quinta-feira, janeiro 07, 2016

Pelo Baixo Alentejo

Fomos para sul, rumo ao Baixo Alentejo. 

Beja, capital de distrito, foi a primeira paragem. 
Após um piquenique no seu Parque das Merendas, saímos para passear pela cidade, a antiga Pax Julia dos romanos.


Mas antes dos romanos o lugar já era povoado, graças ao seu solo rico, sempre factor de atracção das gentes. Os lusitanos andaram por cá, depois os romanos promoveram Beja a sede da região sul da Lusitânia e pacificaram as suas várias tribos. A designação Pax Julia vem dos tempos de Julio César, imperador de Roma no século I. Beja entrou então no mapa da história e tornou-se na época uma cidade importante. Após o domínio dos romanos foi tomada pelos bárbaros - os visigodos - e mais tarde pelos mouros. Dizem alguns que a actual designação "Beja" deve-se a eles, numa forma elaboradíssima e não facilmente entendível de evolução do topónimo "Pax", mas esta é questão controversa. Até que o "nosso" D. Sancho II, em 1232, revolveu tomar a cidade e fazer com que esta entrasse na órbita cristã - até hoje.


Beja está situada numa imensa planície e isso é bem visível do seu castelo, do qual restam partes das muralhas e a Torre de Menagem (actualmente em restauro, construção do tempo de D. Dinis, que concedeu foral a Beja). Até aos nossos dias chegaram também algumas portas da cidade, as quais levam o nome das terras para as quais abrem caminho, como Porta de Mértola ou Porta de Avis.



A história de Beja é uma de evoluções e apagamentos. Apesar de ter sido local de moradia real (os pais de D. Manuel I, por exemplo, eram Duques de Beja), nem por isso chegou a ser importante em termos urbanísticos a nível nacional, sendo sempre relativamente despovoada. O que foi sempre, sim, foi lugar de convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos. Até hoje podemos caminhar pelo Bairro da Judiaria, com as suas casas seguindo a altura da muralha, e o Bairro da Mouraria, com as ruas ruas estreitas e intrincadas. O labirinto das ruas de Beja corresponde ainda a um traçado urbano medieval e só por isso vale bem a pena a visita a esta cidade. Não pode ser acusada de monumental, mas como conjunto é francamente agradável, uma cidade pequena-média portuguesa em que a sua unidade estética e arquitectónica é equilibrada.

Ao lado do seu passado mouro e medieval, não faltam os edifícios da época do Estado Novo como o dos correios e o do liceu (este último do arquitecto Pardal Monteiro). Já depois do 25 de Abril a cidade viu nasceu a Casa da Cultura, do arquitecto Raul Hestnes Ferreira. Tudo obras que não rompem nem polemizam, antes se enquadram no edificado. 



Para além de uma caminhada pelas ruas, há espaços em Beja que não podem deixar de ser visitados. Pela Rua dos Mercadores, atentos a pormenores como símbolos de antigos lojistas e janelas manuelino-mudejares que persistem, chegamos à Praça da República com as suas arcadas manuelinas. Do outro lado do centro da cidade, o Jardim Público, contíguo ao antigo Convento de São Francisco, belamente restaurado para a sua reconversão em Pousada de Portugal, é um lugar para se deixar estar. Destaque para o painel de azulejo alusivo à morte do Lidador, segundo lenda de Alexandre Herculano. Aliás, a arte azulejar em Beja é coisa séria. Vemos azulejos nas ruas, casas e edifícios, mas também nas igrejas. 



Incontornável e obrigatória é a visita ao Convento de Nossa Senhora da Conceição. Um dos primeiros onde foi aplicado o azulejo na decoração de interiores (que era comum na cultura islâmica), o Convento foi fundado em 1458 pelos Duques de Beja, pais do rei D. Manuel I. Gozou de protecção real e a sua riqueza é evidente ainda nos nossos dias. Naquele onde está hoje instalado o Museu Regional podemos encontrar uma igreja barroca do século XVII em talha dourada. Exuberância é a palavra certa para a descrever. Para além da igreja é nos dada a conhecer uma colecção de azulejos, pintura e artefactos arqueológicos. Os claustros deste antigo Convento que foi ainda lugar da Ordem de Santa Clara, pertencente aos franciscanos, não deslumbram tanto como o que está para além deles: a Sala do Capítulo cuja entrada é feita por um portal gótico brasonado que nos deixa face a face com uma decoração rica em painéis de azulejos hispano-mouriscos e pinturas murais, bem como uma abóbada belíssima. A fachada do Convento não entusiasma menos, sobretudo as gárgulas que adornam o seu topo.



Mas este Convento de Nossa Senhora da Conceição é famoso ainda por questões mais terrenas, nomeadamente pelas cartas apaixonadas que a freira Soror Mariana Alcoforado de lá escreveu ao seu amado conde soldado, o qual via passar da janela da sua cela e muito provavelmente não apenas isso. Beja tem, pois, o seu mito; um mito feito de paixão.

E tem praças, muitas, tal como igrejas, também muitas. Praças sem gente, igrejas fechadas.
Um velhote hoje reformado e viúvo, nascido no Minho e cedo imigrado em Lisboa, foi parar a Beja no início da sua idade adulta e por lá ficou. Diz que lá não há nada, não há vida, não há trabalho. Resta a mulher, sepultada no cemitério próximo de casa. Que Moura é muito melhor, gente sempre a encher os cafés. 

Fomos verificar.

E é verdade. As ruas estão mais preenchidas e os cafés também, mesmo à hora da sesta.



De Moura ficam as lendas da Moura Encantada e as suas chaminés características. É ainda terra de fontes monumentais a fazer-nos lembrar que esta é zona rica em água. 
Não falta um castelo e um centro histórico pequeno e compacto com ruas estreitas pedonais delicadamente enfeitadas com flores e diversos edifícios antigos que conservam os ricos pormenores nas suas fachadas. 



Rapidamente rumo a Serpa.

A paisagem alentejana, do Alentejo profundo, vasta e imensamente plácida, nunca monótona, é feita de oliveiras e moinhos aqui e ali.

À entrada de Serpa, numa daquelas rotundas de pretenso ordenamento do trânsito que pululam pelo nosso Portugal, uma escultura de tributo aos alentejanos que nos embalam com o Cante Alentejano, desde 2014 Património da Humanidade.



Serpa é para mim a mais bonita das cidades do Baixo Alentejo. Vista das muralhas do seu castelo, então, a vista é esmagadora. As casas brancas e a sua cobertura de telha ocre formam uma combinação perfeita, daí que o epíteto de cidade branca seja certeiro.

Serpa era uma vila muçulmana antes de D. Dinis lhe ter concedido foral em 1295 e a refundar. Antes de se tornar rei, D. Manuel I havia sido senhor de Serpa e a cidade era então uma das mais importantes do reino.



Aqui voltamos a poder ver nos dias de hoje um castelo, sua torre e muralha, mas desta vez acompanhado de um aqueduto monumental. O castelo virá desde o tempo da ocupação árabe, mas o aqueduto foi construído no final do século XVII com a finalidade de abastecimento do solar dos Condes de Ficalho. Este solar tem arquitectura discreta mas é marcante na cidade.


O símbolo de Serpa será, porém, a Torre do Relógio. Uma Torre bem alta, construída no século XIV, parte da muralha, em estilo gótico e manuelino, encimada por uns pináculos e um campanário. Bem bonita.



Para além desta sobrevivem ainda as grandiosas Portas de Moura e de Beja. E as oliveiras milenares. 
As ruas do povoado intra muralhas são esteiras e as casas pitorescas, com faixas cinzentas sobre o branco como pormenor distintivo.

Dois apartes apenas.


Um primeiro: como é que esta rocha se equilibra entre estes telhados e as muralhas?

Um segundo: agora que o nosso Aníbal se prepara para deixar as nossas vidas: a sul do concelho de Serpa fica o Pulo do Lobo, a maior queda de água do sul do nosso país, em pleno Parque Natural do Vale do Guadiana. Não o visitei agora, fi-lo em tempos, seduzida pela descrição sentida do senhor; quem sabe se lá volto em breve e o encontro para lá retirado.


Precisamente em pleno Parque Natural do Vale do Guadiana fica a vila de Mértola, a última paragem neste périplo pelo Baixo Alentejo. A antiga Myrtilis é hoje considerada uma vila museu.


Não haverá povoado em Portugal onde a presença islâmica seja tão forte como a que se sente em Mértola. Para isso contribui certamente o Festival Islâmico que aqui costuma ter lugar e, sobretudo, a incansável acção do arqueólogo Cláudio Torres que insiste em nos dar a conhecer o passado histórico da vila e região através dos trabalhos do seu Campo Arqueológico. Este voltou a colocar Mértola no mapa e para além de nos revelar a nossa herança patrimonial islâmica funciona como um polo agregador das gentes da cidade e dos forasteiros, sendo igualmente um lugar onde se preservam as artes tradicionais e o artesanato e se lhes dá novas vidas.


No Campo Arqueológico, junto ao Castelo, das ruínas colocadas a descoberto podemos ficar com uma ideia de como estavam dispostas as casas de antanho. Aí perto fica a antiga Mesquita, hoje Igreja Matriz de Mértola, onde ainda hoje são identificáveis elementos islâmicos como as portas.
Do Castelo obtém-se uma vista fantástica para o casario que foi crescendo junto ao Guadiana. O branco domina sobre as águas do rio, onde se veem lá em baixo alguns a desafiar o caminho aquático nos seus caiaques. Há muitos séculos, a presença do rio era outra e foi a razão porque romanos e árabes para cá vieram. O rio era navegável e o minério de que a região era pródiga foi factor bastante para atrair esses povos, bem como diversos mercadores que para aqui vinham negociar, uma vez que a vila estava ligada a Cartago e outras cidades do Oriente. A Reconquista pelo reino de Portugal e consequente entrada para o mundo cristão veio no século XIII e três séculos mais tarde Mértola iria entrar em decadência, muito por força do desvio das rotas comerciais do Guadiana para o Sado e Tejo.


Quanto à sempre louvada gastronomia desta região do nosso país, obviamente que o piquenique de restos do Natal não foi a única reserva alimentar da viagem. Em Beja a Adega 25 de Abril é uma excelente escolha para se saborear as migas e os secretos de porco preto, bem como a simpatia do pessoal. Mas um pouco por qualquer recanto desta região pode experimentar-se ainda os tradicionais gaspacho e ensopado de borrego, acompanhados dos conceituados vinhos. 

As distâncias:
De Beja a Serpa são 29 km, de Serpa a Moura 32 km e de Beja a Mértola 52 km.
Beja fica a 177 km de Lisboa, cerca de 2h 30m de caminho.



quinta-feira, dezembro 10, 2015

A Avenida da Liberdade à boleia do Mexefest

Treinada desde a infância no escada acima escada abaixo da casa da avó, o avenida acima avenida abaixo dos últimos anos não passa de uma brincadeira de criança. O festival de música Vodafone Mexefest (antes Super Bock em Stock) alia a minha música preferida (indie) a umas valentes caminhadas pela minha cidade. Ou antes, por um espaço determinado da cidade de Lisboa, no caso a Avenida da Liberdade, desde o Marquês de Pombal até ao Rossio. 

Em edições anteriores (este festival teve a sua primeira edição em 2008, creio) já pudemos ouvir música no parque de estacionamento do Marquês, no átrio do ex-Bes, no terraço-bar do Hotel Tivoli, no Cabaré Maxime, no Ritz Clube, no Palácio da Independência. Espaços como este último são uma descoberta da cidade pelo que não são só a música e as caminhadas os pontos altos deste festival. É também a possibilidade de ouvirmos música em ambientes inesperados que são parte integrante do nosso património arquitectónico e cultural numa zona definida da cidade de Lisboa - a Avenida da Liberdade e sua envolvente. 

Aqui ficam as salas de espectáculo mais históricas e intemporais para quem nasceu ou viveu em Lisboa no século passado: o Coliseu dos Recreios, o Teatro Tivoli e o Cinema São Jorge.

Uma breve descrição destes espaços impõe-se: 

O Coliseu dos Recreios, na Rua das Portas de Santo Antão, foi inaugurado em 1890, fruto da ambição de um grupo de pessoas que desejava erigir a maior sala de espectáculos coberta do mundo. Os custos seriam, obviamente, altos pelo que tanto o rei como o povo teve ocasião de subscrever a colecta para esta empreitada. Polivalente como é, nesta sala já tivemos oportunidade de assistir a espectáculos de ópera, teatro, música de todos os géneros, galas e todo o tipo de eventos que se possa imaginar. É impossível para mim dizer qual a primeira vez e primeiro espectáculo a que aqui assisti. Não corro muitos riscos de errar se avançar com uma sessão de circo. Embora hoje suporte com muita dificuldade o circo, nem por isso fiquei traumatizada e é ainda mais difícil deixar passar um ano sem que haja um concerto que me entusiasme e me mova a voltar mais uma vez ao Coliseu. 2015 ficará marcado pela sublime actuação de Benjamim Clementine, integrada neste festival Vodafone Mexefest, público que encheu a sala por inteiro extasiado com a presença, voz e compassos do inglês, a tal ponto que a meio do espectáculo não conseguia deixar de patear o chão. Depois de tantos concertos a que aqui assisti, não lembro de nenhum assim.
A sala em si é bonita. A enorme cúpula em ferro é o seu ex-libris. Aliás, a introdução da arquitectura do ferro no Coliseu foi uma das pioneiras no nosso país. Os camarotes divididos por dois andares dão graciosidade à sala. A sua lotação chega aos 4000 quando a plateia recolhe as cadeiras e nos deixamos todos estar por ali, em pé.

O Cinema São Jorge, no número 175 da Avenida da Liberdade, é outro que me impossibilita imaginar qual a minha primeira presença por ali, tantos foram os filmes e concertos que lá me levaram. Estreou em 1950 e durante muitos anos foi uma sala de cinema incontornável para muitos lisboetas. A sua sala principal tem capacidade para quase 1000 pessoas. Hoje, depois de passar por um processo de recuperação, o São Jorge, sob a gestão da Egeac (empresa municipal de Lisboa) soube adaptar-se e permanece ponto obrigatório no domínio da cultura da capital (e não só, pois o Bloco de Esquerda já fez dele poiso em noite eleitoral). Ciclos de cinema decorrem lá, mas também espectáculos de música, dança e teatro. No total são três as suas salas e um café com varanda para a Avenida. Neste Vodafone Mexefest foi possível inovar e surpreender uma vez mais com a ideia do Black Room (sala escura), quinze minutos de música totalmente às escuras, ideal para nos deixarmos estar ainda mais relaxados e seguirmos o conselho de fechar os olhos para uma experiência mais plena.

O Teatro Tivoli é outro que, não querendo ser repetitiva, é parte da infância, juventude e idade adulta da maioria dos lisboetas. Continuo sem saber o primeiro espectáculo que aqui vi, mas recordo a euforia por Tom Cruise no filme Cocktail, para além de muitas peças de teatro. Situado em frente ao Cinema São Jorge, do outro lado da Avenida da Liberdade, foi criado em 1924 para ser a melhor sala de espectáculos de Portugal, tendo lá passado os maiores filmes da história do cinema (categoria onde não se inclui certamente o Cocktail), para além de teatro, música e dança.  O seu edifício está classificado como imóvel de interesse público e a sua fachada é distinta e elegante, projecto de Raul Lino. Em estilo neo-clássico, ainda que integrado no movimento modernista da época, passaria bem por um edifício de um boulevard francês. A cúpula encimada por uma pequena torre dá-lhe ainda mais graciosidade. O seu interior não é menos elegante. A sala acomoda pouco mais de 1000 pessoas e na zona do palco é possível admirar as decorações laterais e cimeiras.

Em seguida, passaremos a descrever com mais atenção aqueles espaços muito menos visitados, ou nunca visitados, que o Mexefest improvisou:

O Palácio Foz (http://www.gmcs.pt/palaciofoz/) (ou Palácio de Castelo Melhor, pertencentes originalmente aos marqueses de mesmo nome) fica nos Restauradores. Edifício de arquitectura residencial setecentista, embora objecto de grandes alterações nos séculos posteriores, em estilo neoclássico, a sua fachada é longa e aí se destacam três espaços distintos: o primeiro piso branco, o segundo piso cor de rosa e o telhado preto em mansarda com janelas de sacada. No seu interior o estilo francês é evidente, com preocupação de recriar a estética dos Luíses. Possui uma deliciosa escadaria e vários salões com ricos motivos decorativos e elementos e materiais nobres como pedra, talha, pintura, estuques, dourados, espelhos e cristais. Os tectos trabalhados são igualmente um regalo. Um verdadeiro palácio a que não falta sequer um jardim interior. Por todo lado convivemos com mobiliário e porcelana únicos e belíssimos, com o devido "favor não mexer" como aviso. Não é à toa que a nata da sociedade lisboeta de outros tempos vinha pavonear-se nos recitais e bailes que aqui frequentemente tinham lugar. Muito se perdeu quando o proprietário original deixou de poder sustentar o seu palácio no princípio do século XX. O edifício foi então espaço de clubes, salas de espectáculo, ginásio, oficina e leitaria. Hoje é património do Estado Português e vários organismos públicos estão lá instalados. O Palácio Foz é, pois, de fácil acesso e visita e já tem sido palco de algumas exposições e recitais. Desta vez foi palco do zouk bass tarraxo dos Bison e outros artistas focados na música electrónica. Não deve haver maior contraste com o mobiliário e decoração austera do Palácio. 
Inspirador, Parte I.

A par do Palácio Foz (e do Palácio da Independência, no Largo de São Domingos, numa outra edição do Mexefest), a Sociedade de Geografia de Lisboa será dos melhores locais para se descobrir na cidade. A fundação da Sociedade de Geografia de Lisboa (http://www.socgeografialisboa.pt) em 1875 é facilmente explicável pelo contexto histórico da época, uma época em que o interesse das potências europeias pelo continente africano vinha em crescendo. Criada em Portugal décadas mais tarde do que nas capitais das "rivais" Inglaterra e França, ainda assim a ideologia imperialista e o ideal expansionista era o mesmo. A exploração do continente africano impunha-se, numa altura em que a implantação portuguesa no terreno não era abundante, com uma presença apenas em algumas das suas regiões litorais (portos de escala e plataforma de embarque das riquezas do continente), e a opinião pública europeia ia mostrando interesse por África. Exploração geográfica e científica cuja informação daí resultante serviria - e serve - para um melhor conhecimento do território e suas gentes. O acervo museológico da Sociedade nos domínios da etnologia e da história é composto de mapas, planisférios, globos, fotografias, manuscritos e outros documentos com descrição exacta das expedições, artefactos vários, mobiliário, pintura, escultura e diversos instrumentos científicos, trazendo ao conhecimento europeu, e neste caso português, também o exotismo da fauna e flora do continente. O espólio da sua Biblioteca é importantíssimo para o estudo e compreensão da História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa. 
Desde 1897 a Sociedade de Geografia de Lisboa está situada num edifício da Rua das Portas de Santo Antão, bem junto ao Coliseu dos Recreios. A sua fachada discreta é bem bonita. Ao entrar seguimos por uma escadaria com vitrais, pinturas e estátuas de nomes incontornáveis da história da expansão do nosso país (realeza, navegadores, cronistas, todos lá estão representados). No segundo andar vem o deslumbre que quase nos aparta da performance que os artistas musicais nos irão oferecer. É a Sala Portugal, lugar das grandes recepções e sessões solenes e, neste caso, lugar dos concertos do Mexefest na Sociedade de Geografia de Lisboa (o brasileiro Castello Branco com a sua música intimista sentiu-se de tal forma em casa que tornou o seu público como confidente). Esta sala acompanha toda a extensão da fachada, cerca de 50 metros de comprimento por 16 de largura, rodeada a toda a volta de galerias em dois pisos superiores (o museu). O ferro intrincado das galerias e escadaria, com destaque para esta última em ziguezague tomando a forma de um losango, é de uma beleza ímpar. 
Inspirador, parte II. 

Também nas Rua das Portas de Santo Antão fica a Casa do Alentejo. Mais popular e acessível, muito por conta do seu restaurante, o que talvez não se saiba é que a Casa do Alentejo fica instalada num edifício classificado como Imóvel de Interesse Público, também designado Palácio Alverca (por ter pertencido à família País do Amaral, Viscondes de Alverca) e que antes da sua construção o terreno estava ocupado por um curral de porcos. Construído no século XVII como palácio residencial da família, não terá sofrido muito com o terramoto de 1755. No entanto, o que hoje se observa no local é muito diferente da sua arquitectura original. Com efeito, depois de ter sido ocupado por um liceu e um armazém de mobiliário, em 1919 tornou-se num dos primeiros casinos de Lisboa (o Majestic, depois Monumental Club), até que em 1932 o Grémio Alentejano (hoje Casa do Alentejo) instalou-se aqui, tendo adquirido o imóvel em 1981. Apesar de ainda conservar o brasão da família originalmente proprietária na fachada, o interior foi muito transformado para instalação do dito casino, tomando uma decoração revivalista. Destaque para os seus pátios e painéis de azulejos, bem como elementos neo-góticos, neo-árabes, neo-renascentistas e neo-rococós. É o revivalismo, já se disse. É a exuberância, tornada ainda maior quando se vê e ouve Capicua (convidada especial dos They're Moving West) num dos salões deste Palácio. Nos salões há que observar atentamente todos os seus elementos, como o mobiliário e os candeeiros, mas há que não esquecer de olhar para as pinturas do tecto. Mas a surpresa maior é o pátio central, aberto. Num claro estilo mourisco, a que não faltam os azulejos, os arcos e a pequena fonte no centro, para além de deixar ver as janelas com varandins trabalhados no piso superior.

Ainda na mesma Rua das Portas de Santo Antão, no número 110, encontramos o Ateneu Comercial de Lisboa. Fundado em 1880 por um grupo de empregados do comércio, a data escolhida está ligada à celebração dos 300 anos da morte de Luís de Camões, o patrono do Ateneu. Para símbolo da entidade foi ainda escolhido o deus Mercúrio, presente no seu estandarte. A missão original focava-se em proporcionar educação e cultura para as classes menos abastadas da cidade, nomeadamente, aulas para os seus sócios e familiares, bem como crianças pobres, organização uma biblioteca e realização de conferências científicas e tertúlias literárias. Também a prática do desporto, em especial a ginástica, era um dos propósitos do Ateneu, o qual subsiste até hoje. Ao longo dos tempos foram várias as iniciativas em prol da sociedade por parte desta associação profissional. Em 1885 a sede do Ateneu Comercial de Lisboa fixou-se definitivamente na Rua das Portas de Santo Antão, naquele que era conhecido como Palácio Povolide ou Palácio da Anunciada (nome da rua anteriormente ao terramoto, ao qual sobreviveu). Depois do Palácio ter pertencido ao Conde de Burnay, o Ateneu viria a adquiri-lo em 1926. As suas salas não estão num excelente estado de conservação, e nem poderiam estar, pois as dificuldades que a associação tem vindo a sofrer, com processos de insolvência pelo meio ainda não resolvidos, não o permitem. No entanto, este é mais um dos espaços a (re)descobrir em Lisboa.

E a surpresa que o Mexefest nos trouxe nesta edição foi a integração de um novo espaço recém-inagurado no seu cartaz: o Tanque. O Tanque não é mais do que a piscina do Ateneu, entretanto fechada e hoje devidamente esvaziada para que possamos lá cair sem correr o risco de beber uns pirolitos. Os tempos da natação já lá vão e agora é tempo de proporcionar experiências diferentes e originais. Aqui passarão a organizar-se concertos, festas e o que mais vier à ideia dos seus novos responsáveis. Ver o funk nova-iorquino dos portuguesissímos Da Chick na pista 3 da piscina do Ateneu foi uma experiência para lá de divertida e entusiasmante. No local há também um bar.

Não muito longe daqui fica um dos espaços mais inesperados para se ouvir música não coral. É a Igreja de São Luís dos Franceses. Construção quase dois séculos anterior ao terramoto, ficou destruída à sua passagem, sendo reconstruído o seu interior na quase totalidade. É a residência religiosa e espiritual dos franceses em Portugal. Não tive oportunidade de lá entrar e assistir a um concerto, mas em ano anterior deu para sentir da porta de entrada que o ambiente será certamente especial.

Não sei se na Avenida da Liberdade morarão mais de uma vintena de pessoas. Da minha infância recordo ainda que para além dos espaços acima descritos aqui frequentava sobretudo os consultórios médicos. Da cadeira do meu dentista esforçava-me por me distrair a olhar da janela os mega-cartazes dos filmes que ocupavam quase por inteiro a fachada do Cinema Condes, hoje o Hard-Rock Lisboa. Para além deste há que recordar ainda o Éden, o Odeon, o Olimpia, o Parque Mayer, o Politeama e o Dona Maria II. Uns já eram, outros ainda cá estão para nos entreter e cultivar. E que dizer dos elevadores do Lavra, de um lado, e da Glória, do outro? As lojas das melhores marcas mundiais estão aqui presentes, mesmo que só possamos mirar as suas montras, e os quiosques no meio da Avenida, debaixo das árvores, só vêm tornar ainda mais agradável e obrigatória uma caminhada pela Avenida. Está cá tudo

sábado, dezembro 05, 2015

A Arte na Quinta do Mocho



A Quinta do Mocho é muito mais do que rusgas da polícia às suas ruas e habitações. Uma galeria de arte a céu aberto, por exemplo, com empenas e fachadas pintadas criativamente pelos melhores artistas urbanos.

Situado em Sacavém, concelho de Loures, este bairro é uma urbanização construída na viragem deste século para realojamento da original Quinta do Mocho, um prédio de uns quantos andares nunca terminado que foi ocupado, bem como as suas imediações, por um grande número de pessoas. Hoje, tal como anteriormente, os seus habitantes (cerca de 3500) são na sua maioria africanos e o nome oficial da urbanização é Terraços da Ponte. Este nome é certeiro pois é precisamente de um terraço que se trata, uma parte elevada de terreno donde se espreita o rio Tejo e a sua Ponte Vasco da Gama. 

No momento em que escrevo são já 46 as empenas e fachadas intervencionadas e é provável que amanhã e nos dias que se seguirão outras se juntem ao museu. O pretexto começou por ser o Festival o Bairro i o Mundo, finalista do prémio Diversity Advantage Challenge, promovido pelo Conselho da Europa, tendo esta galeria a céu aberto sido dada a conhecer pela primeira vez em Outubro de 2014. 

Como um bairro multicultural que é, a iniciativa de se ligar a este prémio é acertada, uma vez que o seu mote prende-se com a demonstração das vantagens da diversidade étnica e cultural. A sua população é maioritariamente jovem e iniciativas como esta - em que participou, por exemplo, Vhils, reconhecido mundialmente como um dos maiores artistas de arte urbana - procuram vencer o preconceito e aumentar a auto-estima dos seus habitantes. A imagem estigmatizada do bairro que tem sido passada até aqui pode e deve ser muito diferente e as suas gentes só têm de se orgulhar do que conquistaram para si e para nós.

Uma curta caminhada pelo bairro, para além da descoberta das pinturas que agora levam a que todos os últimos sábados do mês sejam dia de visita guiada pelos artistas e moradores do bairro, mostra-nos prédios um pouco degradados já, mas muito movimento nas suas ruas, amigos conversando à porta, sons de música sempre a sair das janelas escancaradas. São muitos os cafés, mercearias e lojas que anunciam variadas associações. O edifício da Casa da Cultura de Sacavém fica numa das entradas do bairro.

Como o bairro é maioritariamente habitado por gente vinda dos PALOP, nada como começar esta visita virtual com a fachada dedicada a Amílcar Cabral:


O mocho é quase omnipresente:



Vhils está cá:


Bisneto de Bordalo também:


As gentes do Bairro:






Um Bairro de causas:







Para mais informações, consultar o site de O Bairro i o Mundo no facebook.



sexta-feira, novembro 20, 2015

Robert Byron - A Estrada para Oxiana


Em Novembro do ano passado foi-me anunciada uma viagem que me impossibilitou de dormir a noite toda, tal era a ansiedade e entusiasmo. Iríamos, eu e os meus colegas de língua persa, dez dias para o Irão, com transporte, alojamento e refeições incluídos por conta de alguém que não nós. O visto ficaria a meu cargo e não hesitei em ir de imediato renovar o passaporte. Nem por um momento duvidei de tanta esmola. Os dias foram passando sem que surgissem novidades sobre a nossa viagem. Era para Janeiro, depois para o Carnaval, depois não era para a altura do Novo Ano Persa, mas era para logo de seguida. 

Quando há uns anos a editora Tinta da China anunciou a sua colecção de viagens lembro-me de ver logo referido que uma das primeiras obras a lançar seria o clássico "The Road to Oxiana". Demorou e só no fim do ano de 2014 foi disponibilizada aos leitores em português.
A minha viagem ao Irão não aconteceu e a ter lugar (e terá) será por minha iniciativa, logo, o melhor que fiz foi mesmo iniciar e terminar a leitura de "A Estrada para Oxiana", de Robert Byron. 

Este livro influenciou muitos pelo mundo fora, escritores ou não, aventureiros ou apenas indivíduos que gostam de viajar pelas letras. Publicado em 1937, na sequência da viagem de dez meses de Byron pelo Médio Oriente, entre 1933 e 1934, este é considerado o primeiro exemplo do quão grandiosa pode ser a literatura de viagens. O escritor Paul Fussell afirmou mesmo que "A Estrada para Oxiana" está para a literatura de viagens o mesmo que "Ulisses", de Joyce, está para o romance entre guerras e "Terra Devastada", de T.S. Eliot, está para a poesia. Já Bruce Chatwin, o herói de qualquer um de nós que começou a viajar nos anos 80 / 90, escreveu na sua introdução para o livro de Byron que este era "um texto sagrado, para além de qualquer crítica", fazendo-se acompanhar desta obra nas suas viagens. Em resumo, Byron e o seu "A Estrada para Oxiana" fez com que muitos quisessem ser escritores de viagens. 

A Oxiana do título deste livro é a região de fronteira do norte do Afeganistão, mas o seu autor viajou pelo Chipre, Palestina, Síria, Iraque, Pérsia e Afeganistão, até chegar a Peshawar (então India, hoje Paquistão) e retornar para a sua Inglaterra. O objectivo inicial de Byron era o de visitar as jóias arquitectónicas da região. O autor possuía um enorme conhecimento sobre arte e as civilizações e não se coíbe de descrever as pessoas e lugares por onde foi passando. Mas, sobretudo, uma enorme sede de sair e conhecer o mundo.

Byron lembra logo ao início deste livro, a propósito das memórias da uma sua anterior viagem a Itália, "eu podia ter sido dentista, ou uma personalidade pública, se não fosse aquele primeiro vislumbre de um mundo maior".
Mundo esse que o levou mais além, fora da Europa, pela Pérsia, por terras de Babur, o descendente de Tamerlão e Gengis Khan, que fundaria o império Mogol. As cores de mosaicos e azulejos de azul cor de uva foram-lhe marcantes e é por eles que sonho também. Aliás, diz Byron a certo passo, a cor e os motivos são um lugar comum na arquitectura persa.
É precisamente a apreciação da arquitectura e dos monumentos o seu forte. Seja na descrição da beleza de Ispaão (onde "as suas imagens entram subtilmente para a galeria de lugares que todas as pessoas reverenciam no fundo do seu coração"), das ruínas de Shaour (sobre as quais escreveu que "quem admira a força sem arte, e a forma sem alma, vê neles beleza") ou da por si odiada arquitectura de Bombaim ("absolutamente horrível: indiana, chalet suíço, castelo francês, torres de Giotto, catedrais de Siena e São Pedro podem ser encontradas todas juntas em quase qualquer edifício"; para Byron a Índia Britânica era "uma gigantesca conspiração para fazer acreditar-nos que estamos em Balham ou Eastbourne", enfim, "num país cheio de bons exemplos, os ingleses deixaram a marca da besta").

A ironia de Byron é uma das constantes ao longo desta sua obra. A tal ponto que confidencia que "hoje em dia, negligenciar um pôr-do-sol constitui uma indiscrição política" e "elogiá-lo produz igual efeito". Quebremos, então, "os tabus do nacionalismo moderno, no interesse da razão humana", e deixemo-nos levar pela leitura snob mas sempre erudita e divertida de Byron por terras de Oxiana.


sexta-feira, novembro 13, 2015

A Póvoa e o Rio

A Póvoa de Santa Iria, concelho de Vila França de Xira, possui desde o Verão de 2013 dois Parques Ribeirinhos capazes de encantar e entreter qualquer um de nós, mesmo que não habitemos esta freguesia ou as freguesias vizinhas. Quer isto dizer que vale a pena uma visita de propósito ao local? Sim, muitas vezes sim.

Encravados entre o rio Tejo e a imensidão da construção urbana, com a linha férrea de permeio, encontramos o Parque Urbano da Póvoa de Santa Iria e o Parque Linear Ribeirinho Estuário do Tejo.



Este último ocupa três freguesias: Póvoa de Santa Iria, Forte da Casa e Alverca. Aqui fica o Centro de Interpretação do Ambiente e da Paisagem, uma cafeteria e várias possibilidades de trilhos que partem da "Praia dos Pescadores". A fauna por aqui é especial, assim como o é a imensa pacatez do sítio, com as águas do Tejo como companhia perfeita para momentos que se querem de sossego entre a natureza, seja numa caminhada, corrida ou passeio de bicicleta ou até num piquenique. 



Para se chegar a este Parque Linear, como ao Parque Urbano, há que atravessar a linha do comboio e entrar num mundo de abandono: as antigas fábricas estão deixadas à ruína sendo possível ver os destroços dos seus interiores e os grafittis que tomaram conta do lugar.


O Parque Urbano da Póvoa de Santa Iria - ligado por trilho e estrada ao Parque Linear - tem igualmente uma cafeteria, bem como um parque infantil e zona desportiva com circuito de manutenção. Parece ser mais popular e mais frequentado do que o Parque vizinho. Os prédios altos e muito juntinhos da Póvoa estão ali bem perto mas é todo um mundo que os separa. Viramos-lhes as costas, mas nem assim eles nos largam, ali reflectidos mas janelas do Núcleo Museológico "A Póvoa e o Rio". 




Pese embora a beleza destes Parques, numa zona do Tejo acolhedora, quer pelas suas águas, quer pelo enquadramento que o mouchão e pequenas construções aí instaladas lhe confere, a grande descoberta é a história das relações que ao longo do tempo se foram estabelecendo entre as pessoas e o rio. E nisso o Núcleo Museológico "A Póvoa e o Rio" é um elemento decisivo e muito interessante, dando-nos a conhecer esta terra que foi crescendo junto ao Rio Tejo e desde cedo se dedicou à extração do sal (desde o século XIII que há registo desta actividade, tendo as salinas deixado de ser exploradas no final do século XIX), vendo o transporte fluvial como um meio de comunicação privilegiado no transporte de pessoas e bens (ou não estivesse a Póvoa localizada próxima da entrada do grande estuário e da foz do Tejo) e, mais tarde, no fim do século XIX, assistindo à forte industrialização da sua zona ribeirinha (num lugar entre o Rio Tejo e a linha ferroviária, às portas da capital). 


Mas é sobretudo a descoberta da actividade piscatória ligada a uma comunidade não muito conhecida que nos enriquece: os Avieiros
Alves Redol, escritor ribatejano, escreveu nos anos 40 um livro de nome "Avieiros" cuja temática versa sobre esta comunidade, tendo apelidado as suas gentes de "nómadas do rio".
Originários de Vieira de Leiria - daí a designação Avieiros -, no século XIX muitos dos que se dedicavam aí à labuta no mar passaram a vir para as margens do Tejo (e também do Sado) a partir dos meses de Novembro, quando a agitação do mar impossibilitava a faina. No Tejo, de águas mais calmas, encontravam peixe em abundância (sobretudo o sável) e por cá ficavam até à Primavera, regressando então para as suas terras. Com o passar dos anos, o tempo de vida no Tejo destes migrantes aumentou e acabaram por fixar-se aqui definitivamente em meados do século XX, passando a dedicar-se não apenas à pesca, mas também ao trabalho agrícola.


Estas migrações internas motivadas pela busca de trabalho e melhores condições de vida trouxeram para várias povoações à beira do Tejo, entre as quais a Póvoa de Santa Iria, um conjunto de pessoas que se fizeram acompanhar dos seus costumes e de um estilo de vida muito próprio. O rio era para elas o centro de tudo, de tal forma que no início viviam mesmo no interior dos seus barcos, o barco-morada, aqui dormindo, trabalhando e fazendo as refeições. Mais tarde passaram a construir pequenas casas, muitas feitas de canas, outras de madeira, na maioria assentes sobre estacaria, as chamadas casas de palafita. Ainda hoje é possível observar algumas delas no Parque Urbano da Póvoa de Santa Iria, com os seus barquinhos "à porta". 




Preservando a memória da vida e do trabalho desta comunidade, para além de uma associação que leva o nome de Avieiros, encontramos ainda neste Parque uma série de pequenas casas de madeira que são hoje arrecadações de apoio à pesca desta comunidade. Não faltam sequer cais. Nem os assadores à porta.

Na procura de reconhecer e manter viva a memória dos Avieiros, o povo do rio de vida dura, possuidores de uma cultura distinta, seja pelos seus barcos, utensílios de pesca, traje, cante e cultura palafitica, tem vindo a ser colocada em marcha a sua elevação a património nacional. Bem merece ser conhecida a sua história e cultura.

sexta-feira, novembro 06, 2015

Raul Brandão - As Ilhas Desconhecidas


Esta obra de Raúl Brandão (1867-1939), autor de Húmus, é um excelente livro de viagens.
"As Ilhas Desconhecidas - Notas e Paisagens" são o relato da viagem que o autor fez aos arquipélagos dos Açores e da Madeira no Verão de 1924, tendo sido publicado originalmente em 1926 e republicado em 2011 pela editora Quetzal.
Após a leitura do livro, que Raul Brandão diz serem notas de viagem, é evidente o maior gosto e simpatia do autor pelas paisagens e gentes dos Açores em relação às da Madeira, que considerava já então excessivamente turística.
Em ano de abertura dos voos para os Açores às companhias low cost, e prevendo-se o crescimento das visitas por parte dos continentais, não será nada má ideia a leitura prévia desta obra maior da nossa literatura de viagens. 
O livro é belíssimo, todo ele um panegírico às nossas ilhas. As palavras, essas, tocam fundo no nosso coração, ainda para mais o daqueles que amam as ilhas e o mar: "mar desmaiado, que não foi feito para se ver mas para respirar". A paisagem, que aliás consta no nome completo deste livro, desperta no autor uma profusão de sentimentos tal que o leva a escrever que "à noite não posso dormir; estou encharcado de azul. Vou a pé pela estrada fora sob o luar derretido. Diante de mim abre-se o abismo do mar cheio de estrelas". De lembrar que Raul Brandão nasceu na Foz e era descendente de pescadores e antes desta havia escrito a obra "Os Pescadores".
Depois de passar rapidamente pela Madeira, Raul Brandão seguiu para os Açores. Por aí foi viajando, de barco, de ilha em ilha. Com a experiência da paisagem que se sucedia à paisagem diz a certo ponto ter percebido que "o que as ilhas têm de mais belo e as completa é a ilha que está em frente".
Sobre o Pico, ponto mais alto de Portugal, aponta que "isto que de longe era roxo e diáfano, violeta e rubro, conforme a luz e o tempo, aparece agora, à medida que o barco se aproxima, negro e disforme, requeimado e negro, devorado por todo o fogo do Inferno. É um torresmo. Nunca labareda mais forte derreteu a pedra até cair em pingos e desfazer-se em cisco. É uma imagem a negro e cinzento que me mete medo.". Ainda assim, não deixou de tentar a "exaltação da vida livre" de subir até ao Pico: "Dorme-se numa furna para ver amanhã o nascer do sol no alto do Pico. Quem quer, dorme às estrelas. Vamos... O que eu procuro, pela última vez na minha vida, não é o panorama - é a exaltação da vida livre.".
São Miguel, a ilha ainda hoje mais acessível, é lugar das Sete Cidades e face a esta paisagem Raul Brandão não podia ser menos contido na grandiloquência que o sentimento conferiu às palavras: "irrealidade, algo fora da vida, regiões inesperadas de sonho".
Da Madeira, como já referido, Raul Brandão não parece ter levado o mesmo encantamento que levou dos Açores, não deixando de as comparar e ter da primeira uma visão crítica. "Agora conheço melhor a Madeira. Passado o primeiro entusiasmo, vejo tudo a frio. Esta ilha é um cenário e pouco mais - cenário deslumbrante com pretensões a vida sem realidade e desprezo absoluto por tudo que lhe não cheira a inglês.". Ainda assim, realça a sua cor a as suas frutas.
Embora Raul Brandão tenha uma atenção a todos os sentidos - visões, sons, sabores - a exaltação da cor e da paisagem é uma constante ao longo de toda esta obra. A cambiante da cor produziu em Raul Brandão tais sentimentos que parece que não são apenas os Açores que poderão ser comparados ao Japão, como algures se diz. Também o espírito do autor, disponível para se deixar tocar pelo evoluir do dia, parece ter semelhanças com os autores japoneses, tão sensíveis à mudança das estações. Um naturalista, também.
Presentes de forma amiúde estão, igualmente, a solidão e uma certa melancolia que provoca toda a beleza visitada. Nas gentes açorianas o autor sentiu um isolamento extremo (no Corvo) e uma coragem destemida (caça à baleia no Pico), mas sobretudo uma partilha e espírito de comunidade admiráveis.
As Ilhas Desconhecidas é uma das obras maiores de toda a nossa literatura, em especial para quem aprecia que coloquem em palavras sublimadas as nossas gentes e o nosso território.