quarta-feira, junho 14, 2017

Que País É Este?

Há um país, pelo menos um, que tem na sua bandeira uma montanha. Não uma qualquer, mas sim a mais importante do seu território nacional. Aquela montanha, sobre a qual dizem que não se é verdadeiramente cidadão nacional até se fazer a sua ascensão.
Faz sentido, porque nesse país a natureza impera. Mais de 50% do território é coberto por floresta. Até a capital do país é verde, situação que contribuiu para ganhar em 2016 o título de Capital Verde da Europa. Europa...Já deu para perceber de forma morna qual a localização do país que escrevo.
Continuando. Neste pequeno país, em área e população - os humanos são apenas cerca de 2 milhões - há, no entanto, uma grande diversidade geográfica e paisagística. Diversidade populacional não, aspecto fulcral para que este país tenha tido estabilidade e paz relativamente cedo, contrariamente aos restantes membros da ex-República. Começa a estar fácil descobrir de que país se trata, não?
Pois bem, muita diversidade geográfica e paisagística. Montanhas, planaltos, pequenas cidades, zonas de vinha, castelos, grutas, praias, rios, cascatas, lagos. 
Veja-se, há lagos de uma beleza tão estonteante que chegam a ser abafados pelo protagonismo de outros, naturalmente, também estonteantes.
Existem rios com água tão azul cristalina, que nos inebriam. Alguns são tão encaixados, que a sua beleza nos abisma e deslumbra.
Há trilhos no meio da floresta que nos conduzem a cascatas surpreendentes.
Passamos de uma face para a outra das montanhas e percebemos que a beleza não tem fim.
Mais, descemos ao interior da terra e percebemos que até aí a surpresa não cessa.
A localização ímpar e extraordinária dos castelos conquistam-nos, acção que estas fortificações sempre tentaram impedir.
Bebemos à mesa o néctar tirado das vinhas que ladeiam as estradas que percorremos. Também à mesa comemos pratos elaborados com ingredientes locais, utilizados tanto na cozinha simples como na alta cozinha.
Calcorrear pequenas cidades, as quais nos transmitem a história e as várias influências do território. As influências e as dinâmicas territoriais foram tantas ao longo dos tempos, que algumas das cidades fazem-nos crer que estamos noutro país. 
Em todos os momentos sentimos uma comunhão com o belo. Aqui tudo é sereno e perfeito.
Onde?
No país que entre os heróis do desporto estão remadores e um saltador de ski. 
Fácil!
O quê?
Não descer as pistas de saltos de ski, mas antes descobrir que país é este.
Porém, mais fácil ainda é gostar deste país.

domingo, junho 11, 2017

Graz

Graz...Graz é daquelas cidades sobre as quais pouco sabia. Ainda assim estava na minha lista mental de sítios a ir. Tudo pelo seu icónico museu, Kunsthaus. Este ex-libris da cidade austríaca navegava no meu imaginário.



Desta forma, quando programámos a viagem que iríamos fazer à Eslovénia, tratei de incluir Graz no programa, já que se localiza a poucas dezenas de quilómetros da fronteira com o país da ex-Jugoslávia.
Ficou, assim, a nossa base de chegada e partida de avião.
Fomos, visitámos e voltámos e ficámos a saber que se trata da capital centro-oriental de Estíria, que é a segunda maior cidade austríaca, com cerca de 300 000 habitantes, e tem muitas propostas interessantes.
É também uma cidade universitária e jovem, ainda que por a termos visitado na Páscoa não sentimos a vibração própria das cidades com estas características. 
Sentimos, porém, que é rica em arte, em design e na cena culinária e vinícola, fruto da produção de vinho no Estado de Estíria.
Inicialmente foi construída à volta de Schlossberg, um antigo castelo altaneiro, onde de hoje podemos admirar de cima o centro histórico e apreender como a cidade se desenvolve, já que daqui alcançamos uma vista ampla.



 
Na colina do Schlossberg percorremos entre árvores diversos caminhos, alcançamos a Torre do Sino, a Glockentum (Torre do Relógio), o Pavilhão Chinês e muitos outros pontos, inclusivamente restaurantes com belas esplanadas.



Enquanto subimos vamo-nos surpreendendo aos poucos com a forma orgânica e fabulosa do edifício da Kunsthaus. Percebemos porque é apelidado carinhosamente pelos locais de 'Alien Amigável'. Parece algo de outro mundo que aterrou na cidade. Simultaneamente está tão bem inserido na envolvente, que a palavra amigável se aplica extraordinariamente.





Os arquitectos Peter Cook e Colin Fournier brilharam com este espectacular edifício construído em 2003, ano em que Graz foi Capital Europeia da Cultura.
No interior do museu, as exposições patentes são difíceis. É a arte contemporânea do estilo o-que-é-que-o-artista-quer-comunicar. No meio do nosso questionar indignado pela não compreensão das obras vamos admirando a peça arquitectónica. É, de facto, admirável. 
No sopé do Schlossberg encontra-se o centro antigo (Alstadt von Graz), muito bem preservado e onde encontramos diversos estilos arquitectónicos. Desde edifícios barrocos, a influências góticas, a jóias renascentistas.
É aí que está a Herrengasse, rua pedonal que liga a praça principal, Hauptplatz, onde se localiza a câmara municipal e um mercadinho, e a Jakominiplatz.





À volta encontram-se vários palácios, como Landhaus, em estilo renascentista italiano marcado pelo seu pátio, e a Luegghaus, actualmente loja da Swarovaki, com a sua fachada elaborada.



No centro histórico, entre outros aspectos, admiramos a Catedral, o mausoléu Kaiser Ferdinand II, a escada dupla em espiral no Burg, actualmente a sede do parlamento regional Estiriano.



A partir do Burg, acedemos ao Burggarten e a seguir ao Stadtpark, o parque principal da cidade.



De regresso ao centro histórico, às 11h, 15h ou 18h duas janelas abrem-se e um par de figuras em madeira, com trajes tradicionais começam a dançar ao som da Glockenspiel. Durante largos minutos ficamos envoltos numa panóplia de polifonia, já que, em sincronia, os diversos sinos da cidade tocam.


Próximo da Glockenspiel podemos desfrutar da belíssima arquitectura renascentistaa da Mehlplatz e da Farberplatz, uma área com muitos restaurantes, cafés e bares, ao ponto de ser conhecida como o Triângulo das Bermudas de Graz.


Ainda no centro histórico, subimos ao topo dos armazéns Kastner & Öhler, um edifício do fim do século XIX e completamente renovado em 2010. Ficamos um nível acima dos telhados vermelhos da cidade. E sentimo-nos mais próximos do céu, ao som da música que o DJ do café dos armazéns vai colocando.



Desde 1999 Graz é classificada pela UNESCO como sítio de património cultural mundial. 
Não é uma grande metrópole, mas antes daquelas cidades que se palmilham na perfeição a pé e onde esbarramos, também, com a perfeição do que não tem ponta de desalinho.
De desalinho só o rio Mur, que corre debaixo das pontes que ligam a parte Poente com o lado Nascente de Graz e que contorna a Murinsel. Esta ilha/ponte anfiteatro-café em formato de concha é um dos símbolos recentes e que mostram como a cidade não cristalizou.




Esta obra enigmática do arquitecto nova-iorquino Vito Acconcido, foi também uma das aquisições do ano (2003) em que Graz foi Capital Europeia da Cultura. Uma bela aquisição.
Outra prova que a cidade não estagnou é o complexo Joanneumsviertel.  Não só alberga diversos museus, como o Neue Galerie, o Museu da História Natural e o BRUSEUM, dedicado a Gunter Brus, como outros serviços culturais, nomeadamente a Biblioteca, como é um importante destaque urbanístico.



Fomos à maravilhosa Neue Galerie Graz, onde tivemos o privilégio de admirar, entre outras, algumas obras do fantástico Egon Schiele, do expressionista austríaco Herbert Boeckl, e do fabuloso de Ignaz Raffalt.
Contemplamos ainda a maravilhosa exposição temporária sobre o percurso artístico de Norbertine Bresslern-Roth (Animal Painter), artista nascida em Graz, e que era uma exímia pintora e ilustradora de livros com motivos de fauna e flora.
Houve ainda tempo de percorrermos a exposição de xilogravuras japonesas (Battle and Passion).
Um deslumbre.
Por toda a oferta que contém,  é imperdoável não colocarmos Graz nos nossos mapas pessoais.

sábado, junho 10, 2017

sexta-feira, junho 09, 2017

Viana do Castelo

Viana do Castelo é uma cidade que surpreende.
Senhora de um conjunto de edifícios medievais de qualidade superior.
Não é uma das maiores cidades portuguesas, mas tem um centro histórico de tamanho superior a umas quantas capitais europeias.
Uma ponte obra de Eiffel liga as duas margens do Rio Lima.
Duas obras de dois prémios Pritzker convivem lado a lado junto à foz do Lima.
Dizer isto já não é pouco. 
E se lhe acrescentarmos que Viana foi cantada por umas quantas vozes (com Amália à cabeça), muitas das vezes em palavras escolhidas pelo poeta Pedro Homem de Mello?
Um exemplo, na sua "Canção de Viana":

"A minha terra é Viana! 
Sou do monte e sou do mar. 
Só dou o nome de terra 
Onde o da minha chegar! 

Ó minha terra vestida 
Da cor da folha da rosa! 
Ó brancos saios de Perre 
Vermelhinhos da Areosa! 

Virei costas à Galiza; 
Voltei-me antes para o mar… 
Santa Marta! Saias negras 
Têm vidrilhos de luar! 

Dancei a Gota em Carreço, 
O Verde Gaio em Afife 
Dancei-o devagarinho 
Como a lei manda bailar! 

Virei costas à Galiza; 
Voltei-me então para o Sul… 
Santa Marta! Saias Verdes… 
Deram-lhe o nome de azul… 

A minha terra é Viana 
São estas ruas estreitas 
São os navios que partem 
São as pedras que ficam. 
É este sol que me abrasa, 
Este amor que não me engana, 
Estas sombras que me assustam… 
A minha terra é Viana."

Amália cantou "Havemos de Ir a Viana", com letra do mesmo Pedro Homem de Mello, e assim nos pusemos a caminho.


É do alto do Monte de Santa Luzia que se percebe todas as potencialidades de Viana. Numa localização destas, só pode ser uma cidade bonita.
Santa Luzia, omnipresente em quase cada canto de Viana, foi um antigo castro de povos célticos. Habitado ainda antes destes, o vale fértil, a caça disponível nos seus bosques e o peixe em abundância no seu estuário era atracção bastante para as gentes.
Bem mais tarde, em 1258, o Rei D. Afonso III tomou a decisão de fundar Viana, escolhendo ele próprio o nome da localidade. Ficou Viana da Foz do Lima ou Viana do Minho, hoje Viana do Castelo, mas sempre Viana.
Uma distinção Viana possui: D. Afonso III devia o seu trono ao apoio do povo e a sua vontade era a de fundar no Alto Minho uma vila para ele, povo, tendo de início sido vedada aí a instalação da nobreza. O nascimento e desenvolvimento da pesca, da indústria marítima, com o abastecimento de toda a região, bem como as posteriores expedições à Terra Nova, o comércio com os portos brasileiros e a pujança dos estaleiros da construção naval, levou a que Viana ficasse conhecida como terra de gente trabalhadora, a Viana do Povo, como lhe chamou José Hermano Saraiva. 
Em 1848 D. Maria II elevou Viana a cidade, em louvor à sua participação nas guerras do liberalismo, e tomou a decisão de lhe mudar o nome: Viana do Castelo. Ainda segundo as palavras de José Hermano Saraiva, esta mudança de nome é uma pilhéria face à história de uma cidade não apenas sem castelo (eventualmente confundível com o Forte de Santiago da Barra), mas fundada contra os castelos e os militares.


Começámos o passeio por Viana junto ao Lima, observando a ponte metálica verde projecto da Casa Eiffel de 1878. A construção desta ponte rodo-ferroviária levou a um desenvolvimento da cidade para sul. Permanecemos, no entanto, no lado de cá. A frente ribeirinha está bem cuidada e compete em atracção com as águas do rio pelo exercício físico.



Por aqui, com o monte de Santa Luzia e o centro de Viana nas costas e a outra margem de vigia, a cidade ganhou recentemente dois equipamentos projectados por dois dos mais reconhecidos arquitectos do mundo. O plano de reabilitação da frente ribeirinha de Viana vem já desde os anos 90, da responsabilidade de Fernando Távora, autor dos dois edifícios da nova Praça da Liberdade que estão no meio da Biblioteca de Álvaro Siza Vieira e do Centro Cultural de Eduardo Souto Moura.



A Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, inaugurada em 2008, é característica de Siza, um edifício branco de linhas rectas, soluções simples mas engenhosas como a criação de um pátio recolhido que aproveita uma nesga da paisagem natural, no caso o rio Lima mesmo ali à beira, tudo isto apoiado por estreitos pilares.



O Centro Cultural de Souto Moura é um pavilhão multiusos e foi inaugurado em 2013. Para que pudesse ser versátil o suficiente para acolher eventos culturais e desportivos, o arquitecto adoptou a solução de enterrar parte do edifício. A estética exterior é de ruptura para com o existente e é surpreendente. Diz-se que que a intenção era a de evocar a arquitectura naval (o navio Gil Eanes é seu vizinho) e, de facto, aquela espécie de tubagens ao longo de todo o edifício pode encontrar aí um arrojo explicável.


Por estes e mais uns quantos exemplos espalhados pela cidade, Viana vem sendo definida como "Meca da Arquitectura", quase deixando de lado o capítulo "Prédio Coutinho". Este edifício de 13 andares na primeira linha de rio quase que passa despercebido escondido no meio do arvoredo do bem cuidado Jardim da Marginal. Mas, e voltamos ao Monte de Santa Luzia, este elemento é disruptivo mesmo a quilómetros de distância.



Continuamos a caminhada ao longo do Rio Lima até ao Forte de Santiago da Barra, passando pela zona da doca pesca e avistando os Estaleiros Navais. 


O enorme Campo da Agonia, com a igreja da Senhora da Agonia lá bem ao fundo, fica aqui junto ao Forte. Esta é a padroeira dos pescadores e é em sua honra e pela devoção que as gentes do mar lhe prestam que é celebrada a maior romaria do Minho (em Agosto).

A partir daqui entramos no coração da cidade e admiramos as suas bonitas praças-jardins e os seus edifícios imponentes mas de arquitectura sóbria. 


A Igreja de São Domingos é bonita por fora, com a sua fachada retábulo, e rica por dentro. Desde o seu Largo entramos na Rua Manuel Espargueira, via pedonal de comércio e edifícios históricos.  





A rua é estreita e temos de erguer bem o pescoço para que a nossa vista possa apreciar todos os detalhes desses edifícios: azulejos, varandas em ferro, brasões, figuras no topo e muitas mais surpresas.


Uma das características do centro histórico de Viana é a combinação de ruas estreitas - quase todas elas - com outras mais largas abertas ao rio. A Avenida dos Combatentes da Grande Guerra é uma delas. Vindos da Espargueira, cruzamo-la e de um lado, para baixo, o rio, e do outro, para cima, a Estação de Comboios com Santa Luzia a dar-lhe um olho amigo. 



Poderíamos ter continuado na rua Manuel Espargueira para espreitar a Confeitaria Natário e sua concorrida fila para a compra das famosas bolas de berlim ou sidónios (bolo em homenagem a Sidónio País, natural de Caminha), mas preferimos deixar para mais tarde (e tivemos de esperar a bem esperar pela recompensa deliciosa) e subimos para uma olhada aos preciosos edifícios do Convento de Sant'Ana, de um lado, e do Palácio dos Viscondes de Carreira ou dos Abreu Távora, do outro. Este último é hoje o lugar da Câmara Municipal e é bem distinto, com as suas janelas e portas manuelinas, fazendo dele uma das mais belas casas senhoriais do país. 


Descendo esta rua de nome incrível, "Passeio das Mordomas da Romaria", estamos finalmente na Praça da República, o centro de Viana, um conjunto monumental de qualidade inquestionável.
Com o chafariz no meio, destacam-se aqui os antigos Paços do Concelho e a Igreja da Misericórdia, todos eles elementos do século XVI.


Os antigos Paços do Concelho possuem uma fachada gótica de dois pisos, onde se distingue a Cruz de Cristo e o Escudo português. No piso térreo, rasgado por arcos, era o lugar onde se vendia o pão, enquanto que no piso superior funcionavam os serviços da câmara e do tribunal.


A Igreja da Misericórdia é riquíssima nos detalhes dos elementos escultóricos da sua fachada com varandas, um exemplo superior de arquitectura renascentista e maneirista. É única no nosso país. Infelizmente, por estar encerrada no dia da minha visita, não pude confirmar a riqueza decorativa do seu interior, profusamente preenchida a azulejos e com abundante talha dourada, uma obra-prima do barroco do século XVIII.


Da malha urbana para lá da Praça da República em direcção ao rio a melhor solução é deixarmo-nos vaguear pelas ruas estreitas e perdermo-nos a apreciar os prédios reabilitados e os inúmeros pormenores. 
Alguns exemplos, 

Uns azulejos em art deco.

A Casa de João o Velho (ou dos Arcos) - de influência galega, este é um dos poucos exemplos de casa de habitação urbana, em cantaria, de finais do século XV, que resta no nosso país. Realce para o seu peculiar brasão.

A janela manuelina da Casa dos Costa Barros - casa nobre manuelina, com janela hiper decorada.

A Capela das Malheiras - pertencente à Casa da Praça, ou Casa Reimão Malheiros, uma exuberância em estilo rococó.

A pedonal Rua da Bandeira, comércio com passadeira estendida.

O Palácio dos Cunhas - possui dez janelas e onze sacadas; com a aquisição do edifício pelo Estado as armas da família originalmente proprietária foram substituídas pela caravela vianense, a qual simboliza Viana e sua vocação marítima.


Terminando este périplo por Viana, resta a despedida desde o Monte Santa Luzia. A sua Basílica, da autoria de Ventura Terra, foi construída entre 1903 e 1925. Inspirada na Sacré Cour de Paris, esta basílica altaneira apresenta uma mescla de estilos, como o neoclássico, neo-romântico, neogótico e bizantino. No entanto, é a vista que daqui se alcança que nos faz voltar, repetir e admirar Santa Luzia. Sem mais palavras.