quarta-feira, janeiro 20, 2016

A Sevilha monumental da Catedral, Giralda e Real Alcázar

Cidade monumental, Sevilha é ao mesmo tempo castiça e carismática.
Bairros de ruas estreitas, edifícios à vez imponentes e populares, pátios que se nos oferecem um pouco por todo o lado e praças acolhedoras. As laranjas são omnipresentes e dão ainda mais cor a uma cidade que já a tem de sobra.

Mas, visita de um dia apenas pode suspeitar disso, uma vez que os dois maiores símbolos de Sevilha ficam na mesma Plaza del Triunfo e são capazes de nos ocupar um dia inteiro, liberando-nos para pausas para tapear. São eles a Catedral e sua Giralda e o Real Alcázar.


A Catedral de Sevilha é também conhecida como a Catedral Santa María de la Sede de Sevilla. 
É nos logo à partida apresentada como a maior catedral gótica do mundo e a terceira maior catedral do mundo, apenas atrás da de São Pedro, em Roma, e da de São Paulo, em Londres. 
No entanto, a sua história não começa com a devoção ao cristianismo. Na verdade, é anterior à tomada de Sevilha aos mouros, quando estes, sob o comando dos almóadas, se decidiram pela construção de uma mesquita em 1172. Apenas em 1401 (data incerta), e depois da mesquita passar a ter sido utilizada pelos cristãos como catedral, apesar do seu mau estado de conservação, é que surge a ideia de construir uma nova catedral. 


A ambição era desmedida e o objectivo desde o início era a "construção de uma igreja tão deslumbrante que a ela nenhuma se compare; uma obra de tal envergadura e esplendor que quem a contemple pense, eram decerto loucos!". 

A conclusão aconteceria em 1506, mas ao longo dos séculos, porém, a catedral foi sofrendo diversas alterações e ampliações, sempre obedecendo ao espírito e estilo da época, de tal forma que todas essas acções contribuíram para que o conjunto abranja elementos almóadas, mudejares, góticos, renascentistas e barrocos. 

O seu interior é, como não podia deixar de ser, grandioso. Circulamos por diversas pequenas capelas até ficarmos face à face com a Capela Maior, cujo altar-mor tem de altura 27,80 metros e de largura 18,20 metros, preenchidos de inúmeras figuras. Os tectos e abóbadas são outra maravilha, mas o deslumbre acaba por recair por inteiro no Coro, constituído por elementos góticos e mudejares. No meio da Catedral podemos encontrar ainda o Túmulo de Colombo, embora seja matéria de muita discussão se são os seus restos mortais que lá estarão na realidade. 


Da mesquita pré-existente sobre a qual foi construída a Catedral chegou aos nossos dias parte do Pátio de los Naranjos e a muito admirada Giralda, o antigo minarete dos almóadas. 
Entre os símbolos de Sevilha, a escolher apenas um tem de ser a Giralda. A torre moura feita campanário é pura elegância. 
Construída em pedra e tijolo, a Giralda é o exemplo perfeito da evolução da cidade enquanto agente aglutinador e assimilador das culturas e religiões de que foi palco. A sua construção teve início em 1184 e desde essa época o trabalho delicado de decoração mantém-se pronto a ser desfrutado pelo nosso olhar, despertando todas as nossas emoções. Da rua podemos apreciá-lo, mas diz que da visita que se pode fazer aos pisos superiores da Catedral (e não apenas ao seu interior) se obtém uma percepção mais completa desta obra de arte que mais parece filigrana. Na sua fachada encontramos uma decoração com motivos geométricos (losangos) entrelaçados, janelas geminadas e arcadas falsas. Uma perfeição e um deleite. 




Este "primeiro arranha-céus do mundo", como os andaluzes gostam de se lhe referir, consagrado à eternidade, tinha originalmente 70 metros. Construída em três fases, foi objecto de duas remodelações que hoje fazem a torre da Giralda chegar aos 90 metros. Numa primeira remodelação, em 1400, a sua cúpula foi substituída por um campanário acompanhado de um a cruz; depois, entre 1558 e 1568 foi-lhe acresçentado o topo que vemos hoje, em estilo renascentista, com o Giraldillo a encimá-la.



Desde o interior da Catedral é possível subida à Giralda para uma panorâmica fantástica da cidade.

À saída da Catedral temos as ciganas e a sua insistente oferta de ramos de alecrim. A compor o postal castiço e típico não faltam as charretes para um passeio diferente. 


Mas a Plaza do Triunfo tem algo mais para admirar antes de dirigirmos o foco para o Real Alcázar, situado num dos lados da praça. É o enorme e belo edifício do Arquivo das Índias, construído entre 1585-1598 para servir originalmente como bolsa de comércio. Mais tarde, no século XVIII veio a tomar as funções que hoje desempenha, as de arquivo geral de documentos relativos à história dos descobrimentos do novo mundo.

O Real Alcázar de Sevilha, enfim. 
Este é o mais antigo dos palácios europeus que até hoje continuam a desempenhar a função de residência real (quando os reis de Espanha vêm a Sevilha é aqui a sua residência oficial; a infanta Elena casou na Catedral e realizou a boda no Alcázar).
Um Alcázar não é mais do que um palácio intra-muralhas. Mas este é muito mais do que isso. 
À semelhança de muito em Sevilha, aqui também houve uma constante evolução deste monumento, feita de contributos de todas as culturas e estilos dos povos que por aqui foram passando ao longo dos últimos séculos e que, em cada época, escolheram dos melhores artistas para tornarem este "mini-Alhambra" a beleza e a delícia que é. 
A origem do Alcázar pode ser traçada ao tempo do califado de Córdoba, quando em 913 o seu governador mandou construir uma fortaleza-palácio, de que ainda se conservam parte das muralhas originais. 
Foi ainda com os mouros, mas já no século XI com o taifa dos Banu Abbad, que se verificou a primeira ampliação do Alcázar. A sua porta de entrada é desta época, bem como o Pátio do Leão que se lhe segue, embora com alterações. O nome "leão" vem da figura do leão representada na cerâmica que encima aquela porta, sendo o leão o símbolo medieval da realeza.


No século XII, com os almóadas, a grandeza e esplendor arquitectónico tomaram uma força maior e, para além da mesquita (depois Catedral) e seu minarete (a Giralda), foi novamente ampliado o Alcázar. O Pátio de Yeso é desta época. 

Um século mais tarde, Sevilha foi conquistada aos mouros por Fernando III, o Santo, e o Alcázar foi convertido na sua residência, tendo mais tarde o palácio sido ampliado pelo seu filho. Foi, no entanto, na segunda metade do século XIV que se deram as maiores alterações no Alcázar, tendo este tomado a forma que se conserva até hoje, embora com algumas alterações. 




Por exemplo, em 1364 o Rei D. Pedro I, conhecido à vez como "o cruel" ou "o justiceiro", mandou construir o seu palácio, o qual leva hoje o seu nome. Nele trabalharam os mais talentosos artesãos do reino e a sua fachada é prova disso. Monumental, com laterais simétricas e uma galeria superior ao centro com janelas, a sua decoração é deliciosa. 



O deslumbre aumenta à medida que adentramos palácio fora rumo ao Pátio das Donzelas e ao Salão dos Embaixadores, onde se destaca, grandiosa, a sua cúpula, continuando no acolhedor Pátio das Bonecas, onde encontramos trabalhos em estuque que são uma verdadeira obra-de-arte, bem acompanhados por uns encantadores arcos.


Depois destas construções, em 1526 Carlos V casou aqui com Isabel de Portugal. No piso superior ao Pátio das Donzelas visitamos o Palácio Gótico, com salões bem diferentes daqueles construídos pelos cristãos segundo uma arquitectura e pormenores grandemente influenciamos pelos muçulmanos. A pompa aqui é outra. E somos informamos que parte desta área sofreu com o Grande Terramoto de Lisboa de 1755. Mas não falta o escudo do nosso país a decorar um dos salões. 


Também no piso superior do Palácio de D. Pedro I fica o Quarto Alto, a tal ala ainda hoje usada para receber a família real quando está em Sevilha. É possível a visita ao Quarto Alto com a aquisição de um bilhete à parte. Este acaba por ser um palácio mais comum, sem surpresa de maior ao olhar europeu, embora obviamente com mobiliário que deslumbra pela sua imponência e formalismo.



Até aqui já não temos dúvidas em relação à mescla de estilos que o Alcázar nos oferece. Almóada, gótico, mudejar, renascentista, todos eles estão presentes sem que deixem de nos passar uma total harmonia.


E ainda falta falar dos jardins, outro ponto alto da visita ao Real Alcázar. A sucessão de pátios, fontes, azulejos e laranjeiras continua. O deleite também continua. Os jardins são imensos e parece ser impossível não nos perdermos neles. Faltará sempre um canto para conhecer. No entanto, não podemos deixar de visitar o Jardim do Lago e sua estátua de mercúrio, obra de Diego Pesquera do século XVI. As estátuas de leões à volta do lago estão de vigia. 





Por cima fica a  Galeria del Grutesco, um fragmento da antiga muralha almóada transformado em passarela mirador. Daqui do alto alcançamos uma ideia mais exacta da extensão dos jardins do Alcázar e seus elementos e desenho. 


O Pavilhão Carlos V é um deles, envolto no jardim de mesmo nome e prova provada da influência que a arquitectura islâmica continuou a ter desempenhar muito após a saída dos mouros da cidade: a fonte e a água, elemento essencial à vida. 




Uma dica para a visita tanto à Catedral como ao Alcázar: se se pensar visitar Sevilha em época alta é de todo aconselhável a compra dos bilhetes de entrada para estes dois monumentos com antecedência. De contrário, espera-nos certamente uma fila que nos tirará o precioso tempo para nos deixarmos perder no muito mais que a cidade tem para oferecer. 

Sevilha


Sevilha é uma verdadeira surpresa. 


Palmeiras pelas avenidas, casas com riscas amarelo torrado a dominarem o casco antigo, um sem número de laranjeiras em ambiente urbano (diz-se que serão mais de 30 mil). Toda uma realidade que mais parece própria de uma qualquer cidade colonial da América Latina. 
Mas não. Sevilha fica a apenas cinco horas de viagem de carro desde Lisboa. 

A capital da Andaluzia está situada no vale fértil do Guadalquivir. Apesar de ter sido fundada pelos romanos (a Hispalis), apenas a partir de 1040 começou a emergir como o taifa mais forte da região, em detrimento de Córdoba, quando os almorávidas chegaram para combater a ameaça cristã e acabaram por derrotar Castela e tomar também o Al-Andaluz. Após o poder almorávida seguiu-se o dos almóadas, ambos muçulmanos. 

Em 1248 Sevilha foi conquistada por Fernando III, o Santo, e os muçulmanos acabaram por se remeter a Granada, estabelecendo aí o Emirado Nasrid, o último bastião islâmico na Península Ibérica. 
Com a reconquista cristã o esplendor da era dos almóadas manteve-se e aumentou ainda mais com a descoberta da América por Cristóvão Colombo em 1492, tendo Sevilha vindo a ganhar o monopólio oficial espanhol do comércio com o novo mundo, com abundante entrada de ouro e prata. Resultado? A ascensão de Sevilha ao posto da cidade mais rica e cosmopolita do mundo.

Todavia, o passado islâmico não foi apagado e apesar da reconquista aquele serviu de base para as fundações da nova cidade, de tal modo que a influência islâmica ainda nos dias de hoje está presente na arquitectura e cultura da cidade. Os dois maiores monumentos / símbolos de Sevilha são disso exemplo: a Catedral e sua Giralda foram erguidas a partir das anteriores mesquita e minarete e o Real Alcázar é o somatório de um conjunto de intervenções ao longo dos séculos.

O romano, o islâmico, o gótico, o renascentista e o barroco convivem lado a lado. 

O grande encanto de Sevilha é precisamente esse, o de conseguir preservar e mesclar na perfeição vários estilos, várias épocas, vários ambientes, tendo como resultado um enriquecimento absoluto. Difícil mesmo será não conseguir sentirmo-nos atraídos por alguma das suas muitas personalidades. Ao lado das centenas de igrejas e festas católicas (Semana Santa, Feira de Abril e O Rocio), que deixam em êxtase os locais e os visitantes, encontramos a paixão pelos touros e pelo flamenco que revelam toda a alma desta cidade. 

Uma cidade claramente feminina, como a designou James Michener na sua obra "Iberia", publicada em 1968. Uma cidade que parece viver na rua, pelas ruas pedonais das compras como a Calle Sierpes, rua estreita a respeitar a identidade das cidades da Andaluzia, ou pelos incontáveis bares de tapas. 


Uma cidade antiga e tradicional, sim, mas sem medo de encarar o futuro como o fez com a organização da Expo 92 e mais recentemente, em 2011, com a construção do Metropol Parasol, paradigma da coragem em romper consciências sem medo de abraçar o futuro e a modernidade. 

E, depois, para o ambiente de alegria e boa disposição que se sente um pouco por cada canto da cidade muito contribui o clima que aqui calhou em sorte. Se no verão o termómetro sobe a insuportáveis 40 e tal graus, no Inverno, mais especificamente na última semana de 2015, consegue manter-se nuns inimagináveis 20 graus durante parte do dia, com a luz natural a abandonar-nos apenas por volta das 18:30. Que mais pedir para uma escapada de inverno na Europa?

Um aviso prévio à descrição de parte do melhor que Sevilha nos tem para oferecer: não se pense que dois dias são suficientes para se conhecer bem a capital da Andaluzia. Com as filas intermináveis de turistas, dá para ver a zona monumental (Catedral e Giralda e Real Alcázar), tapear e pouco mais. A nós, entre muito mais, ficou pelo menos a faltar um passeio pelo bairro de Triana (o antigo bairro de pescadores na outra margem do Guadalquivir) e a visita ao Museu de Belas Artes e ao Centro Andaluz de Arte Contemporânea.

quinta-feira, janeiro 14, 2016

A Andaluzia pela A92

A Andaluzia é famosa pela sua Costa do Sol, paraíso dos reformados da Europa do norte endinheirada, e pelo seu passado mouro. Historicamente, o poder e cultura islâmica tiveram lugar primeiro em Córdoba, entre 756 e 1031, seguidamente em Sevilha, entre 1040 e 1248, e, por fim, em Granada, entre 1248 e 1492. Até hoje nestas três cidades testemunhamos o seu legado materializado em palácios, mesquitas, jardins e mercados. Todo um mundo de deslumbre feito de elegância e delicadeza.

Os fenícios, os romanos (Itálica, uma das cidades mais ricas do império romano, situada às portas de Sevilha, foi lugar de nascimento dos imperadores Trajano e Adriano), os visigodos e depois os muçulmanos (que aqui chegaram na sequência da disputa do trono visigodo por várias facções godas rivais), para além de árabes, berberes, judeus e espanhóis do norte, todos eles se podem considerar os ancestrais dos andaluzes. Todas juntas, estas civilizações legaram-nos diversos estilos de arquitectura, não sendo difícil encontrar num mesmo lugar uma mescla de elementos mudejares, góticos, renascentistas, barrocos ou neoclássicos. 

Se a Costa do Sol, Atlântico a transformar-se em Mediterrâneo com África à espreita, seduz muitos, a outros são as marcas do Al-Andaluz que encantam - "Al-Andaluz", a designação que os muçulmanos atribuíram a esta região, tendo aqui exercido o seu poder por cerca de oito séculos, criando a cultura mais sofisticada e evoluída da época medieval na Europa.

Até que a reconquista cristã chegou no século XIII (e os muçulmanos remeteram-se a Granada) e, logo depois, em 1492, os reis católicos patrocinaram Cristóvão Colombo na sua busca de descoberta de novas rotas de comércio com o Oriente. O navegador deu antes com a América e a Andaluzia, sobretudo Sevilha, emergiu como uma plataforma no comércio mundial. A prosperidade da nova era permitida pelo ouro, prata e outros bens que chegavam das novas colónias espanholas do Novo Mundo tocou não apenas a Sevilha - a maior cidade espanhola até ao fim do século XVII e uma das mais ricas do mundo - mas também a vários povoados vizinhos. 

Ainda hoje, percorrendo a A92 (autopista sem portagens e de qualidade equivalente às auto-estradas pagas portuguesas) que liga Sevilha a Granada, diversas cidades há à sua beira que merecem mais do que uma breve paragem. 

Apesar de esta região ter sido habitada por inúmeros povos, foi após a descoberta da América por Colombo que cidades como Antequera e Osuna se desenvolveram e tornaram ricas, de tal forma que a opulência de outrora é ainda hoje visível.

Com o fim do século XVII veio um afrouxar desta história de pujança da Andaluzia. Má estratégia, guerras na Europa, escasseio da prata, epidemias, fracas colheitas, assoreamento do rio Guadalquivir levaram a que Cadiz, na costa andaluza, assumisse o controlo das rotas de comércio mas sem a mesma força que Sevilha havia desempenhado noutros tempos.

Nos dias de hoje a Andaluzia é mais conhecida pelo carácter expansivo das suas gentes, de quem se diz que serão pouco dadas ao trabalho (mas quem consegue trabalhar sob 45 graus sem se dedicar a umas horas de siesta pelo meio?) e mais à festa. O estigma está criado. 

A principal economia da região é o turismo, mas para além de turistas em busca da sua diversidade cultural e cosmopolitismo, a Andaluzia é terra de muitos imigrantes, prosseguindo a sua história de acolher diversas culturas e raças. 

Antes, porém, outros se deixaram encantar e inspirar por esta terra de paixão - seja pela religião católica vivida na Semana Santa, pela aficion pelos touros ou pelo flamenco dos gitanos. Sevilha é palco de "Don Juan", de Lord Byron, e da ópera "Carmen", de Bizet; em Sevilha nasceu Velasquez (e Felipe Gonzalez); Irving Washington voltou a colocar Alhambra no mapa com o seu "Tales of Alhambra"; Granada é a cidade de Federico Garcia Llorca e onde este morreu fuzilado durante a Guerra Cilvil espanhola; Ernest Hemingway também passou pela Andaluzia e em Ronda escreveu dos capítulos mais fortes de "Por Quem os Sinos Dobram". 

A visita a Ronda estava nos planos iniciais desta viagem, mas foi deixada cair para um futuro passeio pela costa andaluza. Assim, para além de Sevilha e Granada, ficámo-nos por Antequera e as três mais pitorescas vilas / cidades de La Campiña: Osuna, Écija e Carmona.



Antequera fica situada numa planície entre Sevilha e Granada e é mesmo boa ideia fazer um desvio da autopista para a ir conhecer e sentir (de Sevilha a Antequera são cerca de 160km, sensivelmente 2 horas de caminho). Embora por aqui se encontrem vários exemplos de dolmens do neolítico e da idade do bronze e graças à sua excelente localização estejam presentes elementos das três maiores influências da Andaluzia (romanos, islâmicos e espanhóis), Antequera é um testemunho perfeito do esplendor e riqueza vividos entre os séculos XVI e XVIII. 



Cidade monumental, aqui encontramos as marcas típicas da Andaluzia: povoado branco, ruas estreitas, pátios recolhidos, janelas adornadas, laranjeiras em abundância. E um castelo numa colina da qual se obtém uma vista de tirar o fôlego, cidade lá em baixo onde as torres das igrejas irrompem pelos céus em número quase ainda maior do que as laranjas. Os telhados vermelhos são os coadjuvantes perfeitos neste belo cenário.



Podemos começar o passeio indo directos à colina que forma a parte alta da cidade, onde está a Alcazaba do tempo dos muçulmanos e a Colegiata de Santa Maria Mayor e a sua fachada renascentista. Descendo desde aí, por ruas inclinadas e estreitas com nomes como "Cuesta de San Judas", as igrejas a visitar são inúmeras, com destaque para além desta para o Convento e Igreja de Carmen (possuidor de um extraordinário retábulo) e para o Museu Conventual de las Descalzas. Já cá em baixo fica a Plaza de San Sebastian com a torre de mesmo nome, aquela que se vê e sente de quase qualquer lugar por aqui. A arquitectura desta bela torre é de estilo barroco-mudejar, só para provar, se preciso fosse, que aqui todas as culturas e estilos convivem bem uns com os outros.



A região de La Campiña está situada numa planície onde se veem largos campos cultivados, não muito longe de Sevilha. Écija e Carmona foram vistas a correr debaixo de chuva (sem fotos, portanto) e não deixo de o lamentar. Écija é conhecida como "a cidade das torres" pois, à semelhança de Antequera, são muitas as suas igrejas. Desta vez as suas torres estão maioritariamente decoradas com mosaicos de cores vivas. O esplendor de outrora desta cidade para onde os comerciantes abastados dos séculos XVII e XVIII se recolhiam é ainda visível pelos palácios que aqui construíram, em estilo gótico, mudejar e barroco.

Carmona está situada numa colina donde se avista um extenso vale. Passando a monumental Puerta de Sevilla vamos caminhando pelo seu centro compacto, feito de mansões enormes, e avistamos ainda troços da muralha da antiga cidade que vem dos tempos muçulmanos, bem como a Alcazaba. Curioso que a cor dominante desta cidade parece ser já não o branco, mas antes a cor dourada dos seus palácios.



Osuna é talvez a mais bonita e encantadora das cidades de La Campiña. Situada a 90 km de Sevilha, pouco mais de uma hora de caminho, diz-se que aqui está a segunda rua mais bonita da Europa e as expectativas logo se tornam elevadas. A distinta rua é a Calle San Pedro, onde Franco Zefirelli filmou o seu Maria Callas. Os palácios sucedem-se e a exuberância do barroco é marcante.
Dois exemplos:

O edifício da Cilla del Cabildo Colegial tem na sua fachada uma representação da torre Giralda, de Sevilha, ladeada pelas mártires sevilhanas Santa Justa e Santa Rufina.

O Palácio Marqués de la Gomera, adaptado a hotel de charme, tem o brasão da família originalmente sua proprietária na fachada. O balcão que dá para a estreita rua pertence à suite do palácio / hotel.

Já na Calle Sevilla, a qual se alcança logo depois de deixarmos a Plaza Mayor, fica o Palácio de Puente Hermoso e a sua fachada com pilares entrelaçados com cachos de uvas e folhas de videira neles esculpidas.

O ornamento pode ser excessivo, mas o bom gosto e equilíbrio não deixam de ser uma realidade.



Osuna é uma cidade pequena, mas concentra um grande número de igrejas e palácios civis senhoriais. As janelas de piso térreo são outra das suas delicias. 

Assim como o arco da Calle Hornillo.

Osuna foi cidade ducal dominada pela família Téllez nos séculos XVI e XVII, os quais aqui se dignaram fundar uma universidade em 1548 (que perdurou até 1842). No topo da cidade está, imperial, como se guardasse o povoado, a Colegiata de Santa Maria de la Asunción (que não visitei, mas a qual guarda quadros de Ribera e uma capela do Panteão Ducal que dizem ser uma obra-prima).

Uma curiosidade mais apenas. Como se chamam os habitantes de Osuna? Ursaonenses, por supuesto.

quinta-feira, janeiro 07, 2016

Pelo Baixo Alentejo

Fomos para sul, rumo ao Baixo Alentejo. 

Beja, capital de distrito, foi a primeira paragem. 
Após um piquenique no seu Parque das Merendas, saímos para passear pela cidade, a antiga Pax Julia dos romanos.


Mas antes dos romanos o lugar já era povoado, graças ao seu solo rico, sempre factor de atracção das gentes. Os lusitanos andaram por cá, depois os romanos promoveram Beja a sede da região sul da Lusitânia e pacificaram as suas várias tribos. A designação Pax Julia vem dos tempos de Julio César, imperador de Roma no século I. Beja entrou então no mapa da história e tornou-se na época uma cidade importante. Após o domínio dos romanos foi tomada pelos bárbaros - os visigodos - e mais tarde pelos mouros. Dizem alguns que a actual designação "Beja" deve-se a eles, numa forma elaboradíssima e não facilmente entendível de evolução do topónimo "Pax", mas esta é questão controversa. Até que o "nosso" D. Sancho II, em 1232, revolveu tomar a cidade e fazer com que esta entrasse na órbita cristã - até hoje.


Beja está situada numa imensa planície e isso é bem visível do seu castelo, do qual restam partes das muralhas e a Torre de Menagem (actualmente em restauro, construção do tempo de D. Dinis, que concedeu foral a Beja). Até aos nossos dias chegaram também algumas portas da cidade, as quais levam o nome das terras para as quais abrem caminho, como Porta de Mértola ou Porta de Avis.



A história de Beja é uma de evoluções e apagamentos. Apesar de ter sido local de moradia real (os pais de D. Manuel I, por exemplo, eram Duques de Beja), nem por isso chegou a ser importante em termos urbanísticos a nível nacional, sendo sempre relativamente despovoada. O que foi sempre, sim, foi lugar de convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos. Até hoje podemos caminhar pelo Bairro da Judiaria, com as suas casas seguindo a altura da muralha, e o Bairro da Mouraria, com as ruas ruas estreitas e intrincadas. O labirinto das ruas de Beja corresponde ainda a um traçado urbano medieval e só por isso vale bem a pena a visita a esta cidade. Não pode ser acusada de monumental, mas como conjunto é francamente agradável, uma cidade pequena-média portuguesa em que a sua unidade estética e arquitectónica é equilibrada.

Ao lado do seu passado mouro e medieval, não faltam os edifícios da época do Estado Novo como o dos correios e o do liceu (este último do arquitecto Pardal Monteiro). Já depois do 25 de Abril a cidade viu nasceu a Casa da Cultura, do arquitecto Raul Hestnes Ferreira. Tudo obras que não rompem nem polemizam, antes se enquadram no edificado. 



Para além de uma caminhada pelas ruas, há espaços em Beja que não podem deixar de ser visitados. Pela Rua dos Mercadores, atentos a pormenores como símbolos de antigos lojistas e janelas manuelino-mudejares que persistem, chegamos à Praça da República com as suas arcadas manuelinas. Do outro lado do centro da cidade, o Jardim Público, contíguo ao antigo Convento de São Francisco, belamente restaurado para a sua reconversão em Pousada de Portugal, é um lugar para se deixar estar. Destaque para o painel de azulejo alusivo à morte do Lidador, segundo lenda de Alexandre Herculano. Aliás, a arte azulejar em Beja é coisa séria. Vemos azulejos nas ruas, casas e edifícios, mas também nas igrejas. 



Incontornável e obrigatória é a visita ao Convento de Nossa Senhora da Conceição. Um dos primeiros onde foi aplicado o azulejo na decoração de interiores (que era comum na cultura islâmica), o Convento foi fundado em 1458 pelos Duques de Beja, pais do rei D. Manuel I. Gozou de protecção real e a sua riqueza é evidente ainda nos nossos dias. Naquele onde está hoje instalado o Museu Regional podemos encontrar uma igreja barroca do século XVII em talha dourada. Exuberância é a palavra certa para a descrever. Para além da igreja é nos dada a conhecer uma colecção de azulejos, pintura e artefactos arqueológicos. Os claustros deste antigo Convento que foi ainda lugar da Ordem de Santa Clara, pertencente aos franciscanos, não deslumbram tanto como o que está para além deles: a Sala do Capítulo cuja entrada é feita por um portal gótico brasonado que nos deixa face a face com uma decoração rica em painéis de azulejos hispano-mouriscos e pinturas murais, bem como uma abóbada belíssima. A fachada do Convento não entusiasma menos, sobretudo as gárgulas que adornam o seu topo.



Mas este Convento de Nossa Senhora da Conceição é famoso ainda por questões mais terrenas, nomeadamente pelas cartas apaixonadas que a freira Soror Mariana Alcoforado de lá escreveu ao seu amado conde soldado, o qual via passar da janela da sua cela e muito provavelmente não apenas isso. Beja tem, pois, o seu mito; um mito feito de paixão.

E tem praças, muitas, tal como igrejas, também muitas. Praças sem gente, igrejas fechadas.
Um velhote hoje reformado e viúvo, nascido no Minho e cedo imigrado em Lisboa, foi parar a Beja no início da sua idade adulta e por lá ficou. Diz que lá não há nada, não há vida, não há trabalho. Resta a mulher, sepultada no cemitério próximo de casa. Que Moura é muito melhor, gente sempre a encher os cafés. 

Fomos verificar.

E é verdade. As ruas estão mais preenchidas e os cafés também, mesmo à hora da sesta.



De Moura ficam as lendas da Moura Encantada e as suas chaminés características. É ainda terra de fontes monumentais a fazer-nos lembrar que esta é zona rica em água. 
Não falta um castelo e um centro histórico pequeno e compacto com ruas estreitas pedonais delicadamente enfeitadas com flores e diversos edifícios antigos que conservam os ricos pormenores nas suas fachadas. 



Rapidamente rumo a Serpa.

A paisagem alentejana, do Alentejo profundo, vasta e imensamente plácida, nunca monótona, é feita de oliveiras e moinhos aqui e ali.

À entrada de Serpa, numa daquelas rotundas de pretenso ordenamento do trânsito que pululam pelo nosso Portugal, uma escultura de tributo aos alentejanos que nos embalam com o Cante Alentejano, desde 2014 Património da Humanidade.



Serpa é para mim a mais bonita das cidades do Baixo Alentejo. Vista das muralhas do seu castelo, então, a vista é esmagadora. As casas brancas e a sua cobertura de telha ocre formam uma combinação perfeita, daí que o epíteto de cidade branca seja certeiro.

Serpa era uma vila muçulmana antes de D. Dinis lhe ter concedido foral em 1295 e a refundar. Antes de se tornar rei, D. Manuel I havia sido senhor de Serpa e a cidade era então uma das mais importantes do reino.



Aqui voltamos a poder ver nos dias de hoje um castelo, sua torre e muralha, mas desta vez acompanhado de um aqueduto monumental. O castelo virá desde o tempo da ocupação árabe, mas o aqueduto foi construído no final do século XVII com a finalidade de abastecimento do solar dos Condes de Ficalho. Este solar tem arquitectura discreta mas é marcante na cidade.


O símbolo de Serpa será, porém, a Torre do Relógio. Uma Torre bem alta, construída no século XIV, parte da muralha, em estilo gótico e manuelino, encimada por uns pináculos e um campanário. Bem bonita.



Para além desta sobrevivem ainda as grandiosas Portas de Moura e de Beja. E as oliveiras milenares. 
As ruas do povoado intra muralhas são esteiras e as casas pitorescas, com faixas cinzentas sobre o branco como pormenor distintivo.

Dois apartes apenas.


Um primeiro: como é que esta rocha se equilibra entre estes telhados e as muralhas?

Um segundo: agora que o nosso Aníbal se prepara para deixar as nossas vidas: a sul do concelho de Serpa fica o Pulo do Lobo, a maior queda de água do sul do nosso país, em pleno Parque Natural do Vale do Guadiana. Não o visitei agora, fi-lo em tempos, seduzida pela descrição sentida do senhor; quem sabe se lá volto em breve e o encontro para lá retirado.


Precisamente em pleno Parque Natural do Vale do Guadiana fica a vila de Mértola, a última paragem neste périplo pelo Baixo Alentejo. A antiga Myrtilis é hoje considerada uma vila museu.


Não haverá povoado em Portugal onde a presença islâmica seja tão forte como a que se sente em Mértola. Para isso contribui certamente o Festival Islâmico que aqui costuma ter lugar e, sobretudo, a incansável acção do arqueólogo Cláudio Torres que insiste em nos dar a conhecer o passado histórico da vila e região através dos trabalhos do seu Campo Arqueológico. Este voltou a colocar Mértola no mapa e para além de nos revelar a nossa herança patrimonial islâmica funciona como um polo agregador das gentes da cidade e dos forasteiros, sendo igualmente um lugar onde se preservam as artes tradicionais e o artesanato e se lhes dá novas vidas.


No Campo Arqueológico, junto ao Castelo, das ruínas colocadas a descoberto podemos ficar com uma ideia de como estavam dispostas as casas de antanho. Aí perto fica a antiga Mesquita, hoje Igreja Matriz de Mértola, onde ainda hoje são identificáveis elementos islâmicos como as portas.
Do Castelo obtém-se uma vista fantástica para o casario que foi crescendo junto ao Guadiana. O branco domina sobre as águas do rio, onde se veem lá em baixo alguns a desafiar o caminho aquático nos seus caiaques. Há muitos séculos, a presença do rio era outra e foi a razão porque romanos e árabes para cá vieram. O rio era navegável e o minério de que a região era pródiga foi factor bastante para atrair esses povos, bem como diversos mercadores que para aqui vinham negociar, uma vez que a vila estava ligada a Cartago e outras cidades do Oriente. A Reconquista pelo reino de Portugal e consequente entrada para o mundo cristão veio no século XIII e três séculos mais tarde Mértola iria entrar em decadência, muito por força do desvio das rotas comerciais do Guadiana para o Sado e Tejo.


Quanto à sempre louvada gastronomia desta região do nosso país, obviamente que o piquenique de restos do Natal não foi a única reserva alimentar da viagem. Em Beja a Adega 25 de Abril é uma excelente escolha para se saborear as migas e os secretos de porco preto, bem como a simpatia do pessoal. Mas um pouco por qualquer recanto desta região pode experimentar-se ainda os tradicionais gaspacho e ensopado de borrego, acompanhados dos conceituados vinhos. 

As distâncias:
De Beja a Serpa são 29 km, de Serpa a Moura 32 km e de Beja a Mértola 52 km.
Beja fica a 177 km de Lisboa, cerca de 2h 30m de caminho.