sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Agil

Aproveitando que os últimos dois posts foram sobre sketches, sigo no mesmo tema com umas linhas dedicadas à única desenhadora que conheço - e logo uma das melhores. Sorte minha. Sorte nossa. É confirmar em 
e em
Ana Gil (que está presente no livro "Urban Sketchers em Lisboa - desenhando a cidade") sai por aí e desenha qualquer coisa que desperte as suas emoções, seja uma boa refeição, um bom concerto, uma boa paisagem; ou podem até nem ser bons, mas serão merecedores de uns traços num caderno. E o resultado é sempre de bom para cima.
O traço é distinto e a obra gráfica é acompanhada por palavras sempre certeiras - um verso, um pensamento, um desabafo -, inspiração buscada muitas vezes em citações de grandes autores. Um exemplo desta parceira de desenho e literatura:
Sobre a comida, " (...) uma operação que se realiza duas ou três vezes por dia e cujo fim é alimentar a vida merece certamente todos os nossos cuidados. " - Margherite Yourcenar, em Memórias de Adriano.


Este tema da comida é um dos mais presentes na sua obra. Tal como o Gin - sobre o qual tem obra recente publicada ("Vamos Beber um Gin?", edição da Casa das Letras e Gin Lovers). A atenção que é posta em cada detalhe não deixa dúvidas - Ana ou acaba por comer a comida fria ou vê os amigos a ficarem com a sua parte. 
Mais seguro será dedicar-se à observação demorada das gentes e paisagens. Assim nós continuamos a ganhar e Ana não sai a perder.
Como aqui


e aqui



sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Urban Sketchers em Lisboa - Desenhando a Cidade


Na mesma linha do "Diários de Viagem 2 - Desenhadores Viajantes" ia o antecedente "Urban Sketchers em Lisboa - desenhando a cidade", publicado pelos Urban Sketchers em 2012: o desenho num diário gráfico é "um antídoto perfeito contra o stress e, provavelmente, a melhor maneira de tirar o máximo partido da experiência de viajar", escreve Gabi Campanario na sua Introdução.

Este livro foi publicado na sequência do Simpósio Internacional sobre desenho urbano que trouxe a Lisboa mais de 200 desenhadores de todas as partes do mundo. Um sketchcrawl, uma maratona de desenho que colocou estes artistas pelas praças e ruas a desenharem a nossa cidade em diferentes exercícios enquadrados em vários workshops.

Assim, tendo como guião diversos princípios e ideias - como a de que o desenho manual é uma forma de estimular o pensamento criativo, a de que existe uma nostalgia pelo autêntico e pelo feito à mão, de que tal aumenta a espontaneidade, de que o desenho in situ aumenta a capacidade do designer para ver e pensar criativamente e, sobretudo, de que converter uma paisagem em linhas, tons e texturas permite transmitir, de maneiras que a fotografia não possibilita, a essência visual de uma cena e a nossa reacção a ela - esses workshops passaram, entre outros, pelos seguintes locais:

No Cais do Sodré procurou-se praticar o registo gráfico dos movimentos da agitação de pessoas e veículos. 

No Largo de São Carlos o jogo de planos. 

No Largo de São Paulo exercícios de observação e acção de desenhar, como desenhar o transitório, escolher e desenhar um tema. 


Na Rua da Bica exploraram-se as suas características declivosas que causam um contraste provocado pelas sucessivas alterações do horizonte, bem como variações de luz e contrastes cromáticos entre o amarelo do ascensor, o azul do Tejo e as cores neutras da arquitectura. Principalmente, o contraste da rua inclinada e da cor amarela do elevador.

No Adamastor fez-se valer o local - miradouro - privilegiado para se observar o rio, o casario, as gentes que para lá confluem (turistas e autóctones) e Almada, o começo do Sul do país.


No Largo Luís de Camões procurou-se apreender o espírito do lugar e fixar os detalhes no desenho.

Em resumo, e como conclusão, este processo de desenho é excelente para se desvendar um local, vê-lo com outros olhos, descobrir nele pormenores antes nunca detectados. Possibilita, assim, uma redescoberta de locais que não nos eram de todo estranhos. Mas, mais importante do que o desenho em si é aquilo que envolve a sua produção - a atenção posta no acto de desenhar com as nossas percepções e impressões visuais. A final, com o mesmo universo e motivações semelhantes - o desenho - as sensações que cada um expressa para o papel são diversas. 
Como resultado, eis que temos um livro que nos dá a ver Lisboa como nunca a tínhamos visto.

terça-feira, fevereiro 17, 2015

Diários de Viagem 2 - Desenhadores Viajantes

Diz Urumo, na introdução aos seus desenhos da Viagem a Mundaka (País Basco, Espanha): "Rabindranath Tagore dizia que "quanto mais intensa for a imaginação, menos imaginários são os resultados"".

O livro Diários de Viagem 2 - Desenhadores Viajantes, editado por Eduardo Salavisa no final de 2014, mostra-nos uma outra forma de relatos de viagem e sua documentação gráfica. Em vez da mais usual (banal até para alguns dos participantes nesta obra) câmara fotográfica como companheira de passeio, vêm os cadernos. Em vez do apressado clique ao monumento por todos reconhecido, fica a pacata contemplação, de preferência sentado, de qualquer coisa que rodeie estes desenhadores viajantes - até pode ser o mesmíssimo monumento por todos reconhecido.
Quase todos os autores que aqui deixaram o seu testemunho, que antecede os seus desenhos, confluem numa mesma ideia: a de liberdade de expressão, a qual permite uma maior atenção aos detalhes, uma maior aprendizagem, enfim, "uma nova personalidade a cada viagem", como refere o citado Urumo.

Com prefácio de Alexandra Lucas Coelho, desenhos de Siza Vieira da Viagem ao Machu Picchu e de Miquel Barceló da Viagem ao Sudão, tudo o que vier a mais parece ganho. E é. Todos os contributos são especiais, diferentes e acrescentam sempre algo.


Obviamente, por razões que tocam à nostalgia de viagens passadas, não pude deixar de me encantar desalmadamente com os desenhos de Eduardo Salavisa da sua Viagem à Patagónia porque, precisamente, me recordaram a minha, em especial o tempo passado em Puerto Montt e nas vizinhas ilhas de Chiloé com as suas igrejas tão típicas. 


Ao mesmo tempo, segui atentamente o relato de António José Coelho aos Himalaias e quase que junto com os seus companheiros me preocupei com a sua súbita apendicite enquanto sentia a mudança do seu traço à medida que o oxigênio em desmesuradas altitudes ia rareando. 


Já a viagem de Luis Simões à Mongólia transportou-me para terras distantes e a experiência que o desenhador aí teve e nos relata e dá a ver - seguir os dias e noites no deserto com a companhia de tendas que parecem não ser desafio para o clima esmagador - é uma daquelas que nos dá  vontade de largar tudo e fazer como o Luís - percorrer os próximos 5 anos pelos 5 continentes.

Talvez seja esta a viagem presente neste livro mais próxima de ir ao encontro de experiências diferentes, tão caro ao blablabla que começa a ficar tão estafado como o é a tentativa de distinguir turistas de viajantes. Muitos destes autores reclamam a arte de viajar desenhando e não fotografando como mais próxima do verdadeiro sentimento e de se atingir uma mais plena comunhão e conhecimento do outro (para além de ser uma excelente maneira de se ocupar o tempo, nomeadamente em aeroportos e comboios, e entabular conversa com o outro pela curiosidade que desperta ver alguém desenhar). Sim, é certo que para se elaborar um destes desenhos há que permitir-se ter outro tempo e outra atenção aos detalhes e que, por vezes, o mais interessante não está na Torre Eiffel, mas nas pessoas que por lá caminham ou pelos pássaros que a sobrevoam. Dizer, no entanto, que Paris não está presente nestes Diários de Viagem, mas estão Londres e Nova Iorque e com elas a cabine telefónica vermelha e o Big Ben, por um lado, e o hambúrguer e o Empire State Building, por outro. Mas estão também Marrocos, Mauritânia, Angola e Moçambique - África em força - para além de Vietname, Camboja e Alentejo, entre muitas outras.


Ou seja, há espaço para tudo, há tempo para tudo, tudo é válido. O que interessa é passear e captar detalhes que outros não viram, ou porque não observaram da mesma forma ou porque não imaginaram com tanta intensidade. 

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Roma Moderna e "Futurista"

A Roma moderna e "futurista", que não conhecia, passou a estar nas minhas eleitas.
Esclarecendo: da Roma moderna dou dois exemplos, o Eur e o Foro Italico, ambos projectos de arquitectura fascista; da Roma "futurista" outros dois exemplos, o Maxxi de Zaha Hadid e o Parco della Musica de Renzo Piano.


Eur é o acrónimo de Exposição Universal de Roma. Esta exposição era para ter sido realizada em 1942, mas a Guerra cancelou-a. Para nós, cujo presente hoje vivemos, ficou esta zona periférica da cidade onde foi experimentada a execução de um plano de expansão urbanística que revelasse a arquitectura fascista promovida por Benito Mussolini.
À criação desta nova centralidade - para onde existe metro à distância de uma não muito longa viagem desde o centro de Roma - estão ligados os sonhos de grandeza do novo império que estava a ser criado pelo Duce. A grandiosidade e a megalomania fascistas pretendiam recriar a Roma Antiga, uma expansão da "Terceira Roma" no sentido do mar, de Ostia, com grandes avenidas e uma arquitectura colossal, geométrica e simétrica. Uma arquitectura racional e funcional, moderna para os seus tempos (daí este género de arquitectura que emergiu nos anos 20 do século passado ser conhecido como "racionalismo" - a arte e a arquitectura sob controlo directo do estado para melhor servir os seus propósitos). Ou seja, pretendia-se através de toda uma estética expressar a ideologia fascista. 
Houve na época um amplo debate em Itália onde noções de modernidade e romanidade estiveram em discussão. A ideia era a criação de uma Roma monumental do século XX, em que os cidadãos não poderiam permanecer apenas contemplativos, limitando-se a explorar a sua herança cultural. Havia que criar uma nova herança viva a par da antiga, uma nova arte, a arte dos nossos tempos: a arte fascista.
A justaposição do romano antigo e do romano moderno iria levar a uma recíproca validação para os monumentos e criar a grandeza típica da cidade antiga, tão necessária à cidade fascista, sem que houvesse um corte com a tradição - esta é que se transformaria de forma a assumir novos aspectos que levariam a esta nova expressão.



O maior exemplo e símbolo do Eur é o Palazzo della Civiltà di Lavoro, o Coliseu Quadrado. Monumental, grandioso, imponente. Uma alvura que faz crer na perfeição. Do meu ponto de vista, as formas são elegantes e é uma acertada recriação do maior símbolo de Roma, o Coliseu do século I, o "legítimo".
O espaço do Eur, cuja construção se foi prolongando pelos anos 50 e 60 e chegou a acolher provas dos Jogos Olímpicos de Roma de 1960, é feito de avenidas grandes, construção de habitação em altura e muitos edifícios que são hoje ocupados por serviços públicos e museus. Acredito que o bairro tenha vida. E digo isto porque o visitei na manhã do primeiro dia do ano, feriado, portanto, e via-se gente a correr nas suas ruas, gente nos cafés abertos, gente junto ao parque e lago onde fica o Palazzo delle Sport (complexo multifunções que acolhe desde eventos desportivos, concertos até congressos).




Aqui e ali vêem-se detalhes evocativos da Roma Antiga, seja nos edifícios (o Coliseu Quadrado remete para o Coliseu, o Palazzo dei Congressi para o Panteão, a igreja de Santi Pietro e Paolo para a catedral de São Pedro no Vaticano), seja nos mosaicos, relevos, ou até no obelisco / coluna dedicado a Marconi que fica no centro do Eur. 
Todo um sonho de expansão.

Outro exemplo da Roma Moderna é o Foro Italico. Antes de aqui ter estado já os seus campos de ténis me tinham dado umas quantas alegrias: seis finais e quatro vitórias para Gabriela Sabatini no final dos anos 80 e princípios dos 90. Mas o Foro Italico é muito mais do que o mega complexo de ténis. Anteriormente designado por Foro Mussolini, fica à beira do Tibre, na margem contrária ao bairro Flaminio, lugar do Maxxi e do Parco della Musica, daí que seja uma boa combinação para ocupar um dia inteiro com esta Roma menos batida pelos turistas. A sua construção teve início na década de 20 do século passado e buscou inspiração nos fóruns imperiais da Roma Antiga. Foi idealizado por Enrico Del Debbio e é hoje um complexo de infra-estruturas desportivas que incluem ainda o Estádio Olímpico (casa dos clubes de futebol AS Roma e Lazio) e o Estádio da Natação. Os Jogos Olímpicos de 1960 realizaram-se em grande parte aqui.
A felicidade com o Foro Italico voltou ao conhecer dois dos seus maiores exemplos que revelam na perfeição a ideologia fascista subjacente a esta arquitetura e arte. 



Um deles, o Palazzo delle Terme (hoje Auditório da Rai), com a sua belíssima piscina decorada com mosaicos de homens másculos e perfeitos. Deve ser um prazer e uma inspiração aqui mergulhar e dar umas braçadas.



O outro, o Estádio dei Marmi, cujo culto do corpo é também o tema. A toda a volta deste pequeno estádio encontramos esculturas de homens-deuses em pleno acto de exercício físico, representando os vários desportos ou tão somente a ideologia do homens forte, raça pura, raça superior. Ideologia à parte e sem culpa consegue-se admirar profundamente estas verdadeiras obras de arte.




Percorrendo a avenida do Estádio Olímpico, com o piso adornado de mosaicos desportivos e lembranças ao Duce, e atravessando o rio encontramos sem muita demora o Maxxi de Zaha Hadid, provavelmente a máxima expressão da Roma "futurista".




Este projecto, do qual só parece obter-se uma real impressão através de vista aérea, é uma loucura de linhas curvas contorcidas implantadas num terreno que outrora havia sido ocupado por uma fábrica. Zaha Hadid é uma arquitecta espectáculo que tenta evitar os ângulos rectos em benefício das diagonais. Aqui, adapta o seu edifício aos restantes edifícios históricos que são hoje uma cafeteria e pequenas salas multifunções, todos reunidos num mesmo espaço com um pátio comum.
Concluído em 2010, o Museu Nacional para as Artes do Século XXI pretende ser, assim, um conjunto de edifícios acessíveis para todos - está numa área urbana - dedicado à criatividade contemporânea, nomeadamente nos domínios das artes e arquitectura.


O interior, como não podia deixar de ser, é igualmente um constante de paredes curvas e escadas suspensas, sempre expostos à máxima luz natural. 

A uma curta caminhada a pé desde o Maxxi, cerca de 10 minutos em direcção a um extenso pedaço verde da cidade, encontramos o Parco della Musica Auditorium, de Renzo Piano. Construído entre os anos 1994 e 2002, esta é uma cidade dedicada à música. Durante a sua construção foram descobertas as ruínas de uma quinta do século IV e estas acabaram por ficar integradas no novo espaço. 




São três auditórios em forma de concha mais um anfiteatro ao ar livre no centro cujo palco, na época do ano em que o visitei, estava transformado numa pista de gelo. 
Os auditórios conchas são assim caixas de música, cujas cores e materiais remetem para elementos tradicionais romanos, como as cúpulas da paisagem de Roma ou os laranjas dos seus edifícios. Cada um deles tem a função de acolher, um, concertos sinfónicos, outro, ballet e música contemporânea, outro ainda, óperas, música barroca e teatro.


Uma palavra final para um graffiti na Via Prenestina. Por Roma encontram-se demasiados rabiscos sem outra função que não sujar. Mas este, do brasileiro Kobra, é uma verdadeira obra de arte, uma homenagem a Malala e uma vontade de união de todas as religiões, atitude acertada nesta Roma do século XXI que já não se expande mas acolhe quem a ela chega.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Roma Clássica, entre o Renascimento e o Barroco

O império romano, apesar de ter tido ao seu comando diversos líderes fantásticos e visionários, teve também loucos mais preocupados com orgias e incendiários (casos históricos de Caligula e Nero) e homens banais que foram levando a um desgaste. Quando Constantino criou Constantinopla, no século IV, como uma nova capital esse foi um forte pretexto para o já esperado declínio do império romano do ocidente.
Roma era já cristã e os papas viriam a ter domínio sobre a cidade.
Mas, para memória futura, parece haver um lapso de importância da cidade até ao renascimento (século XV) e ao barroco (século XVII) emergirem e darem uma nova cara à cidade - apaixonante até aos dias de hoje.
Com efeito, estas épocas produziram uma profunda influência na cidade e muito do que hoje vemos e admiramos é um seu legado. Michelangelo deixou a sua marca um pouco por toda a cidade e a par do barroco de Bernini e Borromini ou Caravaggio são hoje os maiores produtos de ajuntamentos de turistas a nível global. Não obstante, é impossível deixar de visitar pela primeira vez ou voltar a ver estes lugares icónicos de Roma:

(A igreja de Trinitad dei Monti, no topo das Escadaria da Praça de Espanha - que Rilke via como cascatas -, e a Fontana di Trevi estavam em restauro e, logo, incapacitadas de serem admiradas em parte ou no todo)




Piazza Navona - na Roma antiga este era o espaço do antigo Estádio de Domiciano. Hoje a marca forte são as suas três fontes. Ao centro a Fonte dos Quatro Rios (representando os maiores até então conhecidos: Ganges, Nilo, Danúbio e Prata) donde sai o obelisco. Obra de Bernini, fica mesmo à porta da igreja de Sant' Agnese in Agone, obra de Borromini. Diz-se que Bernini tapou o rosto de uma das suas estátuas para que esta não visse, em sinal de desprezo, a igreja do seu rival (as outras estátuas estão todas de rosto virado para outros lados). É com certeza falsidade, mas se não é vero é bem trovato - mais um dos mitos que nos faz enredar ainda mais em Roma. As outras fontes da Piazza Navona são a Fonte do Mouro, com o Deus do mar ao centro, e a Fonte de Neptuno, com este a arpoar o polvo. À volta da Piazza Navona ficam das ruas e praças mais encantadoras da cidade. Muito a descobrir, portanto.

Praça do Capitólio, cujo pavimento de linhas geométricas é obra de Miguel Ângelo (sem foto).

Boca da Verdade, só para assistir à fila interminável de indivíduos ávidos de confirmar o óbvio: mesmo que sejamos mentirosos a boca não morde (sem foto).

(Boca por boca e fila por fila, mais vale caminhar um pouco até Aventino)




Aventino, com as vistas fabulosas da cidade e com uma tranquilidade inspiradora. A Via di Santa Sabina concentra um sem número de igrejas (a dos Dominicanos é incrível) e miradouros. Destaque para a fechadura do edifício da Ordem de Malta, com vista directa para a Basílica de São Pedro antecedida de uma avenida rodeada de bosques - lindíssimo postal.


Obelisco de Santa Maria sopra Minerva, em 1667 Bernini criou esta delicada e exótica peça artística, colocando um obelisco no dorso de elefante em mármore.



Ponte de Santo Angêlo, com Mausoléu de Adriano ao fundo e acesso à Praça de São Pedro. A Bernini foi dada a missão de criar uma passagem simbólica para o Vaticano. A ponte já existia, mas o artista adornou-a com dez estátuas de anjos que transportam os símbolos da paixão de Cristo. Desta passadeira sobre o Tibre obtém-se vistas fantásticas de Roma, em especial das silhuetas da Basílica de São Pedro e outras igrejas ao final do dia.




Vaticano, mesmo que não se seja crente, não se pode deixar de ocupar um dia inteiro por aqui. A Praça de São Pedro, porta de entrada, foi desenhada por Bernini que procurou dar a imagem dos braços da igreja abertos para abraçar toda a humanidade. Dentro da Basílica de São Pedro, para cuja reconstrução no século XVI foram convidados os grandes mestres e génios da época, destaque para algumas obras de arte que se evidenciam no meio de muitas outras: o Baldaquino, de Bernini, e a Pieta e a cúpula, ambas de Miguel Ângelo. Desta última, do alto dos seus 136 metros de altura, obtém-se, provavelmente, as melhores vistas de toda a cidade de Roma. 
E, depois, ainda faltam os Museus do Vaticano. A entrada é só uma, mas as salas são tantas que é certeira a designação no plural. A sensação que aqui se tem é quase a mesma da de um hipermercado a um fim de semana, sempre cheio, com as pessoas a quererem chegar aos produtos mais famosos, ou seja, à Capela Sistina, de Miguel Ângelo. Bom para quem quer ver a Pinacoteca - fica na ala contrária e parece que a multidão não dá por ela. Destaque ainda para as imperdíveis Salas de Rafael e Galeria das Cartas Geográficas.




Quanto a palácios e vilas do renascimento, a eleita é a Vila d' Este, no Tivoli. As famílias romanas, nessa época, construíram luxuosas residências, com jardins e edifícios com espaço suficiente para acolherem as suas coleções de arte. A Vila d' Este é um excelente exemplo, possuindo uns jardins fabulosos onde a água é o elemento central. A colecção de fontes e cascatas é inesquecível e o cenário que as envolve um excelente coadjuvante.

Roma Antiga



Roma é uma das cidades continuamente habitadas mais antigas do mundo.
A sua fundação está envolta em mitos, como é desejável a qualquer boa e intemporal história.
Simplificando, diz-se que no tempo dos etruscos dois gémeos - Romulo e Remo - viram-se alimentados por uma loba e depois de, mais tarde, lutarem entre si, o primeiro fundaria Roma, no no ano de 753 a.C., no monte do Palatino.
A cultura romana foi sempre sincrética, juntando etruscos com diversos outros povos italianos. Ainda antes do império romano ter sido criado, vigorava então uma república, os romanos foram estendendo o seu território de tal forma que em 270 a.C. Roma controlava toda a Península italiana. 
É muito interessante verificar como muitas das expressões que hoje utilizamos provém da época ainda anterior à formação do império romano. Alguns exemplos: "Vitória de Pirro", "Erro Crasso", "Passar o Rubicão".
A propósito desta última, com Júlio César começou o fim da república romana no século I a.C. Vivia-se, então, uma série de guerras civis e Júlio César ganharia o poder após o momento decisivo em que passou o Rio Rubicão e marchou triunfalmente até Roma em 49 a.C.
No entanto, seria o seu sucessor, César Augusto (Otaviano), o primeiro imperador de Roma.
Uma nova era surgiu e o império avançaria em todos os aspectos e com Trajano, em 116, atingiria a sua máxima expansão, indo até à Escócia, Arábia e Mesopotâmia.
A fonte de expressões, todavia, não terminou. Basta lembrar em Juvenal e no seu pão e circo.
Um dos aspectos mais reconhecidos hoje quando se refere ao Império Romano é o dos combates entre os gladiadores, sendo o Coliseu, inaugurado no ano 80, o símbolo maior de Roma. Este hábito, porém, provinha já dos etruscos que o utilizaram mais como rituais, em que as vítimas eram dadas como sacrifícios para os deuses. Os romanos seguiram esta prática, mas evoluíram-na para um espectáculo e entretenimento.


A paisagem romana é ainda hoje muito marcada por vestígios desta época - muitos deles em excelentes condições de serem totalmente percepcionados cerca de 2000 mais tarde.
Alguns exemplos, para além do já citado Coliseu:

Circo Máximo (vindo já do tempo dos etruscos), recinto enorme, com capacidade para 300000 pessoas, onde se efectuaram corridas entre o século IV a.C. e o século VI (sem foto).




Fórum, o coração da cidade, seja em matéria administrativa, legal, económica ou religiosa. A vista do Monte do Capitólio (o monte mais sagrado da Roma antiga) ou do Monte do Palatino (onde a cidade terá sido fundada) é abarcadora e esclarecedora. Mas só andando lá em baixo, por entre as ruínas, conseguimos imaginar os seus templos, basílicas e arcos do triunfo.



Panteão, o edifício da Roma antiga melhor conservado, com a sua sempre admirada cúpula, uma obra prima da engenharia do tempo de Adriano, século II. O orifício da cúpula dá-nos a única luz interior. Inspirador.


Termas de Caracalla, a reverência romana pela água (bem expressa nas inúmeras fontes um pouco por toda a cidade). Nas termas cultivava-se o espírito e o corpo, em rituais de purificação e na prática do desporto. As de Caracalla foram inauguradas no ano de 216 e eram conhecidas pela sua rica decoração, com abundantes mosaicos e esculturas. Hoje é um lugar grandioso para se visitar.



Vila Adriana, mandada construir por Adriano em Tivoli, a cerca de 30 kms de Roma. Este conjunto imenso de pavilhões, jardins e lagos é o resultado das viagens que o imperador fez ao longo da sua vida e da paixão que mostrava pelas culturas e arquitecturas que ia encontrando. Dificilmente haverá um local mais ideal para passar o dia a ler Marguerite Yourcenar e as suas "Memórias de Adriano".