domingo, outubro 19, 2014

A Dragon Apparent


Norman Lewis foi um jornalista britânico que, entre outros, escreveu uns quantos livros de viagem acerca de diversas regiões do mundo.
Elogiado pelos seus pares durante a sua longa vida (morreu em 2003 com 95 anos) - Graham Greene considerou-o mesmo um dos escritores do século -, até à presente data dele li "A Dragon Apparent - Travels in Cambodia, Laos and Vietnam", publicado em 1951, uma das suas primeiras obras. 
Não tendo a pretensão de conhecer de lés a lés todos estes três países, o certo é que conheço alguma coisa de todos eles - e todos eles me fascinaram e fascinam - pelo que pensei ser uma boa escolha começar a leitura de Norman Lewis por aqui.
Aquele que preferia pensar em si como um homem semi-invisível com o propósito de revelar poucas descrições deixou-nos um relato muito belo e interessante, escrevendo sobre minorias étnicas e aldeias, cidades modernas e cidades antigas e, com não podia deixar de ser, sobre paisagens, numa época em que a Indochina colonial já se encontrava em guerra com os franceses, mas ainda antes da guerra com os americanos (Guerra do Vietname que se estenderia aos vizinhos Camboja e Laos).
Um bom documento histórico, em especial pela preocupação que demonstra com as tribos autóctones, é igualmente um cativante relato de um observador diligente que se preocupa em testemunhar o que vê e vive para conosco partilhar.
Não obstante as referidas guerras que desde a sua visita assolaram a região, o mais fantástico é constatar que conseguimos encontrar ainda hoje no que foi a designada Indochina elementos e vivências semelhantes àquelas que nos são reveladas por Norman Lewis. Não querendo recorrer aos clichés da Indochina eterna ou pura, a verdade é que, sobretudo no Laos, consegue-se atingir um estado de uma comunhão quase perfeita com uma realidade que no nosso mundo sabemos difícil de existir já. Comunhão plena com gentes e cenários. O Mekong mítico, os monges de açafrão imaginários.
Ao ler A Dragon Apparent parece que aqui e ali o mundo (na Indochina) parou e é hoje igual ao que era há 60 anos. Os textos sobre Angkor lio-os como se quem os tivesse escrito fosse o meu companheiro de viagem de 2008. Do Laos, aos primeiros adjectivos para descrever a montanha de rocha sublime, logo vi que era a Vang Vieng de 2013. 
Certo, concedo. Estes são lugares perdidos no tempo e no espaço, não mudarão muito ao longo das décadas que se seguirão. Mas que dizer então de Saigão, a cidade a caminho de se tornar metrópole? Um exemplo:
"Era claro desde o primeiro momento em que me pus a caminho por estas abarrotadas, tórridas ruas que as vidas das pessoas do Extremo Oriente eram vividas em público. A rua é uma extensão da casa e não há uma linha divisória forte entre as duas. Ao amanhecer, no caso de Saigão, à hora em que o toque de recolher é levantado, as pessoas rolam da cama e fazem-se ao pavimento, onde há mais espaço, para efectuarem a maior parte da sua toalete. Depois, elas comem, jogam às cartas, dormitam, lavam-se, têm os seus dentes observados, são massajados por médicos, visitam adivinhos; tudo na rua. Não há nenhum do desejo de privacidade que é tão forte na Europa."
Ainda de Saigão, o autor refere o seu encantamento pelas elegantes meninas a andar de bicicleta, vestidas com os característicos robes brancos. "Criaturas etéreas", chama-lhes. Pelo menos em Hué, ainda hoje é possível observar esse postal.
E, para o final, um excerto que me parece igualmente actual como síntese do que era e é ainda a imaginada Indochina:
"Havia um rápido, silenciosamente um turbilhão de tráfego nas ruas de rickshaws misturados com bicicletas; um autocarro, varrendo de uma rua lateral por entre a torrente principal, apanhou um ciclista e atirou-o fora e esmagou a sua máquina. Ambos o condutor do autocarro e o ciclista eram chineses ou vietnamitas, e o condutor do autocarro, saltando para baixo desde o seu lugar, correu a felicitar o ciclista pela sua sorte em ter escapado. Ambos estavam encantados e o ciclista partiu carregando os destroços da sua máquina e ainda sorrindo largamente." 
Conclui Norman Lewis acerca deste episódio: "Nenhum outro incidente nas minhas viagens pela Indo-China mostra mais claramente a diferença fundamental para com a vida e sorte do Oriente e do Ocidente."

sábado, outubro 18, 2014

Centro Ismaili de Lisboa

Os ismaili são um ramo do xiismo, sendo este, por sua vez, a par do sunismo, uma das correntes com mais crentes do islão. Os ismaili, como xiitas, defendem ser descendentes directos do profeta Maomé, por via do seu primo Ali, casado com a sua filha Fatima.
Possuem como imã o Aga Khan, o 46.º imã, empossado em 1957, líder espiritual e consciência destes muçulmanos. O Príncipe Karim, actual Aga Kahn, homem moderno, com estudos na Suíça, criou a Rede de Desenvolvimento Aga Kahn, a qual advoga os princípios da tolerância, diálogo e pluralismo, com um equilíbrio entre o mundo espiritual e material. Entre outros, através dos Centros Ismailis exerce a sua missão, nomeadamente em actividades sociais, educativas e culturais, reflexão intelectual e contemplação espiritual, abraçando uma relação entre a comunidade onde está presente, o governo e a sociedade civil. Propõem-se, pois, a servir a sua comunidade, mas sempre com uma visão integradora e aberta à sociedade onde se inserem. No fundo, criar pontes entre os indivíduos e os diversos aspectos que os formam, sem perder de vista o entendimento dos princípios intelectuais e espirituais do islão que sustentam.



Lisboa é uma das poucas cidades do mundo a ter a honra de acolher um dos Centros Ismailis (os outros situam-se em Londres, Burnaby - Vancouver, Dubai, Dushanbe - Tajiquistão e Toronto).
Cada um destes Centros caracteriza-se por uma arquitectura especial. 
O Centro Ismaili de Lisboa, em particular, foi inaugurado em 1998 pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio, com a presença de Aga Khan. Fica escondido discretamente entre o Eixo Norte-Sul e a Loja do Cidadão das Laranjeiras.
O projecto arquitectónico é do indiano Raj Rewal, com colaboração do arquitecto português Frederico Valsassina. 
O espaço é surpreendente, desde logo pela forma como os arquitectos venceram o desnível do terreno e conseguiram implantar o edifício em vários níveis. Depois, pela forma como integra a zona edificada com a zona de jardins, sendo esta última dominante. Dizer que a maior parte do espaço do Centro é passível de visita pública e não apenas para o uso da comunidade ismaili.

 
É aqui visível a intenção - bem sucedida - de, partindo da civilização muçulmana, integrar distintas influências arquitectónicas, num encontro entre os legados históricos entre as várias culturas. Assim, foram aplicados materiais e técnicas locais, como o uso da pedra lioz ou o azulejo da Fábrica da Viúva Lamego. Lembrar que o uso da azulejaria é comum quer no nosso país quer na arquitectura islâmica, variando obviamente nos seus motivos. Houve, pois, a preocupação de assimilação de várias influências e culturas.
Uma dessas é a da cidade de Fatehpur Sikri, em Agra, Índia, mandada construir por Akbar, imperador Mogol conhecido pelos seus princípios da tolerância. Ou seja, a influência está na arquitectura, sim, mas também nos princípios de vida - geometria, simetria, equilíbrio - a perfeição.


Outra influência evidente é a dos jardins persas (aqui pensa-se num exemplo perto de nós, o Alhambra, em Granada). Do átrio principal vemos o Chahar Bagh, perfeito na sua geometria, simetria e harmonia - constantes em todo o edifício. Este é uma representação do Jardim do Éden, com quatro canais a representarem os quatro rios do paraíso. A água é um elemento muito presente e faz-se sentir quer visualmente quer pelo constante som da água a correr. 
Para cada zona fechada há sempre uma zona aberta que lhe corresponde. Seja este Char Bagh, seja o jardim das oliveiras, seja o jardim das laranjeiras amargas. A ideia é poder crescer, sim, mas revela sobretudo a primazia dada à natureza como força capaz de criar lugares de privacidade e tranquilidade para o espirito. Há, pois, sempre uma continuidade entre o interior e o exterior. 
Como não podia deixar de ser, esta continuidade está igualmente presente na sala de orações, o espaço mais íntimo e recolhido do Centro, aberto todos as 19:30 aos crentes. Podemos chamar-lhe mesquita ou tão somente Casa da Comunidade - Jamat Khana. A sala é enorme e uma vez mais pejada de elementos que fazem realçar o equilíbrio e a geometria tão caros ao islão. O tapete reproduz exactamente os mesmos motivos que se observam no tecto. Aqui encontramos outro elemento de excepção no projecto deste Centro - o seu tecto enorme não está suportado por colunas, mas antes por cabos de aço, o que faz deste um projecto de engenharia surpreendente.
Como fizemos uma visita guiada, integrada no evento Lisboa Open House 2014, tivemos acesso a este espaço. Como referido, a oração está vedada aos não crentes, mas fora dessa hora será necessária alguma sorte para conhecer esta sala, uma vez que a abertura das suas portas depende da presença de um voluntário. Curioso constatar - uma vez mais - a forma diferente como um, digamos, europeu se senta no chão em relação a um, digamos, asiático. Nós de rabo no chão e pernas cruzadas, eles de lado, numa posição que, diria, é muito mais elegante. Mais uma prova da beleza e harmonia a que se assiste por estes lados?

quinta-feira, outubro 16, 2014

Aya - Life in Yop City


De uma banda desenhada africana espera-se surpresa e diferença. No entanto, de Aya - Life in Yop City, autoria de Marguerite Abouet e Clement Oubrerie, edição original de 2007, chega-nos a surpresa de ver uma África, neste caso um bairro nos arredores de Abidjan, capital da Costa do Marfim, com personagens modernos mesclados de uma forte cultura local. Porém, nada das coisas do costume que nos fazem lamentar África, o continente negro em todas as suas imagens, pejado de pobreza e doença. 
Então, se a história é parecida com a nossa (leia-se ocidente) porquê perder tempo com mais do mesmo? Talvez porque, como dizia Tolstoi, "as famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira". 
Não que haja aqui em Aya muita infelicidade. Existem os contratempos comuns aos jovens, amores e desamores, sonhos por uma profissão que nem sempre é a escolhida pelos pais, uma vida confortável que pode não chegar. A marca de África surge na questão da poligamia, no tratamento das mulheres, na discriminação dos gays, na vontade de seguir para França.


Mas existe, sobretudo, muita cor e muita alegria, tudo parecendo ser pretexto para festa - outra África por nós imaginada. O traço do desenho é aqui belíssimo. 
Apenas uma curiosidade, a qual pode ser considerada um lapso ou apenas um tópico que não faz mais do que confirmar a leveza da história: os autores mostram-nos uma cidade em finais dos anos 70, mas dão-nos a entender uma sociedade marcada pelas modas vindas do outro lado do Atlântico, designadamente através das novelas do Brasil. A este propósito referem-se nesta bd duas delas: Dona Beija (alguém na história que desejava um cabelo como a Dona Beija) e Mulheres da Areia, ambas novelas dos anos 80 e 90.
Como conclusão, um boa introdução à vida numa grande cidade africana, suas gentes, seus humores e amores e negócios.



sexta-feira, outubro 03, 2014

Wenceslau de Moraes


De Wesceslau de Moraes li dois livros este verão, "Paisagens da China e do Japão" e "Traços do Extremo Oriente". A escrita do português mais japonês de sempre é delicada, intimista e apaziguadora. 

Algumas passagens tiradas do "Paisagens da China e do Japão":

- talvez sobre os bambus de Kyoto, "Aqui, um bosque de bambus gigantes, cuja sombra eterna e cuja paz soturna dão alucinações aquele que se aventura em devassar o seu mistério"; 

- acerca do shintoismo, "O shintoismo da palavra shinto (a estrada dos deuses), é a crença primitiva, patriarcal, das épocas remotas mo Japão; e conservada até hoje, a despeito da grande propaganda de Buda que se fez e se faz, é ainda a religião nacional, a religião do Estado. O shintoismo é a adoração pelo sol, pelo Imperador seu filho, por todas as forças da criação, pelas divindades protectoras, pelos génios, pelos nobres, pelos heróis e pelos sábios. O templo de shinto é o recinto consagrado a uma dessas invocações. Distingue-se antes de tudo pelo torii, o grande arco de pedra ou de madeira avizinhando do lugar, e como que indicando o caminho ao peregrino. Torii quer dizer descanso dos pássaros.";

e, como não podia deixar de ser, qualquer texto sobre o Japão não pode fugir de falar sobre a impermanência das estações, "há alguns dias, na cidade de Kobe, - poderia precisar o dia, e quase a hora, se tamanho rigorismo me exigissem, - irrompeu a Primavera. Irrompeu: não há sombra de exagero no vocábulo, irrompeu, surgiu de um pulo, fez explosão. Neste país do Sol Nascente, onde o sol, e com ele todas as grandes forças naturais, são ainda uns selvagens - se assim posso expressar-me - uns selvagens sem freio, sem noção das conveniências, incapazes de se apresentarem de visita, de luva e casaca, numa corte qualquer da nossa Europa; neste Laís do Sol Nascente, ia eu dizendo, a criação inteira apostou, parece, em oferecer em cada dia uma surpresa, toda ela exuberâncias inauditas, espalhafatos únicos, repentismos nervosos, caprichos doidos, como se reunisse em si a quinta essência da alma das crianças e a quinta essência da alma das mulheres, a gargalhada, a troça, enfim, motejadora de tudo quanto é ordem, harmonia, contemporizadora lei das transições.".

E mais algumas passagens, desta vez tiradas do "Traços do Extremo Oriente":

- uma explicação mitológica de como foi formado o arquipélago da Japão, "Copio de um livro as seguintes linhas: - "Antigamente os deuses invisíveis residiam no céu. O deus Yzagani e a deusa Yzanani datam dessa época puramente divina. Um dia, alguns pingos de água caíram da lança do deus, quem quisera sondar a profundeza do mar, e formaram a ilha de Awaji, que se tornou a ilha dos seus amores. A deusa deu ao mundo as oito principais ilhas do Japão, depois os trinta e cinco deuses ou kamis, e entre estes Amaterasu, a deusa do Sol. Amaterasu resolveu suplantar todas as divindades que haviam governado o mundo, em favor de um menino nascido das jóias que lhe ornavam a fronte. O filho do sol desceu à ilha de Kiusiu onde, durante duas gerações, residiu a família imperial; depois do que, dois dos seus membros atravessaram o mar interior, guiados pela ave de oito cabeças e protegidos pela espada milagrosa. Conquistaram o Nippon central aos deuses e aos homens rebeldes. Um deles, Yware Hiko, cujo nome póstumo foi Jimmu Tenno, foi o primeiro soberano do Japão; morreu em 585 antes de Jesus Cristo; os seus descendentes ocupam hoje o trono.";

- e para não deixar dúvidas sobre a preferência de Wesceslau entre o Japão e a China, eis um comentário definitivo, "China é suja e monótona. Loti dizia o inferno amarelo.".


terça-feira, setembro 23, 2014

Tóquio - algumas apreciações


Tóquio não é uma cidade bonita, daquelas que lembraremos pelas formas das suas colinas ou pelo rebolar dos seus rios. Mesmo os seus arranha-céus, com excepção de uns poucos, não são facilmente identificáveis no skyline da cidade. Mas tem uma vida contagiante. A qualquer hora do dia se sente movimento, jovem e louco em Shibuya ou Akihabara, artístico e de negócios em Ropoongi ou Midtown, turístico e cerimonioso no Senso-ji, consumista em Ginza e Aoyama.

Ainda assim, é possível encontrar zonas sossegadas.

Alguns aspectos estranhos merecem ser elencados, desde logo a ausência de caixotes de lixo. Pelos vistos não fazem muita falta aos habitantes de Tóquio, que dispõem de uma rede fantástica de gestão dos resíduos em suas residências e, assim, já estão habituados a levar o lixo acumulado durante o dia para casa para reciclagem. O primeiro mundo é aqui.

Outro aspecto verdadeiramente surpreendente, mas muito comum na Ásia, é a disposição dos fios de electricidade pelas ruas, emaranhados como se fossem um ninho ou esticados como uma corda de secar a roupa. O terceiro mundo também tem lugar aqui.

No metro e comboio da cidade a regra - sempre respeitada pelos seus usuários - é o silêncio. Falar ao telemóvel é proibido e as carruagens não são lugares de convívio entre companheiros de viagem, antes lugares para uma soneca. O incrível é que o pessoal em Tóquio parece acordar sempre a tempo de sair no seu destino.

Outro sinal de comportamento higiénico é a proibição de fumar na maioria das ruas.

Mas se o fumo está ausente, uma presença constante são as lojas do Pachinko, aquelas onde se podem jogar aqueles jogos de máquinas ou aqueles jogos absurdos que o Japão exportou.

Intrigante é a quantidade de mulheres curvadas (corcundas, mesmo) que encontramos nas ruas, seja em Tóquio ou noutras cidades que visitámos. Elas lá vão, irrequietas, com os seus carrinhos de compras, mas a sua figura revela fragilidade. Uma fragilidade que pode ser a consequência de anos de trabalho no campo ou da falta de cálcio por não beber leite, quem sabe?

Para o fim uma curiosidade. Encontrámos vários japoneses que à resposta de que éramos portuguesas nos replicaram que já haviam estado em Portugal. Não é grande coisa, pois não. A questão é que para além de termos encontrado num restaurante uma revista com uma reportagem sobre a ilha da Madeira, esses vários japoneses para além do continente tinham todos visitado a Madeira. Será paixão pelas ilhas?

Japão - Tóquio – 16º dia

Pode ser esquisito, mas também não me importava de começar mais vezes os meus dias com um pequeno-almoço de sushi - uma das experiências que não se deve perder em Tóquio, em especial quando se visita o Mercado Tsukiji.

O Tsukiji, o mercado central de Tóquio, é considerado o maior mercado de peixe do mundo, quer em termos de extensão quer de variedade. Ver a chegada e posterior corte dos peixes que vão abastecer a maioria dos restaurantes de Tóquio é um ritual madrugador que não está acessível à maioria das pessoas, em especial se forem turistas. A verdade é que este mercado tornou-se tão turístico que, actualmente, a maior parte do seu interior está vedado antes das 9 horas. No entanto, às 5 horas já a fila está formada para que uma centena de pessoas assista aos leilões do atum.


Temos, então, um mercado interior, onde o bulício dos trabalhadores é intenso, e o mercado exterior, com lojas livres para os cidadãos. A maior piada está no mercado interior. Diz-se que a variedade das espécies marinhas por aqui ascende às 2000. Todos os nossos sentidos têm de estar totalmente alerta, não só para apreciar coisas nunca vistas, mas também para não se ser atropelado por uma das maquinetas conduzidas loucamente pelos trabalhadores. Ou seja, não é muito fácil percorrer-se este mercado interior, mas é extremamente compensador fazê-lo e poder sentir toda a azáfama no tratamento dos produtos marinhos.



O mercado exterior é óptimo para ir petiscando, uma vez que os comerciantes fazem questão de nos dar a provar algumas das suas iguarias.

Acontece que quando se passa para a visita ao mercado exterior é da praxe que já se tenha tomado o pequeno-almoço de sushi num dos restaurantes do mercado. O critério é tentar escolher um que tenha locais ao balcão, mas as filas são tão grandes em quase todas as portas que o difícil mesmo é aguentar a ansiedade de entrar em qualquer um deles para experimentar o delicioso sushi matutino.


As horas que nos restavam neste último dia em Tóquio foram passadas na área de Roppongi, mais especificamente nos empreendimentos de Roppongi Hills e do Midtown. O primeiro foi concluído em 2003 e veio mudar a paisagem de Tóquio e introduzir um novo conceito de planeamento urbano. O segundo foi concluído em 2007 e seguiu a mesma linha. Ambos são verdadeiros exemplos da arquitectura urbana deste século, grandes complexos de aço e vidro, que abarcam num mesmo espaço as vertentes de comércio, escritórios, residência, hotéis e centros culturais.



O Roppongi Hills tem-nos a dar as boas vindas diversas esculturas, entre as quais o Maman de Louise Bourgeois, a aranha gigante que já tínhamos visto em Londres e Bilbau. A sua maior atracção é a Torre Mori, de 54 andares. Nos andares 52 e 53 fica o Mori Art Museum e no último andar o observatório Tokyo City View, havendo ainda a possibilidade de subir ao telhado para ver o Sky Deck por mais uns yenes. Dizer desde já que pela vista não merece a pena, uma vez que a nossa capacidade de circular pelo telhado é bastante limitada, ficando, ao invés, com uma excelente vista para o heliporto. Mas dizer, também, que foi a melhor compra que podíamos ter feito porque a jovem funcionária dos bilhetes se baralhou toda na venda e em troca da nossa nota de 5000 yenes para pagamento deu-nos de troco 6000 yenes. Resultado: estávamos tão aflitas com o dinheiro, que não queríamos que sobrasse para não perdermos com os câmbios, que na verdade faltava-nos era dinheiro. Graças à menina que, pelo menos momentaneamente não soube fazer contas, pudemos ficar com mais dinheiro e tempo livre para seguirmos para o aeroporto num autocarro directo que saia mesmo junto ao nosso hotel. Sugoi de su ne!



A vista da Mori Tower foi a melhor que encontrámos. Tempo limpo, dava para a nossa vista alcançar muito e tentar compreender melhor a ligação entre os bairros da cidade. Aqui de cima tudo ficou mais claro e percebemos que Aoyama e o seu mega cemitério é mesmo aqui ao pé. Isto anda tudo ligado. A Torre de Tóquio, famosa marca da cidade, espécie de Torre Eiffel mas em vermelho, estava ali mesmo à nossa disposição visual.


Quanto ao Mori Art Museum, de arte contemporânea, vimos aqui uma muito interessante exposição, daquelas que nos deixam a pensar, de seu nome "Go Betweens - O Mundo Visto Pelas Crianças".


O Tokyo Midtown é igualmente um muito bem sucedido projecto de arquitectura urbana com diversas funcionalidades. Com espaços públicos muito agradáveis, quase fazendo esquecer que estamos numa das maiores metrópoles do mundo, possui um jardim no qual está instalado uma jóia da arquitectura, o 21 Design Sight, de Tadao Ando. Se em Kyoto tínhamos visitado um seu edifício residencial que achámos muito discreto e se o Omotesando Hills em Tóquio não tinha deslumbrado, as linhas deste centro cultural voltaram a fazer com que a minha admiração por Tadao crescesse. Simplesmente perfeito em arquitectura e enquadramento.



Para finalizar a nossa passagem por Tóquio, tempo ainda para um passeio e uma descansada pelos jardins do Palácio Imperial. Bonito, algo isolado da confusão, mas com os arranha-céus ao fundo para não nos deixar esquecer que estávamos em Tóquio.

Japão - Tóquio – 15º dia

Logo de manhã dirigimo-nos para a zona de Asakusa, junto ao rio Sumida, para visitar o Senso-ji, o maior templo budista de Tóquio.


Antes, porém, abeiramo-nos do rio para ver a Tokyo Sky Tree, a torre de radiodifusão de apenas 634 metrinhos, completada em 2012 e entrada imediatamente para o lugar número 2 do mundo das mais altas estruturas, atrás apenas do Burj Khalifa do Dubai.



O Senso-ji foi, com toda a certeza, o lugar mais povoado que encontrámos em Tóquio, rivalizando intensamente com o Shibuya Crossing. Ainda para mais, foi num domingo que o visitámos e, para além dos turistas de fora de Tóquio, apanhámos também com os locais. Zen é tudo o que não se deve esperar daqui. Incenso talvez, mas encontrões são garantidos. Ainda assim, tirando a confusão do edifício principal, onde se encontra uma estátua enorme de Kannon, a deusa da misericórdia, consegue-se encontrar nos seus jardins alguma tranquilidade e muitas mais divindades. E como é bonito o espaço.

À volta do Senso-ji, designadamente até chegarmos à sua entrada, o mar de gente já anuncia o que nos espera - um sítio super turístico. São lojas e mais lojas cheias de toda a parafernália capaz de adoçar os turistas. As ruas são pedonais e se fugirmos do centro somos ainda capazes de ser contemplados com algum do verdadeiro espírito da antiga Edo.




Aqui perto fica a Kappabashi-dori, também conhecida como a "cidade da cozinha". É uma rua onde se vende tudo o que se possa imaginar existir de artefactos para fazer de uma banal refeição ou hora de chá um momento encantador e inesquecível. É impossível não nos perdermos a ver pratos e mais pratinhos ou copos e mais copinhos para, de volta a casa, sermos a inveja do bairro. Para além disso, aqui encontramos lojas inteiras que se dedicam à venda dos modelos de itens do menu da maioria dos restaurantes que vemos em Tóquio. Pois é, uma coisa estranhíssima por aqui é vermos pratos com comida que parece mesmo verdadeira em exposição na montra. Que facilita a vida ao turista, facilita, mas que não deixa de ser absolutamente kitsch, ai isso não deixa.

Continuando a caminhada do dia por Tóquio, seguimos para o Parque Ueno (Ueno Koen), onde ficam uma série de museus.

Optámos por visitar o imperdível Museu Nacional de Tóquio, o qual dispõe da maior colecção de arte japonesa, mas também de outras regiões. Mas, já que estávamos no Japão, vamos ao que interessa: aqui encontramos expostos elementos que nos permitem conhecer os inícios e a emergência do budismo no Japão, a adaptação autóctone para o budismo zen, a caligrafia, a arte da cerimónia do chá, alguma roupagem militar, biombos e portas de correr, o teatro no e kabuki e a pintura ukiyo-e. A cultura japonesa é verdadeiramente rica, daí que este museu sirva para aguçar o apetite a quem, de volta para casa, queira saber mais acerca de determinados temas.



O designado Museu Nacional de Tóquio é composto por vários edifícios, mas um deles, o que acolhe a Galeria de Tesouros Horyuji, do arquitecto Yoshio Taniguchi, é ele próprio uma perfeita obra de arte. Há que procurá-lo, que ele está lá, placidamente escondido.


Ainda no Ueno Koen fica outra gabada peça arquitectónica, o Museu Nacional de Arte Ocidental, obra de Corbusier da década de 1950.

Este Parque é muitíssimo concorrido, não só pela cultura que proporciona, mas também em termos de lazer. Aqui existe um lago curioso. Ao princípio tínhamos achado que o desenho no mapa era o de um lago com água, mas surpreendente foi verificar que era um lago, sim, mas cheio de lótus enormes. Diz que é comum no verão os lótus preencherem a água de tal forma que ela deixa de ser visível. Mais uma para o rol de estranhezas da cidade.
 

Saídas do Ueno Koen percorremos a rua que segue por baixo da linha do comboio até Akihabara. É conhecida como a Arcada Ameyoko, antigo mercado negro nos tempos do pós II Grande Guerra. Hoje parece ser um bom lugar para procurar pechinchas, para quem tenha paciência para o seu ar de feira ambulante.



Akihabara é o lugar dos o
taku, os nerds. Quem se encanta pela cultura japonesa actual - urbana e jovem -, que vai desde a indústria electrónica até à manga e anime, vai se sentir aqui como no céu. Este é todo um novo mundo. Akihabara é conhecida como a "cidade da electrónica", mas hoje vem ganhando o título de "cidade da manga".


São edifícios inteiros dedicados a todo o equipamento electrónico do passado, presente e futuro. Sim. Mas, são também edifícios inteiros dedicados a esse mercado inacreditável da manga, a banda desenhada japonesa. Universo este que é composto pelos livros, sim, mas também por todo o merchandising à sua volta, como acessórios, roupa, bonecada. E os livros, bem, os livros possuem as temáticas todas, incluindo histórias de rapaz encontra biblicamente rapaz, ou rapariga encontra biblicamente rapariga, ou ambos os quatro se encontram juntos ou separados, em número suficiente para encher vários pisos inteiros. Sério, isto existe?

O fim deste dia intenso terminou numa izakaya recolhida em rua interior de Ginza, numa esplanada improvisada no passeio, mesas ainda mais improvisadas aproveitando grades de cerveja. Seria o último jantar no Japão e ainda hoje tenho a certeza de que poderia ser feliz a alimentar-me todos os dias daqueles petiscos fantásticos.

quinta-feira, setembro 18, 2014

Japão - Shimoda e Shirahama - 13º e 14º dias

A uma sexta-feira decidimos ir passar uma espécie de meio fim-de-semana à Península de Izu, uma escapada algo comum para os habitantes de Tóquio. O local eleito foi o mais a sul nesta Península, Shimoda, a pouco mais de duas horas de comboio não directo de Tóquio. A viagem é extremamente agradável, em especial o troço que segue de Ito até Izukyu Shimoda (é este o nome correcto da estação, só Shimoda induz-nos em erro e leva-nos para outro lado). Quase sempre junto ao Pacífico, vamos vendo a água super azul, num belo contraste com o verde da vegetação.



 Shimoda já aparecia em documentos históricos de períodos antigos do Japão, mas o seu papel na história ficou definitivamente cravado quando na década de 1850 teve um contributo decisivo para a abertura do país do sol nascente. Foi na sua baía que os "black ships" do Comodoro Matthew Perry aqui aportaram em primeiro lugar e, assim, a cidade de Shimoda tornou-se o primeiro porto japonês a abrir-se aos estrangeiros, acabando com a política de séculos de seclusão do xogunato Tokugawa. Tratados foram aqui assinados com os americanos e, anos mais tarde, tratados voltariam aqui a ser assinados com os russos.


Hoje, como reconhecimento do papel de Perry no impulso da modernização do Japão, vemos um monumento com um busto seu e uma rua com o seu nome, por sinal do mais pitoresco que pode existir. Já lá vamos.

Antes, dizer que é imperdível seguir o percurso sugerido pelo turismo da cidade, saindo da estação directamente para a baía e seguindo sempre junto à costa, contornando-a até irmos alcançar, precisamente, a Rua Perry.



A costa é bordejada por montes cheios de vegetação. Ao contrário da calmaria das águas da baía, as ondas num mar algo revolto teimavam em bater junto às rochas na costa mais aberta. O suficiente para abrir o apetite da mana para a sessão de surf que esperava vir a ter mais tarde.



Shimoda tem vindo a transformar-se de porto de pesca para centro de turismo. No entanto, não lembro de nos termos cruzado com um só turista, quer junto à costa quer nas suas ruas. Estas possuem um ambiente de cidade perdida, peixe deixado a secar à porta, cafés e comércio que poderíamos encontrar numa aldeia portuguesa. A Rua Perry, pelo contrário, é bem distinta. Com um canal a dividir os dois lados da rua, aqui encontramos um ambiente mais vivo, lojas de artesanato, cafés com estilo, rua lindamente decorada com flores.


Existem diversas praias perto de Shimoda, mas a nossa escolha para passar a tarde, noite e manhã seguinte recaiu em Shirahama. O seu nome quer dizer qualquer coisa como "praia de areia branca", ao que parece com a ajuda dos australianos que para aqui transportaram alguma dessa areia.



Shirahama é ainda descrita como uma surf city. Por sorte, na tarde em que chegámos havia condições suficientes para qualquer surfista se divertir um pouco. E para qualquer banhista ter um dos seus primeiros dias de praia do ano (no dia 11 de Julho? Onde é que isto já se viu? Cortesia de São Pedro para Lisboa 2014).




A praia é bonita. O enquadramento é especial, com muito verde à volta. Os edifícios que a acompanham não são nada de especial, e existe mesmo lá um hotel mamarracho que não faz falta nenhuma (se fosse necessária confirmação, não é só em Portugal que existem atentados à paisagem). Mas no final da praia, sobre uma rocha saída, existe um santuário xintoísta - apenas o tori - que o torna um dos mais bem localizados em todo o mundo, certamente.


O nosso hotel ficava perdido no meio da estrada, com uma vista fabulosa para o mar. E com um pequeno onsen, aberto de noite e exclusivo de um dos quartos, sob marcação, com uma vista para o mesmo mar e, nessa noite, para a lua cheíssima.



Foi, aliás, a lua cheia que nos safou quando terminámos a nossa tarde na praia e nos pusemos a caminhar para tentar descobrir outras praias vizinhas, passando por uns templos. Quando voltámos era já noite e a rua principal não tinha iluminação. Arranjar um restaurante também não foi muito fácil, uma vez que as alternativas não eram muitas. A verdade é que Shirahama não está assim tão desenvolvida. É uma perfeita cidade de praia perdida no mundo e isso é bom, muito bom.

A manhã do dia seguinte foi totalmente dedicada ao escaldão. Cerca de 30 graus, água quase à mesma temperatura. Sem ondas, desta vez. Como era sábado, a praia estava muito composta. Entretivemo-nos a observar a dinâmica da praia.



Uns levam a tenda - literalmente - e todos os apetrechos indispensáveis a um bom dia de praia, como carne e champanhe. Todos possuem bóia como amiga inseparável no momento de ir molhar os pezinhos. Outro (foi só um) escolhe usar como indumentária a roupa que o Borat imortalizou, mas desta vez em cor-de-rosa e, depois do almoço, em verde choc. Este senhor estava mesmo deitado ao nosso lado, com um género de capacete a protegê-lo do sol, e nem queríamos acreditar na figurinha.



Praia no Japão? Diversão garantida.

Voltámos para Tóquio ao fim do dia e resolvemos que ainda tínhamos tempo para passear por Harajuku, com o pretexto de descobrir a embaixada do Brasil na cidade, uma vez que tinha visto umas fotos do pavilhão especial que aí instalaram para a Copa e a sua arquitectura me tinha agradado. Dêmos como o edifício, mas claro que já era de noite e não o pudemos apreciar. Ou seja, não há testemunhos de eventuais ondas de choque que os 7x1 possam ter deixado por este oriente.

Mas a viagem não foi perdida. Aliás, nada se perde em caminhar, sempre se conhece e aprende e apreende algo de novo. No caso, a pacatez de Harajuku e Aoyama, em que a poucos metros de uma meca do consumismo se consegue encontrar ruas estreitas com prédios baixos, uns de arquitectura banal, outros verdadeiras vilas ode ao bom gosto. Acabámos por jantar numa pequena osteria com esplanada no mini passeio, numa destas ruas calmas. Poderia ser Europa, mas a barata que atravessava zelosamente a rua lembrava a humidade deste início de noite de Julho em Tóquio.