sábado, agosto 26, 2017

Pelo Lago Erhai

O Lago Erhai, o sétimo maior lago de água doce da China, fica junto a Dali.
A 1973 metros de altitude, esta é uma região plácida, feita de vilas bai com arquitectura bem preservada e mercados vivos.
Dar a volta ao lago todo faz da jornada cerca de uma centena de quilómetros. Sem veículo próprio o mais acertado é alugar uma bicicleta e visitar uma ou mais vilas próximas a Dali ou fazê-lo através de autocarro. Foi o que fizemos, até porque foi um dia de chuva este o que nos tocou.
A cerca de trinta minutos de viagem de autocarro fica Xizhou, uma das vilas bai mais autênticas. 




O enquadramento natural da montanha é belíssimo e os reflexos no rio exacerbam ainda mais o cenário dramático. 








A vila é pequena mas cheia de pormenores para se descobrir, seja a entrada num templo escondido, num outro escancarado, uma rua de comércio local, comida típica feita artesanalmente no momento, um café amoroso e até um centro cultural, o Linden Centre (também hotel), com um bonito pátio.  










A uma longa mas agradável caminhada fica o Lago Erhai. Até lá vamos vendo às montanhas ficando cada vez mais distantes. Os campos de arroz vão trazendo novas tonalidades de verde à paisagem. Vão-se avistando mulheres bai a trabalhar nos campos. Alegres e simpáticas. Cavalos soltos. Trigo para variar do arroz. Um templo.
Até que chegamos finalmente ao Lago. E ao idílio.








sexta-feira, agosto 25, 2017

Dali

De Dali, a velha Dali (não confundir com Xiaguan, a nova Dali, também referida como Dali), fica a sul de Lijiang e foi em tempos um ponto igualmente incontornável na Rota do Chá e do Cavalo, a auto-estrada comercial que ligava a China, o Tibete e a Índia. A cidade velha de Dali não possui, no entanto, o encanto fácil de Lijiang, pelo que as comparações param aqui.



A sua localização é fantástica, encravada entre a montanha de Jade Verde (Cang Shan) - e se ela é verde! - e o Lago Erhai. 




A vida na cidade é relaxada, embora cheia de lojas de souvenirs que se repetem até à exaustão. Tem até uma rua hipster com cafés que poderiam fazer parte da colecção de uma capital europeia. Aliás, existe até uma rua por aqui conhecida pelo nome de "rua dos estrangeiros". Disso, porém, não guardarei grandes recordações. 



Lembrarei, sim, os pormenores da arquitectura Bai nos edifícios da velha Dali e nas vilas junto ao Lago Erhai. Mais uma vez, as portas fechadas dos seus edifícios tornam-os mais bonitos, possibilitando-nos apreciar na plenitude todos os seus motivos decorativos. 






Mas são as pinturas que marcam presença em quase todos os edifícios, novos ou antigos, de habitação ou templos ou até simples muros, essas pinturas que encontramos um pouco por todo o lado, mais ou menos elaboradas, são elas a marca mais distinta da arte bai. Os Bai são a minoria étnica da região de Dali, antigo centro do reino Nanzhao entre os séculos VIII e XIII, os quais chegaram a expandir-se para o Sichuan, Birmânia e Tailândia. Ao contrário dos Naxi de Lijiang, os Bai de Dali são taoistas e possuem templos. 

Curiosamente, no entanto, são um símbolo do cristianismo - uma igreja - e outro do budismo - pagodes - duas das grandes atracções de Dali.






A igreja da Trindade Católica de Dali, obra de um padre francês que por aqui andou na década de 20 do século passado, é surpreendente. Embora não estejamos acostumados a esta explosão de cor numa igreja católica, o resultado desta mescla de estilos han, bai e europeus é harmonioso e encantatório. A forma da igreja é a de um pagode, só que encimada por uma cruz. Telhados hiper trabalhados com decorações com motivos bai do leão, elefante e dragão a que se junta a fénix. E o interior é simples e despojado, próprio de um missionário.


A San Ta Si, os Três Pagodes, não é menos surpreendente. A uma breve caminhada da velha Dali, deixando a porta norte para trás (uma das quatro portas monumentais da cidade), e entrando pela ruralidade, este é o seu símbolo incontestado e uma das imagens mais conhecidas de toda a província do Yunnan. 


Já tinha visto fotos do pagode mor, mas não esperava o arrebatamento do lugar. No sopé da montanha Cang Shan, e avistando-se o Lago Erhai na direcção contrária, erguem-se no meio de um vale verde bem cuidado três enormes e bem distintos pagodes. O mais antigo, o Qianxun, é também o mais alto, com 69 metros. Incrível saber que foi construído no ano de 850, logo, continua ali, belíssimo e imponente, do alto da sua já mais do que milenar idade. Os outros dois pagodes, um século mais novos, fazem-lhe a guarda, simétricos. Não é possível a visita ao interior de nenhum destes pagodes.
A entrada do parque onde fica o complexo San Ta Si não é nada barata, cerca de 15 euros. Como só se vêem os pagodes por fora e o templo que supostamente ali há para ver é uma construção recente, sem história, válido apenas como um outro ponto de observação para os 3 Pagodes, há quem descreva este sítio como uma armadilha para turistas. É um ponto de vista. Há outro: se pensarmos que provavelmente não voltaremos a Dali, 15 euros para nos deixarmos estar numa sombrinha com vista directa para um pagode milenar num ambiente atmosférico parece um preço justo.

quarta-feira, agosto 23, 2017

Baisha, arredores de Lijiang

Quem vem até Lijiang segue muitas das vezes até ao Tiger Leaping Gorge e depois até Shangri- La. Esta última, anteriormente conhecida como Zhongdian até James Hilton a ter colocado no mapa com o seu livro Horizonte Perdido, fica às portas do Tibete e ficou grandemente destruída após um violento incêndio em 2014 de que vem lentamente recuperando. Não colocamos em hipótese visitá-la nesta nossa viagem, pois era coisa para ocupar uns quantos dias. Quanto ao Tiger Leaping Gorge, pelo contrário, era nossa intenção fazer pelo menos parte do seu trilho, reconhecido como um dos mais fantásticos de toda a Ásia. No entanto, tivemos notícia, já em Lijiang, de que condições atmosféricas recentes levaram a que a estrada que leva até lá estava em reparação pelo que fomos forçadas a mudar de planos.
Assim, junto a Lijiang limitamo-nos a visitar Baisha e Suzhe, duas vilas próximas o suficiente para nos ocuparem um dia inteiro num agradável passeio de bicicleta. 


Saindo de manhã rumo à (mais uma vez) encoberta montanha do Dragão de Jade Nevado, ainda distante no horizonte, deixamos Lijiang para trás, cidade ainda pouco confusa no que ao trânsito diz respeito, mas já preparada para o futuro, quer nos muitos prédios que já se avistam na sua periferia quer nas muitas faixas rodagem. As vias rápidas têm sempre uma faixa exclusiva para motociclos e para bicicletas, pelo que andar de bicicleta é seguro.
Baisha fica a cerca de 10 km de Lijiang e é sempre seguir em frente, sem nada que enganar, num caminho plano onde as montanhas têm lugar apenas do nosso lado. O ar rural vai-se fazendo sentir cada vez com mais preponderância.


A pequena vila de Baisha é famosa pelos seus murais de frescos dos séculos XV e XVI pintados por artistas tibetanos, han, naxi e bai, com cenas da vida do budismo e taoismo. 


Estes frescos, que podem ser visitados no complexo de tempos de Dabaoji Gong, estão em más condições, a maioria deles de fraca percepção, foram sendo destruídos não só pela acção do tempo mas sobretudo pela acção ideológica do exército vermelho durante a revolução cultural. O sítio vale, no entanto, pela graciosidade dos pavilhões e seus jardins. 


E Baisha entrou no mapa do (pouco) turismo ocidental graças ainda a Bruce Chatwin que a tornou famosa ao falar num dos seus artigos do Doutor He, um herbalista local falecido há poucos anos.
O mais interessante em Baisha, porém, é o seu ambiente relaxado e autêntico. Longe da confusão e do frenesim de Lijiang, nesta que já foi a capital do império Naxi. Os naxi são descendentes de tribos nómadas tibetanas. A sua religião é xâmanica e animista. Veneram a natureza e não têm templos (os poucos que vimos são tibetanos). Outra curiosidade da sua cultura é que a sua sociedade é matriarcal. Aliás, quando vieram para esta zona do Yunnan os han tiveram algumas dificuldades em lidar com este aspecto no que respeita à sua tradição de casamentos arranjados. As mulheres naxi, pelo contrário, tinham por costume casar livremente e serem elas a escolher os seus maridos.
Em Baisha é possível visitarmos um instituto onde as meninas aprendem os costumes e tradições locais, um dos quais os bordados, provavelmente a forma mais típica de artesanato.  


Outra das características distintivas dos Naxi é o seu sistema de escrita singular. A única linguagem hieroglífica ainda em uso no mundo, com mais de 1000 anos e composta por mais de 1400 hieróglifos, ainda hoje os Naxi se comunicam através desta forma.



A atmosfera e sensação de paragem no tempo será o que mais reteremos desta visita a Baisha.
Recordaremos o saboroso e bem confeccionado peixe que comemos sentadas numas mesas improvisadas à beira da rua, depois de escolhermos o dito peixe e restante refeição numa montra, por entre gestos. 
Nesta pequena rua de terra empedrada uns aguardam que o tempo passe, enquanto outros fazem pela vida neste mercado informal.





De volta a Lijiang, um desvio para uma visita a Suzhe. Esta pequena vila, que vem sendo apontada como uma alternativa mais calma à enchente de Lijiang, parece isso mesmo: uma alternativa a Lijiang. Acontece que cópia por cópia, ficamo-nos com o original, certo? Suzhe pareceu-nos algo artificial, boa para cenário de fotografias de casamento, boa para ouvir covers de músicas, boa para reproduzir todas as lojas que já viramos na Dayan de Lijiang. Veredicto: Suzhe não teve, para nós, grande piada e conseguiu ser tão turística quanto a original Lijiang.