sexta-feira, maio 12, 2017

A Lisboa que Teria Sido

A exposição sobre uma Lisboa passada, talvez imaginada, que dominou os media nos últimos meses foi aquela que esteve patente até há pouco tempo no Museu Nacional de Arte Antiga, "A Cidade Global, Lisboa no Renascimento". Lisboa como o centro do comércio do mundo, a Rua dos Mercadores como coração dessa Lisboa, a 5.ª Avenida da época. Deixando esta reconstituição da Lisboa do renascimento para trás, bem como a muita polémica que a envolveu, à boleia da autenticidade ou não de duas pinturas, dedicarei as próximas linhas a uma outra exposição sobre uma outra Lisboa, esta seguramente imaginada.

Até 18 de Junho podemos visitar a exposição "A Lisboa que Teria Sido" no Pavilhão Preto do Museu de Lisboa (também conhecido como Palácio Pimenta, no Campo Grande).


Para todos os que gostam de Lisboa ou tão somente apreciam exercícios de futurologia, esta é uma exposição a não perder. Poderia ter levado o epíteto de "A Lisboa Sonhada", que também não ficaria mal atribuído.


Aqui estão cerca de 200 objectos referentes a projectos urbanísticos e arquitectónicos que apesar de pensados, por uma razão ou outra, nunca chegaram a ver a luz do dia. Estes objectos, como desenhos, maquetas, fotografias, artigos de jornais e projectos, pertencem aos arquivos da Câmara Municipal de Lisboa e vêm desde o século XVI, embora predominem os do século XX.

Lisboa teve, na sequência do terramoto de 1755 que a arrasou, oportunidade para ser uma cidade pensada e planeada. A "Lisboa pombalina" é até hoje reconhecida como possuidora de um valor urbanístico e arquitectónico superior, sendo candidatada a constar da lista do património mundial da Unesco. Todavia, a arquitectura pombalina era, no princípio do século XX, considerada por vários pensadores como "monótona e triste", de uma "monotonia que desagrada a pessoas inteligentes", tendo a Baixa sido designada como cidade "sonsa, pesada e pombalesca".

A Lisboa cosmopolita do século XVI carecia no século XX de monumentalidade e modernidade.
As propostas agora em exposição, da autoria dos maiores urbanistas e arquitectos da época, tinham assim como objectivo conferir-lhe essas duas características. 


Um dos primeiros objectos com que nos deparamos é o de uma maqueta para um alpendre-reclame a construir nas zonas de estacionamento das Praças D. Pedro IV e Restauradores. Da autoria de Cassiano Branco, datada de 1937, este é um elemento que ainda hoje poderíamos considerar possuidor de modernidade, uma peça de mobiliário urbano como haveríamos de ver poucas.


Entre maquetas várias, foco absoluto para as relativas a projectos de ordenamento urbanístico na Praça do Martim Moniz, datadas de meados dos anos 60 do século passado. Lugar difícil, entre colinas e vales, é muito divertido tentar identificar naqueles projectos alguma correspondência com a realidade actual. São túneis, estradas sobre-elevadas, um sem fim de desvarios. Bem sei que o "homem sonha, a obra nasce" e que estes projectos perto daquele mais recente para a Margueira, na outra banda, são "peaners". Melhor do que isso só mesmo conseguir citar Fernando Pessoa e Jorge Jesus numa mesma frase. A verdade é que também o projecto da Cidade Sonhada para o pós Expo 98 seria do foro da irrealidade, certo? António Mega Ferreira acreditou e a Expo / Parque das Nações não consta desta exposição "A Lisboa que Teria Sido". 

Prosseguindo na tentativa de achar as diferenças entre o que teria sido e o que é, destaque ainda para imagens de projectos para a primeira ponte sobre o Tejo tão diferentes do que vemos hoje.

Olha se não são as portas de Brandenburgo.


Num eixo absolutamente central, a Avenida da Liberdade e suas imediações foi igualmente alvo de uma série de estudos. Mais uma vez, as críticas dirigiam-se à excessiva modéstia dos seus quarteirões. Já Eça de Queirós escrevia sobre ela em "Os Maias" "curto rompante de luxo barato". Estes estudos estendiam-se ao seu prolongamento até ao Parque Eduardo VII, tentativa de lhe conferir a tão almejada monumentalidade, tão ao gosto de Estado Novo. 

E eis que aqui chegámos e estes projectos todos ficaram na gaveta décadas e décadas para hoje, curiosos, nos perguntarmos: como teria sido?

sábado, maio 06, 2017

sexta-feira, maio 05, 2017

Trakai

Uma visita a Trakai é um passeio de meio dia ou dia inteiro que não se pode perder desde Vilnius.
À distância de cerca de 40 minutos de comboio ou de autocarro, por entre montes e florestas fica um conjunto de lagos e ilhas com castelos e casas de madeira. Soa atractivo e é mesmo.
Trakai é um destino que todos os lituanos parecem amar, e uma vez na Lituânia, sê lituano. 

Lá fomos nós. Saímos da estação de autocarros e percorremos aquela que parece ser a estrada principal desta pequena vila em direcção ao castelo que é um dos maiores postais do país. 
Passamos por uma igreja ortodoxa, depois por uma igreja católica, segue-se o pitoresco edifício em madeira que foi em tempos o posto de correios da Rússia imperial. 


E a partir daqui é só mimos a registar. 




Água dos lagos de um lado e do outro, mais casas de madeira se seguirmos em frente. Todas as casinhas estão restauradas e cada uma parece esforçar-se por ostentar uma cor diferente da do vizinho.


Eis que chegamos, enfim mas sem esforço, ao final desta península donde se avista claramente uma ponte que liga a uma pequena ilha e dai mais uma ponte que liga à ilha onde todos queremos chegar: a ilha onde está implantado o Castelo de Trakai, único castelo numa ilha no norte da Europa.


Avistado a meia distância, o local é fantástico mesmo num dia de pouca luz. São 3 lagos que rodeiam as 21 ilhas e, cereja no topo do bolo, o dito castelo vermelho. 




Mais uma vez, à semelhança do que acontecia no Castelo de Turaida, na Letónia, não são os espaços expositivos no interior do castelo que nos movem. É mesmo a sua implantação, rodeado de um pedaço de natureza belíssima, e o ambiente de mistério e aventura em que nos vemos envolvidos quando percorrermos os cantos deste castelo. Portões, pontes, fossos, torres, canhões e somos de novo crianças. Não foi à toa que o grão-duque Gediminas fez de Trakai a sua capital no século XIV e, diz-se, adorava passar por aqui os seus dias. 




Os lagos são ideais para se alugar um barquinho e sair a explorar as ilhas que bóiam nas suas águas, algumas dessas ilhas minúsculas. Em terra encontramos ainda as ruínas de um outro castelo.


Outra das particularidades de Trakai é ser território da minoria Caraita, uma etnia turcomana, da qual subsistem cerca de 700 indivíduos que fazem questão de preservar a sua cultura, em particular uma língua própria e os pastéis kybinlar, impossíveis de evitar por Trakai.

quarta-feira, maio 03, 2017

A Outra Vilnius

Para não dizer que Vilnius é só igrejas e casas cremes de telhados ocres, eis alguma arte urbana em grafitti.



terça-feira, maio 02, 2017

Igrejas de Vilnius

Algumas das muitas igrejas da Cidade Velha de Vilnius:






segunda-feira, maio 01, 2017

Vilnius

A Lituânia possui algumas semelhanças históricas e culturais com a Letónia, desde logo quando, juntas com a Estónia, vêm referenciadas como países do Báltico cujas capitais mantém centros históricos pitorescos. Outras semelhanças óbvias são o facto de os dois países, os três países, terem pertencido à União Soviética. A sua história, feita de independências e dependências ao longo dos séculos é outro paralelo que pode ser traçado. A Lituânia foi independente, os russos, os alemães e os soviéticos, à vez, exerceram por lá o seu domínio; até a vizinha Polónia o fez, tendo nos séculos XVI a XVIII com elas mantido uma união. Apesar da comida, do encanto pela natureza (floresta e lagos) e dos rituais pagãos serem muito similares na Letónia e na Lituânia, uma enorme diferença encontra-se na religião: a Letónia é maioritariamente evangélica luterana e a Lituânia católica. Como a Polónia. 


Riga antiga é uma cidade escura e gótica, Vilnius antiga uma cidade clara e barroca. Só a imagem das incontáveis torres de igrejas a dominar a paisagem não muda, talvez se reforce. De qualquer ponto da cidade se avista uma cruz.


Vilnius foi fundada em 1320 pelo grão-duque Gediminas, embora o local fosse já habitado há pelo menos um milénio. O nome Gediminas impõe-se um pouco por todo o lado. O Monte Gediminas, uma das elevações da cidade, foi o local exacto da fundação de Vilnius. Devido a trabalhos de restauro e reparação, o acesso ao monte e castelo estava encerrado por altura da nossa visita. Lamento e não posso deixar de imaginar a vista fabulosa que daqui se terá para toda a Vilnius, em particular para o centro histórico que se estende aos seus pés. Um dos maiores centros históricos barrocos da Europa, distinguido pela Unesco como Património da Humanidade. 

Começando pelo que vimos e vivemos.
A cidade velha de Vilnius é compacta, mas não fechada. Podemos adentra-la por um infindável número de caminhos, mas há certamente dois deles imperdíveis: pela Porta da Aurora (ou da Madrugada ou do Amanhecer) ou pela Praça da Catedral.


Vindas da Cidade Nova, optamos por esta última hipótese. A Praça da Catedral, no sopé do Monte Gediminas, é um local central e amplo. O único elemento de tempos idos que aqui resta é o Campanário, uma torre esbelta de 57 metros. A subida ao seu topo é não só possível como obrigatória. Por entre sinos, daqui se avista de forma privilegiada toda a cidade. 




A Catedral, em si, não é muito antiga. Em estilo clássico, para variar do barroco, data do fim do século XVIII. O interior não deslumbra. 





O contíguo Palácio do Grão-Ducado sofreu diversas alterações ao longo dos tempos e o que hoje visitamos é praticamente uma réplica do palácio barroco do século XVII. Depois de uma observação mais delicada ao relógio simples mas bonito na fachada da sua entrada, o pátio oferece-nos uma equilibrada e pacata arcaria. O interior do palácio vale a sua visita não tanto para se conhecer salões e objectos grandiosos, mas mais pela história do país que os vários momentos expositivos traçam.

Da Praça da Catedral a entrada na Cidade Velha deve ser feita pela rua (gatve) Pilies. Continuando sempre a direito, à Pilies segue-se a Didzioji e, depois, a Ausros Vartu e, no seu final, a referida Porta da Aurora. Parece simples e é simples. Três ruas sucedendo-se num continuo rasgam a maior cidade velha da Europa de Leste de uma ponta à outra. Pelo meio, muitas ruas perpendiculares para meter o nariz, muitas igrejas para recolher, muitas lojas de âmbar para visitar (passa!).


Ponto alto, porém, é o desvio para a Universidade de Vilnius. Dizer desvio é, talvez, incorrecto, uma vez que a Universidade se confunde com a cidade. Se andarmos pelas ruas movidos a curiosidade o mais certo é dar-mos connosco dentro de uma igreja ou de um pátio pertença da Universidade. Diz que são treze os pátios deste centro de ensino fundado por jesuítas polacos em 1579 e que rapidamente se tornou um centro incontornável do conhecimento na região. Adam Mickiewicz, o grande herói da literatura polaca que cresceu perto de Vilnius, é um dos nomes imortalizados numa placa no Grande Pátio, ao lado de homenagens a outros vultos da Universidade. 



O Grande Pátio da Universidade de Vilnius é um daqueles lugares mágicos. Tinha tudo para ser austero, mas naquele fim de dia transmitia, ao invés, uma tranquilidade e evasão imensas. Dentro da Igreja dos São Joãos um grupo de mulheres preparava os ramos de flores da época Pascal. A Igreja de São João Baptista e São João O Apóstolo e Evangelista é belíssima e rica, parceira perfeita do ambiente elevado que se espera de uma Universidade. O seu campanário, o edifício mais alto da cidade velha, contém um pêndulo de Foucault.




Já tínhamos dito que a curiosidade leva-nos longe, mas a falta de receio de abrir portas e ir passando entre os edifícios da Universidade leva-nos a descobertas. Não é segredo nenhum, mas o Pátio do Observatório Astronómico não possui uma entrada óbvia. A surpresa é descobrir um recanto colorido no meio de tanto tom pastel, um rasgo de génio criativo pleno de alegria numa cidade de arquitectura morna. 



Continuando a caminhada pelas ruas da cidade velha, um ponto diferente dos demais, pela sua amplitude e sensação de espaço, é a Praça da Câmara Municipal. Aqui não parece ter havido receio em romper com os modelos arquitectónicos do passado. De um lado a Igreja de São Casimiro, o mais antigo templo barroco da capital, mais um exemplo de magnificência religiosa; do outro lado, o Centro de Arte Contemporânea e a sua arquitectura moderna, feita de blocos em betão.



Mais um pouco e chegamos à Porta da Aurora, entrada ou saída da cidade. Pensávamos ter deixado as igrejas e capelas para trás, mas afinal falta ainda a Capela de Maria Mãe Misericordiosa, com a sua muito admirada Madona de Vilnius, uma imagem de Nossa Senhora que, diz-se, atende aos pedidos dos crentes.


E, por falar em igrejas, para algo diferente, há que não perder ainda a Igreja de Santa Ana, em estilo gótico e avermelhada, para variar. Nas suas traseiras fica um pacato jardim apartado do centro da cidade, embora não estejamos assim tão longe. 




Este é um bom lançamento para a coisa mais estranha que nos espera em Vilnius, o Bairro Uzupis. Este bairro de artistas declarou a sua independência de Vilnius em 1997 e na Rua Paupio para além da sua bandeira podemos ler a Constituição desta República, inscrita em várias línguas, mas não o português. São 41 os seus pontos e entre as garantias que mais aprecio está aquela que nos diz que "temos direito a ser felizes, ou infelizes". Passada esta irreverência, impõe-se dizer que este bairro possui um ar algo decadente e os seus edifícios precisam de um restauro. A vida parece ter parado no tempo, sobretudo junto ao rio Vilnia.


Deixada a cidade velha para trás, tempo houve ainda para uma breve caminhada pela Avenida Gediminas, parte da cidade nova. O enorme edifício de arquitectura em cascata da Ópera e Ballet Nacional da Lituânia rouba a cena. 



Nas suas traseiras, o mais discreto Museu Vytauto Kasiulio é um bom ponto de partida para se conhecer a pintura viva e colorida deste artista local.

Vilnius foi, no século XIX, um importante centro judaico, daí que tivesse sido conhecida como a Jerusalém do Norte. A II Grande Guerra Mundial arrasou a população judaica e trouxe outros habitantes a Vilnius, como lituanos vindos de outras partes do país e russos e bielorussos.

O Museu das Vítimas do Genocídio não trata desta questão, porém. Instalado no antigo edifício da Gestapo e, depois, do KGB, este museu retrata a ocupação soviética da Lituânia que provocou a deportação de muitos seus cidadãos para lugares distantes do império. A perda da independência após a Guerra trouxe inconformismo por parte de muitos, homens e mulheres, jovens e não tão jovens, e entre 1944 e meados de 1960 foram anos de repressão e luta pela independência os que se viveram por aqui. Para além de nos contar as histórias das pessoas envolvidas nesta época conturbada, neste museu é ainda possível visitar as celas de detenção e de execução dos indivíduos que aqui foram presentes. Na fachada do edifício veem-se placas de homenagem a alguns dos muitos mortos. É um museu duro, mas que não se deve perder caso se queira conhecer mais sobre a história (recente) do país que se está a visitar.


País este que é hoje parte da União Europeia, tal como o meu. Foram 7 dias de chuva e frio numa semana de Primavera de Abril, algo pouco habitual nesta época no meu país. À semelhança da minha cidade, Vilnius é banhada por um rio (na verdade, dois, o Neri e o Vilnia). Mas este não se sentiu, apesar de da janela do meu hotel ver o estreito rio Neri e poder confirmar que a cidade se vai estendendo e crescendo para a outra margem. Da janela da minha casa em Lisboa não vejo o rio Tejo, mas todos os dias o sinto e caminho à sua beira, ele que é tão largo que chega a parecer um mar; não o é, mas desagua num imenso oceano a ínfimos quilómetros da cidade. Mar é elemento estranho a Vilnius e a Lituânia apenas pode dar-se satisfeita por ter o Mar Báltico por perto. 
Sol e mar não são sonhos portugueses por concretizar, que os têm de sobra. 
Mas o mar emociona sempre, mesmo a milhares de quilómetros de casa. 
Numa loja em Vilnius, o dono pergunta-me de onde sou. Ao responder Portugal, conta-me que o filho esteve há dois anos a fazer Erasmus em Lisboa e acrescenta apenas isto: "o meu filho realizou o sonho dos pais: ver, algum dia, o Oceano Atlântico".

Está provado que o centro da Europa fica na Lituânia, a precisamente 16 kms de Vilnius. E esta é, sem dúvida, pelos edifícios que suporta, pela gentes que acolhe, pelo ambiente que se vive, uma capital europeia. Uma capital europeia a sonhar com o Atlântico.