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quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Toilet


Ver um filme de Bollywood é toda uma experiência. Positiva ou negativa, aí dependerá do gosto de cada um. 
Como fã da Índia, proponho-me a vê-los mais por questões culturais do que estéticas.  
Fixe-se este filme: Toilet: Ek Prem Katha (Toilet: Uma História de Amor). Tem cor, ritmo, música, melodrama e “humor” como todos em Bollywood. 
Mas tem algo de novo: uma preocupação social e uma mensagem e vontade de mudar consciências. Recorde-se que o cinema na Índia, em especial Bollywood, é um meio poderoso de comunicação, lançando modas, unindo comunidades e famílias. 
Como o título do filme indica, a temática gira à volta do problema das casas de banho na Índia ou, melhor dizendo, da ausência delas. Estima-se que cerca de 60% dos indianos não tenham acesso a casa de banho. Mas o que parece apenas um problema de higiene e salubridade - e é-o também, com péssimo saneamento, contaminação de águas, propagação de doenças e muitos mais problemas públicos - traz consequências para a segurança e privacidade sobretudo das mulheres, sujeitas a assaltos e violações quando vão fazer as suas necessidades em espaços abertos. E problemas de saúde para ambos, homens e mulheres, por aguentarem as suas necessidades por tantas horas, aguardando que a noite caia para poder fazer dos campos a sua casa de banho.
Este filme retrata a história de uma mulher que se casa, por amor, mas que se decide divorciar logo em seguida porque a casa do seu marido não possui casa de banho (estando ela habituada a esta facilidade em casa de seus pais).
Aí se percebe que o ponto não é apenas a casa de banho, a mulher, a defecação. Mais do que tudo, é uma questão cultural. 
Muitos associam ainda a ideia de defecação a sujidade no sentido de impureza. A este propósito recorde-se a estratificação social indiana baseada nas castas. Assim, possuir uma casa de banho dentro de casa, onde se cozinha, reza e lava, é sujo e conspurcável.
Ou seja, há que mudar consciências e neste filme vê-se a luta de um casal num constante desafio às superstições e mentalidades que estão em todo um povo, começando pela própria aldeia e até família.
Não é um grande filme, mas é um entretenimento típico de Bollywood que nos oferece uma visão de um aspecto cultural sério do dia-a-dia da Índia que a nós, ocidentais, nos escapa em todos os sentidos. 
Enriquecedor, pois então.

quarta-feira, agosto 16, 2017

Taiwan - 3 filmes

Reduzir a cinematografia de Taiwan a três filmes não é tarefa fácil.
Porém, utilizando o critério "relações" como temática comum deixo a indicação destas três obras, de três dos mais consagrados autores de Taiwan, realizadas em três décadas diferentes. 


"Tempo para viver e tempo para morrer", de Hou Hsiao-Hsien, de 1985, filme autobiográfico, sobre a memória, sem pressa de ser contado. História comum a tantos taiwaneses que partiram da sua China continental e estabeleceram-se numa outra terra, sempre com o retorno no pensamento.


"Comer Beber Homem Mulher", de Ang Lee, de 1994, sobre as coisas mais importantes da vida: comer, beber, sexo, homens e mulheres. História de um chef viúvo e suas três filhas, relacionamentos entre eles e entre estes e outros. E comida, muita comida.


"Yi Yi", de Edward Yang, de 2000. Várias histórias na história, este filme sobre a família, o trabalho, o dever e o estatuto, mostra-se por vezes desencantado, por vezes cândido.

domingo, julho 30, 2017

Um filme - Chungking Express

Wong Kar-wai é um cineasta admirado um pouco por todo o mundo, embora seja visível uma clara diferenciação da sua obra antes do ano de 2000 e depois desse ano.
“In The Mood for Love” (Disponível para Amar), precisamente do ano 2000, é um filme melancólico  e de uma elegância superior, mas que marca um corte com os filmes anteriores de WKW.


Chungking Express (Chung Hing sam lam), de 1994, por exemplo, é um filme frenético, quase caótico. O ritmo aqui é intenso, por contraposição ao tempo que vai passando lento ao som do Quizás espanhol de Nat King Cole e dos jogos de fumo de cigarro em Disponível para Amar.
A música, elemento essencial no cinema de WKW, tem um papel marcante na (ainda) maior vivacidade que acrescenta a Chungking Express. A sua cena inicial, em slow-motion mas com a câmara sempre irrequieta, é acompanhada com um som que lá encaixa na perfeição: imperdível. Filmado em Hong Kong, cidade onde o realizador cresceu, este é um dos filmes indispensáveis quando se pensa na dupla cinema - Hong Kong. Hong Kong é mesmo uma personagem principal e o ritmo louco da cidade é transposto para a tela de uma forma magistral. Filmado maioritariamente à noite, são nos mostradas duas histórias separadas dentro do mesmo filme. Dois polícias de turno, cada um deles a viver o fim de uma relação, logo se deixam encantar por mulheres também elas loucas e frenéticas como a cidade. Uma misteriosa, sempre de óculos escuros, outra esfuziante, ouvindo música em altos berros. As duas em fuga, reforçando a ideia de constante movimento de Chungking Express. 
Filmado três anos antes da prevista transição de Hong Kong do Reino Unido para a China, em 1997, WKW poderia ter pensado em oferecer este presente aos britânicos ou aos chineses. Mas não, ofereceu-o a todos nós.

Um realizador - Jia Zhang-ke

Jia Zhang-ke é um dos mais estimulantes e aclamados realizadores da actualidade. Nascido em 1970, em Fenyang, província de Shanxi, China, a sua filmografia não é fácil de qualificar. Documentário ou ficção? O que é certo, porém, é que todos os seus filmes partem da realidade actual para se focarem numa análise critica da China contemporânea, interligando histórias acerca do passado e do futuro, velho e novo, tempo e espaço e mobilidade e imobilidade. São estas contradições e as tensões entre elas que nos mostram a China de hoje pelos olhos de Jia Zhang-ke, uma China distante, desconhecida e nem sempre compreendida pelo mundo ocidental. No entanto, Jia Zhang-ke é mais admirado e respeitado no ocidente do que na própria China, onde também nem sempre é compreendido e aceite. A propósito de uma comparação entre a China e a Europa e da forma como é cá recebido, o realizador diz-nos que na Europa valorizamos o seu trabalho a nível estético e que na China apreciam apenas a história e a qualidade do drama.


As atenções voltaram-se para Jia sobretudo com filme "Sanxia haoren" (Natureza Morta), premiado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2006. O filme trata da questão – real – da construção da Barragem das Três Gargantas, uma barragem hidroeléctrica no rio Yangtze cuja construção implicou a inundação e correspondente desaparecimento de inúmeras vilas e aldeias. Foi necessário o deslocamento e realojamento de mais de um milhão de habitantes. Junto com este drama colectivo, Jia foca-se na história de um indivíduo que volta para procurar a sua ex-mulher e filha, que não vê há anos. Mas o ponto essencial e a mensagem que nos é transmitida é esta ideia chinesa de hoje de que há que caminhar para um lugar melhor, mesmo que isso signifique o sacrifício do presente. Este é um cinema meditativo, o retrato de uma nação a caminho acelerado para o capitalismo, mas com hábitos comunistas, e que não tem pudor em mandar à urtigas séculos de história.


Antes deste filme, Jia havia já filmado "Xiao Wu", em 1998, a sua primeira obra. Conta a história de um ladrão de carteiras habilidoso, mas que vai perdendo a consideração dos amigos e da família. Interessante nestes filmes é a presença da música, uma constante, seja no rádio, seja na televisão, a música popular faz-se ouvir. 


Do ano 2000 é "Zhantai" (Plataforma), o filme de Jia que menos gostei, para além de longo demais. Trata de uma trupe teatral instalada na China profunda e onde dominam ainda os preceitos maoistas, vivia-se então o comunismo nos anos 80.


"Shijie" (O Mundo), de 2004, é um filme mais vivo e é passado no Parque Mundial de Pequim, um lugar verdadeiro, mas que mais parece (apenas) coisa de filme. Neste lugar perto de Pequim encontramos a Torre Eiffel lado a lado com o Big Ben, a Torre de Pisa, as Pirâmides do Egipto ou o Taj Mahal. O ponto deste filme é a cultura da cópia que rodeia a China adepta de uma arquitectura da duplicação. Questões como a identidade, a autenticidade, o urbanismo e a globalização são aqui abordadas, bem como o poder desta nova China. O mote deste Parque real é qualquer coisa como "dê-nos um dia e nós dar-lhe-emos o mundo". A China, o Império do Meio, como centro do mundo no século XXI. Economicamente poderosa, a competição com o ocidente faz com que esta China tome o objecto e até o símbolo ocidental para si e o faça seu. Neste filme a questão da mobilidade, designadamente as migrações, é também focada. Mostra-nos a vida dos trabalhadores deste Parque, quase todos eles migrantes de algum canto da China, e suas relações e conflitos num mundo de imitação.

"Er shi si cheng ji" (24 City), de 2008, foi o único filme de Jia Zhang-ke que não vi.


"Tian zhu ding" (China - Um Toque de Pecado), de 2013, teve estreia nos cinemas portugueses e colocou definitivamente Jia Zhang-ke no centro das atenções cinematográficas (não pela estreia em Portugal, claro). São quatro histórias baseadas em factos reais e passadas em diferentes províncias da China que se entrecruzam. A temática comum a todas elas é a tradição do passado e a chegada do progresso e do capitalismo. Apesar de ao início vermos a deslocação em massa dos chineses de volta às suas terras natais e famílias para a passagem do Ano Novo Chinês e, em especial, de um homem deslocado e amargurado, Jia pergunta-se porque é que as pessoas estão a ficar cada vez mais distantes umas das outras. O país acelera rumo ao desenvolvimento, mudando drasticamente, a modernidade chega (vêem-se telemóveis e internet e adolescentes a fazerem de tudo para os ter), mas ao mesmo tempo está longe da maioria dos chineses. O deslocamento é constante, com os personagens sempre em busca de algo, seja trabalho, dinheiro, justiça ou amor. A violência marca presença e faz Jia questionar-se o que crescerá efectivamente na China, a economia ou a violência?


"Shan he gu ren" (Se as Montanhas se Afastam), de 2015, percorre 25 anos de vida na China, iniciados na passagem para este milénio. Ou seja, quinze anos de um passado real mais dez anos de um futuro imaginado. O filme vem dividido em três partes, cada uma delas correspondendo aos anos de 1999, 2014 e 2025. Montanha, Rio, Amizade. Três conceitos que foram resumidos por Jia numa frase: "velhos amigos são como as montanhas e os rios". Neste filme procura-se declaradamente uma interligação entre passado, presente e futuro. Este é um melodrama e uma obra bem diferente das anteriores, embora a temática de Jia, já se vê, seja a mesma: o rumo que a sociedade chinesa contemporânea toma. A música Go West, dos Pet Shop Boys, uma presença constante ao longo de todo o filme, é utilizada de uma forma irónica e parece querer indicar o caminho, pelo menos para alguns. Comunismo ou capitalismo? 
Três amigos formam um triângulo amoroso. A ela guia-a o amor, a um a honra, a outro o dinheiro - visível no nome que dá ao seu filho, "Dollar".
A final, e porque este é um melodrama, ela não cumpre o que sonhou, um sofre a degradação física de anos de trabalho duro, outro o desenraizamento na (aparente) vida de sucesso na Austrália. O desencanto é a tónica comum. Bem como o deslocamento (o afastamento do título, "Se as Montanhas se Afastam"), seja espacial, materializado nos carros, comboios, helicópteros e aviões que vamos vendo desfilar, seja temporal, os tais 25 anos que medeiam o início e o fim do filme. A passagem do tempo. Go West. 
Mas Go West não está sozinho como música marcante aqui. Como em todas as obras de Jia Zhang-ke, a música desempenha um papel essencial e inesquecível ficará também a música de Sally Yeh, 珍重 (Take Care).

Para se entender mais acerca de Jia Zhang-ke, realizador irreverente destes filmes politicamente e socialmente comprometidos onde o questionamento da contemporaneidade chinesa é uma constante, assistir ao filme do brasileiro Walter Salles, "Jia Zhang-ke, um homem de Fenyang", pode ser um bom ponto de partida ou complemento.

Filmes chineses

Alguns filmes chineses, divididos por três temáticas clássicas: wuxia, históricos, gangsters.

Artes Marciais - Wuxia
A cinematografia chinesa de artes marciais tem tido (bom) acolhimento e reconhecimento no ocidente. Artes marciais é sinónimo de kung fu, com Bruce Lee e Jackie Chan como cabeças de cartaz, mas também de wuxia.
Não falarei dos filmes de Bruce Lee e de Jackie Chan, de que não sou conhecedora, e apontarei alguns filmes de wuxia a que vale a pena assistir.
O wuxia é um estilo clássico de filmes chineses, com influência da literatura, onde se mistura artes marciais e luta de espadas num mundo de fantasia. Sim, precisamente, falo daqueles filmes onde se veem os artistas a voar ou a caminhar sobre os ramos e as folhas das árvores.



Começando por alguns dos mais recentes, se "Herói", de Zhang Yimou, de 2002, é já um clássico, acrescento-lhe, naquela base do "se gostas disto também gostarás daquilo", o "A Assassina", de Hou Hsiao-Hsien, de 2015. Em ambos, os confrontos entre os personagens são puro bailado, numa junção de dois elementos essenciais da cultura chinesa, a espada e a caligrafia. No caso do "A Assassina", a rapariga justiceira fria e implacável enche o écran e mostra, por uma vez, alguma compaixão. A história não interessa tanto; o que fica é um filme esteticamente belíssimo, uma obra-prima da fotografia e da pintura, não estivéssemos nós diante de um filme.


Não falarei dos filmes de Bruce Lee, mas falarei de Ip Man, o mestre de kung-fu seu mentor. Dois filmes sobre este personagem real. O primeiro filme, "Ip-Man", de Wilson Yip, de 2008, a par das cenas de luta tem um enquadramento histórico precioso. Ip Man nasceu ainda no século XIX, época em que os manchus governavam a China. Passou pela guerra civil entre nacionalistas e comunistas e assistiu à cruel invasão dos japoneses na década de 30. Bem nascido, passou fome, mas neste filme mostra que não se rendeu ao domínio japonês. Depois acabaria por rumar a Hong Kong, onde terminou a sua vida. O segundo filme, "O Grande Mestre", de Wong Kar-Wai, de 2013, apesar de na época muito aguardado, foi uma desilusão. A estética wongkariana está lá toda, as lutas são de uma beleza suprema, com os pingos da chuva a desempenharem um papel de actor principal. Mas onde falha é precisamente no enquadramento histórico, onde o realizador claramente não quis entrar, apenas passando pela rama. 

Outros filmes dignos de registo são o mítico "A Tocuh ou Zen", de King Hu, de 1971, o "The Blade", de Tsui Hark, de XXX, e os mais recentes "O Tigre e o Dragão", de Ang Lee, de 2000, e o "Segredo dos punhais voadores", de Zhang Yimou, de 2004.


Históricos
Os filmes históricos / épicos chineses que indicarei em seguida dão a conhecer a China do século XX, quer de um ponto de vista social quer político, sendo, assim, uma boa forma para se entender melhor o país de hoje, ainda que esse país esteja muito diferente.




Imprescindíveis são o "Viver", de Zhang Yimou, de 1994, e o "Papagaio Azul", de Tian Zhuangzhuang, de 1993. Ambos se debruçam sobre as vidas das gentes comuns no período maoista (anos 40 aos anos 70), nomeadamente as consequências (hoje) irreais do Grande Salto em Frente e da Revolução Cultural. Outro filme que atravessa quase todo o século XX, detendo-se na luta nacionalista e comunista e posteriores ilusões e desilusões é o "The Golden Era", de Ann Hui, de 2014, longo filme sobre a escritora Xiao Hong que, saída da sua Manchúria, parte para a China central em busca da sua liberdade amorosa e artística em tempos duros.


Atravessado igualmente a mesma época, "Adeus Minha Concubina", de Chen Kaige, de 1993, mostra-nos a vida de uma trupe da Ópera de Pequim, com destaque para a sofrida vida da sua estrela. 


"Esposas e Concubinas", de Zhang Yimou, de 1991, dá-nos a conhecer a realidade de uma China tradicional, as várias mulheres de um só homem, todas elas vivendo no mesmo espaço e competindo entre si pela atenção do seu senhor e pelo maior favorecimento do filho de cada uma delas. 


Por último, um épico de grande sucesso internacional, tanto de público como de crítica: "Red Cliff", de John Woo, de 2008. O século XX era ainda uma longínqua miragem nesta história verdadeira da batalha de Red Cliff, que aconteceu no fim do domínio Han na China, por volta do século III a.C. Mostra-nos cenários e paisagens fabulosas, e encantamo-nos pelas estratégias utilizadas por Zhuge Liang para vencer o reino do norte.


Gangsters
No nosso imaginário, Hong Kong é ainda sinónimo de tríades, sociedade secretas, gangsters.


Não faltam, pois, filmes sobre esta temática. Um clássico é o "A Better Tomorrow" (em Portugal, "Crime em Hong Kong"), de John Woo, de 1986. Num filme de acção que mostra a violência que atravessa o sub-mundo do crime, os valores da amizade e a prioridade à família sobrepõe-se a tudo o mais. A lealdade é rainha. 

Johnnie To explora os mesmos temas em quase todos os seus filmes. "Election 2", de 2006, no entanto, mostra como por vezes essas lealdades são flutuantes e dúbias e que, uma vez no mundo do crime, sempre no mundo do crime. 
Este realizador de Hong Kong é o meu preferido num género de filme - acção com armas e algumas artes marciais - que, à partida, não faz o meu género. Os seus filmes decorrem maioritariamente em Hong Kong, em especial Kowloon, e também Macau - no "Exiled" (2006) vemos carros com matrícula portuguesa. São um hino à amizade. Em quase todos o grupo surge como herói. Não há um herói individualizado, antes um conjunto de homens – sempre homens – que se encontra em crise face a um dilema entre dois deveres: o da fidelidade ao seu grupo que muitas vezes já vem de infância e o da fidelidade ao chefe da máfia. Há violência, mas esta violência é esteticamente bela, uma espécie de ópera com acrobacias, um ballet. Não é necessário disparar muitos tiros, basta a forma como as personagens se mexem, a forma como vão aparecendo duplicadas por entre os espelhos, para ser tudo muito apelativo. O uso contínuo do slow-motion faz as cenas durarem mais e vemos os corpos suspensos no tempo, numa coreografia que, de todo, não é muito comum em filmes de acção. 



Para além dos já citados Election 2 e Exiled, de Johnnie To destaco ainda “The Mission" (1999) e “Sparrow” (2008). Este último é o meu preferido, por sinal aquele que menos pode ser identificado como filme de acção puro e duro. É sobre um grupo de carteiristas simpáticos e tão discretos que o roubo das carteiras não devia dar direito a uma pena mas antes a um bilhete para se assistir a um espectáculo, tão belos que são os seus gestos.


E porque o mundo cinematográfico do sub-mundo de Hong Kong vai para além de Johnnie To, eis ainda "Infernal Affairs" (em Portugal, Infiltrados), de Andrew Lau, de 2002, o qual no mostra a estreita e promíscua ligação entre membros da polícia e membros das tríades. Este filme inspirou Martin Scorcese para o seu "Entre Inimigos".

sexta-feira, julho 15, 2016

Colômbia em livros, filmes e canções

A preparação de uma viagem já é em si uma verdadeira viagem. 
E uma daquelas viagens bem diversas, instrutivas e prazerosas.
A maior parte das vezes o caminho inicia-se com um guia da Lonely Planet.
Com o planeamento da visita à Colômbia não foi diferente.
Início e fim na sua capital, Bogota, e eis que o Andes Sem Parar voltará, enfim, aos Andes que lhe dá nome.
Depois é só traçar um itinerário, a descobrir em futuros posts aqui neste blogue.
Parte essencial da viagem são as leituras dos escritores do país que se pretende visitar. No caso da Colômbia a coisa está facilitada: alguém há nesse mundo que nunca tenha lido um só livro que seja de Gabriel Garcia Marquez? O meu eleito é O Amor em Tempos de Cólera. 
Mas muito mais há para descobrir nos seus autores, ainda que a recente história de luta de cartéis da droga e guerrilha urbana seja um tema quase comum e transversal nas obras dos últimos anos. Algumas sugestões são Hector Abad Faciolince (Somos o Esquecimento do que Seremos), Juan Gabriel Vasquez (O Barulho das Coisas Ao Cair) e o essencial Delírio, de Laura Restrepo.



Quanto a cinema, a ideia que fica é a de que o realismo mágico não está presente apenas na literatura. O filme a Estratégia do Caracol (1993) é um bom exemplo da imaginação sem limites dos colombianos. Depois temos uma vez mais a presença do negócio da droga no filme Maria Cheia de Graça (2004). E para algo totalmente diferente O Abraço da Serpente (2015), retrato das relações do homem branco cientista com um xaman de uma tribo da Amazônia profunda.
E fica a faltar a música para embalar a viagem. Eis uma playlist com os incontornáveis Shakira e Juanes, sim, mas com notas bem para além deles.

quinta-feira, junho 09, 2016

Filmes Indianos


Como escreve Suketu Mehta, no seu Maximum City, para os indianos, ir ao cinema é um projecto para toda a família.

Na Índia o cinema é entretenimento, sim, mas é também um momento para se estar com a família, com os amigos, com a comunidade até. À falta de ter vivido esta experiência de forma directa, é fácil a qualquer um de nós ver amiúde os filmes indianos a retratarem o cinema como um momento em que a aldeia se junta, o mais certo ao ar livre, em volta de um qualquer écran. É, pois, uma arte para o povo em geral. E reúnem-se para assistir não são só a um filme de Bollywood, mas a qualquer outro dos muitos cinemas regionais que pululam pela Índia - mais uma marca da sua imensa diversidade. 
Ou seja, o cinema da Índia não é só Bollywood, mas é esta indústria que mais fama dá ao sub-continente. Aqui são produzidos mais de 1000 filmes todos os anos, a eles acrescendo as várias indústrias locais, representando os filmes estrangeiros menos de 10% daqueles que são apresentados em sala. Bollywood diz respeito aos filmes falados em hindi, apesar de muitos dos seus actores serem acusados de falar mal esta língua. Independentemente disso, eles são verdadeiras estrelas e a sua popularidade atesta-se pelos inúmeros reclames que usam a sua imagem. 



Em geral, a forma de ver cinema na Índia não é muito diferente da do Ocidente - as míticas salas de cinema têm vindo a dar lugar a outras mais modernas, normalmente em espaços comerciais. Em Mumbai, no entanto, restam ainda alguns desses outros cinemas, como o Regal e o Eros, a fazer jus à colecção de edifícios em art deco de que a cidade é portadora.

Em seguida indicarei alguns filmes indianos a que assisti e que considero que por uma razão ou por outra valem a pena serem vistos. 

O primeiro deles não é uma obra prima, não é o maior sucesso, é uma quase grande banhada, mas serve na perfeição para representar o que é a paixão do cinema nos tempos de hoje não só na Índia, mas também no vizinho Paquistão. O nome deste filme não podia ser mais certeiro: Filmistaan (2012).


Dos filmes que retratam a Bombaim de ontem podemos começar por um murro no estômago e assistir a Salaam Bombay! (1988) e depois seguir com várias histórias dentro de um mesmo filme na Mumbai mais moderna quer com o Dhobi Ghat (2010) quer com o Live in a... Metro (2007). Pelo meio, A Wednesday (2008), um thriller também rodado na cidade, e A Lancheira (2013), relação por carta entre cozinheira anónima e senhor trabalhador a quem é distribuído o seu almoço diário - uma imagem de marca de Mumbai.


Um clássico de qualidade é o Bombay (1995), o qual retrata as tensões religiosas na cidade dessa época. Destaque total para a lindíssima banda sonora do filme, em especial a preciosa "Kehna Hi Kya". 
Para tensões religiosas noutra latitude, em Delhi, Amu (2005) é também um bom filme.


Mr and Mrs Iyer (2002) é um belo filme e imperdível pelo que mostra da relação entre mulheres e homens, ela hindu, ele muçulmano.


Filmes históricos também os há: Jodhaa Akbar (2008), retrato do imperador mogol Akbar, e Lagaan (2001), sobre como o cricket pode aproximar e afastar colonizador e colonizado.


Alguns filmes bem populares, mas sensíveis a espaços como o Taare Zameen Par (2007), acerca do encontro entre um miúdo diferente e um professor também ele diferente, e 3 Idiots (2009), um nome de filme absolutamente parvo mas que não deve servir para afugentar os espectadores. Ainda, Ghajini (2008), um thriller de muita qualidade, e Zindagi Na Milegi Dobara (2011), banhada de uns amigos que partem de viagem para Espanha - e o filme foi mesmo realizado em Espanha e o seu sucesso levou a que montanhas de indianos quisessem seguir os passos dos seus heróis.


Nesta lista não podem faltar as xaropadas com Shahrukh Khan, aqueles filmes indianos intermináveis, em que a história é quase sempre a mesma, o amor (quase) impossível entre um rapaz e uma rapariga, um pobre e um rico, à vez, com muitos interlúdios feitos de música e dança. Dois exemplos deste Bollywood puro: a versão mais recente de Devdas (2002) e o sempre citado Dilwale dulhania le jayenge (1995) - ainda hoje em cena em pelo menos um cinema de Mumbai, vinte anos depois. Deste último, para além do xarope que não fez efeito e me levou a querer assistir a mais e mais filmes indianos, retenho a sua bela canção "Tujhe Dekha To".


Do cinema indiano clássico, é incontornável para um europeu citar Satyajit Ray, nomeadamente Pather Panchali (1955) e Charulata (1964), o grande cineasta bengali, talvez mais aclamado e amado no ocidente do que propriamente na generalidade do seu país. 
E, depois, Mother India (1957), de Mehboob Khan, o épico que retrata a dura vida da mulher indiana.


Por fim, alguns filmes realizados por não indianos ou indianos radicados fora da Índia. 
Destaque para Slumdog millionaire (ganhou o Oscar em 2008).
Deleitar-se com a ironia de Wes Anderson em The Darjeeling Limited (2007).
Fazer de conta que se acredita que ainda há tipos bons e ingénuos como Amal (2007).


sexta-feira, maio 22, 2015

Índia, por Rosselini


"India: Matri Bhumi" é um filme de 1959 do italiano Roberto Rosselini (curiosamente estreado neste ano de 2015 nos nossos cinemas).
É um retrato da Índia de cerca de uma hora e meia, um misto de documentário e ficção seguindo a vida de umas quantas personagens.
De início é nos apresentada Bombaim como a porta de entrada da Índia. Imagem forte é o constante corrupio da multidão, deambulando de um lado para o outro, acartando coisas, caminhando, dormindo, homens e vacas em pleno convívio - nada muito diferente do que se observa ainda hoje, mais de cinquenta anos depois.
Os animais são presença incontornável. As sagradas vacas, sim, mas também os elefantes, os tigres, os macacos amestrados. 
Bonita é a passagem do banho dos elefantes, assim como marcante é o ensinamento de que a chegada dos homens ao terreno dos tigres não ficará impune. Enorme o episódio em que o macaco amestrado segue o seu trabalho (recolhendo as moedas que não sabe para que servem) mesmo após a morte do seu dono às mãos do calor tórrido do sub-continente.
Este filme preocupa-se em mostrar a Índia de um ponto de vista emocional (relações entre marido e mulher e ritos), social e económico (migrações e grandes obras, como construção de barragens e estradas) e arquitectónico - de cujos edifícios Rosselini diz expressarem uma delirante homenagem à vida.
Não obstante, homem e natureza parecem ainda plenamente integrados.
No final, uma volta ao início - a omnipresente multidão, marca indelével da Índia de ontem e de hoje.

sexta-feira, março 27, 2015

Urbanized


Urbanized é um filme / documentário de 2011, de Gary Hustwit.
Pretende - e alcança-o - mostrar-nos como estão e para onde vão as nossas cidades, um pouco por todo o mundo, oferecendo-nos exemplos concretos de ideias introduzidas aqui e ali para melhorar as condições de vida nesses espaços.
A ideia central é mesmo essa - as cidades devem servir os seus habitantes de uma forma equilibrada e sustentável, sem perdermos de vista que elas são competitivas e buscam ganhar habitantes umas às outras. Este documentário faz-nos pensar, olhando para o futuro, mas também tendo ciente o passado, numa constante adaptação aos desafios que se colocam no presente, como são o caso das alterações climáticas e o aumento de população. Sobretudo, algo que não estará muito na nossa mente, a possibilidade das cidades se perderem e desaparecem. Detroit é disto um excelente exemplo. 
Logo ao início do documentário somos remetidos para a ideia de que as cidades devem ser sinónimo de planeamento e uma obra multidisciplinar resultado das valências de políticos, arquitectos, engenheiros, entre muito mais técnicos. No entanto, entre os vários exemplos apresentados concluímos que a participação dos cidadãos é fulcral e cada vez mais levada em conta nos nossos tempos. Nós, habitantes das cidades, somos pois parte do processo de decisão e, logo, da solução para encontrar espaços que nos sirvam melhor.
Factor essencial para se compreender a questão é o de que a percentagem de habitantes nas cidades não pára de aumentar. E nem todos eles vivem nas melhores condições. Em Mumbai, por exemplo, há hoje tantos habitantes a viver em favelas como toda a população de Londres e em 2050, quando se estima que a cidade indiana ocupará o posto da maior do mundo, terá um número de habitantes em favelas equivalente aos da população de Londres e Nova Iorque juntas.
No entanto, a percepção da necessidade e utilidade do saneamento básico não será a mesma em Mumbai da que temos nestas duas cidades ocidentais. Naquela, uma sanita para 50 pessoas já cumpre os requisitos e os poderes da administração local não estão muito interessados em construir mais sanitários com receio de que isso encorajará mais migrantes a acorrem à cidade.
De Santiago do Chile é nos oferecido um exemplo de habitação social diferente. A localização escolhida é, surpreendentemente, boa, perto de escolas, de transportes e do trabalho dos seus habitantes. Mais surpreendente é a opção por um design participativo, colocando à escolha dos interessados, por exemplo, água quente ou uma banheira. Mais surpreendente ainda - e o carácter informativo e educativo deste documentário é aqui bem visível, confrontando-nos com a diferença de realidades - a maioria opta pela banheira, pois sempre se habituou a não ter privacidade na hora do banho e agora deseja-a e, por outro lado, não teria dinheiro para pagar o gás caso optasse pela água quente. Os habitantes deste bairro social vão, assim, a tempo, construindo as casas a seu gosto e possibilidades e de acordo com as prioridades de cada um.
As cidades foram surgindo e surgem por uma série de razões, ou porque estão perto de um porto ou por razões logísticas. A industrialização, todavia, foi um factor de crescimento brutal das cidades, e tal crescimento nem sempre correspondeu às necessidades de salubridade e habitabilidade. 
O Barão Haussmann, na segunda metade do século XIX foi decisivo na mudança de paradigma, com a reconstrução de Paris, abrindo grandes boulevards, jardins e parques e aumentado os níveis de higienização urbanos. 
Quase um século mais tarde, o conceito de cidades jardins emergiu, aliado ao modernismo, e cidades como Brasília chegaram (até hoje o desenho da nova capital brasileira é discutido - à parte do documentário em apreciação ler recente artigo de Benjamin Moser, "Cemitério da Esperança", pela editora Cesária). Oscar Niemeyer, arquitecto de alguns muitos ícones da cidade, mas não autor do plano urbano (a cargo de Lúcio Costa), gostava de realçar que arquitectura é inovação e que a surpresa é um elemento chave da arte.
Deixando implícito que o automóvel é indispensável para as deslocações em Brasília, o documentário passa a analisar o impacto do automóvel nas cidades, seguindo com um exemplo das políticas de transportes introduzidas em Bogotá nos últimos anos: autocarros com vias exclusivas, bem como para bicicletas e pedestres, com o carro e o estacionamento a ficarem em segundo plano.
Em Copenhaga, por sua vez, 37% das deslocações para o trabalho são efectuadas em bicicleta, cujo uso duplicou em 10 anos. A defesa da bicicleta passa por esta não poluir, manter os cidadãos  em forma e não ocupar espaço. Para que a sua utilização não seja perigosa optou-se por deslocar o estacionamento automóvel da berma para um género de segunda fila, funcionando assim este estacionamento como uma barreira de segurança para os ciclistas.
Questão essencial é conhecer as pessoas. Partindo daí pode-se pensar na transformação de lugares pós industriais em algo que as pessoas gostem. O exemplo dado recorre a Nova Iorque e a uma linha de comboio desactivada. A sua adaptação a um novo fim mostrou as diferenças de opinião entre projectistas e urbanistas, entre ver a cidade de cima ou de baixo, do olho da rua. A questão é que todo o espaço físico urbano é uma estrutura social.
Fenómenos que não podem ser negligenciados são os da fuga das pessoas do centro das cidades, levando a uma sub-urbanização - não tanto fuga para os subúrbios, mas antes uma expansão das cidades, com casas todas iguais e com uma distância maior percorrida de carro. O exemplo é de Phoenix. Pior é o exemplo de Detroit - imagem brutal é a do comboio que anda tempos e tempos pela cidade sem se ver viva alma. A decadência da indústria automóvel na cidade levou à sua implacável desertificação e inevitável pobreza de muitos dos seus habitantes. Mas se as cidades podem ter (quase) um fim, as suas comunidades possuem a grande capacidade de se adaptarem e, juntando sinergias, criarem uma espécie de urbanismo auto organizado, de iniciativa privada, lançando mão de, por exemplo, hortas comunitárias para sua subsistência.
Outras cidades, mais pujantes, competem hoje por pessoas e investimento, contratando arquitectos estrelas e dando ao mundo novos ícones arquitectónicos.
Afinal, este é o século para os amantes das cidades.
Não esquecendo que a ideia de cidades do futuro - estará o futuro em África e Ásia? - muda numa geração. O mundo está cheio de desafios e promessas e cidades rima com oportunidades.

quinta-feira, abril 24, 2014

Medianeras de Buenos Aires

Pelo que entendi, Medianeras são empenas. De prédios. E prédios não faltam em Buenos Aires.
Cidade enorme, cheia de gente, mas onde se pode viver de forma solitária. O filme Medianeras, de 2011, de Gustavo Taretto, não é sobre Buenos Aires, mas apresenta-nos a cidade como uma metrópole, lugar de desencontros e solidão, onde podemos viver no mesmo quarteirão que alguém que sofre e sente precisamente o mesmo que nós, sem que nos cruzemos. Ou melhor, até nos cruzamos umas quantas vezes, mas não damos por isso. Até que, finalmente, achamos o Wally, ou, como cantava o Cerati na sua Zona de Promesas, "al final jay recompensa".
Filme a não perder, sobre as emoções humanas de dois protagonistas comuns, um rapaz e uma rapariga, com o bónus de nos dar um cheirinho de Buenos Aires.

quinta-feira, abril 17, 2008

Filmes para Sonhar Viajar

Nos últimos meses dois filmes passaram que nos fazem desejar viajar para longe - a muitos km de distância, a uma cultura bem diversa.

À India:

The Darjeeling Limited

Ao Irão:
Persepolis
Neste último, aliás, baseado no livro de BD de Marjane Satrapi, vemos que os iranianos urbanos nossos contemporâneos lêem o mesmo que nós, vêem o mesmo que nós e ouvem o mesmo que nós. Alguns pensam o mesmo que nós.
Hilariante a cena da já adulta Marjane a ter uma epifania sob a imagem de Rocky e o seu "Eye of the Tiger".

sábado, fevereiro 09, 2008

Into The Wild



Não sou rigorosamente nada virada para buscas interiores, daí que duvidasse um pouco se ia gostar do filme Into The Wild.
Acontece que este filme, baseado numa história real da vida de um rapaz americano que acabou por morrer em viagem aos 24 anos, passa longe de qualquer conceito de busca do eu interior. É antes um constante procurar da (sua) verdade e da felicidade, sem conceitos espirituais a isso associados, longe de hipocrisias familiares ou materiais que dominam a nossa sociedade. Christopher McCandless, o retratado no filme, tentou – e talvez conseguiu – viver a vida que pretendia. Eddie Vedder, o líder dos Pearl Jam que ao longo da sua carreira tem procurado – e talvez conseguido – viver a sua música à parte do sistema imposto pela sociedade foi o escolhido para a banda sonora do filme. Sean Penn, o outro inconformado no meio deste projecto, é o realizador de Into The Wild.
Serve isto para dizer que, sim, senti-me tocada pelo filme, emocionada e comovida com a história de quem procurou seguir o seu caminho, deixando para trás família (pais com quem não tinha uma boa relação, mas irmã que era companheira) e, ao longo das paisagens marcantes por onde ia passando, amigos que foi criando. Sempre sem qualquer peso pela ruptura, de um sentimento que nos habituámos a chamar saudade. Todos à sua volta iam sentindo um aperto no coração pela sua debandada rumo ao objectivo supremo – o Alasca junto aos livros e à natureza – sem que deixassem de o aconselhar a ser mais cauteloso, mais atento aos pais, a, enfim, perdoar e amar.
Depois de 3 solitários meses de dura sobrevivência no Alasca veio a revelação final: “a felicidade só é real quando partilhada”. Mas pelo sorriso na morte de Alexander Super Tramp / Chris podemos concluir que a sua felicidade foi efectivamente partilhada com todos nós.
Para mim, depois de assistir a toda aquela intensidade da natureza americana, a mensagem é viajar. Sejamos novos ou velhos, levantar os nossos rabos e subir a pequena ou a grande montanha, ir ao virar da esquina ou ao Alasca, mas sobretudo mostrar para nós próprios que estamos por cá a fazer algo, sermos felizes nos nossos passos.

terça-feira, junho 26, 2007

Fado no Eléctrico

Domingo foi dia de Fado no Eléctrico 28.
O programa, incluído nas Festas de Lisboa, consiste em percorrer de eléctrico o trajecto mais emblemático da cidade ao som da música nacional, interpretada por diversos fadistas (cinco) e dois músicos, que se encontram espalhados pelo transporte.
Enquanto percorremos as colinas e observamos a cidade, somos guiados pelo fado, que alimenta a nossa alma. Assim foi quando se cantou:

No castelo ponho o cotovelo
Em Alfama descanso o olhar
E assim desfaço o novelo
De azul e mar

À Ribeira encosto a cabeça
A almofada da cama do Tejo
Com lençóis bordados à pressa
Na cambraia de um beijo.

Lisboa menina e moça, menina
Da luz que os meus olhos vêem, tão pura
Teus seios sãos as colinas, varina
Pregão que me traz à porta ternura

Cidade a ponto-luz bordada
Toalha à beira-mar estendida
Lisboa menina e moça e amada
Cidade amor da minha vida

No Terreiro eu passo por ti
Mas na Graça eu vejo-te nua
Quando um pombo te olha sorri
És mulher da rua.

E no bairro mais alto do sonho
Ponho o fado que sei inventar
A aguardente de vinho e medronho
Que me faz cantar.

Lisboa do amor deitada
Cidade por minhas mãos despida
Lisboa menina e moça e amada
Cidade mulher da minha vida.
Ontem a razão de se cantar o fado, ao contrário do que a música diz,

Há para o sofrimento
Um bom remédio afinal
É cantar e num momento
Ninguém se lembra do mal
Não custa mesmo nada
Tentem fazer como eu
Uma guitarra afinada
Um voz bem timbrada
E tudo esqueceu

refrão:
Quando a tristeza me invade
Canto o fado
Se me atormenta a saudade
Canto o fado
Haja ciúme á vontade
Canto o fado
Por uma esperança perdida
Não passe na vida
Por um mau bocado
Se acaso a sorte o esqueceu
É fazer como eu
Deixe andar cante o fado
Não é que não me interesse
Por quem a dor não resiste
Mas a gente que parece
Que gosta até de andar triste
Tem sempre um ar fatal
A que ninguém o obriga
E nesta vida afinal
Vendo bem nada vale
Mais do que uma cantiga
não era para espantar os males, mas antes para celebrar a alma da cidade.
Viva Lisboa!

terça-feira, agosto 08, 2006

Ciudad del Este

Onte fui ver o Miami Vice ao cinema.
Filme sobre polícias, informadores infiltrados, traficantes.
O demais não vem agora a propósito. Vem, sim, a propósito, o facto de no filme aparecerem imagens aéreas, as vistas de pássaro, das Cataratas de Iguazu. Com água. Água em abundância a acompanhar a exuberância da floresta que envolve aquela falha na terra.
Por estas bandas faz-se a fronteira entre 3 países: Paraguai, Brasil e Argentina, e 3 cidades, respectivamente: Ciudad del Este, Foz de Iguaçu e Puerto de Iguazu.
Destas cidades, apenas a última é encantadora. A argentina Puerto Iguazu é também a mais pequena. A calma constante do chilrear dos pássaros é quebrada apenas pelos visitantes que acorrem ao Parque Nacional (em menor quantidade do que no lado brasileiro, uma vez que apesar das Cataratas ficarem fisicamente em território argentino é no lado brasileiro que fica a vista deslumbrante deste fenómeno da natureza) e aos casinos (que não existem no lado brasileiro). Mesmo assim, as suas ruas de terra batida e a ausência do movimento louco das grandes cidades vizinhas têm tudo a ver com a selva Guarani, tão presente no espírito desta cidade, tão distante do das outras.
Ao invés, Ciudad del Este seria uma cidade para esquecer caso fosse eu da opinião que existem cidades para esquecer. De qualquer forma, de todos os lugares onde já estive, é esta cidade paraguaia (a 2.ª maior do país atrás da capital Assunção) que me fez ficar perto de rever aquela opinião.
O filme Miami Vice mostra-nos, igualmente, imagens de Ciudad del Este. Da sua confusão abarracada, das suas ruas de terra batida, sujas, inundadas de caixotes da mercadoria que por lá se vende. E lá vende-se de tudo. E compra-se de tudo. É a terra, por excelência, da muamba, como diriam os brasileiros. Do contrabando, como dizemos nós, os portugueses.
Ciudad del Este é a 3.ª maior zona de tax free do mundo, só superada por Miami e Hong Kong. Aqui os negociantes fazem, ou julgam fazer, bons negócios, obtendo os produtos, autênticos ou copiados, por uma pechincha. Na curta cena do filme apanha-se bem o espírito da coisa.
Para se chegar à cidade vindo do lado brasileiro, atravessa-se a Ponte da Amizade – de um lado o Brasil, do outro o Paraguai – e a amizade entre os dois é mesmo necessária, pois se de todo o Brasil chegam muambeiros desesperados por arriscar na compra de mercadoria que esperam que lhes garanta a sobrevivência ao poder vir a render muito mais no seu país, pelo lado paraguaio a dependência da economia do vizinho Brasil é quase total.
Atravessar a ponte está mais para experiência de filme do que de vida real. Para evitar o caos absoluto é melhor fazê-lo a pé. Assim, no meio de um caos “apenas” quase absoluto, feito de encontrões e tropeções nas embalagens da mercadoria aberta às pressas e nas muitas personagens que compõem este “outro mundo” do sub-comércio, chega-se ao paraíso do consumo. Nada que ver com o ambiente das grandes feiras de Lisboa e arredores, igualmente feito de empurrões e de pregões que mereciam um roteiro especial. Aqui o cenário é de 3.º mundo mesmo. Antes de poisar por aquelas bandas, não havia visto nada igual e imaginava que semelhante cenário só existia nos filmes. Ontem, ao ver Miami Vice, recordei que, afinal, não existe apenas nos filmes e que estes apenas se limitam a retratar a realidade.

O arrependimento: o deslumbre do caos foi tal que nem houve tempo, coragem, ambição para o documentar em fotos.