quinta-feira, agosto 20, 2015

Montenegro


Crna Gora é Montenegro para os locais. 
E o país é, na realidade, preenchido pelas montanhas, mas não necessariamente negras. A montanha é omnipresente, encontramo-la na costa, a sul, e no interior, a norte, e terá servido de barreira natural para manter os vizinhos à distância.

Região acidentada, as estradas do país são uma autêntica obra do homem para romper a natureza. O resultado são cenários belíssimos e é difícil eleger uma ou sequer um top 3 das estradas mais bonitas. Percorremo-las na costa, com as suas cidades medievais de estilo veneziano, também rodeando o Golfo de Kotor, subimos a montanha até ao monte Lovcen (o tal que dá o nome ao país), descemos para Cetinje (o centro histórico montenegrino), adentramos o território rumo às montanhas onde ficam dois incríveis canyons (Piva e Tara) e voltamos a sul passando pela capital Podgorica (encravada nas montanhas) e pelo Lago Skadar (um espelho com mosteiros à sua beira). Para além da beleza cénica de todas as estradas percorridas, um outro ponto comum: a loucura dos motoristas montenegrinos nas suas estradas estreitas e cheias de curvas. Susto.

A beleza natural é rainha no Montenegro.

A sua história, essa, não é assim tão simplista. Tal como, aliás, a dos seus vizinhos.
Por esta região exerceram a sua influência através dos tempos povos como os ilírios, romanos, eslavos (Jugoslávia significa eslavos do sul), sérvios, gregos, venezianos, otomanos e habsburgos, até ser criada a Jugoslávia e, por fim, o Montenegro se ter tornado independente em 2006 (em meados do século XIX havia experimentado pela primeira vez na sua história a independência, muito por culpa da época em que emergiram os nacionalismos e a influência do grande nome da cultura e da história montenegrina: Njegos, rei e poeta).

Mas este que é um dos mais novos países do mundo é a olhos vistos pouco homogéneo. São claras as diferenças na paisagem construída entre a costa e o interior e a costa norte e a costa sul. Por exemplo, no Adriático norte a influência católica dá-nos igrejas; no Adriático sul a influência otomana dá-nos mesquitas; no interior a igreja ortodoxa Sérvia dá-nos mosteiros. Tal não quer dizer que um pouco por toda a região não se encontrem exemplos das três fés num espaço curto de metros. O Montenegro é etnicamente diverso mas acabou por ter a sorte de ter tomado pouca parte na última guerra dos Balcãs, sofrendo no entanto as consequências das sanções económicas impostas à Sérvia, com quem então mantinha uma união e com quem pouco se diferencia culturalmente. 

Hoje, a última das seis repúblicas ex-jugoslavas a obter a independência vê a sua economia depender em grande parte do turismo. O nosso objectivo para estas férias era percorrer o Montenegro quase de lés a lés e, com excepção do nordeste, conseguimos fazê-lo.

terça-feira, agosto 18, 2015

A Ponte Sobre o Drina


Por muitos considerada a obra prima do nobel bósnio Ivo Andric, a história de "A Ponte Sobre o Drina" desenrola-se ao longo de quatro séculos, desde a construção da ponte da cidade de Visegrad, na fronteira com a Sérvia, até à entrada para a I Grande Guerra Mundial. Ao longo desse tempo o autor vai-nos contando histórias sobre as gentes da terra, sempre com a ponte como protagonista principal, as quais foram sofrendo a influência otomana - a ponte sobre o Drina foi mandada construir pelos turcos no século XVI -, sérvia e austríaca, até à emergência do nacionalismo.
Entre o relato de histórias de amor ou de pequenas vivências na passagem pela ponte de uma margem do Drina para a outra, impossível não deixar de refletir nas palavras do autor quando mostra, primeiro, a convivência pacífica entre as várias etnias e, depois, a quebra dos laços fraternos de séculos entre elas.
Primeiro:
"Os velhos conceitos e valores colidiam com os novos e opunham-se-lhes, combinavam-se ou coexistiam como se estivessem à espera para ver quais deles sobreviviam aos outros. O povo fazia contas em florins e em kreutzers, bem como em groshes e paras, media e pesava em côvados, em okas e drams, mas também em metros, quilos e gramas, fixava as datas para os pagamentos e encomendas pelo novo calendário, mas também, e na maior parte das vezes, segundo o velho costume: no dia de São Jorge ou no dia de São Demetrio."
Depois:
"Só então é que na cidade começou a verdadeira perseguição aos sérvios e a tudo o que lhes estava ligado. Todo o povo se dividiu em perseguidos e perseguidores. A fera que existe dentro do homem e que só ousa mostrar-se quando as barreiras da lei e dos hábitos são removidas, estava agora à solta. Dado o sinal, as barreiras caíram. Como tantas vezes acontece na história humana, a violência, a pilhagem e mesmo o assassínio eram tacitamente permitidos desde que fossem cometidos em nome de interesses superiores, em conformidade com regras estabelecidas e contra um número limitado de pessoas de uma determinada espécie e credo. Um homem de espírito puro e de olhos abertos que então vivesse poderia testemunhar como é que se dá esse milagre e como uma sociedade inteira se podia transformar num único dia. Em poucos minutos a tradição secular da cidade foi devastada. É certo que sempre tinha havido secretos ódios, intolerância religiosa, infâmia e crueldade, mas também sempre houvera amizade e magnanimidade, e um sentimento de decência e de ordem que mantinham todos os instintos vis dentro dos limites do suportável, e que, ao fim e ao cabo, os acalmava, e os submetiam ao interesse geral da vida em comum."
Publicada em 1945, esta obra confirma como os equilibrios nos Balcãs foram sempre dúbios e assim permanecem para além dela.


Mostar e arredores

Desde que fiz o caminho Dubrovnik - Mljet há doze anos que as montanhas da vizinha Bósnia não me saíram mais da imaginação. Adriático azul intenso de um lado, montes calcários lindos do outro. 
Desta vez tiramos um dia para visitar Mostar, a cerca de três horas de carro de Dubrovnik. 

A estrada segue sempre junto ao Adriático, sai da Croácia, entra na Bósnia (em Neum, na sua única cidade costeira, daí que se tenha que aproveitar todo o metro de terra, num claro contraste com a paisagem urbanística da Croácia), volta a sair da Bósnia e a entrar na Croácia para, já interior, entrar definitivamente na Bósnia. O tempo gasto nas fronteiras foi quase nenhum, excepto nesta última que nos levou cerca de uma hora e meia de fila parada sob um calor intenso. Assim, as três horas de viagem de carro passaram a quase cinco (penso, no entanto, que esta situação foi um mero azar e que a passagem para piscar o olho aos passaportes se costuma fazer célere).

Dizer Bósnia é o mesmo que dizer Bósnia Herzegovina, o nome oficial do país. Mostar e os arredores que visitámos ficam na província da Herzegovina.


Mostar entrou incontornavelmente na infeliz história mundial pela sua destruição na Guerra da Bósnia. Em Novembro de 1993 a sua Ponte Velha (Stari Most, construída originalmente pelos turcos em 1566) foi bombardeada e totalmente destruída. Apenas em 2004 voltou à vida, tendo sido reconstruída com o recurso aos materiais locais e seguindo o modelo original. A maior parte da ajuda financeira veio da Itália, país mecenas que se mostra muito presente quer na Bósnia, quer no Montenegro.

Mostar foi capital provincial quando a região estava sob o domínio do império otomano. No entanto, apesar de ser por demais evidente a influência turca na paisagem, quer pelas casas quer pelas mesquitas aqui presentes, esta cidade representa um verdadeiro encontro entre o ocidente e o oriente, consequência das referidas influências otomanas, sim, mas também influências austro-húngaras, império que aqui exerceu influência antes da criação da ex-Jugoslávia. A ocupação multi-étnica da cidade vinha de trás e os ódios raciais exacerbam-se de tempos a tempos.



A cidade velha de Mostar desenrola-se pelos dois lados do rio Neretva, ligado precisamente pela Stari Most, uma bela ponte de pedra em arco. As ruas são estreitas, calçada de pedra, casas preenchidas quase todas por lojas de souvenirs e cafés. É um bazar interminável, bem ao gosto da maioria dos turistas que aqui vêm. E são muitos. 



A ponte, sempre a ponte. Os turistas ocupam-na por inteiro - não é muito longa, pelo contrário, é surpreendentemente curta - sobretudo no momento em que alguns rapazes locais se preparam para saltar do seu arco, 21 metros a pique até à água do rio. E muitos mais turistas ficam cá em baixo, na margem do Neretva. Este é todo um folclore local. Um rapaz em calção de banho anda lá por cima, a recolher dinheiro da turistada, enquanto outro faz que salta mas não salta. Abre os braços, estica um pouco, ameaça a queda, mas em conjunto chegam à conclusão de que o cesto para recolher dinheiro ainda não está suficientemente preenchido. Novo acto, com poucas alterações para o primeiro. Podemos andar meia-hora nisso. Até que um dos pseudo-saltadores vem mesmo cá abaixo, sacar o dinheiro ao resto da assistência - onde me encontrava já sem paciência para esta peça de teatro mal amanhada. Eis que de repente aparece um terceiro rapagão em cena que salta da ponte e num ápice cai na corrente forte do rio. Feito.
(por curiosidade, no fim de semana passado a Stari Most de Mostar foi palco de uma etapa da Red Bull Cliff Diving, que também passou há pouco pelos Açores)

Está mais que visto que Mostar para mim é a ponte e pouco mais. A sua localização é incrível, belíssima mesmo, e muito há para escolher para melhor vista da mítica ponte. De baixo, com as casinhas enquadradas dentro do arco, ou de cima, com as montanhas como companheiras de postal perfeitas.


Tal como a ponte, a cidade velha foi reconstruída, porém, à sua entrada são ainda visíveis alguns edifícios com sinais de balas, balas essas que são vendidas nas lojas para turistas. Que lindo.
Típico por típico optámos por almoçar um cevapi, deixando o burek para outra altura.



De Mostar seguimos para a pequena vila de Blagaj, a cerca de vinte quilômetros de distância. Este lugar é extremamente bonito, idílico até se estiver vazio ou com muito menos de centenas de pessoas, como era o caso (vou parar de me queixar da gente em demasia que tal como nós escolheu passear por estas bandas). Ao longo de um pedaço do rio ficam uma série de restaurantes com esplanada, num parque fluvial cujo maior interesse é a Tejika, uma casa de madeira dervish debruçada no rio e à entrada de uma cave, com água azul e verde mesmo à porta. Lindo.
Em Blagaj assistimos a algo curioso e que não entendemos - um funeral onde só seguiam homens como acompanhantes.


Daqui seguimos para a Kravice, um pouco distante pelas voltas que se tem de dar, umas quedas de água que se estendem ao longo de 25 metros, num parque natural que acaba por se transformar numa bela piscina. Chegámos já ao fim do dia e por isso não estava muita gente. Boa.


Melhor ainda, depois disso seguimos para Pocitelj, a caminho da Croácia, e aí não estava praticamente ninguém para além das senhoras que vendiam fruta, de tal forma embalada que mais parecia buquês de flores. Pocitelj é uma aldeia otomana fortificada. A sua localização parece ter sido escolhida a dedo - não falo de um ponto de vista estratégico, mas antes antes da beleza do lugar. Fica na encosta da montanha, rodeada de vegetação, altaneira para o rio que passa lá em baixo. Irrompendo a caminho do céu vemos os minaretes e a torre do relógio, com o castelo lá no alto. 



Foi a forma perfeita para terminar o dia na Bósnia, mas mal sabíamos nós àquela hora que de volta à Croácia muito mais trânsito nos esperaria. Pois é, aquela estrada belíssima junto ao Adriático tem uma faixa de cada lado, os rapazes a conduzir são um bocado Sennas, daí que qualquer acidente tenha como resultado o encerramento, pura e simples, da estrada. Volta. 

PS: Após a saída da Croácia e a entrada na Bósnia uma das visões mais inquietante foi observar as placas da estrada a anunciar o nome das terras riscadas. Os croatas usam o alfabeto latino; os bósnios usam também o alfabeto cirilico. Fácil, pois, perceber quem riscou aquelas placas com letras para nós imperceptíveis.

sábado, agosto 15, 2015

Dubrovnik

Dubrovnik doze anos depois tem muito mais gente a visitá-la, assim como em 2003 eram muito mais os visitantes do que doze anos antes. 
Em 1991 a cidade velha de Dubrovnik, aquele postal muralhado repleto de telhados vermelhos, com as águas brilhantes do Adriático a torneá-la, foi bombardeada por ocasião da guerra da independência da Croácia, no que veio a ser o fim da Jugoslávia.
Numa das entradas da cidade velha podemos ver um mapa onde estão marcados os telhados que sofreram as consequências das bombas: dois em cada três receberam-nas e destes muitíssimos ficaram totalmente destruídos. 


O ano de 2003 - ano em que a visitámos pela primeira vez - era já testemunha do árduo trabalho de recuperação deste lugar incrível que hoje está ainda mais na moda, muito também à boleia da série Game of Thrones que é filmada por estes lados. É uma emoção poder admirar todo este esforço de reconstrução, uma vez que qualquer adolescente dos anos 90, época da Guerra dos Balcãs, tem memórias da estupidez a que levou a divisão das etnias nesta região da Europa.

Mais emoção ainda sentirão aqueles que visitaram Dubrovnik em plenos anos 90, telhados destruídos sobre telhados destruídos, como é o caso do casal de brasileiros que encontrámos agora enquanto percorríamos as muralhas da cidade.


A visita às muralhas da cidade (muros entre 6 e 22 metros) - depois de uma subida pelo teleférico que nos dá uma perspectiva esmagadora de Dubrovnik lá do alto da montanha - é obrigatória. Como curiosidade, diga-se que em 2003 pagámos 15 kunas pela entrada e em 2015 o preço da entrada passou a "somente" 100 kunas. Acrescento a título informativo que a kuna não teve flutuação especial face ao euro durante este tempo. O turismo é muito bonito.


A "pérola do Adriático" de Lord Byron ou o "paraíso na terra" de George Bernard Shaw é hoje uma cidade medieval de influência barroca extremamente bem conservada e atraente. 
Aqui perto começou por existir uma cidade romana, desde o início muralhada para a proteger das invasões quer dos piratas quer de estados rivais. No século XII Ragusa, o seu nome de então, era  um importante centro de comércio, ligando o Mediterrâneo aos estados balcânicos. Ficou depois sob autoridade veneziana e no século XVI não se livrou de pagar tributo ao império otomano. A sua prosperidade viria a ser interrompida por um terramoto no século XVII, mas também pela concorrência das novas rotas entretanto surgidas e pela emergência de novas forças navais rivais. Depois da sua tomada pela França de Napoleão, Dubrovnik viria a ser cedida ao império austro-húngaro, com quem ficou até 1918, altura da criação da Jugoslávia. Este padrão histórico (romanos, venezianos, otomanos, austro-húngaros) é comum a muitos estados balcânicos, verificando-se que as ondas nacionalistas tiveram o seu início na segunda metade do século XIX para não mais deixarem de estar vivas - até aos dias de hoje.


Se a cidade velha vista de cima é um mimo, o sentimento não muda muito quando percorremos as ruas ruas estreitas e desniveladas. Cá em baixo encontramos igrejas, mosteiros, palácios, fontes, cafés e, sobretudo, a fantástica Stradum, ou Placa, a rua principal - pedonal, como toda a cidade muralhada. O seu chão parece mármore e a silhueta das pessoas aí reflectida faz-nos lembrar pequenos e estreitos riscos pretos num quadro branco. 


Para além de caminhar pelas suas ruas e de um mergulho no Adriático um pouco à direita do porto de Dubrovnik, junto a um dos omnipresentes campos de polo aquático (a Croácia obteve o segundo lugar nos mundiais da semana passada, perdendo na final para a arqui-rival Sérvia), entendemos apenas entrar no Museu War Photo Limited. Neste edifício de dois andares são apresentadas fotos da guerra que levou ao fim da Jugoslávia, sim, mas também fotos de outros conflitos, como a recente guerra na Ucrânia. Extremamente educativo e incontornável, pois é difícil não recordar os conflitos armados enquanto se percorre grande parte dos Balcãs. 

Ao final do dia, um segundo mergulho na Península de Lapad, já muito para lá da cidade muralhada. Foi aqui que tivemos a primeira sensação de termos chegado ao Piscinão de Ramos, mas foi aqui também que soubemos perseverar até encontrar um local onde pudéssemos dividir o espaço com menos de uma equipa de polo aquático. A água, essa, não deu nem para refrescar - mais de 30 eram os seus graus.

quinta-feira, agosto 13, 2015

Pelos Balcãs


A escolha para o passeio de Verão recaiu este ano pelos Balcãs.
O objectivo era concentrarmo-nos no Montenegro, numa visita de norte a sul, e preencher o resto dos dias com visitas pelos países vizinhos. 
Trabalho de casa feito, vimos uma série da BBC sobre a morte da Jugoslávia, lemos Ivo Andric, mas escapou-nos Ismail Kadare.
Por questões de comodidade de deslocação ficou estabelecida a entrada por territórios da ex-Jugoslávia em Dubrovnik, Croácia. Há cerca de doze anos havíamos andado por aqui e desde essa altura ficou o desejo de visitar Mostar, a cidade mártir da ponte destruída, e as montanhas belíssimas da Bósnia Herzegovina. Fizemo-lo agora, num raid de um dia a partir de Dubrovnik.  
Daí seguiríamos o Adriático para sul rumo a Kotor, já no Montenegro, e adentraríamos o país até ao norte, onde fica o Parque Nacional Durmitor e os canyons de Piva e Tara.
De novo chegadas ao sul do Montenegro, uma nova realidade, mais distante da Europa, mais próxima da influência otomana e oriental, esperava-nos Ulcinj, na fronteira com a Albânia. 
Esta seria percorrida rapidamente até ao Lago Ohrid, partilhado entre a Albânia e a Macedónia. A tia havia estado na ex-Jugoslávia há mais de três décadas e o Ohrid tinha passado da sua memória para a minha, daí que não o pudesse perder de vista. 
De volta à Albânia, onde apanharíamos o avião no fim da viagem, as expectativas não eram muitas. Pelo contrário, a Albânia estava no casting mais para compor os dias e porque era mais fácil viajar de Tirana, sua capital, para Lisboa. Mas o inesperado acaba por seduzir mais e foi neste país completamente afastado das rotas do turismo (ao contrário de todos os outros lugares visitados) que nos sentimos melhor e onde comemos melhor. E contra a vontade da mana não visitamos uma praia sequer da Albânia, únicos locais do país que nos dias de hoje poderão receber mais do que uma vintena de forasteiros.
Em resumo, os Balcãs em Agosto é uma região extremamente quente e pejada de turismo. Muitos alemães, austríacos, sérvios e búlgaros. Não foi fácil encontrar locais de refúgio longe das multidões, mas o bom da história é que procurando-os ainda os encontramos, uma enseada ou reentrância do mar ou do lago. Nas nossas memórias ficará a expressão de contentamento da Katarina de Ohrid quando, aterrorizada eu com os magotes que ocupavam a beira da água do lago - a lembrar o Piscinão de Ramos, lugar omnipresente na nossa imaginação durante toda a viagem - lhe perguntei se por ali todos os lugares tinham muita gente: a boa da moça respondeu efusivamente um "yes! lot's of people!". Só tivemos vontade de fugir e nem melhorou que Katerina dissesse que Novembro era melhor, faltando-me a coragem para lhe perguntar se nessa época o lago congelaria. 
Não fugimos, não perguntámos, pusemo-nos a caminho e passeámos sem parar.

sábado, julho 11, 2015

Barreiro


Do Barreiro já tinham chegado à outra banda notícias da sua decadência.
Mas, na primeira visita de quem se habituou a ver a carismática cidade industrial à distância do outro lado do rio, a sua decadência evidente impressiona. Muito.
Mais impressionante é constatar as potencialidades urbanísticas deste lugar: uma frente de rio extensa e aberta à imaginação; um edificado na zona velha de proporções não despiciendas e com inúmeros exemplos de palacetes em arte nova. Digo potencialidades, mas tenho de rever a ideia. Os pobres acessos, já não digo a Lisboa, mas tão somente ao Seixal e Almada, tudo condicionam.
Assim como é inegável o curso da história no último século que fez com que a indústria e o pólo ferroviário fossem perdendo força até à sua quase extinção.

Um breve apanhado da história do Barreiro: cidade centenária, possuidora de uma boa localização frente ao Tejo e a Lisboa, em 1861 assistiu à chegada dos caminhos de ferro, com a ligação de 56 km entre Barreiro e Vendas Novas, o que permitiu posteriormente que na cidade se instalassem e desenvolvessem grandes complexos industriais - a CUF chegou em 1908. A indústria química, metalúrgica, têxtil e de ácidos desenvolveria o Barreiro que se tornou assim um local atractivo para onde acorreram muitos migrantes, sobretudo do sul, em busca de trabalho.
Os anos 80 do século passado trouxeram a decadência, o envelhecimento, o desemprego. Com o encerramento quase maciço da indústria, a população barreirense passou do trabalho no sector secundário para o trabalho no sector terciário e, pior, a ter que procurar emprego fora do seu concelho. Ao envelhecimento da população juntou-se uma progressiva perda de população.
Ainda assim, o associativismo e a participação social das gentes do Barreiro sempre foram uma constante que se mantém, aqui e ali encontrando-se um clube ou uma associação.


No entanto, um rápido passeio pela zona histórica do Barreiro confirma a desertificação e, sobretudo, os problemas sociais de quem ainda a habita. Degradação urbanística, sim, mas também degradação das suas gentes, muitas entregues ao álcool e às drogas.



Fotografando um dos (para mim) pitorescos edifícios à beira rio, roupa estendida à janela, recebi gritos e gestos que me colocaram em sentido. Um pouco mais à frente, já alerta, enquanto me limitava a fotografar um edifício devoluto com graffitis que lhe devolviam o encanto perdido, recebo um convite de um vizinho do anterior para que fotografasse a sua casa de Portugal dos pequeninos. E era mesmo assim, uma casinha em que os senhores se têm que curvar para passar da porta. Pensando neste último e na agradável conversa que tivemos, não posso dizer que os barreirenses não saibam receber. E eles estão certamente conscientes dos problemas da sua cidade, cujo centro foi abandonado a favor da ocupação de blocos de apartamentos periféricos que poderiam estar em qualquer lugar do mundo.




De qualquer forma, é importante não deixar de caminhar pelas ruas do Barreiro antigo e deixar-se ficar impressionado pela elegância de outrora dos seus edifícios.




E constatar o caminho brilhante que os atentos e incisivos artistas urbanos tomaram para "povoar" o centro da sua cidade e dar-lhe cor.



A frente ribeirinha onde se apanham os barcos não é muito digna, embora a paisagem seja fantástica, de tirar o fôlego mesmo, à qual não faltam sequer os históricos moinhos. Mas seguindo rumo às torres industriais vamos assistindo ao esforço de dotar esta frente de rio de atractivos suficientes para que uma caminhada seja aprazível, velhinhos a jogar do lado de cá, barquinhos ao vento no lado de lá.

No Barreiro não se deve perder a visita ao bairro dos Ferroviários e ao bairro da Quimigal.
Mais um pouco de história: 


O Bairro Operário dos Ferroviários é um conjunto de moradias geminadas, um quarteirão de edifícios de um ou dois pisos, linha verde marcante, à volta de uma praça. Habitação económica promovida pelos Caminhos de Ferro Portugueses, a sua construção começou em 1935, décadas após a instalação da linha de comboio no Barreiro.



O Bairro Operário da CUF é igualmente um conjunto de residências de habitação económica, mas desta vez de promoção privada. De dimensão nada modesta (cerca de 108 residências), as casas em banda ocupam diversos quarteirões, onde se encontram igualmente variados equipamentos públicos, como teatro, escola, mercearia, refeitório, entre outros. O edifício da Torre do Relógio destaca-se por entre as ruas de nomes como Rua Liebig, Rua Lawes, Rua Stinville, Rua Guy-Lussac, Rua Lavoisier, Rua Berthelot, Rua Dalton e Avenida e Rua da CUF.
Este bairro operário faz parte da obra social de Alfredo Silva e foi criado logo em 1908, um ano após a instalação da CUF no Barreiro. À semelhança de outros bairros operários, o princípio era o de inculcar nos funcionários o espírito da família CUF, disponibilizando assistência médica, escolas, creches, refeitórios, cinema, instalações desportivas, a par de uma habitação condigna e próxima do emprego. Hoje as características arquitectónicas originais mantém-se, sendo frequentes visitas de estudo ao bairro, testemunhando a preservação da qualidade e da unidade deste conjunto.


Ainda no Barreiro, uma última visita ao Parque da Cidade. Lugar extremamente agradável, que prova que a reversibilidade da decadência e envelhecimento são possíveis e que possível é também manter vivas as gentes da cidade, feita igualmente de jovens, num projecto que procura dar novos espaços de qualidade a uma população que não pode deixar de estar em depressão. Ao fundo uma igreja de linhas arquitectónicas modernas, numa clara ruptura com o Barreiro antigo, mas longe ainda de se integrar plenamente com a envolvente que está para além deste parque urbano.







domingo, julho 05, 2015

A cantora, o poeta e as Dores

O dia em Setúbal começou com uma manhã dedicada a nadar a prova aberta do Setúbal Bay no Parque Urbano de Albarquel. Às primeiras braçadas admirava a paisagem e imaginava as praias lindíssimas da Arrábida que estão para lá do Sado. Contornada a primeira bóia ainda conseguia ver as torres de Tróia e pensar que talvez um golfinho me pudesse acompanhar no caminho até ao final da minha prova. Passado isso só me lembro de querer acabar o mais rápido possível e não achar piada nenhuma aos pirulitos com sabor a óleo. A mana tem razão: o melhor das corridas é a chegada.
Para a tarde ficou reservado um passeio pelo centro de Setúbal, sob uns inesperados tórridos 40 graus.


Setúbal é Luisa Todi, é Bocage e é a Dores. 

A extensa avenida principal leva o nome da cantora, o fórum idem, aqui e ali ela está presente. Tal como Bocage, o qual tem ainda uma praça com a sua figura lá bem no alto, lojas diversas com o seu nome e a casa onde habitou visitável. Mas a Dores, a Dores consegue ser ainda mais omnipresente. Entra-se num convento e lá está a lápide a dizer que a Dores o reabriu, entra-se num quartel e lá está a lápide a dizer que a Dores o recuperou, entra-se numa casa da cultura e lá está a lápide a dizer que a Dores a inaugurou, entra-se num palácio e lá está a lápide a dizer que a Dores o restaurou, entra-se numa galeria e lá está a lápide a dizer que a Dores a encontrou. 
A verdade é que Setúbal é uma cidade extremamente agradável, capaz de ser bem vivida sem se ter de passar pela Arrábida ou Vila Fresca de Azeitão, e não duvido que a sua presidente mereça  uma quota parte desse elogio.



O seu centro, tal como o de muitas outras cidades portuguesas, tem demasiados edifícios abandonados às ruínas, mas sente-se que tem gente e vida. Caminhando pela Avenida Luisa Todi, para além do belo edifício em arte-deco do Mercado do Livramentro (obrigatória a entrada para assistir ao movimento e apreciar a sua arquitectura e decoração azulejar), encontramos alguns exemplos de palacetes, hoje entregues a uma qualquer dependência bancária ou transformados em galeria municipal. 



A cultura é marca forte da Setúbal de hoje. Se o Fórum Luisa Todi era já um local incontornável para a apresentação de espectáculos na cidade, muitos espaços mais há dedicados à cultura entendida em termos latos. 


À boleia da Festa da Ilustração, sob o signo do "É preciso fazer um desenho?", pudemos no mês de Junho conhecer ou recordar os trabalhos de artistas como Maria Keil, João Abel Manta, Lima de Freitas, Manuel João Vieira ou André Carrilho, enquanto visitávamos os espaços que acolhiam esses mesmos trabalhos, como a Galeria do Banco de Portugal, o Fórum Municipal Luisa Todi e os Claustros do Palácio Fryxell, a Galeria do 11, a Casa Bocage, a Casa da Cultura e um pouco por toda a cidade.

Para quem gosta de arte urbana dois locais a não perder: a empena do Auditório José Afonso, em plena Avenida Luisa Todi, e a Rua 26 de Setembro (antiga Rua do Feijão), paralela àquela. 


O primeiro é um imenso mural desenhado por Odeith numa homenagem pensada e certeira à cidade. Américo Ribeiro, histórico e prolífico fotógrafo de Setúbal, fotografou em 1933 o miúdo Vicente e sua gaiola de pássaros. O miúdo dos pássaros e o seu fotógrafo estão hoje publicamente imortalizados por Odeith.



A antiga Rua do Feijão é uma estreita e curta rua com edifícios absolutamente deixados aos caídos. O que tem de interessante é que diversos artistas lançaram mãos à obra e recriaram as suas portas, janelas e fachadas.

Para além da arte urbana muito mais há a viver em Setúbal. 




Os bairros da Fonte Nova e do Troino, onde podemos ver a casa colorida onde viveu Luisa Todi, eram por estes dias um conjunto de ruinhas e pracinhas decoradas para as festas populares. Muita gente na rua, petiscando ou jogando, e alguns edifícios que saem da monotonia. 


Do lado oposto da Avenida, onde fica a igreja de São Sebastião e Casa de Bocage, a pacatez é a nota. Imperdível o delicioso miradouro para o Sado.



Pelo meio, no lado interior da Avenida fica o centro cívico da cidade: praças acolhedoras e bem cuidadas, algum comércio de rua, mais igrejas e os paços do concelho. O traçado das ruas é irregular mas facilmente percorrido a pé: se nos perdermos pelas ruelas perpendiculares é um bónus.


E, depois, notícia máxima nacional é a reabertura do Convento de Jesus, encerrado ao público durante 23 anos. Com projecto de recuperação do Arquitecto Carrilho da Graça, este conjunto edificado em estilo gótico-manuelino foi iniciado em 1490 por iniciativa de Dona Justa Rodrigues Pereira, ama de Dom Manuel I. Antes de ser encerrado aqui ficava o Museu de Setúbal. Entretanto, o seu espólio foi sendo espalhado um pouco por toda a cidade, sobretudo pela Galeria Municipal. Hoje, e por enquanto, pouco há a ver no novíssimo Convento de Jesus, embora mereça em absoluto uma visita a mais do que o seu belíssimo exterior. No piso superior podemos encontrar exemplos de obras de arte variada. Mas será no piso térreo que estará um dos maiores encantos deste Monumento Nacional: os seus claustros, dos quais ainda apenas se pode vislumbrar a sua magnificência.

Para uma outra visita fica o choco frito e o moscatel, as outras personagens principais para além das do título deste post. 
Um aviso, porém: