sexta-feira, janeiro 21, 2011

Gauguin X Spurs

Quem disse que cultura e futebol não jogam na mesma equipa?
Hoje iniciei a manhã pela exposição do Gauguin na Tate Modern. Cheguei vinte minutos antes das 10:00 e como boa britânica fiz gala em estar na bicha para pacientemente esperar pela minha entrada. Quer dizer, quando a porta abriu o espírito paciente foi-se e desatamos – eu e os companheiros de bicha – a correr para não perder o bilhete da concorrida exposição.



Para dizer a verdade, tirando um ou outro quadro deste Gauguin, o que aqui estava não me seduziu assim por aí além. E eu até que sou bem fã do senhor que acabou a sua vida na Polinésia, mas são precisamente os quadros desta fase que me seduzem, e desses não havia muitos exemplares por lá.



Já que estava na Tate aproveitei para ver as sementes de porcelana que o artista chinês Aí Weiwei deixou na imensidão da Turbine Hall e fiquei com a certeza: passa com cada maluco por aqui.
Adorei ainda ver a maqueta com a expansão da Tate. Será brutal vir a ver aquele espaço mais do que muito aumentado e, mais ainda, a reconversão de mais uns quantos fantásticos edifícios industriais. Fica para daqui a uns anos.
Depois, já que tinha encontro marcado à tarde para a zona nordeste de Londres, fiz questão de correr a pé a Upper St em Islington, para encontrar mais umas quantas lojas que queria fechadas.



Às 15:00 em ponto já estava em White Hart Lane para ver o meu Tottenham Hotspur ganhar. Os hooligans são afinal muito ordeiros, a polícia trata os adeptos como gente, sem revista com apalpões descarados, e o álcool é permitido dentro do estádio até à entrada para as bancadas. Tudo lindo, portanto. O estádio não é tão confortável como o do meu Sporting, mas a competitividade do jogo foi intensa, ainda que tecnicamente não tenha sido grande coisa. E o som dos adeptos foi outra diferença, mais carregado, vindo na esmagadora maioria de homens, o que não se vê tanto em Alvalade. Achei foi que os "Come On You Spurs" vieram só depois do primeiro golo. Não gostei muito de ver o pessoal do Newcastle, lá do outro lado, a gritar mais do que “nós” na primeira parte.
Depois do jogo, e de andar bem até à estação de metro (mais de meia hora para lá e mais de meia hora para cá) fiz nova tentativa de rumar a Bricklane para encontrar a Rough Trade East aberta. Para a posteridade, fica apenas a foto da entrada.



Vencida, a única solução foi ir até aos armazéns Selfridges, na Oxford St, agora que os primeiros dias de saldos já tinham passado. A derrota num dia quase perfeito.

Hinduismo, Parques e Livros

Hoje, segunda-feira seguinte ao Boxing Day, já havia metro. Pus-me, então, a caminho do noroeste londrino, lá para os lados de Wembley, com vista mesmo para o anel do estádio, e cheguei num pulinho a uma outra Londres.
Em Brent, escondido num bairro residencial junto a uma auto-estrada fica o maior templo hindu fora da Índia.
O Shri Swaminarayan Mandir é surpreendente pela alvura do mármore da construção e pela estética delicada no meio da paisagem escura dos arredores de Londres.



Somos lá bem recebidos, calçado deixado à porta, museu com a história do hinduísmo, templo com cerimónia de cerca de oito minutos com homens à frente e mulheres atrás e, no fim, átrio com loja de recordações para turista ver. Mas não há turista por ali, ou pelo menos não havia naquele dia junto às festas do Natal.
De volta para o metro, em direcção a Hampstead Heath, uma outra surpresa: afinal parece que ainda não estavam todas as linhas do metro a funcionar. O autocarro substituiu o trajecto por cima da terra. Apesar do tempo que demorou a chegar, fiquei contente em conhecer lugares a que de outra forma não teria ido.



Em Hampstead Heath não perdi muito tempo, infelizmente. O gelo que cobria o parque meteu-me em sentido e o medo de escorregar fez com que não entrasse mais do que uns poucos metros até chegar a um lago quase totalmente congelado.



Já por estrada segura, andei uns quantos quilómetros até chegar a uma estação de metro aberta e rumei até Primrose Hill. Aqui não me lembrava de alguma vez ter estado, mas já tinha ouvido falar da sua vista. Sorte, o tempo aberto, de céu limpo para os padrões londrinos, deixava identificar vários edifícios ícones da cidade, como a catedral de São Paulo, e outros que são também já um must, como o Pepino de Foster e o Eye.
Desci por ali abaixo até vir ter ao fim (inicio?) do Regent´s Park já com o dia a cair.



Daqui em diante o dia seria dedicado às livrarias. Às primeiras livrarias, para ser mais precisa. Primeiro a Daunt Books, ali perto na Marylebone, bem acolhedora, com uns quantos pisos com todos os livros divididos não por temas mas por país. Depois gostaria de ter visitado a British Library, e aqui, logo ao segundo dia completo em Londres, comecei a irritar-me seriamente. Mais um para a colecção dos fechados.
Não tive outra solução se não a de caminhar um pouco e descer Bloomsbury afora, passando pela Russell Square com o seu hotel que mais parece tirado de um jogo da Lego. Até chegar à livraria Gosh!, perto do British Museum, e me perder com os livros de BD. Ainda sobrou um tempo para dar com as portas fechadas de mais duas livrarias que trazia apontadas.
Mas o que vale é que Convent Garden é animada a qualquer hora, ainda mais se apesar de a noite ter caído ainda não são 6 horas, certo? O melhor é rever a minha ideia de Londres, cidade cosmopolita e aberta ao mundo.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Boxing Day



Seguindo à risca o cumprimento do meu plano londrino – andar a pé – tive logo no dia 26 de Dezembro, o Boxing Day, uma providencial ajuda: o metro em greve. Esperei, esperamos todos, então, pelo autocarro londrino que me levaria de Earl´s Court até Oxford Street. Depois dai logo se veria, mas uma coisa era certa: tentar entrar nas lojas no primeiro dia de saldos estava fora de questão – faltei aos treinos de preparação defensiva, ou ofensiva, sei lá, para compras. Só a bicha afugentava.
A ideia era chegar a Spitalfields para o mercado de mesmo nome e para o de Bricklane. Consegui outro autocarro para Liverpool Street e livrei-me de andar um pedaço. A partir daqui a minha sina conta-se de forma breve:
Mercados não havia: era o boxing day;
Loja de música Rough Trade East fechada, era o boxing day;
Pessoas na rua nem vê-las, poupo-me a dizer porquê.
Solução? Ir a pé até Canary Wharf, como tinha pensado num momento de menor sanidade mental.
E o certo é que é bem possível e agradável. Da Tower Bridge Tamisa adentro no sentido contrário à civilização aparece-nos pela vista e sentidos surpresa atrás de surpresa. Começa logo com um bairro de casas recentes com uma marina no centro, e respectivos barcões, bem ao lado da Tower Bridge, mas que passa bastante discreto. Um pouco mais à frente, depois de andar às voltas, vou ter a uma zona chamada muito apropriadamente Spirit Quay, transportando-me directamente para Veneza.



A partir dai estava um pouco perdida e o objectivo era ter o Tamisa mesmo à minha direita. Lá consegui e descobri que existe o “Thames Path”, especialmente ideal para ser aproveitado em dias tão pouco londrinos como este domingo: de céu limpo e soalheiro aqui e ali. Olhando para trás já não via a Tower Bridge, nem qualquer outro símbolo que identificasse Londres; para a frente só se via imponente Canary Wharf e as suas torres, já também parte da paisagem de uma outra Londres.





Mesmo assim, que bom era ir vendo amiúde o Pepino (parece que se vê de qualquer lado de Londres, e ainda bem – conferir em futuro post), a mostrar que não estava assim tão longe.
A chegada a Canary Wharf fez-me lembrar que não tinha nada a fazer ali se não apenas alcança-la a pé. Depois de uma curta inspecção pelo local – do qual gosto, muito – voltei. De autocarro, desta vez.
Até Barbican. E, adivinhem? O centro de exposições estava fechado. Pois, boxing day. Também já estava conformada e dei a volta a esta imensa cidade dentro da cidade. Não dei por mal empregue o tempo e, apesar de não me ter cruzado com ninguém na rua neste percurso todo, gostei.



De Barbican era um pulinho até Convent Garden, onde tudo acontece e onde haveria vida, certamente. Uhm… Vida, vida, só encontrei nos autocarros cheios para voltar para a minha nova casa. Em Marble Arch, até onde andei para passar o tempo, só consegui apanhar o quarto 74 que passou.
Até que cheguei fresquinha e, olhando para o mapa vejo que podia ter andado mais uns metrinhos e atravessado o rio a nadar e… estava em Greenwich. Aquela que antes me parecia tão distante.

domingo, janeiro 09, 2011

Sempre Londres

O meu objectivo nesta minha enésima vinda a Londres era conhecer Londres.
Quer, então, dizer que apesar deste sem número de vezes que já tinha ido à capital inglesa ainda não a conhecia? Exacto. Sem olhar para um mapa físico, tentando buscar o mapa da cidade na minha cabeça era incapaz de ir do Parlamento a Piccadilly. Bem, também não exageremos. O certo é que queria andar a pé pelas suas ruas, não debaixo da terra para ir de um lado para o outro, queria andar pelos seus bairros suburbanos, onde moram aqueles que fazem de Londres a cidade mais cosmopolita do mundo, queria sair e ir até Oxford, Cambridge, Surrey, Bath. Queria tudo. Em sete dias. Não fiz muito a não ser ver umas quantas coisas e chegar ao penúltimo dia e cair para o lado. Literalmente. A sorte é que o lado foi mesmo a cama do quarto do meu hotel.

2010-2011

Qual a cidade que escolhi para passar o ano de 2010 para 2011?
Ei-la…







Não deu para descobrir?
Nem olhando bem para a roda gigante do Eye? Nem olhando para os patos a fugir do fogo de artificio no laguinho do St James Park?
E então assim?

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Pousada Flor da Rosa - Crato



Já estamos em 2011 e esta já se passou há quase 6 meses, mas ainda vai (sempre) a tempo de ser incluída no nosso blogue.
Fim de Agosto, mais de 40 graus em qualquer sombra do país, porque não uma escapada de 4 dias até ao interior do Alentejo, longe da praia?
Loucura, claro. Mas se o objectivo era descanso, porque não escolher um convento para relaxar, com vista para a planície alentejana?



A Pousada Flor da Rosa, no Crato, com intervenção moderna de Manuel Graça Dias, fica num castelo / mosteiro cheio de história que já vem do século XIV.
Já pertenceu à Ordem do Hospital e à Ordem de Malta, por aqui passaram cavaleiros e o seu fundador foi ninguém menos do que D. Álvaro Gonçalves Pereira (que tem o seu túmulo na igreja), primeiro prior do Crato e pai de D. Nuno Álvares Pereira.





Encontram-se aqui elementos góticos, o seu claustro é lindíssimo, a torre do Castelo dá-nos uma visão da pacatez da aldeia de Flor da Rosa, com as suas casas alvas com friso amarelo torrado. O mosteiro, que é monumento nacional, foi sofrendo alterações ao longo da sua história até que em nos anos 1990 se iniciaram os trabalhos para a sua reconversão em Pousada de Portugal. Muitíssimo bem conseguida, há que referi-lo.
Temos, assim, os quartos que se situam numa das alas originais do mosteiro, com mais charme, com as paredes em pedra e as camas com dossel, e os quartos mais modernos, numa ala especificamente criada para o efeito.





Os espaços comuns são monumentais, mas confortáveis. A sala do bar e do restaurante são francamente bonitas, mas os seus pratos desta última não a acompanham. A piscina, bom, em Agosto nem a piscina nos salva; mas salva-nos a sua imagem, quer de dia, rectângulo azul junto à imponência do castelo, quer de noite, com os focos de luz a iluminarem o castelo no profundo Alentejo.
Falta referir que este sitio não é só para quem pode. A igreja, os claustros e o castelo estão abertos ao público.

domingo, novembro 21, 2010

Café Saudade

Depois de um passeio por Sintra, neste caso, a Monserrate descobrimos um espaço para se estar e saborear.
Junto à estação de comboios, na Av. Miguel Bombarda, aproveitando a pré-existência de uma das mais antigas fábricas de queijadas da vila surgiu o Café Saudade.



Este espaço para além de uma sala de chá, onde se come uns scones maravilhosos acompanhados de um chá ou de um chocolate quente, entre outras iguarias, procura igualmente ser um espaço cultural, onde é dado um ênfase especial às artes e aos ofícios tradicionais portugueses. Isso está expresso desde a recuperação dos interiores, aos elementos decorativos, assim como às peças em exposição para venda.
Enfim, é um espaço bonito e acolhedor, onde apetece ficar sem horas.

quarta-feira, novembro 17, 2010

Pérola à beira do Atlântico

Desde que comecei a ir para Sagres, já lá vão mais de 10 anos, esta vila do sudoeste algarvio mudou muito.
Os encantos naturais múltiplos, compostos por uma fantástica paisagem ainda selvagem, mantém-se. Porém, ainda que longe da alta densidade por grão de areia de outras paragens algarvias, já é evidente algum congestionamento no período estival. Pelo menos aos olhos de quem vivenciou tempos idos.
Nessa altura a oferta hoteleira era mais diminuta e menos qualificada que actualmente. Com excepção da Pousada de Portugal D. Infante, a oferta hoteleira era feita, essencialmente, por unidades obsoletas e por habitações particulares. Uma dessas unidades, mais que datadas, era o Hotel Baleeira, uma unidade dos anos 60 do século passado.
Depois de alguns anos em que esteve fechado, este hotel foi renovado no final da primeira década do novo milénio. O novo projecto manteve a cor branca e as linhas originais, assim como aproveitou ao máximo as vistas fantásticas sobre o oceano.
O resultado não podia ser melhor, com o reconhecido através de diversos prémios, como o de melhor renovação de hotel entregue, em 2009, pelo Turismo de Portugal.
Por tudo, vale a pena passar, nem que seja, uma noite e usufruir do seu interior elegante e cheio de design, onde o tom branco, castanho e azul água predominam.



E ter a possibilidade de iniciar o dia desta forma.


Assim como usufruir do espaço exterior, onde a paisagem deslumbrante, a luz natural e a tranquilidade da piscina têm a capacidade de nos revigorar.


Se não forem argumentos suficientes, o spa, a piscina interior aquecida e o plateau de massagem terão certamente essa capacidade.

Agora que Chegaram os Dias Frios Resta a Saudade

Agora que chegaram os dias frios e o Verão está cada vez mais lá trás, vêm à memória, com saudade, os bons momentos, em que os dias são longos e o sossego impera. Em que o dia é passado entre mergulhos, leitura, boa conversa e a absorver esta paisagem linda e plácida.


sábado, setembro 25, 2010

Vinhos do Alentejo em Lisboa

Ontem e hoje (24 e 25 de Setembro) decorre na Lx Factory, Lisboa, um evento que reúne diversos produtores de vinhos alentejanos.
Esta iniciativa pretende dar a conhecer um dos produtos de maior valia desta região do país.
Para além das provas dos vinhos, há conversas, comentadas por conceituados produtores, enólogos e especialistas, sobre os mesmos.


Dos vinhos que provámos destacamos, dos correntes, o Tapada do Barão (Granadeiro), um Tinto de 2008, muito agradável, frutado e fácil e o Monte Maior Tinto, da Adega Mayor, um vinho macio.
De um nível superior destaca-se o Quinta do Carmo Reserva Tinto, do grupo Bacalhôa Vinhos de Portugal, e o Paço do Conde Reserva Tinto.

sábado, setembro 18, 2010

Convento de Cristo

De manhã fui participar no 8.º Challenge de Águas Abertas na Aldeia do Mato, Castelo de Bode, e à tarde guardei ainda algumas energias e, já que estava por perto, não pude deixar de ir fazer uma visita ao Convento de Cristo, em Tomar. Aliar o desporto à cultura, parece-me não haver programa muito melhor.



O Castelo, Convento e Igreja, aos quais junto o Aqueduto, são elementos fantásticos do nosso património arquitectónico e monumental.
O Castelo dos Templários, ainda que não tão pitoresco como o de Almourol, é de uma importância e beleza inquestionáveis. A sua construção iniciou-se em 1160, no alto do monte que domina Tomar, e a sua geografia baseou-se no modelo da cidade de Jerusalém, onde nasceram os Templários.





Mas o deslumbre surge com a Charola do Convento de Cristo, parte integrante da Igreja Manuelina (ainda que esta tenha sido construída depois), restaurada e reaberta às visitas não há muitos anos. É uma estrutura cilíndrica, cuja construção por fases, ou por acrescentos, se iniciou em 1190, e possui uma farta decoração iconográfica, com esculturas e pinturas, onde abundam os tons dourados. Lindíssima.





Outro momento de deslumbre, esse parte do nosso imaginário de figuras que caracterizam o nosso património artístico é a janela manuelina situada na fachada ocidental da Igreja, com o mítico velhote de barbas na parte inferior e a coroa com o escudo português encimada pela Cruz de Cristo na parte superior. Pelo meio um intrincado trabalho pleno de pormenores.



O Convento, em si, traz-nos mais pormenores deliciosos, como a escada que serpenteia para além do último andar, e os pátios acolhedores vão-se sucedendo. Para ser mais precisa, claustros: o Maior, o da Hospedaria, o dos Corvos, o da Micha e o de Santa Bárbara. Passamos pelo refeitório e cozinha, pelas salas do noviciado ou salas das cortes e o espanto não cessa.









Cá fora, junto à Horta dos Frades, vemos uns grandes arcos de um aqueduto que liga ao Convento e por onde outrora lhe levava a água. Estamos ainda longe de imaginar o quão monumentais se tornarão quando, por cerca de 7 km caminho de Carregueiros, passam pelo vale da Felpinheira (com 12 arcos que chegam aos 15 metros) e, principalmente, pelo vale de Pegões (com 58 arcos gigantes que dobram a altura anterior). Talvez por viver em Lisboa e passar frequentemente pelo vale de Alcântara e com a arrogância dos lisboetas me ter habituado a pensar que não haveria outro que sequer chegasse aos calcanhares da monumentalidade do Aqueduto das Águas Livres, a surpresa que esta obra de engenharia civil do século XVI (anterior ao das Águas Livres, portanto) produz é absolutamente encantatória. A tal ponto que não hesito em colocá-la no mesmo plano que o Castelo, Convento e Igreja, como o fiz no início deste texto.