quinta-feira, dezembro 18, 2014

Por São Paulo - Parte 2

Segunda-feira. Início de semana. O vazio em que o centro da cidade se transforma no fim-de-semana volta a desaparecer. O centro da cidade torna a encher-se, com as pessoas que aí trabalham e lhe dão vida. É para esta área que vamos.
Primeiro, passamos rapidamente pelo mosteiro de S. Bento e atravessamos a ponte pedestre de Santa Ifigénia, em estilo art noveau, que passa por cima do Vale de Anhangabaú, para vislumbrarmos o centro e observarmos o edifício mais alto da cidade, o Vale do Mirante.
De seguida, como prólogo para o resto do dia, subimos ao Edifício Altino Arantes, mais conhecido por Banespão, por ser a sede do Banespa, o Banco de São Paulo. Este edifício inspirado no Empire State Building, foi durante anos o mais alto fora dos EUA. Vamos até ao 35º andar. Temos a cidade aos nossos pés e uma vista de 360º. Lá em baixo a cidade vibra, as pessoas fazem-se à vida. Para um lado avistamos a Avenida Paulista, no outro lado temos o Mercadão, ao fundo avistamos a Serra do Mar, logo em baixo vislumbramos a Sé.
Voltamos à base, quase literalmente, pois entramos numa casa muito portuguesa. A Casa Mathilde que apresenta doçaria tradicional portuguesa. Um dos sócios desta Casa adquiriu a marca histórica de Sintra. Experimentamos o pastel de nata. Massa perfeita, recheio bom.
Seguimos viagem até ao Páteo do Colégio, sítio onde em 1554 foi fundada a cidade.
Continuamos  para a Catedral Metropolitana de São Paulo, também conhecida como Catedral da Sé. Este edifício neogótico de grande escala foi construído em 1591 numa das extremidades da praça da Sé, onde se cruzam pessoas a caminho do trabalho ou outro local e permanecem indigentes e oportunistas das fraquezas dos outros, que dão pistas com base nos pressupostos bíblicos.
Do sagrado encaminhamo-nos para o profano. Para a 25 de Março, a rua das compras de tudo em versão económica. Antes subimos ao último piso do edifício Niazi, na esquina da ladeira Porto Geral com a Rua 25 de Março, uma espécie de Pollux mas do têxtil, para sentir toda a vibração térrea.
Horas de almoço e vamos até ao árabe Raful. O mundo das esfihas, kaftas, quibis, doces árabes e outras iguarias da cozinha árabe. Um mundo de delícias.
Voltamos à 25 de Março para logo seguirmos para a Avenida Ipiranga, onde mais à frente cruzamos com a S. João. Nada acontece, ao contrário da música do Caetano.
A não ser mais à frente, depois de passarmos a República, praça, e quando a Avenida Ipiranga cruza com a São Luís e damos com o Edifício Itália ou Circolo Italiano. Subimos ao topo do segundo edifício mais alto de São Paulo (o Mirante do Vale é o mais alto) e o terceiro do Brasil (o mais alto é no estado de Santa Catarina), onde fica o restaurante Terraço Itália.
Mais uma vez voltamos a ter a cidade aos nossos pés e o edifício Copan, do génio Niemeyer, ao nosso lado. Pena que o edifício ondulante esteja entaipado para obras.
Mas a vista do Circolo Italiano tem um impacto grande. Confirmamos a designação Selva de Pedra. Para onde olhamos avistamos construção, densidade urbana, edifícios altos.
Voltamos ao asfalto e continuamos para a praça Roosevelt. Aqui os skaters são donos. Mesmo ao lado passa um troço do polêmico Minhocão, artéria sobrelevada que foi construída, em 1970, com o intuito de desanuviar o trânsito e que liga a zona central à zona oeste da cidade. Esta infraestrutura tem um forte impacto na paisagem urbana e na vida das pessoas, já que o intenso tráfego passa mesmo junto aos apartamentos residenciais, razão porque nunca foi bem visto pela população. Ao longo do tempo foram sendo tomadas decisões para diminuir o impacto desta via, nomeadamente interditar à noite e aos Domingos, dia em que se transforma numa via destinada a pedestres e ciclistas.
Recentemente foi aprovada a demolição do Minhocão e a transformação do mesmo em um jardim linear e suspenso. Acredito que trará maior humanidade à cidade.
Voltamos para a área mais central, onde os edifícios pichados nos envolvem, para passarmos pela Praça das Artes, o mais novo núcleo cultural da cidade, com uma bonita arquitectura, faltando só um pouco de verde.
Passamos também pelo bonito edifício do Teatro Municipal, cruzamos o vale do Anhangabaú, para entrarmos no bar Salve Jorge e bebermos a famosa caipirinha com picolé, acompanhada de bolinho de carne-seca e mandioca.
Enquanto isso o dilúvio abate-se sobre a cidade. Esperamos tranquilamente pelo término deste desaguar a saborear a caipirinha e os bolinhos.
A chuva dá paz e voltamos a fazermo-nos à rua, via Augusta, onde nos cruzamos com um amigo paulistano e comprovamos que mesmo numa cidade grande há momentos que sentimos que afinal o mundo é uma aldeia.
Cruzamos a Avenida Paulista, descemos para os Jardins e acabamos no D.O.M, o restaurante do chef ex-punk Alex Atala. O considerado pelo S. Pellegrino World´s 50 Best Restaurants como o sétimo melhor restaurante do mundo e o terceiro da América Latina. No meio da refeição comemos uma formiga saúva que os índios utilizam para temperar as suas refeições na Amazónia. Na maior cidade da América do Sul e uma das maiores do mundo tudo é possível.
Mais de duas horas depois de termos iniciado o menu de degustação do reino vegetal saímos em estado inebriante pela colossal e majestosa porta do D.O.M. Arrebatador. Tudo, por estes lados.

terça-feira, dezembro 16, 2014

Por São Paulo - Parte 1

A caminho do Paraíso encontrámos Jesus Cristo. O número 1. O legítimo. Ele falava para o mundo. Anunciava as desgraças e profecias.
É de fragmentos destes que se fazem as grandes cidades. No caso São Paulo.
Paraíso é um bairro de São Paulo e Jesus Cristo era uma das muitas pessoas que ia no metro, metrô naquelas paragens, naquele final de tarde de regresso para casa ou para algum outro lugar.
Nós íamos a caminho do jantar em Higienópolis. Era Domingo. O jantar, segundo a tradição paulistana, e ainda mais com paulistanos, só podia ser um. Pizza.
E assim foi, na belíssima pizzaria Veridiana pedimos uma pizza familiar. Um terço com cogumelos, outro com palmito e outro com presunto parma. Antes veio uma caipirinha de mexerica, isto é, tangerina em português do Brasil, e depois uma pizza doce de nutella e morango e nutella e banana.
Retemperou a intensidade do dia, que se iniciou na Luz, zona norte da cidade, com uma espera de duas horas para entrarmos na Pinacoteca, cujo edifício foi intervencionado pelo arquitecto Paulo Mendes da Rocha.
Apesar do belíssimo acervo deste espaço, a responsabilidade da elevada procura deveu-se à exposição temporária do artista australiano hiper-realista Ron Mueck, também genro da pintora portuguesa Paula Rego. Para além desta exposição e da colecção permanente, que faz uma retrospectiva da arte brasileira desde o século XVIII até ao final século XX, aproveitámos para ver a outra exposição temporária em presença, as pinturas e desenhos do maior arquitecto paisagístico brasileiro, Burle Marx.
Durante a espera, numa fila que dava a volta ao edifício e se espraiava, aproveitámos para absorver a envolvente, nomeadamente o parque da Luz, os edifícios coloridos de apenas dois pisos, que contrastam com os edifícios mais altos, um dos quais se destaca pela empena grafitada em estilo pop art à la Roy Lichtenstein, pelo artista Daniel Melim.
Após a visita à Pinacoteca, atravessámos a rua e fomos ao Museu da Língua Portuguesa.
Este museu fica inserido na estação da Luz, que apresenta uma bela estrutura em ferro fundido e que apontam que seja similar a uma estação existente em Melbourne (Austrália) e outros que a sua torre é uma réplica do Big Ben de Londres.
O Museu da Língua Portuguesa trata-se de um núcleo museológico diferente e delicioso, que recorre de uma forma muito imaginativa e comovente à tecnologia. Vale uma visita pela viagem que se faz à nossa "pátria", como Fernando Pessoa designou a língua portuguesa. Emocionante.
De alma cheia e barriga vazia, continuámos a nossa viagem rumo ao Mercadão. No enlace do pastel de bacalhau e da sandes de mortadela, dois ex-libris paulistanos. Comemos ambos no Hocca Bar, um barzinho que existe desde 1952 e é um dos espaços mais recomendados para comer estas duas delícias, que têm tanto de gostosas como de excessivas.
Em condições de prosseguirmos viagem seguimos para a Liberdade, o bairro que acolhe a maior comunidade japonesa do mundo fora do Japão. Aqui, desde a chegada dos primeiros japoneses na década 10 do século XX, foram ficando diversas marcas nipónicas.
Apesar de actualmente o bairro ser também ocupado por chineses e coreanos, as reminiscências japonesas estão lá, seja pelos produtos à venda, comida, restaurantes, lojas, designações de edifícios e estabelecimentos (Nagoya, Fuji, Ginza, cerejeira) como pela fisionomia das pessoas.
Este pedaço oriental de São Paulo é também um dos vários locais com marcas de street art, tão presente em São Paulo.
Deixámos a noite cair neste recanto nipónico, enquanto as luzes dos candeeiros ao estilo oriental se iam acendendo e os semáforos, com o símbolo dos templos japoneses, alternavam a espaços entre o verde e o vermelho.
Depois foi quando encontrámos Jesus.
Após esta epifania só nos restou ir desgustar as óptimas pizzas da Veridiana. A seguir vagueámos de carro pela noite dentro, pelo vazio nocturno do centro da cidade. Da grande cidade.  

terça-feira, novembro 18, 2014

Deambulações


Livro novo acabado de ser apresentado no fim de Outubro no Festival de Cinema SAL (Surf at Lisbon), Deambulações, de Bruno Garrudo, faz-nos, sobretudo, sonhar. 
O surfista, viajante, artista, fotógrafo, mostra-nos o seu trabalho quase independente, sem recorrer a uma editora, resultado das suas viagens solitárias em lugares que não nos é dito directamente onde são, mas que desconfiamos onde sejam. Lugares junto ao mar, onde ficam as desejadas ondas, mas lugares onde habitam também pessoas e mitos. Os poucos textos que anunciam as muitas fotografias são precisos e belos, quase poéticos, enlaçando-nos no sonho que ao folhear o livro se torna comum. As fotografias, essas, não são de surf, embora as ondas estejam muito presentes, são antes de vida. Uma vida que existe ainda primitiva, no sentido de que o que vemos nos transporta para uma busca das nossas origens. 
Se o que se busca num livro é a sua capacidade para nos deixar imaginar, fluir, criar personagens, então estas Deambulações são perfeitas. 

terça-feira, novembro 11, 2014

Porto Family Run

Com o pretexto de correr pelo Porto (não, ainda não foi este ano que nos aventurámos pela Maratona), fomos de fim de semana à Invicta.

Mas, então, se a prova era no domingo de manhã, sábado foi dia de descanso, certo? Nada disso, que o privilégio de passear pelo Porto não anda aí todos os dias.


Assim, como que numa espécie de aquecimento, saímos da Cedofeita, onde deixámos as malas, e caminhámos até à Ribeira. Revisitar Juan Muñoz e os seus "Treze a rir de um" no Jardim da Cordoaria, Torre dos Clérigos a romper num céu azul intenso, Livraria Lello repleta como sempre.



A Ribeira não lhe ficava atrás e passámos quase a correr pelas suas casinhas coloridas e os seus mercados de rua para atravessarmos a Ponte Dom Luís e almoçarmos no Cais de Gaia. O eleito foi o DeCastro Gaia, com os sempre saborosos petiscos de Miguel Castro e Silva, no edifício Porto Cruz. Aí aquela esplanada no terraço... Parece que o Douro está ainda mais próximo de nós.

De volta, subimos à Serra do Pilar, os contrastes do Porto deste século ali à vista: a modernidade e o turismo junto ao abandono e solitude - a ponte divide-os.



Não me canso de repetir: atravessar a Ponte Dom Luís deveria aparecer naqueles livros de 100 qualquer coisas a fazer antes de morrer. Então se o São Pedro nos brindar com umas abertas, como me tem feito sempre que me lembro de ir até ao Porto, o postal fica perfeito. O Douro é lindo e o cliché do Porto escuro e velho já era.


Junto à Sé uma constatação que passa a oficial: o Porto está na moda e os turistas estão a inundá-la. Espanhóis, claro, mas também muitos franceses, russos, asiáticos. Deu até para entabular uma conversa com umas chinesas que, tal como nós, apreciavam o emaranhado de telhados misturados na paisagem do centro portuense.

Santa Catarina pode continuar a artéria mais conhecida e frequentada do Porto, mas as ruas à volta dos Clérigos mostram todo o seu charme. Não é da Rua Galeria Paris e seus bares e restaurantes da moda que falo. É qualquer uma delas onde se vê aberta uma loja ou um restaurante de absoluto bom gosto. Espaços pequenos, intimistas, que parecem oferecer uma comida de petiscos caseiros, simples mas confortáveis. Um exemplo é a outrora abandonada Rua dos Caldeireiros que vai dar à Rua das Flores. Estas duas vias merecem ser percorridas para se sentir com está a actual pulsação da cidade. Os ferreiros já eram, mas junto a tascas autóctones encontramos hoje espaços de forasteiros interessados em dar uma nova vida, mais urbana, à cidade. Sem ruptura. Veja-se a reabilitação da Praça das Cardosas.






A Rua das Flores, essa, está totalmente virada para o peão. Para caminharmos pacificamente a observar os grafittis certeiros que por ali pululam. Os azulejos preservados dos edifícios. As suas varandas em ferro muito características. As esplanadas que dão ainda mais vida à rua. A cor que por ali abunda. E pensar que muitos mais edifícios ainda abandonados podem ainda vir a ser recuperados. Por agora, uma sugestão: uma refeição no Cantina 32, saboreando os seus pratos e aguardando ansiosamente pelas sobremesas, em especial o cheesecake de banana caramelizada e chocolate, apresentada num estranho e original vaso que parece não ter mais nada além de terra - report aqui. Mesmo assim, atirámo-nos a ele com a mesma confiança com que horas antes nos havíamos dedicado à nossa corrida.

Quanto à corrida, começámos os 16km junto ao Palácio de Cristal e logo subimos em direcção à rotunda da Boavista, um dos lugares mais inspiradores para os sportinguistas, com o leão a depenar a águia lá bem no alto. Com ainda poucos kms nas pernas, aproveita-se para apreciar as formas da Casa da Música e ir descobrindo os muitos edifícios apalaçados da imensa Rua da Boavista, sem esquecer recentes aquisições também arrojadas, como é o caso do edifício da Vodafone portuense. Com o Atlântico em frente, virámos para a direita rumo ao Porto de Leixões e disputámos as ruas com os surfistas que saiam de casa para devorar as ondas mesmo ali à porta. De volta à Rua da Boavista, confirmação de que a Fundação Cupertino Miranda nos esperava para a tarde para nos admirarmos com o modernismo de Dominguez Alvarez. E, pronto, paragem algures num canto do Parque da Cidade. Objectivo cumprido. Para o ano vem a maratona? 

domingo, outubro 19, 2014

A Dragon Apparent


Norman Lewis foi um jornalista britânico que, entre outros, escreveu uns quantos livros de viagem acerca de diversas regiões do mundo.
Elogiado pelos seus pares durante a sua longa vida (morreu em 2003 com 95 anos) - Graham Greene considerou-o mesmo um dos escritores do século -, até à presente data dele li "A Dragon Apparent - Travels in Cambodia, Laos and Vietnam", publicado em 1951, uma das suas primeiras obras. 
Não tendo a pretensão de conhecer de lés a lés todos estes três países, o certo é que conheço alguma coisa de todos eles - e todos eles me fascinaram e fascinam - pelo que pensei ser uma boa escolha começar a leitura de Norman Lewis por aqui.
Aquele que preferia pensar em si como um homem semi-invisível com o propósito de revelar poucas descrições deixou-nos um relato muito belo e interessante, escrevendo sobre minorias étnicas e aldeias, cidades modernas e cidades antigas e, com não podia deixar de ser, sobre paisagens, numa época em que a Indochina colonial já se encontrava em guerra com os franceses, mas ainda antes da guerra com os americanos (Guerra do Vietname que se estenderia aos vizinhos Camboja e Laos).
Um bom documento histórico, em especial pela preocupação que demonstra com as tribos autóctones, é igualmente um cativante relato de um observador diligente que se preocupa em testemunhar o que vê e vive para conosco partilhar.
Não obstante as referidas guerras que desde a sua visita assolaram a região, o mais fantástico é constatar que conseguimos encontrar ainda hoje no que foi a designada Indochina elementos e vivências semelhantes àquelas que nos são reveladas por Norman Lewis. Não querendo recorrer aos clichés da Indochina eterna ou pura, a verdade é que, sobretudo no Laos, consegue-se atingir um estado de uma comunhão quase perfeita com uma realidade que no nosso mundo sabemos difícil de existir já. Comunhão plena com gentes e cenários. O Mekong mítico, os monges de açafrão imaginários.
Ao ler A Dragon Apparent parece que aqui e ali o mundo (na Indochina) parou e é hoje igual ao que era há 60 anos. Os textos sobre Angkor lio-os como se quem os tivesse escrito fosse o meu companheiro de viagem de 2008. Do Laos, aos primeiros adjectivos para descrever a montanha de rocha sublime, logo vi que era a Vang Vieng de 2013. 
Certo, concedo. Estes são lugares perdidos no tempo e no espaço, não mudarão muito ao longo das décadas que se seguirão. Mas que dizer então de Saigão, a cidade a caminho de se tornar metrópole? Um exemplo:
"Era claro desde o primeiro momento em que me pus a caminho por estas abarrotadas, tórridas ruas que as vidas das pessoas do Extremo Oriente eram vividas em público. A rua é uma extensão da casa e não há uma linha divisória forte entre as duas. Ao amanhecer, no caso de Saigão, à hora em que o toque de recolher é levantado, as pessoas rolam da cama e fazem-se ao pavimento, onde há mais espaço, para efectuarem a maior parte da sua toalete. Depois, elas comem, jogam às cartas, dormitam, lavam-se, têm os seus dentes observados, são massajados por médicos, visitam adivinhos; tudo na rua. Não há nenhum do desejo de privacidade que é tão forte na Europa."
Ainda de Saigão, o autor refere o seu encantamento pelas elegantes meninas a andar de bicicleta, vestidas com os característicos robes brancos. "Criaturas etéreas", chama-lhes. Pelo menos em Hué, ainda hoje é possível observar esse postal.
E, para o final, um excerto que me parece igualmente actual como síntese do que era e é ainda a imaginada Indochina:
"Havia um rápido, silenciosamente um turbilhão de tráfego nas ruas de rickshaws misturados com bicicletas; um autocarro, varrendo de uma rua lateral por entre a torrente principal, apanhou um ciclista e atirou-o fora e esmagou a sua máquina. Ambos o condutor do autocarro e o ciclista eram chineses ou vietnamitas, e o condutor do autocarro, saltando para baixo desde o seu lugar, correu a felicitar o ciclista pela sua sorte em ter escapado. Ambos estavam encantados e o ciclista partiu carregando os destroços da sua máquina e ainda sorrindo largamente." 
Conclui Norman Lewis acerca deste episódio: "Nenhum outro incidente nas minhas viagens pela Indo-China mostra mais claramente a diferença fundamental para com a vida e sorte do Oriente e do Ocidente."

sábado, outubro 18, 2014

Centro Ismaili de Lisboa

Os ismaili são um ramo do xiismo, sendo este, por sua vez, a par do sunismo, uma das correntes com mais crentes do islão. Os ismaili, como xiitas, defendem ser descendentes directos do profeta Maomé, por via do seu primo Ali, casado com a sua filha Fatima.
Possuem como imã o Aga Khan, o 46.º imã, empossado em 1957, líder espiritual e consciência destes muçulmanos. O Príncipe Karim, actual Aga Kahn, homem moderno, com estudos na Suíça, criou a Rede de Desenvolvimento Aga Kahn, a qual advoga os princípios da tolerância, diálogo e pluralismo, com um equilíbrio entre o mundo espiritual e material. Entre outros, através dos Centros Ismailis exerce a sua missão, nomeadamente em actividades sociais, educativas e culturais, reflexão intelectual e contemplação espiritual, abraçando uma relação entre a comunidade onde está presente, o governo e a sociedade civil. Propõem-se, pois, a servir a sua comunidade, mas sempre com uma visão integradora e aberta à sociedade onde se inserem. No fundo, criar pontes entre os indivíduos e os diversos aspectos que os formam, sem perder de vista o entendimento dos princípios intelectuais e espirituais do islão que sustentam.



Lisboa é uma das poucas cidades do mundo a ter a honra de acolher um dos Centros Ismailis (os outros situam-se em Londres, Burnaby - Vancouver, Dubai, Dushanbe - Tajiquistão e Toronto).
Cada um destes Centros caracteriza-se por uma arquitectura especial. 
O Centro Ismaili de Lisboa, em particular, foi inaugurado em 1998 pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio, com a presença de Aga Khan. Fica escondido discretamente entre o Eixo Norte-Sul e a Loja do Cidadão das Laranjeiras.
O projecto arquitectónico é do indiano Raj Rewal, com colaboração do arquitecto português Frederico Valsassina. 
O espaço é surpreendente, desde logo pela forma como os arquitectos venceram o desnível do terreno e conseguiram implantar o edifício em vários níveis. Depois, pela forma como integra a zona edificada com a zona de jardins, sendo esta última dominante. Dizer que a maior parte do espaço do Centro é passível de visita pública e não apenas para o uso da comunidade ismaili.

 
É aqui visível a intenção - bem sucedida - de, partindo da civilização muçulmana, integrar distintas influências arquitectónicas, num encontro entre os legados históricos entre as várias culturas. Assim, foram aplicados materiais e técnicas locais, como o uso da pedra lioz ou o azulejo da Fábrica da Viúva Lamego. Lembrar que o uso da azulejaria é comum quer no nosso país quer na arquitectura islâmica, variando obviamente nos seus motivos. Houve, pois, a preocupação de assimilação de várias influências e culturas.
Uma dessas é a da cidade de Fatehpur Sikri, em Agra, Índia, mandada construir por Akbar, imperador Mogol conhecido pelos seus princípios da tolerância. Ou seja, a influência está na arquitectura, sim, mas também nos princípios de vida - geometria, simetria, equilíbrio - a perfeição.


Outra influência evidente é a dos jardins persas (aqui pensa-se num exemplo perto de nós, o Alhambra, em Granada). Do átrio principal vemos o Chahar Bagh, perfeito na sua geometria, simetria e harmonia - constantes em todo o edifício. Este é uma representação do Jardim do Éden, com quatro canais a representarem os quatro rios do paraíso. A água é um elemento muito presente e faz-se sentir quer visualmente quer pelo constante som da água a correr. 
Para cada zona fechada há sempre uma zona aberta que lhe corresponde. Seja este Char Bagh, seja o jardim das oliveiras, seja o jardim das laranjeiras amargas. A ideia é poder crescer, sim, mas revela sobretudo a primazia dada à natureza como força capaz de criar lugares de privacidade e tranquilidade para o espirito. Há, pois, sempre uma continuidade entre o interior e o exterior. 
Como não podia deixar de ser, esta continuidade está igualmente presente na sala de orações, o espaço mais íntimo e recolhido do Centro, aberto todos as 19:30 aos crentes. Podemos chamar-lhe mesquita ou tão somente Casa da Comunidade - Jamat Khana. A sala é enorme e uma vez mais pejada de elementos que fazem realçar o equilíbrio e a geometria tão caros ao islão. O tapete reproduz exactamente os mesmos motivos que se observam no tecto. Aqui encontramos outro elemento de excepção no projecto deste Centro - o seu tecto enorme não está suportado por colunas, mas antes por cabos de aço, o que faz deste um projecto de engenharia surpreendente.
Como fizemos uma visita guiada, integrada no evento Lisboa Open House 2014, tivemos acesso a este espaço. Como referido, a oração está vedada aos não crentes, mas fora dessa hora será necessária alguma sorte para conhecer esta sala, uma vez que a abertura das suas portas depende da presença de um voluntário. Curioso constatar - uma vez mais - a forma diferente como um, digamos, europeu se senta no chão em relação a um, digamos, asiático. Nós de rabo no chão e pernas cruzadas, eles de lado, numa posição que, diria, é muito mais elegante. Mais uma prova da beleza e harmonia a que se assiste por estes lados?

quinta-feira, outubro 16, 2014

Aya - Life in Yop City


De uma banda desenhada africana espera-se surpresa e diferença. No entanto, de Aya - Life in Yop City, autoria de Marguerite Abouet e Clement Oubrerie, edição original de 2007, chega-nos a surpresa de ver uma África, neste caso um bairro nos arredores de Abidjan, capital da Costa do Marfim, com personagens modernos mesclados de uma forte cultura local. Porém, nada das coisas do costume que nos fazem lamentar África, o continente negro em todas as suas imagens, pejado de pobreza e doença. 
Então, se a história é parecida com a nossa (leia-se ocidente) porquê perder tempo com mais do mesmo? Talvez porque, como dizia Tolstoi, "as famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira". 
Não que haja aqui em Aya muita infelicidade. Existem os contratempos comuns aos jovens, amores e desamores, sonhos por uma profissão que nem sempre é a escolhida pelos pais, uma vida confortável que pode não chegar. A marca de África surge na questão da poligamia, no tratamento das mulheres, na discriminação dos gays, na vontade de seguir para França.


Mas existe, sobretudo, muita cor e muita alegria, tudo parecendo ser pretexto para festa - outra África por nós imaginada. O traço do desenho é aqui belíssimo. 
Apenas uma curiosidade, a qual pode ser considerada um lapso ou apenas um tópico que não faz mais do que confirmar a leveza da história: os autores mostram-nos uma cidade em finais dos anos 70, mas dão-nos a entender uma sociedade marcada pelas modas vindas do outro lado do Atlântico, designadamente através das novelas do Brasil. A este propósito referem-se nesta bd duas delas: Dona Beija (alguém na história que desejava um cabelo como a Dona Beija) e Mulheres da Areia, ambas novelas dos anos 80 e 90.
Como conclusão, um boa introdução à vida numa grande cidade africana, suas gentes, seus humores e amores e negócios.



sexta-feira, outubro 03, 2014

Wenceslau de Moraes


De Wesceslau de Moraes li dois livros este verão, "Paisagens da China e do Japão" e "Traços do Extremo Oriente". A escrita do português mais japonês de sempre é delicada, intimista e apaziguadora. 

Algumas passagens tiradas do "Paisagens da China e do Japão":

- talvez sobre os bambus de Kyoto, "Aqui, um bosque de bambus gigantes, cuja sombra eterna e cuja paz soturna dão alucinações aquele que se aventura em devassar o seu mistério"; 

- acerca do shintoismo, "O shintoismo da palavra shinto (a estrada dos deuses), é a crença primitiva, patriarcal, das épocas remotas mo Japão; e conservada até hoje, a despeito da grande propaganda de Buda que se fez e se faz, é ainda a religião nacional, a religião do Estado. O shintoismo é a adoração pelo sol, pelo Imperador seu filho, por todas as forças da criação, pelas divindades protectoras, pelos génios, pelos nobres, pelos heróis e pelos sábios. O templo de shinto é o recinto consagrado a uma dessas invocações. Distingue-se antes de tudo pelo torii, o grande arco de pedra ou de madeira avizinhando do lugar, e como que indicando o caminho ao peregrino. Torii quer dizer descanso dos pássaros.";

e, como não podia deixar de ser, qualquer texto sobre o Japão não pode fugir de falar sobre a impermanência das estações, "há alguns dias, na cidade de Kobe, - poderia precisar o dia, e quase a hora, se tamanho rigorismo me exigissem, - irrompeu a Primavera. Irrompeu: não há sombra de exagero no vocábulo, irrompeu, surgiu de um pulo, fez explosão. Neste país do Sol Nascente, onde o sol, e com ele todas as grandes forças naturais, são ainda uns selvagens - se assim posso expressar-me - uns selvagens sem freio, sem noção das conveniências, incapazes de se apresentarem de visita, de luva e casaca, numa corte qualquer da nossa Europa; neste Laís do Sol Nascente, ia eu dizendo, a criação inteira apostou, parece, em oferecer em cada dia uma surpresa, toda ela exuberâncias inauditas, espalhafatos únicos, repentismos nervosos, caprichos doidos, como se reunisse em si a quinta essência da alma das crianças e a quinta essência da alma das mulheres, a gargalhada, a troça, enfim, motejadora de tudo quanto é ordem, harmonia, contemporizadora lei das transições.".

E mais algumas passagens, desta vez tiradas do "Traços do Extremo Oriente":

- uma explicação mitológica de como foi formado o arquipélago da Japão, "Copio de um livro as seguintes linhas: - "Antigamente os deuses invisíveis residiam no céu. O deus Yzagani e a deusa Yzanani datam dessa época puramente divina. Um dia, alguns pingos de água caíram da lança do deus, quem quisera sondar a profundeza do mar, e formaram a ilha de Awaji, que se tornou a ilha dos seus amores. A deusa deu ao mundo as oito principais ilhas do Japão, depois os trinta e cinco deuses ou kamis, e entre estes Amaterasu, a deusa do Sol. Amaterasu resolveu suplantar todas as divindades que haviam governado o mundo, em favor de um menino nascido das jóias que lhe ornavam a fronte. O filho do sol desceu à ilha de Kiusiu onde, durante duas gerações, residiu a família imperial; depois do que, dois dos seus membros atravessaram o mar interior, guiados pela ave de oito cabeças e protegidos pela espada milagrosa. Conquistaram o Nippon central aos deuses e aos homens rebeldes. Um deles, Yware Hiko, cujo nome póstumo foi Jimmu Tenno, foi o primeiro soberano do Japão; morreu em 585 antes de Jesus Cristo; os seus descendentes ocupam hoje o trono.";

- e para não deixar dúvidas sobre a preferência de Wesceslau entre o Japão e a China, eis um comentário definitivo, "China é suja e monótona. Loti dizia o inferno amarelo.".