segunda-feira, maio 01, 2017

Vilnius

A Lituânia possui algumas semelhanças históricas e culturais com a Letónia, desde logo quando, juntas com a Estónia, vêm referenciadas como países do Báltico cujas capitais mantém centros históricos pitorescos. Outras semelhanças óbvias são o facto de os dois países, os três países, terem pertencido à União Soviética. A sua história, feita de independências e dependências ao longo dos séculos é outro paralelo que pode ser traçado. A Lituânia foi independente, os russos, os alemães e os soviéticos, à vez, exerceram por lá o seu domínio; até a vizinha Polónia o fez, tendo nos séculos XVI a XVIII com elas mantido uma união. Apesar da comida, do encanto pela natureza (floresta e lagos) e dos rituais pagãos serem muito similares na Letónia e na Lituânia, uma enorme diferença encontra-se na religião: a Letónia é maioritariamente evangélica luterana e a Lituânia católica. Como a Polónia. 


Riga antiga é uma cidade escura e gótica, Vilnius antiga uma cidade clara e barroca. Só a imagem das incontáveis torres de igrejas a dominar a paisagem não muda, talvez se reforce. De qualquer ponto da cidade se avista uma cruz.


Vilnius foi fundada em 1320 pelo grão-duque Gediminas, embora o local fosse já habitado há pelo menos um milénio. O nome Gediminas impõe-se um pouco por todo o lado. O Monte Gediminas, uma das elevações da cidade, foi o local exacto da fundação de Vilnius. Devido a trabalhos de restauro e reparação, o acesso ao monte e castelo estava encerrado por altura da nossa visita. Lamento e não posso deixar de imaginar a vista fabulosa que daqui se terá para toda a Vilnius, em particular para o centro histórico que se estende aos seus pés. Um dos maiores centros históricos barrocos da Europa, distinguido pela Unesco como Património da Humanidade. 

Começando pelo que vimos e vivemos.
A cidade velha de Vilnius é compacta, mas não fechada. Podemos adentra-la por um infindável número de caminhos, mas há certamente dois deles imperdíveis: pela Porta da Aurora (ou da Madrugada ou do Amanhecer) ou pela Praça da Catedral.


Vindas da Cidade Nova, optamos por esta última hipótese. A Praça da Catedral, no sopé do Monte Gediminas, é um local central e amplo. O único elemento de tempos idos que aqui resta é o Campanário, uma torre esbelta de 57 metros. A subida ao seu topo é não só possível como obrigatória. Por entre sinos, daqui se avista de forma privilegiada toda a cidade. 




A Catedral, em si, não é muito antiga. Em estilo clássico, para variar do barroco, data do fim do século XVIII. O interior não deslumbra. 





O contíguo Palácio do Grão-Ducado sofreu diversas alterações ao longo dos tempos e o que hoje visitamos é praticamente uma réplica do palácio barroco do século XVII. Depois de uma observação mais delicada ao relógio simples mas bonito na fachada da sua entrada, o pátio oferece-nos uma equilibrada e pacata arcaria. O interior do palácio vale a sua visita não tanto para se conhecer salões e objectos grandiosos, mas mais pela história do país que os vários momentos expositivos traçam.

Da Praça da Catedral a entrada na Cidade Velha deve ser feita pela rua (gatve) Pilies. Continuando sempre a direito, à Pilies segue-se a Didzioji e, depois, a Ausros Vartu e, no seu final, a referida Porta da Aurora. Parece simples e é simples. Três ruas sucedendo-se num continuo rasgam a maior cidade velha da Europa de Leste de uma ponta à outra. Pelo meio, muitas ruas perpendiculares para meter o nariz, muitas igrejas para recolher, muitas lojas de âmbar para visitar (passa!).


Ponto alto, porém, é o desvio para a Universidade de Vilnius. Dizer desvio é, talvez, incorrecto, uma vez que a Universidade se confunde com a cidade. Se andarmos pelas ruas movidos a curiosidade o mais certo é dar-mos connosco dentro de uma igreja ou de um pátio pertença da Universidade. Diz que são treze os pátios deste centro de ensino fundado por jesuítas polacos em 1579 e que rapidamente se tornou um centro incontornável do conhecimento na região. Adam Mickiewicz, o grande herói da literatura polaca que cresceu perto de Vilnius, é um dos nomes imortalizados numa placa no Grande Pátio, ao lado de homenagens a outros vultos da Universidade. 



O Grande Pátio da Universidade de Vilnius é um daqueles lugares mágicos. Tinha tudo para ser austero, mas naquele fim de dia transmitia, ao invés, uma tranquilidade e evasão imensas. Dentro da Igreja dos São Joãos um grupo de mulheres preparava os ramos de flores da época Pascal. A Igreja de São João Baptista e São João O Apóstolo e Evangelista é belíssima e rica, parceira perfeita do ambiente elevado que se espera de uma Universidade. O seu campanário, o edifício mais alto da cidade velha, contém um pêndulo de Foucault.




Já tínhamos dito que a curiosidade leva-nos longe, mas a falta de receio de abrir portas e ir passando entre os edifícios da Universidade leva-nos a descobertas. Não é segredo nenhum, mas o Pátio do Observatório Astronómico não possui uma entrada óbvia. A surpresa é descobrir um recanto colorido no meio de tanto tom pastel, um rasgo de génio criativo pleno de alegria numa cidade de arquitectura morna. 



Continuando a caminhada pelas ruas da cidade velha, um ponto diferente dos demais, pela sua amplitude e sensação de espaço, é a Praça da Câmara Municipal. Aqui não parece ter havido receio em romper com os modelos arquitectónicos do passado. De um lado a Igreja de São Casimiro, o mais antigo templo barroco da capital, mais um exemplo de magnificência religiosa; do outro lado, o Centro de Arte Contemporânea e a sua arquitectura moderna, feita de blocos em betão.



Mais um pouco e chegamos à Porta da Aurora, entrada ou saída da cidade. Pensávamos ter deixado as igrejas e capelas para trás, mas afinal falta ainda a Capela de Maria Mãe Misericordiosa, com a sua muito admirada Madona de Vilnius, uma imagem de Nossa Senhora que, diz-se, atende aos pedidos dos crentes.


E, por falar em igrejas, para algo diferente, há que não perder ainda a Igreja de Santa Ana, em estilo gótico e avermelhada, para variar. Nas suas traseiras fica um pacato jardim apartado do centro da cidade, embora não estejamos assim tão longe. 




Este é um bom lançamento para a coisa mais estranha que nos espera em Vilnius, o Bairro Uzupis. Este bairro de artistas declarou a sua independência de Vilnius em 1997 e na Rua Paupio para além da sua bandeira podemos ler a Constituição desta República, inscrita em várias línguas, mas não o português. São 41 os seus pontos e entre as garantias que mais aprecio está aquela que nos diz que "temos direito a ser felizes, ou infelizes". Passada esta irreverência, impõe-se dizer que este bairro possui um ar algo decadente e os seus edifícios precisam de um restauro. A vida parece ter parado no tempo, sobretudo junto ao rio Vilnia.


Deixada a cidade velha para trás, tempo houve ainda para uma breve caminhada pela Avenida Gediminas, parte da cidade nova. O enorme edifício de arquitectura em cascata da Ópera e Ballet Nacional da Lituânia rouba a cena. 



Nas suas traseiras, o mais discreto Museu Vytauto Kasiulio é um bom ponto de partida para se conhecer a pintura viva e colorida deste artista local.

Vilnius foi, no século XIX, um importante centro judaico, daí que tivesse sido conhecida como a Jerusalém do Norte. A II Grande Guerra Mundial arrasou a população judaica e trouxe outros habitantes a Vilnius, como lituanos vindos de outras partes do país e russos e bielorussos.

O Museu das Vítimas do Genocídio não trata desta questão, porém. Instalado no antigo edifício da Gestapo e, depois, do KGB, este museu retrata a ocupação soviética da Lituânia que provocou a deportação de muitos seus cidadãos para lugares distantes do império. A perda da independência após a Guerra trouxe inconformismo por parte de muitos, homens e mulheres, jovens e não tão jovens, e entre 1944 e meados de 1960 foram anos de repressão e luta pela independência os que se viveram por aqui. Para além de nos contar as histórias das pessoas envolvidas nesta época conturbada, neste museu é ainda possível visitar as celas de detenção e de execução dos indivíduos que aqui foram presentes. Na fachada do edifício veem-se placas de homenagem a alguns dos muitos mortos. É um museu duro, mas que não se deve perder caso se queira conhecer mais sobre a história (recente) do país que se está a visitar.


País este que é hoje parte da União Europeia, tal como o meu. Foram 7 dias de chuva e frio numa semana de Primavera de Abril, algo pouco habitual nesta época no meu país. À semelhança da minha cidade, Vilnius é banhada por um rio (na verdade, dois, o Neri e o Vilnia). Mas este não se sentiu, apesar de da janela do meu hotel ver o estreito rio Neri e poder confirmar que a cidade se vai estendendo e crescendo para a outra margem. Da janela da minha casa em Lisboa não vejo o rio Tejo, mas todos os dias o sinto e caminho à sua beira, ele que é tão largo que chega a parecer um mar; não o é, mas desagua num imenso oceano a ínfimos quilómetros da cidade. Mar é elemento estranho a Vilnius e a Lituânia apenas pode dar-se satisfeita por ter o Mar Báltico por perto. 
Sol e mar não são sonhos portugueses por concretizar, que os têm de sobra. 
Mas o mar emociona sempre, mesmo a milhares de quilómetros de casa. 
Numa loja em Vilnius, o dono pergunta-me de onde sou. Ao responder Portugal, conta-me que o filho esteve há dois anos a fazer Erasmus em Lisboa e acrescenta apenas isto: "o meu filho realizou o sonho dos pais: ver, algum dia, o Oceano Atlântico".

Está provado que o centro da Europa fica na Lituânia, a precisamente 16 kms de Vilnius. E esta é, sem dúvida, pelos edifícios que suporta, pela gentes que acolhe, pelo ambiente que se vive, uma capital europeia. Uma capital europeia a sonhar com o Atlântico.

sexta-feira, abril 28, 2017

Castelos em Gauja

Ainda na Letónia, depois da cidade medieval, moderna e soviética, e da praia a meia-hora de distância, chegou a vez de dedicar umas linhas à floresta com montes e rios. A natureza em estado puro, aquela que está sempre por perto dos letões, onde eles vão buscar os ingredientes frescos para as suas refeições, donde vêm as suas tradições pagãs, onde vão passear.

Sigulda, uma das principais localidades no Parque Nacional de Gauja, fica a uma hora e dez minutos de viagem de comboio desde Riga. Há mais localidades certamente interessantes e com muito para visitar neste que é o maior parque da Letónia, mas a nossa escolha recaiu nesta. A paisagem que vamos vendo desfilar pelos nossos olhos das janelas do comboio não cativa. Monótona, arvoredo e vegetação não muito intensos, terreno quase sempre plano. Sigulda e arredores, no entanto, são diferentes. Até aqui vem-se para praticar diversas actividades, como bicicleta, canoagem, até bobsleigh. Nós viemos para caminhar e visitar castelos.


No reino em que o pinheiro é senhor, só ao redor de Sigulda existem muitos trilhos e três castelos.
O de Turaida é apenas o monumento mais visitado de todo o país. Podemos lá chegar a pé ou de autocarro desde a estação de comboios de Sigulda. Optámos por esta última e em menos de 10 minutos estávamos no coração do Gauja. 


Turaida significa "jardim de Deus". O antigo castelo, datado de 1214, destruído pelo fogo no século XVIII e recuperado no século passado, foi implantado num local estratégico, numa zona elevada donde se observa todo o território de uma forma soberba. A subida à distinta e elegante torre do castelo, ainda que simples e discreta, é pois obrigatória. Lá em baixo, o verde seco da vegetação - cor da época - acompanha o ziguezaguear do rio Gauja. 



No castelo vermelho, que já foi centro do arcebispado de Riga, residência de governantes e fortaleza militar, podemos ainda visitar algumas exposições que nos permitem conhecer mais da história da região e do país através de objectos aqui encontrados ao longo do tempo.



Mas um dos pontos altos de uma visita a Turaida, para além da paisagem, é o ambiente rural e até bucólico que aqui se sente. As duas casas de madeira, uma delas uma igreja de 1759 - uma das mais antigas igrejas de madeira da Letónia -, dão um tom de idílio ao local. 




Ao seu redor fica o Parque de Canções do Monte Daina, um parque de 26 esculturas criadas por Indulis Ranka em homenagem ao folclorista Krisjanis Barons. Estas esculturas são um belíssimo trabalho artístico, talvez inspirado pela magia do lugar, onde se distinguem as canções poéticas antigas pertencentes ao folclore letão - os dainas - que imortalizaram os heróis épicos deste povo. Ou seja, a evocação das tradições, das vivências que as pessoas foram acumulando no domínio espiritual, intelectual e emocional, no fundo um sistema de valores baseados numa sabedoria de vida popular. A cultura pagã é ainda hoje muito forte na Letónia e isso comprova-se pelos diversos símbolos que estão por todo o lado, seja numa peça de vestuário, numa toalha, num objecto de decoração. No caso das tradições expressas pela música que nos são trazidas por esculturas que remetem a heróis do povo letão, esta é uma forma poética de realçar o carácter das pessoas que nos legaram este património.




Para seguir de Turaida a Krimulda voltámos a usar o autocarro de rota circular. Krimulda continua com um ar de campo, mesmo se possui como elemento mais distinto a sua mansão em estilo clássico (aquelas colunas na fachada frontal não enganam) datada de 1822. No século passado este edifico, e um outro entretanto construído à sua frente, foram transformados em clínica de reabilitação para tuberculosos. Hoje funciona aqui um organismo de estado. Junto à mansão encontramos diversos edifícios de apoio rural, entre os quais uma casa de vinho e um confortável café.


Em Krimulda sai um teleférico que se diz ser imperdível pela paisagem aérea que proporciona sobre o vale de Gauja. Época baixa é sinal de deserto e equipamentos encerrados, pelo que tivemos de voltar a Sigulda com os pés sempre assentes na terra. Tanto melhor. 



Depois de passarmos as ruínas do antigo castelo medieval de Krimulda, começamos a descer para o nível do rio. Ao invés de virarmos à esquerda no sentido das caves e grutas que há para explorar no Parque, seguimos pela direita em direcção a Sigulda, num trilho serpenteante por entre os pinheiros, bem ao gosto da época romântica em que foi criado (1862).



Atravessado o Gauja, estava visto que quem desce também tem de subir. Assim foi.
Cá em cima ficam mais dois castelos, o castelo medieval de Sigulda e o novo castelo de Sigulda. Do recinto do castelo medieval, mais uma fortaleza do século XIII, alcança-se mais um panorama fantástico para o vale de Gauja. 



Vista privilegiada de uma das suas varandas é também a que se obtém para o vizinho novo castelo, construído em estilo neo-gótico em 1878 por um príncipe russo. 
Daqui para a estação de comboios são mais uns quinze minutos de caminhada por uma povoação sem atrativos de maior, mas sempre carregada de pinheiros. Bem-vindos à capital do pinheiro.

quarta-feira, abril 26, 2017

Jurmala, praia no Báltico

Jurmala (lê-se Iurmala) é um estreito de praia que se estende por uma trintena de quilómetros à beira Báltico.
Tudo isto a cerca de trinta minutos de viagem de comboio desde Riga. 
Este foi um dos spa-resorts mais disputados e concorridos de todo o império soviético. Todos para aqui desejavam vir em busca de sol (totalmente ausente neste princípio de Primavera) e tratamentos. Construíram as suas vilas ao estilo prussiano, casas de madeira coloridas encimadas por torres, como se de castelos se tratassem. Muitas resistem até hoje e os russos não deixam de voltar. 






Sente-se alguma (pouca) vida e veem-se algumas casas bem arranjadas. Mas o ar de abandono e desolação é o que fica depois de uma curta visita a Majori e Dzintari, os dois bairros que constituem o centro de Jurmala, num dia de chuviscos em temporada baixa. 



A praia de areia branca lá está, areal extenso e mar sem fim. Infelizmente o frio não convida a um mergulho, falta a coragem dos russos, talvez movidos a vodka.
Um dos sanatórios mais característicos tem placa a anunciar a sua venda, enquanto que ao seu lado um hotel de arquitectura banal nos deixa na dúvida se terá hóspedes por esta época. 
Teremos de voltar no Verão para acreditar que haverá vida por aqui?

segunda-feira, abril 24, 2017

Comida Selvagem

Riga fica no Báltico, perto dos países nórdicos. 
E países nórdicos são, neste momento, sinónimo de cozinha da moda. 
Não é, pois, surpresa verificar a influência que a cozinha nórdica tem sobre a cozinha letã. 
Um dos passatempos preferidos dos letões é sair pelo campo em busca de cogumelos e frutos silvestres.


O Restorans 3, por exemplo, tem uma ligação estreita com a natureza e serve comida selvagem com ingredientes vindos directamente da floresta. 


No Domini Canes os pratos parecem ser sempre acompanhados pelos amigos silvestres.

São bonitos estes pratos? Podem ter um ar da terra, mas são saborosos como o céu.

sábado, abril 22, 2017

Art Nouveau em Rīga

Alguns exemplos da Art Nouveau por Riga, começando pela Casa do Gato, na cidade velha, símbolo da cidade.


Encontramos desde pequenos e discretos apontamentos nas fachadas com elementos serenos




até fachadas tomadas por rostos de uma expressividade tal que é possível que as suas emoções nos contagiem: serenidade, sim, mas também alegria, espanto, grito, horror até. 











Até robots servem como motivos decorativos.


Esta imaginação não teve limites.

Para saber mais sobre a Art Nouveau é clicar aqui, texto escrito anteriormente neste blogue a propósito deste estilo em Bruxelas.