sexta-feira, novembro 10, 2017

Subida ao Monte do Colcurinho

O Monte do Colcurinho é o ponto mais elevado do concelho de Oliveira do Hospital, erguendo-se a 1242 metros de altitude. 

Parte integrante da freguesia de Aldeia das Dez, por aqui habituamo-nos a referir-se-lhe apenas por “o Cabeço”.

O Cabeço funciona quase como um guardião. De quase qualquer canto do concelho de Oliveira do Hospital ou de Arganil o vimos ou, pelo menos, sentimos.

Subi-lo é uma experiência arrebatadora.

Podemos fazê-lo de carro ou a pé. 

De carro, a viagem é assustadora, numa estrada absolutamente inclinada e estreitíssima cheia de curvas. Não a faço há décadas, mas tenho o medo marcado até hoje.

A pé, a viagem assemelha-se mais à Via Sacra em sentido literal, que não no sentido figurado que nos é apresentada no Vale de Maceira, onde começa o percurso que agora proponho de caminhada até ao Monte do Colcurinho.

Vale de Maceira é o lugar do Santuário de Nossa Senhora das Preces, um conjunto de 13 capelas. A 13ª capela, a de Santa Eufémia, fica um pouco mais afastada das demais e é depois dela, junto à antiga casa do guarda florestal, que se inicia o percurso pedestre de subida para o Colcurinho. 

Daqui até ao Cabeço são cerca 4 ou 5 quilómetros numa penitência de uma hora e meia sempre a subir. Soa terrível mas a paisagem é redentora. 


O início deste caminho aberto no pinhal é um bom exemplo do que nos espera durante todo o percurso, subidas muito inclinadas. Mas aqui temos sombra, o que deixará de acontecer em breve.


Quando ficamos acima dos pinheiros começamos a perceber, enfim, o cenário que nos espera mais acima no Cabeço: uma paisagem ampla e totalmente aberta em todas as frentes. 


Num só olhar conseguimos abarcar Aldeia das Dez, Cimo da Ribeira, Goulinho e Vale de Maceira; 


num outro olhar Chão Sobral e Alvôco; 


num outro olhar ainda Gramaça, Porto Silvado e Vale do Torno.



O Colcurinho faz parte da Serra do Açor e embora não seja o seu ponto mais elevado é talvez o seu cerro mais mítico e celebrado. No seu alto se construiu uma capela dedicada a Nossa Senhora das Necessidades. Conta-se que aqui apareceu a Virgem no ano de 1371 e até hoje este é local de peregrinação. 



Na região qualquer comemoração ou festa serve de pretexto para se subir ao Cabeço e lembro que há décadas até para cá viemos em romaria de madrugada à anunciação de uma passagem de um cometa ou chuva de estrelas. Não recordo o evento, mas recordo a noite gelada de verão que passámos enroladas em cobertores. E provavelmente também ventosa. Não é à toa que a paisagem é polvilhada por antenas eólicas. Por isso que à medida que vamos subindo a vegetação torna-se mais rasteira e vai escasseando e a aridez toma conta do lugar. 







Região de xisto, a urze e o medronheiro fazem-lhe companhia.



A aproximação ao Cabeço é um momento de alegria e a chegada ao topo uma verdadeira conquista. Feito com esforço, distinguido com um panorama superior. 


Para além das vistas que já vínhamos alcançando ganhamos agora a vista para a encosta onde está localizado o Piodão e o círculo fica completo.

Aqui já não interessa o que é o quê. Tudo se mistura num abraço infinito. Serra do Açor, Serra da Estrela, Serra de Montemuro, Serra do Caramulo. Ainda para mais, desta vez estou sozinha a 1242 metros de altitude e não vejo ninguém a quilómetros de distância. O mundo é o que eu quiser que seja. 

Contemplo a paisagem imensa e descanso no topo do meu mundo.

A descida é fácil. Se na subida vim pela frente debruçada para o Chão Sobral, na descida aproveito para me debruçar sobre a Gramaça, ambas também povoações distantes da freguesia de Aldeia das Dez.


sexta-feira, novembro 03, 2017

Aldeia das Dez - Avelar - Alvôco - Aldeia das Dez

Avelar é aquela povoação que fica para lá do campo da bola, mas que em tantos verões passados em Aldeia das Dez nunca tinha tido curiosidade de espreitar.

Desta vez cheguei a Aldeia, calor tórrido a pedir um mergulho no rio, mas decidi adiar o refresco. O plano era caminhar até ao Avelar a pé, pela estrada, e depois daí até Alvôco, cair no rio e voltar por caminhos para cima até Aldeia das Dez.
Assim o fiz. 

Passei a fonte do Cabo Lugar e, como é da praxe, dei as boas tardes ao casal que aí se abastecia de água. Passei o que era a Casa do Povo e o Cemitério, já não vi o campo da bola onde há décadas ia fazer claque para o pinhal para que os coxos da nossa aldeia metessem golos, e reparei então que por esta estrada podemos não só sair para Alvôco como até chegar ao Chão Sobral. 



Afinal parece que o Avelar não é o fim do mundo. Durante anos pensei que a estrada para lá era de terra batida e que não havia saída. Nada mais errado. A estrada é de asfalto e como todas por aqui: a uma curva segue-se outra ainda mais apertada; se a ida é sempre a descer a vinda é sempre a subir; a vegetação é carregada de pinhal; a paisagem é fabulosa. 

Eis mais um pedaço da Serra do Açor.

O Avelar é um conjunto de pouco mais de uma dezena de casas, terá igualmente pouco mais de uma dezena de habitantes e faz parte de Aldeia das Dez. 


A sua localização encravada num vale é surpreendente. A serenidade é tanta que deixando o povoado para trás, já a uma certa distância do Avelar e a caminho de Alvôco, podemos ver e ouvir o chocalhar dos rebanhos que pastam lá em baixo.
Voltemos, porém, um pouco atrás na história, mas não no caminho. De Aldeia das Dez ao Avelar são cerca de 3 ou 4 kms por estrada (não sei se haverá caminhos melhores). A natureza envolve-nos de uma forma esmagadora e é difícil não nos deliciarmos com a paisagem, mas o calor já tornava a caminhada estafante quando a cerca de um quilómetro do destino o dito casal da fonte passou de carro e me ofereceu boleia, pelo que a aceitei.

Cumpre aqui referir porque apenas neste ano de 2017 se terá feito um clique na minha vontade de visitar o Avelar. Meses antes tinha lido várias cartas entre o meu avô - que não cheguei a conhecer - e um seu tio emigrado na América em que tema recorrente era as perguntas sobre a Aldeia e o Avelar. A família paterna do meu avô era do Avelar. E, mundo pequeno, claro que fiquei a saber que o condutor da minha boleia (que afinal não era um casal) era casado com uma das primas do Avelar do meu avô. O mergulho no rio ficou adiado por mais uma hora e o passeio transformou-se em conversa e troca de (escassas) memórias.


O Avelar é apenas um ponto de passagem. Embora possua uma igreja, à semelhança do Chão Sobral são as badaladas do sino de Aldeia das Dez que se fazem sentir. As poucas pessoas que aqui vivem fazem-no num completo isolamento. Passei por aqui no dia 15 de Junho, dois dias antes do fatídico dia 17 do fogo de Pedrogão Grande, mas já pensava como seria possível viver aqui com o terror de imaginar o fogo a avançar sobre nós, tão carregada é a vegetação. Aliás, curiosa e inequívoca foi a expressão de um primo (aqui todos devem ser ainda primos) quando após se ter espantado por eu andar sozinha lhe perguntei se havia algum perigo nisso. Respondeu-me que o único perigo por aqueles lados era o “homem negro”. O fogo, pois claro. E deve ser mesmo o único perigo, porque até a chave de casa ainda fica na porta, pelo menos durante o dia.




O caminho de Avelar até Alvôco são também uns 3 ou 4 kms, mas agora numa descida mais pronunciada. A paisagem continua agradável, pura floresta.

Alvôco das Várzeas fica à beira do rio Alvôco, afluente do Alva, num vale com vista para a Serra da Estrela. Vale a pena conferir a vista da estrada nacional que segue da Ponte das Três Entradas para a Vide, do lado contrário à que entrámos agora, só para compreender a sua localização absolutamente soberba. 


A estrada que vem do Avelar vai ter precisamente à ponte medieval de Alvôco, destaque total desta aldeia. Datada do século XVI, é pura elegância do alto dos seus dois arcos. Bastante inclinada, do seu topo obtém-se mais uma vista privilegiada. 






Lá em baixo fica a praia fluvial de Alvôco, diz-se que aquela que possui das águas mais limpas do país. A notar pela transparência das suas águas, não duvido. E fica então cumprido objectivo do tão desejado mergulho, ainda para mais sob uma ponte medieval. Cenário mais inspirador era difícil de encontrar. 



A subida de volta para Aldeia das Dez começa plana, nas margens do rio num vale junto à Moenda. A designação Moenda vem dos vários moinhos que por aqui existiam, alguns ainda em laboração pela região. Passamos por um rebanho e por uma tímida ribeira  devidamente acompanhada pelo tranquilo som da sua água a correr e o descanso termina. 





A partir daqui é sempre a subir. Menos de meia hora e eis que se avista formosa a igreja da nossa Aldeia miradouro.

(antes d)O Fogo

Os próximos 4 posts dedicam-se a passeios pelos concelhos de Oliveira do Hospital e de Arganil efectuados durante os meses de Junho e Setembro e foram escritos antes dos arrasadores fogos de 15 de Outubro. A paisagem de todos estes locais encontrava-se luxuriante, uma vegetação que desde 2005, data dos últimos grandes fogos na região, crescia livre e sem amarras. Não obstante, o tom das gentes que por aqui habitam era premonitório: não havia quem não temesse e não suspeitasse que o fogo estava para vir. 

sexta-feira, outubro 27, 2017

Tresminas, Ouro em Terras de Aguiar

Se não fosse conselho amigo atirado para o ar por descendente de vizinha de Tresminas não me ocorreria uma visita ao lugar. Mas há tiros certeiros e assim se fica a conhecer lugares inesperados deste nosso mundo. Sim, mundo, porque Tresminas espera vir a ser distinguida como Património da Humanidade pela Unesco. Por enquanto prepara-se para subir à categoria de Monumento Nacional, o que não é pouca coisa.


Situado na Serra da Padrela, no limite este do concelho de Vila Pouca de Aguiar, o Complexo Mineiro Romano de Tresminas é um testemunho histórico, cultural e paisagístico. 

Só chegar a Tresminas vindo das Pedras Salgadas já é todo um programa. Subimos por uma estrada cheia de curvas e mais curvas, cotovelos apertados, pinheiros que carregam intensamente a vegetação. Damos enfim com a estrada principal e um planalto se nos abre. Mas a ruralidade volta a aparecer com pouca demora e os pastos verdejantes com vacas e espigueiros fazem parte da paisagem.

A visita ao Complexo Mineiro começa na aldeia de Tresminas, no seu Centro Interpretativo, um espaço museológico instalado num edifício bem recuperado e adaptado para o efeito que foi a antiga casa paroquial. Aqui é nos dado o enquadramento histórico e arqueológico da área mineira que os romanos entenderam explorar durante os séculos I a III. Nessa essa época, que terá durado cerca de 250 anos, esta foi uma das mais importantes explorações de ouro de todo o Império Romano. A actividade mineira girava à volta da extracção do ouro, sim, mas também da prata e do chumbo.

Feita a introdução histórica, onde vemos alguns vídeos, maquetes, artefactos e ficamos a saber que o ouro aqui extraído terá servido exclusivamente para a cunhagem de moeda, continuamos a nossa visita - sempre acompanhados pela guia do Centro - e saímos para o exterior, uns dois quilómetros afastados da aldeia, para a visita às cortas e à galeria subterrânea.


O curioso desta exploração mineira romana é que era efectuada a céu aberto através do sistema de cortas. Explicando melhor, os vales com configuração de desfiladeiros que hoje vemos na paisagem mais não são do que alterações a essa mesma paisagem provocadas pelo Homem, precisamente cortes nos montes e nas rochas (os veios xistosos) efectuados pelos romanos através dos quais iam extraindo os minérios. 






Existem diversos pontos altos - miradouros - donde podemos observar de forma privilegiada estas cortas, ou seja, estes locais de exploração de minério. 
São elas a Corta de Covas (com 450 metros de comprimento, 120 de largura e 90 de altura), a Corta da Ribeirinha (com 370 metros de comprimento, 160 de largura e 100 de altura) e a Corta de Lagoinhos (com 60 metros de comprimento, 4 de largura e 12 de altura).


Esta exploração estava, porém, também associada a um sistema de galerias e poços subterrâneos que foram escavados na sequência de trabalhos arqueológicos e podem hoje ser visitados. Uma das galerias que visitamos é agora morada de um sem número de espécies de morcegos, pelo que aqui ao interesse pelo património histórico e arqueológico acresce ainda o interesse pela fauna e habitats naturais.


Esta é uma região de granito, mas aqui é o xisto que predomina. E a urze (incrível constatar as parecenças com a distante mas para mim familiar Serra do Açor). Lugar ainda para uma centenária “Silha de Urso”, uma fortaleza de pedra circular do século XVII que servia para proteger a produção do mel do ataque dos ursos, a qual se avista ao longe.


Nos poucos séculos que os romanos aqui estiveram a explorar o ouro trouxeram os seus técnicos especialistas e das aldeias vizinhas vinham os trabalhadores. 
A água possuía uma importância fulcral para que o sistema funcionasse. O rio Tinhela, que hoje em rápida visita não damos por ele, era decisivo para o abastecimento do complexo e os romanos construíram uma rede de canais e até uma barragem para o alimentar. 

Mas o ouro e o restante minério demoravam a ser transportados até ao centro do império e quando os romanos encontraram alternativas de extração mais próximas, nomeadamente no que é hoje a Roménia, abandonaram Tresminas.

Durante 18 séculos este património permaneceu escondido e desconhecido. Até que nos anos 50 do século passado se entendeu ir em busca de alternativas às minas de Jales (donde se extraiu ouro até aos anos 1990) e se deu com as vizinhas minas de Tresminas. Bem preservadas, protegidas pela natureza, a pouco e pouco foi-se percebendo que as explicações que os locais utilizavam para caracterizar o terreno não encontravam eco apenas em lendas e mitos.

Foi, porém, apenas na década de 1980 que as escavações arqueológicas em Tresminas se intensificaram graças a um casal de arqueólogos alemães.

Referir ainda que o topónimo Tresminas nada terá a ver com a ideia de “três minas”, antes derivará do nome medieval “Tresmires”. De qualquer forma, tudo por aqui é inspirador, remotamente inspirador, e convida a que se volte em busca de muito mais surpresas.