sexta-feira, janeiro 12, 2018

Segundo dia pelo Alentejo Central


O segundo dia deste passeio pelo Alentejo Central começou com uma curta visita por Reguengos. A sua igreja de Santo António destaca-se, imediatamente, pelo seu estilo neo-gótico, mas sobretudo por ser um estilo pouco comum de se encontrar no nosso país. O edifício da Câmara Municipal, branco com frisos em azul, e uma arcaria mimosa, já é mais fácil de identificar com a paisagem urbana alentejana.



De Reguengos saímos com destino à Amieira, ainda em terras do Alqueva. Nesta época do ano não nos cruzamos com praticamente ninguém nas estradas. A chegada ao Miradouro do Monte, uns poucos quilómetros antes da entrada na povoação da Amieira, mostra-nos algum descuido, ou até descaso, na conservação das infraestruturas - as madeiras das plataformas de observação estavam partidas. No resto, a vista para o lago é fantástica. 



A uns minutos da povoação da Amieira fica a Marina da Amieira, donde saem os cruzeiros turísticos pelo Alqueva. A paisagem continua em alta, mas aqui o cuidado é outro, mais em conformidade com ela.



De volta a Reguengos, esta é uma zona com algumas quintas - os montes alentejanos - e com cenas rurais.




As povoações de São Marcos do Campo e Campinho valem uma visita. Curioso observar que para além das obrigatórias igreja e jardim público de qualquer povoação portuguesa, por aqui há que lhes juntar a praça de touros. Seja singela ou mais imponente, ela não pode faltar numa terra alentejana. E curioso, também, recordar costumes que julgava pertencerem apenas a memórias distantes de aldeia, como observar em Campinho aquelas carrinhas tipo Hiace cuja porta traseira deixa ver para dentro uma autêntica loja, cheia de roupa e tecidos que chegam às populações mais remotas em venda directa.



A próxima passagem foi num dos principais centros oleiros do país, em São Pedro do Corval. São 32 olarias oficialmente reconhecidas, uma delícia para quem gosta desta arte. 


Aqui perto fica a Rocha dos Namorados, um menir no meio de campos de oliveiras que, diz-se, é capaz de medir o número de anos que cada um terá de casamento.




Do Corval a Terena é uma bonita jornada por uma estrada que faz jus ao dito “é sempre em frente, não tem nada que enganar”. A paisagem continua pontuada com campos cultivados de oliveiras, com as cores do Outono majestosas.


Terena é uma das mais bonitas povoações da região. Com castelo que se destaca na paisagem desde longe, o burgo que se foi desenvolvendo à sua porta é extremamente pitoresco. 





Lá estão as casas brancas com listas azuis e amarelas à vez. Para compor o cenário multimedia, de uma delas saiam de um rádio (gosto de pensar que talvez de um gira-discos) os versos de Florbela Espanca cantados na voz de Luís Represas, “E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma, e sangue, e vida em mim. E dizê-lo cantando a toda a gente!”. Que exactidão e que emoção poder ouvir e ser tomada por este sentimento precisamente aqui.





Do castelo, para além da vista privilegiada para o casario temos igualmente uma vista soberba, livre e imensa para a planície pejada de oliveiras.


Terena é ainda conhecida e reconhecida por ser o lugar da Ermida da Boa Nova, já fora da povoação. O seu exterior parece uma fortaleza apalaçada. Possui ameias, escudo de Portugal e uma torre sineira. O interior é igualmente surpreendente, quase todo preenchido com frescos ainda bem conservados.  Elemento peculiar e singular desta Ermida é a sua cobertura em forma de cruz grega - aspecto só visível através de fotografias aéreas -, único no nosso país. 

A história da construção desta Ermida vale a pena ser contada. Em 1340 o imperador de Marrocos invadiu a Península Ibérica para a reconquistar. D. Maria, filha de D. Afonso IV, era casada com Afonso XI, rei de Castela, e tinha vindo a Portugal pedir por socorro ao rei seu pai. Quando chegou perto de Terena, de regresso a Castela, recebeu a notícia por parte de um cavaleiro de que seu pai iria preparar um exército em auxílio às suas preces. O marroquino acabou por ser derrotado, naquela que ficou conhecida como a Batalha do Salado, e D. Maria resolveu mandar construir esta igreja, dando-lhe o nome “Boa Nova” como homenagem à notícia que lhe foi trazida precisamente naquele lugar.
Junto a esta ermida fica o Vale Sagrado de Lucefecit (do deus pré-romano Endovélico) e, no sentido contrário, a Albufeira de mesmo nome.

A hora de almoço coincidiu com à chegada ao Alandroal. O restaurante típico A Maria é uma escolha óbvia. Não se espere simpatia em demasia, insista-se na auto escolha dos pratos e invista-se nas entradas.




Alandroal possui… adivinhe-se? um castelo. E umas muralhas. E uma torre de menagem que hoje está transformada em torre sineira. E uma fonte (das Bicas): “Linda cidade de Elvas, Tem Badajoz defronte, Mais bonito é Landroal, Que tem seis bicas na fonte”. Tem ainda umas casas distintas com adornos em azulejo que faz pensar o Alandroal como uma povoação com alguma importância.


Não é preciso ser apaixonado de castelos e fortalezas para compensar um desvio até à Juromenha. Mesmo na fronteira com Espanha, com o Guadiana a separar os dois países, Juromenha é também conhecida como Nossa Senhora do Loreto. A sentinela do Guadiana foi uma antiga vila e praça-forte dos árabes. Era a então Chelmena. Foi conquistada aos mouros por D. Afonso Henriques e posteriormente doada à Ordem de Avis. A sua localização é privilegiada quer em termos estratégicos quer paisagísticos. Aqui se viveram episódios históricos na época das guerras da Restauração e Peninsular e aqui se celebraram casamentos reais. No princípio do século XX a sua população abandonou definitivamente o interior das muralhas, estabelecendo-se no arrabalde que constitui hoje a povoação. 






A Fortaleza da Juromenha é, pois, nos nosso dias um lugar abandonado. Desolado, até. Mas, depois, temos aquelas ruínas e aquela paisagem fenomenal que, em conjunto, fazem do espaço um pedaço encantado e misterioso, soberbo, enfim. 
Lugar de contrastes, no meio da imponência militar de outrora, mas ainda sentida, com o rio a correr sereno por debaixo dos seus baluartes, um rebanho passeia-se junto às muralhas, fazendo ecoar os seus “mé, mé” naquela imensa paisagem.


Depois da Juromenha queria passar por Vila Boim, mas evitar Elvas. Segui por Ciladas de São Romão e foi mais ou menos isso, uma cilada por estradas que se transformaram em caminhos rurais. Nada a apontar à paisagem, mas o resultado de caminhos que afinal pareceram não ter saída foi a obrigatoriedade de passar por Elvas. Oportunidade óptima para rever o seu sempre majestoso aqueduto.
Vila Boim é uma típica povoação alentejana, casario branco pontuado com cores várias, jardim público, igreja e praça de touros.

Para o final do dia ficou a visita a Borba.






Terra de mármore, vinhas e olivais, o burgo é interessante. Com alguns solares e palacetes, um pequeno núcleo muralhado com castelo, merecem uma visita mais atenta a Igreja das Servas e o Chafariz de Três Bicas (em mármore, diz a lenda que as três bicas correspondem cada uma a um dos estados civis: casados, solteiros e viúvos). 


A pernoita foi na vizinha Vila Viçosa, a uma curta distância por uma estrada que deixa ver a céu aberto as pedreiras donde se extrai o mármore que dá fama à região. Ainda farta do almoço, a escolha do breve jantar não pôde senão recair no Núcleo Sportinguista de Vila Viçosa, engalanado pela nossa vitória no Bessa. Final de dia perfeito.

sexta-feira, janeiro 05, 2018

Primeiro dia pelo Alentejo Central

3 dias de Inverno pelos caminhos mais a leste do Alentejo Central significam dias mais curtos de luz, mas não necessariamente de frio. 

Saindo de Lisboa em direcção a Monsaraz, primeira paragem, são pouco mais de 90 minutos de viagem de carro sempre por autoestrada ou estradas rectas, uma constante por esta região.


Contraindo, no entanto, a ideia de planície alentejana, à aproximação de Monsaraz vamos avistando esta aldeia histórica desde longe, num destaque absoluto instalada no alto de um outeiro, como se fosse a campeã que ocupa o lugar cimeiro de um pódio. E é como se o fosse, ou não estivesse Monsaraz sempre nas listas das aldeias mais bonitas do nosso país.


Antes de entrarmos por uma das quatro portas das muralhas que irão oferecer-nos este burgo medieval feito de casas brancas e xisto, um presente à sua altura é a vista fabulosa para a Barragem do Alqueva e planície alentejana que a rodeia. Pura serenidade. 


E porque o Alentejo não é só paisagem, à entrada da aldeia encontramos uma bonita escultura a celebrar o Cante Alentejano.


Já estamos convencidos da grandeza do lugar e ainda nem entrámos em Monsaraz.

Este era o lugar de um primitivo castro. Ocupado por visigodos e mouros, em 1252 D. Sancho II conquista-a para Portugal, com a ajuda dos Templários, tendo-lhe sido concedido foral poucos anos depois. As guerras com Castela, porém, seguiram-se, com frequentes cercos e pilhagens, nesta que é uma terra de fronteira. 

Sabendo, então, que este foi um lugar de muitos povos, e até de ocupação que remonta a tempos pré-históricos (como o testemunham os diversos monumentos megalíticos presentes nas redondezas), adentramos a aldeia pela Porta de Alcoba, em arco, e após uma breve subida logo se nos abre um grande largo, onde encontramos a igreja matriz, o pelourinho, o edifício do antigo Hospital da Misericórdia e os Paços da Audiência. 




As ruas em pedra, duas mais longas e inúmeras outras que lhe são perpendiculares, todas elas estreitas, são em xisto. 


O casario, branco. 


A pedra teima em subir pelas casas acima. 




Os pormenores são deliciosos, como portas, janelas, bancos, chaminés ou uma árvore que parece concorrer com o telhado. 


Pela altura do Natal a aldeia transforma-se num presépio, com figuras em tamanho real espalhadas um pouco por todo o lado.



A Porta da Vila, virada para o Arrabalde (onde se situa a Igreja de São João Baptista, o mais antigo monumento de Monsaraz), é a principal entrada, com a sua torre sineira alva. 




Daqui saímos para logo entrarmos novamente e percorrermos a outra rua longa que irá dar à outra ponta da aldeia, onde fica o Castelo. A caminho, mais vistas fantásticas e inspiradoras se nos abrem, o Guadiana ao fundo e a planície lá em baixo pingada de oliveiras.






Do Castelo alcançam-se vistas ainda maiores, Guadiana e Barragem do Alqueva de um lado, aldeia de Monsaraz a nossos pés do outro. Daqui conseguimos perceber definitivamente a forma da aldeia e o lugar estratégico e encantado que é.
No século XVIII a população começou a abandonar Monsaraz, sobretudo pela escassez de água. As guerras da Restauração estavam terminadas e a gente de intra-muralhas e do Arrabalde optou por se instalar em Reguengos, na planície, a cerca de 16 km de distância, atraídos pelas vinhas e pelas colheitas de trigo, a par da água. 

Monsaraz viu-se abandonada e decaiu. Hoje está totalmente recuperada e bem viva, fazendo parecer distante a sentença de Vergílio Ferreira, na Aparição,  “Monsaraz-terra, esqueleto de velhice e de ruína, com crianças solitárias que riem como sobre uma sepultura”.

Já fora de Monsaraz, um bom local para almoçar é a Herdade de São Lourenço do Barrocal.

Para a tarde, um passeio pelas margens do Alqueva, com paragem obrigatória na nova Aldeia da Luz

O Alqueva é hoje o maior lago artificial da Europa. Possui 250 km2, 1200 km de margem, e entre 226 a 427 ilhas (este número varia consoante a cota da água, entre 130 e 152 metros). O projecto de construção da Barragem implicou a submersão da antiga aldeia da Luz em 2002 e sua correspondente relocalização, dando origem à referida nova aldeia da Luz, a cerca de 3 km da anterior. 




Reerguida de raíz, observamos a suas casas de planta baixa, corridas, de cores variadas, obedecendo à arquitectura típica das povoações alentejanas. Embora não seja uma réplica original da anterior aldeia, foram respeitadas a posição relativa aos arruamentos e as relações de vizinhança. Foram construídas 212 habitações, edifícios públicos, equipamentos colectivos vários, espaços verdes. 


Mais delicado, até a construção do novo cemitério implicou a manutenção da memória da antiga aldeia, transladando-se todos corpos do cemitério da velha Luz.
A nova Igreja de Nossa Senhora da Luz é, essa sim, uma réplica fiel da que encontrávamos na antiga aldeia. Hoje fica no fundo da povoação, quase à beira das águas do Alqueva e junto ao Museu da Luz, ambos com vista imaginária para a entretanto submersa velha aldeia.




O Museu da Luz é etnograficamente e arquitectonicamente imperdível. Na sua visita ficamos a compreender todo o processo de transferência da aldeia, interpretando a paisagem quer na sua vertente natural quer cultural, sempre com referências à vida na região e na antiga aldeia.








A sua arquitectura é belíssima e perfeitamente integrada no ambiente tranquilo onde se insere. O edifício está parcialmente enterrado, deixando para lá dele a planície e a água, elementos aqui recorrentes. Em xisto no seu exterior, do interior do museu são rasgadas janelas que deixam observar o grande lago mesmo ali à beira e o lugar exacto da antiga aldeia.

Da Luz partimos rumo à Estrela, também situada junto às águas do Alqueva. O Alqueva estende-se por 20 concelhos e o seu projecto, que já vinha desde os anos 50, pretendeu trazer novas áreas de agricultura de regadio, garantir o abastecimento público e industrial, a produção de energia eléctrica e a criação de novas valências turísticas. 

Este é um habitat natural e rodando pelas estradas ao redor do Lago vemos desfilar rebanhos de ovelhas e cabras, porcos, vacas, para além de aves que infelizmente não sei identificar, como a águia pesqueira, a águia real e o abutre preto.




A aldeia da Estrela, em si, não tem grandes argumentos. São antes as margens do Alqueva que por aqui que nos preenchem os sentimentos, cheias tranquilidade exacerbada pelos reflexos que a paisagem natural e umas pequenas casinhas vão deixando na água. 

Retornando a Monsaraz, impõe-se uma paragem em Mourão
Situado na fronteira com Espanha, esta povoação é conhecida pelas suas características chaminés. 






E também por ser a terra de Marco Paulo. Mas, para mim, aqui não houve dois amores em disputa. O seu castelo, ou melhor, a localização do seu castelo rouba o coração de qualquer um, não deixando espaço para mais nada. 


Erguido num lugar mais elevado em relação ao casario, o Castelo da Lousa, por referência à antiga Villa da Lousa, é um excelente exemplo de arquitectura militar. A igreja matriz de Mourão fica por aqui e está conservada. As muralhas do castelo e algumas torres e ameias também restam de pé, mas muito não se tem, dando as ruínas um ambiente de mistério ao sítio. 






Caminhar sobre a sua muralha é um ponto altíssimo da visita ao castelo e, uma vez mais, o Guadiana transformado em Alqueva oferece-nos paisagens soberbas, bem como a planície alentejana.



Com a noite já a cair prematuramente sobre a tarde neste dia de Dezembro, restou tempo apenas para uma visita ao Cromeleque do Xerez, junto ao Convento da Orada, no sopé de Monsaraz. 


Foi o único monumento megalítico a ser relocalizado por força da construção da barragem do Alqueva, mas também já teria sido artificialmente composto no século XX. Supõe-se que um grande menir de 4 metros tivesse existido, sendo que o que hoje vemos é um menir ao centro de configuração fálica, de 5,60 de altura, rodeado por fragmentos menores. A paisagem em redor é, uma vez mais superior, e o fim do dia, com a luz natural a fugir e as luzes artificiais a surgir em sua substituição, dá ao sítio um encanto singular.

Para pernoitar, a escolha recaiu em Reguengos de Monsaraz, na Casa Monsaraz, e o jantar no restaurante Barril. Ambas escolhas a repetir, com a maciez daquelas bochechas de porco preto ainda na memória.