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quarta-feira, agosto 16, 2017

Taiwan - 3 filmes

Reduzir a cinematografia de Taiwan a três filmes não é tarefa fácil.
Porém, utilizando o critério "relações" como temática comum deixo a indicação destas três obras, de três dos mais consagrados autores de Taiwan, realizadas em três décadas diferentes. 


"Tempo para viver e tempo para morrer", de Hou Hsiao-Hsien, de 1985, filme autobiográfico, sobre a memória, sem pressa de ser contado. História comum a tantos taiwaneses que partiram da sua China continental e estabeleceram-se numa outra terra, sempre com o retorno no pensamento.


"Comer Beber Homem Mulher", de Ang Lee, de 1994, sobre as coisas mais importantes da vida: comer, beber, sexo, homens e mulheres. História de um chef viúvo e suas três filhas, relacionamentos entre eles e entre estes e outros. E comida, muita comida.


"Yi Yi", de Edward Yang, de 2000. Várias histórias na história, este filme sobre a família, o trabalho, o dever e o estatuto, mostra-se por vezes desencantado, por vezes cândido.

terça-feira, agosto 15, 2017

Comida em Taiwan

A comida não é um mero detalhe em Taiwan. 
Considerado o melhor destino do mundo no que respeita a comida, a cultura que rola à volta deste item está por todo o lado. 
Não se pense, porém, que para comer bem e muito é necessário ir a um restaurante e gastar um bom dinheiro. Não. Repito, a comida está por todo o lado. Só em Taipé existem cerca de 20 ruas dedicadas à comida, com pequenas bancas com todo o género de alimentos. Os mercados nocturnos são, por isso, imperdíveis. Experimentei o de Shilin (que não recomendo - é melhor para outro tipo de compras) e o de Raohe (que decreto obrigatório).


Um dos ícones alimentares taiwaneses é o tofu mal cheiroso e basta caminhar pelas ruas com os sentidos bem apurados para confirmar a justeza do seu nome. Já a justeza do seu paladar... convenhamos. O odor é de tal forma arrepiante, chegando a ser insuportável, que não houve coragem para provar esta iguaria. 


O prato mais famoso de Taiwan é a sopa de massa de bife. O sabor do caldo é apuradíssimo e impossível não ficar fã. No entanto, a dupla colher / pauzinhos que nos fornecem para degustar esta refeição nem sempre funciona na perfeição em conjunto e a queda de um destes instrumentos na sopa traz como consequência nódoas severas na roupa que tem de durar para as várias semanas de viagem (ainda me pergunto porquê este azar logo no primeiro dia). 


Os dumplings são igualmente omnipresentes e há os para todos os gostos e coloridos. 


A comida taiwanesa possui diversas influências, as mais evidentes vindas do Japão e da China, como será o caso dos pratos anteriores.
Estas "Anna egg tart" antes de aqui chegarem provavelmente andaram por Hong Kong, Macau, Lisboa, Belém. 



Mas a comida de Taiwan tem igualmente raizes locais junto dos povos autóctones. Wulai será dos melhores sítios para se provar a comida aborígene. Este prato, do restaurante Taiya Popo, estava na lista dos mais pedidos, percebi-o pelas estrelinhas que acompanhavam os caracteres da sua identificação. Tem um ar da terra, natural. E sabia bem.


Para beber, muita fruta. Para comer, muito sumo.


O Bubble Tea é quase uma obsessão nacional. É um chá de leite com bolinhas de tapioca. Doce, muito doce. Mas acaba por ter diversas variantes de sabor e por poder ser tomado frio ou quente. O que não varia é o facto de ser um super alimento.

Quanto à comida nos mercados de rua, uma vez que ela está exposta o melhor mesmo é não nos limitarmos a apontar o olhar e experimentarmo-la sem receios.




segunda-feira, agosto 14, 2017

Parque Nacional Taroko

O Taroko é onde a Formosa é mais formosa.

É possível fazer uma (longa) viagem de um dia - ida e volta - desde Taipé de comboio até Xinsheng, às portas do Parque, ou até Hualien, um pouco mais distante. O comboio segue desde Taipé para norte para depois curvar junto com a ilha e acompanhar a sua costa tomando a direcção do sul. São cerca de três horas de comboio (depende da sua velocidade) até quase ao centro da ilha. A viagem é belíssima, de um lado o mar pacífico, do outro a montanha intrépida.

Quando chegamos ao Taroko as expectativas são elevadas e os níveis de ansiedade quase tão altos como as suas montanhas. Não houve desilusões, as expectativas cumpriram-se. Mas vejo agora que as fotos não revelam um ínfima parte da beleza do lugar.

O que é então este Taroko?

Uma criação da natureza, é um acidente geológico ocorrido desde tempos que a memória já perdeu e que levou a que a erosão cortasse este pedaço de terra e fosse deixando sedimentos. Como resultado temos montanhas cortadas por vales e desfiladeiros. Penhascos e ravinas aparecem logo ali. Os ditos sedimentos são as incontáveis pedras e pedregulhos que se atravessam no caminho do rio, forçando-o até a mudar o seu curso em algumas partes. Ganhamos nós com estas curvas. Fossem todos os acidentes assim.

Lugar habitado há milénios, apenas há cerca de 150 anos foi construída uma estrada para o local, rompendo o isolamento das populações aborígenes, os habitantes originais da ilha. Hoje o Parque é um lugar hiper-popular para caminhadas, de tal forma que apesar de os comboios para aqui serem frequentes andarem sempre cheios. É conveniente marcar com antecedência, mas existem inúmeras alternativas para além do comboio directo de Taipé até Xinsheng ou Hualien, como o comboio local - incluindo lugares em pé (??? 3 horas em pé???) e o bilhete combinado autocarro-comboio. 

No sistema montanhoso de Taroko existem 27 picos com mais de 3000 metros de altitude. O rio Liwu é uma das estrelas da companhia e vem descendo da sua nascente para lá dos 3000 metros até desaguar no Pacífico. A outra estrela é o Taroko Gorge, o tal desfiladeiro que a natureza criou. São 18 quilómetros de um vale estreito de paredes de mármore. 


A Swallow Grotto, uma caminhada de cerca de vinte minutos por entre uma espécie de túnel, é talvez o melhor lugar para se perceber os contornos - literalmente - do cenário do Taroko. Aqui observamos em detalhe as paredes de mármore de linhas rugosas deste desfiladeiro. É tão estreito que quase que podemos chegar com os nossos braços de um lado ao outro. Fossemos albatrozes e certamente o conseguiríamos, mas ali é território de andorinhas que, infelizmente, não vi. O rio corre estreito lá em baixo enquanto as enormes pedras se tentam acomodar no seu leito.


Mas não é só de paredes de mármore de que é feito o Taroko. O Taroko é sobretudo celebrado pela sua vegetação luxuriante. A paisagem é fabulosa. 


Uma boa ideia é seguir no autocarro do Parque até à Ponte Cimu (a maior ambição que um visitante de um dia pode ter) e desde aí voltar para trás até à entrada do Parque ou à estação de comboios.


A Ponte Cimu é um dos lugares mais fotografados do Parque, o lugar da ponte vermelha com o leão branco e o Pavilhão Orquídea a coroar a paisagem. Aqui começamos por dar largas à nossa imaginação quando nos sugerem que as rochas parecem uma rã agachada. Seja. A verdade é que aquela água do rio, tão azul, tão rebelde, procurando evitar as rochas, já seria suficiente para dar largas à nossa imaginação. 


Alguns trilhos que partem daqui perto estavam encerrados, como o "Túnel das Nove Voltas", e outros necessitam de uma permissão prévia especial, como o trilho de Zhuilu, o qual percorre parte da antiga estrada de montanha construída pelos japoneses durante o período colonial com o propósito de controlar os povos aborígenes que por ali habitavam - e habitam. Este vai ter à pitoresca ponte suspensa de Zhuilu, instalada junto à Swallow Grotto.


Até aqui fiz o caminho de autocarro. 
A parvoíce veio depois. Como faltava uma hora e meia para passar o próximo autocarro decidi ir caminhando até à entrada do Parque, onde tem início o trilho Shakadang. Nada a apontar à paisagem, o cenário continuava dramático, a montanha continuava a deslumbrar, o verde continua a minha cor favorita, o rio continuava a dar vontade de mergulhar. O problema estava precisamente aqui, continuava tudo na mesma e eu cheia de calor. Senão maior, a parte final do trajecto tinha mais trânsito - caminhava pela estrada - e estava em obras, quer de barragem quer de novas vias. Quase a bater as duas horas de caminhada e a uns três quilómetros do fim da jornada passou um carro familiar que me ofereceu uma boleia - aceitei sem pestanejar e cheguei praticamente ao mesmo tempo do que chegaria se tivesse vindo de autocarro. Senti que compensou. 


O trilho Shakadang começa com vista para o rio Liwu. Shakadang é o nome do rio que desagua no Liwu e o nome de um dos trilhos mais fáceis e agradáveis no Taroko. Sempre plano, com excepção da elegante escadaria do início, o caminho é feito junto do rio de água de cristal que vai serpenteando pela montanha alta. As pedras no caminho da água a correr parecem um jardim zen, mas apesar de aqui não haver sugestão tudo é tão perfeito que facilmente cremos encontrar aqui a iluminação. Até o coaxar das rãs ajuda e nunca o dito "fecha os olhos e escuta" fez tanto sentido. As paredes de mármore características do Taroko continuam a marcar presença neste trilho, mas encanta igualmente ver como a natureza e o tempo foram moldando a montanha fazendo dela abrigos naturais.


Um dia no Taroko é um dia cansativo e intenso, com muito caminho para palmilhar, mas inteiramente recompensador.

sábado, agosto 12, 2017

Wulai e Tamsui, breves visitas

De seguida, duas propostas de passeio de meio dia desde Taipé.
Um para sul, rumo à selva montanhosa de Wulai, outro para norte rumo à vila piscatória colonial de Tamsui.

A manhã é boa para se passar em Wulai, a cerca de 40 minutos de autocarro desde a estação do MTR de Xindian. 
Sobe-se a bom subir e curva-se a bom curvar, mas nem por isso se deixa de ver uma série de ciclistas no caminho. 
Pensei, então, que o clima de montanha devia ser mais fresco aqui, apesar da pouca distância de Taipé. Qual quê. A humidade continua brutal e nem a muita sombra oferecida pela intensa vegetação nos salva. 
Salva a paisagem, no entanto. 
O relevo é extremamente acidentado e as montanhas carregadas de verde erguem-se abruptamente mesmo ali ao nosso lado. 


A vila de Wulai, em si, não tem nada de especial. Terra de águas termais, possui alguns hotéis dedicados ao ramo, uma rua carregada de comércio e comida de rua. Não devemos perder a comida aborígene. A tribo Atayal, a terceira maior da ilha, tem aqui o seu território.



Mas as pessoas vêm a Wulai sobretudo pela natureza. É uma zona ideal para pedalar, caminhar e até nadar. Tem inúmeros trilhos, embora aquele que costuma ligar a zona do rio Jia Jiu Liao Xi ao centro de Wulai estivesse na altura da minha visita encerrado, pelo que tive de fazer este percurso de autocarro. Este rio é estreito e cheio de obstáculos para vencer. Aqui costumam fazer uma modalidade chamada river tracing em que os artistas, devidamente artilhados de fatos e capacetes - protecção essencial -, lá vão galgando o território. 




Já junto ao centro de Wulai, a uma caminhada de cerca de 30 minutos enquanto o mini-comboio não retoma as suas viagens, fica uma das grandes atracções da zona: uma cascata altíssima. Não é uma enchurrada de água que corre desde lá do cimo, não nos podemos banhar nas águas do rio de água verde lá no fundo (e que falta fazia um mergulho naquela hora), mas o cenário é fantástico com aquela parede montanhosa impressionante, um pedaço de selva na qual nos vemos imersos.

De volta a Taipé depois do almoço aborígene em Wulai, percorre-se toda a linha vermelha do MTR até chegarmos ao final da sua ala norte. A viagem é agradável até porque grande parte é efectuada à superfície. Aliás, até a espera entre as estações é agradável, uma vez que à chegada dos comboios começa a tocar uma espécie de música celestial, talvez para nos distrair da necessidade de ganhar posição para a entrada na carruagem. 
E rapidamente damos por nós em Tamsui, um dos pontos mais a norte de toda a ilha de Taiwan. 
Tamsui, literalmente "água fresca", possui uma posição estratégica a norte da ilha no exacto local onde o rio Danshui desagua no Pacífico. Historicamente foi um porto defensivo, onde os espanhóis construíram em 1629 o Forte San Domingo (mais tarde controlado, à vez, por holandeses, chineses, ingleses e japoneses), e uma cidade de comércio, com o rio Danshui a permitir a navegabilidade ilha adentro. Acabou por perder relevância para Taipé, mas a chegada da ligação directa do MTR nos anos 90 faz com que hoje as duas quase se confundam. No fundo, Tamsui acaba por funcionar como uma extensão, um contínuo da capital.  



A sua localização não só é estratégica como é bonita. De um lado vê-se o Oceano sem fim, do outro os contornos do centro de Taipé ao longe. À frente de Tamsui, mais uma montanha para não nos esquecermos que Taiwan é isto, mar e montanha, amigos inseparáveis.
Tamsui é uma cidade moderna, cheia de movimento, e os fáceis acessos levam magotes para lá. Nas margens do rio, naquele fim de tarde de um sábado soalheiro parecia que tinha sido montado um arraial, tal era o clima de festa. 





Mas Tamsui consegue manter preservados alguns elementos de uma outra era. Do século XIX um nome surge destacado: George Mackay, um missionário canadiano pioneiro na introdução do ensino e da medicina ocidentais na ilha e que aquela que viria a dar origem à primeira universidade de Taiwan, o "Oxford College". Ao redor desta universidade encontramos algumas mansões desse século é um bungallow com uma atmosfera especial e uma vista fantástica.
Hoje Tamsui é sobretudo uma vila piscatória.



sexta-feira, agosto 11, 2017

Templos de Taipé


Diz-se que Taiwan possui cerca de 15000 templos registados. 
Esses templos podem surgir onde menos se espera, no alto de uma montanha ou no topo de uma grande avenida, mas o mais provável é que surja num edifício discreto de uma rua escondida. 


Nas residências particulares abundam os altares - e isso vê-se ao caminhar pelas suas portas abertas à rua - pelo que não é necessário ir ao templo queimar o incenso em honra dos seus deuses favoritos. E nem é preciso perder a novela favorita.


A religião representa um senso comum de cultura e de identidade para muitos povos. O que é curioso verificar é que à medida que a economia taiwanesa cresceu a religião seguiu os seus passos. 31% são seguidores da religião popular, 24% budistas, 15% taoistas e 25% não possuem religião. Assiste-se, no entanto, a uma combinação de elementos das várias religiões e a fé é vivida de uma forma individual e directa para com a divindade ou espírito morto do agrado de cada um. Daí a vivência próxima da religião popular, embora muitos se declarem ainda assim budistas ou taoistas. As principais divindades são Buda e Matsu, mas existem outros deuses, quase sempre coloridos. Deuses com poderes supranaturais que guardam as entradas dos templos ou das residências para afastar os maus espíritos. 




Uma visita a um templo de Taipé não é necessariamente sinónimo de um momento de recolhimento. 


O templo de Longshan, por exemplo, dedicado ao deus Guanyin, da Misericórdia, e a outros deuses, é um dos mais concorridos da capital de Taiwan. As pessoas são aos magotes. Para lá carregam os pauzinhos de incenso e doses industriais de comida para agradar os deuses. 


Muito movimento, cor, vibração. Energia. Bom para observar a reacção destes crentes tão diferentes do comedimento a que estamos habituados na igreja católica que nos é próxima. E bom para observar a mancha de fumo do incenso que se esvai rumo às figuras que caracterizam os pormenores arquitectónicos dos telhados destes templos.



O templo de Bao'an é, tal como o de Longshan, uma criação dos chineses vindos do Fujian no século XVIII. O único templo de Taiwan classificado pela Unesco, no Bao'an, dedicado ao deus Baosheng Dadi, consegue-se rezar com mais pacatez. 





Mas, sobretudo, consegue-se apreciar com mais sossego os detalhes dos elementos decorativos dos seus telhados. Normalmente estes possuem vários níveis, curvas, relevos, suportes e figuras. Podem ser pessoas, dragões, pagodes, quase sempre hiper coloridos, como se de mosaicos se tratassem. Os dragões simbolizam a protecção contra o fogo em estruturas de madeira (estes templos aqui referidos, tanto o de Longshan como o de Bao'an, foram já restaurados por diversas ocasiões ao longo dos tempos).


Ao lado do templo Bao'an fica o ainda mais pacato e harmonioso templo de Confúcio.