quarta-feira, julho 30, 2014

Mais Pequim

À parte os monumentos que destaquei em posts autónomos, bem como a comida - o pato à Pequim do Dadong pode já ter saído do meu paladar, mas não sairá da minha memória gustativa - e o gelado de alecrim e o de chá verde, muito mais há para viver em Pequim.

A rua mais emblemática da capital, género de Rua Augusta, é a Wangfujing. Aqui temos comércio tradicional, algumas lojas da moda, um centro comercial que parece não ter fim, um mercado de artesanato e outro de comida. Na amálgama de estilos parece ser um bom exemplo do que é a China.


A China moderna, essa, está em Sanlitun, onde se vê o gosto e maneiras ocidentais. Aqui perto fica o edifício da CCTV, a televisão chinesa, de Rem Koolhaas, artisticamente implantado numa zona onde já existem um quantos arranha-céus e muitos outros estão na calha para virem a emergir dos imensos buracos que já foram esventrados. O desenho é de outro mundo, tal como já tínhamos experimentado com a Casa da Música do Porto.



Outros dos maiores arquitectos do mundo deixaram também a sua marca na paisagem de Pequim. É caso da dupla Herzog & De Meuron e do seu mais do que elogiado estádio conhecido como Ninho de Pássaro. É o Estádio Nacional de Pequim, que serviu de palco para os inesquecíveis Jogos Olímpicos de 2008. A sua arquitectura é belíssima, concreto intrincado que parece ir fazendo lacinhos aqui e acolá. O jogo de cores que sobre ele incide à noite consegue torná-lo ainda mais bonito. Idem para o Cubo de Água, o complexo onde decorreram as provas de natação. Este edifício não é de desdenhar durante o dia, mas à noite consegue entender-se na perfeição as bolhas de água que o decoram à medida que as diversas cores se vão revelando.


A torre olímpica é uma boa companhia para estas duas peças superiores. Agora, há que referir que o ambiente que se vive no Parque Olímpico é de tudo menos de desporto. Aquilo parece uma feira foleira que, não fossem as dimensões desmedidas, poder-se-ia dizer que mais parecia uma aldeia. Enfim, a arquitectura pode ser do mais moderno que há, mas isto é a China e os chineses.



Todavia, para contrariar o que acabei de escrever, eis o Distrito da Arte 798. Continua a ser a China e os chineses, mas estes artistas já não são de feira. Num antigo complexo industrial, cheio de fábricas e de edifícios abandonados, foram-se instalando uma série de galerias de arte contemporânea. O lugar é tão grande, quarteirões e mais quarteirões, ruelas e becos para nos perdermos, que facilmente podemos passar aqui um dia inteiro. Existem restaurantes e bares, lojas de arte, mobiliário, roupa, galerias e, sobretudo, muita arte de rua - graffitis e esculturas.



Mas porque é tradição e sobretudo um toque de oriente que querermos quando viajamos a Pequim, temos ainda para nos deleitarmos uns quantos templos, entre os quais o Templo Lama e o Templo de Confúcio, quase um ao lado do outro. O primeiro é um dos maiores templos budistas e cor e movimento é o que aqui se observa. O segundo é muito mais pacato e consegue-se viver aqui momentos de tranquilidade.




No entanto, uma das melhores experiências que se pode ter em Pequim é caminhar pelos seus hutongs, as ruelas que ainda sobrevivem no centro da capital e onde podemos literalmente entrar pelas casas e vidas adentro dos locais. A rua e a casa confundem-se de tal maneira que quando damos por nós não estamos numa rua sem saída, antes na casa de alguém. À porta das casa, ou junto a uma janela ou tão somente parede, vemos uma bicicleta encostada, mas também roupa estendida ou um armário em uso. Historicamente, os hutongs são do templo dos mongóis, século XIII, mas cresceram com os Ming, século XV. Nos últimos anos muitos têm vindo a ser demolidos para dar lugar a edifícios e ruas mais modernas. Mas é ainda fácil darmos de caras com um hutong. A zona de Nanluogu Xiang será a mais evidente para explorar, até porque aqui foram bem sucedidas as tentativas de recuperação, mas um pouco por todo o lado eles existem. É só metermo-nos ao caminho e ... ei-los. Por exemplo, no nosso primeiro dia em Pequim, um domingo, passámos a tarde na zona dos parques e lagos Houhai e Beihai - óptimos caso não se suporte estar sozinho. Alugámos uma bicicleta e fomos pedalando à volta do lago e um pouco pelo interior dos bairros. Foi logo, rapidamente sentimos um cheirinho daquilo que imaginávamos a China mais tradicional.


O que retirei da viagem à cidade de Pequim é que é uma cidade em franca renovação, mas onde aqui e ali, onde menos se espera, o tempo parece ter parado. A jornada em que fomos assistir à Ópera de Pequim é elucidativa: o Huguang Huiguan é um teatro tradicional, absolutamente pitoresco e acolhedor, mas só lá se encontra turistas. A zona da cidade onde se encontra não é feia nem bonita, nem nova nem velha. Mas para se ir daqui a pé até à Praça Tiananmen - uma daquelas coisas não muito óbvias que gostamos de fazer - passa-se por uma rua de edifícios baixos e velhos, em terra batida, com comida de rua, um qualquer hutong esquecido. E de repente estamos na Rua Qianmen, toda bonitinha, recuperada, enfeitada, cheia de lojas da moda.

Ou seja, uma cidade para todos os gostos.

Pode-se pedir mais?

terça-feira, julho 29, 2014

Palácio de Verão - mais algumas fotos

 






Palácio de Verão

 

Um pouco mais afastado do centro de Pequim, mas ligado por metro, fica o Palácio de Verão.

Não confundir com o Velho Palácio de Verão, destruído pelas tropas britânicas e francesas durante a Segunda Guerra do Ópio, em 1860. Este, porém, também sofreu com a dita guerra e foi Cixi, a imperatriz viúva que governou efectivamente as últimas décadas da China imperial, que tomou em mãos a empreitada de o reconstruir.

A arquitectura que encontramos no Palácio de Verão não é muito diferente daquela que já havíamos encontrado na Cidade Proibida. É também um complexo de templos, jardins, pavilhões, lagos e pontes.

Mas tal não quer dizer que não mereça a pena a visita. Pelo contrário, os edifícios são aqui mais elaborados e encantadores e o enquadramento paisagístico é imbatível. O verde luxuriante é uma presença constante, assim como o é o Lago Kunming, no qual não se deve perder um passeio de barco. Pena que o céu de Pequim por estes dias (será que não é sempre assim?) não estivesse claro para admirarmos a paisagem em toda a sua plenitude.

O Palácio de Verão tomou como nome original Jardim das Ondas Claras quando no século XVIII o imperador Qianlong aqui decidiu construir um jardim. Pegando no antigo reservatório da dinastia mongol Yuan transformou-o no referido Lago Kunming que, a par da Colina da Longevidade, viriam a ser as duas grandes referências do monumento. Só mais tarde seria adoptado o nome de Palácio de Verão, quando se tornou retiro da corte imperial.

O complexo ocupa uma área de 290 hectares e inclui cerca de 3000 edifícios. Combinava funções políticas, administrativas, residenciais, espirituais e recreativas. Hoje, quando o visitamos, tentando fugir à multidão de parceiros de visita, o que vemos é um equilíbrio perfeito entre a obra do homem e a natureza.


Existem várias entradas, mas a que tomámos deixou-nos num pátio junto a um dos templos onde nos deu logo curiosidade de espreitar o que haveria nas suas traseiras. O cenário era parecido com algo que havíamos visto algures no centro de Pequim, os característicos telhados cinzentos ondulados. Aqui, muitas rotas de visita pareciam possíveis e, acaso pretendêssemos embrenharmo-nos pela imensa vegetação do jardim, teríamos entretém para o dia inteiro. Resolvemos seguir junto ao lago, numa espécie de promenade que logo vai ter ao Longo Corredor. Este é belíssimo, jogo de cores perfeito e com motivos decorativos como pinturas que revelam cenas da história da China e mitos populares.




Mas a grande atracção é a Colina da Longevidade e as construções que acolhe, como o Pavilhão da Fragrância Budista e o Templo Budista do Mar da Sabedoria. Estes nomes são qualquer coisa, todo um programa. A subida até lá bem acima vale todo o esforço, não só pelo que vamos descobrindo pelo caminho, como pela paisagem que nos espera.


Outra das atracções do Palácio de Verão é o extravagante Barco de Mármore construído em 1755 e mandado restaurar por Cixi em 1893 quando o dinheiro já não abundava e estava destinado para a modernização das forças de defesa do país, nomeadamente naval.


Daqui, o melhor que podemos fazer, em alternativa à longa e demorada caminhada em volta do lago, é atravessá-lo num dos barcos mascarados de dragão para chegar até ao lugar onde existe a pitoresca ponte, também em mármore, que dá para uma ilhota onde está instalado um templo. Infelizmente, por altura da nossa visita, este estava em obras. Nada que aborreça muito, uma vez que o que estava a descoberto foi suficiente para nos encantar.

Templo do Céu

O Templo do Céu, ou altar do céu, é outra das atracções de Pequim que não pode ser perdida.

Mandado construir pelo imperador Yongle, tal como a Cidade Proibida, no princípio do século XV, é um belo exemplo da arquitectura Ming, embora posteriormente fosse sendo objecto de várias adaptações e reconstruções, quer ainda durante a dinastia Ming como posteriormente na Qing.

Este complexo abarca diversos edifícios e um parque fantástico, de que os chineses fazem bom uso, seja para praticar exercício físico seja para conviver. Como não fomos visitá-lo de manhã cedo, não apanhamos os chinoquinhas a fazer tai-chi, mas apanhámo-los em animadas sessões de cartas e mah-jong e em amenas cavaqueiras.




O parque é enorme e belíssimo e é abrigo de diversas espécies de árvores. O que mais encantou, sobretudo, foram as cores em exibição, variadas mas todas elas encantadoras, num espaço soberbamente arranjado onde impera a ordem, a harmonia e a beleza.

Quanto ao Templo do Céu em si, este é o lugar onde os imperadores vinham todos os anos, como filhos do céu, para renovar a sua dignidade imperial, expiar os pecados do seu povo e pedir boas colheitas. Para esse efeito, aqui eram levadas a cabo cerimónias e rituais não só de preces, mas também de sacrifícios. Este é, pois, um altar de sacrifícios onde se faziam cerimónias de adoração do céu.



O complexo é composto por diversos salões, corredores e altares. O que mais me seduziu foi o Salão das Preces para as Boas Colheitas, um edifício de três andares, cada um deles simbolizando a humanidade, a terra e o céu. O céu é o mais alto e a terra o mais baixo, reflectindo o conhecimento chinês ancestral segundo o qual o céu é redondo e a terra é quadrada. O mármore e a sua forma transmitem uma elegância sem palavras.

quinta-feira, julho 24, 2014

Cidade Proibida


Antes de mais, quando se fala em visitar Pequim ouve-se "Cidade Proibida" como a sua maior atracção. Mas a maior parte das pessoas não amante da China ou de viagens pergunta-se, "mas o que é que é isso de Cidade Proibida"?

Explicando basicamente, é o lugar que anteriormente estava fora do centro cidade e que os imperadores escolheram para habitar, junto das suas concubinas e eunucos. Só eles podiam aqui entrar, daí a designação de Cidade Proibida. Hoje tudo é diferente e qualquer pessoa, desde que pague cerca de 7 euros, pode e deve visitar este complexo, filmado pela primeira vez por Bernardo Bertoluci para o seu oscarizado filme "O último imperador".

A Cidade Proibida foi mandada construir em 1406 pelo imperador Ming Yongle, o mesmo que então decidiu a transferência da capital de Nanquim para Pequim. Demorou 14 anos a construir, tendo participado na empreitada mais de um milhão de trabalhadores chineses, e serviu de palácio imperial para todos os imperadores das dinastias Ming e Qing, qualquer coisa como 500 anos de história dinástica terminada com o último imperador, Puyi, em 1912 - precisamente aquele retratado pelo filme de Bertoluci.


Hoje a sua entrada tem o enorme retrato de Mao Zedong a dar as boas vindas. Esta é a Porta da Paz Celestial que dá para a Praça Tiananmen. A escala aqui é enorme.

Da Praça Tiananmen já havia falado em post anterior.

Quanto à Cidade Proibida, o complexo em forma rectangular reúne cerca de 900 edifícios, mais jardins, portas, pontes, lagos, templos, até óperas. São à volta de 720000 metros quadrados cercados por muros de 10 metros de altura e envolvidos por um fosso de água de 52 metros de largura. Uma verdadeira cidade.

No seu desenho é visível que houve aqui muito planeamento. A simetria é evidente e houve uma preocupação com a geomancia e de se obedecer aos princípios do yin e yang. Também a hierarquia que esta cidade pretende simbolizar fica aqui evidente pela disposição dos seus edifícios. Com efeito, os mais importantes encontram-se ao centro, como templos e salões, deixando as laterais para aqueles mais privados.

Uma das imagens mais fortes da Cidade Proibida são as suas cores. Propositadamente foi escolhido o amarelo para os telhados dos edifícios, sendo o amarelo na cultura chinesa a cor reservada aos imperadores, representando o seu poder e a sua proximidade a Deus. Já o vermelho que domina nos muros e nos edifícios representa a prosperidade.

O que vemos hoje aberto ao público é apenas uma parte de todo o complexo da Cidade Proibida, talvez nem metade de todo o espaço. Ainda assim, muitas horas de visita são aqui consumidas.

Para além da sua arquitectura, aqui ficam os melhores museus da China, apresentando colecções de porcelana, jade e outros objectos imperiais. Aliás, a designação oficial da Cidade Proibida é hoje "Museu do Palácio", o que nos criou alguma confusão no momento de comprar o bilhete de entrada, pois não desejávamos ir para o Museu, antes para a Cidade. Fora a confusão criada pela quantidade de gente que estava nas imediações da Cidade Proibida na segunda-feira, dia por mim destinado para a visitar, sem saber que nesse dia está encerrada. Valeu-me mais uma acusação de ser "pouco focada" por parte da mana.

Lá voltámos no dia seguinte para constatar que aquela quantidade de gente não era, afinal, assim tanta. Até custa a querer que ainda haja mais chineses. De certeza que eles não estavam lá todos ao pé de nós naquele dia?

Uma das coisas mais irritantes quando se viaja é não poder ver as coisas com calma, sem confusão e sem necessidade de nos pormos constantemente em bicos de pés para conseguir espreitar um buda que seja. Em Pequim foi uma constante: demasiada gente onde quer que se fosse.


 
No caso da Cidade Proibida, porém, se é impossível apreciar bem os pormenores da sua arquitectura na zona central, tal já é mais possível quando se foge um bocadinho do óbvio, do super turístico. Então, aí podemos apreciar quase sozinhas os deliciosos pavilhões e seus pátios.

 
Na minha memória ficará, acima de tudo, o Palácio da Paz e da Longevidade, situado na parte nordeste da Cidade Proibida. Esta é como se fosse uma autêntica cidade dentro da cidade. O bilhete de entrada para a Cidade Proibida não inclui a entrada neste espaço, daí que tenhamos que comprar um outro bilhete e, talvez por isso, indivíduos é coisa que não abunda por aqui - coisa rara e feliz. À sua entrada somos recebidos pelo painel dos Nove Dragões, destinado a protecção contra os maus espíritos. Aqui viviam as imperatrizes viúvas e as concubinas imperiais. Os pavilhões vão-se sucedendo, bem como os pátios com delicados jardins. Mas o rei da delicadeza é o Pavilhão das Alegres Melodias, a casa da ópera num edifício de três andares.

 


No entanto, são os enormes salões cerimoniais que dominam a paisagem, ou não ficassem eles no centro. Depois de passarmos a Porta do Meridiano entramos num enorme pátio com vista para a fantástica Porta da Suprema Harmonia, o maior e mais importante edifício da Cidade Proibida. Nas laterais existem diversas salas transformadas em museus. Em seguida é irmos atravessando um a um os salões cerimoniais, junto da confusão, mas a tentação de escapar sempre para as laterais é grande. A noroeste da Cidade Proibida ficam os Palácios Ocidentais e, apesar da estreiteza dos seus caminhos, consegue-se espreitar sem muitos encontrões os seus segredos. O contraste de cores é aqui muito forte e belíssimo.
 

 

 
Na parte central a norte, junto à saída, é a confusão total, mas dá para perceber a beleza do jardim imperial.

Um pormenor interessante. Cada edifício é decorado com umas pequenas e pitorescas estátuas, conhecidas como os guardiões, criaturas míticas que protegem o dragão imperial; a sua importância afere-se através do número que cada um apresenta - 10 é o máximo das estátuas e o máximo da importância (encontramos esta ideia não apenas nos edifícios da Cidade Proibida).


Outros pormenores em foto,



Para concluir o tópico Cidade Proibida neste post, dizer que se hoje o monumento é uma unanimidade como património da humanidade, para os comunistas o assunto nem sempre foi fácil. Quando Mao ascendeu ao poder e criou a República Popular da China em 1949 ficou com um dúvida existencial - que fazer com toda aquela ostentação imperial quando o seu pensamento era contra a tradição? Diz-se que foi mais uma vez o providencial Zhou Enlai a salvar da destruição este ícone da China imperial.

 

Praça Tiananmen

Nesta imensa praça, percorrida facilmente em meia hora para lá, dez minutos para o lado e mais meia hora para cá, fora as constantes filas para as revistas da segurança, fica a uma ponta as duas portas simbólicas da sua entrada e na outra a Porta da Paz Celestial, mais conhecida por acolher o retrato de Mao e ser a entrada da Cidade Proibida. Numa das partes laterais fica o Museu Nacional e na outra o parlamento e diversos edifícios governamentais. Aqui o estilo soviético impera. No meio da Praça, o Mausoléu de Mao. Para se chegar aqui, mais revista de segurança.


Interessante constatar que o culto da personalidade ao grande timoneiro persiste ainda hoje. Ao seu mausoléu acorrem todos os dias milhares de chineses em excursão, dignando-se esperar ordeiramente na fila (sério? deve ser o único lugar em que fazem fila). Não quisemos perder este género de beija mão. Afinal de contas Mao, tal como nós, era adepto da natação. Só por isso.(linda a história - verdadeira - de que Mao recebeu Khrushchev na sua piscina e o russo, como não sabia nadar, teve de colocar umas braçadeiras. Foi o Kissinger que me contou). O mais curioso é que praticamente não havia estrangeiros (leia-se ocidentais) para confirmar a verruguinha de cera no queixo de Mao. A visita é curta e conta-se de uma penada: a fila anda a passo à volta do edifício enorme do mausoléu mas flui bem, durando menos de uma hora naquele meio da manhã; à aproximação da sua entrada inúmeros vendedores de raminhos de flores brancas e inúmeros visitantes compradores das ditas; mais revista de segurança, isqueiros não entram; primeira sala a visitar sem parar o passo é onde se depositam as flores no sopé de uma imensa paisagem de natureza verdejantemente pintada; segue-se a sala que todos esperam e, ei-lo, placidamente deitado no seu descanso eterno; vrum, já está.

Quanta ligeireza a falar de um monstro que é igual ou pior do que os de direita, pensa a mamã. Pois. Para que não fiquem dúvidas, sigo a linha oficial do partido: foram erros, sim, mas a intenção foi boa. Sigamos. Para a Cidade Proibida.

domingo, maio 25, 2014

O que ver e comer em Pequim

Turisticamente falando, muitos pensam "um dia e meio chega para Pequim". O rebanho vê, usualmente, a Cidade Proibida, o Templo do Céu e o Palácio de Verão. E já está. Segue para outra banda.

Como todos os sítios, é uma pena que assim seja.
Na verdade, a nós, cinco dias inteiros (mais um para a Grande Muralha) deram apenas para uma ideia da capital do terceiro maior país do mundo e o primeiro em população. Vimos aquelas três atracções que são património da Unesco, sim, mas vimos também muitos parques, templos, hutongs, o distrito da arte 798, o parque olímpico, ruas antigas e ruas modernas, arquitectura antiga, arquitectura soviética e arquitectura moderna. Muito mais ficou por ver. Museus, por exemplo, nem uma olhada.
A meio do dia e à noite dedicámo-nos com gosto à gastronomia chinesa, tentando incluir nas nossas escolhas cozinhas de diversas regiões chinesas e da Ásia, no geral.
Report gastronómico no blogue da mana:
Nàjia Xiaoguan (Manchu)
Lost Heaven (Yunnan)
Comida de rua - aqui e aqui
Dadong (Pato à Pequim)
Zuo Lin You She (Pequim)
Hatsune (japonês)

sexta-feira, maio 23, 2014

在 中国

这复活节我去了北京。
在北京我住一个星期。
北京是中国建都。

首先 我去了 天安门广场。 
非常 大。 很多人。我们 得 排队。

然后 我 参观 紫禁城 , 颐和园 和 天坛公园 。我觉得 颐和园 比紫禁城 漂亮。

在北京有很多 游客 。 可是,不很多 西方人 。

我的酒店 得 还可以。可是,附近 王府井。

我吃了烤鸭,火锅 和  糖果 。 非常 好 吃。 
吃街 也 很 好。

坐地铁 很 方便 和 很 便宜。 坐 出租车 也很便宜。
   
我 想 北京是一个安全的城市。

我 寄了一 张 明信片给我妈妈。

因为 我 说的 汉语 说 的 不 好, 所以 这是不容易 理解 中国人。

奇怪的。 我没有看见 北京的天。



Beijing


Beijing é uma das capital históricas da China.
Já havia sido capital antes de Cristo nascer, ou melhor dizendo, era capital quando Buda apareceu na vizinha Índia. Mas depois só o voltou a ser apenas no século X, com os Khitans (mongóis), e assim continuou no século XII, com os Jurchen (manchus), e depois no século XIII, com os Yuan (mongóis), do famoso Kublai Khan. Era a então Dadu, ou a Cambaluc de Marco Polo. Esta rapaziada era toda do nordeste, o pessoal aterrorizador das estepes que levou à construção da Grande Muralha.

Durante os Ming, de etnia han, os "verdadeiros chineses", a capital da China começou por ser Nanquim, mas o imperador Yongle mudou-a para Pequim no princípio do século XV e deu-se ao trabalho de levar a cabo uma quase inteira reconstrução da cidade, incluindo a construção da Cidade Proibida que perdura até aos nossos tempos. Pequim continuou capital com os Qing (manchus) e só voltou a mudar para Nanquim com a República da China (nacionalistas), com muita alternância à mistura, para se estabelecer definitivamente como capital em 1949, com a instauração da República Popular da China (comunistas).

Nos dias de hoje, Beijing mostra-se bem cuidada, limpa, segura. Tirando a banda sonora dos escarros constantes, que consomem de tal forma a atenção dos ouvidos sensíveis que evitam que  os ainda mais sensíveis olhos encarem o próprio líquido em si, os habitantes são educados. Isto se concedermos que fazer fila é uma questão cultural e não de educação e civismo. 

Tentei treinar o meu medíocre mandarim. Fiquei contente por constatar que o bu yao (não quero) resulta e faz os vendedores dar meia volta. O problema é que tentar falar inglês é, na esmagadora maioria das vezes, ainda pior. Vá que há rapazes inteligentes e, ajudados pela tecnologia, conseguem ir ao google translator e mostrar-nos escrito "closed today" (fechado hoje). 
Como não podia deixar de ser, a capital do país que já passou do 1 bilião de habitantes tem só por sua conta 20 milhões deles. Curiosamente, parece haver espaço para todos eles aqui viverem e parece haver ainda mais espaço para que mais deles aqui se instalem no futuro. Se terão um boa vida ou não, isso já é outra história. 
Diz-se que o salário médio mensal é de cerca de 700 dólares, mas alugar um apartamento de um quarto no centro da cidade fica mais caro do que isso. A periferia é o destino da maioria (nada muito diferente de Lisboa, há que reconhecer). Mas a rede do metro ajuda a levar a muitos cantos - serão cerca de 200 km de linha (ainda que me pareça que a rede do metro nem sempre esteja bem articulada, pois para se fazer à volta de 2 km por vezes tem de se mudar de linha umas duas vezes). O preço do bilhete do metro em Pequim é de 2 rmb (renminbi, também conhecido por yuan), cerca de 24 cêntimos de euro. Ou seja, os resquícios comunistas estabelecem para o povo preços baixos nos transportes, mas não na habitação. Qual a explicação? Wo bu zhidao (não sei). 
Continuando na temática preços, e ainda no que aos transportes diz respeito, é só escolher: metro já se sabe; autocarro, se tiver cartão pré-comprado, é inacreditavelmente ainda mais barato; táxi sai a 1,5 euro para se andar os primeiros 3 km. 
Quanto à alimentação fora de casa, na rua pode almoçar-se cogumelos, beringela e galinha por 16 rmb (menos de 2 euros), para duas pessoas, compartilhando uma mesa no meio de uma mercearia do género da da Lurdes em Aldeia das Dez, junto às pastas de dentes, aos boxers e aos pacotes de sopas instantâneas, e pode jantar-se umas entradas e um pato à Pequim num restaurante da moda por 450 rmb (54 euros), também para duas pessoas. Mais uma vez, é tudo uma questão de escolha. 
Para a roupa de marca, daquela que se encontra cá como lá, não vale a pena olhar o preço, pois é mais caro. Não devia a Adidas made in China ser aqui mais barata? Volto a wo bu zhidao. Desta vez não destinámos tempo para uma visita aos mercados de falsificações, por isso, desconheço se vale a pena ou não. Adiante.

Facto curioso nesta Pequim multifacetada são as ilhas que comporta. A população que frequenta Sanlitun não é exactamente a mesma da de Wangfujing e as duas são diferentes da da Praça Tiananmen. Na Cidade Proibida juntamo-nos todos. 
Passo a explicar. 
Sanlitun é o bairro das embaixadas que cresceu em tempos modernos e onde se encontram hoje os arranha-céus do centro financeiro e as lojas das maiores e mais caras marcas mundiais. Nas ruas vêem-se chineses sofisticados e mais estrangeiros, que se topa serem claramente emigrantes e não turistas. 
Em Wangfujing, estão também muitas das maiores marcas e o maior centro comercial, ao lado de lojas menores e de mercados populares. Todo o tipo de hotéis está aqui, ou não ficasse a Praça Tiananmen e a Cidade Proibida a menos de 2 km de distância. E nas ruas vêem-se muitos turistas (poucos ocidentais) ao lado de muitos jovens chineses classe média. 
Na Praça Tiananmen ficamos com a sensação de que o campo invadiu a cidade. É uma multidão de chineses que em excursão acorre a visitar o Mausoléu de Mao e o Museu de História, mas a ver pelo seu aspecto de rosto curtido pelo sol e calçado estragado, não serão exactamente os mesmo que depois irão dar um saltinho a Wangfujing e, muito menos, a Sanlitun. Quanto a estrangeiros a aventurarem-se na espera da fila para ver Mao, não vi mais do que uma mão cheia deles, duas portuguesas (nós) incluídas.
Por fim, na Cidade Proibida entramos todos juntos e lá nos deixamos encantar todos juntos também.

Ainda numa análise à população de Pequim, é delicioso ver os idosos (leia-se, reformados a partir dos 55 para elas, 60 para eles) a passear com os seus netos nos parques. Esta é também uma realidade de Pequim, uma população a caminhar para idosa, mas já reformada, e outra jovem recém chegada à cidade, mas que nem sempre encontra o emprego desejado ou, pior, não o encontra de todo.

quinta-feira, abril 24, 2014

A Nova China


No império do meio faz ainda mais sentido olhar para o mapa, aquele em que me sinto perdida, tentando encontrar o meu rectângulo à beira mar no centro do dito. Mas ele não está lá. Continua no centro o continente euro-asiático, mas agora com a terra dos han a dominar o centro das atenções, e nós relegados mais para a esquerda, no lugar da América, e esta no lugar da Ásia.
Causa-me sempre alguma confusão quando oiço ou leio opiniões de que a China vai dominar o mundo, tomando o lugar do "ocidente". 
Desconhecerão que a sua é uma das mais antigas e grandiosas civilizações? Que apesar da política de se manter isolada do resto do mundo, baseando as suas relações num sistema tributário ao qual estava subjacente o entendimento da sua auto-suficiência, a sua "decadência" não terá durado mais de 100 anos?
Pois, para a memória curta, só nos lembramos dos episódios das guerras do ópio e do retalho do país pelos ocidentais, russos e japoneses na segunda metade do século XIX e princípios do século XX. 
Mas que dizer do testemunho de Marco Polo que por lá passou no século XIII e que despertou a curiosidade e encantou o "velho mundo"? Que dizer do fascínio pelas porcelanas Ming, pelas sedas, pelo chá, após Portugal ter ligado comercialmente as duas costas do mesmo continente?
Isto para não ir ainda mais atrás, pois a partir daqui deixou de haver desculpas para o nosso desconhecimento da grandeza de uma outra civilização.
Os orientais, ao contrário dos ocidentais (ler o livro The Geography of Thought - How Asians and Westerners Think Differently...and Why, de Richard Nisbett, para melhor esclarecimento), têm tendência a ver o universo de uma forma cíclica (nós é mais linhas rectas, uma visão que se costuma apodar de linear). A  anunciada tomada do governo do mundo pelos chineses em breve (apregoado, entre outros, por Martin Jacques em Quando a China Mandar no Mundo) mais não é do que um retomar do papel da China na história mundial de acordo com com esta visão cíclica, em que se volta sempre ao início da rodinha.
Uma nota mais. São os próprios chineses a admitir que o seu país não é comunista. Duibuqi, também não é capitalista. É um país que segue um projecto próprio, comunismo de rosto capitalista. Ou capitalismo de rosto comunista. As grandes marcas ocidentais, tipo a Nike, estão a fugir de lá porque a mão de obra mais barata deixou de estar aqui. Mas outras grandes marcas ocidentais, tipo a Apple, continuam cá porque sabem que os chineses são bons a trabalhar com tecnologia. Ou seja, os chineses estão a enriquecer, estão a estudar mais, estão a viajar por todo o lado, seja no seu país, na Ásia ou em todo o mundo - a China já é o país que mais contribuí com viajantes para o turismo mundial. Abrem delegações do Instituto Confúcio por todo o mundo - o mandarim está na moda. 
Não ignoro os custos deste novo rumo da China, em que todos nos campos parecem querer demandar às cidades e que para cumprir o seu sonho de um futuro melhor que lhes foi prometido terão de trabalhar o dia todo, a semana toda, o ano todo. E isso, também, prova as características especiais deste modelo de China. Nem bom, nem mau. É o que calhou nesta parte do ciclo.

Medianeras de Buenos Aires

Pelo que entendi, Medianeras são empenas. De prédios. E prédios não faltam em Buenos Aires.
Cidade enorme, cheia de gente, mas onde se pode viver de forma solitária. O filme Medianeras, de 2011, de Gustavo Taretto, não é sobre Buenos Aires, mas apresenta-nos a cidade como uma metrópole, lugar de desencontros e solidão, onde podemos viver no mesmo quarteirão que alguém que sofre e sente precisamente o mesmo que nós, sem que nos cruzemos. Ou melhor, até nos cruzamos umas quantas vezes, mas não damos por isso. Até que, finalmente, achamos o Wally, ou, como cantava o Cerati na sua Zona de Promesas, "al final jay recompensa".
Filme a não perder, sobre as emoções humanas de dois protagonistas comuns, um rapaz e uma rapariga, com o bónus de nos dar um cheirinho de Buenos Aires.