quinta-feira, novembro 17, 2016

Gares Marítimas de Lisboa

As Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa, são dois exemplos do modernismo na capital onde a arquitectura e a pintura têm uma relação umbilical. O arquitecto Pardal Monteiro e o pintor (e muito mais) Almada Negreiros são os responsáveis pela obra-prima, numa parceria que se repete em outros pontos de Lisboa, como são exemplos a Igreja de Nossa Senhora de Fátima e a sede do Diário de Notícias (bem como a colaboração de ambos na Exposição do Mundo Português).


Abertas ao Tejo, a primeira a ser inaugurada foi a Gare Marítima de Alcântara, em 1943, depois a da Rocha, em 1948, tendo ficado a faltar a do Cais do Sodré, projecto que nunca chegou a avançar. De qualquer forma, as duas Gares existentes, para além da sua relevância patrimonial, são igualmente testemunhas e difusoras de lendas e de um período da história portuguesa.


O transporte marítimo sempre existiu no Tejo e a cidade de Lisboa sempre dependeu do comércio que por ele chegava e que nele se fazia. Com a epopeia dos descobrimentos e as possessões além mar, não era só o embarque de mercadorias que dominava. No século XX, com Salazar no comando e Duarte Pacheco nas Obras, foi decidido que Lisboa e o Tejo mereciam um lugar digno para as partidas e chegadas de passageiros. É nesse sentido que nos anos 30 se entrega ao arquitecto Pardal Monteiro o projecto dos edifícios de transporte e que nos anos 40 esses edifícios são construídos. Os passageiros passaram a embarcar e desembarcar em terra e como elementos comuns aos dois projectos temos, para além do modernismo bem visível nas suas linhas rectas e nas janelas rasgadas na vertical na fachada, o facto de ambos os edifícios possuírem dois andares e umas enormes varandas debruçadas sobre Tejo. A vista é um elemento essencial nestas Gares - à qual cerca de 20 anos mais tarde foi acrescentada a Ponte sobre o Tejo.


É, porém, a decoração das salas de espera dos segundos pisos das Gares Marítimas o seu elemento mais atrativo e valioso: os painéis murais de Almada Negreiros. 

Contextualizando um pouco mais, a construção destas Gares Marítimas decorreu em plena II Guerra Mundial. A encomenda a Almada Negreiros pretendia mostrar a quem chegava a Lisboa (a metrópole) um país moderno e pujante, no fundo, pretendia o Estado Novo afirmar-se no panorama internacional e ao mesmo tempo calar a contestação interna ao regime por parte de artistas e intelectuais. Como resultado temos este conjunto de frescos vivos, plenos de cores, traços geométricos e influências do cubismo, dois trípticos e dois isolados na Gare Marítima de Alcântara (pintados em 1945) e dois trípticos na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos (pintados em 1949).

A cor que testemunhamos ainda hoje nestas obras é um contraste evidente com os tempos cinzentos do Estado Novo de Salazar. E se na Gare Marítima de Alcântara Almada Negreiros parece "conformado" com a encomenda de representar um Portugal de lendas e mitos da História, a paisagem de Lisboa e a vida das gentes trabalhadoras junto rio, já na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos Almada Negreiros rompe definitivamente com o cinzentismo do regime e apresenta-nos ainda com mais cor e sem receio um Portugal feito de emigração, de despedidas, de muita saudade.

Os temas dos frescos que decoram os salões das Gares Marítimas - lendas e a história heróica dos portugueses, a paisagem e as gentes de Lisboa, a emigração - contam-nos cada um deles uma história.

Gare Marítima de Alcântara 


O interior dá-nos através da sua varanda / esplanada e das suas janelas panorâmicas, por um lado, uma vista soberba do Tejo e, por outro, uma vista não menos marcante do vale de Alcântara, com os Prazeres e as Necessidades lá em cima.



Um primeiro tríptico dos painéis de Almada Negreiros é dedicado à Lenda da Nau Catrineta, poema popular português reproduzido por variadas vezes, incluindo por Almeida Garrett no seu Cancioneiro Geral. Encimado com o dizer "Lá vem a nau Catrineta que traz muito que contar", ao longo dos três painéis vamos vendo, sucessivamente, os marinheiros famintos à volta da mesa, ao mesmo tempo que o capitão procura avidamente terra para fugir à sorte de ser comido pelos seus subordinados, enquanto a morte e o diabo espreitam; no segundo painel as três donzelas, filhas do capitão e por ele avistadas desde o mar; por último, a chegada a terra e a reunião familiar, enquanto a morte e o diabo aguardam por receber a sua parte do pacto feito com o capitão.


Isolado surge-nos o painel dedicado a outra lenda, desta vez a de “D. Fuas Roupinho, 1.° Almirante da Esquadra do Tejo”, com a representação do milagre da praia da Nazaré. Quem conhece a Nazaré e já esteve no Sítio ou leu os Lusíadas de Camões reconhece a lenda e o personagem. Este painel reproduz todos os pormenores, como Dom Fuas (nobre cavaleiro companheiro de Dom Afonso Henriques) no seu cavalo perseguindo o veado, a montanha donde se prepara para cair ao mar, a virgem da Nazaré atenta e, depois, detalhes como a caravela e os pescadores a chegarem da faina enquanto as suas mulheres trabalham as redes em terra e, pormenor maior, um outro pescador descansa na sombra do seu barco. 


Na outra lateral do Salão encontramos um segundo tríptico nomeado “Quem nunca viu Lisboa não viu coisa boa”, dedicado à representação de cenas da Lisboa ribeirinha. No primeiro destes painéis vemos as mulheres fortes que carregam o carvão à cabeça através de um passadiço que liga os barcos a terra; no segundo painel o Tejo está presente pelos barcos, mas Almada fez questão de deixar o nome do rio escrito num desses barcos - observe-se ainda o pormenor da matrícula de um dos barcos inscrita na sua vela; o terceiro painel mostra-nos a Sé de Lisboa e o casario ao seu redor, enquanto que em primeiro plano estão uma vez mais as gentes trabalhadoras de Lisboa, neste caso as mulheres que tratam do peixe.


Isoladamente temos ainda o painel “Ó terra onde eu nasci”, dedicado ao Portugal rural. Aqui Almada pretende representar um domingo típico português, talvez nos arredores de Lisboa, onde a tranquilidade grita. Vemos um grupo de jovens debaixo de uma árvore, uma pequena igreja e uma casa de aldeia decorada com motivos de festa, a senhora a vender o capilé na sua banquinha, enquanto um casal enamorado conversa - ele marinheiro vestido de azul mar, ela varina vestida de vermelho terra.

Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos


A Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, por sua vez, para além de mais uma longa varanda / esplanada para o Tejo, possui dois conjuntos de trípticos. A diferença entre estes painéis e os de Alcântara é visível. Mais cor, o cubismo como estilo evidente (a recordar Picasso) e apesar de o rio Tejo e Lisboa continuarem presentes agora são-no enquanto local de partida, retratando Almada de forma corajosa e dura a temática da emigração. 


O primeiro tríptico é dedicado à Lisboa ribeirinha. No primeiro painel, talvez a representação de mais um domingo, em que a gente do povo trabalhador se veste com as suas melhores roupas e usa desta vez o barco para um passeio e em que, divertida, tenta não deixar cair o chapéu ao rio. Ainda neste painel vemos mais um barco em segundo plano e, sobretudo, uma varanda e uma janela com uma mesa - pormenor tipicamente cubista. A sensação que se tem quando se observa demoradamente este painel é a de que daqui se poderiam extrair vários quadros isoladamente, tal é a profusão de temas e pormenores. 


Num segundo painel temos a representação de um barco decorado com olhos, cores sempre vivas, tão intenso que mais parece que é a pintura que nos espreita. As varinas robustas contrastam com os miúdos que descansam no barco. O terceiro painel é dedicado ao ócio, ao circo e seus saltimbancos (tema recorrente nas representações por parte dos cubistas), com um pormenor maior do rapaz que descansa o seu rosto ao ombro de uma mulher negra.



No tríptico do lado contrário do Salão a temática torna-se mais dura - podemos ter também representado um domingo, mas este não é mais um domingo de descanso, de ócio, de evasão, é antes um momento de despedida daqueles que partem para a emigração. O navio prepara-se para partir e entre os passageiros leva muitos que abandonam a sua família para buscar uma vida melhor noutro canto do mundo. Cá fora, em terra, os que ficam para se despedir estão bem vestidos e bem calçados e não esqueceram os chapéus para proteger do sol; dentro do navio, debruçados na amurada, os que partem preparam-se para dizer adeus. Espaço ainda para vermos um operário carregar cimento para dentro do barco, porque não só de passageiros se ocupavam os navios.


Em conclusão, este é mais um dos segredos bem guardados de Lisboa (cuja visita é possível mediante marcação junto do Porto de Lisboa) que merece ser visto por todos aqueles que apreciam história, arquitetura e arte e Lisboa. Da "obra-prima da pintura portuguesa da primeira metade do século", nas palavras de José Augusto França, disse o multifacetado artista Almada Negreiros, autor destes painéis, que “creio não haver antes cumprido melhor, nem feito obra que fosse mais minha”.

sexta-feira, novembro 11, 2016

Adeus


No sábado fomos às castanhas na Tapada. 
Guardados na memória os caminhos que a avó ensinara há tantos, tantos anos, sem perceber logo que lhe prestavam uma última homenagem os netos seguiram juntos e foram por aí acima rapando os frutos nas árvores dos vizinhos ausentes. Já ninguém passa a noite aqui, só uma pessoa cá passa os dias e os outros só passam nas férias.
As cores e os cheiros deste Novembro não nos eram assim tão familiares, mais acostumados que estávamos aos intermináveis verões da juventude.  
Ainda fomos a tempo, porém, de sentir aquela cor de laranja ofuscante dos dióspiros e aquele aroma intenso dos limões da tia da avó. 
Mais para cima, já perto dos novos marcos que nos informam serem aquelas terras nossas, uma piscina. Sim. Uma piscina com vista para a Serra. 
Não é nossa, é dos ingleses, mas afinal sempre se cumpriu a promessa da avó: temos uma piscina junto ao nosso quintal.

quarta-feira, novembro 02, 2016

Nowa Huta


Nowa Huta é um subúrbio de Cracóvia a cerca de 6 km do seu centro, percorridos de forma agradável de eléctrico. Esses 6 km, todavia, são curtos demais para a revelação de todo um novo mundo que se nos apresenta depois da elegância e conforto que a cidade velha de Cracóvia nos oferece. Não que Nowa Huta seja um horrível subúrbio, lado negro da bela Cracóvia. Nada disso, e por aqui até existem espaços verdes e um lago. O que acontece é que é todo um plano à parte.

Trata-se disso mesmo, de um plano. 

A cidade planeada pelos comunistas que tomaram a Polónia após a II Guerra Mundial pretendia vir a ser uma área residencial às portas de Cracóvia, um paraíso para acomodar os trabalhadores das indústrias siderúrgicas vizinhas - numa antiga área agrícola onde os comunistas resolveram instalar a indústria pesada. Hoje a indústria foi-se, mas a área residencial cresceu rapidamente e chegou aos 200 mil habitantes, tornando-se o bairro mais populoso de Cracóvia. Os comunistas também já se foram, o movimento Solidariedade teve forte influência por aqui nos anos 80 e hoje sobra-nos a arquitectura do bairro.


E essa arquitectura é uma arquitectura soviética materializada em grandes e largas avenidas e edifícios grandiosos e austeros que aqui estão para não deixar dúvidas a ninguém: o rigor era e segue sendo rei. 


Saídos da Plac Centralny a expectativa de percorrer o bairro todo a pé é logo gorada. As distâncias enganam e ao contrário da cidade antiga de Cracóvia não fica tudo perto nem se encontra uma delícia a cada esquina.




Ainda assim, uma caminhada permite-nos conferir as linhas rectas e simétricas dos grandes blocos residenciais e demais edifícios, inspirados num estilo renascentista e classicista, bem como alguns pormenores surpreendentes. Entradas em arcos, detalhes nas fachadas que se poderiam confundir com palácios e, depois, portas que mais parecem dar entrada a um armazém e, sobretudo, constatar que as décadas de 40/50 do século passado não pareciam prever o uso do carro. Simplesmente não há lugares de estacionamento e os automóveis tomam os passeios. 




O planeamento desta nova cidade previu, ao invés, a construção - e utilização - de equipamentos como teatro, cinema, escola e museu. O Teatro Ludowy é mesmo uma bela peça. 



A primeira igreja no bairro foi construída apenas em 1977, após muita relutância dos comunistas. Inspirada na Arca de Noé, Arka Pana tem uma arquitectura diferente; diferente das igrejas católicas a que estamos acostumados, sim, mas também diferente da rigidez e dos monólitos comunistas. A época era já outra, distante das prendas do amigo Estaline e os esforços do então bispo Karol Wojtyła levaram a bom porto a criação da nova paróquia. Em 1992 a igreja foi renomeada Igreja da Virgem Maria, em homenagem a Nossa Senhora de Fátima. O seu interior possuiu uns bonitos vitrais e uma figura de Cristo na cruz curvada bem interessante e original.


(esclarecer que para sermos mais precisas, no limite daquilo que será ainda considerado o perímetro de Nowa Huta, existem duas outras igrejas frente à frente, uma delas datada do século XV, cisterciense, surpreendentemente conservada na sua arquitectura em madeira)

segunda-feira, outubro 31, 2016

Kazimierz e Podgórze

O bairro de Kazimierz, fundado em 1335 por Kazimierz III, apesar de colado a ela, já foi uma cidade independente de Cracóvia. Havia mesmo muros a separá-los, os quais foram deitados abaixo no século XIX.

Há muitos séculos que os judeus e os cristãos ali convivem lado a lado, cada um com os seus símbolos e cerimónias, embora cada um no seu canto. Caminhando pelo bairro, tanto se veem igrejas como sinagogas.

À época da II Guerra Mundial, o bairro de Kazimierz era habitado maioritariamente por judeus, tendo estes sido então forçados a abandonar o seu lugar para lá do rio, para o bairro vizinho de Podgórze e, pior, para os campos de concentração de Plaszów, também aí perto. Com o fim da Guerra e a ascensão dos comunistas ao poder ambos os bairros ficaram esquecidos. Foi Steven Spielberg que nos anos 90 aqui veio filmar o seu A Lista de Schindler e voltou a colocar estes lugares no mapa. Hoje, tanto Kazimierz como Podgórze estão perfeitamente integrados nos roteiros da maioria dos que visitam Cracóvia.


Kazimierz possui um bem definido quarteirão judaico, com sinagogas, cemitérios e museus judaicos e muitos restaurantes de comida judaica, principalmente na Rua Szeroka, que mais parece uma praça. Aqui fica a Sinagoga Velha, arruinada e saqueada durante a ocupação nazi na II Guerra Mundial, hoje transformada em museu da história e cultura dos judeus na cidade. Esta presença data já do século XV, a mais antiga na Polónia. Nesta sinagoga / museu são-nos mostrados objectos, peças e artefactos pertencentes aos rituais judaicos, mas também documentos, fotografias e pinturas (aqui perto fica o moderno Museu Galicia que, infelizmente, não tive oportunidade de visitar).

Em 1938 eram 64500 os judeus em Cracóvia; em 1945 restavam apenas 500 judeus na cidade; no fim de 1946, com o final da Guerra, esse número subira já para 6600.
Cheguei a Kazimierz vinda da Rynek onde na Basílica de Santa Maria ouvira uma guia espanhola garantir para o seu grupo que na cidade não há mesquitas nem muçulmanos. Minutos depois entrara no Hamsa para almoçar e lia o seu grito de guerra: "make humus, not war". Reparem: façam humus, a comida comum aos judeus e aos muçulmanos. Será que para a espanhola ainda haverá por aqui judeus?
 


A Plac Nowy - Praça Nova -, na transição entre o quarteirão judaico e o quarteirão cristão, mostra que não só o ambiente supostamente comedido das religiões tem lugar neste bairro. É uma praça bem animada e cheia de restaurantes. Ideal para experimentar uns pierogi, espécie de raviolis pelos quais os polacos são fanáticos. Se quisermos evitar restaurantes é só caminhar um pouco pelas ruas e estarmos atentos a um lote de terreno que de desocupado passou a estar ocupado por bancas e carrinhas de street food. 

Esta zona residencial e de restauração tem alguns edifícios que outrora foram fábricas e que hoje estão abandonados, pelo que a movida que tem vindo a animar o bairro deve nos próximos anos transformá-lo ainda mais.


Atravessando a ponte vamos desembocar no bairro de Podgórze, onde desde logo sobressai junto ao rio a Cricoteka. Este edifício de artes performativas de arquitectura original é dedicado a Tadeusz Kantor, artista vanguardista do século passado que deixou a sua marca no teatro polaco. Anteriormente uma estação eléctrica este é um bom exemplo das muitas transformações pelas quais tem passado o bairro de Podgórze, antigo lugar de fábricas e indústrias.


Outro belo exemplo é a adaptação de uma dessas fábricas a Museu de Arte Contemporânea de Cracóvia (MOCAK). Edifício de arquitectura moderna, com todas as valências que se espera de um museu dedicado a esta arte, fica surpreendentemente nas traseiras da Fábrica de Schindler.


O lugar tornado famoso por Steven Spielberg foi transformado em museu em 2010 (um ano antes da abertura do vizinho MOCAK). 


Não se pense que uma visita a este espaço possa ser ignorada, nem se pense que qualquer horita chega para o percorrer. A exposição aqui patente é dedicada à Cracóvia sob ocupação nazi entre 1939 e 1945. É uma verdadeira viagem no tempo pela história da cidade. Neste que era o edifício administrativo da Fábrica de Oskar Schindler, o alemão que ajudou a salvar centenas de judeus do envio para os campos de concentração ao dar-lhes trabalho na sua empresa germânica designada Enamelled Vessels, passa a história das gentes da cidade, trabalhadoras ou não, judias ou não. 


Schindler chegou a empregar cerca de 1000 indivíduos, grande parte deles judeus que viviam no gueto não muito longe daqui. Uma das salas onde mostramos mais reverência neste museu é precisamente aquela que hoje está transformada em escritório de Oskar Schindler, onde não falta a sua mesa de trabalho com fotografias pessoais. Mas toda a exposição, muito bem organizada, é um discorrer de emoções. É toda uma experiência poder percorrer a Cracóvia de há 70 / 80 anos através dos jogos de luzes e sons. Andamos por ruas de pedra recriadas para o efeito, vemos o eléctrico a passar, um apartamento decorado como o seria na época, um café, uma loja de fotógrafo, até um cabeleireiro. Assistimos a um vídeo onde os antigos habitantes contam as suas histórias e lemos testemunhos escritos como o de Roman Polanski, criança à época que sobreviveu. Somos testemunhas atrasadas da saída para trabalhar dos muitos judeus que então habitavam Cracóvia, perdendo-nos na observação das suas fotografias e sofrendo porque sabemos hoje como foi o princípio, meio e fim da História. 

Nesta exposição parece caber toda essa história, desde o começo da guerra, à instalação do governo-geral alemão na cidade, ao terror nazi, episódios da vida do dia a dia, recriação do gueto judeu, do campo de concentração, mostra da propaganda nazi até à entrada do exército vermelho.
 
Certamente um dos momentos mais interessantes e esclarecedores, porque Cracóvia não é nem pode ser apenas a beleza e candura da sua Rynek.

sexta-feira, outubro 28, 2016

Wawel

Se a Basílica de Santa Maria, na Rynek, é o postal mais famoso de toda a Polónia, o Castelo de Wawel é o maior símbolo da nação polaca.



Instalado no alto de um pequeno cerro banhado pelo rio Vistula, testemunha de um milénio da história polaca e pouso de reis e centro de poder por 500 anos, este é um lugar mítico e especial.
Os primeiros reis polacos escolheram Wawel no século X e logo no século seguinte também o bispado de Cracóvia fez desta a sua casa. Em 1596 um grande incêndio foi o pretexto para a mudança da corte para Varsóvia, mas embora tenha havido uma real perda de importância Wawel e Cracóvia nunca foram esquecidos. Posteriormente chegou a ser hospital do exército austríaco, cidadela, residência do presidente quando a Polónia recuperou a sua independência e o lugar escolhido pelo governador geral alemão Hans Frank durante a II Guerra Mundial. 



Desde então Wawel tem sido objecto de diversas obras de reconstrução e restauro - que continuam - e as obras primas que foram escondidas dos nazis têm vindo paulatinamente a voltar ao seu espaço.
Hoje o complexo de edifícios que chegou até nós inclui uma estrutura muralhada, uma catedral e um palácio. A que se tem obrigatoriamente de juntar uma vista para toda a Cracóvia e um ambiente encantado.



Subindo o cerro para entrar em Wawel vamos tendo a Catedral ao nosso lado para lá do muro ocre e, apesar de suspeitarmos da sua beleza, só quando nos vimos no pátio interior de Wawel é que temos certeza de todo o esplendor da sua Catedral. Igualmente em tom ocre e topo verde característicos da cidade, é porém o dourado de uma das suas pequenas cúpulas que deslumbra. Ou, mais acertadamente, o dourado absorve a nossa atenção, mas é o conjunto de todos os elementos e pormenores, todos eles diferentes, que faz deste edifício um espanto.




O interior da Catedral é rico. Palco de diversas coroações e celebrações, vamos passando por inúmeras capelas em vários estilos, todas elas deslumbrantes. Um ponto alto do interior da Catedral é a visita aos túmulos reais, de um luxo sem medidas.


Podemos e devemos ainda subir à Torre da Catedral e para além de ficarmos a conhecer o sino Sigismund, o maior da Polónia, com 11 toneladas, ganhamos uma nova vista. O rio ficou para trás e diante de nós temos agora a cidade velha de Cracóvia e um imenso pulmão verde. 



A par da Catedral há que visitar o Castelo, ou melhor, o Palácio de Wawel. 
Após diversas intervenções, o que vemos hoje data do século XVI e aqui se combinam vários estilos arquitectónicos, como o gótico, o barroco e o renascentista. Este último é o mais evidente e salta à vista desarmada nas marcantes galerias do paço e suas arcadas.


Entre o muito à nossa escolha, e porque o tempo torna difícil abarcar tudo e a entrada em cada espaço é paga de forma autónoma, optámos por conhecer as Salas de Estado e os Apartamentos Reais Privados. A visita aos Apartamentos é guiada, pelo que assim se apreende mais e melhor. No entanto, apreciei mais a visita às Salas. Em ambas podemos ver o luxo real materializado em mobiliário, louça, tapeçaria e pintura (de momento a obra "Dama com Arminho", de Leonardo da Vinci, está em exposição no Wawel). Salões grandes, tectos trabalhados, chão com mosaicos com figuras geométricas, paredes revestidas a couro e uma janela aqui e outra janela ali escancarada para a cidade velha de Cracóvia que se deixa, assim, ser espreitada pelo Wawel numa relação directa e íntima. 

quarta-feira, outubro 26, 2016

Rynek Główny


A Praça do Mercado de Cracóvia, a Rynek Główny, é a principal praça da cidade e a maior praça medieval da Europa. 

Entra-se nela por uma das diversas ruas que lá vão desembocar e não se acredita. São 200 metros por 200 metros de pura elegância e deleite. Considerada património da humanidade pela Unesco, esta praça mantém a integridade e o carácter de tempos antigos, mesmo se foi objecto de várias alterações, tendo sobrevivido até à ocupação nazi que fez com que a praça mudasse temporariamente de nome para Praça Adolf Hitler. A esconjura não venceu e depois de tempos tenebrosos hoje a Rynek recuperou e é invadida por uma outra gente bem mais benigna. Os magotes de turistas. 

As charretes puxadas pelos cavalos aguardam à beira da Basílica de Santa Maria, mas agrada-me mais aproveitar a ideia e imaginar-me transportada para uma outra época. A medieval, por exemplo. E nem custa muito imaginar tal cenário, uma vez que temos à nossa disposição o Rynek Underground. Aqui há uns anos umas obras na placa central da praça deixaram a descoberto as fundações antigas do lugar - o testemunho de uma autêntica cidade até então desconhecida. A decisão foi criar este museu original e fantástico, o Market Undergrounds Podziemia Rynku, instalado 4 metros abaixo da praça. Aqui se assiste à recriação da cidade medieval num percurso multimedia que é uma autêntica viagem no tempo. Vêem-se objectos que os nossos antepassados usavam no seu dia a dia e ouvem-se as suas vozes. Não é difícil deixarmo-nos ir e vaguearmos por ali como espectadores privilegiados de uma história que não vivemos.


O que era então Cracóvia para o mundo na época medieval?
A cidade datará do século VII, mas foi entre os séculos XI e XVI, quando foi capital da Polónia, que alcançou o seu apogeu. De tal forma estava no caminho das rotas que interessavam na época que no século XIII foi assolada pelos raids dos mongóis. A partir da criação da Universidade em 1364 foi crescendo e expandindo-se ainda mais, era parte da Liga Hanseatica e ponto central nas rotas de comércio da Europa. 

A designação "Praça do Mercado", isto é, Rynek, vem do facto histórico de este ser o local onde se vendiam os bens - peixe, galinhas, carvão, mas também metais preciosos como ouro e jóias. Os edifícios ao redor da praça eram então propriedade dos mercadores mais ricos e símbolo do seu estatuto e riqueza. Nos dias de hoje não são essas casas que deslumbram, praticamente todas elas ocupadas por restaurantes nos pisos térreos e sem a graça das casinhas da Rynek de Wroclaw.




O que nos faz render a tamanha beleza e carácter é o ambiente que aqui se vive e três edifícios em particular: a deslumbrante formosura da Torre da antiga câmara municipal, o Salão dos Tecidos (reconstruído várias vezes ao longo dos tempos, mas absolutamente íntegro nos seus elementos góticos e renascentistas de cujas arcadas nos recordaremos sempre) e a Basílica de Santa Maria.
De cor de tijolo, este é talvez o postal mais famoso de toda a Polónia. Surpreendentemente, as duas torres da Basílica não são iguais, uma possui 81 metros de altura e a outra "apenas" 69 metros, e ainda assim a simetria e equilíbrio não são quebrados.


Esta igreja começou a ser construída no século XIII no lugar de vestígios de uma antiga igreja romanesca que acabou destruída pelos Tártaros. Reconstruída no século seguinte, obteve desde aí o seu carácter gótico. O que a nossa vista e todos os demais sentidos têm o prazer de receber hoje é consequência do restauro do final do século XIX. E digo demais sentidos porque não só a vista é requerida aqui para uma experiência total. Também a audição é essencial para se entender um pouco mais desta praça e da cidade que a acolhe. Cumprindo uma tradição que remonta ao século XIV e recuperada em 1996, depois de interrompida pela ocupação alemã na II Guerra Mundial, a toda a hora certa há que especarmo-nos em qualquer ponto da praça, de preferência bem perto da Basílica, para escutar o Hejnal, a canção que nos é dada pelo clarim que sai do topo da sua torre mais alta. Tradicionalmente o Hejnal era tocado como aviso quando o perigo se sentia pelo avistar da aproximação dos inimigos, surgindo como indicação para o fecho das portas da cidade. Hoje os turistas não são inimigos, não há mais perigo e ninguém precisa de ser afugentado. Pelo contrário, deliciamo-nos com esta melodia harmoniosa e só queremos permanecer pela praça a ouvi-la e senti-la, o que não é difícil uma vez que a cerimónia vai-se repetindo durante o dia, com o rapaz do clarim a aparecer em cada uma das janelas da torre mais alta da Basílica para acenar à multidão agradecida cá embaixo.




O interior da Basílica é outro lugar para se viver uma experiência incomum. Para além de ser belíssima, com paredes e tectos que parecem aveludados com uma cor azul penetrante, guarda uma obra-prima. É o Retábulo de Santa Maria no Altar-Mor monumental gótico esculpido por Veit Stoss, criado entre 1477-1489. Há duas formas de o ver, fechado ou aberto, e de uma para a outra há todo um cerimonial a ser cumprido. Às 11:50 em ponto uma freira dirige-se ao altar e, com uma série de curiosos na sua frente, procede à abertura das duas laterais do Retábulo. Então aí, das doze cenas representando as dores de Maria passa-se a uma revelação: é mesmo uma maravilha o que temos diante nós. Em talha dourada, este é o maior retábulo gótico da Europa, medindo 11 metros por 13, um exemplo grandioso e exuberante de arte medieval. Aberto o Retábulo, os painéis apresentam cenas da vida de Jesus Cristo e da Virgem Maria, com imagens do seu Adormecimento, Assunção e Coroação. Tudo elaborado com uma precisão e detalhes tais que é fácil perdermo-nos nos pormenores e na riqueza materializada nos dourados que inundam a Basílica.



E, para algo mais terreno, indispensável ainda uma subida à Torre de Santa Maria, a tal onde um rapaz toca o clarim de hora a hora. Como não podia deixar de ser, a vista do alto da sala do clarim é absolutamente de tirar o fôlego e aqui obtemos uma percepção imbatível dos exactos contornos da Rynek, bem como da malha urbana de Cracóvia.

Com tudo isto dito, é fácil passar um dia inteiro apenas na Rynek de Cracóvia e não sentir vontade de lá sair.