quarta-feira, fevereiro 17, 2016

Alhambra - Generalife

O nosso percurso à Alhambra teve início pelo Generalife, o jardim do arquitecto ou jardim dos sublimes (Jinnah al' Arif). A preocupação de fazer deste um lugar perfeito é evidente e totalmente alcançada. O paraíso na terra é aqui.

O Generalife, construído entre 1302 e 1309 (sendo hoje, porém, praticamente uma recriação dessa época, tantas são as alterações e inovações, embora conservando as ideias do jardim islâmico / persa), era a residência de verão dos sultões e estava para além dos limites da Alhambra dos palácios, sendo por isso vedada a sua entrada senão ao sultão e sua família. 


Logo à entrada vêmo-nos envolvidas pelo jardim dos ciprestes e não é difícil imaginar os sultões e as suas princesas a deambularem por ali, contemplando todo o vale que se nos abre. 



As árvores podem dominar, sim, mas é o conjunto delicado de pátios, piscinas e fontes que nos encanta. 


Os edifícios - pavilhões - estão aqui plenamente integrados com a natureza, quer através das árvores e arbustos, mas também pelas janelas rasgadas a fazer de miradouros e os contrastes entre o calor e o frio. 




Mas é o uso da água a correr a sua marca distintiva - uma constante em todo o espaço imenso da Alhambra (e até nos espaços exteriores à Alhambra). Contemplar a água a correr pelos belos canais apazigua a alma e prestarmo-nos a sentir o som da água é toda uma forma de arte. A tranquilidade e a serenidade parecem fáceis de alcançar por aqui e não é difícil acreditar no paraíso, esteja ou não conforme o descrito no Corão.

Os muçulmanos acreditavam nesta forma de paraíso, feita de árvores de fruto, crisântemos, lilases, magnólias e buganvílias, todas criando uma paisagem luxuriante e uma fragrância especial, que juntamente com a água iria servir de contraposição ao deserto das suas origens. Mesmo nos meses mais quentes do ano, é possível encontrar sombras e a brisa acaba por correr refrescante.
O Generalife é um dos exemplos mais antigos de jardins islâmicos que ainda sobrevivem. Todas as características dos jardins persas estão aqui presentes (como veremos em post futuro acerca dos jardins persas).

domingo, fevereiro 14, 2016

Alhambra

A Alhambra é dada a todos os superlativos. 
Descrições enormes, inspiradas e inspiradoras foram-lhe dedicadas. 
Paraíso não é palavra vã em Alhambra. Se o paraíso existe, não deve ser muito diferente do que se sente por lá.


Palácio, fortaleza, jardim - Alhambra é todos eles e muito mais.
Muitas estórias e histórias podem ser contadas e vividas, mas esta última começa antes mesmo da chegada da dinastia Nasrida a Granada. 

No sítio da Alhambra havia já uma fortaleza construída pelos antigos sultões. A fortaleza evoluiu para cidadela com a queda de Córdoba em 1236, mas foi com os nasridas que nesse século e no seguinte a Alhambra se tornou num complexo de fortaleza e palácios e começou a entrar na consciência e tocar fundo as emoções de todos nós que tivemos a oportunidade de lá cair. 

O nome deste que é o maior palácio medieval islâmico que perdurou até aos nossos dias - Qalat al-Hamra - significa castelo vermelho. Construída numa colina por entre as planícies férteis que ficam no sopé da Serra Nevada, de quase qualquer ponto da cidade de Granada se avista a Alhambra e a sua característica forma de navio, dominando na paisagem a Alcazaba, a sua parte mais antiga. A dura forma de fortaleza (era primeiramente uma estrutura militar que procurava garantir a segurança do conjunto, donde se alcançava uma visão estratégica de Granada e de toda a região envolvente), não deixa antever o esplendor e a beleza interiores da cidade palácio. Entre muros encontramos a alcáçova, vários palácios, casas, banhos, jardins, piscinas, fontes, árvores (mais uma igreja, dois hotéis e lojas). Os seus jardins, sobretudo, são uma recriação certeira do paraíso na terra.


Em resumo, delicadeza, harmonia e elegância é do que se trata, tendo a arquitectura Nasrida elevado estes adjectivos a padrões inimagináveis. E serenidade também, apesar da obrigatoriedade de dividirmos o espaço com os magotes de turistas como nós. Parece que tivemos sorte e naquele último dia de 2015 não era assim tão grande a enchente e o tempo de inverno estava primaveril (isto para compensar a chuvada que caia na primeira vez que a visitámos).

Nos dias de hoje a Alhambra é o resultado dos contributos dos vários povos que a ocuparam e a foram alterando durante os tempos (a este propósito, numa visita à Alhambra há sempre qualquer espaço em restauro). Começou a ganhar proeminência a partir de 1238 com emirado Nasrid, que se instalou em Granada na sequência e em agradecimento pela ajuda prestada aos cristãos na tomada de Sevilha aos mouros (sim, os nasridas também eram mouros, mas rivais dos outros mouros). Depois de 1492 os castelhanos, após a reconquista de Granada aos mouros que restavam na Península Ibérica, procederam a uma série de alterações e acrescentos, de que é exemplo o palácio renascentista de Carlos V. 

Mas uma inversão no desenvolvimento da região acabou por votar a Alhambra ao abandono, tendo sido até utilizada como caserna pelas tropas de Napoleão durante as Invasões Francesas, e só no século XIX voltaria a ser "descoberta", cortesia dos escritores românticos, de que Washington Irving (com o seu Tales of Alhambra) é o nome mais pronunciado.

"Desmoronam-se salões e pátios, deterioram-se quadros e pinturas, mas, apesar do espectáculo desolador, a Alhambra não perdeu a magnificência e o esplendor, fazendo soar as cordas ocultas do visitante", escreveu Irving acerca da Alhambra, que para ele é sinónimo de poesia e romance.

Graças também a ele, hoje podemos visitar a Alhambra monumental e deliciar-nos com o génio, talento e gosto superior dos nossos antepassados mouros. 

Lugar do poder político, mas também lugar de prazer para os sultões, a Alhambra é um misto de força e graciosidade. 


Uma pergunta, porém, seguindo Lorca: ao ter-se perdido uma civilização dedicada à arquitectura e poética delicadas, será esta uma gloriosa vitória dos espanhóis, como ensina a história?

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Frases de Granada

De Granada muito por muitos já foi dito.
Depois de ter terminado com a poesia de Lorca, deixo mais algumas frases que considero das mais bonitas.
- "Granada, água oculta que chora" (Manuel Machado);
- "Granada emociona até quebrar e derreter todos os sentidos" (Henri Matisse);
- "Com Granada despertam-se os sentidos mais doces. A visão, a audição, o tecto e sobretudo o doce gosto por tudo" (Jorge Oteiza);
- "Eu não direi nunca que pisei Granada, mas antes que abracei Granada" (Saddam Hussein ???);
- "As lágrimas vinham-me aos olhos e não eram lágrimas de pesar nem de alegria, eram de plenitude de vida silenciosa e oculta por estar em Granada" (Miguel de Unamuno).

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Granada


Granada é um sonho. 
Nunca um provérbio foi tão certeiro, neste caso o provérbio espanhol que dita que "se não viste Granada, não viste nada".

Que dizer de uma cidade que fica a poucas dezenas de quilómetros do mar e a outras poucas dezenas de quilómetros da montanha? A dúvida parece estar colocada entre fazer ski pela manhã e estender a toalha ao sol junto ao mar pela tarde. Acontece que pelo meio temos Granada e, em especial, a Alhambra e aí talvez a dúvida fique desfeita: porque não passar um dia inteiro nesta fortaleza / palácio / jardim (é favor não riscar o que não interessa; aqui tudo interessa)?

Apesar de ser a Alhambra que me fez querer voltar e me faz continuar a querer voltar mais e mais vezes, Granada tem por si só encantos suficientes para patrocinar uma visita.

Granada fica perto do Mar de Alborão, braço do Mediterrâneo por onde no ano 711 os mouros vindos do Norte de África entraram e daí seguiram para conquistar a Península Ibérica. Foi em Granada que permaneceram mais tempo, até 1492, quando a reconquista cristã terminou com os Reis Católicos, Fernando e Isabel, a alcançarem a união territorial e política de Espanha. De último bastião muçulmano na Península Ibérica, Granada ganhou ainda o título de cidade símbolo da reconquista. 

É, porém, o testemunho da presença árabe durante oito séculos que faz de Granada ainda hoje lugar encantado e desejado e ao contrário de outras cidades da Andaluzia os ibéricos, os romanos e os visigodos não tiveram aqui tanta influência.

Quando os mouros aqui chegaram encontraram uma comunidade judaica chamada Garnatha Alyehud. Diz-se que o nome Granada terá evoluído daqui. Ou então, hipótese mais deliciosa, o nome Granada terá surgido do facto de as casas que aqui havia estarem tão juntas umas das outras que mais pareciam caroços de romãs - romã em espanhol é, precisamente, granada. 

No princípio do século XI uma povoação mais desenvolvida começou a crescer com a fundação de um taifa independente na região. A primeira residência estabeleceu-se na coluna mais elevada da cidade, com o Rio Darro lá em baixo, a dividir as colinas do Sacromonte e Albaicín. 

Séculos depois seria o Emirado Nasrida, que havia estabelecido o seu poiso em Granada em troca da ajuda dada à reconquista de Sevilha, a elevar o esplendor e magnificência da arte islâmica a padrões nunca antes vistos. A escolha de Granada deveu-se à sua fantástica localização geográfica e sobretudo pela água em abundância que vinha quer das então neves perpétuas da Serra Nevada quer dos vários rios que por aqui existiam - a água era uma paixão da dinastia Nasrida. Hoje resta o rio Darro donde, juntamente com o bairro de Albaicín, se obtém vistas inigualáveis da Alhambra.

Com a reconquista viria também um programa de construção de uma nova arquitectura que se pretendia mais apropriada para a nova era. A catedral enorme que começou a ser construída no princípio de 1500, bem no coração da antiga medina muçulmana, é disso exemplo. Primeiro em estilo gótico, depois renascentista, só pela sua Capela Maior vale a visita. Junto à Catedral fica a Capela Real, onde antes era a Mesquita, escolhida pelos Reis Católicos para lugar do seu túmulo. A arquitectura é sóbria. O mesmo não se diga da Madrasa que apesar das muitas alterações conserva uma fachada que convida o olhar. Aqui foi fundada a universidade ainda nos tempos dos reis nasridas, daí o seu nome (madrasa vem do árabe medersa, que significa universidade corânica). Depois veio a ser o edifício do Cabildo, sede do Ayuntamiento e hoje é a sede da Real Academia de Bellas Artes.


Apesar da promessa aos muçulmanos de que seriam mantidos os seus usos e costumes, língua e liberdade religiosa, tal não foi cumprida. Estes foram forçados a baptizar-se ou a sair da cidade. Até que em 1609 foi determinada a sua expulsão definitiva. Com isso veio o declínio da agricultura e do comércio e uma evidente regressão no desenvolvimento da cidade.

Apenas com a vinda dos escritores e pintores românticos no século XIX voltou a cidade a despertar.

Hoje, a Granada de outrora, ponto de encontro do ocidente com o oriente, permanece viva. Caminhando no centro, correspondente à antiga medina, ou no bairro de Albaicín, as ruas estreitas e labirínticas estão inundadas de marroquinos, com o seu artesanato e especiarias, sendo tão fácil encontrar aqui uma casa de chá ou lugar para fumar narguilé como no outro lado do Mediterrâneo. Até as tapas tomam por aqui uma clara influência magrebina, sendo o húmus delicioso. As ofertas para escrever o nosso nome em árabe estão por todo o lado, a lembrar que a caligrafia árabe ainda permanece por aqui uma arte, ou melhor, uma dádiva divina como a entendem os muçulmanos, uma vez que o árabe é a língua sagrada porque foi nela que Deus falou a Maomé.

As perseguições dos cristãos aos muçulmanos estão hoje para trás e volvidos mais de cinco séculos voltou a ser construída uma mesquita em Granada.
Fica no bairro de Albaicín, que junta à característica de possuidor de ruas estreitas também a de dono de ruas inclinadas. Este era o antigo bairro dos mouros e bastião e refúgio das perseguições cristãs. De Baeza fugiram para aqui e daí talvez o nome que evoluiu de Albayyasin.



Este bairro, que fica diante da Alhambra e por isso daqui percebemos melhor o emaranhado de casinhas brancas, é extremamente pitoresco. A atenção tem de ser total para apreciarmos os detalhes das suas casas e as suas fontes. Os mosaicos de cores vivas abundam. 



Mas são os carmen os reis por aqui. Apesar de não termos tido a oportunidade de entrar em nenhum deles, do exterior somos capazes de imaginar a sua  essência: carmen significa parreira, mas aqui serve para designar um pátio com três árvores que têm de ser a figueira, a videira e a palmeira. Um verdadeiro jardim travestido de horta urbana. São pátios de casas particulares e acredito que os seus proprietários não achem muita piada à devassa. Mas como passar em frente dos pormenores dos puxadores das portas, das janelas enfeitadas ou dos mosaicos? Não nos deixam ver o pátio, então têm de nos aguentar à porta.


Podemos - e devemos - explorar a pé o bairro de Albaicín desde cá debaixo, começando pela Praça Nova e seguindo pelo Paseo de los Tristes junto ao Rio Darro, com a Alhambra do outro lado, e o Bañuelo mesmo aqui (os banhos árabes mais antigos da Andaluzia).




Não é dos passeios citadinos mais fáceis pelo que implica de subir. Mas é agradável e encantador ir caminhando pelas ruas, subindo-as, descobrindo becos, voltando atrás, subindo mais um pouco, entrevendo a Alhambra ao fim de uma estreita rua, deparando com um pormenor delicioso aqui e outro ali, até que chegamos ao destino, fazendo de conta que havia um só objectivo para andarmos de um lado para o outro no Albaicín: a chegada ao miradouro de San Nicolás, donde se tem uma vista soberba para a Alhambra, de tal forma que tira o pouco fôlego que nos restava da subida. 


O Albaicín, apesar de renovado (embora se veja ainda muitos edifícios em muito mau estado), conserva o ambiente mourisco de há muito. Aqui era o coração de Granada e hoje continua a pulsar forte. Antes da construção da Alhambra, era aqui que estavam os alcázares reais. Uma certa população virada para as artes, anónimos ou famosos, como escritores, músicos e pintores, deixou-se seduzir por este pedaço de terra na encosta, feito de casas brancas populares e alguns palácios em estilo mudejar.


Depois de ultrapassadas umas quantas cuestas formosamente inclinadas, no miradouro de San Nicólas encontramos, para além da paisagem soberba, um ambiente de festa protagonizado pelos jovens que o ocupam. Todas as comunidades urbanas se parecem juntar aqui, como rastas, hippies (ainda os há), vendedores de raybants e ardidas, músicos e pintores informais, dando ao ar um odor bem característico que vai para lá do mero cheiro às flores e plantas que nos rodeiam, todos eles lado a lado com os turistas. 



Aqui neste miradouro, também lado a lado mas desta vez com igrejas, fica a mais nova mesquita de Granada, a Mesquita Mayor. Inaugurada em 2003, foi a primeira mesquita a ser construída desde que o governo mouro deu lugar aos cristãos no final do século XV. O seu jardim, a que não falta uma preciosa fonte, é um lugar para nos deixarmos estar a contemplar a paisagem imensa que nos envolve: Alhambra, sim, mas também Serra Nevada, Albaicín, vale e Sacromonte.

Falamos de fonte e há que lembrar que água e Granada não vivem uma sem a outra. Dissemos anteriormente que a água era uma paixão da dinastia Nasrida e que foi a abundância de água a determinante na escolha do lugar para os mouros se estabelecerem aqui. No bairro de Albaicín, em especial, chegou a haver mais de cinquenta cisternas, das quais se conservam ainda algumas. 



Estando lá no alto de Albaicín há, então, que empreender a descida. Mais agradável, por não implicar esforço físico, o deleite continua. Mais igrejas, conventos, praças, edifícios bem apresentados. A chegada às ruas da Calderería Vieja e Calderería Nueva fazem-nos entrar num outro mundo e confundem-nos: onde estamos? Nos últimos tempos estas ruas têm-se transformado, à semelhança do centro correspondente à antiga medina, em mais um zouk, um mercado árabe. Aqui é o lugar ideal para se tomar um chá ou fumar narguilé, provar um kebab, comprar uma peça de artesanato como lâmpadas coloridas ou tão somente caminhar e sentir os odores típicos das mil e uma noites.



E, por fim, falar de Granada implica lembrar Federico Garcia Lorca. O poeta nasceu perto de Granada e perto de Granada morreu, fuzilado pelas tropas nacionalistas, a que se seguiria a Guerra Civil Espanhola. Em sua homenagem existe em Granada um parque público e uma casa museu. 

Deixo Granada com a sua poesia,

"por el agua de Granada 
sólo reman los suspiros"
(Baladilla de los tres ríos)

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

As Tapas no Mercado La Lonja


O Mercado La Lonja é a resposta sevilhana ao fenómeno que se vê desde há uns anos em Madrid e Barcelona (e Lisboa) de reconversão de antigos mercados em espaços dinâmicos para se experimentar ou comprar iguarias gourmet. 
Situada à beira do rio Guadalquivir, junto à Ponte de Triana (a primeira em Sevilha, construída em 1852 no dealbar da época industrial), La Lonja del Barranco foi desenhada em 1876 por Gustave Eiffel e abriu as suas portas em 1883 para que os pescadores aí pudessem comerciar o seu peixe. 
A sua arquitectura em ferro conservou-se até aos nossos dias e o espaço que re-abriu com novas funções no fim de 2014 está belamente adaptado de forma a que se possa considerar o novo point da arte de bem tapear. As propostas são suficientes - cerca de 20 bancas onde se pode degustar vinhos, queijos e presuntos, marisco, croquetes, entre muitas opções a que não faltam experiências inovadoras entre as mais clássicas. Experimentámos uma tapa de bacalao com morcela, outra de um saborosíssimo magret de pato com bacon estaladiço num waffle e um mini cachorro quente com salchicha de porco, rematado por um dulcíssimo pionono.
Para além do espaço interior, temos ainda à disposição uma esplanada com vista para o terno Guadalquivir onde podemos deixar-nos estar a contemplar as águas que em tempos idos eram facilmente navegáveis até ao Oceano Atlântico.

quarta-feira, janeiro 27, 2016

Bairro de Santa Cruz, Sevilha

Sevilha é uma cidade feita para se conhecer a pé. 
Caminhando pelas suas ruas é fácil encantarmo-nos pelo seu casario feito de praças e pátios onde dá vontade de deixar-nos estar.

Para além do centro, muitos mais bairros (Arenal e Macarena, e Triana que não visitei), monumentos e palácios (Torre del Oro, Hospital de la Caridad, Antiga Fábrica de Tabacos, praça de touros Maestranza, Casa de Pilatos e Palácio Lebrija) e jardins (Alcázar, Murillo, Parque Maria Luísa com a monumental Praça de Espanha) há a visitar e percorrer.


A zona envolvente à Alameda de Hercules (considerado um dos jardins públicos mais antigos de toda a Europa e até há pouco lugar mal frequentado) tem vindo a tornar-se o ponto eleito pelos locais para sair para comer e divertir à noite, em forte concorrência com o Bairro de Santa Cruz.



O bairro de Santa Cruz continua, no entanto, o bairro de Santa Cruz e nele qualquer viajante se perderá em qualquer sentido. Primeiro, porque as suas ruas labirínticas não nos permitem senão deixarmo-nos ir sem orientação; depois, porque este bairro é do mais castiço e pitoresco que possamos imaginar numa cidade europeia.

Este bairro pequeno é feito de mitos e verdades, contribuindo ambos para a aura que flui à sua volta. Há que dizer desde entrada que tal como o vemos hoje não é tão antigo assim e alguns arquitectos há que o consideram apenas folclore e do mais desinteressante, pitoresco mas demasiado ostentatório, acusando-o de falta de autenticidade. 


Na realidade, o bairro de Santa Cruz foi objecto de uma reforma no princípio do século XX, no sentido de restaurar o estilo urbanístico andaluz e sevilhano, reforma essa que procurou introduzir natureza no bairro e dar uma dimensão mais humana às suas ruas e praças. 

O que parece ser inequívoco é que o bairro tem vida e por aqui abundam as galerias de arte, livrarias, lojas de artesanato e tabernas da moda. 


É um prazer percorrer as suas ruas estreitas, observando as casas nobres de outros tempos, com as suas portadas e janelas distintas, os pátios que se nos abrem e convidam a uma espreitada intrusiva e demorada, as praças que se sucedem, cada uma mais encantadora do que outra. 


Tudo isto num ambiente de enorme tranquilidade, uma vez que o bairro é maioritariamente residencial e pedonal e, apesar de colado ao centro da cidade, não é atravessado por vias de tráfego. O resguardo é, pois, quase total, mesmo se o bairro de Santa Cruz fica imediatamente atrás da Giralda e Alcázar, para lá do Convento de la Encarnación e seu campanário branco, estendendo-se até aos jardins de Murillo e do Alcázar. 


Ou seja, partindo da Plaza de la Virgen de los Reyes todo um outro mundo surpreendente nos aguarda.

Um pouco de história acerca da evolução do bairro e suas características.  
Já no tempo dos romanos havia ocupação na área a que hoje designamos por bairro de Santa Cruz. As colunas nas ruas Aire y Mármoles, talvez testemunho de um templo antigo, servem de sinal e outras duas da mesma época foram transladadas para a Alameda de Hércules na Sevilha renascentista.

Com a chegada dos muçulmanos uma nova concepção de urbanismo surgiu e o racional e as formas geométricas rectas deram lugar a ruas estreitas e tortuosas, resultando no traçado irregular que ainda hoje subsiste. À planificação dos romanos sucedeu a espontaneidade dos muçulmanos. Mas com sentido. Afinal, as ruas estreitas protegiam os caminhantes do sol demolidor andaluz, permitindo a criação de sombras. Outra novidade foi a introdução do factor mistério, cortesia da casa virada para o interior, não deixando a fachada despojada aferir a condição social de quem a habitava. Nessa época muçulmana faltavam praças e espaços públicos amplos. Mas os becos que abundam ainda hoje vêm daquele tempo, servindo então as ruas sem saída, que eram fechadas por um portão, para protecção dos moradores.
Da época dos califas muçulmanos restam hoje partes do antigo Alcázar (o palácio do governador), bem como uma extensa parte da muralha e seus arcos, ainda que reconstruída.

Após a reconquista cristã aos mouros, o bairro de Santa Cruz passou a lugar dos judeus. A tolerância dos reis cristãos, por contraposição aos anos de intolerância dos almoravidas, fez com que se seguisse um período de auge da comunidade judaica na cidade, uma comunidade rica e na época a segunda maior em importância atrás da de Toledo. Mesquitas foram convertidas em sinagogas. 
Depois, com o ódio que os negócios usurários praticados pelos judeus começaram a provocar nos cristãos, levando a actos de violência e anti-semitismo, a partir de 1391 os judeus começaram a ser perseguidos e foram obrigados a converter-se ao cristianismo.

Em sequência, no século XV o bairro deixou de ser um bairro judeu, passando antes a ser habitado por convertidos e cristãos. As sinagogas converteram-se em igrejas, conservando-se ainda hoje a de San Bartolomé e a de Santa María la Blanca, embora ambas tenham sido sujeitas a muitas alterações. Uma das sinagogas convertidas em igreja passou a chamar-se Santa Cruz e a parte da judiaria próxima a esta igreja passou a designar-se bairro de Santa Cruz.




Igrejas e conventos inundaram o bairro - ainda hoje são presença forte.
Muitos foram construídos sob o estilo da arquitectura mudejar, como o Convento de la Encarnación e a Casa de Olea. 

No século XVI Sevilha estava no centro do mundo com a descoberta da América por Colombo. Muitos humanistas habitavam então Sevilha e consideravam-na a nova Roma, propondo-se a mudar o seu aspecto externo. A abertura de ruas direitas e mais amplas vem desta época, mas o bairro de Santa Cruz manteve-se alijado da confusão do centro (com trânsito ainda incipiente, obviamente), preservando o seu traçado. Verificou-se, todavia, uma alteração nas casas do bairro. A casa islâmica, virada para dentro e com sinais mínimos para o exterior, passou a abrir-se à rua. Para além de terem sido, então, abertas diversas janelas na fachada, a porta de entrada tornou-se toda uma fachada aberta ao exterior com um pátio que a prolongava para o interior. Há quem defina esta novidade como uma "extroversão da casa renascentista num urbanismo medieval". E essa extroversão hoje dá origem à curiosidade de quem passa, e são tantos os pátios belamente decoradas e totalmente escancarados que não há como evitar a devassa dos intrusos, nós.  


Foram construídos palácios da nobreza em estilo gótico, mudejar e renascentista, como é exemplo o Palácio de los Pinelo, hoje sede das Academias de Buenas Letras y Bellas Artes. Esta mescla de estilos é na verdade uma constante na arquitectura de Sevilha, e não exclusivamente do bairro de Santa Cruz.


A introdução de fontes públicas é também uma transformação desta época. Assim como o é a transformação que a Giralda sofreu em 1558, com a introdução de sinos renascentistas baixo uma torre almóada. A nova imagem pretendia-se que fosse o símbolo do triunfo de uma Sevilha emergente e poderosa.

Cervantes chamou então à Sevilha elitista "Roma triunfante em ânimo e grandeza" e "amparo de pobres e refúgio de excluídos, que em sua grandeza não apenas cabem os pequenos". Sevilha e o bairro de Santa Cruz aparecem em várias das novelas daquele que é considerado o maior escritor da língua espanhola e um pouco por toda a cidade encontramos lápides feitas em cerâmica de Triana com frases de Cervantes, colocadas em 1916 por ocasião da comemoração do tricentenário da sua morte.

Já depois das fachadas do casario do bairro terem ganhado cor, do terramoto de Lisboa de 1755 ter feito os sinos da Giralda tocarem sozinhos, tal foi a sua intensidade, e as invasões francesas derrubarem parte do bairro para construção de uma cidade ao estilo europeu de avenidas largas e longas, no século XIX foi a vez dos viajantes românticos chegarem a Sevilha e ao bairro de Santa Cruz e a tomarem como sua. O escritor Washington Irving (que voltou a colocar o Alhambra no centro do mundo) terá vivido no bairro e não falta uma placa a testemunhá-lo no Callejón del Agua, o muro que levava a água ao Alcázar. Federico Garcia Llorca também por cá passou e semanas antes de morrer havia lido no Alcázar a sua "A Casa de Bernarda Alba". 


Quando por aqui passaram, os escritores que ajudaram a tornar o bairro de Santa Cruz no mito que nos encanta hoje encontraram um bairro não muito diferente do que é hoje, sobretudo após a reforma do princípio do século XX a que aludi no início deste texto. Os problemas de salubridade foram ultrapassados e o bairro passou a ter mais entradas. As praças foram reformadas e nem a acusação de maquiagem e pitoresco ao extremo nos envergonha de eleger a Praça Dona Elvira como a mais mimosa de todo o bairro. 



Pequena e acolhedora, envolvida por edifícios cheios de vida e cor que quase não conseguimos ver tal é a densidade do seu arvoredo, sabe mesmo bem sentar num dos seus bancos de jardim decorados com azulejos e estendermo-nos a ler sobre a história do bairro. 


Mas muitos mais recantos há a descobrir. Como a Plaza Alfaro, onde domina uma casa com portada barroca e delicioso balcão, não sem antes, na sua esquina, perscrutarmos sem vergonha mais um pátio com um jardim a que não falta uma gruta é uma fonte maneirista. 



A Praça de Santa Cruz é outro lugar especial. Cercam-nas mais misturas de estilos, desta vez uma casa neo-barroca com coluna com capitel visigodo. Ao centro do seu jardim encontramos a cruz em ferro forjado que dá nome à praça e ao bairro.



E depois é caminhar sem destino, procurando estar atento aos edifícios e pormenores das suas fachadas, para que nada nos possa escapar. Mas escapa sempre tanto. 

Nada resta hoje da antiga judiaria (mas existe aqui um Centro de Interpretación Judería de Sevilla), mas a absorção das várias épocas e estilos, como o renascentismo, barroco, regionalismo andaluz, fez com que possamos apreciar uma bela conjugação entre o traçado árabe e casas barrocas, numa perfeita unidade urbanística. Permanecem as ruas tortuosas, estreitas e becos. É tudo pitoresco, sim, mas o veredicto é que o bairro de Santa Cruz entusiasma, tranquiliza e encanta.

Fonte: El Barrio de Santa Cruz de Sevilla, María José Guerrero Martínez, Editorial Everest, SA, 1982