terça-feira, fevereiro 13, 2007

Bilbao - Gastronomia e Cultura

Em qualquer texto sobre Bilbao não poderá faltar a menção a pelo menos dois aspectos que mais fielmente caracterizam a cidade: a sua gastronomia e a sua oferta cultural.

Quanto ao primeiro, a gastronomia, confesso que não tivemos nem disponibilidade de tempo nem monetária para nos lançarmos a descobrir os novos e modernos restaurantes da cidade. Optámos, assim, por nos imbuirmos no espírito bem espanhol – e também basco – juntando-nos à barra para pintxear, vulgo tapear.
Na Plaza Nueva encontramos alguns dos bares mais populares no que a esta actividade diz respeito (o Victor Montes e o Café Bar Bilbao são duas boas opções). Os pintxos por aqui são imaginativos, sofisticados e com todos os ingredientes que possamos desejar. O difícil é mesmo chegar até ao balcão, furando entre a multidão, para fazer o pedido. À parte a confusão para se aceder a este ritual, a arte dos pintxos é uma verdadeira cultura, com concursos para se eleger os melhores, livros com um sem número de receitas a eles dedicados e, ainda, rotas dos pintxos sugeridas para que não deixemos nada por saborear.



No que à oferta cultural diz respeito, o Museu Guggenheim é incontornável e pacificamente aceite como o grande e decisivo impulsionador desta nova Bilbao, culturalmente pujante. Lá chegaremos, então, que mais haverá a referir.
Existe um leque variado de museus na cidade, desde o Museu Diocesano de Arte Sacra (do qual só conhecemos os claustros do edifício onde está instalado e onde estava patente uma interessante e patusca exposição de presépios de natal), o Museu Basco, o Museu Taurino e o Museu Marítimo da Ria, até ao Museu de Belas Artes. Para além destes há que não esquecer a programação do Teatro Arriaga (teatro, música, dança), os espectáculos de música, dança, ópera e concertos que têm por cenário o Palácio Euskalduna e, também, as importantes exposições na Sala Rekalde (mais as inúmeras galerias que existem pela cidade).
Os dois museus que visitámos foram o de Belas Artes e o Guggenheim.
O primeiro, não tão falado e alardeado como o segundo, é uma grande surpresa.

O Museo de Bellas Artes de Bilbao expõe obras (pintura, escultura, desenho, gravura, artes decorativas) desde o século XII até aos nossos dias. Possui a segunda maior colecção de arte clássica em Espanha, logo a seguir ao Prado. Entre as inúmeras obras pertencentes ao museu encontram-se trabalhos de artistas como El Greco, Goya, Cezanne, Gauguin. Tenho ainda bem presente a recente entrevista do Presidente da Fundação de Serralves ao Público de domingo passado e concordo quando, a propósito da Colecção Berardo, afirma que não vale tudo ($) para se ter um Picasso quando provavelmente esse Picasso nem será um dos melhores. Não sei se efectivamente o Gauguin do Museu de Bilbao era um dos melhores, ou pelo menos um dos bons, de Gauguin. Sei apenas que só de pensar que um museu tem um Gauguin já fico absolutamente entusiasmada. Daí que a grande desilusão deste museu tenha sido não ter encontrado resposta à pergunta “mas onde raio é que se meteu o Gauguin?”. Ele não estava lá, pronto. Mas estava Vieira da Silva, Bacon, Tàpies, Barceló. Muito boa, interessante e divertida a parte do museu dedicada à arte contemporânea.


O Guggenheim de Bilbao é também um museu dedicado à arte contemporânea.
Talvez, as suas colecções e exposições não sejam o mais importante. Talvez percam para a arquitectura do edifício. Ainda que a sua colecção não seja de desprezar, o Guggenheim de Bilbao é, na verdade, muito mais do que um museu. É desde, logo, uma obra de arte no que respeita à arquitectura do edifício que acolhe outras obras de arte.
Frank O. Gehry, o arquitecto responsável pelo projecto, pôde aqui dar largas à sua imaginação, utilizando os materiais que lhe são queridos, em especial o titânio, e combinando as várias placas, sobrepondo-as às outras, retorcendo-as, dando, enfim, aquela característica tão típica e facilmente identificável das suas obras. Diz que queria que a forma do edifício fizesse lembrar um navio, o que bate certo com a sua implantação – na margem da ria Nérvion e numa cidade conhecida por ser (ter sido) portuária.


Mas o mais fantástico é que esta nova atracção turística é facilmente acessível. Literalmente. Podemos circular em todo o espaço exterior, mirando o edifício de bem próximo, ao nível do solo ou de um plano mais alto (do tabuleiro da Ponte de Salve ou, bem mais distante, do monte de Artxanda ou do Parque de Etxebarria), e tocando-o. Isto em relação à sua fachada. A excelência da sua arquitectura está igualmente presente no interior do edifício, e a entrada no átrio mais não faz do que prolongar o nosso deslumbramento.


A colecção permanente do Guggenheim de Bilbao é, muitas das vezes, acusada de não ser lá essas coisas. Pode ser. Para quem viva em Paris, Nova Iorque, ou numa qualquer cidade alemã. Não é o meu caso. Uma das instalações mais famosas deste Guggenheim é aquela que Richard Serra criou para a inauguração do museu, em 1997, a Serpente, à qual, entretanto, acrescentou outras sete esculturas. A “Matéria do Tempo” ocupa a maior sala do museu e apresenta-se-nos como uma série de esculturas em aço, de tamanho brutal, dispostas em forma de espiral nas quais podemos circular de forma quase infinita até que percamos a noção do tempo – e do espaço. O segundo andar do museu permite-nos uma visão total e abrangente desta instalação / escultura.


Mas onde este museu poderá demonstrar a sua força é na apresentação das exposições temporárias, já que aqui tem a oportunidade de receber mostras que passem por outros Guggenheim no mundo, designadamente na casa mãe de Nova Iorque. Não é o caso, no entanto, da exposição “100% África”, que ao que sei, não esteve até à data em nenhum outro museu desta “marca”.


A exposição “100% África” é apresentada pela Contemporany African Art Collection, conjunto de trabalhos de artistas africanos contemporâneos formada por um empresário suíço de nome Jean Pigozzi. O curioso é que esta exposição se propôs mostrar-nos a arte de cerca de 25 africanos que vivem e trabalham na África subsahariana, abarcando desde fotografia, pintura, escultura até objectos vários recriados através da mistura de despojos que à partida julgaríamos não servir para coisa alguma. Veja-se o exemplo da bicicleta e pássaro gigante de obra de um artista moçambicano.


Em resumo, uma sorte calhar de estar em Bilbao ao mesmo tempo que aí se apresenta uma exposição de arte contemporânea tão rica e, ao mesmo tempo, tão simples na mensagem e nos objectos que utiliza.


No espaço público (passeio) exterior ao museu encontramos ainda dois dos maiores símbolos que, depois do próprio edifício, melhor nos permitem identificar este marco da nossa cultura. Falo do “Puppy”, escultura gigante de um cãozinho coberto de florzinhas, criada pelo americano Jeff Koons, e “Maman”, a aranha em bronze, também gigantesca, criada por Louise Bourgeois.


Tudo em grande, já se vê.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Bilbao - Pontes

Em Bilbao a Ria de Nervion é omnipresente. Nas suas margens têm surgido algumas das maiores transformações que a cidade vem recebendo, nomeadamente a construção do Guggenheim e todo o arranjo do espaço público ribeirinho de Abandoibarra.
Esta Ria vai cortando a cidade de um ponto ao outro, ela que primitivamente se instalou apenas na sua margem direita onde, por exemplo, se encontra o Casco Viejo. Com o passar dos anos, o desenvolvimento do pueblo obrigou a que este se fosse estendendo para o que hoje conhecemos como a área do Abando, a mais recente, cosmopolita e o principal centro de comércio e negócios nos nossos dias.
Neste processo de expansão natural da cidade havia que vencer a barreira da água. Não seria um trabalho difícil, mesmo na época da fundação da cidade, em 1300, uma vez que a ria não tem mais do que 30 a 50 metros de largura.
Percorramos, então, as pontes de Bilbao.

A primeira ponte com que nos deparamos em Bilbao, num sentido leste-oeste, a caminho do Mar Cantábrico, é a Ponte San Antón, a qual se presume ser anterior à própria fundação da cidade. É igualmente conhecida como “Puente Vieja” dado o seu título de mais antiga e, durante muitos anos, única. É um símbolo da cidade e, a prová-lo, a sua imagem faz parte do escudo de Bilbao. Veio, todavia, a ser reedificada em 1937, após a guerra civil.


Segue-se a Ponte de La Ribera e situa-se bem pertinho do Mercado com o mesmo nome. Esta ponte foi construída em 1939 mas neste mesmo lugar existia anteriormente uma ponte colgante (transportadora) desde 1827 (ainda mais antiga do que a famosíssima que vemos hoje em Portugalete).


A próxima que se avista é a Ponte de La Merced, construída em 1886 e reconstruída em 1938. O nome tomou-o de um Convento que no século XVII existia ali bem perto.


Caminhando, ou melhor, navegando rumo ao centro cívico da cidade chegamos à Ponte del Arenal. Esta ponte foi a terceira a ser construída (depois da de San Antón e da ponte colgante que existia onde hoje se situa a de La Ribera), em 1847. Teve como objectivo maior fazer face ao crescimento de que Bilbao vinha tendo e ligou a cidade velha à República de Abando, não sem os protestos dos habitantes desta última que não concordavam com a anexação do seu território por parte dos bilbainos.


Bem junto à Câmara Municipal temos a ponte com o mesmo nome, a del Ayuntamiento. Foi construída em 1934, e reconstruída em 1940, tendo sido, inicialmente, uma ponte levadiça. A partir de finais dos anos 60, com o fim do tráfego mercantil pela Ria, tornou-se apenas fixa e daquelas que se situam no centro é a mais concorrida no que a trânsito automóvel diz respeito.




A ponte seguinte, no sentido que temos vindo a tomar, é um dos ex libris de Bilbao. Da moderna Bilbao. A Ponte Zubizuri, de 1997, projectada por Santiago Calatrava, é exclusivamente pedonal, ligando o Campo de Volantin ao Paseo de Uribitarte, numa área que oferece a todos nós a possibilidade de caminharmos sem preocupações de maior senão a de contemplar a sua fina arquitectura. Cuidado, no entanto, se estiver a chover e quisermos atravessar a ponte. As quedas costumam ser mais que muitas. Enfim… se os materiais usados não previram aquela possibilidade, a originalidade e estética do seu desenho compensam os tombos, mesmo que estes aconteçam à noite, quando a iluminação da ponte nos proporciona um visual quase perfeito.



Segue-se a Ponte Príncipes de Espanha, mais conhecida como La Salve. Foi construída em 1972 para fazer face ao trânsito que inundava esta parte da cidade. Para além do seu colorido verde, tem ainda como marcas características, a torre elevador amarela do seu lado direito (caso o elevador esteja avariado pode-se subir de escadas até à sua plataforma; o que não se pode é perder a possibilidade de se obter uma vista privilegiada do Guggenheim) e a torre que foi posteriormente construída para o lado contrário no sentido de integrar a ponte com o museu. A este propósito, e aproveitando que o museu cumpre em 2007 10 anos de existência, em Dezembro encontravam-se em exposição no Guggenheim as maquetas de três propostas para intervenção artística nesta Ponte, com o objectivo de valorizar ainda mais toda a envolvente. A proposta vencedora propõe-se recriar o arco da Ponte de Salve, passando a sua cor para um vermelho vivo. Para saber mais sobre o assunto é clicar aqui.


Deixados Calatrava e Frank O. Gehry para trás aparece-nos, em seguida, a Ponte Pedro Arrupe. Procura unir o Passeio de Abandoibarra com a Avenida das Universidades. No que a modernidade diz respeito, estão em boa companhia as obras daqueles dois arquitectos, não se pode negar. A última ponte que Bilbao recebeu, em apenas 2003, foi obra do já falecido engenheiro José António Fernandez Ordoñez, que não foi a tempo de constatar o quão fotogénica a sua obra é, principalmente no que ao seu desenho diz respeito se observado por baixo da ponte, bem ao nível da água.


A próxima é a Ponte Deusto. Construída em 1936, começou por ser móvel e veio possibilitar a expansão da zona de Deusto que, assim deixou de ser quase exclusivamente agrária.


Por fim, a Ponte Euskalduna. Tal como a de Calatrava, foi construída em 1997, e da sua plataforma obtêm-se vistas privilegiadas para o Palácio Euskalduna – centro de congressos – e para a área do porto hoje reconvertida em Museu Marítimo.


Já fora de Bilbao, mas ainda parte da sua área metropolitana, encontramos aquela que é, provavelmente, a mais famosa de todas as pontes que aqui estão presentes. É ela a Ponte Colgante (transportadora) que liga as cidades portuárias de Portugalete e Getxo. Foi construída em 1893, por Alberto Palácio, engenheiro basco discípulo de Gustave Eiffel, o que faz dela a mais antiga ponte transportadora do mundo. Tem ainda o privilégio de constar da lista do Património da Humanidade da Unesco.
Como novidade trouxe a possibilidade dos habitantes das duas cidades poderem atravessar a ria sem que isso perturbasse o tráfego marítimo e sem que fosse necessário construir uma estrutura muito alta. Assim, no que se observa hoje em dia, uma espécie de cabine realiza a travessia, presa por cabos metálicos, com capacidade para transportar cerca de 6 carros e dezenas de passageiros em um minuto e meio, com uma frequência quase ininterrupta. Estimativas recentes de 2002 apontam que em 109 anos de história (até essa data) a dita cabine tenha transportado cerca de 650 milhões de pessoas, numa médio de 6 milhões por ano.
Desde 1999 que existe uma passadeira pedonal a 50 metros de altura que permite a visita de quem queira explorar a engenharia da ponte de mais próximo ou aproveitar a vista aérea das cidades portuárias. Não estivesse o tempo chuvoso e nublado e a conclusão desta história poderia ser outra, mais pormenorizada e entusiástica, certamente.
Não obstante, esta ponte, que tem como nome oficial “Puente Vizcaya”, é sem dúvida um marco de engenharia, bem junto a uma cidade pitoresca como é Portugalete, e não falta nem uma canção que lhe presta homenagem “Puente de Portugalete, tu eres el más elegante, Puente de Portugalete, el mejor Puente Colgante…”

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Bilbao - Parques e Miradouros

Como referi em post anterior, Bilbao é conhecida como “El botxo”, “o buraco”, por ficar situada lá em baixo, com as montanhas protegendo as suas margens. Não tem as 7 colinas, como Lisboa. Nem tem um desnível tão característico e carismático como o da nossa cidade. Mas tem, à semelhança de Lisboa, uns quantos funiculares e elevadores que se propõem vencer a batalha da acessibilidade às partes altas da cidade.

Na Praça do Funicular, bem atrás do Campo de Volantin na direcção da Ponte Zubizurri, de Calatrava, apanha-se o funicular Artxanda. São cerca de 700 metros de subida no confortável eléctrico encarnado. E a chegada ao topo deixa-nos num parque bem cuidado, a convidar ao ócio, lazer ou exercício. E a vista! Para um lado temos a cidade de Bilbao lá em baixo, com a ria de Nervion a dividir a terra e o Guggenheim sempre presente. Para o outro lado temos o aeroporto ao fundo, com o inconfundível traço de Calatrava no seu novo terminal. Em resumo, a pacatez no alto da cidade.


De Artxanda é ainda possível observar-se bem vincado na paisagem a grande área que toma o Parque Etxebarria, que parece querer subir aos ombros do Casco Viejo. É destes pontos mais altos das cidades, “as vistas de pássaro”, que nos permitimos compreender melhor a ocupação dos seus espaços. E daqui observa-se como é ainda marcante a presença da memória da indústria na cidade, nomeadamente pela integração das grandes chaminés nos novos bairros ou na reconversão das antigas zonas industriais em áreas de lazer.


Ao Parque Etxebarria pode aceder-se desde o Casco Viejo, seja por um dos ascensores seja a la pata. Estranhamente (lá calhou), optámos por subir a pé a imensa escadaria de Calzadas de Mallona, dirigindo-nos até à Catedral de Begoña, e descer de ascensor depois de uma volta pelo parque. A mãe é que não achou muita piada à estafante ideia mas..., enfim, a vista desde este outro ponto alto da cidade foi uma vez mais compensadora, sendo muito abrangente e esclarecedora dos contornos de Bilbao.


A área onde hoje se encontra instalado o Parque Etxebarria era, até há 25 anos atrás, ocupada por uma fundição e tornou-se no primeiro exemplo da guinada da cidade de Bilbao rumo à reconversão urbanística. Comparando o que era nos anos 80 e o que é hoje esta parte da cidade, diriamos que esta sofreu um transplante de rosto total e a indústria de ontem deu lugar ao imenso verde de espaço público onde os míudos jogam à bola nos campos informais, correm, andam de skate ou, simplesmente, sentam junto à antiga chaminé contemplando o Casco Viejo lá em baixo.


E já que falamos de parques, passemos então para o Doña Casilda, este já não num ponto elevado da cidade, mas antes ao nível da ria. Bem perto da ria, para ser mais correcta. Este carismático parque, a completar 100 anos, fica situado entre o Palácio Euskalduna (Centro de Congressos) e o Museu de Belas Artes, logo, numa área muito concorrida. No centro do parque encontramos um edifício em estilo romântico, em cujas arcadas se reunem os jovens que animam quem por aí vai pass(e)ando. Não lhe faltam os lagos com os patinhos, realçando a vida campestre. Este parque tem estado em constante renovação e não tem parado de crescer. Hoje, a cafetaria do Museu de Belas Artes está plenamente integrada na área do parque e, por outro lado, este vem ainda estendendo-se para mais próximo da água até tocar e quase se fundir com a área de Abandoibarra colada à ria.


Esta zona circundante à nova Avenida Abandoibarra, que liga o Euskalduna ao Guggenheim, passando pelos recentes hotel Sheraton e centro comercial, oferece-nos um novo parque, conhecido como Paseo de la Memoria. Os seus objectivos são ambiciosos já que se propõe abranger muito para além da área que liga aqueles dois novos símbolos da cidade, estendendo-se por quase toda a orla direita de Bilbao, até às portas do Casco Viejo. No meio deste intenso verde encontramos um sem número de obras de arte pública, incluindo a “Bailarina” de Dali, e um jardim infantil bem em frente do Guggenheim, em cujos cavalinhos passei, aliás, a meia noite de 2006 para 2007. Aqui, à semelhança do que acontece com o nosso Parque das Nações, igualmente um bem sucedido projecto de reconversão urbanística, devemos estar atentos aos detalhes, não só das esculturas que nos vão aparecendo amíude, como também dos candeeiros, dos bancos, dos caixotes de lixo e de todas as outras infra-estruturas que lá estão para nos servir em todos os sentidos.

A Bailarina de Salvador Dali

Os candeeiros do Euskalduna

A mega chávena em frente ao Sheraton

Estamos, então, conversados no que a parques diz respeito? Parece que não. E digo parece porque estes foram apenas aqueles que conseguimos visitar nesta curta jornada, mas muito haverá ainda para descobrir nesta nova cidade com o novo propósito de ser vivida pelos seus habitantes.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Bilbao – Cidade Velha / Cidade Nova

Na generalidade, quando se visita uma cidade, ainda que a mesma esteja conotada com a modernidade e as obras recentes que a revolucionaram, é praticamente impossível não se dedicar parte do nosso tempo ao seu “centro”.
E no caso de Bilbao merece bem a pena que assim seja.
Como o referido em post anterior, a cidade foi fundada no ano de 1300, junto à ria. Até hoje permanece o traçado do que se denominou de “Siete Calles”, também conhecido como o “Casco Viejo”. Estas 7 ruas, estreitas, às quais hoje em dia desembocam mais um sem número de ruas ainda mais estreitas, estão pejadas de tabernas e restaurantes para todas as bolsas, bem como lojas de comércio mais tradicional ou da moda. Muito pitoresco, com as casas bem conservadas e com o seu colorido a dar mais encanto a quem por lá passa.


Como não podia deixar de ser, cidade espanhola sem a sua “Plaza” não é cidade espanhola. Em Bilbao este lugar toma o nome de “Plaza Nueva”, ampla e com arcadas, como se pede, e com uma animação quase constante em todos os minutos dos dias. Às horas das refeições, os locais ficam em pé à porta dos bares / restaurantes (porque não cabe mais ninguém lá dentro) ou sentados na esplanada aí perto. Para nós, pouco habituadas a este tipo de confusões para jantar, foi uma autêntica aventura, primeiro, conseguir pedir ao empregado uma dúzia de pintxos, depois, sair com os pratos empurrando a multidão aglomerada no bar sem os deixar cair.
Enquanto os pais, avós, tios, o que seja, convivem animadamente e bebem qualquer coisa, as crianças brincam, jogam à bola, andam de patins ou de skate no centro da praça. Ao domingo o local transforma-se com as bancas que lá são instaladas por aqueles que querem vender tudo e mais alguma coisa. Antiguidades e não só. Uma mini feira da ladra, onde ao lado dos vendedores mais ou menos profissionais se juntam aqueles que se querem desfazer dos seus tarecos.


Aqui perto do Casco Viejo fica o Mercado de la Ribera, com direito a site na Internet e tudo.
Segundo o site oficial do turismo de Bilbao, em 1990 este mercado de alimentos foi mesmo reconhecido pelo Guiness como o mais completo e é o maior no que diz respeito a número de comerciantes e postos de venda, bem como o maior mercado coberto da Europa, com 10 mil m2. Ufa! Com tantos dados estatísticos, resta acrescentar que o seu edifício, em art-deco, foi construído em 1929 e o seu amplo interior se divide em 3 andares. No rés-do-chão ficam as bancas do peixe, marisco e congelados; no 1.º andar as de carne e charcutarias; e no 2.º andar as de frutas e verduras. Ao tempo que o visitamos, o último andar servia ainda de espaço de exposições.
À frente do mercado encontram-se as arcadas dos edifícios da Rua de la Ribera. É obrigatório olhar para os seus tectos, de outra forma é muito fácil perdermos irremediavelmente um pouco da arte presente nas ruas da cidade. Os tectos estão pintados com motivos diversos – um parece remeter-nos para um imaginário indígena, outro para um ambiente bucólico, logo seguido de outro que relembra a violência da guerra e outro ainda que nos oferece o colorido da cidade moderna, acompanhada pela musicalidade das pautas.


A merecer uma olhada mais atenta, ainda, no centro antigo da cidade destacam-se as várias igrejas (San Antón, San Nicolás, Santiago) e o Teatro Arriaga.


Para além do núcleo mais antigo da cidade, vale igualmente a pena deambular pelas suas zonas mais recentes, não aquela que nos nossos dias anda nas mãos dos arquitectos mais famosos e nas bocas do mundo, mas sim aquelas para a qual Bilbao, tentando combater a falta de espaço, cresceu e se expandiu nos finais do século XIX, cujos projectos foram designados por “El Ensanche”. Daí a criação dos actuais bairros de Begoña, Deustu e Abando. Neste último, na margem esquerda da ria, fica o que hoje se considera o centro da cidade. Centro financeiro e centro de comércio, não abdicando, porém, de conservar áreas residenciais. A Plaza Moyua desempenha um papel de eixo central sendo atravessada pela Gran Via. Pelos quarteirões afora encontram-se alguns edifícios imponentes e elegantes, bem como ricos nos seus pormenores. É aqui nesta zona que estão situados 2 dos 3 mais afamados e populares cafés de Bilbao – o La Granja e o Iruña (o Boulevard fica no Arenal e encontrava-se encerrado aquando da nossa passagem pela cidade). O La Granja parece conservar uma atmosfera algo senhorial, enquanto que o Iruña possui uma decoração mourisca bem vincada quer nos seus azulejos quer em algum do seu mobiliário.


Um pouco mais afastado de Abando, já no que será considerado o bairro Basurto, fica o estádio de San Mamés. O nosso interesse pelo desporto em geral, e o futebol em particular, leva a que não nos esqueçamos de dar uma passada pelos estádios das cidades que visitamos. E aqui, mais uma vez, confirmamos que não é inevitável que estes grandes equipamentos sejam atracções de circo absolutamente disformes, monstruosos e desintegrados do local onde se encontram (logicamente que tenho sempre presente os maus exemplos dos estádios do Sporting e Benfica na minha cidade, Lisboa, e nos bons exemplos dos estádios do Boavista, no Porto, e do Vitória, em Guimarães). O estádio de San Mamés, onde joga o Athletic (a par do Real Madrid e do Barcelona é um dos 3 únicos clubes espanhóis a ter o privilégio de nunca haver sido relegado para a II divisão), ocupa discretamente um quarteirão (à semelhança, aliás, do que acontece com o estádio do Real, em Madrid) desde 1913, o que faz com que seja o mais antigo de Espanha, ainda que tenha sofrido uma profunda reabilitação por ocasião do Mundial FIFA de 1982. Para breve prevê-se a construção de um novo estádio numa área adjacente ao actual.


Por explorar, na zona mais central de Bilbao, ficou o bairro de Deustu, a provar que 3 dias inteiros gastos apenas na cidade não são demais.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Bilbao - Apresentando

Bilbao é carinhosamente conhecida pelos seus habitantes por “El botxo”, ou seja, “o buraco”, dado que a sua situação geográfica a mantém rodeada de montanhas.


Quando disser que vai até Bilbao, a passeio, não será muito provável que oiça vozes a dizer "o que vais fazer para aquele buraco?". Mas é certamente muito provável que oiça vozes a estranhar a escolha do destino argumentando que nada há que fazer / ver nessa cidade industrial. Aí, desconfie: ou o seu interlocutor não está a par da actualidade ou não aprecia a evolução urbanística.
Porque é disso que se trata – a reconversão de uma cidade no sentido de a guiar à modernidade e às exigências que se pedem a uma cidade do século XXI.

Efectivamente, Bilbao, situada no País Basco, norte de Espanha, virada para o Golfo da Biscaia, ganhou fama por ser uma cidade altamente industrial. Antes disso, porém, em 1300 foi-lhe concedido o título de cidade por Don Diego Lopez de Haro, que hoje dá o nome à Gran Via, a avenida das compras por excelência. Foi só no século XIX que Bilbao se desenvolveu e transformou de uma forma intensa, baseada na exploração das zonas mineiras ali perto que levaram a que o comércio marítimo e a actividade portuária crescessem de uma forma exponencial. A acompanhar essa situação, também a indústria siderúrgica e a construção de barcos contribuíram para o seu crescimento económico. Com a chegada dos caminhos-de-ferro no fim daquele século, estava montado o cenário ideal para que Bilbao ganhasse a tal fama de cidade industrial, com maquinaria e edifícios pesados, bem como bairros residenciais de operários.

Acontece que chegou a década de 70 do século XX e com ela o fim da industrialização. Chegou ao fim, igualmente, o Franquismo e com isso veio a democracia e o estatuto de autonomia do País Basco. Mas tal não obstou à inevitabilidade da decadência da cidade, em termos económicos, a qual era mais do que iminente – já tinha chegado. Para agravar ainda mais a situação, em 1983 a cidade sofreu grandes inundações. No entanto, como diz o ditado “há males que vêm por bem” e, face a dois caminhos para se seguir, o de deixar o tempo correr pela cidade ou, pelo contrário, criar a cidade o seu próprio tempo, os poderes públicos que governam Bilbao optaram por este último. Ou seja, realizaram que a necessidade de dar uma nova cara à cidade, criando novas infra-estruturas e serviços, era imperiosa.
Vai daí, pararam para pensar a cidade e em 1992 foi criada a Bilbao Ria 2000, constituída por capitais públicos, com o objectivo de actuar no âmbito do urbanismo, transportes e meio ambiente – o tridente da moda –, recuperando zonas degradadas ou áreas industriais em declínio na área metropolitana de Bilbao.
De notar que esta área metropolitana é composta por quase 1 milhão de habitantes, ainda que a cidade de Bilbao tenha apenas cerca de 300 mil.

O que se observa hoje é uma cidade pujante, cheia de vida nas ruas (o que é comum a muitas cidades espanholas), as quais estão ocupadas com as lojas das melhores marcas mundiais, com restaurantes e uma gastronomia altamente elogiada, oferta cultural ao nível de uma capital, uma rede de transportes eficiente e variada e, talvez o mais visível, um atelier a céu aberto no qual os grandes nomes da arquitectura mundial fazem questão de marcar presença.
Concluo esta introdução à cidade realçando brevemente estes dois últimos aspectos: os transportes e os arquitectos.


Quanto aos transportes, para além do comum autocarro (Bilbobus), existe ainda a possibilidade de nos movermos através do agradável, moderno e rápido Euskotran (um eléctrico verde, em todos os sentidos, do século XXI) e do Metro .


O Metro foi desenhado por Norman Foster (escolhido para recuperar o bairro da Boavista, em Lisboa, cujo projecto se viu envolvido em polémica por contemplar um torre de 100 metros de altura, contrariando o PDM local). Graças à originalidade das suas entradas em Bilbao, logo designadas pelos locais por “fosteritos”, a sua imagem é hoje reconhecida em qualquer canto do mundo. Em 1998 o Metro de Bilbao ganhou o Premio Brunel de Arquitectura ferroviária. Dispõe de duas linhas que não se limitam à área da cidade, antes nos levam até Portugalete, uma, e Plentzia, junto às praias, a outra.
A cidade está ainda provida de comboios e aviões. O seu aeroporto é também um dos focos de atenção do mundo – o novo terminal, concluído em 2000, é obra de Santiago Calatrava, o espanhol nosso conhecido por ser autor da Gare do Oriente em Lisboa. Encontram-se algumas semelhanças em vários detalhes das duas obras, graças ao estilo inconfundível das criações de Calatrava.

Aproveitando a deixa da referência a Calatrava, entremos então no tema arquitectura e comecemos por referir que este arquitecto espanhol deixou também a sua marca no traço da ponte Zubizuri, a mais original e facilmente confundível com a nova imagem da cidade. Este símbolo é apenas superado pelo edifício do Museu Guggenheim, desenhado pelo arquitecto americano Frank O. Gehry, o mesmo que o nosso ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa escolheu para recuperar os terrenos do Parque Mayer (aí vão três as comparações com arquitectos que também projectaram para Lisboa; a diferença é que em Bilbao foram em frente sem medo da mudança e do “abalo” urbanístico e em Lisboa se hesita e se esbarra nas burocracias instaladas). Voltando ao Guggenheim, esta obra confunde-se com a cidade e foi, definitivamente, o foco catalizador para toda esta força e vitalidade que Bilbao demonstra. Mas há mais: o novo Palácio Euskalduna de Congressos e de Música, de 1999, a ampliação do Parque de Doña Casilda, junto ao Euskaduna, Guggenheim e Nervión; toda a frente ribeirinha do Abando e Campo de Volantin, consagrada exclusivamente ao ócio, lazer ou prática de desportos ao ar livre – corrida, patins e bicicleta.


E as transformações não param. Para breve prevê-se o andamento da reconversão de uma outra zona da cidade, uma península no meio da ria junto ao bairro de Deusto, cujo projecto foi designado “Zorrotzaurre Skyline” e é de autoria de outro nome consagrado da arquitectura: desta vez uma senhora, a iraquiana Zaha Hadid.

Como se vê, Bilbao tem tudo o que se quer / espera de uma cidade, incluindo uma vila mártir a poucos quilómetros – Guernica – e praias a igual distância, com direito ao bónus de uma das melhores ondas para o surf da Europa (se não a melhor) – Mundaka.
Como diriam os brasileiros, “Bilbao está podendo”.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

23:59 – 00:00 (2006-2007)


Poucos locais mais insipiradores para se passar o ano haverá do que fazê-lo face a face com uma das maiores obras de arquitectura moderna. E se o fizermos com menos de uma dezena de pessoas à volta então...
Junto ao Guggenheim de Bilbao, numa noite convidativa, sem muito frio, e com os locais espanhóis retidos em suas casas, com a família e amigos, e entretidos a mandar foguetes das suas janelas para os céus (incluindo para as placas de titânio que fazem a fama do edifício projectado por Frank O. Gehry), coube-me, assim, o privilégio de virar o ano na melhor companhia e no melhor local.
Depois, enquanto os bilbainos saiam finalmente para as ruas para comemorar, passeei junto ao estreito rio Nervion e atravessei a ponte Zubizuri, desenhada por Calatrava, retornando serenamente até ao quarto de hotel.
Um 2007 de muitos passeios, é o que se espera.

terça-feira, dezembro 26, 2006

Lago dos Cisnes


A ver: O Lago dos Cisnes em Lisboa, no Teatro Camões, cortesia da Companhia Nacional de Bailado.
A primeira vez que fui ao bailado foi, precisamente, para ver o Lago dos Cisnes. E fi-lo a turismo.
Passo a explicar. Qualquer visita Moscovo não ficará completa sem uma ida ao ballet ou à ópera. E não existe lugar mais clássico para o fazer se não no mítico Teatro Bolshoi.
Ora, o Lago dos Cisnes, composição musical de Tchaikovsky, foi pela primeira vez apresentado no Bolshoi, em 1877. Parece, por isso, previsível que a nossa escolha tenha recaído nesta obra e neste monumento. Sim, monumento, uma vez que o edifício onde a companhia está sedeada é de uma imponência e, ao mesmo tempo, elegância que respeita toda a tradição cultural russa. Curiosamente, a fachada do nosso Teatro D. Maria II é muito parecida com a do Bolshoi.
No entanto, a compra de bilhetes para se assistir às suas apresentações não se compara em dificuldade. Em Moscovo havia-nos sido sugerido que adquiríssemos os bilhetes num quiosque perto do Teatro. Bem o tentámos, num daqueles com cartazes a decorar os seus vidros, nos quais apenas se reconheciam algumas figuras, uma vez que o alfabeto em cirílico é só para entendidos. Os entraves ao sucesso da nossa missão começaram por se revelar aqui: o que escolher? a que é que estes bonecos correspondem? como se pede um bilhete? porque o sr abana a cabeça? o que querem dizer aquelas palavras e aqueles gestos? não há peças nesta temporada? os bilhetes já se acabaram? temos mesmo que nos dirigir à bilheteira do teatro?
Sim. Tivemos. Mas aqui a história repetiu-se. Daí que não nos restou outra se não a opção que não desejávamos: recorrer aos serviços do hotel, os quais para turistas arranjam sempre bilhetes para o teatro, ballet, ópera ou qualquer outro evento cultural. Detalhe: aqui os preços mais do quadruplicam. Na verdade, até nem parece nada mal que existam preços muito acessíveis para os russos, uma vez que estes sempre fizeram gala e uso do acesso generalizado dos seus cidadãos à cultura. O que não parece nada bem é aproveitarem-se dos legítimos desejos dos turistas em beberem da cultura russa e cobrarem cerca de 45 euros por um lugar no 3.º andar do Teatro e nem sequer acompanharem o mágico bilhete de uns simples binóculos.
Ok.
O ballet foi deslumbrante.
E agora Lisboa.
Cliente recentemente assídua das apresentações da Companhia Nacional de Bailado, o nosso Lago dos Cisnes foi também belíssimo. Mais “moderno”, numa adaptação com final feliz, talvez para ir ao encontro da época natalícia. Assim, a princesa Odete, aquela que foi transformada em cisne pelo barão para que a desviasse do caminho e do amor do príncipe Siegfried, acaba, nesta versão do bailado, por viver feliz para sempre nos braços deste último, cabendo ao mau da fita a morte. Pelo contrário, na versão original o par romântico não tinha um final feliz mas antes trágico.
Destaque nesta apresentação para os cenários – sempre lindíssimos, cheios de cor e vida – e para os bailarinos, a sempre presente Ana Lacerda e o emprestado cubano Carlos Acosta.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Músicas

Por vezes passam-se meses sem que tenha oportunidade de fazer umas das coisas de que mais gosto (a par de viajar): ir ouvir música. Os meses de Novembro / Dezembro foram generosos nisso:
Gotan Project (que havia “perdido” em Julho por estar de férias), Lloyd Cole, Lisa Germano, Lambchop.
Nada mau.

Gotan Project, num Coliseu dos Recreios cheio, cheio, não desiludiu. Pura energia e psicadelismo electrónico misturado no tango. Em comparação com o Bajofundo Tango Club perdeu no intimismo que o Coliseu não permite e que a exiguidade do Teatro Variedades nos dá. Como bónus, ainda uma sessão de Sam The Kid.

De Lloyd Cole já havia escrito anteriormente. Nunca desilude nas suas cantigas / baladas melancólicas e o seu concerto só veio foi tarde, no que à minha estreia diz respeito.

Lisa Germano no Santiago Alquimista. Apenas a conhecia de ouvir 1 música na Radar. Depois de “After Monday” não restou outra solução se não ir ouvir mais do seu novo álbum, "In The Maybe World". A curiosidade de ir descobrir o Santiago Alquimista fez o resto – concerto numa sala a condizer com a música suave da americana que parecia que cantava para os amigos. Estes pediam uma música e Lisa obedecia. Se não o fazia era porque já não se lembrava da música ou da letra, respondia. É pá, peraí! Não lembrava? Então quer dizer que a rapariga não é nenhuma miúda? E tem músicas antigas? Lá tive que ir ouvir o seu historial completo (e foram mais 6 álbuns desde 1991).


Por fim, Lambchop. Talvez a minha banda preferida da actualidade e, por isso, não podia faltar. O lugar? As cadeiras duras para o rabo e desconfortáveis para os joelhos da Aula Magna. A banda é composta por mais de uma dezena de elementos, com Kurt Wagner, um ex-ladrilhador, como vocalista, e nessa noite ainda acompanhada pelos Hands of Cuba, também de Nashville, Tennessee. Há quem classifique a sua música na categoria de alternative country. Talvez sim, mas é também rock e electrónica ou soul e lounge. O certo é que são sussurros saídos da voz muito característica de Kurt, não muitos fáceis de acompanhar cantando mas deliciosos para os meus ouvidos. Concerto excelente. A repetir. Curiosos dois momentos da noite: um 1.º quando uma “maluquinha” saiu da plateia e foi colocar-se entre os muitos elementos da banda, limitando-se a abanar o corpo convenientemente ao som da música para logo voltar para o seu lugar quando esta terminou; um 2.º quando Kurt Wagner, no final, deixou algo esbaforido a sala pela porta que o comum dos mortais utiliza para momentos depois o encontrarmos no hall do edifício a distribuir autógrafos a quem quisesse.

Que o ano de 2007 nos continue a brindar com boas músicas e bandas ao vivo, são os nossos votos.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Que 10 años no es nada

Faz agora 10 anos – 1 década (!) – que pisei pela primeira vez a Argentina.
Por essa altura tinha inequivocamente um destino favorito, o Brasil, e uma cidade que julgava insubstituível, o Rio de Janeiro. Hoje o Brasil foi sem dúvida substituído pela vizinha Argentina. O Rio de Janeiro, esse, continua rei e senhor do meu destino, a tal ponto que, mesmo não conhecendo a maior parte do mundo, ficarei sempre na dúvida se me propuserem uma visita a uma cidade / país desconhecido ou ao Rio. Essa dúvida aumentará ainda mais se for obrigada a escolher entre o Rio e Buenos Aires.
Há 10 anos, então, aproveitando que a minha cidade – Lisboa – iria ficar semi parada pela visita de Bill Clinton e que os feriados de 1 e 8 de Dezembro calhavam num domingo – o único dia de trabalho, na altura, fora da vida de estudante – decidi comunicar aos meus pais que eu e a minha irmã iríamos viajar até à Argentina. Seria a primeira viagem que faríamos sozinhas, sem os pais ou sem alguém no destino que olhasse por nós.
Porquê a Argentina? Não faço ideia, mas a esta distância penso que Gabriel Batistuta e Gabriela Sabatini tiveram alguma influência sobre a decisão. Afinal de contas, o desporto sempre havia estado presente na minha vida e, assim, não seria estranho que, por exemplo, Borges, Gardel ou Che nada tivessem a ver com o assunto.
A viagem até nem começou nada bem. À chegada a São Paulo, e enquanto esperávamos o avião que nos levaria para Buenos Aires, descobrimos que a nossa bagagem havia ficado em Lisboa e que, com boa vontade, estaria em nosso poder cerca de 2/3 dias depois, uma vez que ficaríamos apenas 1 dia em Buenos Aires (depois regressaríamos) e iríamos imediatamente para Puerto Iguazu. Assim foi. De propósito, para irmos buscar os nossos pertences, tivemos que atravessar a fronteira Argentina / Brasil até ao aeroporto de Foz de Iguaçu, a melhor garantia para termos as malas mais rapidamente.
Antes disso, porém, escolhemos pernoitar em Buenos Aires num hotel de nome “Lisboa”. Está visto o porquê da escolha, não? O hotel era na verdade de 2 estrelas, apesar de vir descrito nos panfletos como sendo de 3 estrelas. Pedimos um quarto para 2 pessoas mas quanto o abrimos descobrimos que daria para 3 pessoas. Estranho. Quando saímos para a rua chegámos à conclusão que para a recepcionista não deveria ser nada estranho, afinal a rua do hotel tinha um cinema tipo “Olímpia” ou “Cine-Bolso” mesmo em frente e talvez a senhorita tenha pensado que as duas chicas solitas iriam em busca ou esperariam por companhia.
O dia da chegada a Buenos Aires foi a um domingo. No caminho do aeroporto para o centro o que mais impressionou – pela positiva – foram os magotes de pessoas que se encontravam à beira da auto-estrada a fazer piqueniques, aproveitando o verde da relva e os raios de sol. Depois, já no centro, nas ruas nas traseiras da Av. 9 de Julho (famosa pelos recordes de mais larga do mundo e por acolher o obelisco) o que mais impressionou – pela negativa – foi a quantidade enorme de lixo armazenado em sacos às portas dos edifícios.
A ausência de malas, a escolha do hotel e as ruas sujas e semi desertas de domingo tinham tudo para produzir um impacto não muito simpático e acolhedor da cidade mas… aquelas primeiras impressões esfumaram-se num ápice.
Para a memória da estadia em Buenos Aires fica a inclemente chuvada que caiu apanhando-nos desprevenidas na rua. Mas fica também a simpática oferta de uma boleia no chapéu-de-chuva que um guapo argentino nos ofereceu enquanto se encontrava parado, tal como nós, à espera de atravessar a rua. Fica ainda a recepção mais do que amigável, diria até paternal, que o poeta argentino Alberto Mosquera Montaña e sua senhora nos conferiram na nossa ida ao Café Tortoni, um dos mais mítico da cidade.
Fica também a ida ao Café La Biella, mais descontraído e moderno, e o estranho que foi ver as pessoas ali acomodadas a ler o jornal ou a conversar, com apenas uma bebida em cima da mesa, sem pressas, quer pela sua parte como pela parte dos funcionários. E os gelados Freddo! Tudo isto na Recoleta, famosa pelo seu cemitério. Também aqui, pela primeira vez, entrámos voluntariamente num cemitério e, desde aí, procuramos incluir uma visita a estes recantos de repouso nas nossas viagens. Ficará, ainda, na memória o preço exorbitante das coisas, bebidas a 400 escudos, refeições no Hard Rock Café (também o primeiro que visitei) a quase 2000 escudos. Uma loucura que teve o seu crash em 2001.
Nunca mais voltei a Buenos Aires, apesar de sempre pensar em fazê-lo. Em 1998, no entanto, voltei à Argentina mas dessa vez fui apenas a Bariloche, em trânsito vinda do Chile.
10 anos se passaram, quem diria?

quarta-feira, dezembro 06, 2006

A Conversa

- Where are you from?
- (silêncio)
- France, Italian?
- (silêncio)
- Spain?
- Não, Portugal!
- Oh! Figo! Cristiano Ronaldo!

9 em cada 10 conversas pelas ruas da Turquia mais ocidentalizada (porque não tive oportunidade ainda de conhecer outra) começam desta forma.
São uns chatos, estes turcos. Não nos largam até conseguirem satistazer a curiosidade de saber de onde vimos. Talvez para escolherem mais acertadamente a táctica para nos convidarem a entrar na sua loja, beber um chá, ver uns tapetes e uns kilims.
Não, nada chatos estes turcos. Se não quisermos comprar, não compramos, é o aviso prévio que nos fazem saber. Temos pelo menos é de dar uma olhada pela sua mercadoria e, mais importante, dar dois dedos de conversa.
Afinal, uns queridos, estes turcos.
Numas das conversas travadas com os turcos – sempre homens, porque os negócios por aqui são coisa deles – o rapaz começou por confessar não aguentar mais a curiosidade de nos ver passar para lá e para cá pela sua rua sem que lhe deitassemos um olhar (à sua loja, entenda-se) ou lhe respondessemos à sua pergunta (where are you from?). Satisfeita a sua curiosidade da proveniência das portuguesas, ficou encantando por obter réplica à afirmação de que a sua cidade natal era Van. Perguntámos-lhe: Van, a do Lago Van? Respondeu-nos: mas conhecem-na, sabem pelo menos onde fica? Sim, apenas sabemos onde fica no mapa, com esperança de em algum momento nesta vida nos aventurarmos Médio Oriente afora. Falou-nos então dos gatos de Van, de pêlo branquinho, com um olho de cada cor (um amarelo, um azul) e de quem se diz que adoram nadar no Lago. Mas Van, tal como a maioria do sudeste da Anatólia, é território Curdo e o rapazinho migrado para a Costa do Egeu, do outro lado do país, não perdeu a oportunidade de “passar a palavra”. Que os Curdos são discriminados no seu próprio país e que, ao contrário do que se diz, não querem a independência da Turquia. Apenas desejam que a esta minoria de cerca de 20 milhões (!) de cidadãos lhes seja concedida a possibilidade de ler jornais e de ver canais de televisão na sua própria linguagem. Que mude a mentalidade dos restantes turcos em relação aos curdos e que mude também a imagem que o resto do mundo deles tem. Quanto a mim, se já não levava preconceitos à partida (e os dias que antecederam a minha viagem foram dominados com notícias de novos atentados em alguns pontos da Turquia), depois de conhecer este simpático comerciante lembrar-me-ei de não permitir que eles possam vir a ser criados. Longe de ficar apoiante da causa, fiquei, sim, ainda mais apoiante de um mundo multicultural.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Tumbas no Castelo de Algodão

Para o fim da viagem ficou a visita a outro dos sítios na Turquia considerado património mundial pela UNESCO: Pamukkale – Hierapolis.
A cerca de 3 horas de Selçuk / Éfeso, e já com poucos dias disponíveis na contagem decrescente do regresso a casa, colocava-se o problema dos meios de transporte para o local. Existem autocarros para Denizli, a cidade mais próxima, a 30 minutos, o que implicaria ter de mudar de transporte. Ou seja, com a viagem de ida e volta num só dia, mais o tempo para se passear entre as ruínas, para além de cansativa a jornada previa-se apertada.
Optámos, assim, por aderir a uma excursão com início em Selçuk. Afinal de contas, ainda não havíamos enfiado o barrete da ordem nestas férias e havia que arriscar. Logo à partida deparámo-nos com o entusiasmo do operador turístico em anunciar-nos que antes de chegarmos propriamente a Pamukkale teríamos um tempo reservado para tomar banho numa piscina de um hotel de 5 estrelas. A que se seguiria um almoço bufete no dito hotel de 5 estrelas.
Uau! É mesmo o meu sonho de consumo.
Enfim, tempo morto de 1 hora gasto apressadamente num mergulho aqui, barrando-nos com “lama”, e um mergulho ali, numa água quentinha.
Pamukkale esperava-nos.
As imagens que havíamos visto indiciavam um lugar fantástico, surreal mesmo, daqueles que parecem não existir num planeta como o nosso.
O fenómeno a que se assiste neste local deve-se a uma formação geológica única, em que as águas ricas em cálcio caiem em cascata pela encosta criando as “travertines” brancas que hoje são cartão postal da Turquia.
A acompanhar a criação destas “travertines” temos ainda diversas formas que tomaram as rochas – prateleiras, piscinas, estalactites – que tornavam ainda mais prazerosa a utilização destas águas que possuem propriedades termais.
E digo “tornavam” porque o acesso às ditas “travertines” está hoje vedado. O boom do turismo nos anos 80 e 90 fez com que se construíssem dezenas de hotéis no topo deste sítio, destruindo não só alguns dos vestígios das ruínas de Hierapolis, como também desviando a água que corria em cascata para as suas próprias piscinas e necessidades. Outros abusos cometidos passaram igualmente pelo uso que as pessoas (os visitantes) faziam do local – aproveitar as águas para se lavarem, andar calçadas pelas “travertines” e, mesmo, de bicicleta ou mota.
Há uns anos, e na tentativa de reverter a situação, os hotéis foram demolidos mas, infelizmente, continua a correr pouca água em cascata, o que leva a crer que o problema estará também nos equipamentos que se situam abaixo de Pamukkale. Ou seja, o mal está feito e, dizendo em bom português, o que não tem remédio remediado está!
A impossibilidade de passear sobre as “travertines” e o facto da pouca água que corre hoje tornar menos exuberante o local não nos faz perder a viagem. Pelo contrário, o cenário continua deslumbrante e podemos, ainda assim, caminhar uns bons 2 km sobre este “Castelo de Algodão”, o significado de Pamukkale em turco, com os sapatos na mão, tentando não escorregar no chão branco carregado de cálcio.
Nunca um nome terá sido atribuído com tanta propriedade.

Aproveitando estas condições minerais dadas pela Natureza e a fama dos poderes curativos das suas águas, os romanos construíram aqui uma cidade, um imenso “spa”, à qual acorriam pessoas vindas de todos os cantos. Hierapolis é o nome da cidade que foi fundada no século II A.c.
Aqui podem ser encontradas as ruínas de uma igreja bizantina e as fundações do Templo de Apolo, entre outros monumentos comuns às cidades romanas, como a Agora e os banhos, e, como não podia deixar de ser, o Teatro.
O Teatro romano está implantado logo acima das “travertines” (ainda que não se consiga ter uma vista especial delas) e comportava cerca de 12000 espectadores.

Mas o ponto alto da visita a Hierapolis é a imensa necrópole que por aqui existe. Pois, nem todos os que ali acorriam terão ficado curados, daí que faça todo o sentido a construção de um cemitério para que não perdessem de todo a viagem. Existem, assim, inúmeros túmulos, sarcófagos, tumbas, alguns deles enormes e de todas as formas e feitios imagináveis.

Para turista ver, entre o Teatro romano de Hierapolis e as “travertines” de Pamukkale, existe ainda uma piscina com fragmentos de mármore submersos onde, diz a lenda (ou serão os prospectos turísticos?), Cleópatra se terá banhado. Na impossibilidade de se banhar nas águas do Castelo de Algodão ou nas águas das piscinas dos hotéis de 5 estrelas, resta então ao turista este banho “histórico”.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Pelas Ruínas

Sabia que a Turquia tem mais ruínas gregas e romanas do que a Grécia ou a Itália?
Não?
Então onde ficam Tróia, Pérgamo, Éfeso, Hierapolis, Afrodisias, Priene, Miletos e Didyma ou Xanthos-Letoon? À beira do Mar Egeu ou do Mar Mediterrâneo, mas todas em território turco.
De Tróia todos nós já ouvimos falar, quer seja pela Ilíada de Homero quer seja, mais recentemente, pelo filme.
De Pérgamo, mesmo que não tenhamos visitado o local na Turquia, se tivermos estado em Berlim temos grandes hipóteses de ter visitado o seu “Grande Altar” em solo alemão. Pelos museus do mundo afora, Alemanha, Inglaterra, Itália, Rússia, não é difícil encontrarmos objectos ou até edifícios inteiros levados destas antigas cidades que, na sua maioria, foram estudadas e escavadas por arqueólogos estrangeiros.
De todas as referidas, apenas visitei Éfeso e Hierapólis, ainda que Afrodisias seja, a par de Éfeso, uma das mais recomendadas para este périplo das pedras.

Uma visita a Éfeso seria, à partida, o ponto alto de qualquer viagem. E não desilude, pese embora a quantidade astronómica de turistas com quem temos que dividir o espaço.
É considerada uma das mais bem conservadas cidades clássicas e uma das quais onde é possível sentir uma atmosfera próxima do que era a vida numa cidade romana daqueles tempos.
Antes da chegada de Lysimachus, um dos generais de Alexandre o Grande, já havia uma cidade onde hoje se encontra Éfeso (estudos dizem-nos que já era ocupada em 1000 A.c. pelos Jónios), mas esta havia sido inundada pela subida do mar. Então, no século III A.c. o general reconstruiu a cidade, trazendo pessoas de cidades anteriormente por si arrasadas e fixando-as na nova Éfeso para que a pudessem povoar.
A cidade foi crescendo a tal ponto que no século I A.c. chegou a ser considerada a capital da Ásia Menor, para o que muito contribuiu o facto de se encontrar situada num local perto do mar, favorável às actividades ligadas ao comércio, e de ter o Templo de Ártemis mesmo à mão, lugar santo dedicado ao culto da deusa Ártemis para os gregos, Diana para os romanos. Éfeso terá mesmo chegado a atingir os 400.000 habitantes, o que a tornou a maior cidade da Ásia Romana e uma das maiores cidades dos seus tempos.


Éfeso é facilmente reconhecida pelo seu “Teatro Grande”, capaz de acolher 25000 espectadores (ainda hoje se celebram aí espectáculos), com uma vista soberba do topo das suas filas para o que em tempos foi o porto da cidade. Com esforço consegue-se hoje imaginar que se avista o mar que os tempos afastaram da cidade e levaram, em parte, ao seu declínio. Para se imaginar a grandeza da cidade, acrescente-se que dispunha ainda de um outro teatro, o “Odeon”, capaz de servir cerca de 1400 pessoas. Digamos que mesmo a lotação deste pequenito podia perfeitamente servir para entreter os habitantes de uma cidade média dos tempos modernos.

A “Via Curetes” é deslumbrante, cerca de 500 metros de comprimento tentando afastar do caminho algo estreito os turistas vindos de um dos muitos cruzeiros que passam por ali perto e que aproveitam para visitar as ruínas. Aqui ficam alguns dos edifícios que melhor representam a magnificência da antiga cidade cujas reminiscências ainda hoje nos permitem entender a sua disposição e utilidade.
A “Porta de Hércules”, onde todos se amontoam para tirar uma fotografia;
O “Templo de Adriano”, com a cabeça de Medusa no topo de um dos arcos para manter os maus espíritos afastados;
Os “Banhos de Varius”, embora existissem outros complexos deste tipo, uma vez que a cidade tinha um dos mais avançados sistemas de transporte de água (aqueduto) dos tempos antigos;
A “Latrina”, ou seja, as casas de banho públicas, o que mostra bem a preocupação com a higiene que os antigos efesianos possuíam;
A “Fonte de Trajano”;
As casas dos ricos.
Para se visitar estas últimas, no entanto, ter-se-á de adquirir um bilhete à parte, não incluído na entrada geral para o sítio de Éfeso. Com isso afasta-se a esmagadora maioria dos turistas da possibilidade de confirmar os excelentes trabalhos dos técnicos que no local ainda vão pondo a descoberto mais e mais vestígios e recriando as casas antigas. Diz-se que a seguir a Pompeia este é o melhor local para se poder admirar o luxo em que os romanos ricos viviam, com as paredes das suas casas abundantemente decoradas com frescos e o chão com mosaicos. A não perder, uma vez que apesar da longa jornada e do muito que há para visitar e aprender em Éfeso não se encontra nada semelhante a este local.

No final da “Via Curetes” fica a “Biblioteca de Celsus” que divide com o “Grande Teatro” o título do mais reconhecido edifício de Éfeso, os dois grandes postais da cidade antiga. No entanto, o título de mais fotogénico vai direitinho para a Biblioteca. O monumental edifício foi mandado erigir pelo Cônsul Julius Aquila em honra do seu pai Cônsul Julius Celsus e serviria para sua tumba. Mais tarde viria a ser utilizada como biblioteca e chegou a acolher cerca de 12000 títulos, naquele tempo só superada pela Biblioteca de Alexandria. A sua fachada, após a subida de uns degraus, é suportada por umas colunas e capiteis cuja dimensão não se consegue perceber em fotografias. Por trás de cada par de colunas encontram-se estátuas representando as virtudes: sabedoria (Sophia), pensamento (Ennoia), conhecimento (Episteme) e bondade (Arete).

Concluindo o passeio, fácil é perceber que esta cidade poderia bem competir com as dos tempos modernos, quer em organização quer em riqueza. E a sua riqueza passa não só pelo seu poder a nível monetário mas também a nível social e cultural. A preocupação na construção de banhos para os seus habitantes e, principalmente, a existência de teatros, biblioteca e templos dedicados ao culto dos vários deuses revelam a ambição dos seus líderes e população em cuidar do intelecto e atingir o conhecimento.

Entre Éfeso e Selçuk, fica o Templo de Ártemis (Diana, para os gregos), deusa grega. Este Templo foi considerado uma das 7 maravilhas do mundo e, à semelhança de todos os outros (com excepção das Pirâmides de Gize), hoje já nada resta dele (daí que nos tenha passado completamente ao lado). Ou praticamente nada, já que os poucos destroços que chegaram até aos nossos dias não são suficientes para nos dar a mais pequena ideia do que foi em tempos. E com “esses tempos” quer-se dizer o século VI A.c., quando foi construído. Era o maior templo da antiguidade, maior até que o Partenon, em Atenas. No século IV A.c. foi destruído pelo fogo e reconstruído na época em que Alexandre o Grande passava por estas terras. Diz a história que, impressionado com o templo, o nosso herói ofereceu-se para pagar a sua reconstrução em troca de o novo templo ser-lhe dedicado, proposta esta que viria a ser recusada pelas “autoridades locais”, mantendo-se firmes em continuar a dedicar o templo a Ártemis, a deusa da caça.

Outro dos monumentos carregados de história que chegaram até aos nossos dias é a Basílica de São João, em Selçuk, bem defronte do hotel por nós escolhido, o Hotel Bella, acolhedor e com um magnífico terraço com vista larga e plena para a Basílica.
Mais uma vez, diz a história que São João terá vindo para Éfeso no fim da sua vida, onde escreveu o seu Evangelho. No século VI o Imperador Justiniano decidiu construir uma Basílica no lugar onde se acreditava encontrar-se os restos mortais de São João e onde no século IV já havia sido construído, primeiro, um monumento e, depois, uma igreja. Tudo o que vemos hoje foi reconstruído (e encontra-se ainda a sê-lo) graças, especialmente, aos inúmeros terramotos.
Um lugar de peregrinação, não só para os cristãos mas também para os muçulmanos, é a “Casa da Virgem Maria”, a cerca de 9 km de Éfeso. Acredita-se que a Virgem Maria tenha vindo para aqui, após a morte de Jesus Cristo, acompanhada por São João. No fim do século XIX, após a visão da Virgem em Éfeso por parte de uma freira alemã, e guiados pelas suas descrições, um grupo de clérigos descobriu as ruínas de uma casa, tendo chegado à conclusão de que nesta teria passado Maria o fim dos seus dias. O Papa Paulo VI autenticou este local na sua visita em 1967 e, depois disso, o Papa João Paulo II e, agora, o Papa Bento XVI também por lá passaram. Hoje existe no topo do monte uma capela para assinalar a história e todo o 15 de Agosto é celebrada uma missa em honra da Virgem Maria, em que acorrem peregrinos vindos de todo o mundo.
Nós é que decidimos não acorrer lá, com muita pena da minha mãezinha, especialmente depois de ver na televisão o actual Papa neste santuário.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Em Izmir, em Trânsito

As costas do Mar Egeu e do Mar Mediterrâneo são muito procuradas pelos turistas em busca de sol e praia.
Com vista para o primeiro fica Izmir, a terceira maior cidade turca, com cerca de 2 milhões de habitantes. Os seus arredores parecem tirados de uma qualquer metrópole da América Latina: aproveitamento praticamente total dos morros para os ocupar com casas feitas à pressa e com os materiais que se encontrem mais à mão. O cenário que fica é de caos urbanístico e o trânsito é, uma vez mais, uma loucura. Mas o centro de Izmir é moderno e a avenida que se espraia pela baia por cerca de 4 km cumpre alguns dos preceitos do urbanismo da moda: o lugar para o passeio público, possibilitando a utilização da frente ribeirinha por todos os cidadãos e para quase todas as actividades que pretendam, desde passear o cão a andar de bicicleta ou, tão só, sentar a ver os barcos passar.
Estes km de jornada são, por isso, bem agradáveis num percurso que vai desde a zona do ascensor, na parte sudoeste da cidade, a fazer lembrar algo de Lisboa pelo desnível acentuado das suas ruas, no topo do qual se alcança uma boa panorâmica de parte de Izmir, até à zona de Alsancak no outro extremo do centro da cidade, onde ficam as lojas mais caras e da moda.
Pelo meio, e afastando-nos uns metros do mar, fica a zona do Bazar, um cheirinho da enorme confusão que se encontra em Istambul.
Aí perto, na Konak Meydani, uma praça pedestre de grandes dimensões, que acolhe um centro comercial, sente-se o vai e vem das pessoas a meio caminho entre o seu emprego ou o seu almoço. Nesta praça fica um dos mais famosos postais da cidade, a Torre do Relógio, e existe ainda uma pequena mesquita para uma paragem rápida para uma das inúmeras rezas obrigatórias do dia.
Muitas das vezes, nos pacotes de viagens para a Turquia, encontramos Izmir como uma das possibilidades de destino. Na verdade, a maior parte dos turistas apenas utiliza a cidade como ponto de passagem para qualquer outro destino nas redondezas ou, quanto muito, para base de uma noite.
A nós serviu-nos para fazer uma pausa vindas da Capadócia em trânsito para as ruínas de Éfeso, tendo optado por Selçuk como local de poiso.

Selçuk, com cerca de 20000 habitantes, vive quase em exclusivo do facto de Éfeso estar a 2km, do Templo de Artemisa nem isso distar e da Basílica de São João estar praticamente no seu centro. Tudo ruínas com muita história e milénios de vida. À conta disso, as suas ruas têm uma série de restaurantes e lojinhas que servem de apoio para os magotes de turistas, ainda que as camionetas de excursões que por lá passam deixem os passageiros directamente à porta dos monumentos a visitar, sem pouco espaço para deambularem pelas imediações.

À distância de uma curta viagem de Dolmus (o nome indígena dos mini autocarros) pela serra adentro fica Sirince, aldeia com menos de 1000 habitantes que mantém ainda muitas das casas típicas do estilo greco-otomano. Conta-se que os gregos ocuparam a área por volta do século XV e decidiram dar-lhe o nome de “Çirkince”, que na sua língua quer dizer qualquer coisa como “feiosa”, no sentido de evitar que outros pudessem ter também a ideia de para lá se dirigir. Foi apenas no século passado que as autoridades locais decidiram mudar o nome para o actual “Sirince”, algo como “agradável”, mais condizente com a realidade. E, assim, hoje é conhecida como uma das “aldeias mais turcas da Turquia”, epíteto análogo aos casos das nossas Monsanto ou Alte, as “aldeias mais portuguesas de Portugal”. O certo é que a aldeiazinha turca recebe imensos turistas, a maioria vindos de um dos muitos cruzeiros que atracam aqui por estas bandas e não se cansam de picar o ponto em todos estes recantos recomendados.

Kusadasi é a cidade que recebe os tais cruzeiros com turistas em trânsito para Éfeso, Selçuk (Basílica de São João), Sirince e, menos frequentemente, Priene, Miletos e Dydima e Pamukkale.
Como caracterizar Kusadasi sem ser injusta? Talvez começar por dizer que na temporada alta parece constituir uma preparação ou uma continuação daquilo que nos (os) espera no cruzeiro. São lojas e mais lojas que vendem produtos supostamente originais a 30% do seu preço de mercado. Não consigo dizer mais nada a respeito a não ser que, repito, na temporada alta, é uma cidade que tem um porto para cruzeiros. Ou melhor. Consigo acrescentar que nas suas redondezas dizem que ficam algumas praias que se poderão considerar interessantes. Como para nós o objectivo desta viagem não era fazer sequer um pouco de praia, passávamos bem sem este episódio. Mas acabámos por decidir ir relaxar umas horinhas durante uma tarde numa dessas praias. Levávamos a indicação de que Pamucak seria “a” praia, mas um “inquérito” no dia anterior levou-nos a optar pela Ladies Beach. Bom… a praia do Barbas na Costa da Caparica não anda muito longe do ambiente desta… Sem mais comentários. O que valeu foi que acabámos por visualizar Pamucak de cima e não pareceu ser assim tão deslumbrante como a queriam fazer passar, ainda que parecesse andar a léguas do “Barbas de saias”. Como consolo fica a ideia que já levava da minha terrinha: tirando uma viagem à Polinésia ou outros locais ditos idílicos em que a civilização e o betão ainda não chegaram, praia é mesmo para ser feita no nosso país.
Uma sugestão então: se o objectivo não for ver passar o pessoal dos cruzeiros, nem fazer compras de produtos (bem) falsificados, talvez seja de arriscar optar por um passeio até à Península de Dilek, a alternativa que no nosso caso não vingou e que, por isso, não se poderá avaliar.

Em resumo, tirando o passeio até Éfeso e Pamukkale, esta primeira visita à costa do Egeu soube a pouco.

O mergulho no Mar Egeu deu-se aqui, na Ladies Beach, bem democrática, como se pode ver.