terça-feira, abril 24, 2007

Banho ao Lado do Mar



Pelo post anterior deve ter dado para perceber que as piscinas e os banhos de mar nos moviam nas idas à Madeira.
Acontece que as manas foram nadadoras e quando não viajavam a lazer com os pais para a ilha, viajavam a “trabalho” com a equipa.
O mau tempo e o pouco tempo disponível afastaram-nos desta vez do banho de mar. Mas a mana mais nova não podia perder a oportunidade de um mergulho na piscina do hotel.

A Madeira Década e Meia Depois



A Madeira é, provavelmente, o lugar para onde mais vezes viajei, sem contar com a terra da avó. A imagem que guardava da ilha (até à Páscoa passada) era a das palmas sinceras e aliviadas dos passageiros no poiso atrapalhado do avião a escassos 10 metros do fim da pista do aeroporto de Santa Catarina. Era a dos banhos de mar no Clube Naval em pleno Janeiro e o consequente bronzeado fora de época de meter inveja aos coleguinhas à chegada a Lisboa. Era a dos hotéis carregados de estrelas e todos eles com piscina(s). Era a das piscinas da Escola Jaime Moniz, da Levada e, principalmente, da Matur. Era, ainda, a seca do tempo dispendido nas viagens de carro entre o aeroporto e o Funchal ou daqui para qualquer outro ponto da ilha.
Simples memórias da juventude.
16 anos se passaram!
Como foi possível demorar tanto tempo para voltar a um local que sempre senti como meu?
O que é certo é que após sucessivos adiamentos de projectos de passagem de ano no Funchal, sempre chegando à sensata conclusão de que a inflação de preços e cidadãos por m2 nessa época do ano não compensará o espectáculo maravilhoso dos fogos, decidi-me a não esperar mais para ir conferir in loco as enormes transformações operadas na ilha, de cujos ecos vinha ouvindo e lendo aqui no continente.

E que transformações foram essas?
Cingindo-me às memórias referidas no principio deste texto, refiro apenas que hoje o fim da pista do aeroporto fica a um número de metros de distância suficiente da aterragem do aparelho e que existe uma estrada que passa sob as suas enormes vigas de sustentação, possibilitando-nos uma perspectiva ideal da obra de engenharia que foi a sua extensão (li algures que se encontra em estudo – ou até mesmo já em construção – a criação de um circuito de manutenção por aqui, bem debaixo da pista).
Em consequência desta obra, a piscina e todo o complexo da Matur foi arrasado, bem como o Hotel Atlantis (quanto às piscinas da Escola Jaime Moniz e da Levada, apesar de não as ter visitado, sei que não mais estão sozinhas, a elas tendo-se juntado a do complexo da Nazaré e a do complexo de natação desportiva do Funchal).
Os hotéis continuam carregados de estrelas e piscinas, mesmo que tenham acesso directo ao mar. E se alguns deles começam a ficar bastante datados, a necessitar de remodelação urgente, parece não cessar o nascimento de muitos outros. É impressionante como a zona do Lido, pela Estrada Monumental fora, que há 16 anos atrás possuía já hotel sim, hotel sim, em cada número de porta, tem hoje um sem número de novos hotéis e mais um número igual de outros em construção. Todo o espaço entre a dita estrada e o mar encontra-se hoje ocupado por hotéis e restaurantes. Daí que não surpreenda que quando agora lá voltei tenha tido uma dificuldade imensa em identificar alguns pontos. Imagens que pareciam solidamente reais na minha cabeça não correspondem mais à paisagem actual. Com o Clube Naval no topo. Toda esta área sofreu como que uma absoluta cirurgia estética. E, tirando o facto de esta cosmética geral ter provocado a dita confusão de memórias em mim, até que esta transformação correu bem. Ao Lido e ao Clube Naval juntou-se hoje o complexo balnear da Ponta Gorda e, mais importante, foi criada uma promenade a ligar o Lido à praia Formosa, ou seja, cerca de 2,5 km pedonais, a pensar no turista, sim senhor, mas prontinhos a serem usufruídos por todos aqueles que gostam de caminhar junto ao mar, com o verde dos jardins como companhia. E, pensando-se sempre mais além, encontra-se já em construção a ligação da Praia Formosa a Câmara de Lobos.
Por último, uma das obras mais desejadas pelas populações locais e, ao mesmo tempo, mais criticadas um pouco por todo o lado: o esventramento da ilha para criação de túneis e mais túneis.
Desta vez estou com o Presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João, para os madeirenses, o Jardim, para os cubanos (texto sobre a Madeira que é texto não pode permitir-se a omitir o nome do 2.º madeirense mais falado da actualidade, logo seguido de Cristiano Ronaldo).
Na verdade, não pode existir qualidade de vida numa terra pequena mas onde as distâncias em tempo são imensas e desproporcionadas. O aproveitamento dos fundos europeus na modernização e criação de uma rede viária que sirva o cidadão e o aproxime das grandes centralidades já tinha sido iniciado no continente na década de 80 (não sem criticas, também), então, porque não a Madeira experimentar este “progresso”? Aliás, quem visita as lhas Canárias, suas vizinhas, sabe bem que também estas estão hoje bem providas de estradas à conta da CEE.
Resultado, temos túneis seguidos de túneis, aldeias e vilas ligadas por inteiro por um túnel (exemplo do Jardim do Mar ao Paúl do Mar), uma ligação num tempo aceitável entre o Funchal e Calheta (na costa oeste da ilha), Funchal e São Vicente (no norte), Machico e qualquer terrinha da costa este e, cereja no topo do bolo, apenas 15 minutos de carro do aeroporto até ao centro do Funchal.
Os velhinhos e perigosos túneis que já pululavam na costa norte, ainda que parcos em metros de comprimento e em muito menor quantidade, esses, persistem ainda para nos mostrar a beleza imaculada da ilha numa viagem que os roteiros turísticos realçam como uma das estradas mais bonitas de qualquer canto do mundo. Sim, é verdade, desta vez não é mera propaganda.
Ah! Também não tinha a ideia de que na Madeira poderia chover quase 3 dias consecutivos, num deles de uma forma inclemente, com raios e trovões à mistura! Fiquei a sabê-lo nesta Páscoa e à conta disso fui obrigada a percorrer a costa norte da ilha nos modernos e seguros túneis de 4 e mais km. Contrapartida? Consegui, assim, manter intocável uma das memórias que levava na bagagem e, graças a uma das maiores chuvadas a que já assisti, continuo com a recordação das quedas de água que teimavam em aparecer em cada canto, do perigo das pedras a caírem das altas escarpas da ilha e da beleza verdejante imaculada do nosso Hawaii, com o mar e as ondas ali bem juntinho.

sexta-feira, março 23, 2007

O que o Porto tem?

Na esmagadora maioria dos textos sobre a cidade do Porto, escritos ou não por portuenses, existe algo que nunca falha: a alusão à “rival” Lisboa e as comparações da praxe.
Neste texto, escrito por uma lisboeta, insisto em manter a toada.

O que o Porto tem que Lisboa não tem?

Começo pela chegada à cidade, a “Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta”. A melhor forma de se chegar ao Porto é através do comboio, pela Ponte de São João. Até há 16 anos a travessia era efectuada pela Ponte D. Maria Pia, monumento nacional, felizmente ainda (bem) presente na paisagem e, felizmente também, já desactivada para aventuras ferroviárias. E digo felizmente porque uma das lembranças que sempre me acompanha do Porto é o enorme susto que suportei, há pouco mais de 16 anos, com a passagem pelos seus trepidantes carris.
Igualmente, e prosseguindo a mesma lógica, a melhor forma de se deixar o Porto (se a cidade verdadeiramente o permitir) é através do comboio. A semana passada tive o privilégio de o fazer, desde São Bento, com uma enorme bola alaranjada sob a ponte da Arrábida, lá bem ao fundo das minhas costas, a despedir-se de mim. Com isso, à lembrança da entrada no Porto pela Maria Pia, juntarei para sempre a lembrança da saída acompanhada de um pôr-do-sol digno de sonho sob as pontes do Douro.

O Douro, sempre o Douro. E as suas pontes – Dona Maria Pia, Dom Luís, Arrábida, São João, Freixo e Dom Infante, por ordem de construção. São 6 no total. Em Lisboa, há que recordá-lo, são 2. Bem sei que a distância entre as margens do Rio Douro e do Rio Tejo não é bem a mesma entre as cidades onde desaguam para o oceano, mas será que era mesmo inevitável que tivéssemos de esperar pelo ano de 1998, data de inauguração da Ponte Vasco da Gama, para que a Ponte 25 de Abril deixasse de reinar sozinha sobre as águas do Tejo?
Pois é, o rio que rompe a terra e divide Gaia e Porto é bem mais estreito que o Tejo que divide Almada e Lisboa. Isso possibilita, talvez, uma maior relação de proximidade e intimidade com ambas as margens. Não que a vista de Almada para o emaranhado de casas e respectivos telhados lisboetas sob uma luz única no mundo seja facilmente superável. Mas a vista de Gaia para a Ribeira do Porto é, igualmente, esmagadora. E é acolhedoramente melancólica, mirando aquelas casas coloridas, efectivamente habitadas, com a roupa e os lençóis devidamente pendurados nas janelas, acto que felizmente parece não ser ainda proibido na Invicta.


Esta proximidade entre as duas margens possibilita-nos ainda a travessia a pé pela Ponte Dom Luís e, assim, uma vista privilegiada das águas do Douro, da Ribeira e do centro histórico do Porto e do Cais de Gaia. Esta travessia pode ser efectuada quer do tabuleiro superior da ponte (com acesso pela zona da Sé), onde hoje passa a linha do metro, quer do seu tabuleiro inferior, com a companhia do trânsito automóvel. Escolha difícil? Que tal ir até Gaia junto ao céu e voltar ao Porto junto ao rio? E que tal não ter que esperar por 1 manhã em meados de Maio ou Setembro para, com o pretexto das mini-maratonas, poder atravessar a pé (ou de bicicleta) as pontes de Lisboa? Convidativo, não?
Atravessada a ponte e chegados ao Jardim do Morro da Serra do Pilar, é incontornável a lembrança da letra e melodia do “Porto Sentido” de Rui Veloso.

Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende ate ao mar

Quem te vê ao vir da ponte
és cascata, são-joanina
erigida sobre um monte
no meio da neblina.

Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós.

E esse teu ar grave e sério
num rosto de cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria

Ver-te assim abandonado
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento

E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa

Está lá tudo. Em palavras, claro. Porque a vista, essa, só lá a sentimos.
Podemos então regressar e, ultrapassada a emoção, dedicamos mais atenção às caves do Vinho do Porto e aos barcos rabelos. Cenário que não deve ser novo para ninguém deste planeta, já que esta é a panorâmica que aparece em 9 em cada 10 fotos do Porto e norte de Portugal.

Mas o Douro não são só os seus barcos típicos, é também o Douro dos remadores e dos miúdos da Ribeira que se divertem a pular junto à Ponte Dom Luís para as suas águas.

E o Porto não é só a eternizada capital europeia da cultura 2001 nem o seu Centro Histórico, património da humanidade, reconhecido pela Unesco. É também a pobreza do mau estado de conservação das suas casas e os inúmeros baldios visíveis dos seus pontos altos. Ainda que na zona da Ribeira e, em parte, Miragaia e Massarelos, se observe o esforço (pelo menos exterior) na manutenção de uma estética pitoresca e colorida do velho casario, o mesmo não se poderá afirmar, na generalidade, da zona dos Guindais e Fontainhas e, também, parte do Barredo. Mais, inacreditável como na zona por excelência de comércio da cidade – a Rua de Santa Catarina – se repetem os casos de edifícios entregues ao abandono, aguardando apenas a sua queda final. Nada de muito diferente do que se assiste na Av. da Liberdade, em Lisboa, a mais cara do país, quase 3 km de comprimento com cerca de uma trintena de habitantes.

E o metro? Constituirá o ex-eternamente adiado Metro do Porto uma diferença face àquele que circula em Lisboa?
Bem, desde 2003 que os lisboetas foram obrigados a abandonar a provocaçãozinha que adoravam impingir aos tripeiros assim que chegavam ao Porto, materializada na inocente pergunta, “pode informar-me onde apanho o metro?”. Hoje os lisboetas dão-se conta do agradável que é viajar nos cerca de 60km das linhas do Metro do Porto, com apenas 8 deles percorridos em rede enterrada, e com acesso a 6 concelhos (para além do Porto, conecta ainda Matosinhos, Vila do Conde, Póvoa do Varzim, Maia e Vila Nova de Gaia), estando prevista a sua extensão para mais 2 (Trofa e Gondomar), possibilitando a paragem em estações que nos deixam no aeroporto, estádio do Dragão, zona das universidades, hospital de São João, tudo isto interligado com os demais transportes públicos e facilitado com um título único com o carisma do “Andante”. Só para servir de comparação, diga-se que em Lisboa o metro foi inaugurado em 1959 e as suas linhas estendem-se por 37km e 3 concelhos (para além de Lisboa, em 2004 chegou a Odivelas e Amadora), e ainda hoje não chega, por exemplo, ao aeroporto, à zona monumental e altamente turística de Belém, Alcântara, ao parque de Monsanto, nem a um concelho mesmo à porta da capital tão carenciado de transportes como o é Loures.

Pois, o Porto pode ter demorado a chegar lá mas hoje está face a face com a modernidade. Aliás, não era necessário ter ficado com uma rede de transportes variada, prática e eficiente (aeroporto, metro, comboio, autocarro, funicular) para chegarmos a essa conclusão. Afinal de contas, o Porto sempre foi considerado como berço de uma grande escola de arquitectos nacionais que atingiram mesmo renome internacional, casos de Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto de Moura.
Não é de estranhar, assim, que no roteiro obrigatório do Porto esteja presente a visita a obras de arquitectura com projecção internacional, como o sejam a Fundação Serralves (Siza Viera) e a Casa da Música (Rem Koolhaas). Com esta última, a cidade ficou dotada de um equipamento cultural que, diz-se, proporciona a melhor acústica do mundo numa sala de espectáculos, para além de um edifício que constitui ele próprio uma obra de arte marcante na imagem da cidade. Com a Fundação Serralves, incluindo Parque, Casa e Museu de Arte Contemporânea, a cidade possui um local onde se pode ir buscar cultura e onde dá vontade de ficar, seja junto às obras de arte em exposição nas salas do museu, seja junto às obras de arte espalhadas nos seus jardins, onde o contacto com a natureza e os animais que por ali se encontram é imediato.

Não muito longe dali fica o Parque da Cidade, com cerca de 8km de caminhos para se alegremente percorrer em direcção ao Atlântico. Sim, é verdade, este parque urbano deve ser um dos poucos do mundo que liga o seu verde directamente ao mar. É um projecto do arquitecto paisagista Sidónio Pardal (diz a mana que Almada tem um parque muito parecido, o Parque da Paz, do mesmo autor), cuja execução se iniciou nos anos 90 e cuja expansão não tem cessado. O mais interessante por aqui é que no meio do imenso verde e dos lagos e seus habitantes quase nos esquecemos que estamos em plena cidade, entre as movimentadas Av. da Boavista e Estrada da Circunvalação, a caminho de Matosinhos.

Mas o vanguardismo do Porto não se esgota nas recentes infra-estruturas de transportes nem nas criações arquitectónicas e paisagísticas de que a cidade vem sendo beneficiada. O espírito inovador, criativo e urbano está igualmente presente nas muitas lojas que nos últimos anos vêm ocupando o centro da cidade, em ruas anteriormente esquecidas.
É o caso da Rua do Almada, antiga rua das ferragens, na qual se encontram ainda algumas oficinas mas onde estas vão ganhando a companhia de outro tipo de lojas e clientes. Aqui estão instaladas lojas de discos, quer em primeira mão quer já usados, raros ou nem tanto assim. E o vinil voltou a invadir as lojas de música. Mas a novidade por aqui será a das lojas “multifunções”, aquelas que tanto vendem roupa e acessórios como peças de decoração, livros, juntando a isso umas mesas para se estar enquanto se toma um chá (Maria Vai Com as Outras), ou então edifícios com os pisos ocupados por várias lojas, cada uma dedicada à sua temática mas focada numa clientela e estilo de vida alternativo (Casa Almada). Outro exemplo desta comunhão de lojas (uma alternativa de bom gosto aos centros comerciais, certamente muito devedora da Berlim Oriental do começo dos anos 90) é o Artes em Partes, na Rua Miguel Bombarda (referido em post anterior).
Precisamente, é na Rua Miguel Bombarda, mais especificamente nos seus números mais altos, nas traseiras do Museu Soares dos Reis, que se torna quase impossível não se tropeçar numa galeria de arte. É, literalmente, porta sim porta sim com este tipo de ocupação térrea. Um autêntico Soho portuense, como já se lhe referiram.
Uma rua atrás, na Rua do Breiner, fica o restaurante vegetariano Nakité. Boa onda, aproveita para comercializar produtos alimentares e livros em conformidade e as refeições, como não podia deixar de ser, para além de saudáveis são deliciosas.
Mais 2 locais de bom gosto onde se pode ter a felicidade de tropeçar caminhando pelo centro do Porto: “Garfos e Letras”, na Rua Cândido dos Reis (bem perto da mais bela livraria do mundo, a “Lello & Irmãos”), também referida em post anterior; e “Rosa Escura”, na Rua da Picaria (paralela à Rua do Almada), um local onde se pode comer ou beber algo leve, ouvindo música num tom decente para que o ambiente propicie uma boa conversa. E o ambiente, para além do balcão e das mesas, é ainda constituído por telas expostas temporariamente, até que outras as substituam, e por peças de mobiliário originais, prontas a ser levadas por quem por elas se apaixone perdidamente (não é difícil) e se proponha a adquiri-las, logo sendo substituídas por outras de semelhante calibre. Transformação, recriação, novidade são as palavras de ordem.

Um pouco distante deste novo Porto, jovem, urbano, inquieto, original e pujante, não posso esquecer algumas outras instituições que marcam o Porto de sempre: o Palácio da Bolsa com os seus salões ricamente adornados, em especial o Salão Árabe a lembrar o Alhambra; o átrio da Estação de São Bento com os seus azulejos, que a tornam merecidamente numa das mais lindas do mundo; o Mercado do Bolhão, apesar das mudanças ainda alma dos tripeiros.

Não há dúvida que o Porto está em alta.

quinta-feira, março 08, 2007

48 horas no Tripanário

Um começo de jornada a observar o Porto. Logo pela manhã, com o frio cortante e com o nevoeiro a dissipar-se à medida que a cidade ia acordando. Para isso nada melhor do que estar no lado certo, em Gaia, mais concretamente no seu cais. Que belo início!

De seguida atravessar o tabuleiro inferior da estupenda ponte D. Luís, para logo de seguida subir à parte alta da cidade através do funcional e bonito funicular dos Guindais. É a minha estreia nesta subida. Vale a pena! Ainda que recomende mais a descida, pois começa-se num túnel para logo sermos invadidos pelo estonteante visual da ponte-Douro-caves.

Um breve deambular pela Baixa do Porto, com o objectivo de apanhar o metro no Bolhão. Destino: Casa da Música.
Entro pela primeira vez no metro do Porto e volto a usar o meu andante, comprado minutos atrás nos Guindais. Andante, que pérola de nome. Mais bem conseguido é impossível.
Chegada à rotunda mais maravilhosa do país - onde o Leão põe a águia no sítio certo - dirijo-me ao Orfeu, um dos cafés mais emblemáticos do Porto.
Logo de seguida uma visita guiada à Casa da Música, da autoria de Rem Koolhaas, para conhecer os meandros desta grande obra arquitectónica.

Regresso à Baixa do Porto para um almoço rápido num dos belos cafés nas imediações da Avenida dos Aliados.
De seguida uma breve passagem pela Garfos e Letras, uma loja que conjuga a venda de livros de culinária com produtos e utensílios alimentares de categoria superior. Vale a pena uma ida a esta loja, mais não seja para sentir o cheiro de chocolate e canela que envolve todo o espaço.
Um passeio pelo jardim do Campo Mártires da Pátria para apreciar o conjunto escultórico Treze a rir uns dos outros do espanhol Juan Munõz.

De seguida uma descida pelas ruelas antigas até Miragaia, para uma visita à Exposição da Colecção Cordeiros (galeria da Foz), que decorria no edifício da Alfândega.
Novamente de regresso à parte alta da cidade, tempo para uma breve visita à Cadeia de Relação, onde se situa o Centro Português de Fotografia e onde, em tempos, Camilo Castelo Branco, quando preso neste local, escreveu o Amor de Perdição.
Com a tarde a aproximar-se do fim, tempo ainda para um passeio pelos jardins do Palácio de Cristal, para ver as cores do rio e do céu e para visitar o edifício da Biblioteca Almeida Garrett, cujo exterior é em parte revestido por meios toros de pinho, conseguindo-se assim uma harmonia entre o edifício e o jardim.

Já com a noite a iniciar um deambular pela Rua Miguel Bombarda, conhecida como o “Soho do Porto”, por estar ponteada por diversas galerias de arte. Muito à frente. Nota para a Artes em Partes, edifício multifunções, que alberga loja de discos, de mobiliário, de roupa, joalharia, galeria de arte, casa de chá, sede da lomografia no Porto.
Fim de jornada na Avenida dos Aliados, a apreciar a iluminação do edifício da Câmara, antes do merecido descanso.



















O segundo dia foi dedicado a algumas das obras de Siza Vieira.
A manhã foi passada em Leça da Palmeira a contemplar as Piscina das Marés e a Casa de Chá da Boa Nova.
Devido à época do ano não foi possível observar as piscinas em todo o seu esplendor, pois para além de não estarem a ser utilizadas, encontravam-se em manutenção.


Agora, a Casa de Chá estava no seu melhor. Que maravilha!
Esta obra emblemática data de 1958-1960 e é fabulosa. A localização, mesmo junto ao mar. As linhas simples do edifício. Os diversos rasgões das janelas para um aproveitamento da luz e do magnífico enquadramento. O mobiliário. Tudo isto torna o espaço único. Daí perceber-se o porquê de tantos estudiosos e apreciadores de arquitectura procurarem conhecer in loco esta obra.
A tarde foi passada no Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Primeiro um almoço no simpático restaurante. Depois um passeio pelos harmoniosos e bonitos jardins para aproveitar o belo sol de Inverno e contemplar as diversas esculturas espalhadas pelo jardim, entre as quais se destaca a Colher de Jardineiro de Oldenburg.

As horas seguintes foram passadas a ver a Exposição Anos 80: Uma topologia. Ainda que a exposição não seja brilhante, vale sempre a pena uma visita a Serralves.
Assim como ao Porto!

segunda-feira, março 05, 2007

Waimea

Waimea Bay. Waimea River, Waimea Valley, Waimea Falls Park – Waimea tem tudo.
Qual a praia mais linda do mundo?Waimea!


Waimea, a baía, é conhecida mundialmente por receber uma daquelas ondulações fortíssimas de que falava em post anterior. É uma das mecas do surf (no que diz respeito ao bodyboard a sua onda é perfeita no “põe para baixo e para dentro e tenta sair”), em pleno North Shore de Oahu, Hawaii, perto de Pipeline e Sunset Beach, outras ondas que lhe disputam a fama. A sua onda chega a atingir os 20 metros, é monstruosa, cavernosa, mesmo, uma daquelas em que cabe perfeitamente um autocarro londrino (ou vários), e uma daquelas que permite a quem cai da sua prancha obter a sensação mais próxima do que é estar dentro de uma máquina de lavar a roupa em funcionamento.


Mais uma vez, passou-me completamente ao lado esta experiência de observar o mar zangado em plena Waimea. Pelo contrário, no Verão de Setembro as águas são calmas, fazendo jus ao nome de “Bay” que acompanha a zona. E o que faz dela a praia mais bonita, para além de vale adentro possuir uma riqueza impar no que toca à botânica e umas quedas de água lindíssimas donde os mais destemidos aproveitam para exibir a sua arte de mergulhar? Desde logo a cor da água, um azul cristalino que nos dá a ideia de que o chão de areia está mesmo ali, ainda que na realidade se encontre a uns 3 metros dos nossos pés.
Então mas Waimea não significa “água vermelha” em hawaiano? Sim, mas, afinal, estamos na Polinésia e o imaginário da cor do mar por estas bandas não é contrariado!
O ambiente na praia, que não terá mais do 800 metros de comprimento para se estender a toalha, é fantástico.
No canto esquerdo uma rocha carismática de tamanho considerável (a Queen´s Leap), criada bem à medida para treinar os saltos para a água, mais do que adequada para ocupar o tempo de flat (sem ondas). Quem não tiver coragem para saltar que observe horas a fim os maluquinhos.
No outro canto da praia, a única construção – uma espécie de farol / torre de vigia – que nos faz chegar à conclusão de que afinal o Homem pisou por ali.
E na areia? Como é uma praia frequentada maioritariamente por famílias, a descontracção impera. Não esqueço os minutos hilariantes que ganhámos as 4 – as manas e as Anas – a observar uma senhora deitada na sua prancha à beira mar, esquecida no movimento das ondinhas que a traziam e levavam numa monotonia repetitiva só possível num paraíso.
Porque é disso mesmo que se trata – paraíso!
E neste lugar fantástico há ainda espaço para os golfinhos nadarem. Tão elegantes na sua linha ondulatória, sem levantar a mínima espuma, para não estragar a paisagem de autêntica baía, tão silenciosos que quem nada a poucos metros deles nem se apercebe da sua presença. Não é mana? Tu que tinhas (e tens) o sonho de nadar com os golfinhos nem sentiste que eles estavam lá contigo, a disputar as tuas braçadas, e de tão relaxada que estavas naquele mar profundo nem acreditaste no gesticular de aviso da restante tripulação estendida na areia.
Pois é, Waimea tem tudo - história, cenário perfeito, aventura, boa disposição, carisma e, principalmente, momentos partilhados que perdurarão no tempo quando tudo o mais for esquecido.

quinta-feira, março 01, 2007

Ondas


Ah, a capa da SurfPortugal do mês de Fevereiro!
Esta onda no Beliche, que eu nunca tive oportunidade que me viesse molhar os pés nas diversas vezes que por lá pousei, trouxe-me à memória outras ondas que eu não vi nem vivi.
Por pura falta de sorte. Ou, dizendo melhor, por pura falta de oportunidade para escolher a melhor época para observar os caprichos do mar.
Depois de ver repetidamente fotos destas nas publicações pelo mundo fora, como acreditar que o mar que observei in loco mais parecia um imenso lago, onde nem os peixinhos tinham competência para criar a mínima ondulação?
Eis Pipeline e Mundaka a mostrar a sua real força ao mundo inteiro, o que não se permitiram fazer só para mim.





terça-feira, fevereiro 13, 2007

Bilbao - Gastronomia e Cultura

Em qualquer texto sobre Bilbao não poderá faltar a menção a pelo menos dois aspectos que mais fielmente caracterizam a cidade: a sua gastronomia e a sua oferta cultural.

Quanto ao primeiro, a gastronomia, confesso que não tivemos nem disponibilidade de tempo nem monetária para nos lançarmos a descobrir os novos e modernos restaurantes da cidade. Optámos, assim, por nos imbuirmos no espírito bem espanhol – e também basco – juntando-nos à barra para pintxear, vulgo tapear.
Na Plaza Nueva encontramos alguns dos bares mais populares no que a esta actividade diz respeito (o Victor Montes e o Café Bar Bilbao são duas boas opções). Os pintxos por aqui são imaginativos, sofisticados e com todos os ingredientes que possamos desejar. O difícil é mesmo chegar até ao balcão, furando entre a multidão, para fazer o pedido. À parte a confusão para se aceder a este ritual, a arte dos pintxos é uma verdadeira cultura, com concursos para se eleger os melhores, livros com um sem número de receitas a eles dedicados e, ainda, rotas dos pintxos sugeridas para que não deixemos nada por saborear.



No que à oferta cultural diz respeito, o Museu Guggenheim é incontornável e pacificamente aceite como o grande e decisivo impulsionador desta nova Bilbao, culturalmente pujante. Lá chegaremos, então, que mais haverá a referir.
Existe um leque variado de museus na cidade, desde o Museu Diocesano de Arte Sacra (do qual só conhecemos os claustros do edifício onde está instalado e onde estava patente uma interessante e patusca exposição de presépios de natal), o Museu Basco, o Museu Taurino e o Museu Marítimo da Ria, até ao Museu de Belas Artes. Para além destes há que não esquecer a programação do Teatro Arriaga (teatro, música, dança), os espectáculos de música, dança, ópera e concertos que têm por cenário o Palácio Euskalduna e, também, as importantes exposições na Sala Rekalde (mais as inúmeras galerias que existem pela cidade).
Os dois museus que visitámos foram o de Belas Artes e o Guggenheim.
O primeiro, não tão falado e alardeado como o segundo, é uma grande surpresa.

O Museo de Bellas Artes de Bilbao expõe obras (pintura, escultura, desenho, gravura, artes decorativas) desde o século XII até aos nossos dias. Possui a segunda maior colecção de arte clássica em Espanha, logo a seguir ao Prado. Entre as inúmeras obras pertencentes ao museu encontram-se trabalhos de artistas como El Greco, Goya, Cezanne, Gauguin. Tenho ainda bem presente a recente entrevista do Presidente da Fundação de Serralves ao Público de domingo passado e concordo quando, a propósito da Colecção Berardo, afirma que não vale tudo ($) para se ter um Picasso quando provavelmente esse Picasso nem será um dos melhores. Não sei se efectivamente o Gauguin do Museu de Bilbao era um dos melhores, ou pelo menos um dos bons, de Gauguin. Sei apenas que só de pensar que um museu tem um Gauguin já fico absolutamente entusiasmada. Daí que a grande desilusão deste museu tenha sido não ter encontrado resposta à pergunta “mas onde raio é que se meteu o Gauguin?”. Ele não estava lá, pronto. Mas estava Vieira da Silva, Bacon, Tàpies, Barceló. Muito boa, interessante e divertida a parte do museu dedicada à arte contemporânea.


O Guggenheim de Bilbao é também um museu dedicado à arte contemporânea.
Talvez, as suas colecções e exposições não sejam o mais importante. Talvez percam para a arquitectura do edifício. Ainda que a sua colecção não seja de desprezar, o Guggenheim de Bilbao é, na verdade, muito mais do que um museu. É desde, logo, uma obra de arte no que respeita à arquitectura do edifício que acolhe outras obras de arte.
Frank O. Gehry, o arquitecto responsável pelo projecto, pôde aqui dar largas à sua imaginação, utilizando os materiais que lhe são queridos, em especial o titânio, e combinando as várias placas, sobrepondo-as às outras, retorcendo-as, dando, enfim, aquela característica tão típica e facilmente identificável das suas obras. Diz que queria que a forma do edifício fizesse lembrar um navio, o que bate certo com a sua implantação – na margem da ria Nérvion e numa cidade conhecida por ser (ter sido) portuária.


Mas o mais fantástico é que esta nova atracção turística é facilmente acessível. Literalmente. Podemos circular em todo o espaço exterior, mirando o edifício de bem próximo, ao nível do solo ou de um plano mais alto (do tabuleiro da Ponte de Salve ou, bem mais distante, do monte de Artxanda ou do Parque de Etxebarria), e tocando-o. Isto em relação à sua fachada. A excelência da sua arquitectura está igualmente presente no interior do edifício, e a entrada no átrio mais não faz do que prolongar o nosso deslumbramento.


A colecção permanente do Guggenheim de Bilbao é, muitas das vezes, acusada de não ser lá essas coisas. Pode ser. Para quem viva em Paris, Nova Iorque, ou numa qualquer cidade alemã. Não é o meu caso. Uma das instalações mais famosas deste Guggenheim é aquela que Richard Serra criou para a inauguração do museu, em 1997, a Serpente, à qual, entretanto, acrescentou outras sete esculturas. A “Matéria do Tempo” ocupa a maior sala do museu e apresenta-se-nos como uma série de esculturas em aço, de tamanho brutal, dispostas em forma de espiral nas quais podemos circular de forma quase infinita até que percamos a noção do tempo – e do espaço. O segundo andar do museu permite-nos uma visão total e abrangente desta instalação / escultura.


Mas onde este museu poderá demonstrar a sua força é na apresentação das exposições temporárias, já que aqui tem a oportunidade de receber mostras que passem por outros Guggenheim no mundo, designadamente na casa mãe de Nova Iorque. Não é o caso, no entanto, da exposição “100% África”, que ao que sei, não esteve até à data em nenhum outro museu desta “marca”.


A exposição “100% África” é apresentada pela Contemporany African Art Collection, conjunto de trabalhos de artistas africanos contemporâneos formada por um empresário suíço de nome Jean Pigozzi. O curioso é que esta exposição se propôs mostrar-nos a arte de cerca de 25 africanos que vivem e trabalham na África subsahariana, abarcando desde fotografia, pintura, escultura até objectos vários recriados através da mistura de despojos que à partida julgaríamos não servir para coisa alguma. Veja-se o exemplo da bicicleta e pássaro gigante de obra de um artista moçambicano.


Em resumo, uma sorte calhar de estar em Bilbao ao mesmo tempo que aí se apresenta uma exposição de arte contemporânea tão rica e, ao mesmo tempo, tão simples na mensagem e nos objectos que utiliza.


No espaço público (passeio) exterior ao museu encontramos ainda dois dos maiores símbolos que, depois do próprio edifício, melhor nos permitem identificar este marco da nossa cultura. Falo do “Puppy”, escultura gigante de um cãozinho coberto de florzinhas, criada pelo americano Jeff Koons, e “Maman”, a aranha em bronze, também gigantesca, criada por Louise Bourgeois.


Tudo em grande, já se vê.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Bilbao - Pontes

Em Bilbao a Ria de Nervion é omnipresente. Nas suas margens têm surgido algumas das maiores transformações que a cidade vem recebendo, nomeadamente a construção do Guggenheim e todo o arranjo do espaço público ribeirinho de Abandoibarra.
Esta Ria vai cortando a cidade de um ponto ao outro, ela que primitivamente se instalou apenas na sua margem direita onde, por exemplo, se encontra o Casco Viejo. Com o passar dos anos, o desenvolvimento do pueblo obrigou a que este se fosse estendendo para o que hoje conhecemos como a área do Abando, a mais recente, cosmopolita e o principal centro de comércio e negócios nos nossos dias.
Neste processo de expansão natural da cidade havia que vencer a barreira da água. Não seria um trabalho difícil, mesmo na época da fundação da cidade, em 1300, uma vez que a ria não tem mais do que 30 a 50 metros de largura.
Percorramos, então, as pontes de Bilbao.

A primeira ponte com que nos deparamos em Bilbao, num sentido leste-oeste, a caminho do Mar Cantábrico, é a Ponte San Antón, a qual se presume ser anterior à própria fundação da cidade. É igualmente conhecida como “Puente Vieja” dado o seu título de mais antiga e, durante muitos anos, única. É um símbolo da cidade e, a prová-lo, a sua imagem faz parte do escudo de Bilbao. Veio, todavia, a ser reedificada em 1937, após a guerra civil.


Segue-se a Ponte de La Ribera e situa-se bem pertinho do Mercado com o mesmo nome. Esta ponte foi construída em 1939 mas neste mesmo lugar existia anteriormente uma ponte colgante (transportadora) desde 1827 (ainda mais antiga do que a famosíssima que vemos hoje em Portugalete).


A próxima que se avista é a Ponte de La Merced, construída em 1886 e reconstruída em 1938. O nome tomou-o de um Convento que no século XVII existia ali bem perto.


Caminhando, ou melhor, navegando rumo ao centro cívico da cidade chegamos à Ponte del Arenal. Esta ponte foi a terceira a ser construída (depois da de San Antón e da ponte colgante que existia onde hoje se situa a de La Ribera), em 1847. Teve como objectivo maior fazer face ao crescimento de que Bilbao vinha tendo e ligou a cidade velha à República de Abando, não sem os protestos dos habitantes desta última que não concordavam com a anexação do seu território por parte dos bilbainos.


Bem junto à Câmara Municipal temos a ponte com o mesmo nome, a del Ayuntamiento. Foi construída em 1934, e reconstruída em 1940, tendo sido, inicialmente, uma ponte levadiça. A partir de finais dos anos 60, com o fim do tráfego mercantil pela Ria, tornou-se apenas fixa e daquelas que se situam no centro é a mais concorrida no que a trânsito automóvel diz respeito.




A ponte seguinte, no sentido que temos vindo a tomar, é um dos ex libris de Bilbao. Da moderna Bilbao. A Ponte Zubizuri, de 1997, projectada por Santiago Calatrava, é exclusivamente pedonal, ligando o Campo de Volantin ao Paseo de Uribitarte, numa área que oferece a todos nós a possibilidade de caminharmos sem preocupações de maior senão a de contemplar a sua fina arquitectura. Cuidado, no entanto, se estiver a chover e quisermos atravessar a ponte. As quedas costumam ser mais que muitas. Enfim… se os materiais usados não previram aquela possibilidade, a originalidade e estética do seu desenho compensam os tombos, mesmo que estes aconteçam à noite, quando a iluminação da ponte nos proporciona um visual quase perfeito.



Segue-se a Ponte Príncipes de Espanha, mais conhecida como La Salve. Foi construída em 1972 para fazer face ao trânsito que inundava esta parte da cidade. Para além do seu colorido verde, tem ainda como marcas características, a torre elevador amarela do seu lado direito (caso o elevador esteja avariado pode-se subir de escadas até à sua plataforma; o que não se pode é perder a possibilidade de se obter uma vista privilegiada do Guggenheim) e a torre que foi posteriormente construída para o lado contrário no sentido de integrar a ponte com o museu. A este propósito, e aproveitando que o museu cumpre em 2007 10 anos de existência, em Dezembro encontravam-se em exposição no Guggenheim as maquetas de três propostas para intervenção artística nesta Ponte, com o objectivo de valorizar ainda mais toda a envolvente. A proposta vencedora propõe-se recriar o arco da Ponte de Salve, passando a sua cor para um vermelho vivo. Para saber mais sobre o assunto é clicar aqui.


Deixados Calatrava e Frank O. Gehry para trás aparece-nos, em seguida, a Ponte Pedro Arrupe. Procura unir o Passeio de Abandoibarra com a Avenida das Universidades. No que a modernidade diz respeito, estão em boa companhia as obras daqueles dois arquitectos, não se pode negar. A última ponte que Bilbao recebeu, em apenas 2003, foi obra do já falecido engenheiro José António Fernandez Ordoñez, que não foi a tempo de constatar o quão fotogénica a sua obra é, principalmente no que ao seu desenho diz respeito se observado por baixo da ponte, bem ao nível da água.


A próxima é a Ponte Deusto. Construída em 1936, começou por ser móvel e veio possibilitar a expansão da zona de Deusto que, assim deixou de ser quase exclusivamente agrária.


Por fim, a Ponte Euskalduna. Tal como a de Calatrava, foi construída em 1997, e da sua plataforma obtêm-se vistas privilegiadas para o Palácio Euskalduna – centro de congressos – e para a área do porto hoje reconvertida em Museu Marítimo.


Já fora de Bilbao, mas ainda parte da sua área metropolitana, encontramos aquela que é, provavelmente, a mais famosa de todas as pontes que aqui estão presentes. É ela a Ponte Colgante (transportadora) que liga as cidades portuárias de Portugalete e Getxo. Foi construída em 1893, por Alberto Palácio, engenheiro basco discípulo de Gustave Eiffel, o que faz dela a mais antiga ponte transportadora do mundo. Tem ainda o privilégio de constar da lista do Património da Humanidade da Unesco.
Como novidade trouxe a possibilidade dos habitantes das duas cidades poderem atravessar a ria sem que isso perturbasse o tráfego marítimo e sem que fosse necessário construir uma estrutura muito alta. Assim, no que se observa hoje em dia, uma espécie de cabine realiza a travessia, presa por cabos metálicos, com capacidade para transportar cerca de 6 carros e dezenas de passageiros em um minuto e meio, com uma frequência quase ininterrupta. Estimativas recentes de 2002 apontam que em 109 anos de história (até essa data) a dita cabine tenha transportado cerca de 650 milhões de pessoas, numa médio de 6 milhões por ano.
Desde 1999 que existe uma passadeira pedonal a 50 metros de altura que permite a visita de quem queira explorar a engenharia da ponte de mais próximo ou aproveitar a vista aérea das cidades portuárias. Não estivesse o tempo chuvoso e nublado e a conclusão desta história poderia ser outra, mais pormenorizada e entusiástica, certamente.
Não obstante, esta ponte, que tem como nome oficial “Puente Vizcaya”, é sem dúvida um marco de engenharia, bem junto a uma cidade pitoresca como é Portugalete, e não falta nem uma canção que lhe presta homenagem “Puente de Portugalete, tu eres el más elegante, Puente de Portugalete, el mejor Puente Colgante…”

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Bilbao - Parques e Miradouros

Como referi em post anterior, Bilbao é conhecida como “El botxo”, “o buraco”, por ficar situada lá em baixo, com as montanhas protegendo as suas margens. Não tem as 7 colinas, como Lisboa. Nem tem um desnível tão característico e carismático como o da nossa cidade. Mas tem, à semelhança de Lisboa, uns quantos funiculares e elevadores que se propõem vencer a batalha da acessibilidade às partes altas da cidade.

Na Praça do Funicular, bem atrás do Campo de Volantin na direcção da Ponte Zubizurri, de Calatrava, apanha-se o funicular Artxanda. São cerca de 700 metros de subida no confortável eléctrico encarnado. E a chegada ao topo deixa-nos num parque bem cuidado, a convidar ao ócio, lazer ou exercício. E a vista! Para um lado temos a cidade de Bilbao lá em baixo, com a ria de Nervion a dividir a terra e o Guggenheim sempre presente. Para o outro lado temos o aeroporto ao fundo, com o inconfundível traço de Calatrava no seu novo terminal. Em resumo, a pacatez no alto da cidade.


De Artxanda é ainda possível observar-se bem vincado na paisagem a grande área que toma o Parque Etxebarria, que parece querer subir aos ombros do Casco Viejo. É destes pontos mais altos das cidades, “as vistas de pássaro”, que nos permitimos compreender melhor a ocupação dos seus espaços. E daqui observa-se como é ainda marcante a presença da memória da indústria na cidade, nomeadamente pela integração das grandes chaminés nos novos bairros ou na reconversão das antigas zonas industriais em áreas de lazer.


Ao Parque Etxebarria pode aceder-se desde o Casco Viejo, seja por um dos ascensores seja a la pata. Estranhamente (lá calhou), optámos por subir a pé a imensa escadaria de Calzadas de Mallona, dirigindo-nos até à Catedral de Begoña, e descer de ascensor depois de uma volta pelo parque. A mãe é que não achou muita piada à estafante ideia mas..., enfim, a vista desde este outro ponto alto da cidade foi uma vez mais compensadora, sendo muito abrangente e esclarecedora dos contornos de Bilbao.


A área onde hoje se encontra instalado o Parque Etxebarria era, até há 25 anos atrás, ocupada por uma fundição e tornou-se no primeiro exemplo da guinada da cidade de Bilbao rumo à reconversão urbanística. Comparando o que era nos anos 80 e o que é hoje esta parte da cidade, diriamos que esta sofreu um transplante de rosto total e a indústria de ontem deu lugar ao imenso verde de espaço público onde os míudos jogam à bola nos campos informais, correm, andam de skate ou, simplesmente, sentam junto à antiga chaminé contemplando o Casco Viejo lá em baixo.


E já que falamos de parques, passemos então para o Doña Casilda, este já não num ponto elevado da cidade, mas antes ao nível da ria. Bem perto da ria, para ser mais correcta. Este carismático parque, a completar 100 anos, fica situado entre o Palácio Euskalduna (Centro de Congressos) e o Museu de Belas Artes, logo, numa área muito concorrida. No centro do parque encontramos um edifício em estilo romântico, em cujas arcadas se reunem os jovens que animam quem por aí vai pass(e)ando. Não lhe faltam os lagos com os patinhos, realçando a vida campestre. Este parque tem estado em constante renovação e não tem parado de crescer. Hoje, a cafetaria do Museu de Belas Artes está plenamente integrada na área do parque e, por outro lado, este vem ainda estendendo-se para mais próximo da água até tocar e quase se fundir com a área de Abandoibarra colada à ria.


Esta zona circundante à nova Avenida Abandoibarra, que liga o Euskalduna ao Guggenheim, passando pelos recentes hotel Sheraton e centro comercial, oferece-nos um novo parque, conhecido como Paseo de la Memoria. Os seus objectivos são ambiciosos já que se propõe abranger muito para além da área que liga aqueles dois novos símbolos da cidade, estendendo-se por quase toda a orla direita de Bilbao, até às portas do Casco Viejo. No meio deste intenso verde encontramos um sem número de obras de arte pública, incluindo a “Bailarina” de Dali, e um jardim infantil bem em frente do Guggenheim, em cujos cavalinhos passei, aliás, a meia noite de 2006 para 2007. Aqui, à semelhança do que acontece com o nosso Parque das Nações, igualmente um bem sucedido projecto de reconversão urbanística, devemos estar atentos aos detalhes, não só das esculturas que nos vão aparecendo amíude, como também dos candeeiros, dos bancos, dos caixotes de lixo e de todas as outras infra-estruturas que lá estão para nos servir em todos os sentidos.

A Bailarina de Salvador Dali

Os candeeiros do Euskalduna

A mega chávena em frente ao Sheraton

Estamos, então, conversados no que a parques diz respeito? Parece que não. E digo parece porque estes foram apenas aqueles que conseguimos visitar nesta curta jornada, mas muito haverá ainda para descobrir nesta nova cidade com o novo propósito de ser vivida pelos seus habitantes.