aranha, nada mais do que o cartão de visita para a criatividade que se experimenta dentro das suas portas. São diversas salas que podem ser reservadas pelos artistas para expor as suas obras e ao meio, num pátio, existe um café com comida ligeira.

Ainda em Harajuku fica o Museu Ukiyo-e Ota Memorial Art. O Ukiyo-e é uma arte de pintura japonesa em blocos de madeira e as suas obras ficaram conhecidas como pinturas do mundo flutuante. Esta arte é lindíssima e sou uma apaixonada por ela (mais textos sobre o assunto aqui). Retrata imagens da vida do dia a dia, de personagens do kabuki, samurais, dos distritos do prazer, paisagens como as celebradas pinturas da onda e do monte Fuji do mais do que celebrado Hokusai, em exibição num qualquer museu ocidental perto de si (pois é, se se quer apreciar de perto estas obras japonesas o melhor é ir ao British em Londres ou ao Met em Nova Iorque). Voltando ao Museu Ota, este consegue exibir de três em três meses apenas uma ínfima parte da sua colecção. Nós tivemos a oportunidade de assistir a uma exposição dedicada ao tema "Espectros, fantasmas e feiticeiros". Teria preferido uma coisa mais delicada, mas toda aquela panóplia de monstros também  não caiu nada mal.


E, para algo totalmente diferente, temos a Omote-sando. Edifícios com as marcas mais inacessíveis ao comum dos mortais, desenhados pelos deuses da arquitectura. Desde logo o Omote-sando Hills, um centro comercial obra de Tadao Ando. Depois, do outro lado da rua, o Louis Vuitton de Aoki Jun, tendo por vizinha uma igreja - os extremos juntos. E o Tod's de Ito Toyo. Mais abaixo o Comme dês Garçons de Kawakubo Rei e, cereja no topo do bolo, a Prada de Herzog & de Meuron. Pelo meio destes, muito edifício e loja para os quais os nossos sentidos têm de estar muito atentos.



Subindo de volta a Omote-sando, seguimos depois pela Meiji-dori rumo a Shibuya. A Meiji-dori continua com lojas e mais lojas, mas agora um pouco mais populares, como de surf, street wear e montanha. Não é má ideia deixarmo-nos perder pelas suas ruas interiores, mas acabámos sem tempo para o fazer.


Shibuya é mais um distrito louco de Tóquio. Muita confusão, muita juventude, muita loja estranha, muita confusão. A Shibuya Crossing, uma intersecção de ruas desenhada a zebra das listas brancas da passadeira, é um exemplo vivo do pulsar da cidade. Por mais que já se tivesse visto em filme, é uma experiência única e arrebatadora. O melhor é atravessar a rua na diagonal como os tokyoites e depois subir ao Starbucks e ficar a ver o cenário junto a uma das suas janelas como os estrangeiros. A qualquer hora do dia, são milhares de pessoas constantemente para lá e para cá, um movimento belíssimo num cenário de neons.


Saídas de Shibuya o destino era Daykanyama e Ebisu. Até lá caminhámos pelo bairro dos hotéis do amor, mais uma vez cada um mais estranho do que outro, não só pelo conceito, mas também pelos edifícios em si. Rico, muito rico.

Passámos por ruas absolutamente calmas, estreitas, quase uma aldeia dentro da grande metrópole.

Daykanyama não é tão pop assim. Chegámos já de noite, má hora para as fotografias. Terá que ficar guardado na mente. Uma loja da Saturdays Surf NYC, onde provavelmente vimos o mais  bonito shortjohn de sempre, com um terraço com uma vista de um fim de tarde a fazer lembrar Amã - que associação estranha, seria do cansaço de um dia todo na rua a caminhar?
 

Mas Daykanyama ficará para sempre na minha memória pelo T-site, uma mega loja de livros (e também música e vídeo) com uma (mais uma) arquitectura fabulosa. São três edifícios "caixa" ligados entre si, todo um conceito melhor explicado aqui. Estilo é a palavra de ordem.

Daqui a Ebisu é só seguir em frente. Com tantos restaurantes na rua a dificuldade é escolher um. Deu para perceber que alguns não estão para receber estrangeiros. Quando entrámos na izakaya que tinha meros dois lugares ao balcão entendemos o porquê. Simplesmente não há menu sem ser em japonês, e dá trabalho entender o que o estrangeiro quer. Na verdade, também dá trabalho ao estrangeiro fazer-se entender nos seus desejos, mas o lost in translation continua a ser uma experiência das melhores para lembrar. Ficámos uns minutos à toa, a decidir se era melhor olhar para os pratos dos vizinhos ou tentar decifrar as letras, já que eu tenho a mania de que até leio hiragana e katakana. Logo um senhor japonês veio em nosso socorro oferecendo ajuda. Disse-nos que este era bom, aquele também e aquele-outro idem. Resultado: salmão grelhado (que eu me recuso a comer em casa), feijão verde seco (único verde com o qual não posso) e o sashimi da ordem (por mim amado em qualquer lado do globo). A mana não conseguiu deixar de galar os pratos dos vizinhos. Como conclusão, obrigado pela ajuda, mas tínhamo-nos safado melhor com a velha técnica do olhar para o lado e apontar.

A noite acabou com a visita à Torre do Ebisu Garden Place para ver as vistas da Tóquio nocturna.

sexta-feira, setembro 05, 2014

Tokyo on Foot, de Florent Chavouet, 2009


O autor designa Tóquio como "a mais bonita das cidades feias".
Tendo acompanhado a sua mulher, que arranjara um emprego em Tóquio, ao francês não restava muito mais para ocupar os seus dias se não pegar na bicicleta e sair a desenhar a cidade, oferecendo-nos, em consequência, uma visão muito particular e específica de aspectos que não vêm nos guias de viagem. 
O seu traço é muito apelativo. O olhar atento. As histórias cativantes. 
Inesquecível a forma como introduz cada um dos bairros: apresentando o desenho de uma esquadra de polícia, "koban", onde os funcionários, ou seja, os policias, não parecem ter outro trabalho na mais do que segura capital do Japão a não ser falar com crianças, regar plantas, dar comida aos gatos, encher o pneu da bicicleta à senhora, tirar fotos com turistas ou, simplesmente, posar a rir, bonacheirões, para o desenho de Florent.

quarta-feira, setembro 03, 2014

Japão - Tóquio - 9.º dia

A manhã deste dia foi dedicada toda ela a viajar - de comboio - para Tóquio. Optámos por seguir via Matsumoto, a outra porta de entrada dos Alpes juntamente com Takayama.

Andar de comboio no Japão é toda uma experiência. Existem linhas para quase todos os locais e os horários são frequentes. Comodidade é a palavra de ordem. Mas a organização japonesa é o que faz tudo funcionar na perfeição. Ter a oportunidade de perder tempo a assistir ao ritual que medeia entre a chegada de um comboio e a partida desse mesmo comboio de volta ao ponto de origem é ficar a conhecer um pouco mais dos japoneses e da sua capacidade de trabalho. O comboio chega e, enquanto os passageiros vão saindo, os funcionários que irão tratar de preparar o comboio para nova viagem aguardam às suas portas, fazendo alguns deles as vénias típicas. Assim que o último cliente deixa a carruagem, eles entram rapidamente e, de uma forma absolutamente treinada e mecânica, recolhem o lixo, substituem os lenços das cadeiras e viram-nas a eito, numa espécie de bailado, para que os próximos clientes possam viajar de frente. Tudo numa rapidez esteticamente perfeita, bem a tempo de permitir que o comboio saia para a sua próxima viagem à hora certa.

Já em Tóquio, depositadas as mochilas no hotel, vimos que este estava estrategicamente (pura sorte) localizado em Nippori, a dois minutos de uma das estações da fantástica linha circular Yamanote, da Japan Railway. Traduzindo, conveniente e coberta pelo nosso passe. Ou seja, enquanto ficámos neste hotel (à excepção dos últimos dois dias da viagem, em que, uma vez mais por pura sorte, o nosso passe já não estava activo) conseguíamos chegar a qualquer sítio à "borla". De referir que em Tóquio o comboio e o metro são praticamente a mesma coisa, partilhando estações.

 
 


Começámos por uma caminhada até ao Parque de Ueno, passando pela rua Yanaka Ginza, uns quantos templos pequenos e um cemitério com umas lápides bem diferentes daquelas a que estamos acostumadas. A Yanaka Ginza é uma pequena rua comercial, com mercearias e lojas de chá, que ficaria bem em tempos idos. Às 17:30 metade das lojas já estão fechadas, para que não haja dúvidas de que na mega Tóquio, a cidade que verdadeiramente nunca dorme (estudorecente prova-o), é possível viver-se a outro ritmo.


E, para algo totalmente diferente, seguimos para Ginza, provavelmente a zona de Tóquio mais conhecida e reconhecida mundialmente. Fim de tarde, pretendíamos sentir o ambiente da frenética e cosmopolita Tóquio e fazer horas para o nosso tão ansiado jantar.

Aqui encontramos todas as melhores e maiores marcas do mundo, cada uma delas com direito a um edifício inteiro só para elas. Já que estávamos no Japão, calhou bem iniciarmos o périplo pelas lojas na Muji. A questão é que mesmo ao lado fica a Tokyu Hands, outra mega loja com adereços de todo o género que possamos imaginar. Oferta e possibilidade de escolha é o que não falta.


Logo pasmámos com uma esquina com um edifício branco com recortes (Mikimoto) e vimos que, para além dos objectos de marca, havia que deliciarmo-nos com os próprios edifícios em si. Alguns exemplos, entre muitos mais, são o edifício da Loius Vuitton, da Maison Hermes e da Dior.



Consumo, arquitectura e movimento são as palavras. As ruas são largas e planas e aqui encontramos alguns edifícios ao estilo ocidental, sendo o mais famoso provavelmente o Wako Tower, o do relógio. Ginza serviu, nos finais do século XIX, de modelo de modernização e urbanização para o novo regime Meiji. Hoje vem sendo ultrapassada no ultra consumismo por outras zonas da cidade que foram, entretanto, surgindo, como Omotesando e Daikanyama.

No entanto, no meio de todo este comércio em alta escala encontramos ainda espaço para o teatro Kabuki-za. Infelizmente, desta vez não houve tempo para o kabuki.

Mas era o jantar deste dia que esperávamos vir a ser um dos pontos altos de toda a nossa viagem. O escolhido foi o Kagurazaka Ishikawa e confirmou-se como uma das nossas melhores refeições de sempre. Apesar de possuir três estrelas Michelin, não há nada de pretensioso nele. Ficámos ao balcão (existem ainda quatro salas privadas), duas portuguesas entre cinco chineses - dois casais e uma rapariga sozinha, que não se conheciam entre si. Ou seja, não fora a barreira linguística e tudo convidava à informalidade. O menu muda todos os meses. Reportagem do nosso aqui. A apresentação dos pratos, como não podia deixar de ser, foi lindíssima. A simpatia do chef e seus assistentes encantadora. A curiosidade era partilhada - nós queríamos saber deles e eles de nós, entusiasmados, pareceu-me que sinceramente, por receberem duas portuguesas. Tudo perfeito com esta alimentação por parte de todos os nossos sentidos.


De volta ao hotel, pudemos constatar como é vibrante a vida nas ruas de Tóquio até a noite se aproximar do dia seguinte. De facto, se eles dormem em média 5 horas e 48 minutos (como refere o tal estudo), em todos os bairros temos de os encontrar a pé até tarde, quem sabe a fazer horas para ir para o trabalho no outro dia. Neste dia sentimos isso no bairro de Kagurazaka, mas nos próximos dias senti-lo-íamos em qualquer outro bairro por onde passámos, fosse em Ikebukuru ou Ebisu, como já o havíamos sentido em Shinjuku, nenhum deles lugar específico da moda para se sair à noite.