terça-feira, junho 26, 2007

Fado no Eléctrico

Domingo foi dia de Fado no Eléctrico 28.
O programa, incluído nas Festas de Lisboa, consiste em percorrer de eléctrico o trajecto mais emblemático da cidade ao som da música nacional, interpretada por diversos fadistas (cinco) e dois músicos, que se encontram espalhados pelo transporte.
Enquanto percorremos as colinas e observamos a cidade, somos guiados pelo fado, que alimenta a nossa alma. Assim foi quando se cantou:

No castelo ponho o cotovelo
Em Alfama descanso o olhar
E assim desfaço o novelo
De azul e mar

À Ribeira encosto a cabeça
A almofada da cama do Tejo
Com lençóis bordados à pressa
Na cambraia de um beijo.

Lisboa menina e moça, menina
Da luz que os meus olhos vêem, tão pura
Teus seios sãos as colinas, varina
Pregão que me traz à porta ternura

Cidade a ponto-luz bordada
Toalha à beira-mar estendida
Lisboa menina e moça e amada
Cidade amor da minha vida

No Terreiro eu passo por ti
Mas na Graça eu vejo-te nua
Quando um pombo te olha sorri
És mulher da rua.

E no bairro mais alto do sonho
Ponho o fado que sei inventar
A aguardente de vinho e medronho
Que me faz cantar.

Lisboa do amor deitada
Cidade por minhas mãos despida
Lisboa menina e moça e amada
Cidade mulher da minha vida.
Ontem a razão de se cantar o fado, ao contrário do que a música diz,

Há para o sofrimento
Um bom remédio afinal
É cantar e num momento
Ninguém se lembra do mal
Não custa mesmo nada
Tentem fazer como eu
Uma guitarra afinada
Um voz bem timbrada
E tudo esqueceu

refrão:
Quando a tristeza me invade
Canto o fado
Se me atormenta a saudade
Canto o fado
Haja ciúme á vontade
Canto o fado
Por uma esperança perdida
Não passe na vida
Por um mau bocado
Se acaso a sorte o esqueceu
É fazer como eu
Deixe andar cante o fado
Não é que não me interesse
Por quem a dor não resiste
Mas a gente que parece
Que gosta até de andar triste
Tem sempre um ar fatal
A que ninguém o obriga
E nesta vida afinal
Vendo bem nada vale
Mais do que uma cantiga
não era para espantar os males, mas antes para celebrar a alma da cidade.
Viva Lisboa!

quarta-feira, junho 20, 2007

Mina de São Domingos

No Centro de Artes de Sines estava patente, em meados de Abril, uma exposição denominada "Minas de São Domingos – Olhares sobre um lugar", reunindo trabalhos de fotografia, pintura e som de António Cunha, Helena Lousinha e Jean-Pierre dos Santos, mostrando-nos, assim, os olhares destes artistas sobre todo o complexo da Mina.
Esta exposição fez-me recordar a minha única visita à Mina, faz agora praticamente 2 anos.
Devo confessar desde já que a vontade de andar em pleno Verão alentejano num passeio exploratório pela região em busca de umas ruínas de uma antiga mina não era muita. Provavelmente nunca terei estado num local onde o sol fosse tão abrasivo e um simples passo na terra fosse tão maçador e fatigante (estariam seguramente uns 44 graus). Mas a energia e convicção da mana é sempre motivo bastante para me por a caminho.
A acrescer à influência da mana, deve também referir-se que o meu gosto pelo património industrial já vinha a crescer, muito também por força do trabalho desempenhado pelos meus colegas historiadores, arquitectos e arqueólogos do meu antigo local de trabalho, onde os dias eram dedicados à protecção, salvaguarda e valorização do nosso património cultural. Hoje, posso afirmar, olho para as Minas de São Domingos, para a Central Tejo e para os Gasómetros da Matinha com o mesmo interesse e deslumbre com que olho para as Ruínas de Conímbriga, para o Pavilhão Atlântico ou para o Mosteiro dos Jerónimos, para referir apenas alguns exemplos

Dito isto, a Mina de São Domingos, fica situada no concelho de Mértola, no Alentejo profundo, e encontra-se em vias de classificação como imóvel de interesse público pelo Ministério da Cultura.
Alguns achados arqueológicos na zona da mina permitem-nos calcular que a actividade mineira tenha já sido parte da vida dos romanos neste local, exploração esta que terão abandonado cerca de 397 a.c.
O fim do abandono das minas deu-se apenas em 1854, data do seu achamento (para utilizar a palavra politicamente correcta recentemente escolhida a propósito do descobrimento do Brasil), após prospecções pela região na sequência do decreto que determinou o fim do monopólio régio sobre a exploração mineira.
No entanto, o início da sua actividade apenas ocorreu em 1857.
A exploração de minério, sobretudo cobre (estima-se que tenham sido retirados cerca de 25 milhões de toneladas de cobre durante a vida activa da mina), acontecia não só a nível subterrâneo mas também a céu aberto. Para o efeito foi construída uma rede de galerias e túneis que entravam pela rocha e que tinham cerca de 2 m de largura por 4 m de altura (e, mais tarde, 4m por 6m); para o labor a céu aberto foram efectuadas escavações até aos 62m, utilizando-se uma linha-férrea particular de cerca de 18km para a extracção (ligando a mina ao Pomarão – porto do Guadiana). Existiam 27 poços verticais e 7 açudes que utilizavam a água da Ribeira de Chanca.

Para assegurar o bom funcionamento deste empreendimento mineiro (o primeiro no país) e fazer face às necessidades básicas dos seus trabalhadores (a sua chegada à região fez subir o número de habitantes de poucas dezenas para quase 10000 ao longo das novas aldeias e vilas operárias que foram criadas no novo complexo industrial) foram criadas diversas infra-estruturas: edifícios e maquinaria para a exploração mineira (armazéns, oficinas, laboratórios, escritórios, caminhos de ferro) e casas para alojar não só os operários como também os técnicos superiores e directores da mina.
Ou seja, para além dos bairros operários, compostos por casas em banda com apenas o piso térreo, havia igualmente lugar para as casas não tão modestas, com relvados à inglesa, para as chefias.
A par das habitações foram ainda criadas infra-estruturas comunitárias como o quartel militar e de polícia, hospital, farmácia, estação de correio e telegrafo, mercado, biblioteca, igreja e cemitério, enfim, tudo o que uma verdadeira povoação tem.

A actividade mineira foi sofrendo diversas crises ao longo dos anos, e nem a exploração a céu aberto nem a posterior produção de enxofre em altos fornos, destinado principalmente à CUF no Barreiro, foram suficientes para evitar o declínio e encerramento da Mina de São Domingos em 1965.

Hoje, após o saque indiscriminado da mina, o termo mais exacto para a descrever é mesmo o de ruína. Esta encontra-se completamente ao abandono, a não ser que excluamos as inúmeras cegonhas que teimam em construir e guardar os seus ninhos no cimo dos poços e das chaminés que outrora permitiam a marcha viva da mina.

Os edifícios descascados, paredes incompletas sem tecto, fazem-nos crer estarmos perante uma cidade arrasada por uma guerra. Mas não. O desleixo, incúria e falta de vontade de nos legar o património de uma indústria que foi toda uma vida de uma região é que nos deixou este cenário violento.


As casas dos antigos operários, todas em fila e tipicamente caiadas em branco, apesar de denotarem ainda alguma vida, deixam-nos a certeza de que esta será apenas um resquício do que terá sido a azáfama das famílias que aqui se estabeleceram um dia na esperança de um futuro melhor.


Melhor sorte teve o palacete que antes era ocupado pela sede da empresa britânica que administrava as minas. Foi transformado numa unidade hoteleira – a Estalagem São Domingos, um 5 estrelas pleno de conforto no Alentejo profundo, cujo projecto arquitectónico, quer exterior quer interior, tem sido objecto de elogios. Para quem não está interessado ou não pode pernoitar na Estalagem, vale a pena, ainda assim, um passeio pela praia fluvial à sua frente, a da Tapada Grande, considerada pela DECO como uma das melhores do país.


O cenário mais impressionante fica, no entanto, por conta da lagoa artificialmente criada para que fosse realizada a decantação das escorrências da já desactivada mina. A cor da sua água é irreal, tal é a sua acidez. São tons azulados sobrepostos a laranjas, misturados com o avermelhado da terra.


Esta água é tão ácida tão ácida que é utilizada para lá depositar os animais mortos, evitando assim que estes fiquem num estado de putrefacção a céu aberto.
Se imaginarmos tudo o que de mau e perigoso estas águas poderão comportar, a imagem de abandono e desolação da Mina aumenta ainda mais.
Mas a contradição está precisamente aqui. No saber que há um tempo que não volta mais, esgotados que estão os recursos naturais; na dificuldade em não deixar deteriorar irreversivelmente um espaço que há não muitos anos possuía vitalidade; na tentativa até agora falhada de preservar a memória de algo que fez parte do quotidiano do nosso país.
Face a todos estes aspectos negativos, estar perante aquele complexo em ruína permite-nos, ainda assim, sentir ainda presente o dia a dia dos milhares que por ali passaram as suas duras vidas e sentir que somos também nós parte na história. Em resumo, uma experiência deveras enriquecedora.

quarta-feira, junho 13, 2007

Centro de Artes de Sines

O Centro de Artes de Sines, a par do Centro das Artes Casa das Mudas, na Calheta, é provavelmente um dos edifícios que mais tem dado que falar no que diz respeito à sua arquitectura. Em comum, para além dos elogios e dos prémios que vêm recebendo (e de ambos terem sido seleccionados para o prémio de arquitectura contemporânea “Mies van der Rohe”) têm ainda o propósito de fazer chegar a cultura a lugares que haviam estado afastados desse circuito.
Da Casa das Mudas da Calheta, do arquitecto Paulo David, já aqui se falou em post anterior.
Passemos, então, para o Centro de Artes de Sines, obra dos irmãos Aires Mateus.



Inaugurado no Verão de 2005, os arquitectos tiveram a intenção de que o edifício fizesse parte da cidade e funcionasse como porta do seu centro histórico.
O local onde foi implantado expressa não só o início do caminho medieval que abre a cidade à baia (através da Rua Cândido dos Reis) como também a via que delimita a cidade histórica da cidade moderna (Rua Marquês de Pombal). Aliás, a rua que divide os dois corpos do Centro de Artes (a Rua Cândido dos Reis) foi integrada com tal sucesso no projecto que pode dizer-se que, hoje, não o poderíamos conceber de outra forma.



A plena integração destas duas épocas da cidade é melhor apreendida por um breve passeio pelas imediações do Centro das Artes, ora vizinho de prédios residenciais comuns a qualquer cidade portuguesa (parte nova) e mais adiante velhos edifícios nem sempre bem conservados (parte velha). Igualmente, a diferença de vivências da cidade encontra-se bem vincada na espécie de vila, nas traseiras do Centro de Artes, com casas de um piso, pitorescamente decoradas na sua entrada com vasos de plantas e tanques de lavar a roupa.



Com este Centro das Artes de Sines pretendeu-se conjugar várias valências num só espaço, como o sejam o acolhimento do centro de exposições, biblioteca, auditório e arquivo municipal, como forma de atrair mais pessoas, quer em número como em diversidade de interesses. Quando por lá passei, em Abril, éramos as únicas no espaço dedicado ao centro de exposições (o facto de ser dia de semana servirá como desculpa?) mas a biblioteca estava, efectivamente, bem composta, quer por jovens quer menos jovens, muito por força da disponibilidade de jornais e revistas.






A arquitectura do edifício, em si, faz-nos recordar um pouco o Centro Cultural de Belém, pela cor dos materiais usados no revestimento do seu exterior. Como o referido anteriormente, ao nível do solo o equipamento é formado por dois corpos atravessados pela Rua Cândido dos Reis, cujos espaços estão interligados e acabam por formar um só corpo ao nível do sub-solo.
Existiu a preocupação, por parte dos seus arquitectos, de permitir que o interior do edifício fosse iluminado naturalmente, o que é conseguido através da colocação de vidros nas fachadas. Curiosa a forma adoptada de introdução destes vidros que nos vai possibilitando desde o interior sentir o pulsar do dia a dia de quem lá fora vai atravessando a artéria que corta os dois corpos.
Tudo muito bonito, sim senhor, espaçoso e permitindo uma boa orientação no que ao centro de exposições diz respeito. Todavia, não pode deixar de referir-se o balde (literal) de água fria que foi verificar que quando chove (era o caso) a água escorre desde a porta principal até cá abaixo, aninhando-se junto às obras em exposição, não restando outra solução às zelosas funcionárias que não lançar mão do tradicional balde (o tal) para fazer face ao seu mais cómodo armazenamento. Erro de projecto? Erro de execução? Enfim… se até o Calatrava tem processos em cima pelas constantes escorregadelas dos cidadãos que teimam em atravessar a sua ponte em Bilbao em dias de chuva…

terça-feira, junho 12, 2007

Refeição Completa

Que mais pedir de um pedaço de terra banhado pelo mais belo que o Atlântico tem para nos oferecer, pleno de paisagens de beleza asfixiante, falésias escarpadas, declives verdejantes, casas pitorescamente empoleiradas; natureza – sobretudo – mas também cultura; um turismo para todos os gostos, seja de passeios de barco, automóvel, carros de cesto ou, muito simplesmente, a pé; caminhadas na cidade, junto ao mar ou na montanha?
Será pedir muito que a sua oferta gastronómica esteja à altura? Poderíamos até abusar da sorte se o pedíssemos, mas não é necessário – ela é real.
Alguns exemplos:
Iniciemos o pequeno-almoço acompanhando os costumeiros chá, café ou leite com fruta em abundância, com a banana da madeira à cabeça.
Ao almoço, se nos encontrarmos na zona velha do Funchal, perto do Mercado dos Lavradores, será uma perda inestimável não parar no Jaquet. O casal de irmãos que nos recebe só cozinha e serve peixe, mas isso não quer dizer que seja restrito aos apreciadores do dito. Nas paredes vêem-se inúmeras mensagens e recados deixados pelos anteriores comensais e num deles pode ler-se qualquer coisa do género “não gostava de peixe mas depois desta refeição mudei de ideias”. Simpáticas balelas, pensou esta escriba que se recusa a comer qualquer peixe quando a tal não é obrigada pela sua mãe. Mas como não existia mesmo outra saída para aguentar o resto da tarde sem ser de barriga vazia, um mito caiu: o da impossibilidade de apreciar peixe, ainda por cima espada e logo frito. Uma inesquecível delícia a que não é alheio o esmerado tempero.
A meio da tarde, e para adoçar a boca, não calha nada mal um rebuçado de funcho. Para o lanche, esse, uma boa opção será o típico bolo de mel (digo será porque, infelizmente, a minha esquisitice não se fica pelo peixe).
Ao jantar é difícil escapar à carne, designadamente, às famosas espetadas em pau de louro no tão elogiado “As Vides” no Estreito de Câmara de Lobos. No entanto, antes de nos lançarmos numas centenas de gramas da melhor e mais saborosa carne do país, uns pedaços de bolo do caco ajudam a entreter a (curta) espera.
E já que estamos para estes lados, nada melhor do que acabar a noite num dos bares de Câmara de Lobos, como fazem os funchalenses, tomando um copo de poncho (pequenino, uma vez que há que voltar a conduzir para o Funchal).
E com este pequeno enunciado de um dia gastronomicamente perfeito cometo um sem número de injustiças: deixar de fora diversos pontos onde uma refeição será igualmente especial e inesquecível. Abro, no entanto, espaço para mais dois deles – o Jango, também na cidade velha do Funchal, e o restaurante da Fajã dos Padres.

quarta-feira, junho 06, 2007

Ponta São Lourenço

A tão desejada e há muitos anos ansiada volta à Madeira estava envolta em muita expectativa para descobrir uma Madeira quase totalmente desconhecida, plena de paisagens fantásticas e exuberantes.
Essas expectativas não saíram frustradas.
No entanto, o tempo nublado e a chuva frustraram-nos a maior parte das fotografias. Dá para imaginar o que é que isso significa para mim, que quase não consigo conceber uma viagem sem um constante disparar da máquina fotográfica?

Mas como não há bem que sempre dure, também não há mal que nunca acabe.
Vai daí, chegadas à Ponta de São Lourenço obtivemos, enfim, um cenário quase em grande que pôde ser deixado em foto para mais tarde recordar.



Para estes lados da Ponta de São Lourenço pensámos fazer uma das nossas sonhadas caminhadas mas no turismo desaconselharam-nos por alguma perigosidade em parte do troço. Não tivemos, assim, oportunidade de o verificar in loco.
Situada no concelho do Caniçal, esta é uma península onde se encontra o ponto mais oriental da ilha da Madeira, 9 km de comprimento e 2 km de largura, já incluídos os seus dois ilhéus, o Ilhéu da Cevada e o Ilhéu da Ponta de São Lourenço. Daqui se avistam nitidamente quer as ilhas Desertas quer a ilha do Porto Santo e se realiza o quão perto ficam da principal ilha do arquipélago.
Ao contrário da paisagem mais comum no resto da ilha, por aqui não existe a mesma vegetação luxuriante e a cor escura e algo avermelhada da terra não nos deixa dúvidas de que estamos numa ilha efectivamente de origem vulcânica.
Ainda que do lado da belíssima enseada de Baia de Abra a terra não esteja exageradamente distante em altura do mar, as falésias do outro lado, essas, e à semelhança dos outros cantos da ilha, continuam enormes e assustadoramente belas.