quarta-feira, outubro 07, 2009

Marraquexe



Marraquexe identifica-se imediatamente.
Sem ter elementos naturais na cidade ou à sua volta, como uma montanha, o mar ou um rio, ou elementos arquitectónicos tão singulares como um edifício ou uma ponte que nos digam claramente, sim, estou a reconhecê-la, é Marraquexe, qualquer um chegará à mesma conclusão se se ater a um simples detalhe: a cor.
Concretizando melhor, a cor ocre de todo e qualquer edifício. Seja na Medina ou fora dela, na parte nova da cidade, o tijolo domina nesta cidade surgida no meio do deserto.






Aquela parte de dizer que não havia elementos arquitectónicos que a distinguissem era um bocadinho exagerada. Afinal de contas, a imagem da praça Djemaa El-Fna, simplesmente “a praça”, é mais do que conhecida por todo o mundo. No entanto, a este caso não se aplica o dito “uma imagem vale mais do que mil palavras” por absoluta falta de consonância com a realidade. Aqui acontece de tudo. Mas tudo mesmo. A chamada logo de manhãzinha para a oração desde a vizinha mesquita Koutoubia não nos prepara para a vida que vai aparecendo e acontecendo lá mais para o final do dia. Entre os inúmeros vendedores de laranjas, frutos secos e água a animação é interminável e eclética, mas nunca sem sair do kitsch. Aos muitos encantadores de serpentes (ui… que medo) juntam-se os macacos educadamente sentados ao lado dos seus donos que zelosamente os têm em coleiras, mas os libertam logo que vêem um turista disposto a uma foto. Ao lado estão as senhoras dispostas a desenharem-nos uns riscos árabes no corpo ou a lerem-nos umas cartas. Mais adiante as cantorias, onde há lugar para um senhor cantar e tocar com uma galinha na cabeça. Segue-se o ponto onde se desenrolam tantos jogos quantos os que a nossa imaginação permite, como tentar pescar uma garrafa, chutar uma bola por entre uns pinos, transportar um maço de tabaco de um copo para o outro utilizando uns duvidosamente apropriados longos palitos.



E será todo este circo que rapidamente toma ares de confusão seguro?
Sim senhores, tão seguro como sentar e comer quaisquer petiscos no meio da praça, sejam uns caracóis ou um peixinho, espetadas de carne, beringelas, sopa, o que houver, como o provam a variedade da clientela, desde famílias marroquinas, outros africanos em viagem, jovens surfistas, hippies, casalinhos em lua de mel, casalinhos com filhos, ou uma portuguesa mais entradota com duas filhas trintonas.
Há também a opção – igualmente imperdível – de se jantar num dos terraços com vista para a praça. Aqui entende-se a azáfama da alegria de uma forma mais global, acompanhada pela iluminação das várias tendas lá em baixo.


Então e Marraquexe é só isto, a cor de tijolo e a praça?
Óbvio que não. Mas fica desde já o aviso que não é fácil chegar até aos seus encantos sem algum desconforto.
Comecemos pela escolha do local onde pernoitar. Num hotel / resort na parte nova da cidade ou num riad na Medina?




Claramente, arriscamos mandar o sossego e o conforto para trás e o riad leva a palma. As ruas na Medina são todas intrincadas, estreitas, escuras, podem vir a redundar em becos, mas não especialmente sujas ou mal cheirosas, e durante o dia (pior, noite) em cada canto ouve-se a chamada para a oração. Mas depois – surpresa – de um edifício qualquer, que pode até ser um bocado feioso no seu exterior, surge-nos pela frente uma mansãozinha com um pátio lindíssimo, cheia de pormenores mouriscos e recuperada com um bom gosto superior. Podemos ficar instalados no 3.º andar e não há elevador. Podemos ficar todas pegajosas de suor e não há piscina. Podemos querer jantar e não há se não a solução de procurar um restaurante ou ir à praça. Mas e então? Ambiente é tudo.




Quem vem de fora da Medina vem, talvez, procurar antes de mais os souqs, os mercados. São ruas e mais ruas com lojas e/ou tendas que vendem de tudo um pouco e onde, dizem, o regateio é uma arte. Vou directa ao assunto: se para a maior parte das pessoas é uma chatice dormir na Medina, para mim permanecer mais do que 2 minutos parada num souq é um desconforto e aborrecimento superlativo. Sim, gosto de andar de um lado para o outro a ver e sentir o bulício das negociações, perder-me como qualquer não nativo, olhar de vez em quando para uma montra. Não, não suporto ver mais do que 2 vezes as mesmas tralhas, os preços iniciais das quinquilharias mais caros do que na Feira de Artesanato de Lisboa, a pressão dos vendedores para que entremos apenas na sua simpática loja. (E aqui vem uma comparação inevitável: na Turquia consegui visitar o grande bazar e não trazer de lá nada, por isso não há grande espanto que em Marraquexe tenha logrado a mesma proeza. Mas na Turquia a simpatia dos vendedores era autêntica. Em Marraquexe, e como dizia o outro, há que dizê-lo com frontalidade, os vendedores raiam o ordinário. Começam com a técnica do entre só para ver o meu espaço, entre só para ver como executo a minha arte, não precisa de comprar nada. Mas depois, quando damos meia volta sem nada nas mãos, vem o filha da p…, vai-te f… Não aconteceu apenas uma vez, logo, permito-me concluir que não é um procedimento raro. Houve ainda outras situações aborrecidas de miúdos que insistiam em levar-nos até um determinado ponto achando que estávamos perdidas e nos queríamos encontrar. Não obstante a nossa insistência para prescindir da companhia, mais uma vez, a principio só bondade e bem receber, chegadas ao destino dá cá isto e mais isto e, quando não demos, vai para ali e mais acolá. Infelizmente não fiquei com a melhor das impressões de todos os marraquexinos.)




Eis por que referia não ser fácil chegar até aos encantos de Marraquexe sem algum desconforto – o de muitos que não apreciam ficar num riad na Medina e o meu que não aprecio ir de compras para os souqs.

Mas, tirando as compras nos mercados, Marraquexe valerá a pena para todos pela Mesquita Madrassa Ben Youssef, pelo Palácio Bahia, pelo Museu de Marraquexe, pelos Túmulos Saadianos e, fora da Medina, pelos Jardins Majorelle e pelos Jardins de la Menara. Todos os edifícios acima referidos na Medina são absolutamente discretos e sem graça no seu exterior, havendo que dar umas quantas voltinhas para a frente e para trás até os encontrarmos pelo meio das ruelas. Todavia, o seu interior de pormenores e motivos ornamentais e decorativos arabescos valem qualquer viagem mesmo que fosse necessário dar a volta ao mundo para se lá chegar. Como somos portugueses e falamos de Marrocos… sem desculpa.


terça-feira, outubro 06, 2009

Au Revoir Simone

Ontem, numa noite chuvosa, contrariando o que lhes foi dito, muita gente saiu de casa para ir ver e ouvir as três meninas do bairro culturalmente mais efervescente de Nova Iorque, Brooklyn.



E acredito que ninguém tenha ficado desiludido, já que as Au Revoir Simone brindaram-nos com as suas músicas indie pop suaves e belas.
No final, ao som de Dark Halls, convidaram o público a subir ao palco para encerrarem o espectáculo a dançar. Para delírio de quem assistia e atordoamento dos seguranças.



Esta atitude veio reforçar a ideia que ficou durante o espectáculo, onde a humildade e simpatia reinaram. Não contentes estenderam a boa disposição e a entrega para uma sessão de autógrafos e convívio completamente informal no átrio da Aula Magna.
Uma palavra. Cativante.
Au revoir e até breve.

domingo, outubro 04, 2009

A Voz

Si se calla el cantor calla la vida
porque la vida, la vida misma es todo un canto
si se calla el cantor, muere de espanto
la esperanza, la luz y la alegría.

Si se calla el cantor se quedan solos
los humildes gorriones de los diarios,
los obreros del puerto se persignan
quién habrá de luchar por su salario.

composto por Horacio Guarany, cantado por Mercedes Sosa



Infelizmente esta semana não trouxe só boas notícias para a América Latina.
A sua maior voz calou-se para sempre hoje em Buenos Aires.
À parte a possibilidade de ouvir a qualquer momento as gravações deixadas por Mercedes, cantando o que os mais inspirados compositores do mundo escreveram, ficará para sempre a recordação da felicidade de ter ouvido a sua voz poderosa a sair do seu corpo pequeno na Aula Magna, no ano 2000.
Gracias a la vida (e a Violeta Parra).



sexta-feira, outubro 02, 2009

Rio 2016

O Rio de Janeiro ganhou a organização dos Jogos Olímpicos de 2016.
Trocando por miúdos, a cidade mais emocionante do planeta vai receber o evento mais emocionante do planeta.
Não consigo imaginar como poderá o Rio ficar ainda mais lindo e emotivo.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Berlengas

Um passeio de um dia às Berlengas só não se torna num dia perfeito pelo simples pormenor, mas impossível de negligenciar, de que o “pacote” vem acompanhado de um tormentoso trajecto de barco de cerca de 45 minutos para lá e mais 45 minutos para cá. Diz quem sabe que os primeiros 45 minutos são os piores, como que a dizer que não há paraíso sem se passar previamente pelo inferno e, então, na ausência dos comprimidos não restou outra solução se não fechar bem os olhos e fazer de conta que o saquinho que a tripulação nos dá logo de entrada é mesmo para o lixo que não se deve deixar na ilha, e não para a consequênciazinha do mítico enjoo.
A última (e única?) vez que tinha estado na pequena ilha foi seguramente há bem mais de 20 anos. Só me lembrava, pois, daquela subida bem pronunciada que nos espera logo à entrada. Mas porque que é que não tinha claro na memória aquela transparência intensa das suas águas?
Um dia nas Berlengas dá apenas para caminhar um pouco até ao pitoresco forte (mais água de cores de sonho), apanhar um barquinho conduzido por um daqueles artolas que se gaba de só trabalhar nos meses de Verão e que nos conta umas histórias muito duvidosas acerca das grutas por onde vamos passando e, por fim, tentar estender a toalha na praia mínima junto ao porto. Aqui, debaixo do sol, vamos ganhando coragem para entrar na água gélida e, após a missão ser superada, ganhamos ainda mais coragem para imitar os miúdos e saltarmos como eles da prancha rumo à água transparente.





Um fim-de-semana nas Berlengas será talvez o ideal. Mas, agora que a residencial no Forte São João Baptista foi fechada pela ASAE (diz que devido à pouca qualidade da água doce) a única solução para passar a noite é acampar no parque de campismo. E a ver pela sujidade das tendas que por lá estavam e os berros esganiçados das gaivotas, acredito que seja isso mesmo: passar a noite, porque dormir deve ser difícil.
Mas, pensando bem, quem quererá dormir numa ilhota quase exclusiva, com uma fauna e flora apelativas, com aquela imensidão de céu bem estrelado (assim o imagino) a rodear aquele pedacinho de terra cravado no imenso Oceano Atlântico?

segunda-feira, setembro 14, 2009

Geysir

Algo do género no nosso país só mesmo isto


Vulcões de água - Parque das Nações

É engraçado. Mesmo surpreendente. Tem encanto. É até uma delícia observá-lo. No entanto é uma obra, ainda que notável, meramente humana.
Em contraponto, na Islândia, existe um fenómeno que pouco tem origem na acção antrópica. Aí estão concentrados muitas das manifestações naturais existentes no planeta, responsabilidade da sua imensa actividade vulcânica e sísmica, ou não fosse o país situar-se entre a placa americana e a euroasiática.
Um dos fenómenos mais espectaculares, estrondosos, surpreendentes e viciantes de admirar é o geysir. O nome Geysir, vem do mais antigo registo de erupção de águas quentes, que ocorreu no vale de Haukadalur, na Islândia. Desde aí a palavra geysir caracteriza todos os fenómenos de jorramento de águas quentes.
O Geysir (o original) deixou de funcionar mas felizmente ao lado, igualmente no campo geotérmico de Haukadalur, funciona o Strokkur, o geysir, actualmente, mais espectacular em actividade na Islândia. De 4 a 8 minutos dá-se uma erupção de água a ferver a uma altura que pode chegar aos 23 metros.



O Strokkur está em actividade desde 1789, depois de um terramoto que desbloqueou o sistema do geysir. Esteve em actividade até 1896, quando um novo terramoto bloqueou o geysir. Desde 1963 até actualmente foi de novo desbloqueado e encontra-se em actividade.
Observar o Strokkur é um espectáculo. Desde a expectativa do momento de explosão, que é vivido ansiosamente a olhar para o buraco por onde a água é expelida e que no tempo que intermedeia a explosões é um borbulhar constante;


o inicio da erupção que tem um efeito magnifico, em que a água ganha uma tonalidade mágica;


a erupção que, ainda que seja o momento mais esperado, é surpreendente e causa mesmo emoção; até, por fim, o efeito de bruma que fica na atmosfera devido à diferença de temperaturas da água, que chega a atingir os 120º C, e a temperatura atmosférica.



Quando se está a fotografar o fenómeno a ansiedade da espera é ainda mais vivida porque cada etapa tem o seu momento, que tem tanto de lindo como de fugaz. Mas quem resiste a documentar este momento?Já sem máquina fotográfica em punho, observei mais descansadamente, mas sempre com uma pontinha de ansiedade, o geysir Strokkur diversas vezes e de vários ângulos, sem haver qualquer enfado. Tudo é tão deslumbrante e inusitado que consegue-se ficar horas a fio a observar esta magia da natureza.

sexta-feira, agosto 21, 2009

Mývatn e Krafla



Esta é uma das zonas mais nobres do país, no nordeste, perto de Akureyri e do Parque Jókulsárgljúfur (com a sua Dettifoss e o Canyon de Ásbyrgi), daí que 10 em cada 10 turistas caiam lá. Se o “Círculo Dourado” da Gullfoss, do Geysir e de Pingvellir, bem juntinhos da capital Reykjavik levam quase todas as atenções com o título de maiores atracções da Islândia, depois de conhecer estes dois circuitos ficamos com a certeza do tanto que vale a pena percorrer uma imensidão de kms até este nordeste para ver quem deveria levar a taça (já deu para ver que Gullfoss e Pingvellir – o Geysir é outra história – não nos encheu as medidas).
Mývatn é o nome do lago, mas toda a zona que o circunda é conhecida pelo mesmo nome. É como um grande parque de diversões. Aqui parecem existir quase todos os fenómenos naturais, e nem se sente a falta das omnipresentes quedas de água e glaciares pois esses há-os por quase toda a Islândia.
Lagos, pseudo-crateras, crateras reais – tanto de areia preta como de água azul –, vulcões ainda activos, campos de lava com formas esquisitas, montanhas de cor pastel, vapores emergindo da terra e, para concorrer com a grande estrela do sul, a sua muito própria lagoa azul.


Tudo o que vemos hoje, com estas características muito especiais, deve-se a uma série de acontecimentos vulcânicos. Mesmo hoje, com o Krafla ainda em actividade, a paisagem arrisca-se a mudar uma vez mais, e a possibilidade de a lava tudo invadir é bem real.

Voltando ao Myvatn, a melhor opção é usar o carro para dar a volta ao lago – cerca de 36km de estrada – e ir parando para umas caminhadas nas inúmeras atracções que vão aparecendo.


Primeira paragem para quem vem de Akureyri: Skútustadagígar e as suas pseudo-crateras que aparecem no meio do lago e vão formando elegantes ilhotas. Este fenómeno natural surgiu após a lava ter escorrido para a água e daí terem sucedido explosões donde resultaram estas pequenas crateras. É um bonito passeio de cerca de uma hora, contornando umas crateras e subindo sem esforço a outras.


Um pouco mais adiante encontramos o campo de lava de Dimmuborgir com as suas estranhas formações, arcos, caves e várias opções de trilhos, um dos quais leva-nos até à cratera do Hverfell.


A subida a esta cratera é um pouco mais cansativa, afinal fica a 463m de altura e depois de chegarmos ao topo é imprescindível fazer todo o seu percurso circular de cerca de 1000m, olhando para dentro e vendo a aridez da sua areia escuríssima, um interessante contraste com a paisagem fabulosa de 360º que nos é dada a ver de todo o lago.




Saindo do Mývatn em direcção ao Krafla e após passarmos por algumas fissuras na terra com água quentíssima, uma delas numa cave, e pela Lagoa Azul aqui do sítio – sem nunca nos esquecermos que esta é uma área geotermal natural – chegamos a Námafjall.
A montanha Námafjall e sua encosta Hverir, que aparecem de surpresa após uma curva em descida na Ring Road (o Námaskaro Pass), provocam-nos mais um espanto e encanto com os seus tons pastel. Mais uma boa caminhada (e será dura se se subir ao Námafjall) onde o único incómodo é o cheirete a enxofre da actividade sulfurosa das fumarolas que vão produzindo bolinhas desde a terra, deixando uma nuvem intensa e húmida à nossa passagem.





Chegando ao Krafla, a verdadeira atracção não é a montanha de mesmo nome, de 818m, ainda em actividade. Muito menos a estação de energia geotermal e suas turbinas. O que surpreende é vermos mais um campo de lava, imenso e passível de crescer ainda mais com novas erupções que, teme-se, poderão estar para breve. O contraste da lava seca e negra com as montanhas e o chão colorido de Leirhnjúkur, com mais bolinhas e bolinhas a saírem da terra a escaldar, e as ovelhas que por ali vão pastando faz-nos duvidar se estaremos a sonhar.




Um pouco mais à frente, a cratera Stóra-Viti dá-nos a certeza de que estas não são paisagens reais. Com a subida ao topo, não muito cansativa, para além de ficarmos com uma noção clara da região do Krafla e da destruição que este foi provocando ao longo do tempo, surpreendemo-nos – uma vez mais – com a água de um azul intenso dentro da cratera. Provavelmente a sua água será quente, mas dará para nadar? Diz quem sabe que a cratera do Viti, no interior da ilha, também tem água azul e quente e é uma das maiores experiências que se pode ter na vida – nadar nesse vulcão. Não confundir, no entanto, a cratera Viti com a cratera Stóra Viti, no Krafla.
Pronto, lá teremos de voltar à Islândia para completar os trabalhos que não chegaram a ser realizados.

segunda-feira, agosto 17, 2009

Glaciares e Mais Glaciares



Mýrdalsjokull, Sólheimajokull, Svinafellsjokull, Skaftafellsjokull, Vatnajokull.
O que liga todas estas palavras? Para além da dificuldade em pronunciá-las (e decorá-las), é mesmo a sua parte final “jokull”, ou seja, e para facilitar a coisa, simplesmente “glaciar”. Estes ficam todos no sul da Islândia, mas podemos ainda acrescentar à lista o Snaefellsjokull (o da Viagem ao Centro da Terra de Júlio Verne), no leste, o Langjokull (no vale de Kaldidalur), mais ou menos no centro e o mais perto de Reykjavik, ou o Drangajokull (o único que não vislumbrámos), bem a norte, nos Fiordes Orientais.
Traçado o cenário, é bom de ver que o difícil é não depararmos com um glaciar na Islândia, afinal de contas eles cobrem cerca de 15% do país e têm influência na paisagem islandesa que nos chegou até hoje, nomeadamente na criação dos vales glaciares e dos fiordes. Numa viagem pelo sul, então, eles vão-nos acompanhando na nossa jornada de carro ao longo da Ring Road, muitas vezes a poucos metros de distância. Mesmo com toda esta familiaridade com o branco vivo do gelo, não nos cansamos de os ver e, pode dizer-se, o auge é a chegada à Jokulsárlón (lón=lagoa).





Nesta lagoa vão boiando calmamente os icebergs que se vão desprendendo a todo o momento dos glaciares ali por perto, para depois de derreterem seguirem a sua viagem rumo ao mar. Estes pedaços de gelo, por entre os quais vão nadando deliciosas focas, tomam formas únicas, custa até a acreditar que alguns não tenham sido propositadamente esculpidos por mãos humanas. A lagoa é verdadeiramente fotogénica, só assim se justifica que com o dia horroroso que se vivia quando por lá passámos as fotos ainda consigam mostrar a beleza do lugar. As cores claríssimas dos icebergs ajudam, é certo.

Quanto ao Vatnajokull é que não houve ajuda possível. Mal dava para ver qualquer pessoa a mais de um metro do nosso nariz, mas ainda assim insistimos em metermo-nos numa viagem organizada e subimos até ao centro de apoio (só os jipes passam nesta estrada) para um passeio de skidoo (a mota que anda nos glaciares). Justificação: marcar presença no maior glaciar da Islândia (e o 2.º maior em área da Europa), o 3.º maior ”ice cap” do mundo ou o 1.º maior sem contar com os existentes nos pólos (um “ice cap” é uma massa de gelo perpétua no topo de uma montanha).
Para se compreender melhor a dimensão deste glaciar resuma-se a coisa ao seguinte: ocupa 8% de todo o território islandês, distribuído por belos 8100 km2 – assim o imaginamos porque o nevoeiro não permitiu confirmar. Logo, o passeio de mota pelo topo do Vatnajokull serviu apenas para gastar um bom dinheirão para andar numa mota sem rodas, antes com um género de esquis (o skidoo).









Melhor empregue foi o $ e o tempo pela aventura no glaciar Svinafellsjokull. Depois de devidamente equipadas, com crapons e martelinho para agarrar bem o gelo, partimos em excursão organizada por uma caminhada naquele glaciar, melhor opção do que o Sólheimajokull (uma língua do Mýrdalsjokull) por este último ser mais escuro, isto é, “sujo”, conforme conselho da portuguesinha da Icelandic Mountain Guides. (Curioso como pode não se encontrar turistas portugueses nos cantos mais remotos do mundo, mas pelo menos um trabalhador encontra-se sempre)
Ainda assim, o Svinafellsjokull também é escuro em muitas das partes onde os iniciantes fazem a sua caminhada. Apesar de retirar algum encanto ao azul intenso que normalmente nos vem à ideia quando pensamos em glaciar, esta situação é absolutamente normal e deve-se aos sedimentos que se vão soltando da terra quando o glaciar a invade. Ao retrair-se traz consigo estes sedimentos. Todavia, encontramos ainda muitas crevasses (fendas naturais que são abertas nos glaciares), mais ou menos largas, mais ou menos profundas, mais ou menos de um azul cristalino que nos faz sonhar. Ao mesmo tempo, este é um dos grandes perigos para quem se aventura em andar por cima do glaciar, poder escorregar e cair num buraco do qual se poderá não conseguir sair. E com tantos glaciares mesmo ali juntinho à estrada, sem esforço de maior para os alcançar, há que ter cuidados redobrados com as aventuras. Sair da estrada rumo à beira do glaciar, sim, mas não cair na tentação de o subir sem equipamento e acompanhamento adequado. O que até nem é muito difícil pois só vê-los ali de perto já nos enche as medidas.


quinta-feira, agosto 13, 2009

Blue Lagoon

Quando nos aproximamos é difícil acreditar no cenário que se vislumbra. Tem tanto de irreal como de espectacular.
Falamos da Blue Lagoon, um spa geotermal, que é uma das maiores atracções da Islândia e fica localizado em Grindavik, na Península de Reykjanes, a cerca de 40 km da capital.
A lagoa foi criada por um acidente em 1970, quando a vizinha instalação geotermal Svartsengi começou a descarregar águas ricas em sal, algas e sílica. Essas águas, de um azul inacreditável, ocuparam os campos de lava preta da envolvente. O resultado é um cenário de outro planeta, composto por um spa de água azul esbranquiçada, alimentada pela vizinha instalação geotermal, donde saem nuvens de vapor, ao qual se junta o vapor que resulta da diferença da temperatura da água, que é muito quente, à volta dos 38º C, e a temperatura ambiente, que é sempre inferior.





A isto junta-se ainda um ambiente natural rodeado de lava preta que contrasta fortemente com o azul da água, assim como um equilíbrio arquitectónico de todo o espaço, que para além da lagoa - que tem à sua volta elegantes decks de madeira, uma queda de água quente artificial, que proprorciona massagens revigorante, dois espaços de vapor e uma sauna-, tem uma série de edifícios de apoio, que incluem alojamento, restaurante, clínica, salas de conferências, loja.
Impressionante.





Igualmente relaxante e terapêutico. As águas quentes são ricas em minerais como a sílica, o que faz com que a Blue Lagoon para além da vertente de lazer, tenha reputação terapêutica para pessoas que sofrem de doenças de pele, nomeadamente a psoríase.
E também romântico. Pois é... 75% das mulheres inglesas que visitam a Blue Lagoon consideram que este é o local perfeito para serem pedidas em casamento...
Ainda que não seja económico desfrutar deste espaço, recomenda-se vivamente uma visita à Blue Lagoon. Depois de dias a percorrer o país de lés a lés e antes de nos despedirmos da Islândia é de aproveitar - a Blue Lagoon fica nas proximidade do aeroporto de Keflavik - para retemperar energias e oferecermo-nos esta experiência única e relaxante, que fecha com chave de ouro a viagem.