domingo, agosto 09, 2009

Fauna Islandesa

A Islândia é quase sinónimo de natureza, logo, a sua fauna também se inclui nos seus highlights.


A observação das baleias é uma actividade a não perder. No barco somos avisados dos sinais em código que o capitão vai anunciando para as podermos encontrar no mar: meio-dia quando estão em frente da proa, meio-dia e um quarto quando estão à sua direita, um quarto para a uma quando estão à sua esquerda.
Nesta visita ficámos a saber, não sem algum desalento, de que há várias espécies de baleias. Não que esperássemos encontrar a Moby Dick (felizmente não apareceu). Mas esperávamos ver uma baleia a furiosamente emergir das águas escuras do mar, lançando determinadamente as suas barbatanas rumo ao céu enquanto torpedeava um jacto de água das suas entranhas. Tivemos que nos contentar com uma simpática amiga armada em golfinho, ziguezagueando para cima e para baixo, deixando apenas uma pequena barbatana à vista e soltando tímidos repuxos.


Ainda no mar, abundam os puffins (talvez a tradução seja papagaio do mar). São pequenos passarinhos irrequietos com grandes (proporcionalmente) bicos coloridos. Não contámos, mas deve andar lá perto, dizem que conseguem bater as suas asas umas 400 vezes por minuto, voar a cerca de 80km por hora e viver mais de 20 anos.


A nadar junto à lagoa Jokulsárlón, um olhar atento da mana permitiu-nos gritinhos histéricos ao vermos uma deliciosa foquinha com o pescocinho fora de água a pavonear-se por entre os icebergs que se desprenderam do glaciar.


Já fora do mar, ovelhas há-as por todos os lados.



Mas a estrela da companhia acaba por ser o Icelandic Horse, uma raça de cavalos trazida para a Islândia pelos vikings e admirada no mundo inteiro. Aliás, graças à sua exportação ao longo dos anos, hoje há mais cavalinhos desta espécie espalhados pelo mundo no que na própria Islândia. E há-os de diversas cores, mas o mais belo são as suas extensas melenas, quer na cabeça como na cauda. Como se fosse preciso mais esta beleza para enquadrar as já de si belas paisagens da ilha.

terça-feira, agosto 04, 2009

Como Andar Pela Islândia



A melhor forma de conhecer a Islândia, já que os seus encantos não estão, de todo, nas poucas cidades dignas desse título, é alugar um carro e percorrer a ilha de uma forma autónoma, com tempo (9 dias pelo menos), já que os transportes públicos não são uma opção para se chegar aos locais que mais (nos) interessam.
Claro que se vêem viajantes de bicicleta, como o holandês cinquentão que encontrámos pronto para pedalar um desvio de 6 km para lá e mais 6 km para cá de uma estrada em terra batida só para ver uma igrejinha de madeira que o Lonely Planet dizia valer a pena a visita (e valeu).




E claro que também se vêem viajantes (loucos?) a caminhar pelas estradas com a mochilona às costas, sem problemas de a encostar no apoio do parque de estacionamento do início do trilho (mais um) que se propõe executar para lá e para cá, mas desta vez com as costas mais aliviadas. A Islândia é um país seguríssimo (andámos sempre com tudo no carro, incluindo documentos e dinheiro), mas, pois é, ninguém nos contou, nós vimos o rapazinho de mochila às costas a caminho do Krafla e, umas 3 horas depois, quando já estávamos de volta dos nossos passeios, o mesmo rapazinho sem a mochila às costas – estacionada no dito parque – pronto para uma caminhada de mais de 1 hora para assistir ao fenómeno das borbulhinhas do Leirhnjúkur.
Mas, reafirmando, a melhor opção não deixa de ser o carro. E de preferência um jipe 4x4 para chegar a todo o lado e não se estar sujeito às multas do rent a car abusivamente cobradas – dizemos nós, que nos tocou essa fava – por se conduzir em estradas que eles não gostam. Porque a verdade é que tirando a Ring Road, a única “auto-estrada” de uma faixa para cada sentido, e com troços de gravilha, as estradas ainda não são de país mais rico do mundo. O que não se pode criticar, uma vez que as distâncias chegam a ser enormes, ainda que olhando para o mapa o possam não parecer. Mas basta lembrar que há que contornar o fiorde, há que subir para logo descer a montanha, há que evitar o glaciar.



Por outro lado, com o carro e com o dia longo de luz, fica mais fácil estender a jornada e procurar alojamento. O ideal é ir reservando de um dia para o outro, pelo menos. Mas, assim, acaba por não haver surpresas como a que tivemos para os lados de Akureri (a segunda cidade da Islândia) quando não encontrámos alojamento vago numa extensão de uns bons 50 km e fomos ter a um hotel à beira de um lago onde nos foi respondido que já não havia quartos disponíveis, mas que tinham salas de aula caso tivéssemos sacos cama. Sorry? Class Rooms? Sim, com quadro e carteiras e tudo. E inteirinhas só para nós duas. E num outro “hotel” calhou-nos um ginásio inteirinho com cestos de basquete de cada um dos lados, incluindo uma bola, mas incluindo também mais uma solitária mochileira. Apesar de anteriormente ter lido sobre a ideia, já a tinha esquecido. É o seguinte: como as povoações que vão aparecendo fora das poucas cidades têm escassa população (a esmagadora maioria não passa dos 100 habitantes), os miúdos têm de se concentrar em escolas e aí permanecer internos pelo menos durante a semana. Logo, as escolas têm salas de aula e ginásio, sim, mas têm também quartos, salas de estar, cozinhas, piscinas. E se no Inverno o seu uso é exclusivo dos alunos (e professores), no Verão, quando estes vão de férias, as escolas são transformadas em hotéis e aproveitadas para os turistas. Com quartos para os remediados e espaços comuns para os pelintras. A somar às pousadas da juventude que existem espalhadas um pouco por todos os cantos, estes hotéis escola são, assim, uma boa forma de se tentar poupar dinheiro num país caríssimo.


Outra forma de poupar algum dinheiro é comprar umas comidinhas simples e rápidas no supermercado, parar ao almoço para fazer um piquenique e aproveitar a cozinha do hostel para preparar o jantar. Mas esta forma de poupança é quase obrigatória, pois se o jantar para dois num restaurante sai praticamente ao mesmo preço de um quarto duplo, ao almoço pura e simplesmente não se encontram locais para o fazer. No meio do caminho escasseiam os supermercados, normalmente sempre junto a bombas de gasolina, daí que também seja boa ideia ir abastecendo de combustível com frequência para não se correr o risco de ficar parado, literalmente, no meio do nada.



A paisagem da Islândia é variada, mas os desertos abundam. Seja o deserto de mar, junto aos fiordes, seja o verdejante, com os carneiros e cavalos a brincar à vez, seja o de lava, seja o de gelo, seja o de sedimentos – o sandur, palavra islandesa que entrou para o léxico mundial. Será uma terra inóspita no Inverno, nem consigo imaginar tamanha desolação, mas bastante agradável no Verão (que não passa de um Inverno encapotado para nós, portugueses). Há sempre alguma novidade geológica ou paisagística ao virar da curva. Uma igreja a descobrir, sejam as de madeira de séculos passados, seja as de poucas décadas, de arquitectura futurista que jamais se esperariam encontrar perdidas no meio dos fiordes. As montanhas têm cores tão lindas e variadas que é impossível deixar de as admirar ou cansarmo-nos da sua presença. Os glaciares são tantos e tão extensos que se pode viajar um dia inteirinho de carro com aquelas massas de gelo sempre ao nosso lado. As quedas de água sucedem-se, de todas as formas e feitios. Há-as em todos os cantos da Islândia. E assim como não consigo escolher a minha preferida, também não consigo dizer qual das regiões da ilha mais gostei.

Um lamento, apenas: não termos ido ao interior da ilha, aquele que é descrito como o mais aterrador local, por conjugar todos os adjectivos que descrevem o isolamento e a desolação. Não foi por isso que não chegamos até lá, mas antes por falta de condições técnicas, digamos. Com isso deixamos de viver e sentir, certamente, uma experiência apaixonante. Em todos os sentidos, pois há quem diga, e no que toca aos islandeses são a maioria, que este é o local para se encontrar com os elfos e criaturas afins. Uma curiosidade para o fim, muitos islandeses não só afirmam ter visto estes seres como garantem ter mantido com eles relações sexuais. Suspeito bem que esta é a única publicidade enganosa acerca da Islândia.

quarta-feira, julho 29, 2009

Reykjavik

O único momento em que pude ver a noite da Islândia foi à chegada tardia a Reykjavik. E mesmo assim, apenas uma espécie de noite vivida no começo da madrugada.
E os edifícios baixos da capital, de 2 ou 3 pisos, bem que merecem dias soalheiros que realcem o seu colorido para que a paisagem possa ficar mais pitoresca.





Reykjavik está situada à beira do Atlântico Norte e é uma cidade que claramente foi crescendo para e pelo porto, mantendo a linha dos seus edifícios antigos, com as casas de madeira.
Mas se o espaço no mar é dominante, o espaço na cidade não o é menos. Crescendo em comprimento e não em altura, as habitações com os jardins mostram que se preocupam com a qualidade de vida, e os prédios foram deixados para o que se pode chamar de subúrbios, numa série de cidades que foram sendo criadas à volta de Reykjavik e que com ela hoje se confundem. São cerca de 270 mil habitantes (a esmagadora maioria de todos os habitantes da ilha estão aqui concentrados) que vivem numa cidade agradável, sem ser linda de morrer, com parques à medida, uma oferta de restaurantes cosmopolita e, dizem, com uma animação nocturna das mais loucas do mundo. O lago Tjornin marca uma presença forte em toda a cidade, mais evidente ainda quando observado da torre da igreja Hallgrimskirkja.
Desta vez deixámos os museus de lado e apenas dedicámos um dia para caminhar pela cidade. Dá para ficar com uma ideia, mas, óbvio, não dá para dizer que a conhecemos ou, talvez, a entendemos. Aqui fica, no entanto, um possível best of do que não deve ser perdido:


- uma voltinha idílica pelo Lago Tjornin


- caminhar pelo porto, junto ao Atlântico Norte, e parar para observar a original escultura de um barco viking, o Sólfar


- aproveitar um passeio pelo jardim de esculturas na casa estúdio de Ásmundur Sveinsson


- deambular pelo centro descobrindo as casas de madeira, cada uma da sua cor
- olhar para o céu e tentar imaginar que horas serão… ops… 21:00? Hora de jantar no restaurante Fish Market e provar a carne de baleia como entrada.

segunda-feira, julho 20, 2009

O Centro da Terra

Não é fácil imaginar como apenas cerca de 320 mil habitantes, distribuídos por um pedaço de terreno um pouco maior do que o de Portugal Continental, conseguem constituir, sustentar e incrementar uma economia auto-suficiente e autónoma (faz de conta que escrevi isto há uns meses). Mais desafiante ainda para a imaginação: não só o conseguem como ainda fazem do seu país um dos mais ricos e desenvolvidos do mundo. E vivem do quê? Cada vez mais do turismo, mas, essencialmente da pesca, da carne de cordeiro, de um pouco de leite. Quanto a recursos naturais estamos praticamente conversados – tirando magotes de energia hidroeléctrica e geotérmica, que fazem com que os islandeses tenham água quente e aquecimento das suas casas praticamente à borla.
À parte isto, o forte da Islândia são mesmo os seus fenómenos naturais – fiordes, lagos, glaciares, quedas de água de todas as formas e feitios, piscinas naturais com água naturalmente (mais do que bem) aquecida, praias de areia preta, vulcões e suas crateras, lava, sandurs (desertos de sedimentos), montanhas coloridas, géisers, canyons, parques naturais com infindáveis oportunidades de caminhadas. Terei esquecido de alguma coisa neste rol dos fenómenos da natureza que mais encantam? Então acrescento-lhe ainda as baleias, os puffins e os cavalos islandeses, belos de morrer. Só não tivemos direito a aurora boreal, mas isso a culpa é da época do ano.
Apenas umas curiosidades mais. Apesar de geologicamente a Islândia ser parte tanto da placa continental europeia como americana, pertence à Europa, mas não se livra de ter como pedaço de terra mais perto de si a Gronelândia, a 287 km, sendo a Noruega, a 970 km, o mais perto que consegue alcançar do continente europeu. É também com o idioma norueguês, segundo uma portuguesa que encontrámos por lá a trabalhar, que a sua língua é mais parecida, não tendo evoluído muito desde o tempo dos Vikings. Será por isso que não entendemos nada do que falam e escrevem? Mas se por aqui não podemos falar em movimento e juventude, que dizer da ilha de Surtsey, parte do arquipélago das Vestmannaeyjar, uma das mais recentes ilhas do mundo, cortesia de uma série de erupções havidas em 1963? Pois, pura energia e emoção, a reviver em próximos posts.



falei das fumarolas fazendo bolhinhas na terra colorida? mais um fenómeno para acrescentar à lista

Brevíssima Introdução à Viagem ao Centro da Terra



Para a Islândia, projecto antigo, só havia uma solução: reservar parte do mês de Julho, de preferência o seu início para ganhar o maior número de horas de luz em cada um dos dias. Na parte que me toca, objectivo plenamente cumprido. Como sou – e lá me mantive – uma menina bem comportadinha, não cheguei a ver mais do que um leve lusco fusco nos 12 dias que passei na ilha com vista (quase) para o Árctico.
Se a Islândia é reconhecida pelas suas paisagens naturais fantásticas, porquê começar por aqui?
Porque é mesmo esquisito andar-se um dia inteirinho sem se notar que a terra quer anoitecer, que são horas de parar a jornada de carro e ir procurar lugar para dormir. E, então, dormir de dia, por vezes com uma claridade que não se via durante o dia propriamente dito. Sim, o sol da meia-noite existe mesmo.
Quanto ao mais, e cumprindo a tradição nórdica, a Islândia é mesmo um lugar civilizado, onde tudo corre pela certa, descontando, é claro, o facto de o país ter ido à bancarrota há meses. Resultado? Menos turistas islandeses pelas praias algarvias neste Verão. E um singelo comentário: se a moeda deles desvalorizou horrores e a economia veio por aí abaixo, continuando os preços lá bem em cima (do ponto de vista desta portuguesa, é claro), como imaginar o custo de vida anterior? A viagem de avião não é barata, o aluguer de carro é estratosférico (vá que a gasolina está ao mesmo preço de Portugal, mas aí parece que o preço das nossas gasolineiras é que é abusivo), as dormidas em saco de cama nos hostels toleram-se, os piqueniques feitos dias a fio ficam por uma pechincha apenas quando comparados com o que se paga em um (qualquer) restaurante da ilha.
Mas, lá está, é aquela viagem que todos temos (devemos) de fazer. A Viagem ao Centro da Terra, como já Júlio Verne tinha escrito.

terça-feira, maio 12, 2009

São Torpes - Sines

Uma manhã de surf nas águas quase tropicais de São Torpes, a praia nacional com o cenário mais industrial.

Vestígios de um duck dive


Chuveirinho


Onde está o button turn?

sexta-feira, maio 01, 2009

Emerita Augusta



Já na Estremadura, mas ainda (mais) pertinho de Portugal, Mérida, ou melhor, Emerita Augusta, faz-nos parar para uma curta visita. Pretexto? O seu Teatro Romano, construído por volta do ano 16 A.C.. Segundo se diz, o facto de estar localizado na colina de San Albin proporciona uma boa acústica para os espectáculos que ainda hoje por lá se realizam para cerca de 3000 pessoas. Quando é o próximo show?

quarta-feira, abril 29, 2009

Morfar em Córdoba

É comum ouvir os portugueses dizerem que em Espanha se come mal, que cá no burgo é que é. Não concordo. O que muitas vezes ocorre é que no nosso país sabemos com o que contar e não nos atrapalhamos na hora de fazer o pedido. Já quando estamos noutro país, com outros costumes, não é tão fácil. Mas é tudo uma questão de descontrair e ir à aventura sem dramas. Se correr mal, paciência. Se correr bem, pode ser uma experiência maravilhosa e um prazer que será recordado por anos. É tudo uma questão de adaptação e estar disponível para vivenciar os hábitos do país que estamos a visitar.
Uma das dimensões de viajar e conhecer a cultura de um país é precisamente experimentar a sua gastronomia. Muitas vezes fiquei frustada por não o fazer. Desta vez não foi o caso.
Ainda que vizinhos e com muitos pontos em comum, nuestros hermanos, neste caso os andaluzes, apresentam uma gastronomia distinta da nossa.
Durante a nossa estadia em Córdoba, que é considerada a capital gastronómica andaluza, pudemos experimentar alguns dos pratos tradicionais. Digladiámo-nos com as magníficas beringelas fritas em polme com mel de cana; com o flamenquín, que é uma fatia fina de carne guisada enrolada num pedaço de presunto, panada e frita; com o salmorejo, uma espécie de creme de tomate servido com ovo cozido picado e polvilhado por cima; com o rabo de toiro; as almôndegas, os revueltos e as tortillas, estes pratos comuns em toda a Espanha.


A nossa geografia gastronómica concentrou-se no centro histórico. Na Judería, localizada na Calle Romero nº 16, fomos à Casa Pepe, uma antiga adega e casa sefardita, com um ambiente simpático e mais requintado do que as outras opções.
Também na Judería, junto à porta de Almodóvar, e do mesmo proprietário, fica a Casa Rubio, com um interior mourisco e ambiente descontraído.


Quase vizinha, na calle Judios, fica a típica Taberna Guzman, boa para beber um copito e comer um chouriço. Tem um interior muito castiço e repleto de elementos alusivos às touradas.

Junto à catedral, numa ruela perpendicular, chamada Calle Medina Y Corella fica a Taberna la Bacalá.
Igualmente numa rua que ladeia a catedral, mas no lado oposto, fica o Bar Santos. Tem um ambiente típico mas muito pequeno, de tal forma que é comum fazer-se o pedido e sair-se para a rua para comer no muro da catedral. Foi o que nós fizemos. E tal como os locais comemos a célebre tortilla, chouriços e mais uns petiscos, tudo acompanhado com um copito de fifty fifty, que é uma mistura de vinho doce e vinho branco.


Para quem gosta de petiscar Córdoba é o local certo. Será que foi por isso que gostei tanto da cidade?

segunda-feira, abril 27, 2009

domingo, abril 26, 2009

Las Cordobesas



Na Páscoa é costume vermos as cidades portuguesas serem invadidas pelos espanhóis. Desta vez resolvemos reagir a este facto enviando uma pequena armada de três moçoilas para Córdoba, a escassas 5 horitas de distância.
Aparentemente, não muitos outros portugueses se lembraram do mesmo. No entanto, a cidade estava cheia de gente – andaluzes, que celebravam a Semana Santa em infinitas e intermináveis procissões das várias confrarias compostas pela população que ocupavam a cidade inteira, e não ibéricos, estes vindos de todas as partes do mundo.


E não é à toa este interesse por Córdoba. Com uma das mais extensas áreas declarada património mundial pela Unesco, a História acompanha cada passo da nossa visita, principalmente aqueles que são dados pela parte velha da sua cidade, considerada uma das maiores e mais bem conservadas de toda a Espanha (logo, o mesmo é dizer, de toda a Península Ibérica). E o mais interessante de tudo, e o que mais agrada e conforta em Córdoba, é verificarmos que o nome que toma esta zona antiga é La Juderia, o bairro onde se encontrava a Medina muçulmana e onde hoje passam as procissões cristãs. Uma convivência pacífica, pelo menos nos dias de hoje, e talvez por isso Córdoba seja tão pujante e vibrante.


Acredita-se que no século X Córdoba tenha mesmo chegado a ser a maior cidade do mundo, quando se encontrava sob o domínio da dinastia dos Omíadas que ali fundaram o califado de Córdoba. E, a acompanhar a instituição deste califado, atestando todo o seu poder, iniciou-se nesse século a construção de um novo núcleo urbano, a Madinat al-Zahra, também conhecida como “Córdoba la Vieja”, a 6 km de Córdoba. Esquecida durante séculos, escavações arqueológicas em 1911 trouxeram à vista este extenso complexo no sopé da Sierra Morena. Os trabalhos entretanto executados deixam-nos uma ideia do que eram, principalmente, a basílica e os salões dos palácios da velha cidade.





Voltando a Córdoba em si, a visita não pode deixar de se iniciar no bairro La Juderia, com as suas ruelas estreitíssimas de casas branquinhas. Os estores debruçados nas janelas deixam adivinhar que o Verão inclemente já vem próximo. Por aqui fica a Sinagoga, uma das poucas conservadas na Península Ibérica (a propósito de sinagoga em Portugal, ver anterior post em http://andessemparar.blogspot.com/search?q=belmonte), com influências arquitectónicas árabes como o pátio e outros elementos mudéjares.

Os pátios de Córdoba abundam e são um encanto, sendo impossível controlarmos um pouco a nossa educação e não meter o nariz em cada porta por onde vamos passando. Mas é mesmo assim. Eles estão aqui para serem vistos. E sim, é mesmo para entrarmos casa adentro, principalmente se estivermos no bairro de San Basilio, famoso pelos seus pátios carregadinhos de vasos com flores. Ou será que os vasos com flores é que têm um pátio? Existe mesmo um concurso anual para eleger o pátio popular mais florido e por isso os cordobeses levam bem a sério a sua decoração.


Este um dos encantos de Córdoba, caminhar pelas suas ruas, pelos seus pátios, ser recebido pelos seus habitantes, como aquela senhora nonagenária pronta a acolher-nos e a um dedo de conversa, provar as suas tapas nos seus restaurantes cheios nestes dias festivos, propondo-nos reserva de mesa apenas lá para as 22:00, não dando abébias mesmo se argumentávamos ser sobrinhas de Manolete (a minha mana tem sempre lata, mas desta vez andava inspirada).




E quanto a património arquitectónico, não falta escolha – atravessar a Ponte Romana sobre o Rio Guadalquivir, caminhar lado a lado com as muralhas árabes, conhecer a Córdoba tradicional, com os seus conventos, igrejas e praças, a que não falta a “praça maior” cá do burgo, a qual neste caso toma o nome de Plaza Corredera, sempre animada e movimentada como todos as outras do país.


Mas o ponto alto de qualquer visita a Córdoba fica para o fim deste post. E são três: a Mesquita-Catedral, o Alcázar de los Reyes Cristianos e os Hammams de Medina Califal.





Começando pela Mesquita-Catedral, ela, por si só, vale qualquer visita a Córdoba, esteja ela ou não a dois passos de distância de Portugal. Este monstro arquitectónico é o resultado de uma mistura de influências ao longo dos séculos. Construída originalmente por volta do ano de 600 como uma igreja cristã visigótica, sob o domínio dos muçulmanos passou a ser usada como mesquita, tendo sido aumentada de tal forma (no século X) que chegou a ser considerada a 2.ª maior mesquita em todo o mundo. Após a reconquista cristã, no século XIII, voltou a ser usada como igreja. Até hoje. O seu interior é imediatamente reconhecível pelos seus arcos brancos e encarnados que encimam as quase 1000 colunas.



Ali perto fica o Alcázar de los Reyes Cristianos. Mais uma vez, a história da mesquita-catedral repete-se. Originalmente sítio de uma fortaleza visigótica, os muçulmanos começaram por reconstruir a estrutura e expandi-la, construindo palácios, jardins e banhos. Após a reconquista, sobre as ruínas da estrutura pré-existente, o Rei Afonso XI construiu (em 1386) o que vemos nos dias de hoje. Tudo parece muito fiel à arte muçulmana porque o estilo escolhido foi o mudéjar. No entanto, os lindíssimos jardins datam apenas dos séculos XVIII e XIX. Antes desta maravilha, uma história negra: o Alcázar foi utilizado como tribunal da Inquisição, tendo sido palco de interrogatórios e tortura. Hoje é uma atracção turística e a subida às suas torres dá-nos uma vista diferente e superior do Alcázar, embora daí não se aviste a cidade.



E para terminar em puro relaxe e deleite, nada melhor do que uma ida ao Hammam de Medina Califal, que se propõe recuperar o espírito dos banhos árabes. E consegue-o. Num edifício que passaria despercebido numa das ruas da zona velha da cidade, perto da mesquita-catedral, vive-se uma experiência que faz jus ao slogan oficial do turismo de Córdoba “emociona”. Historicamente, a cidade contava com mais de 600 banhos árabes públicos na época do domínio muçulmano. Hoje é possível visitar-se alguns deles, mais ou menos recuperados ou conservados, mais ou menos humildes ou luxuosos. Mas todos eles, obviamente, desactivados. Resta-nos, então, este Hammam de Medina Califal, que apesar de não ter sido erigido sobre nenhuma estrutura que antes tivesse a mesma função, nos permite banhar nas suas águas temperadas, quentes e frias, à vez, com direito a banho turco e massagem, num ambiente fiel ao que imaginamos ser a arquitectura árabe, com os mosaicos e os arcos coloridos sobre as colunas que já viramos na mesquita-catedral.
Apenas mais uma experiência para tornar o passeio a Córdoba inesquecível.