quinta-feira, outubro 22, 2015

Universidade de Coimbra – Alta e Sofia

Coimbra estará no imaginário de quase todos os portugueses. Não arrisco dizer que todos nós sentimos um carinho especial por esta cidade, capital de Portugal antes de Lisboa, mas arrisco dizer que aquela que até há poucas décadas foi a terceira cidade do país gera simpatia na maior parte dos portugueses. 

Não só pela universidade que formou historicamente a elite portuguesa, numa dialética muito particular e intensa com a cidade, mas também pelas históricas românticas de que foi palco. Pedro e Inês amaram-se aqui, na Quinta das Lágrimas; a Rainha Santa Isabel escolheu recolher-se para o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha após a morte de seu marido, D. Dinis, rei de Portugal. Este Mosteiro sofreu nos últimos séculos com a subida das águas do Mondego, outro elemento essencial na imagem de Coimbra, e neste milénio aparece com vida nova, após anos de restauro.

Para mim Coimbra sempre foi um ponto de passagem nas idas para a Aldeia das Dez, freguesia do distrito de Coimbra. Quando o caminho até lá durava horas intermináveis, sabia bem parar no Portugal dos Pequenitos, o qual não nos parecia assim tão pequeno. Habituei-me a ouvir falar de Coimbra como um centro de excelência no domínio da saúde, uma vez que no Portugal dos anos 80 (e ainda hoje) era aos seus hospitais que os habitantes da Serra tinham de se deslocar. Mas, sobretudo, Coimbra era (e é) a Académica, paixão do pai legada à filha, sem que todavia esta lá tivesse estudado ou jogado rugby. 

Em 2013, depois de muitos anos na expectativa, a Unesco classificou a "Universidade de Coimbra – Alta e Sofia" como Património Mundial da Humanidade.
Cidade média do Portugal de hoje (a sétima em população segundo o último censo), nem por isso é possível conhecer Coimbra num dia. Aproveitando a Corrida do Conhecimento (uma das Running Wonders) de há dois fins de semana, com partida na Universidade e chegada junto ao Mondego - da Alta à Baixa - fizemos o aquecimento no dia anterior e os alongamentos pós-corrida caminhando pela área agora reconhecida institucionalmente como possuindo um valor internacional de excelência. Como não podia deixar de ser, muito mais que merecia uma visita ficou de fora.



De quase qualquer ponto de Coimbra se avista destacada na paisagem a Torre da Universidade (construída entre 1728 e 1733). Ela surge por entre os edifícios das ruas medievais da cidade ou até da outra margem do Mondego.

A Universidade de Coimbra, uma das mais antigas da Europa, está situada na parte Alta da cidade, num monte debruçado sobre esta, como se fosse a sua guardiã. E para todos os efeitos é mesmo. Crê-se que a Universidade tenha sido fundada em 1290 e desde aí foram sendo criados toda uma série de edifícios e colégios a ela relacionados que se foram desenvolvendo ao longo dos séculos por toda a cidade. A Rua da Sofia, na Baixa da cidade, uma das mais míticas, era disso exemplo: colégios de um lado, comércio do outro. O planeamento desta Rua constituiu uma novidade na época mesmo em termos europeus, rompendo com o traço medieval e aqui instituindo 27 colégios, dos quais sete ainda se mantém. Na Igreja de Santa Cruz, onde está sepultado D. Afonso Henriques, tem a Rua da Sofia - sabedoria - o seu início.

Coimbra é desde então um exemplo excepcional de cidade universitária, com a sua cidade e universidade em plena comunhão. 


O Paço Real da Alcáçova, na Alta, que D. Afonso Henriques tornou primeiro paço real do país e onde habitou - aqui nasceram quase todos os reis da primeira dinastia -, é hoje o Paço das Escolas, já não centro do poder político, mas agora centro do poder do conhecimento. Desde 1537, data em que a universidade em Portugal passou a estar exclusivamente em Coimbra, este Paço é o centro da vida universitária. O espaço é belíssimo, piso bem desenhado, árvores aqui e ali, telhas que preenchem os edifícios do Paço formando um conjunto pictórico superior, onde o óbvio domínio do ocre é pincelado por um verde forte, estátua de D. João II de costas para o Mondego, mas de frente para a Torre da Universidade e para a Via Latina. A Via Latina é uma galeria com colunas à qual se acede por uma escadaria belíssima. Para além da entrada desta espécie de arco triangular, em que as esculturas dominam, fica a Sala dos Capelos, antes Sala do Trono. Não se pode imaginar maior solenidade decorativa para acolher os actos mais importantes da Universidade: rodeados de retratos dos reis de Portugal, quer os reitores que tomam posse ou iniciam o ano lectivo quer os estudantes que defendem as suas teses de doutoramento têm de se sujeitar a doses de simbolismo e tradição para prosseguir os rituais ancestrais da Universidade. 




Para além destas belezas, dentro do Paço fica ainda a Capela de São Miguel e seu órgão (coberto para restauro quando o visitámos) e a soberba Biblioteca Joanina. Este é o edifício que ninguém quer deixar de visitar, mesmo que para isso tenha que esperar horas pela entrada, a qual se faz em grupos limitados de indivíduos de 20 em 20 minutos.


A construção da Biblioteca Joanina teve início em 1717 por iniciativa de D. João V e originalmente era a livraria de estudo da Universidade. Na fachada domina o portal que faz as vezes de arco do triunfo, com o Escudo Real ao centro. Lá dentro são três andares (o mais baixo foi prisão académica), mas é o piso da Biblioteca, distribuído por três salas, que nos hipnotiza e deslumbra. As estantes da Biblioteca em madeira dourada preenchem todo o espaço, dividido por dois lanços de prateleiras separadas por um belo varandim. Os tectos rivalizam com as edições luxuosas e raras dos livros (cerca de duzentos mil, datados de entre os séculos XVI e XVIII) que são donos da Biblioteca. Eles e os seus amigos morcegos, que os protegem das traças que destroem as obras literárias.


A entrada do Paço das Escolas faz-se pela Porta Férrea, cujo portal é encimado pela figura da Sapiência, sendo ainda identificáveis na sua decoração imagens e símbolos ligados à Universidade e à realeza que contribuiu para o seu desenvolvimento. 




Cá fora a Universidade continua, mas agora os edifícios são já de outras épocas que não a medieval. É a cidade universitária da Reforma Pombalina do século XVIII e do Estado Novo dos anos 1940. Um dos aspectos que distinguem Coimbra como cidade universitária é a sua autenticidade mesmo se os seus edifícios mais distintos pertencem a diferentes épocas. A arquitectura de cada uma dessas épocas é representativa de cada um dos tempos, quer historicamente, artisticamente ou até ideologicamente, como é evidente nesta universidade mais recente. Com esta deu-se uma completa reorganização urbanística da zona alta da cidade, deixando-se as ruas estreitas rumo aos grandes espaços e edifícios modernistas, mas com influência do classicismo, acompanhados de estatutária representativa das ambições do período.

Até 1911 a Universidade de Coimbra foi a única de todo o mundo português colonial e ultramarino (após a sua instalação definitiva em 1537, colocando fim a anos de alternância entre Lisboa e Coimbra, e com excepção do período entre 1559 e 1759 em que existiu também a Universidade de Évora). Aliás, um dos critérios que levaram à sua distinção como Património Mundial da Humanidade foi o facto de a Universidade ter tido um papel determinante como centro de formação de uma elite dos territórios sob administração portuguesa e, com isso, ter sido um centro de produção de literatura e pensamento de língua portuguesa.

Por outro lado, para além do valor patrimonial do conjunto edificado, a Unesco realçou a Universidade de Coimbra como símbolo de uma cultura que produziu impacto na humanidade: a cultura e a língua portuguesa com dimensão mundial e capacidade de influenciar a humanidade. 

Da Coimbra Património da Humanidade faz ainda parte o Jardim Botânico, construído no tempo do Marquês de Pombal, o qual possui uma importância inestimável no domínio das ciências e património biológico. 


Do lado contrário ao Jardim Botânico e ao Aqueduto de São Sebastião (Arcos do Jardim) fica a Sé Velha, ainda na Alta e igualmente incluída no perímetro da classificação da Unesco. Edifício do século XII em estilo românico de tons amarelados, tem numa das suas laterais uma obra que parecendo estranha a uma primeira vista lhe acaba por assentar na perfeição. É a Porta Especiosa, construída no século XVI em estilo renascentista, em tom branco, obra escultórica atribuída a João de Ruão. 


No Museu de Machado de Castro (escultor régio conimbricence e nome maior da escultura portuguesa) encontramos muitas mais obras de qualidade ímpar, incluindo uns retábulos enormes também atribuídos a João de Ruão. Este Museu, a meio caminho do Convento de Jesus (hoje Sé Nova) e da Sé Velha, apesar de não estar incluído no perímetro da Unesco, é por si só uma verdadeira jóia, quer pela sua arquitectura, quer pelo espólio fantástico que acolhe. O complexo do Museu ocupa o espaço que pertencia ao Paço Episcopal de Coimbra e está assente sobre os vestígios arqueológicos da antiga cidade romana de Aeminium, (o percurso pelas galerias do Criptopórtico romano é todo um mundo aparte). Inaugurado em 1913, fechou para obras de requalificação e ampliação em 2006 e reabriu em 2012 com projecto do arquitecto Gonçalo Byrne premiado internacionalmente. O edifício novo que daqui surgiu está brilhantemente enquadrado com o antecedente e é ele que acolhe a superior colecção de escultura do Museu: até a Capela do Tesoureiro foi transladada para aqui. Mas não só de arqueologia e escultura trata este belíssimo Museu, um dos melhores do país: tem também obras de pintura, cerâmica, têxteis, mobiliário e ourivesaria. O acervo do Museu foi reunido de peças maioritariamente vindas de conventos, mosteiros, igrejas e colégios universitários da região de Coimbra. 



A vista da loggia do edifício antigo do Episcopado (e da nova esplanada da cafeteria e restaurante, igualmente projecto de Byrne) é uma das mais bonitas de toda a Coimbra, aberta à cidade velha e ao rio Mondego, juntando a este enquadramento cénico o ambiente inspirador dos arcos da passagem entre edifícios do Museu de Machado de Castro.


Voltando à Sé Velha, é essencial descer a Rua do Quebra Costas (para não ter de se subi-la e ficar a arfar), passando pelo Arco da Almedina e desembocando na Rua Ferreira Borges, centro da Baixa de Coimbra. Os últimos dois anos produziram uma verdadeira revolução no Quebra Costas e hoje esta zona declivosa está ocupada por lojas, restaurantes e bares para se beber e ouvir música (jazz e fado). A música é uma presença forte aqui e por toda a Coimbra. Sabe bem descer o Quebra Costas até à Almedina a ouvir Adriano Correia de Oliveira, não esquecendo que também Zeca Afonso por aqui passou.



Se Coimbra é uma lição, como diz o fado, Coimbra é também tradição e mais tradição. Muitos rituais de ontem mantém-se autênticos até hoje. Há os doutoramentos Honoris Causa, há a Abertura Solene das Aulas, há o cortejo da Latada e há os estudantes trajados, um símbolo da vida da cidade. Quando os turistas apanham um estudante vestido de capa e batina logo a curiosidade os faz cercarem-no, questionando sobre as cores, motivos, insígnias, tudo. 




E pelas ruas do centro, claro, não faltam as Repúblicas de estudantes, umas menos discretas na decoração exterior do que outras, a revelar a originalidade e criatividade dos seus habitantes. Outra constante pelas ruas estreitas da Alta, ao redor da Sé Velha, para além do ostensivo abandono do edificado, deixado a cair, é a inscrição de mensagens nas paredes: um activismo  feminista a um tempo, anti-praxe a outro. 


Apesar do adormecimento urbanístico da Coimbra velha, a massa crítica estudantil parece permanecer acordada e pronta a tomar posição na defesa dos valores que a move. Continuará Coimbra a influenciar a elite portuguesa?

terça-feira, outubro 13, 2015

Museus em Bruxelas, Bruges e Antuérpia

Opção é o que não falta. 
Como o meu interesse recai sobretudo na pintura e na arquitectura, a selecção estava feita à partida.

Por falta de tempo não visitei o Museu Horta, em Bruxelas, como desejava.
Mas visitei o Bozar (também conhecido como Palácio das Belas Artes) e os Museus Reais de Belas Artes de Bruxelas (que actualmente incluem o Musée Magritte, o Musée Old Masters e o Musée fin-de-siècle).

Em Bruges visitei o Groeningemuseum e o Arentshuis. 

Em Antuérpia o MAS, num edifício de arquitectura fantástica, e a Casa Plantin-Moretus, único museu do mundo distinguido com a classificação como património da humanidade pela Unesco.

Em Gent era segunda-feira, logo, dia de descanso cultural.

Seguindo uma fórmula inspirada em Lourenco Mutarelli no seu "A Arte de Produzir Efeito sem Causa", o qual classificava as mulheres com quem se cruzava no dia a dia segundo o tipo de relacionamento que com essas desejava ter em "comia", "casava" ou "mandava para a forca", e na impossibilidade de comer ou casar com um quadro e não o desejando mandar para a forca para evitar problemas que me impeçam futuras viagens, classificarei o meu gosto pelas obras que vi em "vendia", "comprava" ou "pedia emprestado".

Os Rubens e os Van Eyck vendia-os todos para arranjar € para as outras operações.

A Casa Plantin-Moretus pedia emprestada para aí estabelecer a minha biblioteca.



O MAS pedia igualmente emprestado para aí colocar as obras que compraria, designadamente todos os Brughels e o "Império das Luzes" de René Magritte.




Já que estamos no domínio da Bélgica, compraria ainda a "Vue de Bruxelles", de Jan Baptist Bonnecroy, "Les émigrants", de Eugène Laermans, e "Les affligés", de Frank Brangwyn.


Um aparte: neste momento Ai Weiwei, considerado o maior artista chinês, vê ser-lhe dedicada uma grande exposição em Londres. Em Bruxelas o Bozar tinha até ao final de Agosto uma exposição dedicada a uma série de artistas chineses contemporâneos, a "Chinese Utopia Revisited". Em Bruges, a sua bienal trouxe para as ruas mais uma série de novos artistas do império do meio. Não é só economicamente que os chineses se mostram ao velho continente. A sua cultura sempre foi forte e cativou o resto do mundo, mas agora volta a fascinar de uma outra forma, igualmente surpreendente.


terça-feira, outubro 06, 2015

Antuérpia

As minhas viagens são previamente planeadas. Não digo que tudo está predefinido, mas normalmente sei o que pretendo ver e o que irei encontrar. Existe, porém, espaço para o improviso e para a surpresa.
Em Antuérpia não houve improviso. 
Desejava visitar a zona do porto, objecto de uma regeneração profunda na última década, e para isso tinha de seguir a pé do centro histórico da cidade até lá, numa curta caminhada.
Mas houve surpresa. 
Nunca tinha ouvido falar do bairro da "luz vermelha" e apesar de não estarmos assim tão longe de Amesterdão, quer geograficamente quer culturalmente, não pensei que fosse dar ao mesmo espectáculo que nos é permitido assistir em montras de determinadas ruas da capital holandesa.
Entrar numa rua banal e começar a ver mulheres semi-nuas nas montras dos edifícios e ficar com um estremecimento dentro de mim não é sinal nem de puritanismo nem de feminismo. A cena é, para mim, degradante. Mas teve muita piada assistir ao embasbacamento de um moço que por lá passava na direcção contrária à minha, igualmente embasbacada, e ser convidado a entrar com um piscar de olho por uma senhora assim não tão moça e com falta de dentes. As mulheres das montras de Antuérpia não são todas velhas, mas também não são todas bonitas, longe disso. Uma profissão como outra qualquer?  


O porto de Antuérpia fica perto desta "luz vermelha", como é óbvio. 
Antuérpia é a segunda maior cidade da Bélgica e o seu porto o maior do país e ainda hoje um dos maiores da Europa. 
A história do porto de Antuérpia é indissociável da da cidade. No século XVI foi uma das cidades mais importantes da Europa, tendo alcançado cerca de 100 000 habitantes em 1560, e o papel do rio Schelde e do seu porto foram decisivos para que isso acontecesse.
Houve várias reviravoltas na história do porto de Antuérpia, no que à sua relevância e centralidade diz respeito. Depois de Bruges ter ficado sem acesso ao mar, os comerciantes viraram-se para Antuérpia. Todavia, em 1648 o Tratado de Vestfália fechou os portos da cidade a todos os barcos estrangeiros. O ocaso durou quase 150 anos até Napoleão chegar e dar nova força à região e seus portos. No século XIX era já o terceiro maior porto do mundo atrás de Londres e Nova Iorque. Verificou-se um grande desenvolvimento e as novas tecnologias levaram a que fosse possível às embarcações transportar mais carga com menos tripulantes. Antuérpia era então um grande porto de trânsito de mercadorias e uma plataforma de várias rotas de comércio. Conseguiu atrair várias companhias de comércio e o porto desempenhou um papel decisivo no desenvolvimento industrial da Bélgica. No pós-guerra a cidade soube superar a destruição e os traumas da ocupação alemã (que fez com que a população de judeus da cidade quase desaparecesse) e o porto continuou o seu desenvolvimento e expansão num tal volume que atingiu a fronteira com a Holanda. 

Nos dias de hoje continua a assistir-se a um porto de Antuérpia revitalizado e pujante e a requalificação urbanística e arquitectónica desta zona da cidade é evidente. Como evidente é a sua qualidade, ao contrário do que pude testemunhar em Bruxelas, capital do país. 
As docas da cidade, cuja zona é conhecida como 't Eilandje, tem uma marina nova, rodeada de apartamentos modernos e restaurantes. 



Mas o grande símbolo da regeneração não só do porto mas de toda a cidade é a torre do MAS - Museum aan de Stroom, cujo significado é "museu no rio". O rio é o Schelde e o edifício foi inaugurado em 2011, 10 andares cercados de água, como se de uma ilha se tratasse, tendo sido desenhado pela dupla holandesa de arquitectos Neutelings e Riedijk. 




A sua arquitectura é distinta, na forma e nos materiais utilizados, e o seu interior é tão apelativo como a sua fachada. Esta é vermelha ocre e vai sendo cortada aqui e ali por painéis de vidro em curvinhas. Este vidro é que nos permite que do seu interior possamos ter quase sempre acesso visual ao exterior. Entrando no primeiro piso somos transportados em escadas rolantes para os pisos sequentes, estando a cada um deles atribuído um tema, como Metropolis, Poder, Vida e Morte, entre outros. A história da cidade e do seu porto não podia faltar, numa clara demonstração do sentido público e informativo da instituição. Comovente ver que há aqui lugar também para a exposição das vidas dos emigrantes turcos e marroquinos que desde 1964 não param de chegar à cidade para trabalhar na indústria vidreira, metalúrgica e minas e que nos dias de hoje os seus filhos e netos são cidadãos belgas por inteiro (ou quase, uma vez que as raízes culturais são mantidas: das suas terras trazem carpetes, incenso e canções e poemas, da Bélgica levam nutela).
A vista do último andar do MAS, do alto dos seus 60 metros, é soberba, alcançando os olhos tudo à sua volta - desde a extensão enorme do porto até ao centro histórico medieval da cidade. 



O centro histórico fica perto da estação de comboios e esta é, por si só, uma obra arquitectónica belíssima. Na zona da estação grande parte das lojas dedicam-se a um comércio curioso, o dos diamantes. Seguindo sempre adiante entramos nas ruas pedonais Meir e Leystraad, cujos edifícios elegantes, alguns em estilo rococo, acolhem as maiores marcas da moda do mundo.
Aqui ficam alguns palácios, como o Palais op de Meier, e à sua direita a Rubenhuis, a casa onde o pintor Rubens viveu e que hoje expõe algumas das suas obras. Praticamente ao lado desta encontramos mais um exemplo da recente arquitectura vibrante na cidade de Antuérpia, no caso o edifício do teatro.


O coração da cidade medieval é composto pela Groenplaats (com a estátua de Rubens no meio), pelos 123 metros de altura da Onze-Lieve-Vrouwekathedraal (decorria missa quando a visitei, pelo que não pude por ela deambular) e pela Grote Markt.




Esta praça é local mais bonito da cidade, quer pelo magnífico edifício da Câmara Municipal quer pelos edifícios típicos da Flandres que a acompanham no cenário. 
Não dispensa, no entanto, que se percorra as ruas vizinhas que por vezes nos levam a minúsculos e surpreendentes pátios, como a Vlaeykensgang.
A cidade é agradável, bem cuidada, com jardins e edifícios suficientes para nos fazer sentir feliz. No entanto, chovia e a cor não era a melhor. 

Independentemente da chuvada forte que se abateu de repente, a Casa-Museu Plantin-Moretus é imperdível. Um aparte histórico, porém, antes de nos debruçarmos sobre esta maravilha da humanidade (está classificada(o) pela Unesco como património da humanidade, provavelmente o único ou um dos únicos museus a merecer esta distinção).

No fim do século XVI a cidade de Antuérpia foi alvo da "fúria espanhola" do ultra-católico Filipe II de Espanha, que governava também a região, e as disputas religiosas entre católicos e calvinistas arrasaram a população, que caiu para metade. No entanto, o comércio e as artes não cessaram de florescer e Antuérpia era um ponto de encontro para artistas e intelectuais europeus. 
O primeiro jornal foi criado em Antuérpia em 1606 e a tradição das casas de impressão de livros era forte aqui.  

Esta Casa-Museu Plantin-Moretus era, precisamente, uma dessas casas onde se imprimiam os livros desde o século XVI por iniciativa primeiro de Christophe Plantin e depois, após a sua morte, por Jan Moretus, seu genro. 



O seu edifício medieval, tornado museu em 1876, possui um pátio belíssimo, mas para os amantes dos livros tudo aqui deslumbra. Nos dois andares visitáveis da Casa somos transportados de sala em sala, paredes forradas a couro, pinturas de Rubens à disposição, com o piso de madeira a ranger, para o ambiente de muitos séculos atrás, observando uma fantástica colecção de material tipográfico. A Casa era composta por escritórios e loja, onde se vendiam apenas as obras que passavam pela censura. Entre os vários objectos de impressão impressiona ver a quantidade quase infinita de modelos de letras que eram utilizados na impressão destes livros históricos. Como não podia deixar de ser, existe também aqui uma biblioteca encantadora com livros antiquíssimos e raros no seu espólio. Sem dúvida, um dos locais mais inspiradores que tive a oportunidade de visitar.  

Antes de deixar a cidade vale a pena uma olhadela a mais uns quantos edifícios.

O Castelo Het Steen, junto ao rio.

A Arte Nova da Help U Zelve.

A 't Bootje, casa barco com aspectos mouriscos.

quinta-feira, outubro 01, 2015

Bruges

Gent é a "pérola da Flandres", Bruges a "Veneza do norte".
Gent é a terceira cidade da Bélgica, Bruges uma pequena cidade.
Gent é um recanto ainda não repleto de turistas. Bruges é cidade hiper-turística que parece viver só para o turismo.
Um aviso: estas duas cidades são de visita obrigatória, mas deve-se visitar primeiro Gent porque Bruges é Bruges e não qualquer Veneza e as comparações são inevitáveis.

Historicamente Bruges foi uma cidade central e próspera nos tempos medievais. No século XIV era membro da Liga Hanseática, a associação de cidades comerciais do norte da Europa.
Conflitos e rivalidades várias e, sobretudo, o assoreamento do rio Zwin deixou a cidade sem acesso ao mar. Com isso Bruges esteve adormecida centenas de anos e foi o turismo no século XIX a acordá-la. 

Até hoje o turismo é o motor económico da cidade. 

Com efeito, entre Bruxelas, Gent e Antuérpia, Bruges foi aquela onde encontrei mais ajuntamentos de turistas. No seu elegante campanário, então, houve mesmo que esperar um bom bocado para iniciar a sua subida. 


A estação de comboios de Bruges fica a uma curtíssima e mais do que agradável caminhada do centro da cidade. A receber-nos tínhamos no princípio de Setembro a Trienal de Bruges 2015 e a sua The Passage Room, de Daniel Dewaele, interpelando-nos "How to Became a Citizen of Bruges". A instalação que procura conjugar arte e sociedade coloca em hipótese que os cinco milhões anuais de visitantes de Bruges se tornariam cidadãos da cidade e questiona-os acerca das suas esperanças e sonhos como potenciais residentes.
Aqui e ali, espalhadas pela cidade, várias são as instalações que podemos ver dialogar com a cidade até meados de Outubro.


As que mais apreciei foram a espécie de bonsai gigante feito de janelas trazidas de edifícios chineses entretanto destruídos. O seu autor é Song Dong e esta recriação encontramo-la junto à Catedral de St Salvator e procura expressar o conceito Taoista de "Wu Wei" cujo significado é "inacção".
Também a relação entre o património e a natureza num contexto urbano é focada na instalação Imaginary Cities presente no edifício da Câmara Municipal. São maquetas de cidades imaginárias realizadas por quatro artistas, todas elas invenções e fantasias únicas de indivíduos marcados pelas suas culturas distintas. 

Voltando ao princípio, saindo da estação de comboios optei por não seguir directamente para o centro histórico da cidade pelo idílico Parque Minnewater, deixando este percurso para o fim, como despedida de Bruges.


Ao invés, segui por outro parque também bonito até ao edifício de arquitectura moderna que acolhe espectáculos culturais, passando por uma pequena beguinaria, até entrar na rua mais comercial de Bruges que vai directa à Grote Markt. Todavia, há que entrar pelas ruas perpendiculares que nos levam a recantos onde nos apetece deixar estar.


Bruges é uma cidade pequena e daqui até à Grote Markt é um pulinho, sempre a vislumbrar de longe o Campanário do alto da elegância dos seus 83 metros, o qual é presença assídua, escondendo-se atrás dos edifícios vizinhos.



O Markt é a praça principal da cidade, lugar de um mercado que, insisto, não nos deixa sentir a praça em toda a sua plenitude, livre de ruído. Aqui ficam os edifícios medievais típicos da Flandres, com telhado triangular em escadinha, coloridos e com restaurantes e cafés nos pisos térreos. 



O Campanário, construído no século XIII, fica também aqui. Em tempos idos, era o lugar onde se guardavam os tecidos e outros bens; hoje é lugar turístico e de organização de eventos vários. Os campanários são edifícios típicos da Flandres, Valónia e norte de França, com um conjunto numeroso classificado como património da humanidade, num reconhecimento desta distinta arquitectura em tempos de prosperidade destas cidades. 



A subida dos seus 366 degraus merece todo o esforço, assim como a espera para o podermos fazer. Como a escadaria é estreita, as entradas estão limitadas pelo que se tem de aguardar pelo nosso espaço. Lá de cima ganhamos uma vista estupenda de Bruges, seu casario, suas praças, seus canais. Ainda para mais tive a sorte de no momento da visita os carrilhões estarem a tocar, num conjunto de sons belíssimos. O toque dos carrilhões é feito manualmente e à medida que subimos os degraus para além de escutar a sua música podemos observar os artistas a tocar.



Junto ao Markt fica o Burg, outra praça rodeada de edifícios bem elegantes. Não só o edifício da Câmara Municipal, em estilo gótico e com os brasões dos condados da Flandres, mas também a Basílica do Sagrado Sangue, de arquitectura surpreendente na sua fantasia gótica que mistura os tons negros com os dourados.




Até aqui não tínhamos ainda chegado perto dos canais. Saindo do Burg ficamos face a face com o canal junto à Vismarkt. Dizem-nos que um passeio turístico de barco é algo turístico, sim, mas que não se pode perder. Decido evitá-lo e percorro exaustivamente a cidade ladeando a água. Bruges é, definitivamente, um encanto. O cenário de sonho está ali para nós e basta-nos captá-lo, seja o cãozinho à janela, as casas de telhados triangulares com torres em forma de agulha, as casas cobertas de plantas, as cores das casas e da vegetação, as pontes tão pequenas que parecem de brincar, as árvores debruçadas para o canal.



Normalmente o passeio de barco segue desta zona central até ao bairro da Liga Hanseática e volta. Este quarteirão era onde nos séculos XIV e XV a maior parte das casas dos mercadores estrangeiros e consulados estavam instalados. 


Há que seguir adiante, no entanto. Percorrendo ruas praticamente vazias de gente, ainda que se sinta que são vividas, quer pelas suas casas com jardins e suas igrejas e parques. Até chegarmos a um pitoresco conjunto de moinhos no alto de um monte verdejante vizinho a um canal desta vez mais largo. 

Daqui, numa volta maior para que mais possamos apreender a cidade, regressamos ao centro medieval de Bruges para visitar o seu aclamado museu Groeningemuseum. O edifício e sua envolvente são bem bonitos, como tudo em Bruges, mas é a sua colecção que nos atraí. Aqui estão representados os ditos "flamengos primitivos" com obras de pintura do tempo em que a Flandres era uma região próspera e poderosa não só economicamente mas também culturalmente. 

Ao lado do Groeningemuseum, com um encantador pequeno jardim a dividi-los, fica a Arenthuis, outro espaço de exposições que merece uma visita. 


Daqui até à estação de comboios, onde o curto passeio de um dia em Bruges haveria de terminar, o encanto não esmorece. Antes de entrarmos no Parque Minnewater, pura natureza misturada com beleza e ambiente inspirador, a que não falta um castelo reflectido no espelho da água do lago, não podemos deixar de visitar a maior Beginhof (beguinaria) de Bruges, a Ten Wijngaerde. A entrada nesta área, que parece muralhada por um lago a que chamam "lago do amor", faz-se por uma de duas pontes pequeninas. As casas de tijolo com janelas que deixam ver os cortinados marcam um forte contraste com o branco e verde que veríamos a seguir. Silêncio é a palavra de ordem que se vê inscrita quando se adentra no espaço circular onde encontramos casas brancas e uma igreja à volta de um parque verde pejado de árvores. 





No século XIII havia aqui um convento beneditino de freiras. Este é ainda hoje um lugar absolutamente tranquilo e as freiras ainda são vistas por aqui, velhinhas, com os seus hábitos azul-claro e branco. Todavia, nem só de freiras é feito o lugar, uma vez que as beguinarias tradicionalmente eram espaços habitados pelas beguinas - mulheres leigas católicas, muitas das vezes viúvas, que decidiam viver uma vida independente mas ascética e em comum fora das ordens religiosas e dos seus votos de fidelidade e pobreza. A sua organização nestas "cidades da paz", de arquitectura única e particular, é hoje reconhecida pela Unesco como património da humanidade.

Não pode haver melhor forma de deixar Bruges. A sua beleza medieval e tranquilidade são marcas que perduram até hoje.