quarta-feira, agosto 20, 2014

Japão - Nara – 5.º dia

 

A anunciada chuva chegou neste dia. E fez questão de ficar até ao fim. Uma chatice, esta, a de ter de passear à chuva. É desagradável e a paisagem não tem o mesmo encanto. Nara merecia outra cor, até porque os seus templos de madeira escura contrastam bem é com céu limpo. Seja como for, de pés encharcados o dia todo, lá caminhamos até termos visitado tudo o que nos havíamos proposto.

Nara fica a menos de uma hora de comboio rápido desde Kyoto e as suas maiores atracções podem ser visitadas num dia. Esta era a capital antes de Heian / Kyoto e, tal como esta, inspirou-se na capital chinesa de Chang'an. Planificação urbana no princípio do século VIII era coisa que provavelmente os europeus nem suspeitavam, mas os japoneses sabiam de quem copiar as ideias e adaptá-las de forma magistral, muitas vezes superando até o original. A capital foi transferida de Nara para Kyoto não só pelo antigo costume shintoista de se mudar o local da capital aquando da morte do imperador, mas também porque o budismo, em especial um determinado monge, vinha ganhando uma influência excessiva na corte. Contando o meio da história, há que dizer que mesmo no período Heian o budismo não cessou de florescer. O que é certo é que foi sobretudo no período Nara que quem tinha o poder mais fez para que o budismo, que havia sido introduzido no Japão há cerca de 150 anos, fosse religião da corte.

O que se vê hoje caminhando pela área junto ao Parque de Nara, são templos budistas, sim, mas também muitos santuários shintoistas. Comunhão perfeita. Destaque para um de cada família: o Todai-ji e o Kasuga Taisha.


Menção honrosa para o pitoresco pagode do Kokufu-ji e para os mais de mil gamos, que antigamente se diziam ser os mensageiros dos deuses, que abundam por todo o lado e são senhores da terra de tal forma que até fazem parar os carros à sua passagem.


 


O Todai-ji é um complexo de templos cuja maior atracção é o seu edifício principal, o Daibutsu-den (hall do Grande Buda). Este é o maior edifício de madeira do mundo e só de pensar que foi reconstruído em 1709 e ficou apenas 2/3 do que era originalmente consegue-se compreender a grandeza do sítio. A simetria entre o templo e os jardins que o acompanham é total. Antes esta simetria era ainda maior, com dois pagodes a ladearem-no. De qualquer forma, muita sorte temos nós de todas estas obras de arte terem chegado aos nossos dias.


Ainda parte do complexo de Todai-ji, o encanto do Nigatsu-do está na sua varanda e na vista que ela nos proporciona, com as montanhas como guardiãs da cidade. O mais curioso é que tantos são os templos, mas consegue-se sempre encontrar algo de diferente, surpreendente e encantador no que se visita em seguida.



No caso, em seguida não visitámos um templo, mas um santuário. O Kasuga Taisha é o mais importante em Nara. A relação entre o shinto e a natureza é íntima e o local onde este está instalado é mágico, entre a floresta. Pensando bem, acho que a chuva ajudou a dar ao ambiente por aqui um tom mais misterioso e envolvente. Para se chegar até este santuário percorremos um caminho ladeado por uma série de lanternas. E lá dentro há muitas mais para apreciar. O cenário da lanterna face ao papel japonês é simplesmente inesquecível.

De volta a Kyoto assistimos a uma manifestação de umas centenas de pessoas a favor da paz. No Japão discute-se hoje o abandono constitucional da referência à recusa à guerra. É um assunto delicado que gostava de abordar com algum tino. Mas conhecendo um pouco da história japonesa do século passado, e sobretudo as suas ambições expansionistas, imperialistas e messiânicas, parece-me que este é um tema delicado que deveria ser abordado pela comunidade internacional. Gostei de ver que parte dos kyotenses são sensíveis a este assunto.

Está visto que no século XXI tenho mais medo do Japão do que da China.

Deixando as comparações politicas de parte, certas são as influências chinesas sobre o Japão. E certo é também que a cópia soube fugir do pastiche e alcançar um resultado melhor ainda do que o original. Os templos aqui são belíssimos. Não digo que os do Japão sejam mais encantadores, como defende a mana. O que digo é que em Kyoto e em Nara, cidades que já visitámos até agora, pode-se caminhar e observar com calma, sem os magotes de gente que se via um pouco por toda a Pequim. E ter pelo menos a ilusão de alguma exclusividade do olhar e poder assimilar o que se vê no próprio local faz toda a diferença.

Veredicto: em Kyoto a concorrência turística não é páreo para nós.

As Casas de Banho Japonesas


Ok. Dá para ouvir música. Mas onde é que é mesmo a descarga?

Japão - Kyoto – 4.º dia

O dia amanheceu com um sol que deixou o céu limpinho. Tudo perfeito para visitar a maior atracção de Kyoto, o Kinkaku-ji, também conhecido por Pavilhão Dourado. Yukio Mishima fez questão de lhe dedicar um livro de mesmo nome, no qual um tresloucado monge acaba por deitar fogo a toda aquela beleza. Conta a verdade do que aconteceu em 1950, em que o edifício principal do templo foi consumido pelo fogo e ficou totalmente destruído. O que vemos hoje é, por isso, uma reconstrução, mas não desilude em nada.

Veredicto: o lugar que não se pode perder de ver, pelo menos uma vez na nossa vida.


Coberto em ouro, o edifício principal do templo é perfeito e ao mesmo tempo imponente às margens do idílico lago. Um verdadeiro postal, a que não falta sequer um precioso reflexo no lago. Originalmente construído como uma vila em 1397 para o Ashikaga do momento, após a sua morte foi convertido em templo budista. Hoje temos a felicidade de percorrer o seu espaço e agradecer o gosto especial e tocante de tanto militar zen.




Aqui perto fica o Ryoan-ji, um templo ideal para se confrontar os vários tipos de jardim. Aquele a que estamos mais habituadas, árvores verdejantes à volta de um lago de nenúfares, e aquele que esperamos encontrar na ideia que temos do Japão, o jardim japonês zen. Este último tem aqui o maior exemplo de Kyoto, o jardim de rochas. É um jardim sob a forma de um rectângulo de 25 por 10 metros, sem árvores, apenas com 15 rochas dispostas sobre um manto de gravilha. O que significa este jardim? Depois de contemplação e meditação lá chegaremos. Está tudo nos princípios do budismo zen de harmonia e simplicidade.



A uma curta viagem de autocarro fica o Nijo-jo, o castelo construído em 1603 como residência oficial em Kyoto de Tokugawa Ieyasu, o primeiro shogun do último shogunato. A sua arquitectura demonstra o poder que este detinha. Não esquecer que o centro do poder político nessa época era Edo (moderna Tóquio), mas Ieyasu fazia questão de marcar presença também na capital imperial. E que presença. Este é um belo exemplo da arquitectura de castelos deste período e da cultura Momoyama, a dos três homens que procederam à unificação do Japão no final do século XVI e princípio do século XVII (Nobunaga, Hideyochi e Ieyasu). Aqui encontramos o Palácio Minomaru, elegante para servir guerreiros, onde se vêem diversas pinturas muito bonitas nas suas várias divisões de tatami. O chão de madeira range à nossa passagem, como se fosse um bando de passarinhos a cantar. O enorme jardim não é menos delicioso, quase um jardim botânico.


Do castelo até Arashiyama ainda é uma longa jornada, para quem se vinha habituando a ter os templos todos concentrados a uma curta distância. Esta zona de Kyoto é extremamente popular entre os turistas japoneses. A paisagem ajuda, tal como existirem aqui mais uma série de templos de topo. A montanha é muito cénica, principalmente no ponto em que o rio é atravessado pela ponte Togetsukyo, e permite diversas caminhadas. Nós dedicámo-nos a duas das suas atracções: o Tenryu-ji e a Floresta de Bambu, para além de temos gasto a saliva só de olhar para as incontáveis lojas de doces que por aqui pululam. Ao final da visita vingámo-nos com uma mega taça com quase toda a doçaria que merecíamos degustar.



A Floresta de Bambu é um daqueles cenários que se julga existirem só nos filmes. Mas é real e é uma delícia ver o bambu todo juntinho e tão alto. Pena que não possamos caminhar entre ele, antes mais parecendo que nos limitamos a assistir ao show da bancada.


A visita ao Tenryu-ji, da escola rinzai do budismo, permite-nos contemplar o seu lindíssimo jardim zen e as não menos lindas salas do seu edifício. Sentar no tatami e deixar-nos ficar ali a olhar, por entre as portas de correr, o verde e o lago é cumprir os preceitos do zen à nossa maneira.

Ao jantar tivemos a ida à nossa primeira izakaya. O balcão já estava cheio, calhou-nos então sentar no chão junto às mesas baixinhas. Toda uma outra experiência japonesa, a juntar à sempre surpreendente gastronomia.

Ao fim deste dia pudemos já concluir algo estranho para nós alfacinhas de gema: porquê esperar que o sinal fique verde para os peões quando se vê que a um km de distância não vem lá nenhum carro? Embora lá atravessar isso - as manas a subverter o costume da civilidade em Kyoto.

Japão - Kyoto – 3.º dia

A manhã foi dedicada a provar que há mais vida em Kyoto para além dos templos.


Primeiro, uma inspecção ao Mercado Nishiki, uma arcada longa coberta com lojas de doces (rainhas em toda a Kyoto) e todo o tipo de comida. Depois, o Museu da Manga. Nada de fruta, claro, mas antes da arte da banda-desenhada japonesa que se tornou culto um pouco por todo o mundo. Este museu, instalado numa antiga escola, acolhe uma colecção de cerca 30000 livros. A exposição permanente conta as origens da manga, explica quem são os seus leitores, sua temática, evolução e influência no mundo. Tem ainda exposições temporárias e lugar para, ao longo de todo o museu, se ir lendo os inúmeros livros à disposição, alguns dos quais sem ser em japonês.


Depois de um almoço num restaurante especializado em tofu, visitámos o Nanzen-ji.





Veredicto: um dos mais impressionantes e bonitos. Primeiro impressiona a sua enorme porta de madeira. Depois, já no edifício principal, que ainda hoje é lugar da escola rinzai do budismo zen (e vêem-se alguns monges) encanta o seu jardim zen. À volta, e ainda parte deste complexo de Nanzen, encontramos um aqueduto e se caminharmos um pouco monte acima, para além de nos vermos envolvidos na floresta, ganharemos o prémio de chegar a uma queda de água. Mínima, é certo, mas com potencial suficiente para encantar.


Seguindo para norte, percorremos o Tetsugaku-no-michi, o "caminho do filósofo", cerca de agradável meia-hora ao longo do canal, até chegarmos ao Gingaku-ji.



O Gingaku-ji é conhecido como uma das maiores atracções de Kyoto, daí que as expectativas fossem muitas. E foram, efectivamente, plenamente confirmadas. O lugar é, uma vez mais, fantástico, envolvido pelas montanhas imensamente verdes. Ao contrário dos templos até aqui visitados, que datam quase todos do século XIII, esta vila foi mandada construir por volta de 1482 pelo então shogun Ashikaga e, depois da sua morte, foi convertida num templo zen. O Pavilhão Prateado, como é conhecido o seu edifício principal, rivaliza em beleza com os jardins que o envolvem. Vê-se verde e mais verde, num caminho lindíssimo, mas o que se destaca são os cones de areia branca que pretendem reflectir a luz da lua, bem ao estilo dos jardins zen que apelam sobretudo à sugestão.

O fim de tarde foi passado no Parque do Palácio Imperial, ideal para descansar, pôr os pés ao léu e ser mordida de forma oportunista por umas melgas nos ditos.

Ao jantar, sushi e sashimi sentadas ao balcão, alimentando o paladar e a vista.

Depois de dois dias em Kyoto uma dúvida cresce: em terra de refinamento e beleza, porque é que tanto eles como elas fazem questão de andar com os pés descaradamente para dentro?

terça-feira, agosto 19, 2014

Japão - Kyoto – 2.º dia

A não esquecer. Se se pretende viajar de comboio pelo Japão e se se é estrangeiro, é obrigatório comprar o JR pass. Só Tóquio - Kyoto ida e volta já faz compensar o preço. O site hyperdia.com é fantasticamente útil para se saber com antecedência os horários e preços das viagens.

A viagem entre as duas cidades faz-se em pouco mais de 2:30 no Shinkansen, o famoso comboio-bala. Cansada, ainda a recuperar da longa jornada do dia anterior, acabei por não prestar muita atenção à paisagem, mas a dada altura no lado esquerdo espreita-se o mar e no lado direito o Monte Fuji.

A actual Kyoto era em tempos antigos conhecida como Heian, correspondente ao período de maior pujança da cultura japonesa, sobretudo a cultura refinada e elegante da corte que hoje podemos conhecer, entre outros, por aquele que se diz ser o primeiro romance da história universal, o Genji Monogatari, escrito por lady Murasaki (com tradução portuguesa). Heian sucedeu em 794 à vizinha Nara como capital do Japão. Tal como a anterior, o projecto de construção da cidade foi baseado na então capital chinesa Chang'an, hoje Xi'an. A superstição e a geomancia determinaram a escolha do local para a nova capital, não sendo igualmente de desvalorizar a sua posição estratégica rodeada de montanhas. Mas seria o budismo, que entrara no arquipélago vindo da Coreia no século XVI, quem iria continuar a influenciar a vida dos poderosos. Não admira, pois, que Kyoto seja a cidade dos templos, ainda hoje muito bem conservados, dai a Unesco ter classificado aqui um sem número de sítios.

Kyoto foi a capital imperial até à Restauração Meiji, em 1868, quando se iniciou um processo de modernização forçada, mas ao mesmo tempo bem ponderada e voluntária, do Japão. Depois do fim do período Heian, no século XII, seguiu-se o tempos dos senhores feudais, samurai, daimio e shoguns, e Kyoto, tal como a corte, foi perdendo influência política para outras regiões como Kamakura e Edo, actual Tóquio.

Paz(hei) e tranquilidade (an) é o que ainda hoje se parece viver na antiga Heian, moderna Kyoto, onde se assiste a um revivalismo da elegância cultural que outrora se viveu. Hoje Kyoto é a capital cultural do país. E hoje, também, Kyoto parece ser uma cidade sem a intensidade frenética de vida que associamos à Ásia, talvez não tanto ao Japão, mas seguramente a Tóquio.

As manhãs são vividas de uma forma calma, sem muitos atropelos pelas ruas ou na entrada do metro ou comboio.


Embora em Kyoto esteja uma das estações de comboios mais modernas do mundo, uma arquitectura fantástica de ferro e vidro, e a uma primeira vista esta cidade seja como uma qualquer outra cidade moderna do mundo, com um centro com uma longa avenida cheia de armazéns e lojas de grandes marcas, a sua arquitectura expressa-se sobretudo nos templos (budistas - ji) e santuários (shintoistas - jinja). Quem vem a Kyoto é isso que quer ver. E mais umas machiya, as casas tradicionais. O grande desafio da cidade é, precisamente, preservar o seu rico património cultural, ao mesmo tempo que a mantém na órbita da modernidade e do desenvolvimento económico, cultural e educativo.

Face a tamanha quantidade de templos, é obrigatório ser-se selectivo no que ver. Até porque beleza a mais também pode cansar a vista.


Começámos pelo templo de Sanjusangen-do. O edifício principal deste templo é longo e abriga cerca de 1000 figuras em madeira da deusa budista da misericórdia, Kannon, e seus guardiães. Parece ser uma espécie de exército de terracota. Vale pelas figuras budistas.



Seguimos para o Kiyomizu Dera, cravado entre as montanhas. Aliás, as montanhas dominam a paisagem de Kyoto, cercando-a e protegendo-a. Este é um local popular e, realmente, estava pejado de visitantes, alguns dos quais casalinhos que pediam uma união forte no Santuário do Amor, um bocado para assim para o género de festa de aldeia. Mas o mais entusiasmante deste espaço é o seu edifício principal e sua varanda perfeita para contemplar as montanhas. Este edifício está assente em 139 pilares de madeira de 15 metros. Pena que outros edifícios estivessem cobertos para restauro. Aqui vimos a nossa primeira - e única - geisha, caminhando arduamente para se aguentar naquelas socas de planta disforme. No entanto, pelo à vontade com que passeava, que de discreto nada tinha, lado a lado com um senhor que mais se preocupava em tirar fotos à paisagem, e não se preocupava que os magotes tirassem fotos à sua companhia, fiquei na dúvida se esta seria um autêntica gueisha. Seria provavelmente uma asiática ávida de encarnar uma personagem de gueisha na cidade onde elas serão ainda mais tradicionais e populares.



O caminho que nos levou ao Kiyomizu Dera foi percorrido atravessando um cemitério (aquela paisagem faz dele, seguramente, um dos melhores lugares de descanso). Para baixo seguimos percorrendo uma rua com lojas e mais lojas sem muito encanto. No entanto, tomando uma lateral para norte entrámos na Sansen-zaka e na Ninnen-zaka, duas ruas pedonais com edifícios de madeira restaurados que torna o passeio ainda mais agradável.



Até se chegar ao Parque (koen) Maruyama vai se passando por uma série de templos. No final deste parque, ideal para um descanso no meio do verde e dos lagos, fica o Yasaka-jinja, um santuário super colorido e pitoresco, cheio de movimento.



Daqui saídas, entramos em Gion, o bairro do entretenimento e das gueishas. Em tempos idos este era o local de prazer, onde as míticas gueishas desempenhavam o seu papel de acompanhantes cultas e refinadas de homens de posses. Hoje, alguns dos seus edifícios são ainda locais exclusivos para o entretenimento com as gueishas, mas estas estão cada vez mais em extinção (não serão mais do que 100 em Kyoto e 1000 em todo o Japão), para além de não ser fácil obter o concurso das poucas que restam. Bem tentámos, mas não vimos nenhuma em acção. De qualquer forma, vale muito a pena caminhar por Gion, em especial pelas ruas Shimbashi e Shirakawa-minami, junto a um agradável canal, e conferir nas machiya o que resta da arquitectura urbana tradicional com as suas deliciosas velhas casas de madeira e cortinas de bambu.



Aqui perto fica o Pontocho, o lugar da vida nocturna. É uma rua cheia de casas de madeira, a maioria bares e restaurantes instalados junto ao rio. O que torna especial esta rua é a iluminação que toma à noite graças às lanternas que aqui abundam.

História e Cultura Japonesa

Para se saber mais acerca da história e culturas japonesas é ver os posts que dediquei à temática aqui, aqui e aqui.

Japão - primeiro dia

Viajar de Lisboa a Tóquio implica muita paciência e resistência. A viagem de avião, com escala no Dubai, foi uma jornada dividida em duas rotas aéreas, uma de 7:40 e outra de 9:30. Fora o tempo perdido em aeroportos. Em resumo, mais de 24 horas depois de termos saído de casa chegámos ao hotel no outro lado do mundo.

Do aeroporto de Narita para o centro de Tóquio a melhor e mais barata forma para se percorrer os seus cerca de 66 kms é de comboio.


Escolhemos ficar a primeira noite num hotel cápsula em Shinjuku, bairro onde está situada a maior estação de metro do mundo. Na viagem de comboio nocturna era já visível a presença dos neons. Mas em Shinjuku eles são omnipresentes, precisamente aquilo que imaginámos ser a cidade de Tóquio. Uma cidade que nunca para, sempre com pessoas em movimento, iluminadas pelos reclames luminosos dos seus edifícios. 


Apesar de cansadas não perdemos a hipótese de fazer uma revista ao local. E bem valeu a pena. Perto do hotel cápsula fica o red-light district, com muitos meninos na rua a tentarem convidar os eventuais clientes para entrarem e conhecerem as meninas. Tudo super seguro.
 
 
Mas o mais interessante foi caminhar e descobrir a chamada zona Gai, um quarteirão com umas ruas estreitas inundadas de bares minúsculos. Os edifícios aqui são pequenos e baixos, dois andares. Todos os primeiros andares adaptaram o seu hall de entrada para bar, mas este não tem espaço para mais do que um balcão e lugar para 5 ou 6 clientes. E o esquema repete-se porta sim, porta sim, alguns com actividade também no segundo andar.


Quanto à experiência de dormir numa cápsula o melhor que posso dizer é que aconselho e repetiria. Primeiro porque é uma boa forma de se poupar dinheiro - a noite no cubículo ficou a cerca de 18 euros. Depois porque acaba por ser uma estadia confortável. Este tipo de hotel é uma japonice inventada com o propósito de proporcionar uma forma de passar a noite na cidade aos trabalhadores que tardiamente já não conseguem voltar para casa. A maior parte deles é exclusivo para homens, mas no caso do nosso, o Shinjuku Kuyakusho-mae, o oitavo andar era destinado apenas a mulheres. As cápsulas, género de gaveta sem porta para puxar, estão dispostas em fileiras de dois andares. Lá dentro há o espaço suficiente para nos esticarmos e espreguiçarmos e ainda temos direito a televisão e rádio, para além de toalhas, um jogo de cama e pijama. Este pijama, que todas usámos como se de um uniforme se tratasse, fazia parecer que estávamos numa prisão. Só que não creio que prisão tenha casa de banho e duches tão bonitos como aqueles, incluindo botões para ligar música na sanita, e shampoo e gel duche da Shiseido. Uma coisa má, porém, comum a qualquer dormitório: ser interrompida no seu sono pelo barulho provocado pelas constantes chegadas e partidas das compinchas e ter de ouvir o seu ressonar, puns ou até ataque de soluços a meio da madrugada. Mas comparativamente ao número de horas dormidas no avião e à qualidade do sono, a cápsula é que é o verdadeiro céu.