sexta-feira, abril 07, 2017

Duas novas aquisições na paisagem de Lisboa

Lisboa tem desde 2016 dois novos símbolos arquitectónicos, ambos cortesia da eléctrica nacional.
O edifício Sede da EDP e o MAAT vieram ocupar espaços na frente ribeirinha da capital e são já obras incontornáveis e marcantes na nossa paisagem.


Começando pela mais antiga, a Sede da EDP, lugar onde se pretende acolher e juntar os mais de setecentos funcionários da empresa espalhados por vários espaços na cidade.

Está a fazer agora um ano que ficou a descoberto a obra da dupla Aires Mateus. Instalado no aterro da Boavista, entre as ruas D. Luís e a 24 de Julho, numa zona histórica que tem vindo a ganhar uma nova dinâmica, enriquecendo-a, este edifício rompe com a tradição e acrescenta qualidade - antecipo já. 

Dependendo do local onde estejamos na cidade, a visão que teremos sobre este edifício irá mudando. Do Alto de Santa Catarina, no seu miradouro, parece-nos uma massa branca enorme e algo deslocada. Aliás, à medida que a obra se ia desenrolando, daqui foram surgindo críticas ao novo acrescento na silhueta de Lisboa. No entanto, desde cá de baixo, da D. Luís ou da 24 de Julho, não nos chegamos a aperceber da verdadeira dimensão da referida massa branca. Apresentam-se-nos duas torres bem definidas, é certo, mas a sua escala parece bem acomodada ao existente (um dos lotes vizinhos ainda está por ocupar e de futuro também ficará afecto a serviços da EDP).



É aqui que nos apercebemos dos inúmeros detalhes desta obra; e muitos mais nos escapam - por exemplo, não temos muita noção de quantos andares possui este edifício. Um dos aspectos verdadeiramente interessantes neste projecto é o corredor entre as duas torres que liga a Rua D. Luís à Avenida 24 de Julho, criando um pátio ou praça interior. É aqui que se sente que esta não é apenas a sede de uma empresa, fechada sobre si mesma e sobre os seus funcionários, antes aberta à cidade (aqui se prevê a abertura de lojas e restaurantes). E aqui o mérito é do projecto arquitectónico, máxime dos seus autores, em procurarem essa integração que se espera que venha a ser alcançada através da vivência que lhe darão também os habitantes de Lisboa.



A solução arquitectónica usada para cobertura desta praça é única e brilhante, quer a nível estético quer funcional. Uma espécie de cortinas em ripas deixam-nos na dúvida se a praça será mesmo fechada. O jogo de sombras / luz é aqui mais visível e conseguido. Certeiro quem usou as palavras "enigma", "quebra cabeças" e "puzzle" para descrever este projecto. 


Se é fácil de prever que acima de nós, nos pisos superiores, estarão os escritórios, mais difícil de prever é o que encontraremos nos pisos inferiores enterrados. Um jardim (quase) zen, por exemplo. Sereno (por agora?).





Serenidade foi algo que não existiu no dia da abertura ao público do MAAT. 5 de Outubro de 2016, feriado reposto, milhares junto ao Tejo para ver a espécie de nave espacial que aterrou em Lisboa. De tal forma que a ponte pedonal que liga o MAAT ao Museu dos Coches, para lá da linha férrea, teve de ser encerrada.


O MAAT é o mais novo museu de Lisboa e veio fazer companhia ao formosíssimo e quase centenário edifício da Central Tejo, Museu da Electricidade. Os dois juntos formam hoje o Campus Fundação Edp e receberam a nova designação - MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia).

A zona ribeirinha de Belém é rica em história e mantém-se no imaginário português há séculos. Por aqui ficam alguns dos edifícios mais icónicos da capital. Torre de Belém, Mosteiro dos Jerónimos, Padrão dos Descobrimentos, CCB, Ponte 25 de Abril e o Cristo Rei de vigia na outra banda. E, agora, mais um: o futurista e ondulante MAAT, mais uma cortesia da EDP, projecto da inglesa Amanda Levete.



O aproveitamento da área onde está implantado e o elemento natural maior que é o rio foram soberbamente manejados. Sem o rio este edifício não seria o mesmo. E sem a luz que ele e Lisboa oferecem também não. A ideia da arquitecta foi a de possibilitar o reflexo da luz do sol e da água no edifício, como se de uma onda se tratasse. Nem seria necessário este jogo, uma vez que a cobertura ondulante é óbvia. 


A dificuldade da implantação do então futuro MAAT era difícil de ultrapassar numa ideia imediata. Temos o rio, lugar privilegiado, mas logo colado a ele temos a linha de comboio e só depois a cidade. Essa barreira foi magistralmente superada. Não pela ponte pedonal que se espera venha a abrir em breve, mas sobretudo pela dita cobertura. Pela belíssima cobertura, melhor dito.



A solução criada foi a de fazer desta cobertura um espaço público, um lugar de encontro entre as pessoas, por onde elas possam caminhar, atravessando o edifício, ou aproveitá-la como miradouro. Sim, este é o mais novo miradouro da cidade e daqui temos uma perspectiva nunca vista da Ajuda. Basta, por uma só vez, virar as costas ao rio.

Depois temos os pormenores na escolha dos materiais. O revestimento do edifício, quase parecendo as escamas de um peixe, é em azulejo e remete para a calçada portuguesa.
Ainda acerca da relação deste edifício com o rio, é curioso como uma estrutura que não é pequena instalada na primeiríssima linha do rio não perturba a leitura do existente na cidade. Aliás, da cidade não é possível obter uma visão deste edifício. Isso só é alcançado do lado do rio. E que bem que este desenho de curvas cativantes aqui fica. 

Voltando ao início, ao dia da abertura do MAAT ao público, se o sucesso de um edifício pode ser medido pela forma como as gentes o vivem, então este é sucesso absoluto.

sexta-feira, março 31, 2017

World Sketching Tour, por Luís Simões

Enquanto a minha ilustradora preferida, Ana Gil, não se digna expor ou publicar em livro os seus desenhos de viagem, vou-me entretendo com Luis Simões e o seu World Sketching Tour.

O plano inicial seria o de percorrer cinco continentes em cinco anos e ir documentando a aventura através do desenho. A viagem serviria de inspiração e o período longo de tempo permitiria uma contemplação e absorção sem pressas, tomando não só consciência de novos lugares, seus detalhes e diversas histórias, como também um aperfeiçoamento da técnica de desenho.

O tour começou em 2012 e se seguisse o dito plano estaria agora a terminar. Mas aventura que se preze não tem plano a seguir e deixa que sejam as circunstâncias a tomar conta de nós. Foi isso que aconteceu ao Luís Simões e, depois de um primeiro ano a viajar pela Europa, acabou por se plantar demoradamente na Ásia, tendo arrancado há pouco tempo para o terceiro continente, a Oceânia.

Voltou agora a Portugal para nos dar conta presencialmente do seu trabalho de desenho. 
Em Fevereiro tivemos oportunidade de ver alguns dos seus desenhos na Casa-Atelier Vieira da Silva, na exposição "Uma Viagem Ilustrada | World Sketching Tour de Luís Simões" (com livro de mesmo nome também lançado há pouco), dos quais deixo aqui alguns exemplos.



 


Situações do dia a dia foram retratadas, rostos expressivos, uma soneca em cima de uma mota, um salto rumo a algures. Há sempre algo a registar e percorrendo o olhar pelos cadernos de Luís Simões relembramos memórias particulares ou até eventos que foram notícia no mundo, como é o caso das manifestações que tiveram lugar em Hong Kong há dois anos, coincidentes com a estada do nosso ilustrador pela cidade, não tendo perdido a oportunidade de o registar (e mostrar na época nas páginas do jornal Público).

Até agora foram cerca de 38 os países percorridos, entre Europa, Ásia e Oceânia, numa jornada que nos tem vindo a contar histórias e nos faz sonhar e que esperamos possa ter continuidade.

sexta-feira, março 24, 2017

David Hockney: 60 anos de Carreira

O pretexto desta viagem a Londres foi a visita à exposição temporária da Tate Britain, patente de 9 de Fevereiro a 29 de Maio, "David Hockney: 60 Years of Work".


David Hockney é considerado o maior artista britânico vivo e o mais reconhecido, com uma elevada reputação quer entre o público quer entre os críticos. Com 80 anos de idade e 60 de carreira artística, a Tate apresenta-nos por estes dias uma enorme retrospectiva da sua obra.

Uma obra plena de versatilidade, dominada à vez pelo uso da pintura, fotografia, vídeo, iPhone e iPad, escrita de ensaios de pendor artístico-filosófico, numa constante reinvenção de Hockney ao longo de todas estas décadas. Didier Ottinger titula o seu texto do catálogo da exposição como "Quando Chaplin dança com Picasso", aludindo à forma como Hockney consegue reconciliar a pintura com a tecnologia e fundir a dita pintura com o cinema. 

Poucos artistas tão completos haverá.


Conhecia algumas obras de David Hockney, em especial as suas pinturas de piscinas e as suas paisagens de Hollywood e do Grand Canyon, quase todas elas através da visualização de imagens impressas em livros. 


Vê-las ao vivo foi, no entanto, surpreendente e um prazer imensurável. Grandes telas que enchem todos os nossos sentidos, "uma orgia de cor", nas palavras de Jorge Calado no seu texto na edição de 11 de Março do Expresso, por parte de "um dos raros artistas que conseguem ser simultaneamente exuberantes e económicos".

Apesar de termos bilhete comprado com antecedência, chegámos cedo e começámos a formar fila antes da abertura da Tate. Às 10:00 em ponto entrámos e numa decisão mais do que acertada passámos directamente para a terceira sala de forma a contornar as muitas pessoas que enchiam desde logo a exposição. Quando no fim aqui voltámos foi impossível arranjar espaço para partilhar estas duas salas, quanto mais tentar uma olhada consentânea para com estas obras. Todavia, todas as restantes onze salas foram vistas à larga e demoradamente.


Foi possível captar e entender as técnicas usadas por Hockney, não apenas nas linhas e curvas das suas piscinas, mas sobretudo nas colagens fotográficas. Pearblossom Hwy é uma das suas obras mais famosas e como nunca a tinha visto ao vivo sempre pensei que fosse uma pintura. Nada mais errado. No princípio dos anos 80 Hockney criou uma nova técnica de colagem de fotografias. Considerando que a fotografia mais não é do que o ponto de vista de um Ciclope paralisado numa fracção de segundo, o que a impede de representar o mundo e a experiência de viver no mundo, Hockney decidiu-se a juntar diversas polaroids, resultando do seu conjunto uma imagem dinâmica que reúne todas elas.
Eis um exemplo com "Gregory Swimming"


David Hockney nasceu no Yorkshire, mas fixou-se na Califórnia nos anos sessenta. Regressou à sua terra natal já neste milénio, para acabar por voltar novamente para a Califórnia. Estas duas regiões são marcantes na sua obra e grandes e intensas pinturas mostram-nos o porquê. A zona dos Wolds, no Yorkshire natal, foi ainda inspiração para uma interessante experiência em vídeo. Através da instalação de uma câmara no exterior de um carro, Hockney realizou o mesmo caminho de estrada por um bosque nas quatro diferentes estações do ano.

A minha maior curiosidade era, porém, ver como David Hockney realizava as suas pinturas em IPad. Pois é. Este é um dos caminhos que tem seguido nos últimos anos. Mais uma nova técnica, mais uma nova surpresa, mais uma demonstração da sua versatilidade. 

No fundo, o percurso de David Hockney reúne coerentemente as suas diversas experiências motivadas pelo desejo de realizar imagens que representem a forma como nós observamos e compreendemos o mundo.

segunda-feira, março 20, 2017

Novas Perspectivas em Bermondsey

Prosseguindo na busca de vistas, que tal este postal de Londres, com a Tower Bridge emoldurando os novos arranha-céus da cidade?


Bermondsey é um bairro a sul do Tâmisa em que muito provavelmente a esmagadora maioria dos turistas não pisam. E, no entanto, este bairro fica bem junto à Tower Bridge, um dos marcos da cidade. Pode ter uma localização central, o edifício da Câmara Municipal de Londres também fica ali perto, mas só a partir deste milénio ganhou a sua primeira (e única) estação de metro. Em contrapartida, a sua estação de comboios foi uma das primeiras da cidade. 

É um daqueles bairros que não se costuma fazer questão de visitar numa primeira viagem, mas que se deve visitar por representar bem a Londres de hoje. Pobre e rico na mesma medida, está na calha como o mais novo destino hipster da cidade. Antigo lugar de cais, armazéns e indústrias, arrasado na II Grande Guerra Mundial, vítima de decadência, hoje condomínios pululam, bem como cafés e restaurantes aconchegantes e lojas com carácter. Mantendo-se fiel às raízes, após uma ala preenchida por oficinas de automóveis, do outro lado do túnel da ponte por onde passam os comboios fica a Maltby Street e o seu mercado de comida de rua aos fins de semana, cujo furor é já comparado ao não muito distante Borough Food Market.


Caminhando pelo bairro é quase impossível não se dar com o The Shard e o seu topo com ar de work in progress.


Mas o mais curioso é a vista dos seus cais. A Tower Bridge fica de um lado, já sabemos desde o princípio deste post. E o que dizer desta vista de uma quase idílica casinha azul que poderia indicar estarmos numa vila banhada por água, não fosse um olhar mais atento descobrir os condomínios upa-upa de Wapping à frente e as distantes torres da Canary Wharf à direita?

sexta-feira, março 17, 2017

A Nova Tate Modern

Em Londres há sempre muito para descobrir, mas por mais que tente nunca consigo deixar de visitar a Tate Modern. Nisso estou como muitos outros, cerca de 5 milhões anualmente, metade deles turistas como eu, o que faz desta uma das maiores atracções turísticas de todo o país.

Sair junto à Catedral de St Paul's e maravilhar-nos com a sua majestade, caminhar em direcção à Ponte Millennium para atravessar o Tâmisa e descobrir os novos arranha-céus da cidade e, por fim, focar o olhar na enorme torre-chaminé do edifício da Tate ali bem na outra margem, este é um programa indispensável.

A Tate Modern é um museu de arte moderna, mas não só. Estudos indicam que uma das principais motivações daqueles que a visitam é o de "encontrar gente". 

E a Tate Modern é também um ícone arquitectónico.


A antiga Estação Eléctrica Bankside, na margem sul do Tâmisa, foi originalmente desenhada pelo arquitecto Giles Gilbert Scott (autor da também eléctrica Battersea e da cabine telefónica vermelhinha, um dos maiores símbolos de Londres). Desenhada nos anos quarenta do século passado, laborou na década de sessenta e encerrou em 1981 - curta vida como eléctrica, portanto. Os anos 90 foram passados a pensar no seu destino até que finalmente desde o ano 2000 podemos apreciar a sua nova face. 

A dupla de arquitectos suíços Herzog & De Meuron foi a criadora de um novo paradigma na reutilização dos espaços industriais, num muito bem conseguido respeito pelo edifício original, e a Tate Modern é, ela própria, o paradigma dos centros de arte como novos espaços culturais, tendo reinventado a forma como todos nós vemos a arte hoje em dia.

A visita à Tate, a exemplo de todos os maiores museus londrinos, é gratuita, com excepção das exposições temporárias. É um corrupio de gente, nem toda ela interessada em arte. Uma doação de 4 libras é nos sugerida e as lojas onde toda a espécie de merchandising se vende estão estrategicamente situadas às entradas e saídas das exposições temporárias. Esta é uma das formas de garantir receitas ao mesmo tempo que se garante a arte para todos. 


Agora, desde Junho de 2016, temos mais um motivo para (voltar) visitar a Tate. 
Aí está a sua tão esperada extensão, também a cargo de Herzog & De Meuron. 
À enorme Turbine Hall (um espaço  de 35 metros de altura e 152 metros comprimento que dá para as mais inimagináveis instalações de arte) e à elegante Boiler House (o edifício da chaminé de quase uma centena de metros de altura) juntou-se agora a piramidal Switch House. Este corpo da antiga estação eléctrica já existia, mas estava inacessível e não pertencia à Tate. Com a sua adaptação a novo espaço expositivo (e educacional, de escritórios, bar, parque de estacionamento, entre outras funções) a área da Tate ganhou quase mais 60% e se o museu já era grande agora é enorme.



A arquitectura da nova Switch House não (me) desilude, embora haja quem a tenha confundido com um silo automóvel. A sua torre em forma de pirâmide, com 64 metros, é formosa e surpreendente. Torre inclinada, fachada de tijolo entrelaçado, criando o efeito de um rendilhado, olhando para aquele bloco altaneiro parece-nos que uma espécie de tecido, quase uma pele, o cobre. O tijolo, claro está, respeita os materiais originais do antigo edifício. Os pequenos cortes na fachada, janelas estreitas, quebram uma certa monotonia e no seu interior apercebemo-nos que contribuem decisivamente para um excelente aproveitamento da luz natural. 



O acesso ao interior deste novo edifício pode ser efectuado pela rua, do lado contrário da entrada original do rio, ou através desta, percorrendo a nova ponte interior que sobrevoa a Turbine Hall e liga os dois edifícios.


Se o antigo edifício, a Boiler House, já possuía um piso onde podíamos apreciar as vistas e ficar face a face com a Catedral St Paul's na outra margem do Tâmisa, a Switch House possui uma vista absolutamente soberba a poucos metros dali. Do alto do terraço do seu 10.º andar alcançamos uma vista (gratuita) completamente desimpedida de Londres, não fosse a poderosa chaminé da Tate estar ali mesmo defronte. Não incomoda nada, claro, e é a parceira perfeita para todos os velhos e novos elementos londrinos. É conferir as fotos.





Chegada ao final deste post, não foi mencionado o nome de qualquer artista.
Está visto que este post é sobre um museu, mas não é sobre arte. Talvez sobre a arquitectura do museu. Mas talvez, mais ainda, seja novamente um post sobre vistas.

terça-feira, março 14, 2017

Sky Garden

Desde Janeiro de 2015 que Londres possui o auto designado "mais alto jardim público".
O Sky Garden fica no 35.º andar do 20 Fenchurch Street, edifício mais conhecido como Walkie Talkie, e ocupa o espaço de 3 andares.


A ideia parecia ter tudo para ser consensual: um jardim público gratuito com pretensão a tornar-se a versão moderna dos Jardins Suspensos da Babilónia, no qual qualquer indivíduo pudesse obter uma vista de 360 graus de Londres. 

A vista de 360 graus está lá, isso é inegável. Mas as críticas não tardaram a surgir.

O 20 Fenchurch Street, da autoria do arquitecto Rafael Viñoly, é o quinto edifício mais alto da City e quando viu a sua construção concluída em 2014 já tinha o seu histórico de polémicas. Desde logo o facto de ter sido construído num lugar onde não havia tradição de edifícios em altura. A forma em curva de vidro usado na sua fachada também não ajudou quando foi responsável por derreter uns quantos carros estacionados na rua devido a uma acidental conjugação de vidro e raios solares. Não estranha que logo houvesse quem sugerisse que o lugar seria bom para fritar ovos. Pior, as teorias da conspiração não tardaram em insinuar que a ideia de oferecer um jardim público nos últimos andares mais não era do que uma forma de amansar os protestos e afastar a má fama do edifício. De caminho contestavam também a natureza pública do jardim, uma vez que qualquer visita está sujeita a prévia reserva (disponível três semanas antes no site do Sky Garden e com lugares limitados) e a sua entrada impõe, para além de uma série de deveres, uma revista apertada a lembrar aquela que nos dias de hoje é efectuada nos aeroportos. A comparação com um aeroporto não pára por aqui, pois há quem veja semelhanças entre o lobby destes (ou dos hotéis) com o que nos espera à saída do elevador no 35.° andar: um bar, mesas e sofás.

Dizia que a vista de 360 graus estava lá e isso era inegável. Assim como não podemos negar que essa vista é esmagadora e fabulosa.


Chegados ao 35.° depois de uma rápida subida no elevador após a tal revista das malas, logo nos aparece o Shard bem de frente. Existe uma varanda ao ar livre mas devido ao tempo que se fazia sentir esta estava fechada. 



Com a plataforma exterior fechada podemos sentir-nos como se estivéssemos numa gaiola, mas o melhor é mesmo aproveitar o que o lugar nos tem para oferecer para além dos bares e restaurantes. 
E o que nos tem para oferecer este jardim público perto do céu é um género de jogo onde tentamos identificar todos os lugares icónicos de Londres e mais além. O Shard, está dito, mas também a Tate, a Catedral de São Paulo, o Barbican, a Tower Bridge, a Canary Wharf lá bem ao fundo e o Tâmisa. O Pepino e o seu companheiro Ralador de Queijo estão ali tão perto que quase que parece que os podemos tocar. 



O clima em Londres é um tópico que merece um capítulo só para si. A história da nossa subida ao Sky Garden tem tudo a ver com esse tópico. Quando chegamos ao 35.° andar chovia e o tempo estava feio e escuro. Passada uma dezena de minutos a luz dentro da gaiola de vidro era já completamente diferente quando o sol decidiu abrir e começar a raiar de tal forma que tivemos o prémio de ver o Gherkin com um irreal arco-íris nas suas costas. Melhor. Esse arco-íris tinha um arco tão pronunciado e enorme que ia da Canary Wharf até ao Gherkin. 



A vegetação deste singular jardim (flores exóticas e espécies mediterrâneas e sul africanas), essa, está bom de ver que ficou completamente em segundo plano. A vista é que é soberana aqui. 

Polémicas de lado, o que me parece é que não interessa ter que reservar com antecedência, não interessa a revista, não interessa se há muita vegetação, não interessa se temos de levar com bares e restaurantes. O que interessa é que a vista é gratuita e está ali para qualquer um que se disponha a tentar ir lá conferi-la.

sexta-feira, março 10, 2017

Livrarias de Londres

Londres não terá ficado imune à crise que leva nos dias de hoje ao fecho de mais e mais livrarias. 
Todavia, muitas livrarias históricas se mantêm, muitas outras vão sobrevivendo e, sobretudo, a diversidade e originalidade da sua oferta é cativante. O efeito avassalador que as lojas - de moda, design, qualquer uma - de Londres tem nas outras pessoas, assim é o que as livrarias - lojas, também - produz em mim. 



Este périplo por algumas das mais bonitas bookshops londrinas vai começar por um lugar que equivocadamente nós, falantes da língua portuguesa, poderíamos pensar ser uma livraria: a British Library. Mas não, library significa biblioteca. Construída em 1998, a arquitectura exterior do edifício da Biblioteca Britânica não será uma unanimidade, mas o seu interior é de uma qualidade inequívoca e logo a seguir ao lobby o deslumbre é absoluto: uma coluna enorme em vidro onde invejamos as encadernações valiosas dos mais de 60 000 volumes da colecção de George III. Na Biblioteca, uma das maiores do mundo, para além de salas de leitura, a par das preciosas Magna Carta e Bíblia de Gutemberg podemos encontrar diversas exposições não apenas relativas a livros mas também a mapas, manuscritos e selos, entre outros objectos.


Seguindo para as livrarias propriamente ditas, uma opção segura para se encontrar quase qualquer obra é a Foyles, em Charing Cross (rua com inúmeras livrarias). São cinco andares dedicados a praticamente todas as temáticas que se possa imaginar, onde não faltam espaços para nos sentarmos comodamente a folhear os livros que nos chamem a atenção. 


Stanfords, em Convent Garden, é desde 1853 uma instituição dedicada às viagens. Aqui encontramos livros, guias de viagem, cadernos de nota e mapas. Aliás, foram os mapas que estiveram na génese da fundação desta livraria que toma o nome do seu criador. As diversas publicações estão divididas em espaços dedicados a cada uma das diferentes regiões do globo. Após uma visita à Stanfords é impossível não alcançar uma boa preparação para a nossa próxima viagem. Uma inspiração. 


As próximas duas livrarias já tinham sido faladas neste blogue. 
Uma, a John Sandoe, em Chelsea, livraria independente fundada em 1957, linda por fora e por dentro, dona de um carisma especial. 


Outra, a Gosh!, em Blomsbury, dedicada aos comics, com uma imensidão de novelas gráficas e mangas.

É esta especialização das livrarias que mais seduz; no fundo, cada indivíduo encontra o seu livro na sua livraria.


Um exemplo disso é a Gay's the Word, também em Blomsbury. Aberta desde 1979, aqui encontramos ficção, história, biografia e estudos. O critério é que os escritores sejam gays ou a temática ou os protagonistas dos livros o sejam. Está fácil de ver que nesta livraria se vive um verdadeiro espírito de comunidade. 


Outro exemplo é a Persephone Books, igualmente em Bloomsbury, a livraria que mais gostei de conhecer. A ideia que lhe está subjacente é surpreendente. A sua missão é a reedição de escritoras mulheres do século XX neglicenciadas. A palavra é da Persephone, "neglected". A Persephone não deixa que nos esqueçamos delas e oferece-nos, então, a sua escrita acompanhada por edições com capas lindas. Lindo é um adjectivo recorrente por aqui. A fachada da loja é linda, o interior é lindo, todos os objectos dele constante são lindos. E inteligentes: "cada um da nossa colecção é inteligente, pensamento provocante e belamente escrito".

Esta lista de livrarias é bem pessoal e nunca poderá ser exaustiva, uma vez que muitas mais livrarias maravilhosas haverá.

No entanto, nesta lista faltará certamente a Daunt Books, em Marylebone, que não visitei desta vez, uma das livrarias mais bonitas onde já entrei, sendo inesquecível o seu andar superior com balcão e os tons verdes profundos.

E faltará a London Review Books, em Bloomsbury, onde nunca entrei. Para que possa, a cada nova viagem a Londres, ter sempre uma nova livraria para me encantar.