sexta-feira, maio 19, 2017

Bertiandos - Lagoas e Solar

A um pequeno desvio da estrada nacional que liga Viana do Castelo a Ponte de Lima, já a chegar a esta última, encontramos um dos segredos mais bem guardados do Minho. Claro que explorar o Minho é, a cada passo, confirmar o óbvio, que esta é a região mais bonita e diversa do nosso país, deixando-nos surpreender por cada detalhe e envergonhar por não nos termos apercebido desse detalhe antes.

A Paisagem Protegida das Lagoas de Bertiandos e São Pedro de Arcos é um desses casos. Este pequeno parque inaugurado em 2005 ocupa um espaço partilhado entre as freguesias de Bertiandos, São Pedro de Arcos, Estorãos, Moreira do Lima, Sá e Fontão. Bertiandos e São Pedro de Arcos vão no nome da Paisagem, Estorãos é o nome do afluente do Rio Lima que por aqui corre. 


Após uma curta passagem pelo edifício do seu Centro de Interpretação Ambiental, encerrado naquele domingo, confirmamos o que vínhamos suspeitando desde o desvio da Estrada Nacional: este é um recanto apartado do mundo. 





A densa vegetação rodeia-nos, um manto intenso de verde por todos os lados, incluindo as nossas cabeças - a ramagem das árvores fecha a toda a volta formando túneis irreais. Pôde chover à vontade que nada se sentiu. Disse cabeças? Corrijo: cabeça. Não havia mais ninguém pelo parque para além de mim e vozes apenas se ouviam as das aves e, aqui e ali, o rio a correr. 



A sensação de isolamento é real e é bonita e o sossego absoluto. O cheiro misturado dos pinheiros, eucaliptos e carvalhos preenche-nos. Pura natureza.




São vários os percursos que se podem fazer por aqui. O mais fácil e curto é o Percurso da Lagoa, menos de 2 km à volta da Lagoa de São Pedro de Arcos. Não se pode dizer que a lagoa seja lindíssima. É na verdade um pedaço de água de tonalidade escura, mas a sua implantação é fantástica. Para além da bela vegetação que a envolve vemos não muito ao longe os contornos dos montes das Serras de Arga e da Cabração, formando um passe-partout perfeito neste quadro. Os passadiços de madeira sobrelevados na lagoa ou no lodo estão muito bem conservados e fazem da caminhada um momento feliz. 


Pelo caminho vamos encontrando alguns postos de observação que nos explicam a flora e a fauna existente por aqui, com destaque para a avifauna aquática. Um destes postos de observação é uma torre de madeira escondida no meio da vegetação. Escalamos os apertados degraus desta torre e do alto tudo se avista.



Esta é uma zona húmida não muito comum mas propícia à diversidade. À vista desarmada não foi possível confirmar esta biodiversidade, mas tal não retirou um pingo de alegria à jornada. 
Para além deste percurso juntinho à Lagoa, outros percursos maiores se podem fazer, quer pelas pastagens de gado quer pelas tapadas. Nesta reserva existem casas de abrigo e de hóspedes. 



Na aldeia de Bertiandos é imperdível uma espreitada ao Solar de Bertiandos.


Este é um exemplo superior dos solares minhotos, quer em termos históricos quer arquitectónicos, e uma das primeiras casas eruditas da região. De tal forma é a sua importância histórica que o Pelourinho de Bertiandos encontra-se dentro da propriedade, demonstrativo da estreita evolução da terra junto com o solar. 




Construção datada do século XV, em 1566 foi erigida a torre medieval ameada que ainda hoje admiramos e nos faz confundir o edifício com um castelo. Mas não. Esta torre distinta é antes um símbolo desta residência de famílias nobres. Encontramos aqui três elementos (torre e dois edifícios) que tinham tudo para causar uma ruptura no equilíbrio do conjunto edificado. Mas tal não acontece. A história conta-se de uma penada. Ainda no século XVI o solar foi doado em duas partes aos filhos do então proprietário. Os seus descendentes tornaram-se desavindos durante décadas e décadas e só em 1792 se voltaram a unir por casamento de dois primos. Ao longo desse tempo foram efectuando alterações e acrescentos ao edifício em cada uma das alas da torre, as quais funcionavam como unidades independentes. Assim, ainda hoje podemos observar de forma clara os dois corpos principais, o do lado esquerdo de dois pisos com o térreo em arcadas, o do lado direito de três pisos com uma torre de cada lado. Ambos com varandas e com a torre a separá-los. Ao centro uma escadaria nobre que junta os dois edifícios. O ar monumental é evidente e as influências do barroco e do maneirismo, de diferentes fases, bem como o facto de um dos corpos ser mais baixo e recuado, não quebram a unidade e a harmonia desta casa-torre. 



O ambiente de graciosidade é ainda composto pela paisagem, nomeadamente o relevo e as videiras imediatamente do lado oposto da Estrada Nacional. Sim, este Solar de Bertiandos é impossível de perder até porque está mesmo à beira da dita estrada. Atravessando o seu portão principal (fechado, uma vez que este Solar é propriedade privada ) e a estrada fica a Ecovia que liga Viana do Castelo a Arcos de Valdevez, de um lado, e Viana do Castelo e Ponte da Barca por outro, mais um sinal demonstrativo das muitas opções de caminhadas pela região.

Termino, reforçando, ajudada pelas palavras de Ramalho Ortigão:
"Quem não foi e não veio pela direita e pela esquerda da ribeira, de Viana a Ponte de Lima e de Ponte de Lima a Viana; quem durante alguns dias não viveu e não passeou nesta ridente e amorável região privilegiada das éclogas e das pastorais, não conhece de Portugal a porção de céu e solo mais vibrantemente alegre, mais luminosa e mais cantante."

sexta-feira, maio 12, 2017

A Lisboa que Teria Sido

A exposição sobre uma Lisboa passada, talvez imaginada, que dominou os media nos últimos meses foi aquela que esteve patente até há pouco tempo no Museu Nacional de Arte Antiga, "A Cidade Global, Lisboa no Renascimento". Lisboa como o centro do comércio do mundo, a Rua dos Mercadores como coração dessa Lisboa, a 5.ª Avenida da época. Deixando esta reconstituição da Lisboa do renascimento para trás, bem como a muita polémica que a envolveu, à boleia da autenticidade ou não de duas pinturas, dedicarei as próximas linhas a uma outra exposição sobre uma outra Lisboa, esta seguramente imaginada.

Até 18 de Junho podemos visitar a exposição "A Lisboa que Teria Sido" no Pavilhão Preto do Museu de Lisboa (também conhecido como Palácio Pimenta, no Campo Grande).


Para todos os que gostam de Lisboa ou tão somente apreciam exercícios de futurologia, esta é uma exposição a não perder. Poderia ter levado o epíteto de "A Lisboa Sonhada", que também não ficaria mal atribuído.


Aqui estão cerca de 200 objectos referentes a projectos urbanísticos e arquitectónicos que apesar de pensados, por uma razão ou outra, nunca chegaram a ver a luz do dia. Estes objectos, como desenhos, maquetas, fotografias, artigos de jornais e projectos, pertencem aos arquivos da Câmara Municipal de Lisboa e vêm desde o século XVI, embora predominem os do século XX.

Lisboa teve, na sequência do terramoto de 1755 que a arrasou, oportunidade para ser uma cidade pensada e planeada. A "Lisboa pombalina" é até hoje reconhecida como possuidora de um valor urbanístico e arquitectónico superior, sendo candidatada a constar da lista do património mundial da Unesco. Todavia, a arquitectura pombalina era, no princípio do século XX, considerada por vários pensadores como "monótona e triste", de uma "monotonia que desagrada a pessoas inteligentes", tendo a Baixa sido designada como cidade "sonsa, pesada e pombalesca".

A Lisboa cosmopolita do século XVI carecia no século XX de monumentalidade e modernidade.
As propostas agora em exposição, da autoria dos maiores urbanistas e arquitectos da época, tinham assim como objectivo conferir-lhe essas duas características. 


Um dos primeiros objectos com que nos deparamos é o de uma maqueta para um alpendre-reclame a construir nas zonas de estacionamento das Praças D. Pedro IV e Restauradores. Da autoria de Cassiano Branco, datada de 1937, este é um elemento que ainda hoje poderíamos considerar possuidor de modernidade, uma peça de mobiliário urbano como haveríamos de ver poucas.


Entre maquetas várias, foco absoluto para as relativas a projectos de ordenamento urbanístico na Praça do Martim Moniz, datadas de meados dos anos 60 do século passado. Lugar difícil, entre colinas e vales, é muito divertido tentar identificar naqueles projectos alguma correspondência com a realidade actual. São túneis, estradas sobre-elevadas, um sem fim de desvarios. Bem sei que o "homem sonha, a obra nasce" e que estes projectos perto daquele mais recente para a Margueira, na outra banda, são "peaners". Melhor do que isso só mesmo conseguir citar Fernando Pessoa e Jorge Jesus numa mesma frase. A verdade é que também o projecto da Cidade Sonhada para o pós Expo 98 seria do foro da irrealidade, certo? António Mega Ferreira acreditou e a Expo / Parque das Nações não consta desta exposição "A Lisboa que Teria Sido". 

Prosseguindo na tentativa de achar as diferenças entre o que teria sido e o que é, destaque ainda para imagens de projectos para a primeira ponte sobre o Tejo tão diferentes do que vemos hoje.

Olha se não são as portas de Brandenburgo.


Num eixo absolutamente central, a Avenida da Liberdade e suas imediações foi igualmente alvo de uma série de estudos. Mais uma vez, as críticas dirigiam-se à excessiva modéstia dos seus quarteirões. Já Eça de Queirós escrevia sobre ela em "Os Maias" "curto rompante de luxo barato". Estes estudos estendiam-se ao seu prolongamento até ao Parque Eduardo VII, tentativa de lhe conferir a tão almejada monumentalidade, tão ao gosto de Estado Novo. 

E eis que aqui chegámos e estes projectos todos ficaram na gaveta décadas e décadas para hoje, curiosos, nos perguntarmos: como teria sido?

sábado, maio 06, 2017

sexta-feira, maio 05, 2017

Trakai

Uma visita a Trakai é um passeio de meio dia ou dia inteiro que não se pode perder desde Vilnius.
À distância de cerca de 40 minutos de comboio ou de autocarro, por entre montes e florestas fica um conjunto de lagos e ilhas com castelos e casas de madeira. Soa atractivo e é mesmo.
Trakai é um destino que todos os lituanos parecem amar, e uma vez na Lituânia, sê lituano. 

Lá fomos nós. Saímos da estação de autocarros e percorremos aquela que parece ser a estrada principal desta pequena vila em direcção ao castelo que é um dos maiores postais do país. 
Passamos por uma igreja ortodoxa, depois por uma igreja católica, segue-se o pitoresco edifício em madeira que foi em tempos o posto de correios da Rússia imperial. 


E a partir daqui é só mimos a registar. 




Água dos lagos de um lado e do outro, mais casas de madeira se seguirmos em frente. Todas as casinhas estão restauradas e cada uma parece esforçar-se por ostentar uma cor diferente da do vizinho.


Eis que chegamos, enfim mas sem esforço, ao final desta península donde se avista claramente uma ponte que liga a uma pequena ilha e dai mais uma ponte que liga à ilha onde todos queremos chegar: a ilha onde está implantado o Castelo de Trakai, único castelo numa ilha no norte da Europa.


Avistado a meia distância, o local é fantástico mesmo num dia de pouca luz. São 3 lagos que rodeiam as 21 ilhas e, cereja no topo do bolo, o dito castelo vermelho. 




Mais uma vez, à semelhança do que acontecia no Castelo de Turaida, na Letónia, não são os espaços expositivos no interior do castelo que nos movem. É mesmo a sua implantação, rodeado de um pedaço de natureza belíssima, e o ambiente de mistério e aventura em que nos vemos envolvidos quando percorrermos os cantos deste castelo. Portões, pontes, fossos, torres, canhões e somos de novo crianças. Não foi à toa que o grão-duque Gediminas fez de Trakai a sua capital no século XIV e, diz-se, adorava passar por aqui os seus dias. 




Os lagos são ideais para se alugar um barquinho e sair a explorar as ilhas que bóiam nas suas águas, algumas dessas ilhas minúsculas. Em terra encontramos ainda as ruínas de um outro castelo.


Outra das particularidades de Trakai é ser território da minoria Caraita, uma etnia turcomana, da qual subsistem cerca de 700 indivíduos que fazem questão de preservar a sua cultura, em particular uma língua própria e os pastéis kybinlar, impossíveis de evitar por Trakai.

quarta-feira, maio 03, 2017

A Outra Vilnius

Para não dizer que Vilnius é só igrejas e casas cremes de telhados ocres, eis alguma arte urbana em grafitti.



terça-feira, maio 02, 2017

Igrejas de Vilnius

Algumas das muitas igrejas da Cidade Velha de Vilnius: