sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Que há em Roma para ver?

"Que há em Roma para ver que outros ainda não tenham visto? Que há para tocar que outros ainda não tenham tocado? Que há para sentir, aprender, ouvir, saber, que me possa deleitar antes que os outros saibam? Que posso descobrir? Nada. Nada de nada. Aqui sucumbe um dos encantos da viagem."
Mark Twain, "Viagem dos Inocentes", publicado em 1869

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

Roma 2014-15


Dezanove anos depois voltei a Roma. 
A ideia que levava da minha primeira visita ainda no século passado era a de que em pleno Outubro mal conseguira cruzar-me com romanos, tal era a quantidade de turistas já naquela época. Logo, as expectativas quanto à possibilidade de no final do ano de 2014 ter um momento de sossego e introspecção face a face com as obras da antiguidade e da renascença eram diminutas. É a postura correcta, a não ser que se escolha o horário entre as 8:00 e as 9:00 da manhã para visitar os locais mais conhecidos de Roma.
Um aviso, porém: é impossível visitar Roma sem que algo esteja em restauro ou reforma. É uma constante e não há que lamentar isso, afinal o que faz Roma ser Roma é o seu passado e esse tem de ser continuamente cuidado. Felizmente, Roma tem também presente e terá futuro. E, felizmente também, esses os demais turistas não estão preocupados em conhecer.
Explicando melhor, Roma é, na verdade, impossível nos dias que correm. A competição por visitar as suas praças e fontes e as obras dos seus artistas, em especial do barroco, é altamente disputada. Há que estar bem preparada fisicamente para ganhar um lugar mais à frente a todos os estrangeiros que conosco competem pela melhor vista. Se há umas centenas de anos foram os ingleses e alemães que se deixaram seduzir por Roma como ponto de passagem no seu Grand Tour, hoje a concorrência feroz inclui chineses e russos.
Acontece que, para ajudar à decisão de fugir dos locais mais batidos, os romanos de hoje não parecem ter o mesmo gosto e estética que tanto encantou Goethe no século XVIII e o fez eleger Roma como a escola da sua formação estética. A chegada a Roma está hoje longe de poder ser considerada um segundo nascimento e a mudança interior só poderá ser para pior quando se entra pela Piazza Navona e se constata com pavor que entre as suas belíssimas fontes está instalado um carrossel e bancas com figuras que serão abatidas pelos clientes que dispararem tirinhos ou lançarem bolas. Esfrego os olhos e penso, "estarei no adro da igreja matriz de Aldeia das Dez em plena festa de São Bartolomeu?". Não, não pode ser, afinal de contas em Agosto não faz temperatura negativa e nem sequer vejo a casa da avó.


Colocando a nossa Sophia de Mello Breyner ao barulho, dizer que no século XXI também já não podemos dizer que viajar é olhar quando nos encontramos na Piazza Navona.
Teria, então, James Joyce razão ao mostrar desprezo por Roma por se sentir rodeado de ruínas e mortos, recordando-lhe um homem que vive de exibir o cadáver da sua avó? Talvez não. Hoje, pelas ruínas, caminha-se com menos gente (Fórum e Coliseu) ou sem ninguém (Termas de Caracalla e Catacumbas de São Sebastião), enquanto que pela Roma renascentista e pelo Vaticano e bairros giros como Trastevere a gente é tanta que nos faz sentir que é preferível que todos já estivessem na realidade mortos. Não há volta a dar. Fala-se de Roma e vai-se dar sempre ao exagerado número de pessoas que hoje a visita. Políticas urbanas e turísticas são urgentes para reverter um ciclo que, se nada se fizer, pode ter um fim.
Então quer isto tudo dizer que não vale a pena o aborrecimento de passear pelo centro de Roma e suas maiores atrações? 
Não. Roma é e será sempre o centro da nossa civilização e todas as estradas lá vão dar. Para além disso, vale sempre a pena conhecer as cidades em todas as suas vertentes. 
E Roma, nisso, é uma verdadeira cidade moderna e cosmopolita. 
Se se quer ver muita gente, por exemplo, é circundar o Termini, a principal estação de comboios de Roma, e por aí fica a entender-se quem são os actuais habitantes da cidade. Apanhar daí um eléctrico e depois um autocarro para se percorrer a Prenestina, parando no caminho no Pigneto, também ajuda a conhecer a Roma mais próxima de nós, multicultural, onde se divide um transporte público com africanos, árabes e chineses, e onde se percebe a transição das muralhas romanas da cidade para as habitações contemporâneas e, por fim, para a zona industrial hoje tomada por quem lhes dá novos usos. Roma convive com o passado, sim, mas não deixa de olhar para a frente.
Muito há a conhecer para além do banal folheto turístico. 
Por exemplo, o modernismo, tomando o epíteto de "racionalismo", do legado urbanístico de Mussolini expresso no Foro Italico e no Eur. E o Maxxi e o Parco della Musica dos arquitectos estrela Zaha Hadid e Renzo Piano, respectivamente (e aqui poderia incluir ainda Richard Meier e a sua intervenção no Ara Pacis - que vi de fora - e a sua igreja de Dio Padre Misericordioso no bairro de Tor Tre Teste - que não vi). Quanto a bairros passíveis de admirar o ocre alaranjado ou rosado dos edifícios de Roma, talvez seja bom incluir visita mais demorada por Testaccio, e quanto a vistas sobre toda a cidade, numa das suas várias colinas, Aventino é uma hipótese mais avisada. A quantidade e qualidade da arte que por Roma existe é tanta que Caravaggios e tutti quanti podem ser vistos em museus não tão populares como o Vaticano e igrejas não tão frequentadas como São Luís dos Franceses ou Santa Maria del Popolo. E se se pretende visitar ruínas romanas apenas com famílias de italianos a Vila Adriana é a ideal, assim como o é a Vila de Este para palácios com jardins fabulosos, ambas na cidade próxima de Tivoli.
Ou seja, é tudo uma questão de escolha - e Roma, pelo seu encanto diverso, presta-se a isso. 

terça-feira, fevereiro 03, 2015

Alcatrão, Luís Brito


Alcatrão, publicado pela editora Abysmo, em 2013, é um relato pessoal de estadias e viagens de Luís Brito por vários cantos do mundo.
De entrada, já em casa de volta dos seus périplos, diz logo ao que vem: "Caminhar, poder andar a pé, é um privilégio e não um sacrifício".
Este não é um livro de viagens comum. Não há descrição das paisagens e dos sítios, mas abundam as descrições do outro que se vai encontrando pelo caminho e com quem se vai partilhando experiências, rituais e aventuras. 
Há uma constante procura do brincar com as palavras e produzir textos de inspiração pessoal. "Porque é que fico tão feliz quando me faço de sem abrigo?" - mostra a simplicidade que coloca no acto de viajar. "Se a vida é um negócio, eu estou a ganhar. Recebo tanto e pago tão pouco." - o optimismo sempre presente. "De tanto conhecer homens e mulheres diferentes de mim, de tanto ver neles espelhos novos, de tanto me espelhar e reflectir, noto agora como me vou despersonalizando, me vou esvaziando aos poucos dos meus caprichos e me vou tornando numa espécie de espião, que vê muito, vê sempre, mas participa pouco" - o eu tornado outro.
Entre tantas histórias caseiras vividas e contadas recordo, porque não me é também estranha, a dos caminhos-de-ferro na Índia. "Quem vem à Índia passa a ver com outros olhos os caminhos-de-ferro. Porque aqui eles parecem caminhos de ferrugem: os comboios não chegam a horas ou partem antes da hora, às vezes não param onde prometeram e os bilhetes, mesmo se adquiridos nas bilheteiras oficiais, podem ser falsos, por terem sido vendidos a turistas ingénuos. As estações são assustadoramente caóticas. Casas para uns ou leito de morte para outros, ou ponto de passagem de um povo que não pára no mesmo sítio, sempre a visitar familiares distantes, sempre a fazer negócio e a fazer pela vida." 
Recordo ainda os postais "chorir", leia-se, chorar a rir, também da Índia.
Mas não é a Índia a monopolizadora das histórias. Encontramos muito alcatrão pisado e vivido na Argentina e Chile, voluntariado em Moçambique, pedaladas na Turquia e o surf em background na Indonésia.
Em resumo, uma série de experiências vividas em conjunto com os indivíduos dos locais visitados, possibilitando um melhor conhecimento da psique local, tornadas histórias que nos são relatadas com uma intimidade que nos torna, a nós leitores, cúmplices destes caminhos percorridos. 
Obrigada por esta procura de si próprio, Luís.

sexta-feira, janeiro 30, 2015

A Moreninha Voltou a Paquetá

Três sílabas. Pa-que-tá. Paquetá. Toda a doçura e tranquilidade concentradas em três sílabas.
Localizada no meio da Baía de Guanabara, a ilha de Paquetá pertence à metrópole do Rio de Janeiro. Na verdade a pertença é pouca, tais as diferenças de contextos.
Paquetá é um lugar perdido. Parado no tempo. Está como ficou na minha memória há mais de 20 anos, quando a visitei pela primeira e única vez, até esta nova visita.
Ter cristalizado não será um defeito. É antes um traço distintivo. Pelo menos na minha óptica.
Pouco terá mudado desde que D. João VI a frequentava. Ou desde que Joaquim Manuel de Macedo escreveu, em 1843, "A Moreninha", romance responsável pelo baptismo de alguns locais da ilha, como a Praia da Moreninha e a Pedra da Moreninha de onde se avista, ao fundo, a cidade do Rio de Janeiro e onde o final do dia tem outro encanto.
É a sensação de estarmos noutro momento histórico, bem como o sossego, que dão todo o encanto a Paquetá.
As ruas continuam a ser em terra batida. Os carros não existem (só veículos de emergência).
A bicicleta é o transporte de excelência. Andar a pé também é boa opção.
As casas são baixas, com traça antiga e charmosas.
A vegetação e as árvores de flor laranja, que anunciam a chegada do Verão, as Flamboyant ou Flamejantes, dão uma beleza e um toque caloroso especial.
Pelas ruas ou na praia as crianças brincam tranquilamente e divertem-se com coisas simples.
Ao final do dia a população encontra-se na praça junto ao terminal das barcas que vão e vêm do Rio de Janeiro.
Nós percorremos parte da ilha de bicicleta. Absorvemos as cores, cheiros e silêncios. Sentamo-nos amiúde para sentir a atmosfera.
Deixamos as bicicletas no ponto de aluguer e, desastradamente, ao estacionar a minha bicicleta faço um dominó com todas as outras que estavam perfiladas. Ninguém se importa. Imperturbável e com toda a calma o moço repõe a ordem.
Continuamos a jornada, a pé, para o outro lado da ilha. A serenidade continua, ainda que as águas naquele lado estejam agitadas pelo vento. Voltamos a dobrar a ilha e a serenidade torna a ser total. O vento ali não afecta a tranquilidade das águas.
A tarde corre para o fim. A atmosfera está quente. O calor vem de todos os lados. Não resisto e dou um mergulho. Não que a água tenha uma cor apetecível, mas a canícula pede mesmo. Depois, sento-me no banco quente, com o calor acumulado do dia, e deixo-me secar. 
Um homem rema enquanto o sol baixa e começa a ficar atrás das nuvens. Ainda assim a luz dourada do sol está reflectida na água. Deixamo-nos ficar, no topo da Pedra Moreninha, enquanto uma trovoada está cada vez mais próxima e forte. Sintomas tropicais.
O sol continua a declinar, mas sem se dar a ver. Ainda assim o momento não deixa de ser bonito e não deixamos de agradecer por sentirmos toda esta beleza e paz. Muitas vezes bem próximo de onde não se imagina.
A moreninha voltou a Paquetá. E amou.

segunda-feira, janeiro 19, 2015

Cândido Portinari


A propósito da visita da mana a São Paulo e ao Rio de Janeiro, e já que tocou no assunto Portinari  - pintor por mim adorado -, seguem mais detalhes.
Cândido Portinari nasceu em Brodowski, São Paulo, em 1903, filho de imigrantes italianos tornados camponeses. Colocou esta cidadezinha do interior do estado no mapa. A sua infância na região, terra do café, influenciaria a sua obra, uma vez que desde cedo testemunhou o trabalho nas plantações que o rodeavam, vida difícil de brancos, negros e mestiços.
Começou por estudar pintura e desenho no Rio de Janeiro, mas logo partiu para a Europa, onde frequentou os museus e tomou contacto com a pintura moderna. No entanto, não esquecia o Brasil e a sua Brodowski, confessando que "Daqui fiquei vendo melhor a minha terra - fiquei vendo Brodowski como ela é. Vou pintar o Palaninho, vou pintar aquela gente com aquela roupa e com aquela cor. Quando comecei a pintar, senti que devia fazer a minha gente e cheguei a fazer o “Baile na Roça”... A paisagem onde a gente brincou a primeira vez não sai mais da gente, e eu quando voltar vou ver se consigo fazer a minha terra.".
De regresso, iria utilizar a sua arte como expressão daquilo que o rodeava, num processo reflectido. Sentia a necessidade de mostrar a realidade, não se mostrando alheado do que se encontrava à sua volta. Para isso, era central a utilização da figura humana de forma a melhor expressar essa realidade feita de vidas sofridas.
O seu filho, João Cândido, responsável pelo Projecto Portinari (http://www.portinari.org.br), afirmou em entrevista à agência FAPESP "O excluído é um personagem absolutamente central. Ele vivia em uma região cafeeira do interior paulista que era passagem de retirantes que vinham do Nordeste. Isso impressionou de forma indelével as retinas daquele menino que presenciou a tragédia das famílias que viajavam em condições desumanas. Essa experiência despertou nele, de forma muito precoce, um sentimento de solidariedade incondicional com o excluído.".
A temática das suas obras possuía, claramente, uma preocupação social (Portinari era assumidamente comunista, ainda que fizesse questão de não seguir cegamente a cartilha), mostrando o negro, o trabalho, a infância. Dizia que sua obra era dedicada ao povo.
Mas, facto nem sempre conhecido, parte da sua obra foi dedicada ainda à arte sacra, ao que não será alheia a forte religiosidade dos seus pais italianos.
Ao longo da sua vida Portinari procurou de forma constante inovar na sua obra. Poderá considerar-se surrealista, cubista, neo-realista. Talvez seja esta a fase que mais me agrada e que o faz juntar aos vários portugueses que por este caminho seguiram, não esquecendo a oportunidade que a Casa da Achada - Centro Mário Dionísio, volta e meia, dá aos lisboetas para poderem observar ao vivo uma das suas obras. 
Apesar da sua obra estar espalhada um pouco por todo o mundo, quer em colecções públicas quer privadas, será obviamente no Brasil que se poderá visitar o maior número das suas obras. Desde logo no Museu Nacional de Belas Artes do Rio, o qual possui o maior acervo público de Portinaris. Ainda no Rio, o Museu Chácara do Céu é também uma boa opção. Em São Paulo, visita incontornável aos inevitáveis Museu de Arte de São Paulo e à Pinacoteca.

Algumas das suas obras mais marcantes:


- "Despejados" (1934) é uma das suas primeiras obras de temática social, mostrando os retirantes que pouco mais têm para além da morte.


- "O Mestiço" (1934) foi adquirida pela Pinacoteca de São Paulo, a primeira instituição pública brasileira a incluir uma obra de Portinari no seu acervo. Aqui é representado o trabalhador, de mãos fortes e corpo pujante.


- "Café" (1935) (obra apresentada em Lisboa em 1940 por ocasião da Exposição do Mundo Português) mostra os trabalhadores com pés e mãos descomunais para suportarem a submissão ao peso dos sacos que trazem aos ombros.


- "O Lavrador de Café" (1939) mostra uma vez mais o trabalhador negro forte, capaz de adaptar-se às duras condições quer de trabalho quer geográficas e climáticas.


- "Guerra e Paz" (1952-56) - painéis efectuados para a sede da ONU em Nova Iorque onde o enfoque na exclusão dos homens provocada pela guerra é visível. Mas a guerra é representada pelo povo em sofrimento, não pelos soldados em luta. Notam-se aqui influências do Guernica de Pablo Picasso. Na sequência da feitura desta obra, devido à intoxicação pelas tintas utilizadas, Cândido Portinari viria a morrer em 1962. Ficou a que, para muitos, é a sua maior obra, síntese de todas as outras.

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Niterói | No Encalço de Niemeyer

Programámos o dia para fazer, como os brasileiros dizem, um bate-volta a Niterói. É como quem diz, ir e vir no mesmo dia ao outro lado, o nascente, da Baía de Guanabara.
Niterói é para o Rio de Janeiro o equivalente a Almada para Lisboa. É uma cidade da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, está também ligada por uma ponte, a Ponte de Rio-Niterói, e por carreiras regulares de barco e ferrys, aqui chamados Barcas. Têm também vistas magníficas para o outro lado da Baia de Guanabara, para a cidade do Rio de Janeiro, mas tem igualmente muitos outros motivos de visita.
Aproveitámos a ida ao outro lado da Baía para fazer uma manhã de praia num dos locais de melhores ondas da região do Rio de Janeiro, Itacoatiara. Como costume nas minhas incursões às praias mais famosas do mundo para a prática de surf o mar estava completamente piscina. Nem uma onda para contar história. Contudo, o visual da praia valeu a deslocação até Itacoatiara. Ainda que o meu imaginário deste beach break poderoso vá continuar ligado às reportagens da revista Fluir.
Como um dos grandes objectivos do dia era ir até ao Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói, obra de Oscar Niemeyer, prosseguimos de Itacoatiara para Niterói, nomeadamente para a ponta norte da praia da Icaraí, junto ao Mirante de Boa Viagem.
É aqui, numa localização excepcional, com vistas magníficas para Icaraí, Charitas, Pão de Açúcar e outros locais do Rio de Janeiro, que se situa o MAC e as suas linhas futuristicas.
O edifício parece um ovni acabado de aterrar, mais ainda pela sua localização, na extremidade de um promontório.
O edifício, com as suas linhas sinuosas e os seus pormenores, seduz.
Contudo, não deixo de lamentar a pouca dignidade de alguns aspectos, nomeadamente no interior, como a área de recepção e bilheteira, que é demasiado acanhada e improvisada. Destaque negativo também para, no dia que visitámos, grande parte do espaço expositivo estar inacessível para montagem de uma nova exposição, fazendo com que não tenha sido possível fruir praticamente nada do interior do edifício, já que a área disponível, com uma exposição, de Lígia Clark, que não ficará na memória, era muito diminuta. Um projecto desta envergadura merece ser substanciado com uma programação mais cuidada.
Ainda no interior, num nível abaixo, foi possível aceder ao restaurante. Pormenores como a altura das janelas à medida de quem está sentado lembram-nos da genialidade do arquitecto.
 
A partir do MAC seguimos para o centro da cidade. Com o objectivo de ver mais obras de Niemeyer, ou não fosse Niterói a segunda cidade do mundo, a seguir a Brasília, com mais obras arquitectónicas do maior nome da arquitectura brasileira.
Ao longo da orla da Baía de Guanabara encontram-se um conjunto de obras, que no global formam o Caminho de Niemeyer.
O caminho é composto por sete equipamentos. A seguir ao MAC, na orla, cruzámo-nos com o Museu Petrobras de Cinema. Mais uma vez a dignidade do projecto, aqui de uma forma mais gravosa, é posta em causa. Depois de concluídas as obras em 2012, por um litígio quanto à gestão, a prefeitura abandonou o projecto cultural e o edifício está abandonado e com sinais claros de degradação. Lamentável.
Continuando, passamos pela Praça JK, também projecto de Niemeyer. Aqui deparámo-nos com uma grande marquise, semelhante na forma à do Ibirapuera, que liga os dois extremos da praça, localizada na enseada adjacente à estação das barcas, shopping center e terminal de ônibus.
Chegamos ao Aterro da Praia Grande. Mais precisamente a uma grande praça, conhecida como a Praça Popular de Niterói, localizada a norte da estação fluvial do centro de Niterói e do Terminal Rodoviário e pontilhada por diversos edifícios projectos de Niemeyer. Encontramos o Centro de Memória Roberto Silveira, que abriga um importante acervo histórico e iconográfico de Niterói.
No Aterro encontramos também o Teatro Popular Oscar Niemeyer. O acesso ao edifício é efectuado por uma rampa sinuosa, tal como a estrutura do edifício, características do arquitecto.
O edifício tem um palco reversível, que dá para o exterior, semelhante ao Auditório de Ibirapuera, que permite espectáculos ao ar livre.
A fachada do lado poente é envidraçada, permitindo a partir do interior do auditório fruir da vista para a Baía da Guanabara.
A face oposta do edifício é composto azulejos amarelos e pinturas do arquitecto. No piso superior o túnel que faz a transição entre as duas fachadas apresenta também uma composição de azulejos, brancos, com pinturas também de Niemeyer.
No vazado do edifício encontra-se um painel com a cronologia das principais obras de Niemeyer e existe um café com esplanada.
A Fundação Oscar Niemeyer é outra obra arquitectónica que se encontra no Aterro da Praia Grande. Trata-se de um centro de informação e pesquisa ligado à arquitectura, urbanismo, design e artes plásticas.
Para a praça foram projectados mais edifícios, que até à data ainda não chegaram a ser concluídos.
Podíamos, de regresso ao Rio, ter atravessado a Baía de Guanabara a partir do Terminal de Barcas de Charitas. Não o fizemos. Fomos antes pela estação da Praça Arariboia. Perdemos assim outra obra de Niemeyer.
Mas como ficar triste depois de todo o desfrute arquitectónico das outras obras e deste visual à despedida?

terça-feira, janeiro 06, 2015

Rio de Janeiro | O Menos Clássico

O documentário Santiago tem como pano de fundo uma casa fantástica. É possível visitar a que outrora foi a casa da família de Walter Moreira Salles, banqueiro e embaixador, e onde Santiago foi mordomo.
O filme de João Moreira Salles - simultaneamente director do filme, irmão de Walter Salles (realizador de filmes lindíssimos, tais como Central do Brasil) e filho de Walter Moreira Salles, mostra a casa, localizada no Alto Gávea, que desde 1999 é a sede do Instituto Moreira Salles, um centro cultural de referência para a fotografia e música.
A casa, projecto de arquitectura de Olavo Redig de Campos e projecto paisagístico de Roberto Burle Marx, é um marco da arquitectura moderna de meados do século XX.  
Elegante, foi feita para alojar uma família numerosa e com uma intensa vida social, como mostra o documentário. A casa é organizada em torno de um pátio central, que se abre para a piscina, a qual é marginada por uma ondulante e elegante marquise e por um mural sinuoso de azulejos da autoria de Burle Marx. A vista de fundo é uma montanha de um verde exuberante. No interior há sempre uma exposição interessante para ver.
No videoclip Beautiful de Snoop Dog em determinado momento surge uma composição arquitectónica misteriosa e exótica, rodeada por uma envolvente com os mesmos atributos. Do que se trata? Do Parque Lage.
A história deste espaço começa no inicio do século XIX. Actualmente é um parque público com um palacete que abriga a Escola de Artes Visuais e um café com uma charmosa esplanada nas arcadas pátio central, junto à piscina.
Está inserido no Parque Nacional da Tijuca, pelo que os seus jardins apresentam uma deslumbrante e exuberante natureza e uma vista  fabulosa para o morro do Corcovado.
Próximo do Parque Lage fica o Jardim Botânico, que apesar de não ser o espaço mais turístico do Rio de Janeiro, a imagem da entrada, com a correnteza de palmeiras, é um dos ex-libris da cidade. Este espaço fantástico, inserido na Mata Atlântica, apresenta uma grande diversidade de flora brasileira e estrangeira.
São Conrado enquadra-se, tal como o Jardim Botânico, nos locais que não sendo desconhecidos não são também incontornáveis no turismo mais clássico.  
É na praia deste bairro de classe alta que aterram as asas deltas que saltam da Pedra Bonita. Um dia de praia aqui, para além de mais tranquilo do que nas outras praias da zona sul (Copacabana, Ipanema e Leblon), tem sempre o atractivo de ter algo colorido a sobrevoar, bem como a Pedra da Gávea, o maior monolítico costeiro do mundo, como companhia.
Bem menos procurado pelos turistas é o centro do Rio de Janeiro, nomeadamente o Museu Nacional de Belas Artes, a Praça XV, o Mosteiro de São Bento, o Teatro Municipal, a Catedral Metropolitana, entre outros.
A Urca é outro espaço que apesar de ser a ante-câmara para um dos locais mais visitados do Rio, o Pão de Açúcar, acaba por não ser vivenciado como merece. É uma maravilha percorrer as ruas tranquilas deste bairro, observar os vários pontos de vista que se tem daqui, admirar as suas praias e comer nalguns dos locais emblemáticos, como o Bar da Urca e o Belmonte.
Próximo do acesso ao maior ponto turístico do Rio de Janeiro, o Corcovado, eleito como uma das novas Sete Maravilhas do Mundo, ficam outras maravilhas.
O Museu de Arte Naif, com um acervo entusiasmante, e o Largo do Boticário.
Este último, um largo delicioso no Cosme Velho, envolto por casarões em estilo neocolonial e pela vegetação da Mata Atlântica, teve o seu momento cinematográfico no filme 007 – Aventura no Espaço (Moonraker no original).
O nome do largo deve-se a Joaquim Luiz da Silva Souto que foi farmacêutico da família real. O acesso ao largo faz-se por uma pequena ponte sobre o Rio Carioca, que aqui tem dos poucos troços a céu aberto. No dia que estivemos no Largo cruzámo-nos com um grupo de pessoas que iam iniciar uma manifestação contra a situação de aterro do rio. Ainda nos tentaram mobilizar, contudo, decidimos ficar a contemplar o ambiente decadente-charmoso daquele pedacinho do Rio de Janeiro, que seguramente não está no imaginário da maioria dos turistas que visitam ou pensam visitar a cidade.