sexta-feira, setembro 25, 2015

Bruxelas

Não é fácil para uma portuguesa, cujo país tem praticamente 900 anos de nacionalidade independente quase ininterrupta, traçar a história de outros países sem se sentir confusa. 
A Bélgica, por exemplo, ganhou a sua independência apenas em 1830 de forma algo inesperada. No que é hoje o seu território exerceram historicamente a sua influência franceses, holandeses e austríacos. No século XVI Bruxelas chegou a ser a capital do império Habsburgo sob o reinado de Carlos V. Já no século XIX, depois de ganha a independência, a revolução industrial na Valónia e a pilhagem do Congo pelo rei Leopold II trouxeram prosperidade e pujança económica. 
Nos dias de hoje, a divisão entre flamengos (na Flandres, a norte) e francófonos (na Valónia, a sul) é evidente e não serão só as questões linguísticas a separá-los. 


A capital da Bélgica é Bruxelas e esta é também a capital da Europa (depois da NATO e da União Europeia terem aqui assentado arraiais), pelo que parece bater tudo certo na mistura de nacionalidades, línguas e vidas que se observa numa curta estadia na cidade.

Junto à estação do Midi, que escolhi para meu poiso, os belgas (sejam flamengos ou francófonos) (a)parecem em clara minoria: há ruas inteiras de portugueses, brasileiros, italianos, africanos, marroquinos e árabes. Tudo isto a quinze minutos a pé da Grand Place.

Questões práticas: não se precisa de saber falar neerlandês ou francês para se sobreviver em Bruxelas e pode-se assistir ao Académica - Sporting na televisão de um café português rodeada de portugueses que apesar de estarem uma rua atrás da rua Lemonniers não fazem ideia do que isso seja.

Na cidade há de tudo e de tudo se vê. Coisas boas e coisas más.

Vamos às coisas boas: a multiculturalidade que se sente pelas ruas, gerando contrastes interessantes, sempre com um sentimento de segurança (flamengos e francófonos, emigrantes em busca de melhores condições económicas e eurocratas); edifícios com fachadas lindamente ornamentadas e bem conservados; praças e jardins acolhedores; a Grand Place, provavelmente a praça mais bonita do mundo.


Agora as coisas más: na cidade de ricas fachadas em Arte Nova e outros estilos não menos agradáveis à vista convivem uns quantos arranha-céus pavorosos - repisando o meu post anterior, como é possível destruir um dos maiores exemplos de Arte Nova, como o era a Maison du Peuple, para construir a sem graça Torre du Sablon?; os edifícios do quarteirão Europa (em resumo, vidro a mais, bom gosto a menos); o lixo acumulado nas ruas (numa rua junto ao meu hotel estiveram os mesmos sacos do lixo encostados à parede durante seis dias ininterruptos); excesso de gente nas ruas a pedir esmola.

O que mais me impressionou negativamente foi, precisamente a conjugação Europa e mendigos. 
Percorrendo a Rue du Luxembourg, passando por uns pacatos jardins, avista-se por detrás da fachada da antiga estação, encimada por um relógio, o edifício horroroso do Parlamento Europeu (também conhecido localmente como "capricho dos deuses"). A sua forma e o excesso de vidro não foram o pior da coisa; o pior foi constatar a quantidade de gente que dorme na rua enrolada em papelão na pequena praça à sua frente (perguntaram-me se era gente protestando, mas não vi qualquer sinal de protesto, apenas pobreza).




Neste bairro Europeu, que ganhou terrenos ao bairro Leopold, estão instaladas mais uma série de instituições europeias, entre as quais a Comissão Europeia, no não menos pavoroso edifício Berlaymont. Tudo por aqui está em obras, com mais edifícios de mesmo nível a juntarem-se brevemente à trupe do mau gosto arquitectónico, numa manifestação ostentatória de uma burocracia que não se entende muito bem por que cidadãos foi legitimada e quais representa.





Agora que já escrevi tudo o que pretendia escrever de mal de Bruxelas, vamos aos elogios.
Permanecendo no bairro Europeu e no bairro Leopold, o que safa a coisa má é que por aqui existem sobejos parques mais do que agradáveis para se deixar estar rodeado por edifícios bem bonitos. A área das praças Marie-Louise e Ambiorix são paragens obrigatórias. Do outro lado, depois de se percorrer o Parque do Cinquentenário, numa demonstração de ostentação de outra época mais pujante, fica o Parc Leopold. Se quisermos evitar a vista da fachada do edifício do Parlamento Europeu é só debruçar os nossos olhos no verde da relva e na água do lago.




Mas o mais impressionante de Bruxelas é mesmo a sua praça principal: a Grand Place
Para lá entrar podemos escolher uma das suas sete entradas, mas à partida nenhuma nos prepara para o cenário grandioso desta praça medieval escondida no centro da cidade. As fachadas barrocas e super ornamentadas dos edifícios que rodeiam a praça, com os dourados a dominarem, são uma delícia. A maioria dos edifícios foram construídos entre 1697 e 1705 e eram a morada das várias associações de comerciantes - as guildas - com representação na cidade, como a dos padeiros, dos arqueiros, dos açougueiros, dos cervejeiros, dos costureiros, entre outras, daí os símbolos do universo dessas associações que até hoje vemos nas fachadas, bem como inúmeras estátuas. De lembrar que Bruxelas foi no século XV uma cidade comercial que acolhia mercados prósperos, daí as guildas dos mercadores de sucesso.



Existem aqui também algumas casas que pertenceram a nobres da época. Quase todos os edifícios estão hoje transformados em cafés nos seus pisos térreos. E depois, depois existem aqui, imperiais, outros dois edifícios que quase roubam a atenção: o Hotel de Ville, do século XV, com a sua torre de 96 metros encimada por Saint-Michel, o patrono de Bruxelas, e as suas gárgulas góticas, símbolos da nobreza; e a Maison du Roi, hoje Museu da Cidade, mais novo cerca de 200 anos do que os edifícios vizinhos, na sua característica cor preta e com os seus arcos neo-góticos.

Tive a sorte de ver a Grand Place vazia de instalações de feira, ainda que cheia de gente. Todavia, as fotografias não conseguem captar toda a sua beleza e grandiosidade, sendo vãos os esforços de captar todos os edifícios, quer horizontalmente quer verticalmente. Não havendo ginástica fotográfica possível, que fique então na minha memória a Grand Place por inteiro.


Grandiosas na sua beleza e harmonia são também as Galerias Saint Hubert, três passagens em arcada de estilo neo-clássico (Galeria da Rainha, Galeria do Rei e Galeria dos Príncipes), cujos arcos em vidro deslumbram, as primeiras galerias comerciais da Europa criadas em 1847 pelo Rei Leopold I.

Dois dos maiores flops de Bruxelas são a Rua des Bouchers, junto às Galeria Hubert, um corredor colorido cheio de restaurantes hiper-turísticos, e o Manneken Pis ou "menino pilinhas", perto da Grand Place, coisa pavorosa onde se juntam e acotovelam dezenas de pessoas para fotografar a estátua minúscula e totalmente desprovida de graça. Melhor olhar antes para a empena que lhe foi livremente dedicada a umas quantas ruas dali.


A zona da Grand Place e vizinha Bourse (a Bolsa, edifício de fachada neoclássica com colunas e estátuas, incluindo alguns trabalhos de Rodin), a uma curta caminhada até St-Géry e Ste-Catherine, com o seu Quai aux Briques, são o coração da cidade, cheio de cafés, sendo um dos  locais para se sair para jantar e seguir pela noite dentro. A Praça de Ste Catherine, onde havia um mercado de peixe quando o rio Senne se deixava ver, é uma excelente opção para se provar as incontornáveis moules et frites, ou seja, os tradicionais mexilhões com batatas fritas.


Quando se caminha por estes bairros, é incrível imaginar que o rio Senne passa por aqui debaixo dos nossos pés, hoje longe da nossa vista, enterrado quer por questões de salubridade quer por questões de expansão urbanística.  


Mudando de direcção, obrigatório é também um passeio pelo bairro de Marolles. Antigo bairro da classe operária, gente afirmativa, a Place du Jeu-de-Balle, principalmente aos sábados de manhã com a sua feira onde tudo se vende, ainda mostra algum do seu carácter antigo. Hoje, porém, o bairro é feito de contrastes. No seu extremo que dá para a Porta de Hall encontramos um interessante projecto de habitação social construído por volta de 1915, o primeiro na cidade. A Cité Hellemans é um conjunto de habitações distribuídas por sete filas muito semelhantes, paralelas entre si, em prédios de tijolo e pedra, com elementos de ferro a lembrar a Arte Nova, e terraços não muito espaçosos. Cada uma das ruas toma nomes das profissões antes exercidas no bairro, como marceneiros, borradores, ourives e outras. Nestas ruas brincam crianças de todas as nacionalidades, pois não só a Cité Hellemans mas todo o bairro de Marolles é hoje lugar de muitos emigrantes. 


As ruas Haute e Blaes, agradáveis e com lojas bonitas e coloridas, levam-nos até ao outro extremo de Marolles. Primeiro passamos pela praça que acolhe hoje um elevador prático mas feio que liga a parte baixa da cidade à alta, onde fica o mega Palácio da Justiça (construído entre 1866 e 1883 este edifício é ainda maior do que a Catedral de São Pedro em Roma), donde se têm uma bonita perspectiva da cidade; e depois chegamos ao Sablon. 


Lugar chique de Bruxelas, onde encontramos lojas de antiguidades e galerias de arte, assim como cafés e todas as melhores lojas de chocolates (a minha preferida é a Pierre Marcolini: pelos bolos, pelos gelados, pelos chocolates, enfim, por toda a sua belíssima apresentação), à Praça do Grand Sablon (onde existe um deslocado parque de estacionamento no flanco dianteiro à sua Igreja) segue-se a Praça do Petit Sablon com o seu delicioso jardim cheio de estátuas. 


Jardins é o que não falta por aqui. Ou continuamos para os Jardins de Egmont, passando pelos seus muros preenchidos com citações da local Marguerite Yourcenar, ou vamos directamente para a Praça e Palácio Real, com o Parque de Bruxelas à espreita. 



O Sablon é, pois, uma boa antecâmara para o ambiente artístico que se lhe segue no território. O Monte das Artes, como é conhecida esta zona mais elevada da cidade, para além do Palácio Real (aberto a visitas e residência oficial da realeza belga, apesar de na verdade a família real hoje em dia habitar em Laeken) é o lugar dos Museus Reais de Belas Artes (inclui o Musee Old Masters, o Musee Fin-de-Sècle e Musee Magritte) e do Bozar (anteriormente designado Palácio das Artes, complexo a caminho da Arte Déco desenhado por Victor Horta no sentido de acolher todas as artes, como o cinema, a arte e a dança), para além de diversos outros museus. 

E para algo completamente diferente, há que não sair de Bruxelas sem tomar o metro até Heysel e depois de nos emocionarmos em frente do seu Estádio (como amante de futebol e sensível a tragédias) seguir até ao Atomium. 



O Atomium é inequivocamente um símbolo de Bruxelas.
Construído como estrutura temporária para a Exposição Internacional de 1958 que então teve lugar na cidade, estas nove bolas metálicas gigantescas unidas por braços tubulares de aço, representando átomos de ferro, pretendiam configurar o progresso que se vivia no pós-guerra e a força, modernidade e futuro de um país, com uma indústria poderosa partilhada com o Luxemburgo (não esquecer que nos anos 50 havia sido criada na Europa a Comunidade do Carvão e Aço, e o ferro e o aço faziam parte da visão de desenvolvimento económico da época). No entanto, o tipo de aço aqui usado foi uma espécie de aço inoxidável, o alumínio, daí o nome Atomium, mistura de átomo com aluminium. 
Foi tão forte a sua presença, arquitectura e simbolismo que permaneceu intacta e perdura até hoje, do alto dos seus 120 metros de altura, depois de ter sido objecto de uma intervenção de restauro em 2006. 


É possível - e concorrida - a visita ao seu interior, onde foi criado um museu que não considero ter muito interesse. Está bem que procura ter uma função educativa na área da energia, mas o espaço expositivo podia ser muito mais evoluído, moderno e interactivo. Passa ainda em revista a sua criação, na tal Exposição Internacional. Valerá a pena pela experiência de estarmos dentro daqueles átomos imensos e tubos que os ligam e pelas vistas fantásticas da cidade, mas por 11 euros?

quarta-feira, setembro 23, 2015

A Arte Nova em Bruxelas

Outro pretexto para se conhecer Bruxelas e caminhar pelas suas ruas para além da arte mural da banda desenhada é o de ir em busca de exemplos de Arte Nova.

A arte surgida nos finais do século XIX foi breve e não durou para além da primeira década do século XX. Em Portugal, e como já havia escrito em post sobre Aveiro, é sobretudo nesta cidade banhada pela ria que encontramos um bom naipe de exemplos desta arte.

Na Bélgica a Arte Nova entrou em força em Bruxelas. Naquela época vivia-se alguma euforia e o rei Leopoldo II promovia a construção de novos bairros. É percorrendo as ruas dos bairros de Ixelles, Schaerbeek ou Saint-Gilles que ficamos com uma ideia do que esta arte representou para o edificado da cidade. Antes periféricos, hoje estes bairros são parte do coração da cidade e aqui sente-se um ambiente de gentrificação, sendo bairros vividos por diversas comunidades. 

Historicamente a Arte Nova ficou ligada à pujança da burguesia endinheirada que pretendia construir as suas moradias num estilo da época que se queria moderno, numa ruptura com os estilos do passado, ainda que respeitando alguns elementos antigos. Até pela sua brevidade, a Arte Nova pode pois ser encarada como um estilo de transição, à qual se seguiu a Arte Deco.

Toda uma experiência estética, progressista e afirmativa para uma nova burguesia que fizera fortuna recente com o desenvolvimento dos seus empreendimentos industriais e comerciais e tinha poder para encomendar o desenho das suas moradias a arquitectos de talento.

Em Bruxelas, a partir de 1893, dois arquitectos foram decisivos para tornar este movimento da Arte Nova central: Victor Horta e Paul Hankar. Victor Horta tem mesmo um museu que lhe é dedicado, instalado naquela que foi a sua moradia pessoal e atelier em Saint-Gilles.

O que caracteriza então este movimento? É, desde logo, um movimento transversal, não se limitando à arquitectura, mas manifestando-se igualmente nas artes decorativas, na criação de cartazes, na cerâmica, entre outros.

Atendo-nos à sua arquitectura, de sensibilidade humanista e com preocupações de harmonia com a natureza, a Arte Nova caracteriza-se pelo uso de materiais como ferro forjado, vidro, madeiras preciosas e mármore. Nas fachadas é visível a utilização de estruturas metálicas na sua decoração. A atenção posta nos pormenores é evidente e não só nas fachadas, mas também nas portas e seus puxadores, nas rampas de escadas, balaustradas e no interior no mobiliário, lâmpadas e demais objectos. Há um excesso de ornamentação e as linhas e formas denotam alguma sinuosidade, sendo as cores e a luminosidade que se pretende que flua nos interiores de todas as divisões outro aspecto a merecer relevância.

Alguns dos motivos dominantes da Arte Nova são os temas arabescos, a figura da mulher e elementos naturalistas como plantas e animais.

Em Bruxelas a associação urbanística ARAU (http://www.arau.org/en/t/1-brussels-1900-art-nouveau/1) promove visitas temáticas no sentido de se entender as origens, técnicas e características da Arte Nova na cidade.

Alguns exemplos de edifícios em Arte Nova em Bruxelas.



Edifício Old England, hoje Museu dos Instrumentos Musicais, projecto de Paul Saintenoy, construído entre 1898-99.
Este exemplo é incontornável e quase impossível de escapar a qualquer visitante de Bruxelas, tal é a sua localização, bem junto ao Palácio e Museus Reais de Belas Artes.
De seis andares, originalmente dedicados a lojas, a sua fachada frontal cheia de fantasia cativa. É toda envidraçada, num complexo de ferro fundido e aço, em cor preta. Num dos lados do topo tem uma torre feita de ferros entrelaçados.


Maison Cauchie, projecto de Paul Cauchie, construída em 1906, com morada no número 5 da Rue des Francs, para lá do Parque do Cinquentenário. 
Aqui a decoração por meio de esgrafitos na fachada surpreende, com a pintura de diversas figuras femininas no topo e uma só no segundo piso numa pose aparentemente reivindicativa anunciando "Par Nous, Por Nous".

(sem foto)
Casa Victor Horta, projecto de Victor Horta, construída entre 1898-1901, nos números 23 e 25 da Rue Americaine, em Ixelles.
Aqui ficava o antigo atelier e casa deste arquitecto, agora tornado museu. Não tive oportunidade de visitar o seu interior, que é a maior riqueza desta casa, em especial o uso que o arquitecto faz da luz natural e os pormenores nos corrimãos e mobiliário. 
As fachadas dos dois edifícios contíguos (casa e atelier) são em pedra, mas também é aqui visível o uso do ferro fundido na coluna que suporta o primeiro andar e o uso do vidro no segundo andar.
As janelas em curva são outra marca distintiva.



Loja de têxteis Waucquez, hoje Centro Belga de Banda Desenhada, projecto de Victor Horta, construído entre 1903-06 bem no centro de Bruxelas.
Edifício de dois andares, o estilo em Arte Nova da sua fachada talvez não seja muito óbvio, com recurso ao uso da pedra e vidro e não do metal. O interior deste edifício, o único sobrevivente dos seis edifícios para grandes lojas que Victor Horta projectou, é um claro exemplo de um uso superior da luz nos espaços interiores. São ainda visíveis os elementos em ferro plenos de curvas nas escadas e corrimãos.
 

Maison Saint-Cyr, projecto de Gustave Strauven, construída em 1900 na Praça Ambiorix, no bairro Leopold.
Edifício estreito e alto, este é um exemplo da exuberância que a Arte Nova pode tomar. A sua fachada está profusamente ocupada com um trabalho intrincado de ferro nas varandas com uma loggia redonda no topo. O tom verde claro do ferro contrasta com as linhas quase alaranjadas das janelas em vidro, dando ainda mais alegria e fantasia a este edifício.

Maison Autrique, um dos primeiros projectos de Victor Horta, construída em 1893, no número 226 da Chaussée de Haecht, em Schaerbeek.
Aqui estávamos nos primórdios da arte nova. A fachada é discreta, em pedra branca com as juntas definidas por linhas a vermelho.


Aqui perto, na Avenida Louis Bertrand, encontramos outro exemplo de Arte Nova, com a entrada de um edifício cheia de ferros entrelaçados. 

Numa sua perpendicular, na Rue Josaphat, damos de caras com um Ginásio assinado por Henri Jacobs, topo arredondado com pequenas colunas a sustentá-lo.

Por fim, a Maison du Peuple, obra prima de Victor Horta. A esta poucos de nós lhe pôs a vista em cima, uma vez que foi destruída em 1965 para ser substituída pela incaracterística Torre Sablon. Diz-se da Casa do Povo que era um hino à liberdade de pensamento e criação, denotando as preocupações morais e até humanistas subjacentes à Arte Nova. Criada em 1895 por Victor Horta, a pedido do Partido Operário Belga, este edifício acolhia escritórios, salas de reunião e de espectáculos, em plena comunhão com a vizinha Igreja Notre-Dame-de-la-Chapelle. 
Os protestos contra a sua destruição foram em vão.

sábado, setembro 19, 2015

Bruxelas, Capital da Banda Desenhada

Se preciso fosse, um bom pretexto para visitar Bruxelas é o tema da banda desenhada.
Para mim, que desde pequena convivi com os livros de Lucky Luke e Michel Vaillant, ao lado dos tios patinhas, e até hoje sou fã de quase qualquer livro em quadrinhos, prefira chamar-se-lhe bd, comics ou novela gráfica, Bruxelas seria sempre um ponto alto na minha decisão de passear por uma cidade.
Por todo o centro da cidade, basta estar atento às paredes e empenas dos edifícios e logo surge um dos heróis da bd. Não precisam de ser originalmente belgas, mas de personagens belgas não nos chegam os dedos de todo o corpo para os contar. Alguns exemplos com Tintin à cabeça, pois claro: Spirou, Quick et Flupke (ou Quim e Filipe), os Estrunfes, Blake e Mortimer, Lucky Luke, Gaston Lagaffe, Ric Hochet, Thorgal, Largo Winch, Le Chat e tantos mais.
Face a todo este património, é bastante óbvio e necessário que tenha aparecido em 1991 um projecto de arte mural que se propôs a pintar uns quantos edifícios inspirando-se precisamente em grandes autores da banda desenhada. Tanto serve de homenagem a estes autores e seus (nossos) heróis, como é uma excelente forma de seguirmos pelas ruas de Bruxelas, afastando-nos dos lugares mais batidos, passando a conhecer espaços que de outra forma talvez não déssemos por eles. 
Um exemplo: numa visita rápida a Bruxelas, porquê passar para além do  Quai aux Briques, em Santa Catarina, e seguir até ao Quaix des Péniches? Para ver para crer que há ainda um bocado do rio Senne em Bruxelas, materializado no canal de Charleroi? Não. Para ver Corto Maltese, do italiano Hugo Pratt, nas paredes de um edifício deste cais. Corto, meu herói supremo nestas coisas da bd.


Corto Maltese (Hugo Pratt), Quai de Péniches, 2009

Mas o primeiro mural a aparecer na cidade foi o de Broussaille, inaugurado logo em 1991 segundo um projecto original de Frank Pé. É provavelmente um dos mais conhecidos e até talvez já um dos símbolos de Bruxelas, os dois amigos que caminham felizes, numa parede da Rua du Marché au Charbon, bem perto da Grand Place.

Broussaille (Frank Pé), Rua du Marché au Charbon, 1991

De todos os murais, o meu preferido será talvez o de Tibet & Duchateau, com o personagem Ric Hochet, na Rua de Bon Secours, igualmente perto da Grand Place. Pena que, à semelhança de muitos outros, este mural esteja rabiscado.

Ric Hochet (Tibet & Duchateau), Rua de Bon Secours, 1992

Como não podia deixar de ser, Lucky Luke, Asterix e Blake e Mortimer também marcam presença neste itinerário de arte mural da banda desenhada.

Lucky Luke (Morris) e os assaltantes irmãos Dalton na Rua de la Bouanderie, 1992

Asterix e Obelix (Urdezo e Goscinny) também na Rua de la Bouanderie, dentro do ringue de um jardim de infância, 2005

Blake e Mortimer (Edgar P. Jacobs) na Rua du Petit Rempart, perto de um estranho bloco de edifícios abandonados, 1997

Hergé, esse, não podia faltar. 
Quer com Tintin, 

Rua de Le Etuve, 2005

Gare du Midi

Quer com Quick et Flupke, Rue Haute, bairro de Marolles, 1995 

No Marolles encontramos ainda:

Blondin e Cirage (Jijé), Rue des Capucins, 1998

Odilon Verjus (Laurent Verron), também na Rue des Capucins, 2004
(Josephine Baker)

Existe uma série de entidades que se propõem a guiar o curioso por itinerários de bd na cidade. No entanto, parece-me que não há nada melhor do que fazer o trabalho de casa e visitar aqueles murais que se quer mesmo ver e deixar que o acaso dos nossos passos nos deixe frente a frente aos outros que nos irão, certamente, surpreender em igual medida.


Qualquer apaixonado ou tão somente curioso da banda desenhada não deve perder uma visita ao Centro Belga da Banda Desenhada. Ainda para mais, o edifício que acolhe este museu é um dos muitos exemplos de arte nova que ainda persistem por Bruxelas. Este Centro Belga da Banda Desenhada abarca esta arte de um ponto de vista internacional, procurando mostrar que já desde o tempo da pré-história os homens se expressavam visualmente nas paredes rochosas das cavernas. Mostra-nos também, no início da sua exposição permanente, a influência que o americano Winsor McCay, em especial com a sua personagem Little Nemo, criada no princípio do século passado, veio a ter junto dos autores que se lhe seguiram. Para além de uma mostra dos vários temas a que a bd tem vindo a dedicar-se, é ainda possível vermos várias técnicas utilizadas pelos seus autores para chegarem até ao produto final. Depois, existe o espaço Hergé (Tintin), o espaço Peyo (Estrunfes) e exposições temporárias, para além de um centro de documentação e uma livraria.



Outro ponto obrigatório, mas este implicando uma fuga de Bruxelas, é a visita ao Museu Hergé. Em Louvain-la-Neuve está instalado desde 2009 o Museu Hergé, num projecto arquitectónico de Christian de Portzamparc (Prémio Pritzker em 1994). De Bruxelas a Louvain-la-Neuve são cerca de 60 minutos, com frequência de um comboio por hora. Esta cidade foi criada após os conflitos académicos linguísticos entre flamengos e francófonos na cidade universitária de Louvain nos anos 60 do século passado. Hoje é uma cidade completamente planeada, com residências universitárias e blocos correspondentes às várias faculdades. 
O Museu Hergé, a uma curtíssima caminhada desde a estação do comboio e praça principal da cidade, parece que não é muito popular entre os locais, sendo visitado sobretudo por forasteiros. De qualquer forma, a sua arquitectura é muito interessante, futurista até. 
O museu tem três pisos visitáveis, incluindo espaço expositivo, café e livraria. Dedicado à vida de Hergé (1907-1983), Georges Remi de seu nome (RG são as iniciais do seu nome ao contrário), este belga entrou definitivamente na história ao ter criado a personagem de Tintin, o intrépido jornalista, sempre pronto para aventuras um pouco por todo o mundo e até na lua - chegou lá primeiro que Neil Armstrong.
Hergé começou por criar a personagem Totor, um escuteiro como ele. Muitas outras se seguiriam, mas Tintin tudo absorveu. Neste museu, para além das suas personagens, com especial incisão no mundo de Tintin e países por ele visitado, vemos também objectos do mundo de Hergé e diversos vídeos. A finalizar, as pinturas que Andy Warhol realizou de Hergé.

sexta-feira, setembro 11, 2015

Somerset Maugham - Um Gentleman na Ásia


Somerset Maugham (1874-1965) é autor de muitos e aclamados livros. 
Em Um Gentleman na Ásia, que tem como título original The Gentleman in the Parlour, onde se deixa envolver pela espécie literatura de viagens, diz logo ao que vem: "Sendo escritor podia viver por outras pessoas uma vida que eu próprio não podia ter."
Ao longo de toda esta obra a ironia e uma forma de discurso directo, sem intermediários para com o leitor, são uma presença constante e marcante.
"Para que o leitor destas páginas não seja vítima de nenhum equívoco, apresso-me a dizer-lhe que pouca será a informação que encontrará aqui. Este livro é o relato de uma viagem pela Birmânia, os estados shan, o Sião e a Indochina. Estou a escrevê-lo para meu próprio entretenimento e espero que também sirva para entreter quem se der ao trabalho de dedicar algumas horas à sua leitura. Sou um escritor profissional e, com este livro, espero ganhar algum dinheiro e quiçá alguns elogios.".
Mais, "Embora seja muito viajado, sou mau viajante. O bom viajante tem o dom de surpreender-se. Tem um interesse perpétuo pelas diferenças que encontra entre o que conhece no seu país e o que vê no estrangeiro. Se possuir um sentido apurado do absurdo, encontra constantemente motivo para se rir do facto de as pessoas que o rodeiam não se vestirem como ele e não consegue deixar de se espantar por aquelas pessoas comerem com pauzinhos e não com garfos ou escreverem com um pincel e não com uma caneta. Como tudo lhe é estranho, repara em tudo, o que, consoante o seu estado de espírito, pode ser divertido ou edificante. Já eu tomo tudo por certo tão rapidamente, que deixo de ver o que seja de invulgar no meu novo ambiente."
Claro o bastante, não há aqui concessões a um eventual leitor, em especial àquele (bom) viajante que se deslumbra facilmente (como eu) e gosta de ler relatos de deslumbres semelhantes escritos por grandes escritores (como eu, novamente).
E Maugham é Mestre. Sem favores vai relatando o que lhe dá vontade e nós, leitores, sentimos sem cinismo que muito do que relata pode não ter acontecido. Mas o que interessa é que a sua imaginação faz a nossa fluir e a leitura prende-nos de princípio ao fim. E diverte-nos. 
Alguns exemplos: "Tenho receio de pessoas muito simpáticas. É gente que nos consome. E acabamos imolados ao exercício do seu dom fascinante e da sua insinceridade."; "As viagens por rio são monótonas e relaxantes. São iguais em qualquer parte do mundo, não há responsabilidade que nos pese nos ombros. A vida é fácil."; "Preferia mil vezes que Proust me entediasse do que qualquer outra pessoa me divertisse.".
O episódio do seu encontro com um padre italiano em terras dos shans é daqueles que não interessa se aconteceu mesmo. Interessam, sim, as palavras que Maugham dedica ao budismo pela boca do dito padre, segundo o qual o budismo é uma religião belíssima e que, por isso, não conseguia fazer nada com os shans, satisfeitos com a sua religião.
No Sião, actual Tailândia, Budas e wats é o que não falta para ver. Sobre estes monumentos escreveu Maugham que "lancei um olhar impaciente a mais um Buda de proporções imensas. E mais um, e mais outro" e "os wats angustiavam-me com a sua magnificência berrante e faziam-me doer a cabeça, e os seus ornamentos fantásticos enchiam-me de mal-estar". Afinal, a culpa não era dos wats e o escritor viajante tinha acabado de adoecer com malária.
Sobre Banguecoque, capital da Tailândia, uma opinião surpreendente: "é impossível olhar para estas cidades mornas e populosas do Oriente sem sentir um certo mal-estar. São todas iguais, com ruas estreitas, arcadas, linhas de eléctrico, poeira, sol ofuscaste, chineses por todos o lado, tráfego compacto e ruído incessante, não têm historia nem tradições. Não inspiraram pintores. Nem há poetas que, transfigurando tijolos e argamassas sem vida com a sua divina nostalgia, lhes tenham transmitido uma melancolia formidável, que não lhes era própria. Vivem a sua vida, sem associações, como um homem sem imaginação. São duras e resplandecentes, e tão irreais como o pano de fundo de uma comédia musical. Não nos dão nada. Mas quando as deixamos, temos a sensação de que alguma coisa nos passou ao lado e não conseguimos deixar de pensar que têm algum segredo que nos ocultaram. E, embora se tenha sentido algum tédio enquanto lá estivemos, recordamo-las com nostalgia."
O Vietname não lhe parece ter suscitado grandes estados de alma. De Saigão, a sua apreciação é mordaz, dizendo que "tem o ar de uma vila provinciana do sul de França", sendo "agradável para se passar alguns dias de ócio", destacando o mítico Hotel Intercontinental. Hué, por sua vez, "não é imponente" e de Hanoi diz não ter encontrado nada que lhe interessasse muito (umas décadas após Somerset Maugham, como deslumbradinha que sou, ainda para mais na primeira visita à Ásia, visitei estas três cidades e a mim encheram-me as medidas. Hué é um excelente poiso para se tocar o olhar de primeira viagem nas cidades imperiais que vemos depois quer na China - Pequim com a sua Cidade Proibida - quer na Índia - Agra com a sua Fatehpur Sikri).
Pelo contrário, sobre os templos Angkor, eleitos recentemente pela Lonely Planet como a maior experiência que o viajante pode ter no mundo, a sua opinião é mais próxima daquela que qualquer um de nós que já os visitou pode ter, sem deixar de a expor de uma forma única e sincera: "mas, agora eu chego a esta parte do meu livro, sou assaltado por um sentimento de consternação. Nunca vi nada no mundo que me maravilhasse tanto como os templos de Angkor, mas não sei como hei-de fazer deles uma descrição que transmita ao leitor de grande sensibilidade algo mais do que uma impressão confusa e vaga da sua grandeza".
Pese embora o encantamento de este e de outros locais desta Ásia visitada por Maugham, o autor conclui de forma brilhante e inequívoca sobre o sentido maior que ela acabou por lhe revelar: "Pareceu-me então que, nestes países do Oriente, o monumento da Antiguidade que mais impressiona, que mais respeito inspira, não é nem um templo, nem uma cidadela, nem uma grande muralha, mas o homem. O camponês, com os seus costumes imemoriais, é de uma época muito mais antiga do que Angkor Wat, a Grande Muralha da China ou as Pirâmides do Egipto. Foi com surpresa que descobri como tinha mudado pouco a vida destas pessoas no espaço de mil anos. Continuam a fazer as mesmas coisas com os mesmos utensílios.".

sexta-feira, setembro 04, 2015

As Fronteiras

À partida para a viagem por alguns dos países dos Balcãs levava desde logo a ideia da necessidade de passar de uns para os outros pelas suas fronteiras terrestres (Croácia para Bósnia; Croácia para Montenegro; Montenegro para Albânia; Albânia para Macedónia).
Ouve-se hoje dizer amiúde que já não há fronteiras e a nossa experiência será maioritariamente a de ir directamente de avião para um local ou percorrer a Europa do espaço Schengen onde as fronteiras físicas não se sentem mais.

Aqui nos Balcãs recordei as palavras de Ryszard Kapuscinski nas suas Andanças com Heródoto: 

"(...) ao chegar à fronteira, as terras tornavam-se mais vazias, as pessoas escasseavam. Aquele vazio potenciava o carácter misterioso daqueles lugares. Reparei também que nas zonas fronteiriças reinava o silêncio, o mistério e o silêncio intrigavam e atraiam. Era tentado a ver o que estava do outro lado. Imaginava o que é que se podia sentir ou pensar ao atravessar a fronteira. Deve ser um momento de grande emoção, de tensão, de inquietude. Como será do outro lado? Seguramente é diferente. Mas que significa diferente? Parecido com quê?"

Albânia

A escolha da Albânia para participar no nosso tour não passava ao início de um adereço, um complemento a algo que julgávamos mais importante. Dava jeito fazê-la parte do programa para que por ela passássemos a caminho do Ohrid, na Macedónia, e como porta de saída para o retorno ao nosso país. Mas como aqueles actores secundários que provam entretanto toda a sua qualidade, arrebatando o protagonismo às estrelas, assim foi a Albânia para nós. 

E, no entanto, foi tão pouco o que visitámos, apenas Berat e Tirana; tanto o que ficou por conhecer, em especial as tão desejadas - pela mana - praias do sul. Mas - opinião unânime do trio - foi aqui que melhor nos sentimos e encontramos as pessoas mais dadas e simpáticas (tirando a nossa #elianamonamour).

Não foram poucas as vezes que os albaneses se nos dirigiram para tentar comunicar conosco, mesmo que nada falassem para além do albanês ou não passassem de umas poucas palavras italianas. A senhora vestida toda de preto, igual às viúvas portuguesas, mostrando três dedos da mão, cada um deles correspondendo aos três filhos emigrados; o funcionário / guia da mesquita antiga de Berat, com os seus capisce após cada vinte palavras albanesas e duas italianas. Todos ficarão nas nossas memórias pela disponibilidade e simpatia.

A Albânia é Europa, mas custa a acreditar, sobretudo quando se a visita. 

A Shqiperia, como se autodenominam os albaneses, sobreviveu ao comunismo e hoje está ainda muito fora dos circuitos turísticos. O que parece impossível se pensarmos que a sua costa está encravada entre as super populares costas do Montenegro e da Grécia.


Cortesia do regime comunista dessa irreal figura chamada Enver Hoxha, o ditador da terra. Não, não é uma figura irreal; aconteceu mesmo e deixou muitas marcas. Como a quantidade enorme de bunkers que vemos pelo caminho, nas estradas ou nas cidades. Eles são omnipresentes e crê-se que o regime terá construído cerca de 750 mil bunkers entre os anos 1950 e 1985. Estas estruturas de concreto e betão eram indestrutíveis e deveram-se à paranóia do ditador depois de se ter incompatibilizado com a Rússia, primeiro, com a China, depois, com o mundo, por fim. Foram muitos os anos de isolamento (até 1991, com o fim do comunismo) e hoje a Albânia tenta voltar à vida.
Antes, porém, à semelhança dos outros países que compõem os Balcãs, a Albânia viu passar pelo seu território os ilíacos, os gregos, os sérvios e os otomanos, bem como os venezianos na costa. No século XV o herói nacional Skanderberg (que dá hoje o nome à principal praça da capital Tirana) liderou a resistência contra os turcos. Bem mais tarde, já no século XX os italianos guiados por Mussolini ocuparam a Albânia. Os italianos ainda hoje têm aqui alguma influência, afinal de contas Itália fica muito perto em linha recta, com o Mar Adriático apenas a separar os dois países. Muitos albaneses arranham umas quantas palavras italianas, uma vez que os canais de Itália emitem também aqui.

Depois da II Grande Guerra Mundial os alemães foram corridos da Albânia e chegou então a vez do comunismo moldar o país. Em 1946 foi proclamada a República Popular da Albânia, com Enver Hoxha como presidente e camarada supremo. A sua morte em 1985 e o ano de 1990, com os acontecimentos pós queda do Muro de Berlim que se deram na Europa de leste, inspiraram os albaneses e as manifestações sucederam-se, levando a uma abertura e eleições democrática no país. Desde aí o parque automóvel albanês, que não passava de 10 mil automóveis (a maioria conduzidos por oficiais do partido), não pára de aumentar, sendo hoje cerca de 300 mil os carros que fazem do trânsito no país uma loucura.  

Continuando, então, nos dias de hoje e na nossa viagem, entrámos na Albânia por Shkodra, vindas de autocarro do Montenegro. Às 7 horas da manhã a cidade, uma das mais antigas da Europa, já estava a bombar de movimento nas ruas, indivíduos para lá e para cá, lojas abertas à primeira alvorada.
Daqui teríamos que seguir para Tirana. Uma furgoneta albanesa esperava os viajantes do Montenegro e pediu-nos 5 euros por pessoa pela viagem, preço que considerámos bastante aceitável uma vez que no trajecto anterior, muito mais curto, havíamos pago 7 euros. Sem que nos apercebêssemos, deu-se uma confusão e uma discussão entre os motoristas (o do Montenegro e a da Albânia), num regateio de preço com gritos e quase empurrões, com o preço a ficar estabelecido nos 3 (?) euros para uma viagem de cerca de 2 horas. Não foi a nosso pedido, entrámos no veículo com algumas dúvidas de que ele fosse capaz de chegar ao seu destino, e embalámos num sono ao som de uma conversa entre outros passageiros em que só entendíamos a palavra "máfia". Durante a estadia na Albânia não vimos nenhuma máfia, mas confirmaríamos que os preços aqui praticados são mesmo muito baixos - refeições completas bem saborosas a 5 euros por pessoa, gelados a 14 cêntimos, enfim, preços que não são da Europa.

Depois de atravessarmos parte do centro do país rumo a Ohrid, na Macedónia, regressámos e estabelecemo-nos em Berat.



Berat, classificada pela Unesco como património da humanidade, é uma cidade de clara influência otomana, mais conhecida como a "cidade das 1000 janelas". Oferece-nos uma quantidade infinita de casas brancas de telha ocre escurecida com janelas definidas por um castanho que as realça. Todas estas personagens estão plantadas nas montanhas, uma de cada lado, atravessadas por um rio praticamente seco. Se o rio não é bonito, o nosso olhar dirige-se quase por inteiro para aquele emaranhado de casas e janelas, construídas em ruas empedradas estreitas em que é fácil deixar-nos perder. 



Ao caminhar pelas ruas inclinadas no quarteirão de Magalem fomos convidadas para um jantar familiar. Recusámos mas não deixámos de provar a deliciosa cozinha albanesa, com um sabor muitíssimo bem apurado, a melhor de todos os países balcânicos que visitámos. Talvez também por isso, porque uma viagem não pode ser inteira sem sentir os sabores dos sítios, a Albânia nos cativou.
Para além da beleza da disposição destas casas de janelas peculiares e da sua cozinha, em Berat deixamos-nos seduzir pelas pessoas. O funcionário da mesquita antiga da cidade foi-nos explicando pacientemente que nos tempos do comunismo a mesquita foi uma sala de jogos de pingue-pongue umas vezes e um supermercado noutras. A religião não era, então, bem vista. Apesar de o islão ser a religião maioritária entre os albaneses, cerca de metade deles parece declarar não ter qualquer religião. Curiosamente, a figura albanesa mais conhecida em todo o mundo é a Madre Teresa de Calcutá, cristã. 

Voltando à explicação dada pelo nosso amigo, o islão professado na Albânia é um islão de tipo sufi, mais moderado e tolerante aos outros. Ouvi-o com indisfarçável interesse, certamente o meu olhar não enganava, eu que tenho muita curiosidade pelo islamismo, e ainda tremo de emoção só de pensar no momento em que o meu amigo albanês me ofereceu um Alcorão em albanês e em árabe. A simpatia não tem limites. 


Em Berat há ainda a visitar o castelo, lá bem no alto, uma jornada algo extenuante - para cima porque doem as pernas e a respiração arfa, para baixo porque as pedras de que é feito o chão fazem os nossos passos escorregar. Mas vale a pena, quando mais não seja pela visita ao Museu Onufri, o maior pintor albanês, que entre os séculos XVI e XVII pintou uns ícones belíssimos.




Se em Berat, que é uma terra pequena, vêem-se poucos turistas, em Tirana devemos ter-nos cruzado cada uma com uma mão cheia deles. Ficámos alojadas perto do mercado da capital, onde gabámos as azeitonas aos montes. Ainda a salivar por elas, ao jantar pedimos como entrada um prato de azeitonas e qual não foi o nosso espanto quando demos com um prato normal e inteiro delas, uma rodela de laranja a apurar o sabor. Melancias, essas, vêem-se por todo o lado, no mercado, sim, mas também na beira das estradas, enormes.




Toda a zona a leste da Praça Skanderberg parece ser um enorme mercado. As ruas são tomadas pelos objectos que se pretendem vender, desde bicicletas a sofás, livros, ventoinhas, o que calhar, numa extensão das lojas que ocupam o piso térreo dos edifícios. Estes estão um bocado decrépitos, se não inteiramente em ruínas parece que alguns podem cair a qualquer momento. O urbanismo não é bonito. Muito haverá a fazer na Albânia antes ou ao mesmo tempo do que a conservação do edificado. Mas Tirana possui uma ideia - concretizada - muito bonita e interessante: umas pinceladas aqui e ali em alguns blocos de apartamentos dão-lhe um colorido e uma alegria inesperados.




Tirana é uma cidade segura. O seu centro desenvolve-se ao redor da Praça Skanderberg (tornado herói para defesa de uma causa nacionalista), uma zona bem cuidada onde para além dos hotéis  ficam instalados quase todos os locais de interesse para os forasteiros. Aqui fica a Mesquita Et'hem Bey, o Museu de História Nacional com o fantástico mural socialista a encimar a sua fachada, a Ópera e Teatro Nacionais e diversos edifícios que albergam ministérios. Apesar da arquitectura de inspiração estalinista, não chocam as suas proporções, pelo contrário, é uma zona equilibrada. Aqui perto fica ainda a Galeria de Arte Nacional. O edifício de linhas rectas é bonito e a sua colecção é muito interessante. Logicamente, dominam as temáticas socialistas, algumas grandiosas, com o povo laboriosamente a trabalhar para a construção de uma sociedade comum.



No jardim do outro lado da avenida encontramos mais uns quantos bunkers, convivendo pacatamente junto a bancos coloridos. 


Tirana tem vida e ela não é artificialmente criada por umas simples pinceladas de cor, como surpreendentemente constataríamos após uma caminhada pelo quarteirão Blloku. Nos tempos do comunismo este bairro era onde estavam instaladas as moradias dos líderes políticos do país, lugar de acesso vedado ao comum dos cidadãos. Hoje é ocupado pela classe média alta que reside nos seus apartamentos de bom ar e consome nas suas lojas, bares e restaurantes. E, sobretudo, diverte-se nesta zona animada da cidade. A ocupação dos passeios pelas esplanadas e os portões de acesso aos edifícios fizeram-nos lembrar as ruas da zona sul do Rio de Janeiro. Até o calor e noite quente ajudou a essa lembrança. 




Percorrer as ruas deste bairro a oeste da Avenida Skanderberg é, pois, muito agradável. Uma subida ao topo do edifício do Sky Club Bar permite-nos conhecer Tirana por um outro prisma e ter uma melhor noção da sua implantação. As montanhas cercam-na e a amálgama de edifícios coloridos é aqui também evidente.




Antes disso, porém, já tínhamos tido oportunidade de ver a cidade de um outro ponto elevado, embora nem pouco mais ou menos tão alto como o do Sky Club Bar. A estranha Pirâmide, construção de 1988 de iniciativa do ditador Enver Hoxha, cujo projecto ficou a cargo da sua filha e genro, já foi um museu, um centro de convenções e mais recentemente um clube nocturno. Ninguém sabe o que fazer com ela e enquanto isso, votada ao abandono, vai sendo grafitada e os seus vidros vão sendo deixados partidos. O ar é de fim de festa. No entanto, apesar do absurdo desta estrutura no contexto urbanístico, conseguimo-nos divertir por aqui, mais um sinal do bom e descontraído ambiente que se sente em Tirana. À partida a subida até ao seu cume parecia missão só para uns quantos destemidos, como o trio de rapazes que observávamos desde cá debaixo, tal era a inclinação das paredes da pirâmide. Mas, enchendo-nos de coragem, não desdenhámos um desafio e uma aventura e lá fomos por ali a cima, o trio de portuguesas rumo ao pináculo do maior símbolo da decadência do antigo regime na capital da Albânia, a terra da águia.