quarta-feira, outubro 15, 2008

Mekong, o Rio Humano



A minha mãe dizia-me às vezes que nunca, em toda a minha vida, voltarei a ver rios tão belos como aqueles, tão grandes, tão selvagens, o Mekong e os seus braços que descem para os oceanos, estes territórios de água que vão desaparecer nas cavidades dos oceanos. Na planura a perder de vista, estes rios vão depressa, vertem como se a terra se inclinasse.
"O Amante", de Marguerite Duras

Não terá sido o mais bonito rio que já vi ou por onde naveguei. Mas que foi certamente o mais humano, vivido, interessante e, enfim, completo rio, disso não tenho dúvidas.
O Mekong é o 11.º maior rio do mundo em termos de comprimento (e o maior do Sudeste Asiático) e nasce nas montanhas do Tibete antes de atravessar 6 países: China, Birmânia, Tailândia, Laos, Cambodja e, por fim, Vietname, onde desagua no Mar do Sul da China.
Em cada um destes países toma um nome diferente e, por vezes, em cada um destes países é reconhecido por vários nomes. Por exemplo, no Vietname é também referido como o “Rio dos Nove Dragões” – isto porque em Phnom Penh, capital do Cambodja, o Mekong divide-se em 2 braços que por sua vez se dividem em mais uns quantos mais abaixo, em Vinh Long, já no Vietname.
Aqui estamos já no Delta do Mekong, outrora pertença dos khmers (antepassados dos cambojanos), hoje território vietnamita. Por aqui abundam as plantações de arroz, entendendo-se bem o porquê desta região ser designada como o “cesto de arroz do Vietname”. Ao contrário do norte do país, que tem apenas duas épocas de colheita anuais, a região sul, onde o Delta do Mekong reina, consegue ter três épocas dessas colheitas. Mas não é só arroz que as suas terras (e águas) oferecem. Coco, frutas, cana-de-açúcar e peixe ajudam os seus cidadãos a sobreviver e, mais do que isso, a exportar estes bens para todo o mundo.
Há que ter em conta que cerca de 50 milhões de pessoas vivem perto das margens do Rio Mekong e dele dependem directa ou indirectamente, sendo a região do Delta uma das zonas mais densamente povoadas. Para além desta sua importância no sul do Vietname, há que registar que cerca de 85% do território do Laos e do Cambodja fazem parte da bacia do Rio Mekong e as suas capitais, Vientiane e Phnom Penh, respectivamente, são por ele atravessadas.
Vista a importância e preponderância do Mekong em cada um destes países do Sudeste Asiático, e não obstante ser um dos maiores rios do mundo, será que Portugal tem alguma coisa que ver com o assunto?
Pelo menos a título de curiosidade histórica terá, sim. O primeiro europeu a chegar perto do Mekong foi um português, António de Faria, em 1540.
Mas, mais curioso ainda, pelo menos no que toca a uma figura do nosso imaginário comum, foi Camões ter andado por aqui. Aliás, não só andou por aqui como se viu aflito por aqui. Diz a história que a caminho de Goa, vindo de Macau, o seu barco naufragou perto do Mekong, na costa cambojana, obrigando o nosso escritor a salvar épica e aventureiramente o manuscrito dos Lusíadas, equilibrando-o na cabeça que esforçadamente tentava (e conseguia) manter à tona da água.



Saindo de Saigão (oficialmente Ho Chi Minh) fomos rumo a Phnom Penh, Cambodja, numa viagem de 3 dias pelo Delta do Mekong.
Primeiro de camioneta até My Tho, onde ficámos a saber pelo nosso guia do momento que o pessoal do Mekong, no qual ele fez questão de frisar que se inclui, tem a sua terra, a qual vai gerindo à sua velocidade, trabalhando quando quer, imperando a pacatez apenas incomodada pelo ritmo frenético das bicicletas (1 por pessoa?). Preguiçosos, em resumo, por que podem. “Têm terra”.
E para além da terra, água é também o que não falta por aqui.
Desde My Tho fomos de barco até Ben Tre, numa curta viagem, onde nos vimos rodeadas da vegetação imensa que vai cercando o Mekong. O ritmo aqui é mesmo lento, apenas quebrado pelas hordas de turistas que invadem estas terras. Enquanto vamos avançando pelos caminhos estreitos de terra batida, utilizados pelas pessoas, bicicletas e motas, somos guiados até supostas cenas turísticas interessantes, como ver as enormes cobras e poder ser fotografadas com elas ao nosso pescoço (socorro!), tomar conhecimento da transformação do coco em “n” outras utilidades, em especial rebuçados (que cheirete!), ouvir um pouco da música das suas gentes (zzz!) ou provar as coloridas frutas da região (enfim, que delícia!).





Mais turístico do que isto só mesmo a navegação pelos estreitos canais, onde por vezes mal se cruzam 2 barquitos. Digo turístico por naquele momento o canal estar ocupado exclusivamente por nós. Mas, na verdade, os canais são de extrema importância para as populações do Mekong pois as insistentes subidas do rio fazem com que as inundações sejam uma constante, pelo que, para além da necessidade de construir as casas em bambu no próprio rio, tenham que utilizar os canais como estradas, deslocando-se neles de barco em muitas situações.
Possibilidade ainda para um passeio (obrigatório) de bicicleta, a mostrar que, sim somos capazes, também podemos andar no meio do trânsito e da confusão. Só nos faltou o chapéu de cone, peça de vestuário obrigatória para 10 entre 10 senhoras.



Pela tardinha seguimos de Vinh Long para a ilha de An Binh, em pleno Delta do Mekong, onde pernoitámos. Um “homestay”, experiência sugerida para se fazer no Vietname, seja no norte nas montanhas de Sapa, seja no sul, como forma de maior proximidade e convívio com os locais. Éramos 2 portuguesas, dois franceses, dois italianos e dois austríacos. Ou seja, os europeus em ameno convívio e a família vietnamita em ameno acolhimento com os seus filhos dedicados à televisão e aos joguinhos da playstation. Tudo muito ocidental. Não quero com isto dizer que a experiência não tenha sido positiva. De todo. A hospitalidade foi enorme, delicadeza no trato, e tivemos direito a uma aula de culinária da qual resultou o nosso jantar.
O pior foi quando chegou a altura de ir dormir. Mas esse pior foi só para mim. Tenho um problema, ainda difícil de ser ultrapassado, com os bichos. Não há repelente, spray, mosquiteiro ou qualquer outro engenho que me afaste do pensamento a possibilidade – para mim bem real – de me entrar um bicharoco qualquer pelos lençóis adentro que se aventure a pousar algures na minha pele. Resultado: a segunda noite da viagem sem dormir foi passada num “homestay” no Delta do Mekong (a primeira havia sido no avião, por motivos diferentes, e a terceira e quarta haveriam de ser num barco e num quarto de hotel, pelos mesmos motivos de bicharada). Que se há-de fazer? Eu tenho toda a boa vontade de ultrapassar esta fobia idiota quando escolho os destinos, mas, depois…



Pela manhã saímos a navegar lenta e placidamente até Cai Be e ao seu mercado flutuante, com a igreja à beira rio dando uma imagem ainda mais pitoresca a toda a cena.
No outro dia, mas já em Chau Doc, onde amanhecemos no barco depois de termos saído de Sa Dec (terra onde a mãe de Margueirte Duras leccionava e onde a família habitava), pudemos também assistir ao mesmo cenário de azáfama das intensas trocas de bens que são feitas de barco para barco, nas águas do Mekong, logo desde o nascer do sol.




O esquema é o seguinte: um barco coloca numa espécie de mastro o bem que se propõe vender, seja fruta, legume, qualquer coisa, e outros barcos dele se aproximam no sentido de fazer negócio. Depois, os compradores voltam para a sua terra abastecidos com os bens para o seu consumo próprio ou para os revenderem.



O cativante no Mekong é a sua vida. Ou melhor, a vida das gentes que habitam nas suas margens. Sem exageros, tudo gira à volta do rio. As casas estão construídas sobre (e sob) o rio, os que não têm casa vivem num barco que vai flutuando no rio, as roupas são lavadas no rio, é também no rio que as pessoas se lavam e fazem as suas necessidades fisiológicas, o comércio é, como o acima descrito, realizado no rio, é do rio que as suas gentes tiram o seu sustento, o rio serve de transporte das pessoas e das mercadorias, e, até, imagine-se, as suas inundações têm algo de positivo uma vez que essa água será utilizada nas colheitas.
Ou seja, e em resumo, o Mekong é vivido em toda a sua plenitude e a economia de uns quantos países que por ele são atravessados depende dele. É, pois, um rio humano
E a paisagem, onde fica a paisagem no meio disto tudo? Talvez algures por aqui:

segunda-feira, outubro 06, 2008

Instantes Citadinos

Alguns postais de Saigão e Hanói:


Motoristas de "cyclos" posicionam-se em Cholon na disputa por clientes


Fim de tarde no Lago Hoan Kiem, o mais bonito de Hanói


Vendedoras de frutas e legumes nas imediações do mercado Dong Xuan, em Hanói

Tudo se transporta nas bicicletas em Hanói

Aqui são os ombros que carregam a mercadoria que será vendida

sábado, outubro 04, 2008

Hanói e Saigão

A história recente do Vietname, já se sabe, tem muitas histórias, com umas quantas a terem passado no cinema para que a nossa e as próximas gerações não se esqueça delas.
Assim, sabíamos já que Saigão havia sido dos franceses, dos americanos e de Graham Greene e Marguerite Duras, e que Hanói havia sido dos chineses e dos Vietcongs.
Hoje, de sul a norte, tudo é Vietname, unidos.

Apesar dos curtos 2 dias e meio dedicados a cada uma das grandes cidades vietnamitas, deu para sentir algumas diferenças. Saigão mais cosmopolita e em voraz construção de novos edifícios rumo aos céus. Hanói mais conservadora e, arrisco, pura e, arrisco novamente, mais próxima da ideia que temos de Ásia.


No Bairro Antigo de Hanói encontramos todo o movimento louco da capital de um dos países do sudeste asiático que mais cresce e mais pujante a nível económico se vem mostrando. São edifícios estreitos, também conhecidos como “casas tubo” (cortesia de uma lei que taxa as construções pelo tamanho da sua fachada principal, daí que esta seja extremamente estreita, deixando as laterais com um comprimento desmesurado), com cerca de 2 ou 3 andares, alguns com ar colonial, com portadas de madeira, quase todos cheios de puxadinhos,


No rés-do-chão de cada um destes edifícios não se encontra outra coisa se não lojas. Nas ruas estreitas à sua porta, mais comércio.
Ou então, banquinhos com os locais lá sentados a conversar, jogar ou comer. Vida de rua. Intensa.


As ruas aqui neste bairro ganham o nome do ofício ou da actividade comercial que aí é explorada. Tudo bem dividido, alguma organização no meio do caos. Aqui fica o mercado Dong Xuan onde caminhamos por entre os vendedores de frutas e legumes variados e coloridos, especiarias, carnes, peixes, rãs e outros “alimentos” que nem suspeitamos o que sejam.
E porquê a caracterização de Hanói como pura? Porque ali tudo é autêntico, vivido, sendo para nós fácil imaginarmo-nos transportados para um outro tempo.


Nas ruas da capital vêem-se as mulheres com os chapéus em cone (desta vez a imagem não é exclusiva dos prospectos turísticos) carregando a sua mercadoria em dois “pratos” de cada lado de um pedaço de madeira. Inesquecível o corrupio delas, inundando as ruas logo às 6:00, provavelmente tentando ganhar posição na corrida pelo negócio.
É inevitável pensarmos no que todos já notaram: no contra-senso que é um regime comunista imposto a cidadãos que são comerciantes natos.

Quanto a Saigão, o seu centro não tem esta vida que a nós ocidentais tanto nos cativa. Tem, ao invés, a elegância da Rua Dong Khoi, a antiga Rua Catinat, com as suas lojas de marcas e hotéis de luxo.


A vista do 23.º andar do Hotel Sheraton é esmagadora, com a nossa vista a alcançar uma imensidão de espaço todo ocupado por construção e mais construção, sendo mais fácil aí entender o porquê de Saigão ter cerca de 6,5 milhões de habitantes.
Já o bar / esplanada do Hotel Rex, ao nível de um 5º andar, com a praça verdejante e as ruas largas ali em baixo bem pertinho ocupadas com o movimento das motas, faz-nos nos viajar e imaginar-nos parte de um filme dos anos 40-60, provavelmente conspirando sobre algum tema.


Em Saigão, o mais parecido com o Bairro Antigo de Hanói é Cholon. O bairro do Amante de Marguerite Duras, que dele disse ser “a capital chinesa da Indochina francesa”. É isso mesmo, o bairro dos chineses no Vietname. Mais uma vez, muita agitação nas ruas, comércio levado ao extremo e, facto não despiciendo, poucos turistas. Ou seja, autenticidade para (poucos) turistas verem. No mercado local, o Binh Tay, uma bem intencionada vendedora de fruta ofereceu-nos uma barata com manga. Isso mesmo, estendeu-nos uma delicada faquinha com um pedaço de manga com uma baratinha acoplada. Num caso destes, como negar a simpática oferta sem passar por estrangeiras mal-agradecidas? Eis algumas das dificuldades da vida de turista.
Outra delas é querer ver o canal de Cholon e penar para o encontrar. Primeiro, porque o canal afinal é estreitíssimo e está praticamente ocupado pelas casas construídas em cima das suas escassas (nesta altura, enquanto não cai chuvada) águas. Depois, porque quando damos de caras com ele é impossível não lhe virar as costas, tal é o cheiro nauseabundo.

Mesmo com toda esta diferença (entre elas e entre as nossas), ou talvez por sua causa, cada uma das duas maiores cidades vietnamitas encanta à sua maneira.
A semelhança entre as duas é a incontornável (e até hoje obsessivamente marcante) barulheira por demais caótica do trânsito nas ruas.

À pergunta da praxe, gostaste mais de Hanói ou de Saigão, a resposta da ordem seria das duas.
Mas talvez não. Neste caso, talvez consiga dizer que gostei mais da primeira, Hanói, a actual capital.
A presença dos lagos em Hanói faz toda a diferença, já que o rio Saigão, em Saigão, não está muito presente na vida da cidade (só para se ter uma ideia, é necessário um ferry boat para se atravessar as suas não tão largas margens). Dito isto, gosto de água numa cidade. É essencial para o seu enquadramento estético e para que a vida popular se desenvolva ao seu redor.


Em Hanói tivemos a sorte de ver parte do pôr do sol no Lago Ho Tay, com o fotogénico pagode Tran Quoc numa das suas margens.


Mais encantador é o Lago Hoan Kiem. Aqui o dia começa sempre cedo, logo ao raiar do sol, por volta das 5:30, com uma multidão a exercitar-se à beira da sua água, caminhando, fazendo tai-chi, meditando, fazendo musculação, jogando badminton ou foot-badminton ou tão somente conversando sentada num banquinho.


A adornar o lago Hoan Kien temos a Torre da Tartaruga e a ponte vermelha que liga ao templo Ngoc Son. Para uma bela e calma vista deste cenário, o café Pho Co é uma boa aposta com a sua esplanada no último andar. Para se lá chegar temos que entrar por uma galeria e seguir casa e pátio adentro, como se estivéssemos a invadir a privacidade de alguém que não nos é conhecido. Tudo normal por estas bandas.
Para além de se caminhar pelas ruas procurando sentir todo este ambiente oriental, em Hanói não se pode deixar de visitar outros locais bem interessantes.


O Mausoléu de Ho Chi Minh e o seu museu mesmo ao lado vêm logo à cabeça – a brutalidade dos edifícios estalinistas em todo o seu esplendor.


Mesmo ao lado do Museu, o encantador Pagode de Um Só Pilar.


Para algo mais delicado, fugindo à barulheira e à confusão, a escolha é o Templo da Literatura, criado em cerca de 1070 e dedicado a Confúcio, logo transformado na primeira universidade do Vietname
Para se entender um pouco da cultura vietnamita, o Museu Etnográfico é uma boa aposta, com uma mostra e caracterização das 54 diferentes etnias que habitam o país, sendo os Viets a maior delas (Aqui tivemos “azar”: manhã de domingo quente, nada melhor do que visitar um museu, certo? Errado, se for o dia da criança e todas elas correrem para o museu e seu jardim para num estado de quase histeria aderirem às várias actividades para elas programadas; Ou, aqui tivemos “sorte”: nada melhor do que nos integrarmos plenamente numa cidade do que viver o seu dia a dia e, neste caso, as suas festas).
No que diz respeito ao património de "influência europeia", dois bons exemplos são o edifício da estação de comboios (influência russa) e, principalmente, o edifício dos correios (influência francesa) – interessante por fora e por dentro, com um mapa mundo imenso numa das paredes onde nos apercebemos que a Europa pode não ser o centro do mundo quando vemos antes a Ásia colocada nesse lugar.


Também em Saigão o edifício dos correios não pode deixar de ser visto, com as peças delicadas do seu mobiliário a brilharem – bancos e cabines telefónicas. O local onde está implantada, em frente à Catedral de Notre Dame, reflecte uma boa imagem da Saigão antiga e actual – perto da sempre elegante e mítica Rua Dong Khoi e agora junto ao recente e moderno centro comercial Diamond Plaza.

Não muito longe daqui encontramos o Palácio da Reunificação. Edifício muitíssimo interessante de arquitectura moderna da autoria de um arquitecto vietnamita, e com mobiliário cativante, já foi o símbolo do Vietname do Sul, tendo sido por aqui que os tanques dos comunistas do norte começaram por invadir Saigão. Provavelmente foi o que mais me surpreendeu e que gostei de conhecer em Saigão.

Outro ponto imperdível da cidade é o War Remnants Museum. Tem fotografias que chocam pela brutalidade das atrocidades da guerra do Vietname (aqui conhecida como a guerra da América) e suas consequências, tem bombas, armas, tanques. Dizem que é o mais popular entre os turistas. Dificilmente os vietnamitas suportarão recordar estes negros anos, ainda que, diz-nos a história, quase sempre tenham estado em guerra – com os chineses, com os franceses, com os americanos, com os cambojanos do Khmer Rouge.
O mais curioso é que a afabilidade das pessoas não o faz lembrar. O mais normal seria os vietnamitas serem pessoas desconfiadas e relutantes a darem-se perante estranhos. Mas não é isso que acontece. Pelo contrário. Toda a gente nos sorri e os pais incentivam os filhos a dizerem adeus aos fulanos de “olhos esquisitos”. Neste relacionamento, ainda que superficial, não encontramos aqui qualquer ressentimento perante toda a imoralidade por que passaram.

Outro aspecto digno de registo é o facto de a população jovem destas cidades ser bastante ocidentalizada. Talvez seja presunção escrevê-lo assim, pelo que passo a explicar melhor: todos adoram o karaoke, modalidade muito mais oriental, é certo, mas ouvem as mesmas músicas do que nós; não perdem um jogo do campeonato de futebol inglês, seja a que hora for e as mais das vezes é a desoras. Apenas dois exemplos de uma proximidade citadina. Sim, porque quando se sai para o Delta do Mekong tudo é diferente. Uma outra realidade que nos encanta de uma outra maneira e que será relata em post seguinte.

sexta-feira, outubro 03, 2008

Saigão de Graham Greene

Saigão está no imaginário de muitas pessoas dos vários pontos do mundo. A década de oitenta foi profícua em produzir cinematografia relativa ao conflito, entre os anos sessenta e setenta, do Vietname com os norte-americanos e lá estavam, como uma das imagens fortes, as ruas de Saigão.
Antes disso, no início dos anos 50, houve outro conflito, a Guerra de Indochina, entre os franceses e os vietnamitas, onde os americanos também tiveram intervenção, que é o tema do “O Americano Tranquilo” de Graham Greene. Quem leu esta obra criou um imaginário da cidade, onde se passa grande parte da narrativa.
Agora como nos tempos do Graham Greene, Saigão ou Ho Chi Minh (o nome oficial) é a grande metrópole. Onde está todo o poderio económico, o cosmopolitismo, onde nos sentimos mais próximo do mundo ocidental, aquele a que estamos habituados. Obviamente, que a isto não é alheia toda a história da cidade, com múltiplas presenças e influências quer dos franceses quer dos americanos, que deixaram inúmeras marcas nas vivências.
Os símbolos da Saigão de Greene permanecem todos. Alguns deles, provavelmente, com vitalidades diferentes mas com presenças igualmente marcantes, até por terem sido protagonistas da história do País e mesmo da história mundial.
A Rua Catinat, um nome forte no universo de Greene, permanece certamente com a mesma vitalidade que antes, uma vez que, a agora Rua Dong Khoi, é uma das principais artérias comerciais de Saigão.
Já não com o esplendor de outros tempos mas ainda assim com uma imagem forte e de glamour, o Hotel Continental, onde ocorreu grande parte da acção do “O Americano Tranquilo”.

Bem ao lado do Hotel Continental continua o Teatro Municipal.

Outra referência ao universo de Graham Greene é o bar do Hotel Majestic, do qual se consegue obter vistas sobre o rio.

O rio, o lugar onde o jovem Pyle teve um fim trágico, naturalmente, continua. Ainda que, parece-me, com menos protagonismo que noutros tempos.
A magnífica Estação de Correios, no final da Dong Khoi, onde o repórter inglês Thomas Fowler ia enviar a correspondência, continua a encantar e a transportar, quem decide conhecer o seu interior, para os tempos em que o Vietname, a par do Camboja e do Laos, fazia parte da Indochina, a colónia francesa do sudeste asiático.

Na praça frontal aos Correios fica a Catedral de Notre Dame, que na opinião de Greene é de estética duvidosa.

Por fim, Cholon, o bairro Chinês de Saigão, onde Fowler ia receber de forma secreta informações sobre os negócios obscuros dos norte-americanos (personificados na personagem do Alden Pyle) nos assuntos do Vietname, nomeadamente no financiamento de grupos de terroristas do Sul que lutavam contra os comunistas do norte, contínua com a azáfama de outros tempos.

domingo, setembro 28, 2008

A 1.ª impressão da 1.ª vez na Ásia

Chegámos a Saigão à hora do almoço, depois de uma saída de Lisboa na manhã do dia anterior, uma tarde em Paris e uma noite e manhã num avião.
O caminho do aeroporto de Saigão, actualmente Ho Chi Minh (mas a quem todos teimam em chamar pelo antigo e carismático nome), até ao centro, na Rua Dong Khoi (a Rua Catinat do tempo de Graham Greene), foi feito com os sentidos todos alertas, tentando apreender tudo o que nos rodeava. Para além de uma humidade intensa, que nos fez sentir imediatamente suadas, pegajosas e molhadas, o primeiro registo não pôde deixar de ir para o trânsito inacreditável: os poucos carros que circulam nas estradas de uma metrópole como Saigão são quase esmagados pelas incontáveis motas que como um enxame se propagam por completo nas ruas. Quando paradas no sinal vermelho, todas juntinhas à molhada, mais parece que se preparam para uma qualquer competição onde o que importa é partir bem para ganhar desde logo posição.





Neste primeiro dia no Vietname, aprendemos que atravessar as ruas pode ser uma arte e tem segredos. Primeiro, não há que temer as motas nem as bicicletas. Antes há que avançar determinadas e confiantes rumo ao outro lado da estrada, sempre a direito e sem olhar para os lados, num ritmo regular e moderado – nem parar nem correr. Depois é só esperar que as duas rodas façam o seu trabalho, ou seja, que sejam elas a estar atentas e a desviar dos peões.
Nos próximos dias iríamos aprender que o sossego e o silêncio são benesses que não abundam pelas cidades nestas paragens do mundo. E que o conselho para levar uns tampões para os ouvidos não deveria ter sido desprezado tão firmemente.

Porquê?

Quando me perguntavam para onde iria desta vez nas férias e respondia Vietname, as reacções surgiam sempre negativas. Do “e isso não é perigoso?”, passando pelo “cuidado, não se metam em sarilhos”, atravessando o “conseguem comer aquela comida?”, até ao “não te invejo, não era local onde quisesse ir”, o disco rolava sempre no mesmo tom.
E, a propósito, porquê o Vietname? Talvez por ser na Ásia e parecer ser uma boa primeira abordagem ao continente (Capadócia não conta para a imagem que criámos desde sempre no nosso imaginário de Ásia).
Ou talvez por uma reportagem saída aqui há uns anos na revista Blue ter parecido inspiradora (mas, também, quais não o são nesta revista?).
Ou, ainda, talvez por estar perto do Cambodja e do Laos e, por isso, ser passível de combinação com estes países (apesar de o Laos ter acabado por saltar fora, na expectativa de uma futura combinação com a Tailândia).
Mas o motivo decisivo terá sido o facto de não conhecermos o Vietname e, logo, porque não?


domingo, agosto 31, 2008

?


A primeira dúvida é: trazemos um destes?

sexta-feira, agosto 22, 2008

Top 5 de Leiria

O último fim-de-semana foi passado em Leiria e arredores. Fui de visita a uma amiga, que, ao fim de alguns anos a viver naquela capital de Distrito, não consegue deixar, por vezes, de se sentir desterrada.
Num dia e meio, tempo que por lá estive, é difícil fazer uma avaliação precisa, porém compreendi algumas críticas, nomeadamente ao que à tacanhez e conservadorismo das gentes respeita.
O exercício que, ultimamente, em momentos de desespero a minha amiga desempenha é listar o que ali há de bom. E na verdade é que, como em todos os sítios, há sempre algo positivo a salientar. Vou dar uma ajudinha.
O Castelo de Leiria, ex-libris da cidade, e classificado como Monumento Nacional. Este castelo medieval, de estilo românico/gótico, foi mandado construir por D. Afonso Henriques em 1135.

A intervenção nas margens do rio Lis no âmbito do Programa Polis, com a qual se procurou integrar o rio na vida da cidade. Criaram-se percursos pedonais e ciclovias, bem como zonas verdes e de recreio e lazer. A ligação entre as duas margens do rio Lis passou a ser efectuada através de diversas pontes pedonais temáticas (ponte bar, balcão, piquenique, sofá, parque infantil e três arcos), que a par de alguma polémica trouxeram alguma imaginação.

A Praça Rodrigues Lobo, de uma grande elegância e que, com as suas esplanadas, é o ponto de reunião das gentes da cidade.

O Arco da Rua Afonso de Albuquerque, nas imediações da Praça Rodrigues Lobo.

Toda a Leiria medieval, cujas ruas têm vindo a reinventar novos usos. Exemplo disso são os diversos edifícios que foram reconvertidos em lojas, bares e restaurantes trendy, e que trouxeram outra dinâmica e vivência à cidade. Exemplo disso é a antiga Pharmácia Leonardo Guarda e Paiva, cuja fachada é revestida a azulejos azuis e brancos da Fábrica de Lamego, e que depois de anos desactivada ganhou um novo uso (bar).

sábado, agosto 02, 2008

Zefa

E agora que se fala de tudo e mais um pouco para mostrar que o Algarve (só com um "l") não é só praia, que tal o "Centro de Arte Contemporânea" ZEFA, em Almancil, Loulé?
A surpresa começa pelo local onde a arte está instalada - numa quinta perdida numa estrada perdida de uma zona não menos perdida do Algarve.
Se percorrermos o site do Zefa (http://www.centro-zefa.com/) lemos, entre outras, frases como "ver para crer", "entre em nossa casa", "work in progress", e todas correspondem à mais absoluta verdade.
Tudo começa com um tocar à campainha. Segue-se a imediata simpatia de Cândida Paz, a anfitriã, que nos abre as portas para nos guiar pelo seu terreno onde arte e lar se confundem. Tudo o que nos rodeia saiu da imaginação de seu marido, Bota Filipe, preciosamente apoiado por Cândida.
À medida que vamos caminhando pelos anexos fantasiosos, perguntamos-nos: Gaudi passou por Loulé? Mas ficamos a saber que Bota apenas passou por Barcelona depois de aqui dar asas à sua criatividade.
Muita criatividade.
A que não falta uma piscina. Afinal, como diz Cândida, as muitas crianças das escolas que os visitam iriam ficar desiludidas por ver uma quinta tão grande sem uma piscina. Vai daí, ela está lá em cima do terraço da garagem, e não importa que seja apenas um chão pintado de azul com ondinhas, com prancha de saltos e tudo, a dar ares de uma torre de vigia.



Tudo aqui obedece a um princípio de comunidade, desde o receber os artistas que para cá queiram vir trabalhar, à atenção e preocupação que dedicam ao urbanismo e ambiente, com o aproveitamento de todos os materiais. E isto para chegarmos a uma simplicidade absoluta que se nos apresenta num sentido estético muito kitsch e estrambólico mas, ao mesmo tempo, agradável e que nos faz desejar viver num sítio assim.

Pelas Praias do Centro do Algarve


Depois de um jantar na Praia de Faro, com vista para a Ria Formosa,


não quisemos ficarmo-nos apenas pela calma da praia de Vale do Lobo.


Iniciámos o dia dedicado às praias do concelho de Albufeira pela da Rocha Baixinha Nascente, com um barquinho a trazer um pouco de tranquilidade à confusão de chapéus de sol.


Na praia da Falésia, vista de cima, preparámo-nos para o extenso areal que ainda nos faltava percorrer,


não imaginando que entre o Barranco das Belharucas e Olhos de Água as formas sairiam da monotonia.


São Rafael e as suas vizinhas são as mais bonitas, uma imagem de rochedos agrestes constrastando com a transparência da água,


com recantos que nos fazem lembrar um Castelo.

terça-feira, julho 15, 2008

Chaminé Algarvia

A chaminé é um símbolo da arquitectura algarvia. A diversidade de modelos é imensa. Poucas vezes se repetem. Quanto mais ornamentada e mais motivos decorativos, mais dispendiosa a chaminé se tornava, fazendo com que, historicamente, constituísse um símbolo de prestígio e vaidade do proprietário. Actualmente este questão ostentativa já não tem significado, porém prevalece a estética e beleza deste elemento tradicional.