segunda-feira, março 07, 2016

Potzdamer Platz - O Renascer do Centro Antigo

Nas Asas do Desejo (Wings of Desire), filme de Wim Wenders, vemos um grande baldio junto ao Muro de Berlim. É a Potsdamer Platz. Melhor, era a Potsdamer Platz dos anos 80, altura em que foi rodado o filme. Melhor ainda, foi a Potsdamer Platz do período entre a 2ª Guerra Mundial e os anos 90 do século XX.
 
 
Outrora, até à 2ª Guerra Mundial, esta parte da cidade foi uma área histórica cheia de vitalidade. Correspondia ao centro de Berlim e era ali que se concentrava o comércio e entretenimento. 
Com a 2ª Guerra Mundial, Berlim foi fortemente bombardeada e a Potsdamer Platz foi destruída em 80%. 
A partir de 1961, com a construção do Muro de Berlim, em que um troço passava mesmo ali, e durante 28 anos, até à sua queda, tornou-se ainda mais uma área abandonada e esquecida, por se localizar na faixa "morta" ou terra de ninguém entre Berlim Ocidental e Oriental.
Nos anos 90 iniciou-se a sua reconstrução (em 1998, quando visitei pela primeira vez Berlim, esta área estava um verdadeiro estaleiro), que culminou, no início do segundo milénio, com o aparecimento de uma nova paisagem urbana pós-moderna. Inclusivamente, a Potsdamer Platz, passou a ser a área que melhor reflecte a dinâmica da Berlim reunificada.
Este novo território congrega praças, escritórios, museus, cinemas, teatros, hotéis, apartamentos e concentra o talento de arquitectos como Renzo Piano, Rafael Moneo, Richard Rogers, Helmut Jahn, entre outros.
Foi neste território renascido, no restaurante Facil (2 estrelas Michelin), inserido no The Mandala Hotel, que tivemos recentemente o prazer de fazer uma óptima refeição com Meryl Streep. O hotel e restaurante estão inseridos numa das três secções da Potsdamer Platz, a DaimlerCity, que congrega hotéis, centros comerciais, entretenimento, nomeadamente a gala da Berlinale, que decorreu durante a nossa estadia, daí a presença da Meryl.
 
 
 
Nesta secção podemos encontrar também arte pública, designadamente esculturas de Keith Haring, Robert Rauschenberg e Mark Di Suvero.
 
'Boxers' de Keith Haring
 
“Galileo” de Mark Di Suvero
 
É no sector da DaimlerCity que fica o Grand-Hyatt Hotel da autoria de Rafael Moneo e o edifício de comércio, escritórios e habitação desenhado por Richard Rogers.
 
 
 
Na DaimlerCity fica ainda o número 1 da Potsdamer Platz, a Kollhoff Tower do arquitecto Hans Kollhoff.
 
 
Para além de ser a sede de inúmeros e prestigiados escritórios de advogados, alberga a Panoramapunkt, um miradouro a 100 metros de altura, de onde se tem óptimas vistas sobre a cidade. Para aí se aceder sobe-se no elevador mais rápido da Europa.
Ainda a repormos o equilíbrio perdido com a velocidade estonteante do elevador, avistamos do topo a Casa das Culturas do Mundo, de Hugh Stubbins, no Tiergarten. 
 
 
A cúpula do Sony Center e o edifício dourado da Filarmónica de Berlim.
 
 
O edifício da Deutschen Banh e o Reichtag.
 
 
O Memorial do Holocausto.
 
 
A Leipzig Platz.
 
 
A Berliner Ferbsehturm, ou Torre da Televisão, e a área da Alexander Platz e da Ilha dos Museus, com a cúpula da Catedral de Berlim.
 
 
À frente da Kollhoff Tower, fica uma réplica do semáforo mais antigo da Europa, que teve como primeira morada este local.
 
 
As outras secções da Potsdamer Platz são o Beisheim Center e o Sony Center.
 
 
À frente do Beisheim Center fica a entrada principal da estação de comboio Bahnhof Potsdamer Platz e alguns segmentos do Muro de Berlim.
 
 
 
Mais segmentos do Muro são possíveis de encontrar junto ao Sony Center e à Liepzig Platz.
 
 
A cúpula da praça central do Sony Center, desenhada por Helmut Jahn, é provavelmente o elemento mais icónico da Potsdamer Platz. Inspirada no Monte Fuji, é feita de vidro e aço e rompe céu acima, pelo que é visualmente muito forte.
 
 
 
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Na secção do Sony Center localiza-se também, entre outros elementos, o edifício dos escritórios da Deutsche Bahn.
 
 
 
Apesar do conjunto de constelações do mundo da arquitectura parece-me que este território não é tão extraordinário como poderia ser. Apesar de um espaço público de qualidade, a área não respira de tanta concentração e densidade de edifícios. Tirando um ou outro edifício, quase que é impossível apreciar as obras de arquitectura aqui instaladas. 
Contudo, não restam dúvidas que esta nova Potsdamer Platz voltou a dar muita vitalidade a esta área da cidade, que, tal como no passado, voltou a ser uma das centralidades de Berlim.

sexta-feira, março 04, 2016

Reichstag - O Símbolo da Alemanha Reunificada

O Reichstag é atualmente um dos maiores ícones de Berlim.
Porém, para chegar aos dias de hoje já passou por muito. Foi alvo de um incêndio, bombardeado, deixado ao abandono, reconstruído, envolto em tecido, renasceu como símbolo maior da reunificação e, por fim, transformou-se na morada principal do Parlamento Alemão (Bundestag). Tudo por ordem cronológica.
 
 
O edifício foi construído no final do século XIX, quando a Alemanha ainda era uma monarquia constitucional conhecida como Deutsches Reich. Foi a sede do Parlamento Alemão entre 1894 e 1933 , ano que a cúpula original feita de aço e vidro - considerada muito avançada à época - foi destruída por um incêndio.
Os nazis instrumentalizaram o incêndio para destruir as garantias de um Estado de direito e reforçaram o seu poder ditatorial. 
Entretanto durante a 2ª Guerra Mundial o edifício foi bombardeado. Mais tarde, em 1945, os soviéticos hastearam a bandeira vermelha numa cornija no alto do Reichstag. A fotografia desse momento histórico, captada por Yevgeny Khaldei, ficou famosa e simbolizou a derrota nazi.
 
 
Em 1960 o edifício foi reconstruído, para um ano depois, com a construção do Muro de Berlim, ficar numa posição peculiar, mesmo junto à fronteira entre Berlim Ocidental e Berlim Oriental. Apesar de se situar no lado ocidental, até à queda do Muro ficou sem nenhuma função e apenas como símbolo da fractura política e da falta de perspectivas.
No final dos anos 80, quando se começava a denunciar o fim da Guerra Fria, artistas de renome como David Bowie, Pink Floyd, Michael Jackson tocaram ali.
Já depois da queda do Muro e da reunificação, os artistas Christo e Jeanne-Claude ,em 1995,  embrulharam o edifício com um pano prateado. Esta estrondosa intervenção pretendeu simbolizar o arranque da nova Alemanha, já que após o término desta obra artística, começaram os trabalhos de renovação do Reichstag como a nova sede do Parlamento Alemão, na sequência de Berlim ter novamente voltado a ser capital.
Assim, em 1999, o Reichstag volta a ser de novo a sede do Parlamento, agora com outra imagem, e âncora do novo bairro do Governo Federal construído depois da reunificação.
É a partir dessa data que no skyline de Berlim passa a existir um novo símbolo, a cúpula de vidro do Reichstag, desenhada pelo britânico Norman Foster. Foster preservou o edifício do século XIX, mas fez uma intervenção arquitectónica futuristica na forma e na essência. Um conjunto de preocupações de eficiência energética estão por trás deste magnífico projecto.
 
 
É possível visitar a cúpula, assim como a sala do Parlamento mediante marcação prévia e, no caso desta última, com visita guiada.
Visitámos só a cúpula. Que já dá para encher as medidas. Esta visita permite admirar as vistas sobre a cidade, aprender sobre o edifício e sobre os elementos marcantes da envolvente.
 
 
Ainda assim, adicionalmente, passamos por algumas partes do edifício e deslumbrado-nos com a qualidade arquitectónica e artística que contém. 
Logo à entrada damos com uma obra de Gerhard Richter. Trata-se de uma composição multicromática de 21 metros de altura por três metros de largura, com as três cores da bandeira da Alemanha. Obra muito elegante e denunciadora do que viria a seguir.


Subimos de elevador e chegamos à base da cúpula. Acompanhados do autoguia, iniciamos a subida de 230 m da rampa em espiral, que se desenvolve à volta de um cone envidraçado que foi criado para desviar a luz natural para a sala do plenário, que fica abaixo da cúpula. Como metáfora da transparência e abertura política, da cúpula é possível ver as actividades que se desenrolam na sala do plenário.
 
 
 
 
Enquanto subimos a rampa, e nos maravilhamos com a arquitectura da cúpula, vamos recebendo informação sobre o edifício e a envolvente urbana. Aproveitamos também para ver as vistas. De um lado avista-se o elegante edifício da Casa das Culturas do Mundo e o amplo Tiergarten, despido e em tons secos por aqueles dias invernosos.
 
 
Doutra perspectiva vê-se também o Tiergarten e a Potsdamer Platz com a cúpula do Sony Center e o edifício do Deutsch Bank.
 
 
Mais ao lado os vários edifícios do bairro governamental.
 
 
Também logo ali ao lado vê-se as Portas de Brandemburgo e o Memorial ao Holocausto.
 
 
Para leste a Catedral de Berlim, junto à Ilha dos Museus, e a Torre da Televisão, com o rio Spree a serpentear.
 
 
 
Apesar do dia chuvoso as vistas são contagiantes.
Chegando ao topo percebemos que a cúpula é aberta, tudo por questões de eficiência energética, já que, por exemplo, a água da chuva é aproveitada para a refrigeração do edifício e o ar viciado sai pela cúpula.
 
 
 
Sentimos que o rigor alemão só poderia ter como casa governamental uma obra arquitectónica tão rigorosa e completa como esta.
 
 
 
Enquanto lá fora o frio marca presença com temperaturas seguramente abaixo dos 0 graus, mesmo por baixo da cúpula uma senhora asiática joga com os graus ao colocar o seu corpo em ângulos impossíveis, tudo em nome de uma fotografia.
 
 
Desço a pensar que a natureza humana é extraordinária. É capaz de enfrentar os maiores desafios e de alcançar os melhores feitos e criações. 
Bravo Sir Foster. 
Bravo Senhora Asiática.

quinta-feira, março 03, 2016

Museu Judaico

O Museu Judaico de Berlim, aberto em 2001, mostra na sua exposição permanente dois milénios de história judaico-alemã.
O Museu é composto por dois edifícios, um antigo, que alberga a área de recepção do museu, salas de exposições temporárias, a loja e o restaurante, e uma construção recente, onde se encontra a exposição permanente.
 
 
O edifício mais recente é uma obra de Daniel Libeskind, arquitecto de origem polaca e filho de judeus sobreviventes do holocausto. Trata-se de uma obra arquitectónica impressionante. Não só o exterior, mas sobretudo o interior, um espaço repleto de significados e simbolismos, onde a arquitectura recria atmosferas em ligação directa com a temática patente no museu.
Foi a história dos judeus na Alemanha, a perseguição e o holocausto que inspiraram Libeskind.
O edifício revestido em chapas de zinco expõe a dureza e rigidez do metal. Caracteriza-se por poucas aberturas para o exterior, sendo que as existentes constituem cortes estreitos em formatos diferentes. Essas aberturas representam a Estrela de David estilhaçada, isto é, Libeskind transformou o signo maior da cultura judaica num símbolo de fracturação e sentimento de revolta em relação à barbárie sofrida pelos judeus.
 
 
 
 
O edifício de Libeskind, apesar de só de uma perspectiva aérea se perceber, tem uma forma em ziguezague.
No interior após descermos as escadas que ligam o edifício antigo ao novo deparamo-nos com três eixos que se cruzam. Estes eixos correspondem a três momentos da história dos judeus na Alemanha: o "Eixo do Exílio", o "Eixo do Holocausto" e o "Eixo da Continuidade".
O “Eixo do Exílio” é um percurso inclinado, com paredes também inclinadas, que se vai estreitando e que tem expresso nas paredes as várias cidades do mundo que serviram de exílio aos judeus. Esse eixo culmina numa porta pesada que conduz ao "Jardim do Exílio", que é um jardim externo caracterizado por um espaço inclinado, composto por 49 blocos de cimento ponteados no topo por árvores Elaeagnus, as quais pretendem representar as oliveiras, as quais por causa do frio não podem ser cultivadas na Alemanha.

 

Nesse espaço não é possível ver o que se passa ao redor, apenas sentir os barulhos e  movimentos da rua. No conjunto o espaço procura provocar instabilidade e desorientação, sentimentos que os judeus sentiram com a expulsão. As árvores no topo dos blocos aumentam a sensação de um espaço inatingível, mas simultaneamente deixam alguma esperança, até porque segundo a tradição judaica as oliveiras simbolizam paz e esperança.
 

O número 49 homenageia o ano de fundação de Israel, 1948, que somado ao último pilar do meio, que representa Berlim, totaliza aquele número.
O “Eixo do Holocausto” é um caminho que também se vai tornando cada vez mais estreito, acentuado, escuro e conduz igualmente a uma pesada porta, onde do outro lado está a “Torre do Holocausto”. Trata-se de um espaço com cerca de 20 metros de altura, fechado, vazio, frio, escuro, com apenas uma pequena abertura no tecto por onde entra uma ténue fresta de luz. Quando a porta se fecha fica a sensação de solidão, desconforto, medo e abandono, sentimentos representativos da existência dos judeus na vida e na história de Berlim.
 

O recurso a corredores estreitos, entre paredes cegas, no “Eixo do Exílio” e no “Eixo do Holocausto” pretende transmitir a sensação de repressão e opressão sofrida pelos judeus. Por outro lado, a força contida nas paredes transmite a ausência de liberdade de seguir outro caminho e a incógnita do futuro.
Ao longo destes dois Eixos cruzamo-nos com elementos expositivos que contam a história de quem foi tanto para o exílio como para campos de concentração.
O “Eixo da Continuidade” começa como os outros dois, mas é mais longo e na parte final transforma-se completamente, pois o tecto torna-se muito alto e desemboca numa escadaria enorme, que à medida que o visitante a sobe apercebe-se das vigas de betão que se cruzam. Este eixo simboliza a continuação da história e o caminho da superação dos outros eixos, mas com consequências, feridas e cicatrizes, expressas pelas diversas vigas que rasgam de forma assimétrica.
A escadaria conduz à exposição permanente e a uma das instalações com mais impacto no museu.
No interior do museu existem cinco corredores lineares, que são chamados de voids (vazios) pois são marcados pela ausência e ladeados de paredes despidas. Estes vazios são uma analogia aos vazios criados pela destruição da vida dos judeus na Europa, onde muitos sucumbiram no holocausto.
Num desses vazios, o único acessível, chamado “Memory Void”, situa-se a instalação "Shalekhet" ("Folhas Caídas") do artista israelita Menashe Kadishman. Trata-se de um chão coberto por 10 mil rostos de metal, todos diferentes, que quando pisados por quem percorre este espaço chocam uns contra os outros e provocam um barulho sinistro que se propaga pelo espaço. Pisar os rostos é angustiante e coloca-nos também como parte responsável pelas atrocidades provocadas pela sociedade.
 






 
 
Nesta obra o artista procurou homenagear não só os judeus mas todas as pessoas que já sofreram por causa da violência.
No piso de cima, a área de exposição permanente apresenta um formato tradicional e o edifício deixa de ser o protagonista. Esta área é vasta e apresenta a vida dos judeus na Alemanha desde  tempos remotos à actualidade, bem como a sua contribuição intelectual, económica e cultural. Cartas, fotografias, documentos variados, vídeos, dispositivos interactivos, peças de roupa, mobiliário, tudo serve para transmitir as tradições e cultura judaica.
 
 
No conjunto, edifício e exposição, é oferecido uma sucessão de sensações que oscilam entre a opressão, desconforto e desconcerto. Contudo, é sobretudo o edifício, pela experiência sensorial que permite, a obra mais significativa do Museu.