quinta-feira, outubro 01, 2015

Bruges

Gent é a "pérola da Flandres", Bruges a "Veneza do norte".
Gent é a terceira cidade da Bélgica, Bruges uma pequena cidade.
Gent é um recanto ainda não repleto de turistas. Bruges é cidade hiper-turística que parece viver só para o turismo.
Um aviso: estas duas cidades são de visita obrigatória, mas deve-se visitar primeiro Gent porque Bruges é Bruges e não qualquer Veneza e as comparações são inevitáveis.

Historicamente Bruges foi uma cidade central e próspera nos tempos medievais. No século XIV era membro da Liga Hanseática, a associação de cidades comerciais do norte da Europa.
Conflitos e rivalidades várias e, sobretudo, o assoreamento do rio Zwin deixou a cidade sem acesso ao mar. Com isso Bruges esteve adormecida centenas de anos e foi o turismo no século XIX a acordá-la. 

Até hoje o turismo é o motor económico da cidade. 

Com efeito, entre Bruxelas, Gent e Antuérpia, Bruges foi aquela onde encontrei mais ajuntamentos de turistas. No seu elegante campanário, então, houve mesmo que esperar um bom bocado para iniciar a sua subida. 


A estação de comboios de Bruges fica a uma curtíssima e mais do que agradável caminhada do centro da cidade. A receber-nos tínhamos no princípio de Setembro a Trienal de Bruges 2015 e a sua The Passage Room, de Daniel Dewaele, interpelando-nos "How to Became a Citizen of Bruges". A instalação que procura conjugar arte e sociedade coloca em hipótese que os cinco milhões anuais de visitantes de Bruges se tornariam cidadãos da cidade e questiona-os acerca das suas esperanças e sonhos como potenciais residentes.
Aqui e ali, espalhadas pela cidade, várias são as instalações que podemos ver dialogar com a cidade até meados de Outubro.


As que mais apreciei foram a espécie de bonsai gigante feito de janelas trazidas de edifícios chineses entretanto destruídos. O seu autor é Song Dong e esta recriação encontramo-la junto à Catedral de St Salvator e procura expressar o conceito Taoista de "Wu Wei" cujo significado é "inacção".
Também a relação entre o património e a natureza num contexto urbano é focada na instalação Imaginary Cities presente no edifício da Câmara Municipal. São maquetas de cidades imaginárias realizadas por quatro artistas, todas elas invenções e fantasias únicas de indivíduos marcados pelas suas culturas distintas. 

Voltando ao princípio, saindo da estação de comboios optei por não seguir directamente para o centro histórico da cidade pelo idílico Parque Minnewater, deixando este percurso para o fim, como despedida de Bruges.


Ao invés, segui por outro parque também bonito até ao edifício de arquitectura moderna que acolhe espectáculos culturais, passando por uma pequena beguinaria, até entrar na rua mais comercial de Bruges que vai directa à Grote Markt. Todavia, há que entrar pelas ruas perpendiculares que nos levam a recantos onde nos apetece deixar estar.


Bruges é uma cidade pequena e daqui até à Grote Markt é um pulinho, sempre a vislumbrar de longe o Campanário do alto da elegância dos seus 83 metros, o qual é presença assídua, escondendo-se atrás dos edifícios vizinhos.



O Markt é a praça principal da cidade, lugar de um mercado que, insisto, não nos deixa sentir a praça em toda a sua plenitude, livre de ruído. Aqui ficam os edifícios medievais típicos da Flandres, com telhado triangular em escadinha, coloridos e com restaurantes e cafés nos pisos térreos. 



O Campanário, construído no século XIII, fica também aqui. Em tempos idos, era o lugar onde se guardavam os tecidos e outros bens; hoje é lugar turístico e de organização de eventos vários. Os campanários são edifícios típicos da Flandres, Valónia e norte de França, com um conjunto numeroso classificado como património da humanidade, num reconhecimento desta distinta arquitectura em tempos de prosperidade destas cidades. 



A subida dos seus 366 degraus merece todo o esforço, assim como a espera para o podermos fazer. Como a escadaria é estreita, as entradas estão limitadas pelo que se tem de aguardar pelo nosso espaço. Lá de cima ganhamos uma vista estupenda de Bruges, seu casario, suas praças, seus canais. Ainda para mais tive a sorte de no momento da visita os carrilhões estarem a tocar, num conjunto de sons belíssimos. O toque dos carrilhões é feito manualmente e à medida que subimos os degraus para além de escutar a sua música podemos observar os artistas a tocar.



Junto ao Markt fica o Burg, outra praça rodeada de edifícios bem elegantes. Não só o edifício da Câmara Municipal, em estilo gótico e com os brasões dos condados da Flandres, mas também a Basílica do Sagrado Sangue, de arquitectura surpreendente na sua fantasia gótica que mistura os tons negros com os dourados.




Até aqui não tínhamos ainda chegado perto dos canais. Saindo do Burg ficamos face a face com o canal junto à Vismarkt. Dizem-nos que um passeio turístico de barco é algo turístico, sim, mas que não se pode perder. Decido evitá-lo e percorro exaustivamente a cidade ladeando a água. Bruges é, definitivamente, um encanto. O cenário de sonho está ali para nós e basta-nos captá-lo, seja o cãozinho à janela, as casas de telhados triangulares com torres em forma de agulha, as casas cobertas de plantas, as cores das casas e da vegetação, as pontes tão pequenas que parecem de brincar, as árvores debruçadas para o canal.



Normalmente o passeio de barco segue desta zona central até ao bairro da Liga Hanseática e volta. Este quarteirão era onde nos séculos XIV e XV a maior parte das casas dos mercadores estrangeiros e consulados estavam instalados. 


Há que seguir adiante, no entanto. Percorrendo ruas praticamente vazias de gente, ainda que se sinta que são vividas, quer pelas suas casas com jardins e suas igrejas e parques. Até chegarmos a um pitoresco conjunto de moinhos no alto de um monte verdejante vizinho a um canal desta vez mais largo. 

Daqui, numa volta maior para que mais possamos apreender a cidade, regressamos ao centro medieval de Bruges para visitar o seu aclamado museu Groeningemuseum. O edifício e sua envolvente são bem bonitos, como tudo em Bruges, mas é a sua colecção que nos atraí. Aqui estão representados os ditos "flamengos primitivos" com obras de pintura do tempo em que a Flandres era uma região próspera e poderosa não só economicamente mas também culturalmente. 

Ao lado do Groeningemuseum, com um encantador pequeno jardim a dividi-los, fica a Arenthuis, outro espaço de exposições que merece uma visita. 


Daqui até à estação de comboios, onde o curto passeio de um dia em Bruges haveria de terminar, o encanto não esmorece. Antes de entrarmos no Parque Minnewater, pura natureza misturada com beleza e ambiente inspirador, a que não falta um castelo reflectido no espelho da água do lago, não podemos deixar de visitar a maior Beginhof (beguinaria) de Bruges, a Ten Wijngaerde. A entrada nesta área, que parece muralhada por um lago a que chamam "lago do amor", faz-se por uma de duas pontes pequeninas. As casas de tijolo com janelas que deixam ver os cortinados marcam um forte contraste com o branco e verde que veríamos a seguir. Silêncio é a palavra de ordem que se vê inscrita quando se adentra no espaço circular onde encontramos casas brancas e uma igreja à volta de um parque verde pejado de árvores. 





No século XIII havia aqui um convento beneditino de freiras. Este é ainda hoje um lugar absolutamente tranquilo e as freiras ainda são vistas por aqui, velhinhas, com os seus hábitos azul-claro e branco. Todavia, nem só de freiras é feito o lugar, uma vez que as beguinarias tradicionalmente eram espaços habitados pelas beguinas - mulheres leigas católicas, muitas das vezes viúvas, que decidiam viver uma vida independente mas ascética e em comum fora das ordens religiosas e dos seus votos de fidelidade e pobreza. A sua organização nestas "cidades da paz", de arquitectura única e particular, é hoje reconhecida pela Unesco como património da humanidade.

Não pode haver melhor forma de deixar Bruges. A sua beleza medieval e tranquilidade são marcas que perduram até hoje.

segunda-feira, setembro 28, 2015

Gent

Na época medieval Gent chegou a ser a maior cidade da Europa depois de Paris e Constantinopla. Os têxteis eram o motor da sua maior indústria.
A sua importância revela-se ainda por ser o lugar de nascimento de Charles V, o homem que no século XVI tornou-se imperador do Sagrado Império Romano (e reinou como Carlos I em Espanha). Já no século XIX, Gent foi a primeira cidade da Flandres a abraçar a revolução industrial. 


Hoje é a capital da província da Flandres Oriental e a terceira maior cidade belga, atrás de Bruxelas e Antuérpia. É a maior cidade universitária da Flandres e isso percebe-se quando se chega à sua estação Saint Pieters de comboio. São milhares e milhares de bicicletas amontoadas nas suas imediações, o meio de transporte privilegiado dos estudantes (e não só) flamengos. 
As minhas memórias foram logo despertadas face a este cenário, recordando-me quando na Maastricht dos anos 80 não queria acreditar nos parques para bicicletas maiores do que os parques para automóveis que nós tínhamos na nossa Lisboa.

Existem duas estações em Gent, mas à Saint Pieters chegam os comboios rápidos vindos de Bruxelas. Esta estação fica a cerca de três quilómetros do centro da cidade, os quais podem ser percorridos num tram que segue sempre recto até à principal praça de Gent. Como gosto de caminhar optei por ir a pé e ainda tive a sorte de me perder, pelo que fui parar a uma zona da cidade que de outra forma não chegaria a conhecer. Canais tranquilos, zonas residenciais pacatas, blocos universitários de igual tranquilidade e pacatez. 



Cheguei onde queria e iniciei o meu passeio em Gent pela sua beguinaria mais central, perto do castelo Gravensteen (construção do século XII a que não falta sequer um fosso de água. A Oude Begijnhof tem uma pracinha central com um relvado verde em perfeita comunhão com a igreja de tiras de tijolo ocre e torre em tons vermelhos e violeta. As suas ruas estreitas têm, como é típico, os edifícios de baixa altura (normalmente um piso) num branco intenso.

As cores são, está visto, um dos pontos altos da cidade. Um dia em Gent chega para se conhecer o centro histórico da cidade e as suas maiores atracções, uma vez que a cidade, apesar da terceira maior do seu país, não é grande. Fiquei apenas parte de um dia, deixando Gent a meio da tarde sob uma chuvada inclemente a que nem as livrarias serviram de alternativa (os livros estão todos em holandês), e com isso perdi a hipótese de a ver, seus canais e seus edifícios, a mudar de tom.




A zona do canal entre as pontes St-Michielshelling e Grasburg é a mais bonita pelo conjunto da água e da arquitectura dos seus edifícios de topo triangular que nos dão a ilusão de lá podermos chegar subindo aquilo que parecem ser pequenos degraus. Curiosamente, estes edifícios são quase todos eles do século XX, o que não retira nenhum pó da alegria que sentimos por aqui estar.




Seguindo o canal, à sua direita fica o bairro de Patershol. Chão empedrado, edifícios coloridos e bem decorados, caminho por aqui em sossego e sozinha. Aqui percebo que Gent, na primeira segunda-feira de Setembro, é tudo menos turística. Ainda bem. Continuo a caminhar pelas ruas estreitas de Patershol e admiro com gosto as fachadas dos seus edifícios cobertas com jardins verticais. Já junto ao canal, as fachadas do bairro são mais ricas e têm pormenores deliciosos, obras de arte até. 
Atravessando a pequena ponte, sempre tudo tão bonito em redor, janelas abertas, floreiras em cada canto, chego à imensa Praça Vrijdagmarkt (mercado da sexta-feira). 




Depois de atravessar uma ruela coberta de graffitis, a lembrar que esta é uma cidade jovem, é a vez de ir ao encontro de mais praças: são três praças contínuas onde ficam a igreja, o campanário, a catedral e o edifício da câmara municipal.

A St Baafskathedraal é imperdível quer pela sua beleza interior quer por acolher obras de Rubens e de Van Eyck. Infelizmente a "A Adoração do Cordeiro Místico" deste último estava de férias noutro lugar que não naquela que é a sua residência oficial. 


Subi depois ao vizinho Campanário, edifício do século XIV, para ver as vistas de Gent como só os passarinhos a conseguem ter. A subida é fácil, praticamente toda de elevador, daí que cheguei ao topo folgada física e mentalmente. Mas este ânimo mudou repentinamente quando começou a chover de uma forma tal que perdi qualquer expectativa de poder sentar na relva de um qualquer jardim a relaxar e deixar-me estar a contemplar e sentir o ambiente de Gent no fim da tarde. 


Foi assim que deixei a cidade (tinha visto na meteorologia que a tarde iria continuar com chuva forte), seguindo a pé novamente até à estação dos comboios, mas desta vez pela rua Veldstraat, a rua do comércio de Gent e das livrarias em holandês, a língua da Flandres.

Flandres

Até aqui já sabemos que a Bélgica é hoje claramente dividida entre a Valónia, a sul, e a Flandres, a norte.
Nada conheço do sul. A norte, escolhi visitar as cidades de Gent, Bruges e Antuérpia, todas a uma curta e frequente distância de comboio de Bruxelas. 
A região da Flandres está definida autonomamente quer política quer administrativamente há muitos séculos. As três cidades citadas foram das mais ricas e urbanizadas cidades da Europa durante os séculos XIII, XIV e XV. Pontos de referência do comércio, dedicavam-se sobretudo à tecelagem da lã e sua transformação em pano. A razão da sua prosperidade era, pois, o comércio e a manufactura de têxteis. Também em termos culturais a força da Flandres era evidente, nomeadamente na pintura, excelentemente representada pelos "Primitivos Flamengos", termo enganador, uma vez que a pintura flamenga era bem moderna e inventiva.
O curioso da história é que por motivos vários estas cidades da Flandres foram perdendo influência e no século XIX a Flandres, ao contrário da Valónia, estava parcamente industrializada. Hoje a história deu nova cambalhota e é a Flandres a ter uma economia moderna e mais próspera do que a sua vizinha do sul.


Antes de me dedicar a um tour por cada uma destas cidades, referir alguns pontos que lhes são comuns. Gent, Bruges e Antuérpia possuem todas elas centros históricos medievais superiormente conservados e belíssimos. Em todas encontramos campanários de arquitectura distinta, de tal forma que estão incluídos na lista do Património da Humanidade da Unesco. Em todas é possível apreciar o ambiente de tranquilidade que até hoje se vive nas beguinarias tradicionais da Bélgica. Por fim, a água é outra referência comum, com os canais em Gent e Bruges e o rio em Antuérpia, elemento decisivo para a sua prosperidade de outros tempos.

sexta-feira, setembro 25, 2015

Bruxelas

Não é fácil para uma portuguesa, cujo país tem praticamente 900 anos de nacionalidade independente quase ininterrupta, traçar a história de outros países sem se sentir confusa. 
A Bélgica, por exemplo, ganhou a sua independência apenas em 1830 de forma algo inesperada. No que é hoje o seu território exerceram historicamente a sua influência franceses, holandeses e austríacos. No século XVI Bruxelas chegou a ser a capital do império Habsburgo sob o reinado de Carlos V. Já no século XIX, depois de ganha a independência, a revolução industrial na Valónia e a pilhagem do Congo pelo rei Leopold II trouxeram prosperidade e pujança económica. 
Nos dias de hoje, a divisão entre flamengos (na Flandres, a norte) e francófonos (na Valónia, a sul) é evidente e não serão só as questões linguísticas a separá-los. 


A capital da Bélgica é Bruxelas e esta é também a capital da Europa (depois da NATO e da União Europeia terem aqui assentado arraiais), pelo que parece bater tudo certo na mistura de nacionalidades, línguas e vidas que se observa numa curta estadia na cidade.

Junto à estação do Midi, que escolhi para meu poiso, os belgas (sejam flamengos ou francófonos) (a)parecem em clara minoria: há ruas inteiras de portugueses, brasileiros, italianos, africanos, marroquinos e árabes. Tudo isto a quinze minutos a pé da Grand Place.

Questões práticas: não se precisa de saber falar neerlandês ou francês para se sobreviver em Bruxelas e pode-se assistir ao Académica - Sporting na televisão de um café português rodeada de portugueses que apesar de estarem uma rua atrás da rua Lemonniers não fazem ideia do que isso seja.

Na cidade há de tudo e de tudo se vê. Coisas boas e coisas más.

Vamos às coisas boas: a multiculturalidade que se sente pelas ruas, gerando contrastes interessantes, sempre com um sentimento de segurança (flamengos e francófonos, emigrantes em busca de melhores condições económicas e eurocratas); edifícios com fachadas lindamente ornamentadas e bem conservados; praças e jardins acolhedores; a Grand Place, provavelmente a praça mais bonita do mundo.


Agora as coisas más: na cidade de ricas fachadas em Arte Nova e outros estilos não menos agradáveis à vista convivem uns quantos arranha-céus pavorosos - repisando o meu post anterior, como é possível destruir um dos maiores exemplos de Arte Nova, como o era a Maison du Peuple, para construir a sem graça Torre du Sablon?; os edifícios do quarteirão Europa (em resumo, vidro a mais, bom gosto a menos); o lixo acumulado nas ruas (numa rua junto ao meu hotel estiveram os mesmos sacos do lixo encostados à parede durante seis dias ininterruptos); excesso de gente nas ruas a pedir esmola.

O que mais me impressionou negativamente foi, precisamente a conjugação Europa e mendigos. 
Percorrendo a Rue du Luxembourg, passando por uns pacatos jardins, avista-se por detrás da fachada da antiga estação, encimada por um relógio, o edifício horroroso do Parlamento Europeu (também conhecido localmente como "capricho dos deuses"). A sua forma e o excesso de vidro não foram o pior da coisa; o pior foi constatar a quantidade de gente que dorme na rua enrolada em papelão na pequena praça à sua frente (perguntaram-me se era gente protestando, mas não vi qualquer sinal de protesto, apenas pobreza).




Neste bairro Europeu, que ganhou terrenos ao bairro Leopold, estão instaladas mais uma série de instituições europeias, entre as quais a Comissão Europeia, no não menos pavoroso edifício Berlaymont. Tudo por aqui está em obras, com mais edifícios de mesmo nível a juntarem-se brevemente à trupe do mau gosto arquitectónico, numa manifestação ostentatória de uma burocracia que não se entende muito bem por que cidadãos foi legitimada e quais representa.





Agora que já escrevi tudo o que pretendia escrever de mal de Bruxelas, vamos aos elogios.
Permanecendo no bairro Europeu e no bairro Leopold, o que safa a coisa má é que por aqui existem sobejos parques mais do que agradáveis para se deixar estar rodeado por edifícios bem bonitos. A área das praças Marie-Louise e Ambiorix são paragens obrigatórias. Do outro lado, depois de se percorrer o Parque do Cinquentenário, numa demonstração de ostentação de outra época mais pujante, fica o Parc Leopold. Se quisermos evitar a vista da fachada do edifício do Parlamento Europeu é só debruçar os nossos olhos no verde da relva e na água do lago.




Mas o mais impressionante de Bruxelas é mesmo a sua praça principal: a Grand Place
Para lá entrar podemos escolher uma das suas sete entradas, mas à partida nenhuma nos prepara para o cenário grandioso desta praça medieval escondida no centro da cidade. As fachadas barrocas e super ornamentadas dos edifícios que rodeiam a praça, com os dourados a dominarem, são uma delícia. A maioria dos edifícios foram construídos entre 1697 e 1705 e eram a morada das várias associações de comerciantes - as guildas - com representação na cidade, como a dos padeiros, dos arqueiros, dos açougueiros, dos cervejeiros, dos costureiros, entre outras, daí os símbolos do universo dessas associações que até hoje vemos nas fachadas, bem como inúmeras estátuas. De lembrar que Bruxelas foi no século XV uma cidade comercial que acolhia mercados prósperos, daí as guildas dos mercadores de sucesso.



Existem aqui também algumas casas que pertenceram a nobres da época. Quase todos os edifícios estão hoje transformados em cafés nos seus pisos térreos. E depois, depois existem aqui, imperiais, outros dois edifícios que quase roubam a atenção: o Hotel de Ville, do século XV, com a sua torre de 96 metros encimada por Saint-Michel, o patrono de Bruxelas, e as suas gárgulas góticas, símbolos da nobreza; e a Maison du Roi, hoje Museu da Cidade, mais novo cerca de 200 anos do que os edifícios vizinhos, na sua característica cor preta e com os seus arcos neo-góticos.

Tive a sorte de ver a Grand Place vazia de instalações de feira, ainda que cheia de gente. Todavia, as fotografias não conseguem captar toda a sua beleza e grandiosidade, sendo vãos os esforços de captar todos os edifícios, quer horizontalmente quer verticalmente. Não havendo ginástica fotográfica possível, que fique então na minha memória a Grand Place por inteiro.


Grandiosas na sua beleza e harmonia são também as Galerias Saint Hubert, três passagens em arcada de estilo neo-clássico (Galeria da Rainha, Galeria do Rei e Galeria dos Príncipes), cujos arcos em vidro deslumbram, as primeiras galerias comerciais da Europa criadas em 1847 pelo Rei Leopold I.

Dois dos maiores flops de Bruxelas são a Rua des Bouchers, junto às Galeria Hubert, um corredor colorido cheio de restaurantes hiper-turísticos, e o Manneken Pis ou "menino pilinhas", perto da Grand Place, coisa pavorosa onde se juntam e acotovelam dezenas de pessoas para fotografar a estátua minúscula e totalmente desprovida de graça. Melhor olhar antes para a empena que lhe foi livremente dedicada a umas quantas ruas dali.


A zona da Grand Place e vizinha Bourse (a Bolsa, edifício de fachada neoclássica com colunas e estátuas, incluindo alguns trabalhos de Rodin), a uma curta caminhada até St-Géry e Ste-Catherine, com o seu Quai aux Briques, são o coração da cidade, cheio de cafés, sendo um dos  locais para se sair para jantar e seguir pela noite dentro. A Praça de Ste Catherine, onde havia um mercado de peixe quando o rio Senne se deixava ver, é uma excelente opção para se provar as incontornáveis moules et frites, ou seja, os tradicionais mexilhões com batatas fritas.


Quando se caminha por estes bairros, é incrível imaginar que o rio Senne passa por aqui debaixo dos nossos pés, hoje longe da nossa vista, enterrado quer por questões de salubridade quer por questões de expansão urbanística.  


Mudando de direcção, obrigatório é também um passeio pelo bairro de Marolles. Antigo bairro da classe operária, gente afirmativa, a Place du Jeu-de-Balle, principalmente aos sábados de manhã com a sua feira onde tudo se vende, ainda mostra algum do seu carácter antigo. Hoje, porém, o bairro é feito de contrastes. No seu extremo que dá para a Porta de Hall encontramos um interessante projecto de habitação social construído por volta de 1915, o primeiro na cidade. A Cité Hellemans é um conjunto de habitações distribuídas por sete filas muito semelhantes, paralelas entre si, em prédios de tijolo e pedra, com elementos de ferro a lembrar a Arte Nova, e terraços não muito espaçosos. Cada uma das ruas toma nomes das profissões antes exercidas no bairro, como marceneiros, borradores, ourives e outras. Nestas ruas brincam crianças de todas as nacionalidades, pois não só a Cité Hellemans mas todo o bairro de Marolles é hoje lugar de muitos emigrantes. 


As ruas Haute e Blaes, agradáveis e com lojas bonitas e coloridas, levam-nos até ao outro extremo de Marolles. Primeiro passamos pela praça que acolhe hoje um elevador prático mas feio que liga a parte baixa da cidade à alta, onde fica o mega Palácio da Justiça (construído entre 1866 e 1883 este edifício é ainda maior do que a Catedral de São Pedro em Roma), donde se têm uma bonita perspectiva da cidade; e depois chegamos ao Sablon. 


Lugar chique de Bruxelas, onde encontramos lojas de antiguidades e galerias de arte, assim como cafés e todas as melhores lojas de chocolates (a minha preferida é a Pierre Marcolini: pelos bolos, pelos gelados, pelos chocolates, enfim, por toda a sua belíssima apresentação), à Praça do Grand Sablon (onde existe um deslocado parque de estacionamento no flanco dianteiro à sua Igreja) segue-se a Praça do Petit Sablon com o seu delicioso jardim cheio de estátuas. 


Jardins é o que não falta por aqui. Ou continuamos para os Jardins de Egmont, passando pelos seus muros preenchidos com citações da local Marguerite Yourcenar, ou vamos directamente para a Praça e Palácio Real, com o Parque de Bruxelas à espreita. 



O Sablon é, pois, uma boa antecâmara para o ambiente artístico que se lhe segue no território. O Monte das Artes, como é conhecida esta zona mais elevada da cidade, para além do Palácio Real (aberto a visitas e residência oficial da realeza belga, apesar de na verdade a família real hoje em dia habitar em Laeken) é o lugar dos Museus Reais de Belas Artes (inclui o Musee Old Masters, o Musee Fin-de-Sècle e Musee Magritte) e do Bozar (anteriormente designado Palácio das Artes, complexo a caminho da Arte Déco desenhado por Victor Horta no sentido de acolher todas as artes, como o cinema, a arte e a dança), para além de diversos outros museus. 

E para algo completamente diferente, há que não sair de Bruxelas sem tomar o metro até Heysel e depois de nos emocionarmos em frente do seu Estádio (como amante de futebol e sensível a tragédias) seguir até ao Atomium. 



O Atomium é inequivocamente um símbolo de Bruxelas.
Construído como estrutura temporária para a Exposição Internacional de 1958 que então teve lugar na cidade, estas nove bolas metálicas gigantescas unidas por braços tubulares de aço, representando átomos de ferro, pretendiam configurar o progresso que se vivia no pós-guerra e a força, modernidade e futuro de um país, com uma indústria poderosa partilhada com o Luxemburgo (não esquecer que nos anos 50 havia sido criada na Europa a Comunidade do Carvão e Aço, e o ferro e o aço faziam parte da visão de desenvolvimento económico da época). No entanto, o tipo de aço aqui usado foi uma espécie de aço inoxidável, o alumínio, daí o nome Atomium, mistura de átomo com aluminium. 
Foi tão forte a sua presença, arquitectura e simbolismo que permaneceu intacta e perdura até hoje, do alto dos seus 120 metros de altura, depois de ter sido objecto de uma intervenção de restauro em 2006. 


É possível - e concorrida - a visita ao seu interior, onde foi criado um museu que não considero ter muito interesse. Está bem que procura ter uma função educativa na área da energia, mas o espaço expositivo podia ser muito mais evoluído, moderno e interactivo. Passa ainda em revista a sua criação, na tal Exposição Internacional. Valerá a pena pela experiência de estarmos dentro daqueles átomos imensos e tubos que os ligam e pelas vistas fantásticas da cidade, mas por 11 euros?