terça-feira, agosto 09, 2016

De Barichara a Guane

Seríamos felizes só por nos deixar estar em Barichara, descobrindo mais um pormenor aqui e outro ali, juntando cores para a nossa colocação de arco íris.


Ainda assim, tirámos uma manhã para percorrer o Caminho Real até ao povoado de Guane, cerca de 5 km que começam no miradouro que fica no final da enorme subida da rua da Catedral de Barichara. Daqui a nossa vista alcança o imenso vale com o canyon do Rio Suarez, afluente do Rio Magdalena, lá bem baixo. 




Caminhámos como muitos outros têm feito ao longo de séculos, num sendero construído pelos indígenas guane, utilizado pelos espanhóis e reconstruído ao longo dos tempos. Sempre a descer, a caminhada é agradável e deslumbrante. Levámos duas horas numa análise cuidada aos diversos cactos, à imensa variedade de borboletas e aos voos das enormes aves que rompiam o céu.






Guane é uma mini Barichara parada no tempo. Ideal para deixarmo-nos ficar um pouco na sua praça e pensar que ainda há lugares perfeitos.

segunda-feira, agosto 08, 2016

As Cores de Barichara








Barichara

De Villa de Leyva para Barichara é um dia de viagem. Com sorte, como a que apanhámos, dá para chegar a meio da tarde. Em geral, tem de se ir a Tunja (45 minutos), daqui a San Gil (4 a 5 horas) e por fim Barichara (mais 40 minutos). Para além da longa jornada que implica diversos transbordos, havia alguma possibilidade de sermos ainda afectadas com o "paro" de transportes que dura(va) na Colômbia há mais de um mês no momento em que escrevo estas linhas. À chegada à estação de Villa de Leyva logo nos disseram que a coisa para Tunja estava má e que a alternativa era ir até Chiquinquira (?), mas que o autocarro para lá tinha acabado de sair. Ui. Nada que os simpáticos colombianos não tenham resolvido com um telefonema para o motorista desse autocarro para que nos esperasse um pouco na estrada. Uma hora e meia de viagem depois a sorte continuou quando à chegada à dita Chiquinquira tivemos logo ligação para San Gil. E daqui com pouca demora para Barichara. A duração total da viagem foi praticamente o indicado a princípio, como se tivéssemos ido por Tunja, mas tudo interligado. Resultado: Barichara era nossa pelas 4 da tarde.

Se Villa de Leyva é um encanto, Barichara surpreende e faz-nos ainda mais felizes. 
A distância para aqui não traz muitos turistas e os que vêm são convictos na sorte que é poder visitá-la. Em relação a Villa de Leyva, em Barichara encontramos os mesmos edifícios brancos de telhas vermelhas e ruas de pedra e um enquadramento natural especial. As duas vilas não se confundem, porém. 




Fundada em 1705 pelo capitão espanhol Francisco Pradilla y Ayerbe, este atribuiu-lhe o nome de Villa de San Lorenzo de Barichara. Barichara derivou da palavra guane (o povo indígena que historicamente aqui habitava) Barachalá, ou seja, "lugar de relaxamento". Se era assim antes, é assim agora. 




Em Barichara as casas brancas possuem listas de diversas cores, com destaque para o verde, várias tonalidades de azul e o amarelo. As janelas e portas revelam-se de imediato e cativam o nosso olhar. Tudo está perfeitamente preservado. O chão de pedra da vila - ruas geométricas totalmente empedradas - é bem mais amigo do caminhante do que o de Villa de Leyva. 



E, depois, temos a paisagem fantástica que envolve a vila, verde por todo o lado, em (mais) um contraste perfeito com o edificado. Tudo se conjuga, pois, para nos impelir à deambulação e nem as ruas com subidas acentuadas nos fazem hesitar por um momento em seguir caminho, pisar mais um quarteirão empedrado, descobrir mais uma cor a destacar no branco das casas, espreitar mais uma janela, entrar em mais uma loja. 



Temos lojas de artesanato, temos restaurantes, temos dulcerias, mas temos sobretudo umas lojas de aldeia que tudo vendem, prateleiras empilhadas de produtos até ao tecto. Não faltam sequer os frasquinhos a vender as famosas e típicas "hormigas culonas", em bom português, formigas rabudas. As formigas em tamanho xxl são uma tradição guane, que as achavam afrodisíacas e com propriedades medicinais. Não as provei aqui, mas tinha provado uma outra espécie de formigas em Bogotá, tendo sido a única do grupo a aprovar o seu sabor.



Uma palavra mais para as igrejas de Barichara, começando pela sua principal, a enorme Catedral da Imaculada Conceição. Dominando a praça principal da vila, a sua cor e material - arenito - são diferentes dos edifícios civis e o seu interior é surpreendente, linda nos seus vitrais e chão em mosaico. 



Existem mais igrejas e capelas em Barichara, todas de mesmo estilo, interior sóbrio, tectos com ripas pretas e, curiosamente, piso inclinado até ao altar.


Tudo em Barichara convida à errância indolente pelas suas ruas.

sexta-feira, agosto 05, 2016

Villa de Leyva

Villa de Leyva fica a mais de três horas e meia de autocarro desde Bogotá. O tempo de viagem até Tunja divide-se mais ou menos assim: uma hora para nos livrarmos do trânsito da capital, meia-hora a esperar que o autocarro encha e duas horas de viagem. O dito do autocarro "sai quando sai" não é, pois, eufemismo nestes lados. Depois de Tunja é só apanhar um dos mini colectivos que saem com frequência para mais 45 minutos de viagem até ao destino desejado: Villa de Leyva.

Com tanto tempo de viagem, não espanta que a tenhamos feito em grande parte já sem a luz do dia, sem que pudéssemos à chegada confirmar as palavras do escritor Juan Gabriel Vasquez acerca da "cor escura e rugosa e áspera como o deserto de Villa de Leyva".

Nunca é boa ideia idealizar-se muito um postal que nos aprestamos a visitar. A praça central de Villa de Leyva vem referida como umas das maiores da América do Sul e não pude evitar colocar um livro na mochila só para ter o prazer de me sentar e o abrir numa das esplanadas da praça e deixar-me ficar ali a sentir a sua enormidade.




Não podia, assim, ser maior a desilusão por encontrar a Plaza Mayor de Villa de Leyva ocupada com barracas de vendas de chapéus, ponchos, cuecas, shampoos e doces, lado a lado com palcos, carrosséis, molas de pular rumo ao céu e casas de banho móveis à frente da igreja, numa miscelânea de festa de aldeia com comemoração em honra da Virgem del Carmen.

Com o passar dos (três) dias fomos vendo a praça esvaziar, mas não totalmente que pudesse cumprir o imaginado.



E o imaginado é a vastidão e o vazio transformados em perfeição graças a um chão de pedras enormes, uma igreja num dos topos, edifícios com arcadas e com balcões a ladearem-na, tudo numa cor branca, tão branca que provoca o contraste perfeito com a paisagem, por vezes verde, por vezes "escura e rugosa", como escreveu o citado autor colombiano.

Cidade colonial fundada em 1572 e extremamente bem preservada, encontramos nela ainda alguns edifícios que fazem jus ao título, bem conservados e com os seus pátios adaptados a restaurantes e lojas de artesanato. A não perder: provar os saborosos chocolates caseiros de uma das lojinhas da Villa.




O sentido de passado e autenticidade são presenças marcantes e neste ambiente tranquilo o melhor que se há a fazer por aqui é deambular pelas ruas (ainda que o seu empedrado não seja das coisas mais confortáveis para se caminhar). As casas são brancas, bem como os muros, e os telhados de telha vermelha. Os balcões e as janelas pintadas de verde são também actores principais. Como coadjuvantes, encontramos ainda o cuidado que é colocado na decoração das flores, sobretudo buganvílias e gerânios, o que torna o cenário ainda mais mimoso.







As praças de Villa de Leyva são recantos ainda mais recolhidos, lugares onde a placidez é a palavra de ordem.




Um excelente miradouro deste povoado branco e vermelho que é um destino de fim-de-semana recorrente para os habitantes de Bogotá obtém-se desde o cerro onde está instalada uma pequena estátua, branca, pois claro, de Jesus de braços abertos para a cidade. A subida não é fácil, até porque estamos a mais de 2000 metros de altitude, mas a recompensa é a percepção exacta da implantação desta singular cidade num vale montanhoso.



(Em Villa de Leyva visitámos ainda os Pozos Azules, mas o lugar e experiência são tão esquecíveis que fica o aviso: não vale a pena perder tempo; melhor seria ter-me juntado ao carrossel da Plaza Mayor)

quinta-feira, agosto 04, 2016

Villa de Leyva e Barichara


Duas das mais bonitas cidades coloniais das Américas e, em especial, da Colômbia, ficam a norte de Bogotá, quase que perdidas no meio do nada mas em terras que os espanhóis acreditaram e desejaram ser o El Dorado, abundância de ouro e esmeraldas, mito que ficou por cumprir.
Villa de Leyva, no estado de Boyacá, terra dos Muiscas, e Barichara, ainda mais a norte, no estado de Santander, terra dos Guanes, foram das primeiras cidades coloniais fundadas pelos espanhóis em território colombiano. E são dois exemplos lindos e perfeitos de cidades em que uma visita pode fazer-nos voltar no tempo ou, pelo menos, desejar que este possa parar.


quarta-feira, agosto 03, 2016

Colômbia


Durante anos pensámos visitar a Colômbia.
Histórias reais de violência, quer de paramilitares quer de narcotraficantes, mantiveram-nos afastadas.
A situação está hoje melhor, infinitamente melhor, e, coincidência, na véspera da nossa viagem pudemos assistir via televisão às lágrimas de alegria dos colombianos pelo acordo de paz alcançado com as FARC. 
A Colômbia tem uma população jovem e vibrante e é o país que mais cresce em toda a América do Sul.
Nada nos preparava, no entanto, para a simpatia das suas gentes.
Se à chegada ao aeroporto de El Dorado, em Bogotá, enquanto aguardávamos pela bagagem íamos vendo desfilar os polícias armados de cães, íamos, ao mesmo tempo, observando para lá do vidro a euforia dos familiares e amigos que pulavam e gritavam, empunhando cartazes de boas vindas e balões com as cores da bandeira colombiana. Que recepção.
A simpatia continuaria ao longo da viagem, mas agora especialmente dirigida a nós. Os "com mucho gusto" e "que les vaya bien" foram uma constante. Não estranha, pois, que se possa encontrar escrito numa parede de um qualquer edifício de San Gil algo como "um bom dia para ti que estás a ler isto sem querer".