sábado, setembro 19, 2015

Bruxelas, Capital da Banda Desenhada

Se preciso fosse, um bom pretexto para visitar Bruxelas é o tema da banda desenhada.
Para mim, que desde pequena convivi com os livros de Lucky Luke e Michel Vaillant, ao lado dos tios patinhas, e até hoje sou fã de quase qualquer livro em quadrinhos, prefira chamar-se-lhe bd, comics ou novela gráfica, Bruxelas seria sempre um ponto alto na minha decisão de passear por uma cidade.
Por todo o centro da cidade, basta estar atento às paredes e empenas dos edifícios e logo surge um dos heróis da bd. Não precisam de ser originalmente belgas, mas de personagens belgas não nos chegam os dedos de todo o corpo para os contar. Alguns exemplos com Tintin à cabeça, pois claro: Spirou, Quick et Flupke (ou Quim e Filipe), os Estrunfes, Blake e Mortimer, Lucky Luke, Gaston Lagaffe, Ric Hochet, Thorgal, Largo Winch, Le Chat e tantos mais.
Face a todo este património, é bastante óbvio e necessário que tenha aparecido em 1991 um projecto de arte mural que se propôs a pintar uns quantos edifícios inspirando-se precisamente em grandes autores da banda desenhada. Tanto serve de homenagem a estes autores e seus (nossos) heróis, como é uma excelente forma de seguirmos pelas ruas de Bruxelas, afastando-nos dos lugares mais batidos, passando a conhecer espaços que de outra forma talvez não déssemos por eles. 
Um exemplo: numa visita rápida a Bruxelas, porquê passar para além do  Quai aux Briques, em Santa Catarina, e seguir até ao Quaix des Péniches? Para ver para crer que há ainda um bocado do rio Senne em Bruxelas, materializado no canal de Charleroi? Não. Para ver Corto Maltese, do italiano Hugo Pratt, nas paredes de um edifício deste cais. Corto, meu herói supremo nestas coisas da bd.


Corto Maltese (Hugo Pratt), Quai de Péniches, 2009

Mas o primeiro mural a aparecer na cidade foi o de Broussaille, inaugurado logo em 1991 segundo um projecto original de Frank Pé. É provavelmente um dos mais conhecidos e até talvez já um dos símbolos de Bruxelas, os dois amigos que caminham felizes, numa parede da Rua du Marché au Charbon, bem perto da Grand Place.

Broussaille (Frank Pé), Rua du Marché au Charbon, 1991

De todos os murais, o meu preferido será talvez o de Tibet & Duchateau, com o personagem Ric Hochet, na Rua de Bon Secours, igualmente perto da Grand Place. Pena que, à semelhança de muitos outros, este mural esteja rabiscado.

Ric Hochet (Tibet & Duchateau), Rua de Bon Secours, 1992

Como não podia deixar de ser, Lucky Luke, Asterix e Blake e Mortimer também marcam presença neste itinerário de arte mural da banda desenhada.

Lucky Luke (Morris) e os assaltantes irmãos Dalton na Rua de la Bouanderie, 1992

Asterix e Obelix (Urdezo e Goscinny) também na Rua de la Bouanderie, dentro do ringue de um jardim de infância, 2005

Blake e Mortimer (Edgar P. Jacobs) na Rua du Petit Rempart, perto de um estranho bloco de edifícios abandonados, 1997

Hergé, esse, não podia faltar. 
Quer com Tintin, 

Rua de Le Etuve, 2005

Gare du Midi

Quer com Quick et Flupke, Rue Haute, bairro de Marolles, 1995 

No Marolles encontramos ainda:

Blondin e Cirage (Jijé), Rue des Capucins, 1998

Odilon Verjus (Laurent Verron), também na Rue des Capucins, 2004
(Josephine Baker)

Existe uma série de entidades que se propõem a guiar o curioso por itinerários de bd na cidade. No entanto, parece-me que não há nada melhor do que fazer o trabalho de casa e visitar aqueles murais que se quer mesmo ver e deixar que o acaso dos nossos passos nos deixe frente a frente aos outros que nos irão, certamente, surpreender em igual medida.


Qualquer apaixonado ou tão somente curioso da banda desenhada não deve perder uma visita ao Centro Belga da Banda Desenhada. Ainda para mais, o edifício que acolhe este museu é um dos muitos exemplos de arte nova que ainda persistem por Bruxelas. Este Centro Belga da Banda Desenhada abarca esta arte de um ponto de vista internacional, procurando mostrar que já desde o tempo da pré-história os homens se expressavam visualmente nas paredes rochosas das cavernas. Mostra-nos também, no início da sua exposição permanente, a influência que o americano Winsor McCay, em especial com a sua personagem Little Nemo, criada no princípio do século passado, veio a ter junto dos autores que se lhe seguiram. Para além de uma mostra dos vários temas a que a bd tem vindo a dedicar-se, é ainda possível vermos várias técnicas utilizadas pelos seus autores para chegarem até ao produto final. Depois, existe o espaço Hergé (Tintin), o espaço Peyo (Estrunfes) e exposições temporárias, para além de um centro de documentação e uma livraria.



Outro ponto obrigatório, mas este implicando uma fuga de Bruxelas, é a visita ao Museu Hergé. Em Louvain-la-Neuve está instalado desde 2009 o Museu Hergé, num projecto arquitectónico de Christian de Portzamparc (Prémio Pritzker em 1994). De Bruxelas a Louvain-la-Neuve são cerca de 60 minutos, com frequência de um comboio por hora. Esta cidade foi criada após os conflitos académicos linguísticos entre flamengos e francófonos na cidade universitária de Louvain nos anos 60 do século passado. Hoje é uma cidade completamente planeada, com residências universitárias e blocos correspondentes às várias faculdades. 
O Museu Hergé, a uma curtíssima caminhada desde a estação do comboio e praça principal da cidade, parece que não é muito popular entre os locais, sendo visitado sobretudo por forasteiros. De qualquer forma, a sua arquitectura é muito interessante, futurista até. 
O museu tem três pisos visitáveis, incluindo espaço expositivo, café e livraria. Dedicado à vida de Hergé (1907-1983), Georges Remi de seu nome (RG são as iniciais do seu nome ao contrário), este belga entrou definitivamente na história ao ter criado a personagem de Tintin, o intrépido jornalista, sempre pronto para aventuras um pouco por todo o mundo e até na lua - chegou lá primeiro que Neil Armstrong.
Hergé começou por criar a personagem Totor, um escuteiro como ele. Muitas outras se seguiriam, mas Tintin tudo absorveu. Neste museu, para além das suas personagens, com especial incisão no mundo de Tintin e países por ele visitado, vemos também objectos do mundo de Hergé e diversos vídeos. A finalizar, as pinturas que Andy Warhol realizou de Hergé.

sexta-feira, setembro 11, 2015

Somerset Maugham - Um Gentleman na Ásia


Somerset Maugham (1874-1965) é autor de muitos e aclamados livros. 
Em Um Gentleman na Ásia, que tem como título original The Gentleman in the Parlour, onde se deixa envolver pela espécie literatura de viagens, diz logo ao que vem: "Sendo escritor podia viver por outras pessoas uma vida que eu próprio não podia ter."
Ao longo de toda esta obra a ironia e uma forma de discurso directo, sem intermediários para com o leitor, são uma presença constante e marcante.
"Para que o leitor destas páginas não seja vítima de nenhum equívoco, apresso-me a dizer-lhe que pouca será a informação que encontrará aqui. Este livro é o relato de uma viagem pela Birmânia, os estados shan, o Sião e a Indochina. Estou a escrevê-lo para meu próprio entretenimento e espero que também sirva para entreter quem se der ao trabalho de dedicar algumas horas à sua leitura. Sou um escritor profissional e, com este livro, espero ganhar algum dinheiro e quiçá alguns elogios.".
Mais, "Embora seja muito viajado, sou mau viajante. O bom viajante tem o dom de surpreender-se. Tem um interesse perpétuo pelas diferenças que encontra entre o que conhece no seu país e o que vê no estrangeiro. Se possuir um sentido apurado do absurdo, encontra constantemente motivo para se rir do facto de as pessoas que o rodeiam não se vestirem como ele e não consegue deixar de se espantar por aquelas pessoas comerem com pauzinhos e não com garfos ou escreverem com um pincel e não com uma caneta. Como tudo lhe é estranho, repara em tudo, o que, consoante o seu estado de espírito, pode ser divertido ou edificante. Já eu tomo tudo por certo tão rapidamente, que deixo de ver o que seja de invulgar no meu novo ambiente."
Claro o bastante, não há aqui concessões a um eventual leitor, em especial àquele (bom) viajante que se deslumbra facilmente (como eu) e gosta de ler relatos de deslumbres semelhantes escritos por grandes escritores (como eu, novamente).
E Maugham é Mestre. Sem favores vai relatando o que lhe dá vontade e nós, leitores, sentimos sem cinismo que muito do que relata pode não ter acontecido. Mas o que interessa é que a sua imaginação faz a nossa fluir e a leitura prende-nos de princípio ao fim. E diverte-nos. 
Alguns exemplos: "Tenho receio de pessoas muito simpáticas. É gente que nos consome. E acabamos imolados ao exercício do seu dom fascinante e da sua insinceridade."; "As viagens por rio são monótonas e relaxantes. São iguais em qualquer parte do mundo, não há responsabilidade que nos pese nos ombros. A vida é fácil."; "Preferia mil vezes que Proust me entediasse do que qualquer outra pessoa me divertisse.".
O episódio do seu encontro com um padre italiano em terras dos shans é daqueles que não interessa se aconteceu mesmo. Interessam, sim, as palavras que Maugham dedica ao budismo pela boca do dito padre, segundo o qual o budismo é uma religião belíssima e que, por isso, não conseguia fazer nada com os shans, satisfeitos com a sua religião.
No Sião, actual Tailândia, Budas e wats é o que não falta para ver. Sobre estes monumentos escreveu Maugham que "lancei um olhar impaciente a mais um Buda de proporções imensas. E mais um, e mais outro" e "os wats angustiavam-me com a sua magnificência berrante e faziam-me doer a cabeça, e os seus ornamentos fantásticos enchiam-me de mal-estar". Afinal, a culpa não era dos wats e o escritor viajante tinha acabado de adoecer com malária.
Sobre Banguecoque, capital da Tailândia, uma opinião surpreendente: "é impossível olhar para estas cidades mornas e populosas do Oriente sem sentir um certo mal-estar. São todas iguais, com ruas estreitas, arcadas, linhas de eléctrico, poeira, sol ofuscaste, chineses por todos o lado, tráfego compacto e ruído incessante, não têm historia nem tradições. Não inspiraram pintores. Nem há poetas que, transfigurando tijolos e argamassas sem vida com a sua divina nostalgia, lhes tenham transmitido uma melancolia formidável, que não lhes era própria. Vivem a sua vida, sem associações, como um homem sem imaginação. São duras e resplandecentes, e tão irreais como o pano de fundo de uma comédia musical. Não nos dão nada. Mas quando as deixamos, temos a sensação de que alguma coisa nos passou ao lado e não conseguimos deixar de pensar que têm algum segredo que nos ocultaram. E, embora se tenha sentido algum tédio enquanto lá estivemos, recordamo-las com nostalgia."
O Vietname não lhe parece ter suscitado grandes estados de alma. De Saigão, a sua apreciação é mordaz, dizendo que "tem o ar de uma vila provinciana do sul de França", sendo "agradável para se passar alguns dias de ócio", destacando o mítico Hotel Intercontinental. Hué, por sua vez, "não é imponente" e de Hanoi diz não ter encontrado nada que lhe interessasse muito (umas décadas após Somerset Maugham, como deslumbradinha que sou, ainda para mais na primeira visita à Ásia, visitei estas três cidades e a mim encheram-me as medidas. Hué é um excelente poiso para se tocar o olhar de primeira viagem nas cidades imperiais que vemos depois quer na China - Pequim com a sua Cidade Proibida - quer na Índia - Agra com a sua Fatehpur Sikri).
Pelo contrário, sobre os templos Angkor, eleitos recentemente pela Lonely Planet como a maior experiência que o viajante pode ter no mundo, a sua opinião é mais próxima daquela que qualquer um de nós que já os visitou pode ter, sem deixar de a expor de uma forma única e sincera: "mas, agora eu chego a esta parte do meu livro, sou assaltado por um sentimento de consternação. Nunca vi nada no mundo que me maravilhasse tanto como os templos de Angkor, mas não sei como hei-de fazer deles uma descrição que transmita ao leitor de grande sensibilidade algo mais do que uma impressão confusa e vaga da sua grandeza".
Pese embora o encantamento de este e de outros locais desta Ásia visitada por Maugham, o autor conclui de forma brilhante e inequívoca sobre o sentido maior que ela acabou por lhe revelar: "Pareceu-me então que, nestes países do Oriente, o monumento da Antiguidade que mais impressiona, que mais respeito inspira, não é nem um templo, nem uma cidadela, nem uma grande muralha, mas o homem. O camponês, com os seus costumes imemoriais, é de uma época muito mais antiga do que Angkor Wat, a Grande Muralha da China ou as Pirâmides do Egipto. Foi com surpresa que descobri como tinha mudado pouco a vida destas pessoas no espaço de mil anos. Continuam a fazer as mesmas coisas com os mesmos utensílios.".

sexta-feira, setembro 04, 2015

As Fronteiras

À partida para a viagem por alguns dos países dos Balcãs levava desde logo a ideia da necessidade de passar de uns para os outros pelas suas fronteiras terrestres (Croácia para Bósnia; Croácia para Montenegro; Montenegro para Albânia; Albânia para Macedónia).
Ouve-se hoje dizer amiúde que já não há fronteiras e a nossa experiência será maioritariamente a de ir directamente de avião para um local ou percorrer a Europa do espaço Schengen onde as fronteiras físicas não se sentem mais.

Aqui nos Balcãs recordei as palavras de Ryszard Kapuscinski nas suas Andanças com Heródoto: 

"(...) ao chegar à fronteira, as terras tornavam-se mais vazias, as pessoas escasseavam. Aquele vazio potenciava o carácter misterioso daqueles lugares. Reparei também que nas zonas fronteiriças reinava o silêncio, o mistério e o silêncio intrigavam e atraiam. Era tentado a ver o que estava do outro lado. Imaginava o que é que se podia sentir ou pensar ao atravessar a fronteira. Deve ser um momento de grande emoção, de tensão, de inquietude. Como será do outro lado? Seguramente é diferente. Mas que significa diferente? Parecido com quê?"

Albânia

A escolha da Albânia para participar no nosso tour não passava ao início de um adereço, um complemento a algo que julgávamos mais importante. Dava jeito fazê-la parte do programa para que por ela passássemos a caminho do Ohrid, na Macedónia, e como porta de saída para o retorno ao nosso país. Mas como aqueles actores secundários que provam entretanto toda a sua qualidade, arrebatando o protagonismo às estrelas, assim foi a Albânia para nós. 

E, no entanto, foi tão pouco o que visitámos, apenas Berat e Tirana; tanto o que ficou por conhecer, em especial as tão desejadas - pela mana - praias do sul. Mas - opinião unânime do trio - foi aqui que melhor nos sentimos e encontramos as pessoas mais dadas e simpáticas (tirando a nossa #elianamonamour).

Não foram poucas as vezes que os albaneses se nos dirigiram para tentar comunicar conosco, mesmo que nada falassem para além do albanês ou não passassem de umas poucas palavras italianas. A senhora vestida toda de preto, igual às viúvas portuguesas, mostrando três dedos da mão, cada um deles correspondendo aos três filhos emigrados; o funcionário / guia da mesquita antiga de Berat, com os seus capisce após cada vinte palavras albanesas e duas italianas. Todos ficarão nas nossas memórias pela disponibilidade e simpatia.

A Albânia é Europa, mas custa a acreditar, sobretudo quando se a visita. 

A Shqiperia, como se autodenominam os albaneses, sobreviveu ao comunismo e hoje está ainda muito fora dos circuitos turísticos. O que parece impossível se pensarmos que a sua costa está encravada entre as super populares costas do Montenegro e da Grécia.


Cortesia do regime comunista dessa irreal figura chamada Enver Hoxha, o ditador da terra. Não, não é uma figura irreal; aconteceu mesmo e deixou muitas marcas. Como a quantidade enorme de bunkers que vemos pelo caminho, nas estradas ou nas cidades. Eles são omnipresentes e crê-se que o regime terá construído cerca de 750 mil bunkers entre os anos 1950 e 1985. Estas estruturas de concreto e betão eram indestrutíveis e deveram-se à paranóia do ditador depois de se ter incompatibilizado com a Rússia, primeiro, com a China, depois, com o mundo, por fim. Foram muitos os anos de isolamento (até 1991, com o fim do comunismo) e hoje a Albânia tenta voltar à vida.
Antes, porém, à semelhança dos outros países que compõem os Balcãs, a Albânia viu passar pelo seu território os ilíacos, os gregos, os sérvios e os otomanos, bem como os venezianos na costa. No século XV o herói nacional Skanderberg (que dá hoje o nome à principal praça da capital Tirana) liderou a resistência contra os turcos. Bem mais tarde, já no século XX os italianos guiados por Mussolini ocuparam a Albânia. Os italianos ainda hoje têm aqui alguma influência, afinal de contas Itália fica muito perto em linha recta, com o Mar Adriático apenas a separar os dois países. Muitos albaneses arranham umas quantas palavras italianas, uma vez que os canais de Itália emitem também aqui.

Depois da II Grande Guerra Mundial os alemães foram corridos da Albânia e chegou então a vez do comunismo moldar o país. Em 1946 foi proclamada a República Popular da Albânia, com Enver Hoxha como presidente e camarada supremo. A sua morte em 1985 e o ano de 1990, com os acontecimentos pós queda do Muro de Berlim que se deram na Europa de leste, inspiraram os albaneses e as manifestações sucederam-se, levando a uma abertura e eleições democrática no país. Desde aí o parque automóvel albanês, que não passava de 10 mil automóveis (a maioria conduzidos por oficiais do partido), não pára de aumentar, sendo hoje cerca de 300 mil os carros que fazem do trânsito no país uma loucura.  

Continuando, então, nos dias de hoje e na nossa viagem, entrámos na Albânia por Shkodra, vindas de autocarro do Montenegro. Às 7 horas da manhã a cidade, uma das mais antigas da Europa, já estava a bombar de movimento nas ruas, indivíduos para lá e para cá, lojas abertas à primeira alvorada.
Daqui teríamos que seguir para Tirana. Uma furgoneta albanesa esperava os viajantes do Montenegro e pediu-nos 5 euros por pessoa pela viagem, preço que considerámos bastante aceitável uma vez que no trajecto anterior, muito mais curto, havíamos pago 7 euros. Sem que nos apercebêssemos, deu-se uma confusão e uma discussão entre os motoristas (o do Montenegro e a da Albânia), num regateio de preço com gritos e quase empurrões, com o preço a ficar estabelecido nos 3 (?) euros para uma viagem de cerca de 2 horas. Não foi a nosso pedido, entrámos no veículo com algumas dúvidas de que ele fosse capaz de chegar ao seu destino, e embalámos num sono ao som de uma conversa entre outros passageiros em que só entendíamos a palavra "máfia". Durante a estadia na Albânia não vimos nenhuma máfia, mas confirmaríamos que os preços aqui praticados são mesmo muito baixos - refeições completas bem saborosas a 5 euros por pessoa, gelados a 14 cêntimos, enfim, preços que não são da Europa.

Depois de atravessarmos parte do centro do país rumo a Ohrid, na Macedónia, regressámos e estabelecemo-nos em Berat.



Berat, classificada pela Unesco como património da humanidade, é uma cidade de clara influência otomana, mais conhecida como a "cidade das 1000 janelas". Oferece-nos uma quantidade infinita de casas brancas de telha ocre escurecida com janelas definidas por um castanho que as realça. Todas estas personagens estão plantadas nas montanhas, uma de cada lado, atravessadas por um rio praticamente seco. Se o rio não é bonito, o nosso olhar dirige-se quase por inteiro para aquele emaranhado de casas e janelas, construídas em ruas empedradas estreitas em que é fácil deixar-nos perder. 



Ao caminhar pelas ruas inclinadas no quarteirão de Magalem fomos convidadas para um jantar familiar. Recusámos mas não deixámos de provar a deliciosa cozinha albanesa, com um sabor muitíssimo bem apurado, a melhor de todos os países balcânicos que visitámos. Talvez também por isso, porque uma viagem não pode ser inteira sem sentir os sabores dos sítios, a Albânia nos cativou.
Para além da beleza da disposição destas casas de janelas peculiares e da sua cozinha, em Berat deixamos-nos seduzir pelas pessoas. O funcionário da mesquita antiga da cidade foi-nos explicando pacientemente que nos tempos do comunismo a mesquita foi uma sala de jogos de pingue-pongue umas vezes e um supermercado noutras. A religião não era, então, bem vista. Apesar de o islão ser a religião maioritária entre os albaneses, cerca de metade deles parece declarar não ter qualquer religião. Curiosamente, a figura albanesa mais conhecida em todo o mundo é a Madre Teresa de Calcutá, cristã. 

Voltando à explicação dada pelo nosso amigo, o islão professado na Albânia é um islão de tipo sufi, mais moderado e tolerante aos outros. Ouvi-o com indisfarçável interesse, certamente o meu olhar não enganava, eu que tenho muita curiosidade pelo islamismo, e ainda tremo de emoção só de pensar no momento em que o meu amigo albanês me ofereceu um Alcorão em albanês e em árabe. A simpatia não tem limites. 


Em Berat há ainda a visitar o castelo, lá bem no alto, uma jornada algo extenuante - para cima porque doem as pernas e a respiração arfa, para baixo porque as pedras de que é feito o chão fazem os nossos passos escorregar. Mas vale a pena, quando mais não seja pela visita ao Museu Onufri, o maior pintor albanês, que entre os séculos XVI e XVII pintou uns ícones belíssimos.




Se em Berat, que é uma terra pequena, vêem-se poucos turistas, em Tirana devemos ter-nos cruzado cada uma com uma mão cheia deles. Ficámos alojadas perto do mercado da capital, onde gabámos as azeitonas aos montes. Ainda a salivar por elas, ao jantar pedimos como entrada um prato de azeitonas e qual não foi o nosso espanto quando demos com um prato normal e inteiro delas, uma rodela de laranja a apurar o sabor. Melancias, essas, vêem-se por todo o lado, no mercado, sim, mas também na beira das estradas, enormes.




Toda a zona a leste da Praça Skanderberg parece ser um enorme mercado. As ruas são tomadas pelos objectos que se pretendem vender, desde bicicletas a sofás, livros, ventoinhas, o que calhar, numa extensão das lojas que ocupam o piso térreo dos edifícios. Estes estão um bocado decrépitos, se não inteiramente em ruínas parece que alguns podem cair a qualquer momento. O urbanismo não é bonito. Muito haverá a fazer na Albânia antes ou ao mesmo tempo do que a conservação do edificado. Mas Tirana possui uma ideia - concretizada - muito bonita e interessante: umas pinceladas aqui e ali em alguns blocos de apartamentos dão-lhe um colorido e uma alegria inesperados.




Tirana é uma cidade segura. O seu centro desenvolve-se ao redor da Praça Skanderberg (tornado herói para defesa de uma causa nacionalista), uma zona bem cuidada onde para além dos hotéis  ficam instalados quase todos os locais de interesse para os forasteiros. Aqui fica a Mesquita Et'hem Bey, o Museu de História Nacional com o fantástico mural socialista a encimar a sua fachada, a Ópera e Teatro Nacionais e diversos edifícios que albergam ministérios. Apesar da arquitectura de inspiração estalinista, não chocam as suas proporções, pelo contrário, é uma zona equilibrada. Aqui perto fica ainda a Galeria de Arte Nacional. O edifício de linhas rectas é bonito e a sua colecção é muito interessante. Logicamente, dominam as temáticas socialistas, algumas grandiosas, com o povo laboriosamente a trabalhar para a construção de uma sociedade comum.



No jardim do outro lado da avenida encontramos mais uns quantos bunkers, convivendo pacatamente junto a bancos coloridos. 


Tirana tem vida e ela não é artificialmente criada por umas simples pinceladas de cor, como surpreendentemente constataríamos após uma caminhada pelo quarteirão Blloku. Nos tempos do comunismo este bairro era onde estavam instaladas as moradias dos líderes políticos do país, lugar de acesso vedado ao comum dos cidadãos. Hoje é ocupado pela classe média alta que reside nos seus apartamentos de bom ar e consome nas suas lojas, bares e restaurantes. E, sobretudo, diverte-se nesta zona animada da cidade. A ocupação dos passeios pelas esplanadas e os portões de acesso aos edifícios fizeram-nos lembrar as ruas da zona sul do Rio de Janeiro. Até o calor e noite quente ajudou a essa lembrança. 




Percorrer as ruas deste bairro a oeste da Avenida Skanderberg é, pois, muito agradável. Uma subida ao topo do edifício do Sky Club Bar permite-nos conhecer Tirana por um outro prisma e ter uma melhor noção da sua implantação. As montanhas cercam-na e a amálgama de edifícios coloridos é aqui também evidente.




Antes disso, porém, já tínhamos tido oportunidade de ver a cidade de um outro ponto elevado, embora nem pouco mais ou menos tão alto como o do Sky Club Bar. A estranha Pirâmide, construção de 1988 de iniciativa do ditador Enver Hoxha, cujo projecto ficou a cargo da sua filha e genro, já foi um museu, um centro de convenções e mais recentemente um clube nocturno. Ninguém sabe o que fazer com ela e enquanto isso, votada ao abandono, vai sendo grafitada e os seus vidros vão sendo deixados partidos. O ar é de fim de festa. No entanto, apesar do absurdo desta estrutura no contexto urbanístico, conseguimo-nos divertir por aqui, mais um sinal do bom e descontraído ambiente que se sente em Tirana. À partida a subida até ao seu cume parecia missão só para uns quantos destemidos, como o trio de rapazes que observávamos desde cá debaixo, tal era a inclinação das paredes da pirâmide. Mas, enchendo-nos de coragem, não desdenhámos um desafio e uma aventura e lá fomos por ali a cima, o trio de portuguesas rumo ao pináculo do maior símbolo da decadência do antigo regime na capital da Albânia, a terra da águia. 

quinta-feira, agosto 27, 2015

O Lago Ohrid


O destino era Ohrid, o lago. A ideia era levar apenas esta paisagem da Macedónia.
A Macedónia foi uma das seis antigas repúblicas jugoslavas, mas possuía outras aspirações que não pertencer-lhe e até tinha uma linguagem própria. Foi a única a obter a sua independência através de uma secessão pacífica em 1991. O problema veio depois, quando quis usar o histórico nome "Macedónia" e os gregos mostraram-se contra, por considerarem que este é o nome de uma província sua e nada mais. Daí que seja mais conhecida como FYROM - Former Yugoslavia Republic of Macedonia. Para além disso, o país sofre com uns quantos problemas étnicos com os albaneses que aqui vivem. 

Resumindo, isto é os Balcãs, o caldeirão. 

A nossa chegada ao país foi interminável. Saímos às 6:30 da manhã de Ulcinj, no Montenegro, rumo a Shkodra, na Albânia, e daqui para Tirana, onde apanhámos o carro no rent-a-car onde esperámos por um documento que nos permitisse levar o carro até à vizinha Macedónia. Saindo com sucesso do trânsito louco da capital albanesa partimos em direcção ao Lago Ohrid, atravessando parte da Albânia, estradas demoradas e um bocado monótonas. Na fronteira da entrada da Macedónia ouvimos uns quantos berros e soubemos aí que tínhamos que pagar (mais) 50 euros para poder entrar com o carro no país. Que raio de documento estivemos afinal a aguardar junto da nossa querida Eliane, albanesa de ar angélico que nos embarretou à grande? Deu até direito a um hashtag que passou a marca da nossa viagem: #elianamonamour

Estávamos cansadas física e psicologicamente e eu - que fizera força para desviarmos até Ohrid - não tinha certeza de que o lugar não fosse um grande barrete, decadente e cheio de turistas. A entrada na estrada junto ao lago, para quem vem da Albânia, não parecia melhorar o estado de espírito: praias não tão lindas assim, cenário piorado pela gente que as frequentava. Mais um imenso piscinão, pensámos. Foi então que chegou a tirada da nossa Katarina de que para encontrar pouca gente em Ohrid talvez fosse melhor voltarmos em Novembro.

Mas, num ápice, o ar de Ohrid pôs o desânimo a sair a voar.

Ohrid é o principal destino da Macedónia. O Lago Ohrid - leia-se Orrid - tem 34 km de serenidade absoluta, pontilhada aqui e ali com igrejas bizantinas belíssimas. Este que é o mais antigo lago da Europa (estima-se que tenha 3 milhões de anos) e um dos mais antigos do mundo, é partilhado entre a Macedónia (dois terços) e a Albânia (um terço) e possui 300 metros de profundidade. 

A cidade de Ohrid é o maior povoamento da região e o seu nome significa "cidade no monte". 

Historicamente, os bizantinos exerceram por aqui influência, tal como os incontornáveis otomanos,  os eslavos búlgaros e os gregos. Os búlgaros, esses, ainda para aqui vêm aos magotes, mas agora de férias. 

O que há, então, para ver e fazer em Ohrid? Desde logo as referidas igrejas bizantinas. E depois, ou ao mesmo tempo, deixar-nos estar a olhar para o lago.



A Sveti Jovan Kaneo é a estrela e é provavelmente a imagem mais difundida da Macedónia. Construída no século XIII, fica altaneira à beira do lago. A sua arquitectura é deliciosa, um intrincado de telhas que torna difícil crer que possa ter sido obra humana. A sua localização, no entanto, absorve quase todos os nossos sentidos. É boa ideia vir aqui a diferentes horas do dia para que se possa tomar conta das várias tonalidades do lago, mas a hora do fim do dia será a melhor. 




Kaneo, o lugar, possui um ambiente inspirador. Quer pela igreja lá no alto, quer pelos recantos que vão fazendo praias cá em baixo. Tem gente, sim, mas não tem aquele ar de subúrbio atulhado de gente em cima de gente. E um bom passatempo para acompanhar uma bebida à beira do lago é ir vendo os típicos barcos a passar.

Para além da suprema Sveti Jovan, não se deve perder a Catedral de Sveti Sofija, cuja acústica é fantástica (tivemos a sorte de a visitar quando um artista tocava ao seu piano) e alguns frescos ainda em recuperação deixam entrever muitas maravilhas. 




A minha preferência, porém, vai para a Igreja e Mosteiro de São Pantaleão, recuperada praticamente por inteiro nos últimos anos. Mais um exemplo do estilo bizantino e mais um exemplo de localização perfeita.


Um pouco por todo o lado vamos encontrando muitas mais igrejas, algumas pequeninas, mais parecendo capelas, todas deliciosamente belas.



A cidade de Ohrid é muito agradável. As suas casas estão dispostas numa encosta do monte e por entre as ruas estreitas e declivosas encontramos vários exemplares típicos de edifícios pintados a castanho e branco. A atenção colocada na decoração das moradias é outra beleza que a cidade tem para nos dar, com as flores no pátio de entrada e às janelas a fazerem lembrar a  Córdoba espanhola.
Para uma esmagadora vista da cidade, lago e arredores a subida ao Castelo é essencial. Aqui confirmamos o título de Ohrid, a cidade no monte.





Um passeio de barco pelo lago vale muito a pena. Até Sveti Naum são cerca de 70 minutos de pura contemplação. Aqui chegadas não é tanto o seu mosteiro que merece a visita, mas mais o enquadramento do lugar. Uma praia calma com cadeiras sobre a água no lado esquerdo do mosteiro e uma zona de restaurantes deitados sobre um lago de água de um verde intenso no lado direito do mosteiro.

De Sveti Naum sai rumo a Ohrid todos anos uma maratona aquática de 30 km, a realizar precisamente no próximo sábado. Mais uma vez a Katarina é que sabe: é sempre o búlgaro a ganhar; pelo menos até que umas portuguesas se dediquem aos treinos e arrebatem o seu ceptro.