segunda-feira, abril 27, 2009

domingo, abril 26, 2009

Las Cordobesas



Na Páscoa é costume vermos as cidades portuguesas serem invadidas pelos espanhóis. Desta vez resolvemos reagir a este facto enviando uma pequena armada de três moçoilas para Córdoba, a escassas 5 horitas de distância.
Aparentemente, não muitos outros portugueses se lembraram do mesmo. No entanto, a cidade estava cheia de gente – andaluzes, que celebravam a Semana Santa em infinitas e intermináveis procissões das várias confrarias compostas pela população que ocupavam a cidade inteira, e não ibéricos, estes vindos de todas as partes do mundo.


E não é à toa este interesse por Córdoba. Com uma das mais extensas áreas declarada património mundial pela Unesco, a História acompanha cada passo da nossa visita, principalmente aqueles que são dados pela parte velha da sua cidade, considerada uma das maiores e mais bem conservadas de toda a Espanha (logo, o mesmo é dizer, de toda a Península Ibérica). E o mais interessante de tudo, e o que mais agrada e conforta em Córdoba, é verificarmos que o nome que toma esta zona antiga é La Juderia, o bairro onde se encontrava a Medina muçulmana e onde hoje passam as procissões cristãs. Uma convivência pacífica, pelo menos nos dias de hoje, e talvez por isso Córdoba seja tão pujante e vibrante.


Acredita-se que no século X Córdoba tenha mesmo chegado a ser a maior cidade do mundo, quando se encontrava sob o domínio da dinastia dos Omíadas que ali fundaram o califado de Córdoba. E, a acompanhar a instituição deste califado, atestando todo o seu poder, iniciou-se nesse século a construção de um novo núcleo urbano, a Madinat al-Zahra, também conhecida como “Córdoba la Vieja”, a 6 km de Córdoba. Esquecida durante séculos, escavações arqueológicas em 1911 trouxeram à vista este extenso complexo no sopé da Sierra Morena. Os trabalhos entretanto executados deixam-nos uma ideia do que eram, principalmente, a basílica e os salões dos palácios da velha cidade.





Voltando a Córdoba em si, a visita não pode deixar de se iniciar no bairro La Juderia, com as suas ruelas estreitíssimas de casas branquinhas. Os estores debruçados nas janelas deixam adivinhar que o Verão inclemente já vem próximo. Por aqui fica a Sinagoga, uma das poucas conservadas na Península Ibérica (a propósito de sinagoga em Portugal, ver anterior post em http://andessemparar.blogspot.com/search?q=belmonte), com influências arquitectónicas árabes como o pátio e outros elementos mudéjares.

Os pátios de Córdoba abundam e são um encanto, sendo impossível controlarmos um pouco a nossa educação e não meter o nariz em cada porta por onde vamos passando. Mas é mesmo assim. Eles estão aqui para serem vistos. E sim, é mesmo para entrarmos casa adentro, principalmente se estivermos no bairro de San Basilio, famoso pelos seus pátios carregadinhos de vasos com flores. Ou será que os vasos com flores é que têm um pátio? Existe mesmo um concurso anual para eleger o pátio popular mais florido e por isso os cordobeses levam bem a sério a sua decoração.


Este um dos encantos de Córdoba, caminhar pelas suas ruas, pelos seus pátios, ser recebido pelos seus habitantes, como aquela senhora nonagenária pronta a acolher-nos e a um dedo de conversa, provar as suas tapas nos seus restaurantes cheios nestes dias festivos, propondo-nos reserva de mesa apenas lá para as 22:00, não dando abébias mesmo se argumentávamos ser sobrinhas de Manolete (a minha mana tem sempre lata, mas desta vez andava inspirada).




E quanto a património arquitectónico, não falta escolha – atravessar a Ponte Romana sobre o Rio Guadalquivir, caminhar lado a lado com as muralhas árabes, conhecer a Córdoba tradicional, com os seus conventos, igrejas e praças, a que não falta a “praça maior” cá do burgo, a qual neste caso toma o nome de Plaza Corredera, sempre animada e movimentada como todos as outras do país.


Mas o ponto alto de qualquer visita a Córdoba fica para o fim deste post. E são três: a Mesquita-Catedral, o Alcázar de los Reyes Cristianos e os Hammams de Medina Califal.





Começando pela Mesquita-Catedral, ela, por si só, vale qualquer visita a Córdoba, esteja ela ou não a dois passos de distância de Portugal. Este monstro arquitectónico é o resultado de uma mistura de influências ao longo dos séculos. Construída originalmente por volta do ano de 600 como uma igreja cristã visigótica, sob o domínio dos muçulmanos passou a ser usada como mesquita, tendo sido aumentada de tal forma (no século X) que chegou a ser considerada a 2.ª maior mesquita em todo o mundo. Após a reconquista cristã, no século XIII, voltou a ser usada como igreja. Até hoje. O seu interior é imediatamente reconhecível pelos seus arcos brancos e encarnados que encimam as quase 1000 colunas.



Ali perto fica o Alcázar de los Reyes Cristianos. Mais uma vez, a história da mesquita-catedral repete-se. Originalmente sítio de uma fortaleza visigótica, os muçulmanos começaram por reconstruir a estrutura e expandi-la, construindo palácios, jardins e banhos. Após a reconquista, sobre as ruínas da estrutura pré-existente, o Rei Afonso XI construiu (em 1386) o que vemos nos dias de hoje. Tudo parece muito fiel à arte muçulmana porque o estilo escolhido foi o mudéjar. No entanto, os lindíssimos jardins datam apenas dos séculos XVIII e XIX. Antes desta maravilha, uma história negra: o Alcázar foi utilizado como tribunal da Inquisição, tendo sido palco de interrogatórios e tortura. Hoje é uma atracção turística e a subida às suas torres dá-nos uma vista diferente e superior do Alcázar, embora daí não se aviste a cidade.



E para terminar em puro relaxe e deleite, nada melhor do que uma ida ao Hammam de Medina Califal, que se propõe recuperar o espírito dos banhos árabes. E consegue-o. Num edifício que passaria despercebido numa das ruas da zona velha da cidade, perto da mesquita-catedral, vive-se uma experiência que faz jus ao slogan oficial do turismo de Córdoba “emociona”. Historicamente, a cidade contava com mais de 600 banhos árabes públicos na época do domínio muçulmano. Hoje é possível visitar-se alguns deles, mais ou menos recuperados ou conservados, mais ou menos humildes ou luxuosos. Mas todos eles, obviamente, desactivados. Resta-nos, então, este Hammam de Medina Califal, que apesar de não ter sido erigido sobre nenhuma estrutura que antes tivesse a mesma função, nos permite banhar nas suas águas temperadas, quentes e frias, à vez, com direito a banho turco e massagem, num ambiente fiel ao que imaginamos ser a arquitectura árabe, com os mosaicos e os arcos coloridos sobre as colunas que já viramos na mesquita-catedral.
Apenas mais uma experiência para tornar o passeio a Córdoba inesquecível.

quinta-feira, abril 23, 2009

terça-feira, março 31, 2009

Panteão Nacional

Segundo a wikipédia, etimologicamente Panteão deriva de pan (todo) e théos (deus), significando assim o templo dedicado a todos os deuses. Porém, com o monoteísmo deixa de fazer sentido esta abrangência e a função dos panteões foi reformulada para servir de última morada aos que fizeram grandes feitos, de diversas naturezas (estadistas, artistas, intelectuais), pela pátria.
É essa a função, desde 1916, do Panteão Nacional de Portugal, localizado na Igreja de Santa Engrácia, na freguesia de São Vicente de Fora, em Lisboa. A construção primitiva do actual Panteão data de 1568, quando foi criada a antiga freguesia de Santa Engrácia. No final do século XVII a igreja inicial foi seriamente danificada por um temporal e desde esse momento sofreu constantes alterações, ao ponto de actualmente nada restar. A obra do novo edifício – o actual, iniciou-se em 1682, mas perdurou durante séculos, só sendo concluída em 1966. É daqui que resulta a expressão “obras de Santa Engrácia” quando algo não tem fim.

Estão sepultados no Panteão várias figuras da História de Portugal (Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Infante D. Henrique, Nuno Álvares Pereira, Afonso de Albuquerque), presidentes da República (Manuel de Arriaga, Teófilo de Braga, Óscar Carmona, Sidónio Pais), escritores (Luís de Camões, Almeida Garrett, Guerra Junqueiro, Aquilino Ribeiro) e artistas (Amália Rodrigues, cujo túmulo é sempre o mais florido).
O edifício, de estilo barroco, é uma presença forte na cidade.

No interior destaca-se o pavimento em mármore colorido e o zimbório gigante, pelo qual se acede a um terraço exterior que possibilita uma vista sobre a

zona oriental de Lisboa,


do estuário e margem sul do Tejo,

Cristo Rei e ponte 25 de Abril.

segunda-feira, março 30, 2009

Béjar - Neve na Primavera

O tempo estava mais para uma ida à praia do que à neve, mas aproveitando os frutos do último nevão no início de Março, decidimos dar um saltinho à vizinha Espanha. Não fomos aos caramelos mas sim à neve. Depois de várias tentativas abortadas de idas à neve para snowboardar/esquiar, lá se concretizou finalmente o desígnio no fim-de-semana em que se iniciou a Primavera.
A escolha recaiu sobre Serra de Béjar – La Covatilla, na província de Salamanca e Comunidade Autónoma de Castilla e León. A opção por esta estância, até há bem pouco tempo desconhecida por nós, deveu-se à proximidade a Portugal e às boas condições que apresenta para um fim-de-semana de snowboard/ski. Ainda que pequena, cerca de 20 Km esquiáveis divididos por 19 pistas (7 azuis e 9 vermelhas) mais um pequeno snowpark, apresenta condições superiores à nossa Serra da Estrela, o que justifica a procura cada vez maior por portugueses apaixonados pela “branquinha”.

Situada a sul de Salamanca, a cerca de 70 km, e na parte mais a oeste do Sistema Central de Montanhas, a estância de ski da Serra de Béjar – La Covatilla, tem uma exposição a norte e uma altitude que varia entre os 1990 e os 2369 metros, o que faz com que tenha boa quantidade e qualidade de neve durante o inverno. Pareceu-nos que se cheia de neve tem uns bons foras de pista. Mesmo sem estar repleta de neve os foras de pista mereceram uma atenção especial pelos meus compinchas que, ainda arriscando-se a uma superfície gelada, não resistiam a sair das pistas balizadas. E eu lá os acompanhava, ainda que sem grande entusiasmo.

Para além da oferta de desportos de neve, na Serra de Béjar, declarada reserva da biosfera pela Unesco , e arredores é possível percorrer diversos itinerários pedestres, trilhos de btt, fazer voos de parapente e visitar aldeias históricas, ao que parece de grande beleza. Descobrir a região através destas actividades fica para um próximo momento. Voltaremos.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Até Bassano



Por incrível que possa parecer, a maioria dos visitantes de Veneza não fazem mais do que isso mesmo, visitam Veneza. Ficam apenas um dia e, por isso, certamente não a chegam a conhecer, entender, viver.
Não que tivéssemos conseguido tudo isso nos (sempre escassos) dias que por lá ficámos. Mas tivemos ainda algum tempo para uma saltada à lindíssima e pitoresca Bassano del Grappa, a cerca de 1h 30m de Veneza, numa viagem de comboio com a paisagem que o rodeava completamente coberta de neve.

Bassano sofreu com as duas Grandes Guerras, mas a sua simbólica ponte de madeira sobre o Rio Brenta sobreviveu para continuar a servir de postal. Desenhada pelo arquitecto Andrea Palladio (nascido em Padúa e autor de inúmeras “villas” e palácios um pouco por toda a região do Veneto) em 1569, é um prazer caminhar sobre a ponte, com as montanhas e os edifícios amarelos e rosa da cidade como cenário. Caminhando pelas suas ruas, o prazer não esmorece, encontrando-se praças, cafezinhos e “bottegas” encantadoras.
Uma boa opção para fugir aos canais de Veneza.

domingo, fevereiro 08, 2009

Instantes de Veneza







Postais de Veneza


Desde o Campanário da Praça de São Marcos


Isola de San Giorgio Maggiore



Fondaco dei Turchi


Ca´ D´Oro


Palazzo Contarini del Bovolo

Por Veneza

Veneza faz-nos lembrar Lisboa. Pode parecer pretensiosismo dizê-lo assim, e logo de começo, da cidade de todos os elogios, de todos os superlativos, considerada por muitos como a mais bonita do mundo.
E pode parecer falta de abertura em conhecer e reconhecer as diferenças e novidade dos sítios para onde fugimos do nosso lar.
Mas não. Quer apenas dizer que nos sentimos bem em Veneza, “La Serenissima”, bem com a multidão (não era assim tanta) e bem com o cheiro (se estava lá não chegou ao nosso olfacto).
E porquê a conversa de Lisboa?
Porque se sente pelas estreitas ruas de Veneza, aninhadas nos incontáveis canais, a intimidade que se vive nas ruas dos bairros históricos e mais pitorescos de Lisboa, Alfama à cabeça, claro. É deveras familiar esta roupa estendida à janela. Mas com a corda a unir dois edifícios divididos por um canal, só em Veneza.



E porquê mais? Esta serve como desculpa: porque foi do país donde Lisboa é capital que veio parte do contributo para o começo da “decadência” do monopólio de Veneza como cidade mercantil, ao descobrirmos o caminho marítimo para a Índia. “Decadência” relativa, pois pode uma cidade que viu nascer nomes como Marco Polo, Casanova, Vivaldi, Titian, Tintoretto, Tiepolo e Canaletto jamais ser afectada pela decadência?
A cidade do Tadzio, o rapazinho dumas férias de Verão no Lido que elevou Morte em Veneza de Thomas Mann a livro obrigatório?
A cidade onde decorrem hoje eventos como a Bienal e o Festival de Cinema?
E que dizer a nomes encantadores como Ponte dos Suspiros? Talvez que foi uma pena que a dita estivesse em restauro, ficando-nos assim apenas pela poesia da sua designação.

E, depois, bem, depois há tudo aquilo que já se sabia.

A Praça de São Marcos, com a Basilica de São Marcos, o Palácio dos Doges, o Campanário, a Torre do Relógio e Café Florian. Tudo peças de arquitectura que deslumbram, que permanecerão definitivamente na memória depois de as termos visitado in loco.

Os bairros para lá dos canais – os Sestieri – Cannaregio, San Polo, Dorsoduro e Guidecca, Santa Croce, San Marco e Castello.
Tentámos caminhar por todos eles, fazendo um esforço para não nos perdermos – sim, confesso, perde metade da piada de uma experiência em Veneza.
Giudecca de uma placidez rigorosa, mesmo se hoje lugar dos grandes hotéis como o Cipriani ou o Hilton que vieram substituir as estruturas industriais de outrora.
Cannaregio profundo, bairro onde se sente que vive mesmo gente.
San Polo das igrejas e da incontornável Ponte de Rialto e do seu mercado.
Santa Croce o único bairro onde são permitidos carros – na estação de autocarros e no parque de estacionamento.
Castello mais castiço e popular, casa do Arsenal da Marinha.
Dorsoduro dos palácios e museus.
San Marco dos turistas.



E para o fim fica o Grande Canal. A avenida mais movimentada de Veneza é um constante vai e vem de barcos e gôndolas que vão navegando bem junto aos lindíssimos palácios que os ricos de outros tempos foram erguendo ao longo dos cerca de 3km de comprimento do maior canal de Veneza. São edifícios em estilo bizantino, gótico, barroco, renascentista, moderno. O difícil aqui é não nos acotovelarmos para ganhar a melhor posição aos outros turistas no barco público.

A escapada até Veneza fez-se nesta passagem de ano. Felizmente que as tão proclamadas e esperadas multidões de turistas não marcaram presença. Deu para caminhar sem empurrões e visitar atracções sem esperar eternidades. Em compensação, uma surpresa – a neve. Levantar no dia 1 de Janeiro de 2009 e ver os telhados todos branquinhos foi um mimo.

domingo, janeiro 11, 2009

Agustina

Ontem acabei de ler pela primeira vez Agustina (que vergonha ter sido só ontem!).
E ocorreu-me que quem tem o Douro à sua beira, tem inspiração para nos fazer amar a Sibila.

Entre Muñoz



E ainda dizem que o Porto perdeu pujança, que Lisboa é que fica com tudo…
Como se não bastasse terem à sua disposição em parque público a obra “Treze a Rir Uns dos Outros” no Jardim da Cordoaria (ainda que em estado de desleixo), Serralves apresenta os últimos dias de uma retrospectiva do escultor espanhol Juan Muñoz.



Em tempos de crise, sisudos, vem mesmo a calhar este sorriso de satisfação e de emoção com que ficamos ao passear pelas obras de Muñoz, pelas suas figuras quase humanas, aqueles anões com traços chineses, sempre sorridentes. E, assim, tornamo-nos mais uma das suas esculturas, ali perdidos no meio da multidão, sozinhos no meio de tanta gente, admirando Muñoz.