domingo, dezembro 21, 2014

Por São Paulo - Parte 3

O dia começa no Copan, edifício gigante projectado, em 1951, pelo nome maior da arquitectura brasileira, Oscar Niemeyer. Apesar do projecto inicial ser de Niemeyer, este, por insatisfação quanto ao rumo da execução do projecto e por estar a caminho do grande projecto de Brasília, entregou a execução do Copan ao arquitecto Carlos Lemos.
Copan marca pela sua configuração sinuosa e pelos números. Com 115 metros de altura e 35 andares, congrega 1160 apartamentos distribuídos por seis blocos, acolhendo milhares de residentes, o que o transforma no maior edifício residencial da América Latina. Para além da componente residencial, acolhe também no piso térreo a vertente comercial.
Vamos até à sala do síndico, vulgo condomínio na nossa terra, fazemos o registo de entrada deixando os nossos nomes num caderninho (todos os visitantes do edifício têm que passar por este procedimento) e esperamos que o Jorge, deduzo que um dos vários zeladores, nos acompanhe até ao terraço. Dali avistamos mais uma vez a cidade de cima. Grande. Muito grande. Sem fim. Mesmo ao lado o Circolo Itália, que visitámos na véspera.
Em baixo um edifício com pista de atletismo. Em cima helicópteros. Vários helicópteros. Parece excêntrico, mas nesta cidade, onde o trânsito impera, acredito que seja prático.
Ainda tentamos visitar um apartamento, mas aquela hora a maioria das pessoas estão fora. Se conseguíssemos podíamos conhecer tanto um apartamento mínimo como outro maior. Cujo morador podia ser uma manicure ou um arquitecto, pois a diversidade social dos residentes é grande.
Descemos. Já no asfalto, descemos mais um pouco, ao subsolo e seguimos de metro para a Paulista, para a estação MASP-Trianon. Damos de cara com uma das obras mais emblemáticas da arquitecta Lina Bo Bardi, o Museu de Arte de São Paulo (MASP), de 1968. A arquitecta de origem italiana procurou transformar este museu num espaço popular, longe, como a própria criadora referiu do “esnobismo cultural tão querido pelos intelectuais”.
Com um vão enorme (70 metros), apoiado em duas grandes vigas e quadro pilares com um pé direito livre de 8 metros, o museu impressiona pelo seu estado bruto e pela forte presença na paisagem urbana.
Visitamos a bela exposição Passagens por Paris, que propõe um passeio pela arte moderna, com obras feitas entre 1866 e 1948 por artistas icónicos do período como Manet, Degas, Cézanne, Gauguin, Van Gogh, Matisse, Renoir, Toulose-Lautrec, Picasso, Modigliani, Portinari. Em comum todos eles viveram, produziram e passaram por Paris.
Ainda na Avenida Paulista visitamos a interessante exposição Cidade Gráfica, patente no Itáu Cultural.
Mais à frente deslumbramo-nos com a magia e arte do muralista e artista plástico Kobra, que homenageou Oscar Niemeyer com uma grande pintura (52 metros de altura e 16 metros de largura) na empena do edifício Ragi.
Aproveitamos também para visitar uma das poucas reminiscências que ainda sobram da fase inicial da Avenida Paulista, a Casa das Rosas.
A outrora mansão em estilo clássico francês (de 1935) que reunia os barões do café na época da prosperidade agrária, sobreviveu às diversas transformações assistidas na história económica da cidade, que se foram plasmando nas transformações da Avenida Paulista, nomeadamente quando deixou de ser a avenida ligada à agricultura, para passar a ser a via dos casarões dos industriais e depois a avenida do mundo financeiro, com os seus arranha-céusTudo em menos de um século. Actualmente, a Casa das Rosas, perpetua a memória histórica da evolução da cidade, mas transformou-se num espaço cultural ligado à poesia e literatura.
Tempo de pausa e reconforto gastronómico. Almoçamos, na área dos Jardins, no restaurante Epice, do chef Alberto Landgraf, considerado pelo S. Pellegrino World´s 50 Best Restaurants como o 36º melhor restaurante da América Latina.
A tarde foi passada no coração verde da cidade, o parque Ibirapuera, cujo projecto arquitectónico foi da responsabilidade de Oscar Niemeyer.
Deambulamos pelo parque, assistimos à dinâmica de quem ali pratica exercício ou simplesmente passeia, deliciamo-nos com as obras arquitectónicas ali presentes.
Logo de início cruzamo-nos com o Monumento às Bandeiras, homenagem aos bandeirantes, esculpido por Victor Brecheret.
Depois de entrarmos no parque confrontamo-nos com diversas obras arquitectónicas, a maioria de Oscar Niemeyer, nomeadamente o Planetário, o Museu Afro Brasil, a Grande Marquise, o Oca, o Museu de Arte Moderna (MAM), o Pavilhão Ciccilo Matarazzo, conhecido também como Pavilhão da Bienal, por ser actualmente sede da Bienal de São Paulo e do Museu de Arte Contemporânea (MAC), o Auditório do Ibirapuera.
Todas as obras arquitectónicas são fantásticas, mas destaco o Auditório e a sua língua.
Aproveitamos para visitar a exposição do MAM e a Bienal de São Paulo, que se realiza a cada dois anos e é um dos eventos mais importantes das artes plásticas no mundo.
No Ibirapuera há marcas de alguns dos nomes maiores da street art, dos Gémeos e de Kobra. Os Gémeos têm um belíssimo painel à entrada do MAM, já Kobra apresenta três obras debaixo da elegante Grande Marquise, que foram feitas no âmbito da comemoração dos 60 anos da obra de Niemeyer.
À saída o sol começa a pôr-se e deliciamo-nos com as cores do final do dia.
 
Terminamos o dia no Skye Bar, na cobertura do Hotel Uniqueprojecto do arquitecto Ruy Ohtake, o mesmo do Instituto Tomie Ohtake. Aqui, num ambiente de festividade, vimos a noite chegar e a grande cidade iluminar-se. Uma delícia.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Por São Paulo - Parte 2

Segunda-feira. Início de semana. O vazio em que o centro da cidade se transforma no fim-de-semana volta a desaparecer. O centro da cidade torna a encher-se, com as pessoas que aí trabalham e lhe dão vida. É para esta área que vamos.
Primeiro, passamos rapidamente pelo mosteiro de S. Bento e atravessamos a ponte pedestre de Santa Ifigénia, em estilo art noveau, que passa por cima do Vale de Anhangabaú, para vislumbrarmos o centro e observarmos o edifício mais alto da cidade, o Vale do Mirante.
De seguida, como prólogo para o resto do dia, subimos ao Edifício Altino Arantes, mais conhecido por Banespão, por ser a sede do Banespa, o Banco de São Paulo. Este edifício inspirado no Empire State Building, foi durante anos o mais alto fora dos EUA. Vamos até ao 35º andar. Temos a cidade aos nossos pés e uma vista de 360º. Lá em baixo a cidade vibra, as pessoas fazem-se à vida. Para um lado avistamos a Avenida Paulista, no outro lado temos o Mercadão, ao fundo avistamos a Serra do Mar, logo em baixo vislumbramos a Sé.
Voltamos à base, quase literalmente, pois entramos numa casa muito portuguesa. A Casa Mathilde que apresenta doçaria tradicional portuguesa. Um dos sócios desta Casa adquiriu a marca histórica de Sintra. Experimentamos o pastel de nata. Massa perfeita, recheio bom.
Seguimos viagem até ao Páteo do Colégio, sítio onde em 1554 foi fundada a cidade.
Continuamos  para a Catedral Metropolitana de São Paulo, também conhecida como Catedral da Sé. Este edifício neogótico de grande escala foi construído em 1591 numa das extremidades da praça da Sé, onde se cruzam pessoas a caminho do trabalho ou outro local e permanecem indigentes e oportunistas das fraquezas dos outros, que dão pistas com base nos pressupostos bíblicos.
Do sagrado encaminhamo-nos para o profano. Para a 25 de Março, a rua das compras de tudo em versão económica. Antes subimos ao último piso do edifício Niazi, na esquina da ladeira Porto Geral com a Rua 25 de Março, uma espécie de Pollux mas do têxtil, para sentir toda a vibração térrea.
Horas de almoço e vamos até ao árabe Raful. O mundo das esfihas, kaftas, quibis, doces árabes e outras iguarias da cozinha árabe. Um mundo de delícias.
Voltamos à 25 de Março para logo seguirmos para a Avenida Ipiranga, onde mais à frente cruzamos com a S. João. Nada acontece, ao contrário da música do Caetano.
A não ser mais à frente, depois de passarmos a República, praça, e quando a Avenida Ipiranga cruza com a São Luís e damos com o Edifício Itália ou Circolo Italiano. Subimos ao topo do segundo edifício mais alto de São Paulo (o Mirante do Vale é o mais alto) e o terceiro do Brasil (o mais alto é no estado de Santa Catarina), onde fica o restaurante Terraço Itália.
Mais uma vez voltamos a ter a cidade aos nossos pés e o edifício Copan, do génio Niemeyer, ao nosso lado. Pena que o edifício ondulante esteja entaipado para obras.
Mas a vista do Circolo Italiano tem um impacto grande. Confirmamos a designação Selva de Pedra. Para onde olhamos avistamos construção, densidade urbana, edifícios altos.
Voltamos ao asfalto e continuamos para a praça Roosevelt. Aqui os skaters são donos. Mesmo ao lado passa um troço do polêmico Minhocão, artéria sobrelevada que foi construída, em 1970, com o intuito de desanuviar o trânsito e que liga a zona central à zona oeste da cidade. Esta infraestrutura tem um forte impacto na paisagem urbana e na vida das pessoas, já que o intenso tráfego passa mesmo junto aos apartamentos residenciais, razão porque nunca foi bem visto pela população. Ao longo do tempo foram sendo tomadas decisões para diminuir o impacto desta via, nomeadamente interditar à noite e aos Domingos, dia em que se transforma numa via destinada a pedestres e ciclistas.
Recentemente foi aprovada a demolição do Minhocão e a transformação do mesmo em um jardim linear e suspenso. Acredito que trará maior humanidade à cidade.
Voltamos para a área mais central, onde os edifícios pichados nos envolvem, para passarmos pela Praça das Artes, o mais novo núcleo cultural da cidade, com uma bonita arquitectura, faltando só um pouco de verde.
Passamos também pelo bonito edifício do Teatro Municipal, cruzamos o vale do Anhangabaú, para entrarmos no bar Salve Jorge e bebermos a famosa caipirinha com picolé, acompanhada de bolinho de carne-seca e mandioca.
Enquanto isso o dilúvio abate-se sobre a cidade. Esperamos tranquilamente pelo término deste desaguar a saborear a caipirinha e os bolinhos.
A chuva dá paz e voltamos a fazermo-nos à rua, via Augusta, onde nos cruzamos com um amigo paulistano e comprovamos que mesmo numa cidade grande há momentos que sentimos que afinal o mundo é uma aldeia.
Cruzamos a Avenida Paulista, descemos para os Jardins e acabamos no D.O.M, o restaurante do chef ex-punk Alex Atala. O considerado pelo S. Pellegrino World´s 50 Best Restaurants como o sétimo melhor restaurante do mundo e o terceiro da América Latina. No meio da refeição comemos uma formiga saúva que os índios utilizam para temperar as suas refeições na Amazónia. Na maior cidade da América do Sul e uma das maiores do mundo tudo é possível.
Mais de duas horas depois de termos iniciado o menu de degustação do reino vegetal saímos em estado inebriante pela colossal e majestosa porta do D.O.M. Arrebatador. Tudo, por estes lados.

terça-feira, dezembro 16, 2014

Por São Paulo - Parte 1

A caminho do Paraíso encontrámos Jesus Cristo. O número 1. O legítimo. Ele falava para o mundo. Anunciava as desgraças e profecias.
É de fragmentos destes que se fazem as grandes cidades. No caso São Paulo.
Paraíso é um bairro de São Paulo e Jesus Cristo era uma das muitas pessoas que ia no metro, metrô naquelas paragens, naquele final de tarde de regresso para casa ou para algum outro lugar.
Nós íamos a caminho do jantar em Higienópolis. Era Domingo. O jantar, segundo a tradição paulistana, e ainda mais com paulistanos, só podia ser um. Pizza.
E assim foi, na belíssima pizzaria Veridiana pedimos uma pizza familiar. Um terço com cogumelos, outro com palmito e outro com presunto parma. Antes veio uma caipirinha de mexerica, isto é, tangerina em português do Brasil, e depois uma pizza doce de nutella e morango e nutella e banana.
Retemperou a intensidade do dia, que se iniciou na Luz, zona norte da cidade, com uma espera de duas horas para entrarmos na Pinacoteca, cujo edifício foi intervencionado pelo arquitecto Paulo Mendes da Rocha.
Apesar do belíssimo acervo deste espaço, a responsabilidade da elevada procura deveu-se à exposição temporária do artista australiano hiper-realista Ron Mueck, também genro da pintora portuguesa Paula Rego. Para além desta exposição e da colecção permanente, que faz uma retrospectiva da arte brasileira desde o século XVIII até ao final século XX, aproveitámos para ver a outra exposição temporária em presença, as pinturas e desenhos do maior arquitecto paisagístico brasileiro, Burle Marx.
Durante a espera, numa fila que dava a volta ao edifício e se espraiava, aproveitámos para absorver a envolvente, nomeadamente o parque da Luz, os edifícios coloridos de apenas dois pisos, que contrastam com os edifícios mais altos, um dos quais se destaca pela empena grafitada em estilo pop art à la Roy Lichtenstein, pelo artista Daniel Melim.
Após a visita à Pinacoteca, atravessámos a rua e fomos ao Museu da Língua Portuguesa.
Este museu fica inserido na estação da Luz, que apresenta uma bela estrutura em ferro fundido e que apontam que seja similar a uma estação existente em Melbourne (Austrália) e outros que a sua torre é uma réplica do Big Ben de Londres.
O Museu da Língua Portuguesa trata-se de um núcleo museológico diferente e delicioso, que recorre de uma forma muito imaginativa e comovente à tecnologia. Vale uma visita pela viagem que se faz à nossa "pátria", como Fernando Pessoa designou a língua portuguesa. Emocionante.
De alma cheia e barriga vazia, continuámos a nossa viagem rumo ao Mercadão. No enlace do pastel de bacalhau e da sandes de mortadela, dois ex-libris paulistanos. Comemos ambos no Hocca Bar, um barzinho que existe desde 1952 e é um dos espaços mais recomendados para comer estas duas delícias, que têm tanto de gostosas como de excessivas.
Em condições de prosseguirmos viagem seguimos para a Liberdade, o bairro que acolhe a maior comunidade japonesa do mundo fora do Japão. Aqui, desde a chegada dos primeiros japoneses na década 10 do século XX, foram ficando diversas marcas nipónicas.
Apesar de actualmente o bairro ser também ocupado por chineses e coreanos, as reminiscências japonesas estão lá, seja pelos produtos à venda, comida, restaurantes, lojas, designações de edifícios e estabelecimentos (Nagoya, Fuji, Ginza, cerejeira) como pela fisionomia das pessoas.
Este pedaço oriental de São Paulo é também um dos vários locais com marcas de street art, tão presente em São Paulo.
Deixámos a noite cair neste recanto nipónico, enquanto as luzes dos candeeiros ao estilo oriental se iam acendendo e os semáforos, com o símbolo dos templos japoneses, alternavam a espaços entre o verde e o vermelho.
Depois foi quando encontrámos Jesus.
Após esta epifania só nos restou ir desgustar as óptimas pizzas da Veridiana. A seguir vagueámos de carro pela noite dentro, pelo vazio nocturno do centro da cidade. Da grande cidade.  

terça-feira, novembro 18, 2014

Deambulações


Livro novo acabado de ser apresentado no fim de Outubro no Festival de Cinema SAL (Surf at Lisbon), Deambulações, de Bruno Garrudo, faz-nos, sobretudo, sonhar. 
O surfista, viajante, artista, fotógrafo, mostra-nos o seu trabalho quase independente, sem recorrer a uma editora, resultado das suas viagens solitárias em lugares que não nos é dito directamente onde são, mas que desconfiamos onde sejam. Lugares junto ao mar, onde ficam as desejadas ondas, mas lugares onde habitam também pessoas e mitos. Os poucos textos que anunciam as muitas fotografias são precisos e belos, quase poéticos, enlaçando-nos no sonho que ao folhear o livro se torna comum. As fotografias, essas, não são de surf, embora as ondas estejam muito presentes, são antes de vida. Uma vida que existe ainda primitiva, no sentido de que o que vemos nos transporta para uma busca das nossas origens. 
Se o que se busca num livro é a sua capacidade para nos deixar imaginar, fluir, criar personagens, então estas Deambulações são perfeitas. 

terça-feira, novembro 11, 2014

Porto Family Run

Com o pretexto de correr pelo Porto (não, ainda não foi este ano que nos aventurámos pela Maratona), fomos de fim de semana à Invicta.

Mas, então, se a prova era no domingo de manhã, sábado foi dia de descanso, certo? Nada disso, que o privilégio de passear pelo Porto não anda aí todos os dias.


Assim, como que numa espécie de aquecimento, saímos da Cedofeita, onde deixámos as malas, e caminhámos até à Ribeira. Revisitar Juan Muñoz e os seus "Treze a rir de um" no Jardim da Cordoaria, Torre dos Clérigos a romper num céu azul intenso, Livraria Lello repleta como sempre.



A Ribeira não lhe ficava atrás e passámos quase a correr pelas suas casinhas coloridas e os seus mercados de rua para atravessarmos a Ponte Dom Luís e almoçarmos no Cais de Gaia. O eleito foi o DeCastro Gaia, com os sempre saborosos petiscos de Miguel Castro e Silva, no edifício Porto Cruz. Aí aquela esplanada no terraço... Parece que o Douro está ainda mais próximo de nós.

De volta, subimos à Serra do Pilar, os contrastes do Porto deste século ali à vista: a modernidade e o turismo junto ao abandono e solitude - a ponte divide-os.



Não me canso de repetir: atravessar a Ponte Dom Luís deveria aparecer naqueles livros de 100 qualquer coisas a fazer antes de morrer. Então se o São Pedro nos brindar com umas abertas, como me tem feito sempre que me lembro de ir até ao Porto, o postal fica perfeito. O Douro é lindo e o cliché do Porto escuro e velho já era.


Junto à Sé uma constatação que passa a oficial: o Porto está na moda e os turistas estão a inundá-la. Espanhóis, claro, mas também muitos franceses, russos, asiáticos. Deu até para entabular uma conversa com umas chinesas que, tal como nós, apreciavam o emaranhado de telhados misturados na paisagem do centro portuense.

Santa Catarina pode continuar a artéria mais conhecida e frequentada do Porto, mas as ruas à volta dos Clérigos mostram todo o seu charme. Não é da Rua Galeria Paris e seus bares e restaurantes da moda que falo. É qualquer uma delas onde se vê aberta uma loja ou um restaurante de absoluto bom gosto. Espaços pequenos, intimistas, que parecem oferecer uma comida de petiscos caseiros, simples mas confortáveis. Um exemplo é a outrora abandonada Rua dos Caldeireiros que vai dar à Rua das Flores. Estas duas vias merecem ser percorridas para se sentir com está a actual pulsação da cidade. Os ferreiros já eram, mas junto a tascas autóctones encontramos hoje espaços de forasteiros interessados em dar uma nova vida, mais urbana, à cidade. Sem ruptura. Veja-se a reabilitação da Praça das Cardosas.






A Rua das Flores, essa, está totalmente virada para o peão. Para caminharmos pacificamente a observar os grafittis certeiros que por ali pululam. Os azulejos preservados dos edifícios. As suas varandas em ferro muito características. As esplanadas que dão ainda mais vida à rua. A cor que por ali abunda. E pensar que muitos mais edifícios ainda abandonados podem ainda vir a ser recuperados. Por agora, uma sugestão: uma refeição no Cantina 32, saboreando os seus pratos e aguardando ansiosamente pelas sobremesas, em especial o cheesecake de banana caramelizada e chocolate, apresentada num estranho e original vaso que parece não ter mais nada além de terra - report aqui. Mesmo assim, atirámo-nos a ele com a mesma confiança com que horas antes nos havíamos dedicado à nossa corrida.

Quanto à corrida, começámos os 16km junto ao Palácio de Cristal e logo subimos em direcção à rotunda da Boavista, um dos lugares mais inspiradores para os sportinguistas, com o leão a depenar a águia lá bem no alto. Com ainda poucos kms nas pernas, aproveita-se para apreciar as formas da Casa da Música e ir descobrindo os muitos edifícios apalaçados da imensa Rua da Boavista, sem esquecer recentes aquisições também arrojadas, como é o caso do edifício da Vodafone portuense. Com o Atlântico em frente, virámos para a direita rumo ao Porto de Leixões e disputámos as ruas com os surfistas que saiam de casa para devorar as ondas mesmo ali à porta. De volta à Rua da Boavista, confirmação de que a Fundação Cupertino Miranda nos esperava para a tarde para nos admirarmos com o modernismo de Dominguez Alvarez. E, pronto, paragem algures num canto do Parque da Cidade. Objectivo cumprido. Para o ano vem a maratona?